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Espero que retornes
sempre a este espaço feito para você.
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J O G O
O único jogo que me agrada é aquele que acontece quando trago para a tela do computador uma poesia que já escrevi. E fico jogando com as palavras e o sentido delas.
Passo a noite toda mexendo com elas, jogando com elas, acariciando-as, lambendo-lhes as partes mais íntimas, amando-as.
Mudo-lhes o sentido, dou-lhes forma nova, pinto-as de azul. Empobreço rimas em benefício do amor, coloco consoantes de apoio, quebro a estrutura da frase, abandono as regras antigas, invento outras mais gostosas, escrevo, escrevo, escrevo, sinto, sinto, sinto. Se por acaso vou ganhando, vibro e quero sempre ganhar mais.
E se perco, a cada jogada sublime que faço, maior é o meu ânimo para jogar de novo, recuperar aquilo que perdi. De qualquer forma, passo a noite toda jogando, em todos os sentidos.
Vem a madrugada e já começo a brilhar, metáfora de lux. Então, exaustos de tanto amor, os dois nos vencemos: o poema ganhou de mim, e eu com certeza o venci.
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E
N T R E L A C O S
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Terça-feira, Fevereiro 09, 2010
Posted
7:07 AM by Cassiano Leonel Drum
09 de fevereiro de 2010 | N° 16241
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA
Uma praça, uma ponte
Imaginem uma imensa pétala de altos chafarizes, iluminada por uma coleção de holofotes multicoloridos, tudo embalado por uma sintônica sinfonia de músicas clássicas.
Essa era apenas uma das atrações da Praça José Bonifácio, no coração pulsante de Cachoeira. Alinhada à Rua Sete de Setembro, ela vizinhava ainda com algumas das principais lojas da cidade, abrigava o Bar América, que era um restaurante imbatível no seu gênero, um estádio de esportes, um parque infantil, ruas e escadarias internas e, em tempos mais recuados, até o centenário Mercado Municipal, assassinado, como acaba de ser também, a Ponte de Pedra.
O Cine-Teatro Coliseu ficava a 20 metros, o Clube Comercial uns palmos além, na mesma calçada do Banco da Província.
A praça era o centro de Cachoeira e, nas noites de verão, a passarela por onde desfilavam as mais belas garotas do Estado. Não estou exagerando. Já contei em idas crônicas que nenhuma outra cidade gaúcha ostentava mais sedutora seleção de beldades. Ali nasciam namoros, noivados e um rol de casamentos. Ali os olhos se olhavam nos olhos – e era como se fosse uma declaração de amor.
Recordo de uma noite em que sentei, no passeio dos bancos mais afastados, ao lado de uma menina lindíssima. Enquanto avançavam os ponteiros do relógio do pedestal que ficava no meio da quadra, trocamos juras e confidências que, traduzidas, eram pura ternura.
Essas coisas a gente não esquece. Essas coisas permanecem contigo por toda a vida. Sinto agora, neste momento em que escrevo, a textura de suas mãos, a maciez de seus lábios.
Lembro de um entardecer, como depois nunca vi outro. Os céus de Cachoeira, contemplados ali da praça central, eram uma suave mistura de nuvens azul-claras e rosadas. A garota sentada junto a mim era loira e seus cabelos longos dançavam com a brisa que vinha do poente. Nós nos prometemos um ao outro o paraíso, nós nos juramos paixão eterna, mas depois os caminhos da vida nos separaram. Conservo até hoje, tantos anos passados, o exato timbre de sua voz, o preciso matiz celeste de seus olhos.
Aquela praça mora dentro de mim, não do jeito que é hoje, mas com as formas que teve.
É bem como a Ponte de Pedra, que eu prefiro chamar de a Ponte do Imperador, pois que em homenagem deste foi erguida no ano de 1849.
Mas nada reconstrói uma ponte – ou revive uma igreja, um romance – sem que se lance um olhar aos muitos passados de que somos feitos.
Uma linda terça-feira para você. Aproveite o dia
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7:04 AM by Cassiano Leonel Drum
09 de fevereiro de 2010 | N° 16241
CLÁUDIO MORENO
Nós, as formigas
Durante muito tempo o homem pensou que era o centro do universo. Para os antigos, que viviam nessa confortável ilusão, o firmamento estrelado cobria nosso mundo como um manto protetor, e o Sol era um grande astro domesticado que vinha todos os dias nos banhar de vida e de luz.
Em Roma, Plínio apenas lastima que nosso ouvido terreno não consiga captar a música que os planetas produzem ao se mover nas alturas; daqui de baixo, diz ele, o mundo desliza em silêncio, tanto de noite quanto de dia.
O avanço da ciência, contudo, veio abalar essa falsa sensação de importância. Primeiro, foi Copérnico, a nos ensinar que o universo não tem centro, e que a nossa Terra é apenas um entre os vários planetas que giram em torno do Sol, que é uma entre os 200 bilhões de outras estrelas da Via Láctea, que é uma entre os cem bilhões de outras galáxias que cintilam no universo... Segundo Freud, esse foi o primeiro dos três grandes golpes que a ciência infligiu em nosso narcisismo.
Se éramos um nada diante do cosmos, restava ao menos o consolo de ser os reis da criação, muito superiores aos demais seres vivos; atribuímos a nós mesmos uma alma imortal, proclamamos nossa descendência divina e cavamos um abismo entre nossa natureza e a deles.
Coube a Darwin desfazer essa ilusão: biologicamente, somos como os outros animais, mais próximos de algumas espécies, mais distantes de outras – nada mais do que isso. Era o segundo abalo, mas não o derradeiro. Este veio com Freud, ao descobrir que não somos senhores nem mesmo em nossa própria casa, pois é o inconsciente, e não a razão, quem comanda grande parte de nossa vida mental.
Tendo perdido, desta forma, o cetro, o trono e a coroa, muitos aprenderam a lição e ficaram intelectualmente mais humildes, dispostos a repensar os limites da condição humana. Outros, porém, movidos por esta inconsciente vaidade da espécie, encontraram uma nova maneira de preservar a velha ilusão de importância, atribuindo-se o poder apocalíptico de influir, como uma divindade maligna, no próprio clima do planeta! Mas é muita pretensão desta formiga pensante!
A ação humana pode tornar o meio-ambiente insuportável para nós, poluir o ar, sujar a água e ameaçar outras espécies – em outras palavras, a ação do homem pode vir a ser fatal para o próprio homem. O planeta, no entanto, não sofre sequer um arranhão com esses despropósitos; ele esfria ou esquenta quando o Sol quer, ou o oceano, ou os vulcões – como vem acontecendo há bilhões de anos.
A natureza já era imensuravelmente velha quando chegamos aqui; ela não sabia que viríamos, nem saberá quando formos embora – e nem vai se importar se isso um dia acontecer. Indiferente, a Terra vai seguir seu curso silencioso pelo espaço infinito.
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7:01 AM by Cassiano Leonel Drum
09 de fevereiro de 2010 | N° 16241
PAULO SANT’ANA
Dois palanques
O prefeito José Fogaça está literalmente numa camisa de força: se, como candidato ao Piratini, vier a apoiar a candidatura de Dilma Rousseff à presidência da República, seguindo orientação nacional do seu partido, o PMDB, teremos um extravagante quadro eleitoral no Rio Grande do Sul.
Dilma Rousseff teria de subir no palanque de Fogaça, dar uma voltinha na praça e ir ali adiante e subir também no palanque de Tarso Genro, outro candidato ao governo do Estado.
Será que alguma vez isso já aconteceu na política gaúcha? Acho que não. Essa teia de acordos regionais e nacionais serve para deixar destrambelhada a compreensão do eleitorado.
Duas coisas parecem certas: o PMDB nacional vai apoiar a candidatura de Dilma, tanto que o presidente do partido, Michel Temer, diz que a unidade na sigla está em torno de 93%.
E o PDT apoiará Fogaça aqui no Sul, o mesmo PDT também inclinado a apoiar Dilma no plano nacional.
Fogaça teria então força moral para não seguir os dois maiores partidos que patrocinam sua candidatura? Como poderia tirar da cartola, numa prestidigitação inexplicável, o seu apoio a José Serra, candidato cuja aliança partidária nada tem a ver com a candidatura dele, Fogaça?
Se por um lado essa pressão desfavorece Fogaça, por outro o apoio dele a Dilma deixará a candidata do PT atrapalhada: como ela irá fazer para subir ao mesmo tempo nos palanques de Tarso Genro e de Fogaça aqui no Sul?
Eticamente, Dilma e Lula teriam de ficar neutros na campanha ao governo do Estado, deixando Tarso Genro abandonado à própria sorte.
Caso contrário, assistiríamos a um espetáculo surrealista: Dilma subindo aqui no RS nos dois palanques, algo que soaria inexplicável para o eleitorado.
Está assim o xadrez político para as eleições de outubro: de um lado, o trator da aliança entre os partidos que apoiam Lula amassando seus adversários e confundindo e emperrando as alianças regionais; de outro, a surpreendente reviravolta na sucessão nacional, com a discrição estratégica de Serra em lançar a sua candidatura e Dilma assumindo uma visibilidade impressionante, hoje ela já é perante o eleitorado mais candidata do que Serra no plano do marketing eleitoral.
Claro que isso se deve a um Serra afogado nas enchentes de São Paulo, quadro de tragédias climáticas que inibe o governador a botar o seu bloco na rua.
Resta só saber se será bipolarizado o quadro sucessório gaúcho ou a governadora Yeda Crusius terá força para ambivaler-se a Fogaça e Tarso no espectro da preferência dos gaúchos.
Aparentemente, Lula conseguirá atrair sua popularidade para a transferência do prestígio dele para Dilma.
O presidente tem dado as cartas e jogado de mão na condução da campanha sucessória, dado o desaparecimento do PSDB da ribalta da eleição, vazio este que chega a ponto de transformar o ex-presidente Fernando Henrique em maior e único ás oposicionista, com tímidos e não abrangentes artigos nos jornais mais importantes.
Chama a atenção, em favor de Lula e de Dilma, a letargia dos tucanos, nem parece que estão decidindo a partilha do poder e sob o risco, para eles, de o PT governar o país durante 16 anos consecutivos.
Em segunda edição, já está distribuído nas livrarias o livro O Sentimento de Culpa, de autoria de Paulo Sergio Guedes e Julio Cesar Walz.
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6:58 AM by Cassiano Leonel Drum
09 de fevereiro de 2010 | N° 16241
MOACYR SCLIAR
O exemplo de Mandela
As primeiras cenas do filme Invictus, de Clint Eastwood, mostram o carro de Nelson Mandela, recém saído da prisão (por coincidência, há exatos 20 anos; e, outra simbólica coincidência, ele fora preso em 1964), passando entre dois campos de esporte.
No primeiro, precário, disputa-se uma partida de futebol, no outro, em frente, e em muito melhor condição, dois times jogam rúgbi, esporte nacional da África do Sul. Num dos campos, os jogadores são negros, no outro, brancos. Em que esporte predominavam os negros, em que esporte predominavam os brancos?
Para responder à pergunta é só olhar o Brasil. Aqui, nosso esporte é o futebol, que pode ser disputado em qualquer terreno baldio sem grande equipamento. Um esporte para pobres, para negros, portanto. Já o rúgbi também não exige grandes equipamentos, mas é um jogo brutal, em que o choque corporal é decisivo. Esporte para gente corpulenta, bem nutrida. No caso da África do Sul do apartheid, um jogo de brancos.
E aí Mandela é eleito presidente. Tratava-se de um líder perseguido, que havia passado quase três décadas na prisão, e que assumia o governo de um país em que boa parte da população negra mostrava-se ressentida contra a minoria branca. Podemos imaginar (e o filme mostra isso) o que os partidários de Mandela lhe diziam: vamos fazer essa gente provar do seu próprio veneno, vamos castigá-los pelo que nos fizeram.
Mandela poderia, até como vingança pessoal, ter aceito este posicionamento. Mas não foi o que fez. Decidiu que faria um governo de união, um governo capaz de superar todos os traumas e as violências do passado. E usou para isso um recurso aparentemente inesperado, mas lógico: o esporte.
Lógico porque, como sabe quem conhece a história recente do Brasil, vários governos (exemplo: Médici) se beneficiaram da conquista da Copa do Mundo. Mandela vai procurar o capitão do time nacional de rúgbi e faz com ele uma espécie de aliança, arriscada (o time sul-africano era um desastre), mas que resulta na inesperada conquista do campeonato mundial.
Notem que Mandela aí estabeleceu um modelo. Não é o modelo seguido por Chávez, por exemplo, como mostram os conflitos na Venezuela, mas é o modelo adotado por Lula. Aliás, os dois têm muito em comum.
Ambos vieram de camadas marginalizadas da população, ambos desafiaram governos e pagaram um preço por isso, no caso de Mandela, obviamente, bem mais elevado, e ambos optaram por governar para toda a população.
Mandela enfrentou uma tarefa muito mais difícil, porque ele assumiu logo depois da queda do regime racista, e, além disso, a África do Sul tem conflitos étnicos que não são pequenos, além de uma tremenda pobreza, em muitos aspectos pior que a do Brasil. Lula foi precedido pelo governo de FH, que lançou as bases de uma política econômica e social muito mais razoável.
O filme de Clint Eastwood não chega a ser uma obra-prima, mas cumpre uma função didática. Ele nos faz pensar sobre os problemas que enfrenta um governante, sobre a necessidade de colocar o bem-estar geral acima de eventuais divisões, por mais arraigadas que sejam. Mandela ganhou o seu campeonato, Lula de certa forma também: tem níveis de popularidade nunca antes vistos na história deste país. O rúgbi ensina bastante. O futebol, idem.
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Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010
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6:45 AM by Cassiano Leonel Drum
08 de fevereiro de 2010 | N° 16240
KLEDIR RAMIL
Autobiografia – Os primeiros passos
Quando meu pai começou a insistir com a ideia de que já estava na hora de eu andar com minhas próprias pernas, contra-argumentei: “O importante não é aprender a caminhar, mas saber aonde ir”. Eu era uma criança com sobrepeso, haviam me dado comida em demasia.
Com um pouco mais de agilidade corporal, talvez eu tivesse me movimentado mais cedo. De qualquer forma, eu já estava com três anos de idade, tinha que começar a me mexer. Levantei e saí caminhando. Como não sabia em que direção ir, continuo até hoje andando a esmo. O que confirma minha intuição de que aquela atitude era precipitada.
Meus primeiros passos foram em direção à geladeira. Abri a porta e peguei uma garrafa de 3 Fazendas. Voltaram os rumores de que tratava-se de uma criança especial, mas minha mãe deu de ombros e resmungou que aquilo só demonstrava que teríamos mais um alcoólatra na família. Apesar de todos os indícios, não me agarrei à bebida. Foi um vício fácil de largar. Depois de dois comas alcoólicos em hospitais públicos, virei abstêmio.
Meus segundos passos foram em direção a uma vizinha, que no esplendor dos seus quatro anos de idade, entortou meu coração e com ele todos os meus conceitos de afetividade. Me agarrei com tamanha força à cintura da guria que foi preciso chamar o Corpo de Bombeiros para separar. Com a ajuda da Brigada Militar e um balde de água fria.
Meus terceiros passos foram em direção ao rock and roll. Essa pelo menos foi a avaliação do psicólogo, depois de assistir à coreografia que eu insistia em apresentar todas as manhãs, durante as aulas do pré-primário.
Baseado nesse trinômio “sexo, drogas e rock and roll”, comecei a construir os alicerces daquilo que seria a minha existência, se é que se pode chamar assim.
Atravessei os anos com uma certa dignidade, sempre tendo em mente a imagem daquela vizinha estonteante, o movimento correto dos quadris de Elvis Presley e os efeitos alucinógenos do consumo de bebidas destiladas.
Se com esses parâmetros foi possível construir um sujeito com curso superior completo, imagine do que um ser humano é capaz, se partir de bases sólidas. Pensando sobre isso, resolvi parar e começar tudo de novo. Foi quando começou a fase que eu chamo de Renascimento.
Ainda que com chuva uma linda segunda-feira e uma gostosa semana.
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6:42 AM by Cassiano Leonel Drum
08 de fevereiro de 2010 | N° 16240
PAULO SANT’ANA
O avanço do crack
Não é só em Maceió que há as imagens de santos despedaçadas num altar da Escola Benício Dantas, nem é só lá que há essa escola invadida várias vezes e com salas, pavilhões, corredores e banheiros destruídos.
Há registros de tiroteios na escola, o ginásio de esportes virou uma cracolândia e os alunos fumam maconha na sala de aula.
Não é só lá que dados do Ministério Público Estadual indicam que 30% dos alunos das escolas da rede pública, entre 10 e 20 anos, estão envolvidos com o tráfico ou viraram viciados.
Os dados oficiais mais recentes revelam, segundo o jornal O Globo afirmou ontem, que essa tragédia se repete em outras cidades e capitais brasileiras.
Ora, se a droga se dissemina entre os órgãos de ensino, que deveriam ser a última cidadela contra os vícios e contra o crime, imaginem como está o resto do tecido social brasileiro.
Em todo o país, os serviços de atendimento a dependentes químicos veem cada vez mais aumentar a procura de viciados por um tratamento.
Se, em 2002, 200 quilos de crack foram apreendidos, já em 2007 houve a apreensão de 578 quilos da droga no Brasil, revelando que há um aumento expressivo da circulação do crack no território nacional.
Em março de 2007, publica um estudo carioca, só 15% de entrevistados de uma pesquisa usavam o crack. Em junho de 2008 esse percentual subiu para 25%.
Em Salvador, em 2006, só 26% dos novos usuários de drogas atendidos pelos serviços sociais eram consumidores de crack. O número subiu para 37,8% em 2008.
Uma pesquisa de amostra realizada com pacientes internados por dependência química em Porto Alegre revelou que 43% dos que estavam ali era por conta do crack.
Isso se deu porque os drogados que injetavam cocaína em seus corpos, em face do HIV, fugiram daquela prática e se transferiram para o crack.
O professor Félix Henrique Kessler, da UFRGS é taxativo:
– Quase todos os usuários de cocaína injetável migraram para o crack.
A população de rua da cidade de São Paulo é estimada em 11 mil pessoas, a maioria vivendo sob viadutos e nas ruas do centro. A prefeitura calcula que 25% deles sejam dependentes químicos.
Uma médica paulista que trata do problema faz uma revelação interessante:
– O crack é muito usado, mas o maior problema desses moradores é o álcool. O álcool funciona como uma porta de entrada para as outras drogas.
Notem aí os leitores desta coluna que a droga-base para o espalhamento de viciados é o álcool, uma droga lícita e propagandeada livremente, tanto que, para surpresa geral, o treinador Dunga, da Seleção Brasileira, aparece na televisão num comercial de cerveja.
Com tal capacidade de mercado entre os marginais, maior ainda entre as pessoas bem situadas economicamente, como não atrair para o abastecimento e comércio de drogas os traficantes?
Traficante só existe porque tem para quem vender a droga.
E, quando surgem os traficantes, emerge entre eles o crime e as mortes se sucedem no seu meio como também com usuários que se jogam a assaltos e assassinatos até mesmo contra crianças, como aconteceu com diversas na semana que passou aqui no RS, com crueldade ímpar.
O caminho é só um: campanhas contra o uso de drogas.
Mas e o álcool?
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6:39 AM by Cassiano Leonel Drum
08 de fevereiro de 2010 | N° 16240
L. F. VERISSIMO
Minúcias
É bom que coisas como aborto e casamento gay estejam sendo discutidas mais abertamente no Brasil. Porque são questões importantes em qualquer lugar mas também porque ampliam o debate político. Minúcias de relacionamento humano e direitos individuais como estas crescem e se transformam em matéria política quando as questões básicas da política – estabilidade institucional, partidos representativos, democracia rotineira – estão resolvidas, ou não afligem mais tanto.
Poder ocupar-se de Minúcias é sinal de um corpo político saudável, com tempo para pensar no outrora impensável. Ou, diria um opositor das novas discussões, para pensar em bobagem.
As controvérsias sobre aborto e casamento gay expandem o debate político mas não transcendem velhas diferenças entre esquerda e direita, na medida em que uma representa o pensamento “progressista” e a outra o conservadorismo religioso e laico – e suas respectivas contradições.
Para a esquerda, a questão da descriminalização do aborto se resume no direito da mulher de reger seu próprio corpo sem arriscar sua vida em intervenções clandestinas, como as que existem hoje sem qualquer controle. Para a direita, ninguém tem o direito de interromper uma vida, que começa na concepção.
A posição da esquerda não é muito coerente com sua valorização do social sobre o individual. E conservadores raramente invocam o mesmo argumento usado para poupar um feto, a de que a vida é um dom sagrado, para poupar um condenado à morte. E nos dois casos, na proibição da mulher de dispor do seu ventre como quiser e na execução do condenado, defendem o que normalmente abominam: uma intromissão radical do Estado na vida das pessoas.
Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, é surpreendente que esquerda e direita não se encontrem, em algum ponto. A posição progressista é de tolerância com a opção sexual de cada um, a dos conservadores é de condenar o homossexualismo e tudo que o legitime.
Mas, assim como um lado não pode deixar de achar careta mas inspiradora a vontade de casar dos gays, com todos os paramentos e as bênçãos tradicionais, o outro lado não pode deixar de admirar esta compulsão pela respeitabilidade. O matrimônio é um sacramento em declínio. Os gays podem recuperá-lo. Quem pode ser contra?
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Domingo, Fevereiro 07, 2010
Posted
9:32 AM by Cassiano Leonel Drum
FERREIRA GULLAR
Carta tardia a um poeta arredio
Saquear a estátua de Carlos Drummond de Andrade é coisa de gente demasiado ignorante
POETA CARLOS Drummond de Andrade, desculpe-me se venho lhe perturbar o sossego, dizendo-lhe coisas que, para você, a esta altura, não têm qualquer importância.
Estarei sendo mesmo impertinente, ao manifestar-lhe, deste modo, minha solidariedade em face do vandalismo com que têm agredido sua estátua, ali, no calçadão da avenida Atlântica. Saquear a estátua de um poeta é coisa de gente demasiado ignorante.
Falo de impertinência minha porque, pelo que sei de você, estou certo de que não aprovaria essa ideia de materializá-lo em bronze como se estivesse sentado num dos bancos da praia a observar os banhistas e as banhistas sob o sol escaldante.
Não que fosse indiferente à beleza das moças exibindo-se nos maiôs sumários que usam. Mas uma coisa é um poeta de carne e osso e outra, muito diferente, um poeta de bronze.
Tenho certeza de que jamais imaginou, ao passear por esse mesmo calçadão, que um dia estaria ali, metalicamente moldado, exposto ao sol e à chuva, à contemplação dos turistas como à solidão das noites intermináveis, quando o bairro inteiro dorme e mal se ouve, distante, o quebrar das ondas na areia.
Já que você, agora, é de bronze, e não me ouve, aproveito para dizer-lhe o que não disse nas raríssimas vezes em que nos encontramos e nas poucas, também, em que falamos, porque a verdade é que, se não sou tão arredio quanto você, sempre me foi difícil procurar as pessoas, muito mais ainda, poetas célebres, como é o seu caso. Já bastava ser célebre para me assustar; pior ainda se, além de célebre, era esquivo como você.
Vi-o, pela primeira vez, ao sair do elevador do "Correio da Manhã", na avenida Gomes Freire, aonde fui com Oliveira Bastos e Décio Victório, certa tarde, em que decidimos escandalizar as pessoas.
Meus dois companheiros tinham as respectivas gravatas presas à cintura, enquanto eu trajava calças, paletó e gravata mas, em lugar de sapatos, calçava tamancos. Você não deve ter se dado conta da provocação, pois mal nos olhou, ao sair do elevador.
Subimos até o andar da Redação e, numa saleta, nos deparamos com Otto Maria Carpeaux que, míope como era, escrevia à mão com a cara grudada no tampo da escrivaninha. Entramos os três e nos pusemos, ali, imitando-o, também com a cara colada na mesa. Ele se assustou e nos lançou um olhar indignado que nos fez deixar a saleta às gargalhadas.
Isso foi em 1955, quando alguns poucos que me conheciam tinham-me por maldito. Eu vagabundava, naquela época, pelas ruas do centro da cidade e às vezes me sentava à porta de um restaurante, ali na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; para contemplar o edifício do hoje Palácio Gustavo Capanema, que parecia flutuar, onde você trabalhava.
E o vi, certa vez, deixar o trabalho, de mãos dadas com uma mocinha, que, soube depois, era sua namorada. A sua cara, porém, nada dizia.
Muitos anos se passaram até que você chegasse aos 70 anos e me convidassem para participar de um programa de televisão em sua homenagem. Escolhi, para dizer, aquele seu poema "Memória", por ser curto e por ser belo:
"As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."
Fiquei todo bobo quando, dias depois, recebi um bilhete seu, agradecendo minha participação na homenagem e elogiando o modo como havia dito o poema. Tenho esse bilhete comigo, até hoje, guardado em alguma gaveta.
A última vez que o vi foi no velório de Vinicius de Moraes, no cemitério São João Batista. A morte, neste caso, serviu para nos aproximar: fui falar com você e, para minha surpresa, em vez do homem tímido e reservado, deparei-me com um sujeito irritado, reclamando da doença que lhe tinha aberto uma ferida no rosto, como me mostrou. Havia, de fato, uma cicatriz que lhe marcava a face direita.
Depois disso, só voltaria a vê-lo naquele mesmo cemitério, desta vez em seu próprio velório. Eu tinha, naquele dia, um compromisso de trabalho em Brasília mas, a caminho do aeroporto, fui, por assim dizer, despedir-me de você.
E, desta vez, quem estava revoltado era eu, revoltado com sua morte, com esse fato inevitável e inaceitável, que é a morte das pessoas que amamos ou admiramos. As declarações, que dei aos jornalistas, naquela ocasião, estavam mais perto do insulto que de outra coisa. A quem eu insultava, na verdade, não sei.
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9:24 AM by Cassiano Leonel Drum
DANUZA LEÃO
Como se tornar uma drag queen
Essa história chega a ser ridícula; a vocação vem do berço e não precisa de professor para ensinar
SOUBE que vai ser inaugurada em Campinas, com o apoio do Ministério da Cultura, a primeira escola gay do Brasil: a Escola Jovem LGTB, para lésbicas, gays, transexuais e bissexuais.
Nela serão dados inúmeros cursos como expressão literária, expressão cênica e expressão artística, além de um inédito, para formar drag-queens. Já começa aí o preconceito: por que não ensinar também a trabalhar com mecânica, carpintaria, eletricidade, ou a consertar um ar-condicionado? Por que existem pessoas que acham que o mundo gay só é capaz -na cabeça deles- de fazer trabalhos "artísticos"?
Cada um, seja bailarino, lutador de box, cabeleireiro ou bombeiro, tem o direito de escolher com quem vai para a cama, se com alguém do mesmo sexo ou de outro. Detalhe: a escola está aberta também aos heterossexuais. Será que eles acham que vai ter fila de héteros querendo estudar lá?
Essa história de dar aulas para ensinar como se tornar uma drag-queen chega a ser ridícula; a vocação vem do berço e não precisa de professor para ensinar. Mesmo nascendo e crescendo numa fazenda no interior do Acre, uma drag, desde sua mais tenra infância, sabe se "montar" como ninguém.
Ela pega um pano, amarra na cintura, de umas frutinhas faz um colar, passa colorau na boca -mais vermelho que os batons de St. Laurent- e na falta de um sapato alto, anda na ponta dos pés; é com ela mesmo, e é preciso ser muito ignorante para pensar que para ser drag é preciso aprender.
Ao que me consta, o objetivo da humanidade é integrar, fazer com que os humanos de qualquer raça, cor ou religião se sintam como na realidade são -iguais. Se os colégios só para meninas ou só para meninos já não eram recomendados, o que dizer de um dirigido preferencialmente ao mundo gay? Então por que não pensar também em colégios só para brancos e outros só para negros?
As cotas nas universidades já são de um preconceito absurdo; o resultado será a segregação, em seu mais alto grau, e me admira que as autoridades hajam permitido essa aberração. O Brasil tem mania de ser moderninho, mas é bom não esquecer Hitler; é assim que começa.
O mundo é cruel, disso já se sabe, e as crianças, ainda mais cruéis que os adultos. Se eles já fazem maldades com o coleguinha que parece "diferente", imagine do que não serão capazes quando crescerem, sabendo que os "diferentes" estão agrupados, juntos, num só colégio. Aliás, desconfie dos homofóbicos: dentro de muitos deles mora um gay ainda adormecido.
Se a moda pega, veremos no futuro anúncios de edifícios e condomínios exclusivamente para gays, separando cada vez mais o que deveria ser integrado. Essa integração só poderá acontecer quando todas as pessoas do mundo -inclusive o mundo gay, que às vezes é bem preconceituoso- aprenderem que não existem diferenças entre os seres humanos, que as preferências sexuais de cada um são pessoais, e não dizem respeito a ninguém.
Por falar nisso, o Exército dos EUA está abrindo as portas para os assumidamente gays poderem servir "à pátria que eles tanto amam", segundo o presidente Obama; como somos atrasados. Ensinar a conviver com a diversidade, isso é que as escolas e o Ministério da Cultura deveriam fazer.
danuza.leao@uol.com.br
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9:21 AM by Cassiano Leonel Drum
CARLOS HEITOR CONY
Flor do asfalto
RIO DE JANEIRO - Uma opinião pessoal, sujeita a chuvas, trovoadas e enchentes como as de São Paulo. Ou piores, porque estanques na memória estagnada do menino que fui sem nunca ter sido realmente um menino.
Acho que o mundo era outro. Ao cair da tarde, acendia-se a primeira lâmpada da casa. Minha madrinha era a primeira a saudar a luz que iluminaria o nosso jantar: "Boa noite!"
E todos se cumprimentavam, como se estivessem chegando de uma jornada que ficara para trás.
Era hora, também, de os vizinhos se saudarem. E os boas-noites se cruzavam de varanda a varanda, passando pelas cercas de buganvílias -que toda casa tinha uma. E nosso vizinho aparecia já de pijama, arrastando os chinelos.
Ia de casa em casa levando o seu boa-noite. Chamava-se Azevedo, Azevedo não sei de quê. Meu pai dizia que Azevedo era maluco, mas boa alma -antigamente havia essa expressão: boa alma. Pois, com sua boa alma, seu pijama e chinelos, Azevedo dava boa-noite a todos e, por mais que pareça improvável, isso fazia nossa noite realmente boa.
Depois, outras luzes eram acesas, o cheiro das buganvílias ficava suspenso no ar até que chegava o cheiro do jantar que estava indo para a mesa. A cabeça da madrinha, muito branca e limpinha, começava a curvar sobre o peito, ela jamais dormiria sem antes ver acesa a primeira luz da casa, sem antes celebrar a cerimônia da paz com a senha de seu boa-noite.
Na casa ao lado, além das buganvílias, Azevedo preparava-se para dormir com seu pijama, seus chinelos e sua boa alma. Um cair de noite com cheiros bons de uma vida que corria sem pressa. A novidade era o rádio que trazia um pouco da perfídia do mundo para a nossa paz: "Deixou-me a flor do asfalto abandonado, nesta ansiedade louca do desejo...".
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Sábado, Fevereiro 06, 2010
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8:08 PM by Cassiano Leonel Drum
07 de fevereiro de 2010 | N° 16239
MARTHA MEDEIROS
Os best-sellers
O fato de um livro vender muito ou pouco não desperta em mim nem curiosidade, nem desprezo
Um leitor me pergunta se a lista de livros mais vendidos influencia minhas escolhas.
Já que é tempo de férias, quando temos mais predisposição para ler, vale a pena amplificar esse assunto. O fato de um livro vender muito ou vender pouco não desperta em mim nem curiosidade, nem desprezo. Não é a lista de mais vendidos que determina as minhas escolhas, e não deveria determinar as escolhas de ninguém.
Um livro pode virar best-seller por haver uma grande fidelização ao autor, independentemente do título que ele esteja lançando. Ou então porque há um filme ou uma série de tevê inspirada no livro e isso alavanca as vendas. Ou porque o investimento em propaganda foi forte. Ou porque o livro traz um tema polêmico. Ou porque é uma obra póstuma de um autor importante.
Ou porque o boca-a-boca fez sua parte. Ou, claro, porque o livro é mesmo sensacional. Enfim, há muitas razões, nem todas literárias, para um livro estar entre os mais vendidos, e não se pode esquecer que inúmeras obras excelentes nunca chegaram a vender mais do que mil exemplares, o que descredibiliza as listas como indicadores soberanos de boa leitura.
O melhor método para se escolher um livro é através da informação. Você pode até ter sabido da existência de um livro através de uma lista, mas não deve comprá-lo apenas por essa razão, a não ser que não dê valor ao seu dinheiro. Primeiro, pesquise sobre o autor, se ele lhe for estranho.
Descubra seu estilo, o que ele já escreveu, que temas costuma abordar, o que já se disse sobre ele. O Google está aí para isso. Já dentro de uma livraria, pegue o livro, leia a orelha, o prefácio, um pouco do primeiro capítulo – as livrarias hoje têm poltronas e sofás pra esse fim: refestele-se. Ninguém vai obrigá-lo a efetuar a compra.
Dê atenção aos suplementos culturais dos jornais. Leia a Revista Bravo, que traz tudo sobre música, teatro, cinema, artes plásticas e, claro, literatura, e assine o mais importante jornal literário do Brasil, o Rascunho. E o mais importante: escute a opinião de pessoas a quem você dá crédito. Um bom fornecedor de dicas é fundamental.
O Comer, Rezar, Amar, da Elizabeth Gilbert, achei uma delícia de leitura. Gilbert é alguma Jane Austen? Nem perto, mas o livro é agradável, divertido e caiu nas minhas mãos numa época em que a história dela me desceu bem. Por outro lado, nunca li nem vou ler A Menina que Roubava Livros, mesmo tanta gente tendo elogiado. Outro fator a ser considerado: implicância. Não deixa de ser um método de seleção também.
Ser popular não é pecado. Há os populares excelentes e os populares medíocres, assim como há os clássicos sensacionais e os clássicos chatonildos. Quem decreta isso? Sua majestade, o leitor.
Do que se conclui: leia best-sellers, leia livros malditos, leia livros que todo mundo está comentando e também aqueles de que ninguém nunca ouviu falar, leia o que alguém antenado recomendou, leia o livro que você descobriu sozinho num sebo, leia o livro cuja capa deixou você fascinado, leia o que sua professora exigiu, leia o que a sua namorada implorou pra você ler,
mesmo ela sendo fã de água-com-açúcar (não custa agradar a guria, depois você dá o troco com dignidade, recomendando a ela um Rubem Fonseca), releia o que você leu 15 anos atrás e amou, releia o que você leu 15 anos atrás e odiou (se todos diziam que era genial, dê uma nova chance ao livro, talvez 15 anos atrás você não estivesse pronto para textos bombásticos),
leia os livros até o fim, abandone-os no meio se forem uma xaropice, leia livros de suspense, eróticos, policiais, poemas, biografias, mas leia.
Estou no momento lendo pela primeira vez um japonês chamado Haruki Murakami, mas não comecei pelo livro certo, dois ou três amigos já me disseram que há outros títulos do autor que são bem melhores. É assim que funciona. Uma lista confiável de best friends é tudo de que se precisa.
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8:03 PM by Cassiano Leonel Drum
07 de fevereiro de 2010 | N° 16239
MOACYR SCLIAR
Perder o amigo ou perder a piada?
O programa A Tarde é Sua, apresentado por Sonia Abrão na Rede TV!, ficou conhecido pelas histórias trágicas que mostra.
O que inspirou o humorista Mauricio Meirelles a fazer uma série de comentários divulgados através do Twitter. Exemplos: “Sonia Abrão usa carro a álcool só pra ter o prazer de ver o carro morrer”. “Sonia Abrão não gosta de Yakult porque tem lactobacilos vivos”.
Numa entrevista à Folha de S. Paulo, a apresentadora disse que achou graça dos comentários, mas será que, no fundo, não ficou ressentida com essas tiradas, mesmo que engraçadas, ou exatamente porque engraçadas? As espirituosas frases de Mauricio Meirelles, convenhamos, enquadram-se naquele tipo de humor produzido sob o lema “perco o amigo, mas não perco a piada”.
Que está longe de ser uma coisa nova. Humor agressivo, humor que não perdoa, é algo muito antigo. Para ficarmos só com um exemplo gaúcho, vamos lembrar o porto-alegrense Álvaro Moreyra, grande cronista, renovador do teatro brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. Numa de suas curtas crônicas, conta que foi abordado na rua por um desconhecido, obviamente ansioso por se aproximar do famoso escritor, e que o saudou com familiaridade: “Então, Álvaro, o que há de novo?”.
“A nossa amizade”, foi a azeda, mas inspirada, resposta. Nesse caso, aliás, a amizade nem chegou a nascer; foi abortada pelo implacável humor de Álvaro.
Perder o amigo ou perder a piada? Este é um dilema que tem duas dimensões: aquela da relação pessoal propriamente dita, e, no caso de escritores, cronistas, humoristas, a dimensão literária.
Que contem um elemento de compulsão não pequeno, representado pela inspiração que gera a agressiva tirada: essa inspiração que faz as pessoas dizerem, ou escreverem, coisas desagradavelmente engraçadas. Isso explica porque muitos escritores são, ou parecem, pessoas de mau caráter.
Numa entrevista, o americano William Faulkner, Prêmio Nobel de Literatura, disse que, se para ter inspiração fosse obrigado a matar a própria mãe, ele o faria sem hesitar: “Um bom texto vale qualquer número de velhinhas sacrificadas”.
Provavelmente àquela altura, a mãe de Faulkner jazia no túmulo há muito tempo; mas, se estivesse viva, ousaria o escritor dizer essa frase, arcando com as consequências, ou confiando na inesgotável capacidade que têm as mães de perdoarem filhos, mesmo os mais agressivos? Questão complicada.
Particularmente, prefiro perder a piada, ou o texto, a perder um amigo. Talvez minha formação de médico tenha algo a ver com isso, mas a vida me ensinou que bons amigos são mais raros, e mais importantes, do que boas piadas, ou bons textos.
Além disso, nada impede que se faça uma piada, ou um texto, que sejam bons, sem recorrer à agressão. Não quer dizer que de vez em quando não me ocorra uma tirada irônica.
Mas, nesses casos, faço como J.D.Salinger, o escritor recentemente falecido, que, nos últimos anos de sua vida, escrevia só para si próprio, como ele dizia. Há piadas, ou textos, para os quais a audiência de uma única pessoa é mais que suficiente.
Gustavo Trevisi do Nascimento, que é jornalista e deficiente físico, escreve sobre um problema que, por razões óbvias, sente com mais intensidade: a conservação das calçadas de Porto Alegre: “Tropeço e caio quase todo dia”. O RBS Notícias fez matéria sobre o assunto, e o Gustavo espera que isso seja o início de uma campanha para resolver a difícil situação.
Agradeço as mensagens de Erika Hanssen Madaleno (falando sobre mulheres mais velhas que têm casos com jovens, ela conta a história de uma dessas ligações: de manhã, o rapaz acordou e perguntou: “Tia, tem Toddy?” Pra morrer), Sidclei N. Fontes, Sergio Chaves, Cesar R. da Silva, Octavio Augusto, dos médicos Roni Quevedo e Policarpo B. Lopez.
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7:58 PM by Cassiano Leonel Drum
07 de fevereiro de 2010 | N° 16239
PAULO SANT’ANA
Bonita de corpo
Eu sou invocado com esta expressão: “Tudo bem?”. É a expressão mais usada entre as pessoas que se encontram.
– Tudo bem?
– Tudo bem.
Pode até não estar tudo bem, mas responde-se que está tudo bem.
Comigo se dá diferente, sinto que sou chato, mas não consigo responder que está tudo bem se não está tudo bem.
– Tudo bem?
– Não. Está tudo mal!
– Ué, mas o que há?
A pessoa que ouve que não está tudo bem se choca. Ela esperava ouvir a resposta de que está tudo bem.
Como não ouve a resposta esperada, insiste em saber o que é que há então.
Ora bolas, não está tudo bem e pronto. Como é que quando se responde que está tudo bem não exige o perguntador um relato de tudo que vai bem?
Agora que ouviu que não está tudo bem, calcula então que algo não vai bem.
Eu só não respondo que “está tudo mal” porque o perguntador vai querer saber “tim-tim por tim-tim” o que vai mal.
E seria exaustivo arrolar tudo que vai mal.
Comigo parece que as pessoas que perguntam se vai tudo bem já calculam que vou responder diferente: “Não vai tudo bem”. Não é isso que acontece, mas a mim parece que elas estão torcendo para que tudo não vá bem para que a conversa se espiche.
Porque não há algo mais frustrante num diálogo do que alguém perguntar se tudo vai bem e o outro responder que tudo está bem: então não há mais assunto, nada mais há para tratar, está encerrada a conversa.
Dizer que está tudo bem, me ocorre agora, é uma forma de se despedir da pessoa que perguntou, apressando o encerramento do assunto.
E, por outro lado, responder que está tudo mal dá sempre num espichamento da conversa, o respondedor relatando os seus males e o perguntador tentando consolá-lo ao dizer que tudo se resolve, paciência, em seguida as coisas vão para seus lugares.
Mas eu sinto que sou rigoroso demais ao negar que está tudo bem, era só uma formalidade o que queria saber o outro, enquanto eu desvio a conversa para um “tudo mal” que não estava na programação daquele encontro.
Desde criança, ouço uma expressão que, apesar de gasta, dura até os tempos de hoje: “Fulana é bonita de corpo”.
Este “fulana é bonita de corpo” me soa que ela não é bonita de rosto.
Já o “fulana é bonita de rosto” declara solenemente que ela tem um corpo que deixa muito a desejar.
Isso me faz pensar que, quando a mulher é bonita de corpo e de rosto, a expressão é somente a de que ela é bonita.
E bonita não é a mesma coisa do que bela. Quando se diz que uma mulher é bela, está se dizendo que ela, mais do que bonita, é bela..., o que são outros quinhentos.
Porque raramente ouço algum homem dizer que “fulana é bonita de rosto e de corpo”. Nesse caso, “a fulana é estonteante”.
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7:54 PM by Cassiano Leonel Drum
07 de fevereiro de 2010 | N° 16239
DAVID COIMBRA
Para quem entende de futebol
Todas as pessoas que eu conheço entendem de futebol.
Todas as pessoas que eu não conheço também.
Refiro-me a amigos, vizinhos, parentes, contraparentes e torcedores, leitores, ouvintes, telespectadores e taxistas e designers e consultores de empresas e presidentes da República, todo mundo fala de futebol com muita autoridade.
Muita segurança. Pudera: já jogaram ou jogam bola, acompanham as notícias dos seus times, vão ao estádio, debatem, consomem taludos nacos do dia pensando a respeito. Logo, entendem mesmo. E, com frequência, gabam-se dos seus conhecimentos. O curioso é que nunca ouvi ninguém dizer acerca de outro:
– Este entende de futebol!
O que me leva a crer que todo mundo entende de futebol, mas todo mundo acha que ninguém mais entende de futebol.
Isso, o fato de todo mundo entender de futebol, é uma aflição para quem tem de falar ou escrever sobre futebol, como este seu escravo dos erres duplos e dos cedilhas. Porque tudo que a gente escreve ou fala sobre futebol vai encontrar contestação. E contestação abalizada. Volta e meia, contestação agressiva.
É chato.
Alguém pode me contestar, dizendo:
– Vai dizer que não queria contestação!
Ao que respondo, entre melancólico e conformado: não queria...
Mas ela ocorre, paciência.
Sei que existe uma forma de esquivar-se um pouco dessa fúria contestatória. É a ardilosamente empregada pelos comentaristas esportivos e pelos técnicos. O jargão. Você fala em duas linhas de quatro, em flutuar atrás da zaga, em stopper. Você cita o ferrolho suíço e o dobrevê eme. Você arrola livros de tática escoceses. É o conhecimento exclusivo dos comentaristas e dos treinadores.
O cara olha para um jogo e enxerga movimentos premeditados, as peças se deslocando conforme uma vontade superior, as causas de tudo. O problema é que às vezes um virtuose ou um perna de pau vai lá e desmonta todo aquele edifício teórico num único lance, seja uma bola de trivela no ângulo, seja uma atrasada canhestra para o goleiro.
Uma falta de consideração a tanto estudo e formulação, mas é aí que entra a parte técnica, outra delícia dos analistas, tanto os amadores quanto os profissionais. Que prazer existe em reconhecer qualidades ou defeitos escusos em um jogador de futebol!
Verdade que se instaurou uma espécie de ética entre os analistas profissionais: a de restringir ao mínimo o exame técnico pessoal dos jogadores. Fica muito elegante, e eleva o futebol: tira o personagem de cena e faz com que cada bola na trave tenha uma razão histórica-sociológica-estratégica.
Baggio chuta o pênalti por cima do travessão e a Geração Dunga, de maldita, torna-se vitoriosa. Zico chuta o pênalti no canto, o goleiro pega, e a Geração dos anos 80, de parâmetro de virtuose, vira símbolo de fracasso.
É muito recompensador traçar as razões do fracasso ou do sucesso, sobretudo depois que ocorreram. Uma espécie de determinismo histórico de chuteiras. Mas a discussão técnica acaba sendo mais forte, porque os meninos cresceram chamando um ao outro de ruim ou de bom de bola. Então, muitas vezes a discussão elevada perde para a conclusão crua, e o analista conclui:
– Este centroavante é um pereba.
Se bem que, de uns tempos para cá, até os perebas encontraram remissão, graças a outra valência bastante admirada no futebol moderno: a tal da garra. O espírito de luta, a alma guerreira, todas aquelas referências belicosas que estão aquém do talento.
Eu aqui também dou importância à tática, à garra e à técnica, mas advirto: não muita. E agora peço que o leitor preste ainda mais atenção às frases que se derramarão linhas abaixo, porque sou como todas as pessoas que conheço: acho que entendo de futebol.
Menos por me interessar pelo tema e mais pelo tempo de convívio com o futebol profissional. Suponho que tenha aprendido algo em tantos anos. Arrogo, por exemplo, a pretensão de conseguir identificar um time vencedor, quando o vejo. E um time vencedor tem que ter algo mais do que tática engenhosa, técnica refinada e suor abundante.
Tem que ter personalidade.
Todos os times vencedores são formados por alguns, ou muitos, jogadores de personalidade forte e razoável inteligência. Cito dois: o Inter dos anos 70 tinha Figueroa, Claudio, Marinho, Falcão, Paulo César, entre outros; o Grêmio dos anos 90 tinha Adilson, Roger, Goiano, Dinho, Mauro Galvão, e tantos mais.
Este perfil é o que Mano Menezes está construindo no Corinthians. William, Roberto Carlos, Tcheco, Ronaldo e Iarley estão no clube para ganhar a Libertadores. Só. Se Mano conseguir fazer com que eles se unam em torno deste objetivo, será campeão.
Eu, imodesto como você, afirmo que não existe uma fórmula para um time de futebol tornar-se vencedor. Não, pelo menos, uma única fórmula. Existem várias.
Mas também afirmo que existe uma condição para um time ser vencedor: dentro de campo, é preciso ter algo além de técnica, tática e garra. É preciso um pouco de reflexão. Um pouco de entendimento.
Você sabe: a velha inteligência.
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9:48 AM by Cassiano Leonel Drum
Prestígio zero
Pesquisa mostra que os bons alunos não querem mais seguir o magistério - um desastre para o ensino
Alunos de ensino médio: eles são desencorajados em casa de optar pelo curso de pedagogia
Um bom termômetro para aferir o prestígio de uma profissão é o número de jovens que a assinalam como primeira opção na hora do vestibular. Por esse medidor, a carreira de professor, que décadas atrás foi um símbolo de status, nunca esteve tão em baixa.
Uma nova pesquisa, conduzida pela Fundação Carlos Chagas a pedido da Fundação Victor Civita, chama atenção para o problema, trazendo à luz um dado preocupante: às vésperas de ingressarem na universidade, apenas 2% dos estudantes brasileiros pretendem seguir o magistério - opção que os outros 98% já descartaram.
No levantamento, baseado numa amostra de 1 500 alunos de ensino médio em escolas públicas e particulares de todo o país, o curso de pedagogia patina na 36ª colocação, entre as sessenta carreiras que hoje mais exercem fascínio sobre os jovens - lista encabeçada pelas áreas de direito, engenharia e medicina.
Agrava o cenário saber que esses poucos que ainda optam pela docência se concentram justamente no grupo dos 30% de alunos com as piores notas na escola. Pouco disputado, o curso de pedagogia significa, para a imensa maioria dos estudantes, a única porta de entrada possível para o ensino superior - e não uma carreira de que realmente gostam.
Conclui a especialista Bernardete Gatti, coordenadora da pesquisa: "Sem atrair as melhores cabeças para as faculdades de pedagogia, o Brasil jamais conseguirá deixar as últimas colocações nos rankings de ensino".
A situação de desprestígio da carreira de professor é o retrato final de um processo deflagrado na década de 70, quando se iniciou no país uma acelerada massificação do ensino público.
Sem profissionais em número suficiente para suprir a galopante demanda, as escolas passaram a recrutar até leigos para dar aulas. Foi aí também que as faculdades de pedagogia e as licenciaturas proliferaram à revelia da qualidade acadêmica, e os salários começaram a cair.
A remuneração dos professores é, por sinal, o segundo fator elencado pelos jovens de hoje para nem sequer cogitarem o magistério, atrás de um item que se refere à completa falta de identificação com o ofício, segundo mostra a pesquisa da Fundação Carlos Chagas.
Os estudantes contam ainda que são desencorajados pelos próprios pais de fazer essa opção. Boa parte dos entrevistados chega a afirmar que a família "jamais aceitaria tal escolha profissional".
Países onde o ensino prima pela excelência, como Coreia do Sul e Finlândia, encontraram bons caminhos para atrair os alunos mais brilhantes às faculdades de pedagogia - experiência que pode ser útil também ao Brasil. Ela indica que elevar o salário dos professores é apenas uma das estratégias eficazes, mas não a de maior impacto.
O que realmente suscita o fascínio dos melhores alunos pela docência diz respeito, acima de tudo, à possibilidade descortinada pela carreira de verem seu talento reconhecido e sua capacidade intelectual estimulada. Nesse sentido, distinguir os profissionais de melhor desempenho em sala de aula, com iniciativas como bônus no salário e mais responsabilidade na escola, tem sido, há décadas, um potente motor de atração para a carreira de professor mundo afora.
O Brasil precisa aprender a lição.
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9:42 AM by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
A era do cacarejo
"Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós"
Rimbaud espancava Verlaine. Eu invejo Rimbaud. Eu gostaria de ter espancado Verlaine. Eu gostaria de ter espancado qualquer poeta simbolista. Verlaine vingou-se alguns anos mais tarde, num quarto de hotel, dando dois tiros em Rimbaud. Eu também invejo Verlaine. Ele tinha apenas má pontaria.
A editora Topbooks, depois de publicar os poemas de Rimbaud, agora publicou suas cartas, otimamente traduzidas e comentadas por Ivo Barroso. O primeiro lote de cartas mostra Rimbaud e Verlaine espancando um ao outro e atirando um no outro.
Qual é o interesse disso? Para mim, nenhum. Eu poria os dois na cadeia. De fato, os dois foram parar na cadeia. O que realmente interessa é o segundo lote de cartas, escritas a partir de 1875, quando Rimbaud abandonou a poesia e passou a perambular de um lado para o outro.
Num intervalo de apenas dezesseis anos – ele morreu em 1891 –, Rimbaud fez tudo o que uma pessoa dotada de um pingo de senso de dignidade quereria fazer: foi embora de Paris, que é uma cidade de maricotes; entranhou-se no deserto etíope, contraindo uma série de enfermidades; comercializou camelos e escravos;
ganhou dinheiro e perdeu dinheiro; negociou armas dos mais variados calibres, permitindo o massacre de um monte de gente inocente; pegou um tumor no joelho e teve a perna amputada; morreu sozinho em Marselha, com muitas dores e pedindo ajuda a Deus, que caprichosamente se recusou a ajudá-lo.
Os poetas simbolistas, no tempo de Rimbaud, faziam uma grita danada. Eles se reuniam nos bares e bradavam seus versos. Nem quando eram espancados eles se calavam. Hoje é muito pior. A grita aumentou descomunalmente. Há gente demais papagaiando ao mesmo tempo.
Estamos cercados de poetas simbolistas. Eles se espalharam por todos os cantos e se acotovelam brutalmente para conseguir recitar uns decassílabos. O presidente da República é um poeta simbolista. O chefe de cozinha é um poeta simbolista. Até o poeta simbolista é um poeta simbolista.
Em 1875, depois de levar dois tiros de Verlaine, Rimbaud afastou-se disso tudo. Ele simplesmente resolveu parar de cacarejar e de ouvir o cacarejo alheio. Numa de suas cartas, de Aden, ele aparece encomendando alguns livros. De poesia simbolista? Ao contrário. Ele encomenda o Livro de Bolso do Carpinteiro, o Manual do Vidraceiro e o Álbum das Serrarias Agrícolas e Florestais.
Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós. Ele é um modelo para o presente.
Em suas cartas, Rimbaud mostra que temos poetas simbolistas de mais e carpinteiros de menos. Ele mostra que temos poetas simbolistas de mais e vidraceiros de menos. Eu pergunto: já encomendou seu Livro de Bolso do Carpinteiro?
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9:39 AM by Cassiano Leonel Drum
A depressão em preto e branco
Um novo livro compara o efeito dos antidepressivos modernos com o de pílulas de placebo e chega à surpreendente conclusão estatística de que eles se equivalem. Mas a complexidade da mente e de suas doenças não se mede por números
Naiara Magalhães e Daniela Macedo - Montagem com fotos de Ada Summer/Corbis/Latinstock
De tempos em tempos, pesquisas e livros amparados em bases científicas mais ou menos sólidas são lançados com um mesmo propósito: revelar a verdade sobre a indústria farmacêutica.
Segundo seus autores, os laboratórios enriquecem (e muito) vendendo remédios pouco (ou nada) eficazes. Há duas semanas, chegou às livrarias dosEstados Unidos The Emperor’s New Drugs: Exploding the Antidepressant Myth (O Império das Novas Drogas: Explodindo o Mito dos Antidepressivos, em tradução livre), do psicólogo americano Irving Kirsch.
Em 226 páginas, ele tenta provar que a bilionária indústria dos antidepressivos foi construída e se mantém graças ao efeito placebo. Ou seja, milhões de pessoas ao redor do mundo gastam 20 bilhões de dólares todos os anos em remédios cuja eficácia equivale à de um comprimido de farinha.
Ao longo dos últimos quinze anos, Kirsch fez a compilação de 57 estudos sobre o tratamento de pacientes deprimidos. Pela fria análise das estatísticas, a teoria do psicólogo soa (de fato) como uma bomba e pode levar à perigosíssima conclusão de que o tratamento da depressão dispensa a ajuda dos medicamentos.
"Há casos em que o antidepressivo é imprescindível para tirar o paciente do estado de letargia típico da doença, fornecendo-lhe energia para lutar contra ela", diz a psiquiatra Fernanda Martins Sassi, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Deixada a seu próprio curso, a depressão machuca, incapacita para as atividades cotidianas, destrói laços afetivos, solapa a autoestima e pode culminar em suicídio.
O primeiro passo de Kirsch rumo ao que ele julga ser a explosão do "mito dos antidepressivos" foi o artigo "Listening to Prozac but hearing placebo" ("Ouvindo o Prozac, mas escutando placebo"), publicado em 1998, na revista Prevention & Treatment, da Associação Americana de Psicologia. Aqui, um parêntese.
O título do trabalho tem um quê de provocação, uma espécie de resposta ao best-seller Ouvindo o Prozac, do psiquiatra americano Peter Kramer, sobre as benesses do antidepressivo tido como a "pílula da felicidade".
A partir da metanálise de dezenove pesquisas, com 2 300 pacientes diagnosticados com depressão, Kirsch chegou à conclusão de que apenas 25% da melhora obtida com antidepressivos está associada à substância ativa do remédio. O restante deve-se em grande parte ao efeito placebo – e, em menor escala, à evolução da doença. Em 2002, Kirsch juntou outros 38 estudos ao trabalho anterior.
Com a nova compilação, o índice de eficácia proporcionado pelos antidepressivos caiu para 18%. Seis anos mais tarde, o psicólogo reconheceria a superioridade dos medicamentos de verdade para os casos de depressão muito grave. Mas, ainda assim, a vantagem dos antidepressivos sobre o placebo seria pequena (veja o quadro).
Na realidade, as metanálises de Kirsch não revelam nenhuma novidade. O efeito placebo é conhecido e descrito desde o século XVIII e não pressupõe apenas a administração de uma substância inerte. Um médico atencioso, um exame diagnóstico e o otimismo do doente em relação ao tratamento contribuem sobremaneira para a sua recuperação. Quanto maior o componente psicológico de um distúrbio, maior será a sua suscetibilidade ao efeito placebo.
Como tal, a depressão não escapa à regra. Os mecanismos biológicos envolvidos no efeito placebo ainda não foram completamente compreendidos, mas uma das hipóteses mais aceitas é que ele seria deflagrado pela liberação de endorfina, um analgésico produzido pelo próprio organismo, e de dopamina, substância capaz de fazer o cérebro repetir processos prazerosos – como a melhora de uma doença.
No caso da depressão, a cascata química desencadeada pelo efeito placebo atua diretamente nos mecanismos psíquicos que estão na origem da doença – a autoestima do paciente, suas expectativas em relação à vida, sua disposição física e mental...
"O efeito placebo tem eficácia terapêutica", diz o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Portanto, é difícil, sobretudo no campo da psiquiatria, determinar com precisão o que é resultado da intervenção química do remédio e o que é produto de seu efeito placebo.
Escreve o médico canadense Grant Thompson, no livro The Placebo Effect and Health (O Efeito Placebo e Saúde): "O efeito placebo não é um inimigo". Em entrevista a VEJA, o psicólogo Kirsch defende: "Eu concordo plenamente que o efeito placebo é importante. Mas, se um remédio apenas evoca o efeito placebo, não deveria ser usado".
Não é o caso dos antidepressivos. Nove especialistas ouvidos por VEJA, entre psiquiatras, neurocientistas, farmacologistas e psicanalistas, são peremptórios em dizer que uma diferença de eficácia da ordem de 18% ou 25% entre a ação de um medicamento e a do placebo não é pouca coisa.
"Para um deprimido grave, é o que pode fazer toda a diferença", diz o psicofarmacologista Elisaldo Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo. Descobertos nos anos 50, os remédios contra a depressão têm por objetivo restabelecer a química cerebral de modo a que as pessoas consigam enfrentar a vida cotidiana e seus problemas. Imagine um par de óculos com as lentes embaçadas...
O antidepressivo é aquele pedacinho de pano usado para limpá-las, desanuviando a mente. "Nos casos mais graves, o remédio funciona como um curativo, que protege a ferida", explica a psiquiatra Laura de Andrade, da Universidade de São Paulo. "Com ele, o doente consegue seguir o dia a dia sem se machucar ainda mais."
A mais comum das doenças psiquiátricas, a depressão ainda desafia a medicina. Suas origens biológicas e suas causas não foram totalmente desvendadas. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que a doença surgia da carência no cérebro de neurotransmissores, associados às sensações de prazer, autoconfiança, apetite e libido, entre outras.
A hipótese mais aceita hoje é a de que a depressão está ligada ao mau uso que o cérebro faz de tais substâncias (veja o quadro). O tratamento também não é simples. Ao contrário. Há de se levar em conta os vários tipos de depressão e as inúmeras substâncias antidepressivas no mercado – há pelo menos sessenta delas à venda no Brasil.
Descobrir o medicamento mais adequado a cada paciente é um trabalho, na maioria dos casos, de tentativa e erro. Apenas 37% dos doentes encontram alívio com o primeiro remédio prescrito por seus médicos.
"Nos estudos que serviram de base às metanálises de Kirsch, é possível, por exemplo, que pacientes incluídos em pesquisas com inibidores seletivos de recaptação de serotonina reagissem melhor a outras classes de antidepressivos", diz o psiquiatra Valentim Gentil Filho, da Universidade de São Paulo. Além disso, pacientes com quadros depressivos semelhantes podem responder de forma completamente distinta a um mesmo tratamento.
Por causa de tamanha complexidade, fica difícil tomar ao pé da letra os resultados das análises feitas por Kirsch. As nuances do tratamento da depressão são, em geral, mais bem compreendidas na prática clínica que nas revisões estatísticas.
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8:46 AM by Cassiano Leonel Drum
Beyoncé - Ela está no comando
A atriz, cantora e compositora americana se tornou o maior fenômeno da música pop atual com uma fórmula inusitada: feminismo, sensualidade e bom comportamento
Livia Deodato com Luís Antônio Giron, Mariana Shirai e Rafael Pereira
George Holz
PARA QUEM PODE
A cantora Beyoncé Knowles desafia o machismo com altas doses de sensualidade
Beyoncé Giselle Knowles paga suas próprias contas. Pinta as unhas, arruma o cabelo, vai para festas com as amigas... e deixa o namorado em casa. Veste roupas sensuais, dança e canta de forma provocante: “Você está olhando como se estivesse gostando. Por que não levanta e vem falar comigo?”. Hipnotiza, encanta e assusta: “Eu vou te deixar ficar comigo. Só não seja impertinente”.
Para os que não entenderam o recado, ela aponta a caixa que deve ser usada para juntar os pertences e desaparecer de sua vida (“a da esquerda, da esquerda”). Também avisa a esses infelizes que quem gosta mesmo coloca um anel em seu dedo – como fez o astro rapper Jay-Z. Beyoncé está no comando. Há uma década. A texana de 28 anos, considerada a maior cantora pop do momento, cumpre o que canta.
E o que canta representa um novo poder feminino, em forma de música pop. Ela faz parte de uma linhagem de estrelas musicais que desafia o domínio masculino, de Tina Turner a Lady GaGa, passando por Madonna. No auge da carreira, Beyoncé chegou ao Brasil para mostrar do que a mulher da primeira década dos anos 2000 pode – e deve – ser capaz.
A cantora desembarcou na quinta-feira, em Florianópolis, poucos dias depois de ter lançado seu primeiro perfume – Heat (calor) – e feito a festa na 52a edição do Grammy: levou seis dos dez troféus que disputava, feito inédito para uma artista mulher. Trouxe o marido, Jay-Z, e o pai, Matthew Knowles.
Escoltada por 20 policiais em cinco carros blindados, Beyoncé baixou o vidro do carro que a levava do aeroporto ao hotel no centro da cidade e acenou. Jay-Z buzinou. Ali mesmo, os fãs anteciparam o delírio que marcaria seu primeiro show, à noite.
Os espetáculos agendados para o Brasil fazem parte da reta final da turnê I am... , em que relembra momentos essenciais da carreira e apresenta os hits de seu terceiro álbum solo, I am... Sasha Fierce, de 2008.
A cantora Ivete Sangalo foi escalada para abrir os shows em São Paulo e Salvador. Wanessa, a ex-Camargo, cumpriu a função no show de Florianópolis e repetiria a participação no Rio de Janeiro no domingo e na segunda-feira.
O evento em Florianópolis, ao ar livre, no Parque Planeta, foi um exemplo de megashow pop contemporâneo, alimentado por alta tecnologia, danças arrebatadoras e até do abrir e fechar de imensas cortinas, ao modo de um teatro.
Em duas horas de palco, Beyoncé provou ser uma diva do pop, capaz de dançar e cantar (não apenas fingir que canta) no meio do público, ao mesmo tempo que conversava e tocava os espectadores.
Saiba mais
* »Ele pôs o anel no dedo dela
No palco, ela se apoia em 22 artistas, entre bailarinos, cantores e a banda feminina Suga Mama. Beyoncé se mostra uma artista madura. Nos intervalos entre as músicas, encara o público e faz charme com o cabelo.
Quando a música volta a bombar, sai requebrando e solta seu vozeirão. Os espectadores, a maioria na faixa dos 18 aos 30 anos, vão ao êxtase. Só faltou voar. Não é que ela não seja capaz. As limitações técnicas do palco é que não permitiram sua ascensão por cabos de aço.
É um roteiro de sedução: Beyoncé troca de figurino dez vezes e varia o repertório, revezando momentos românticos, como quando canta “Ave Maria” de Franz Schubert, e dançantes.
Cantou sucessos como a balada lenta “If I were a boy”, mostrando seu registro especial de mezzosoprano. Antes de embalar “Single ladies (Put a ring on it)”, o telão apresentou uma edição divertida de vídeos caseiros de anônimos e famosos fazendo a coreografia, entre eles o presidente americano, Barack Obama (só a parte da mãozinha, é claro). Beyoncé sabe usar, como poucos artistas, os recursos multimídias.
O telão widescreen de última geração – nem nos mais recentes grandes shows de rock se viu imagem de tão perfeita qualidade – reforça e dá novos sentidos a suas letras. Beyoncé se despediu sacudindo uma bandeira brasileira entregue por um fã e cantando “Halo”, em homenagem a Michael Jackson. “Brasil, Brasil, eu posso sentir sua aura”, afirmou.
No total, Beyoncé “sentirá a aura” de 30 países. De Salvador, na quarta-feira, ela seguirá para Argentina, Chile, Peru e Trinidad, onde encerrará a turnê iniciada há 11 meses. Terá cumprido 115 dias de espetáculos por Estados Unidos, Europa, Japão e América do Sul. Diz que, depois da maratona, pretende descansar por pelo menos seis meses, adiando a produção de seu quarto álbum.
“Tenho um monte de melodias e ideias”, afirmou. “Mas preciso dizer a mim mesma: ‘Fique quieta! Fique quieta!’.” Será a primeira pausa em sua carreira. Só nos primeiros dois meses da turnê, na Europa e nos Estados Unidos, ela arrecadou US$ 36 milhões. Seus fãs não economizam para lotar ginásios e estádios de futebol, pagando ingressos que começam na faixa dos US$ 50.
Por aqui, os valores variam de R$ 60 a R$ 750. É a média de preços dos últimos shows internacionais realizados no Brasil, hoje um dos polos de atração de megaespetáculos. E consegue dar uma boa margem para contemplar a maioria dos fãs, modestos ou abonados, que baixam seus CDs de graça pela internet.
Mesmo tendo feito sucesso numa época em que a pirataria atingiu duramente o mercado fonográfico, de acordo com sua gravadora, a Sony, Beyoncé já superou a marca dos 100 milhões de álbuns vendidos, desde os tempos do grupo Destiny’s Child. No ano passado, a revista de negócios americana Forbes a colocou no alto da lista das celebridades mais bem pagas antes dos 30 anos: só entre 2008 e 2009, Beyoncé arrecadou US$ 87 milhões.
Junto a Jay-Z, somou US$ 122 milhões no mesmo período, o que os torna o casal mais bem-sucedido de Hollywood atualmente. Deixa (bem) para trás Brad Pitt e Angelina Jolie, com “humildes” US$ 55 milhões.
Mister Shadow
EM AÇÃO
Beyoncé começa o primeiro show no Brasil, em Florianópolis, cantando “Crazy in love”. No palco, 22 artistas, entre bailarinos, cantores e a banda só de mulheres, Suga Mama
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8:39 AM by Cassiano Leonel Drum
06 de fevereiro de 2010 | N° 16238
NILSON SOUZA
Agentes duplos
Dia desses vesti uma fantasia de Papai Noel para fazer uma reportagem e me senti o pior dos farsantes. Cheguei mesmo a relutar antes de aceitar a missão. Argumentei para a editora que não gostaria de enganar as crianças, fazendo-me passar por um Papai Noel de verdade. Ela derrubou o meu argumento com uma pergunta marota, mas irrefutável:
– E existe Papai Noel verdadeiro?
Ainda assim, foi com um certo constrangimento que vivi por alguns minutos o papel de outro personagem que não eu próprio. Não tenho a mínima vocação para ator. Se tivesse que representar, seria um deplorável canastrão. Por isso, acompanhei com espanto a série que Zero Hora publicou nesta semana sobre espiões infiltrados nos movimentos sociais e políticos organizados.
Como pode alguém enganar tanta gente por tanto tempo? Descontadas as bravatas tardias, pois é evidente que algumas pessoas contam vantagem para parecer mais espertas do que realmente são, os agentes duplos impressionam tanto pelo que fizeram no passado quanto pelas revelações atuais.
Vá entender o ser humano! Até o famoso Garganta Profunda do caso Watergate, que resultou na renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, resolveu soltar a língua depois de permanecer mais de 30 anos no anonimato. Dizem que ele levou uma grana da revista Vanity Fair, mas não duvido que tenha sucumbido à própria vaidade mesmo.
É o que parecem estar fazendo esses personagens que agora saem das sombras e contam com orgulho suas aventuras de espionagem. Confesso que me chocam um pouco. Pode ser até que tenham feito bem o seu trabalho, mas eu não compraria um carro usado de nenhum deles. O mínimo que se pode pensar de um agente duplo é que ele é 50% mentiroso.
Até gosto de gente que representa bem, mas só quando sei que se trata de uma representação. Detesto pegadinhas e coisas do gênero por isso. Não acho a menor graça quando me sinto enganado.
Mas aplaudo atores talentosos, capazes de dar tanta autenticidade aos seus personagens que eles mesmos se esquecem da identidade original. Outro dia ouvi uma divertida entrevista do cantor e comediante Moacyr Franco na qual ele falou com saudade sobre um ex-companheiro de palco falecido, o humorista Ronald Golias. “Deus mandou o personagem e esqueceu de mandar o homem”, disse Moacyr.
Golias tinha mesmo uma cara preparada para despertar risos e sorrisos. Não precisava nem representar. Jamais poderia ser um agente duplo, pois era extremamente verdadeiro na sua farsa.
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8:36 AM by Cassiano Leonel Drum
06 de fevereiro de 2010 | N° 16238
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES
Verão, verão (final)
Ruy Gessinger, uma das pessoas que mais eu amo neste mundo, é fazendeiro forte e criador de ovelhas, além dos muitos outros títulos que possui. Conhecedor do assunto que abordei aqui na semana passada, ele me mandou como colaboração as inteligentes considerações que vão a seguir:
“Como cambiaram as coisas. Hoje, ao menos nas fazendas mais modernas, a gente tosa mais cedo. Já lá por outubro. E por várias razões, entre as quais libertar as ovelhas de seus “casacos” mais cedo e porque geralmente se pega preço melhor para a lã.
Os tosadores chegam de carro, com um reboque, instalam-se no galpão, ligam os “barbeadores elétricos” na tomada e tosam sem dar um beliscão sequer.
Não se imiscuem na vida da fazenda e fazem a sua própria comida.
Classificam a lã bem direitinho: velo, garra etc.
E tudo vai ensacado em sacos de polietileno e não mais em juta. Agora não é mais lata e sim ficha que usam. Cada ovelha é uma ficha; o carneiro é duas e se for de cabanha é quatro.
Me consta que antigamente sesteavam. Hoje tocam direto de manhã cedo até o meio dia. Dão só uma pausa de duas horas e vão quase à noite, pois seu trabalho é por empreitada. Quanto antes terminam, melhor para todo mundo.
Mas é assim mesmo, hoje tudo talvez esteja menos romântico, mas está mais profissional.”
Mas há mais no verão do guri campeiro. Uma atividade importante era procurar ninho de perdiz ou de quero-quero, cujos ovos a gente comia cozidos, e alguns guris faziam furinho na casca com prego e por ali chupavam clara e gema.
Eu me arrependo barbaramente dessa passagem da minha infância e me tornei um defensor da natureza quando me dei conta das ninhadas e ninhadas de quero-quero e de perdiz que eu pilhei e depredei para comer, sem nenhuma necessidade.
Uma ninhada de quero-quero tem quatro ovos que são cinza-esverdeado com umas manchas pretas. Uma ninhada de perdiz tem muito mais, e os ovos são do mesmo tamanho dos ovos do quero-quero, só que são marrons, parecem de chocolate. Quando descascam é bonito ver as ninhadas cuidadas pelos pais, quatro quero-querinhos e um bando de perdizinhas.
Outro bicho campeiro muito bonito é a ema, a “rhéa” americana que o gaúcho chama de avestruz, uma limpadora de campo que até cobra come. Agora, o guri campeiro se pela de medo da avestruz choca.
Nesse estado, macho ou fêmea ataca perigosamente quem se aproxima de seu ninho de muitos ovos. E se o guri está a pé não adianta fugir, porque ela corre muito mais. Aí só cabe o recurso de saltar dentro de uma sanga, como fez o meu irmão João Batista, certa feita...
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8:33 AM by Cassiano Leonel Drum
06 de fevereiro de 2010 | N° 16238
PAULO SANT’ANA
Solução que está na cara
Às vezes, sou obrigado a sacrificar o gosto dos leitores por melhores assuntos, com a finalidade de solucionar problemas angustiantes da comunidade. Tudo pela repercussão do que sai nesta coluna.
Vejam que o Diário Gaúcho constatou que em 16 anos a malha hospitalar do SUS Porto Alegre viu desaparecerem 3,2 mil leitos.
Sumiram, foram retirados de serviço.
Então, por que não se aceita essa disposição do Hospital de Clínicas para assumir o Hospital Independência? Por quê?
Isso tem de ser feito já, aqui e agora.
O que falta para ser feito? Leiam o que está escrito na mensagem do presidente do Hospital de Clínicas, abaixo, e vejam que só falta vontade política.
“Caro Sant’Ana: em teu comentário no Gaúcha Hoje da última quarta-feira, trouxeste à tona o tema da falta de leitos em hospitais públicos de Porto Alegre. Verdade insofismável, com reflexo evidente nas emergências. De fato, ao longo dos anos houve diminuição no número de leitos disponibilizados ao SUS no RS. Na contramão do desejável, o atendimento primário nos postos de saúde não evoluiu em eficácia e tampouco na integração do sistema. Ao mesmo tempo, cresceu o impacto das enfermidades crônicas.
Em dezembro de 2009, a direção, engenheiros, administrativos e enfermeiras do Hospital de Clínicas de Porto Alegre visitaram oficialmente o Hospital Independência. Um hospital vazio impacta forte na gente.
Estive presente e, se interessar, posso te enviar uma cópia do arquivo de imagens realizadas. Verás que, com um planejamento eficiente, logo o hospital poderá estar operacional. Garanto-te que o Independência, que já ajudou a muitos doentes, está pronto para ser uma ativa unidade hospitalar pertencente ao Hospital de Clínicas.
Nossa proposta é colocar a serviço da comunidade tudo aquilo que o HCPA possui de mais valioso, uma reconhecida capacidade gerencial, um padrão assistencial de excelência e, sobretudo, o capital intelectual e a experiência dos professores da UFRGS. Aspectos logísticos favoráveis alinharão setores do HCPA que não serão replicados no Independência. O eixo viário (Avenida Ipiranga) entre os hospitais é de apenas 4,5 quilômetros.
Queremos que a população não apenas tenha acesso a mais leitos, mas que neles encontre um atendimento qualificado, resolutivo e humanizado. Onde se trabalhe com indicadores, resultados, e não com conversa fiada.
Em Brasília, já apresentamos o projeto e temos apoio de diversas autoridades. No Ministério da Educação, valorizam-se os leitos do Independência não apenas por sua função assistencial, mas também por exercerem importante papel de formação de recursos humanos para o SUS. Estaremos, como sempre, treinando médicos, enfermeiras, administradores hospitalares e muitos outros profissionais.
Há quem diga que hospitais como o Clínicas e o GHC são caros demais, e que por isso não deveriam expandir-se. Acreditamos, ao contrário, que estes estabelecimentos são de suma importância para assegurar aquilo que, de fato, é o mais CARO às pessoas: sua saúde e qualidade de vida. O Clínicas e o Conceição vão além do conceito tradicional de hospital. Basta que examinemos seus balanços sociais. Afinal, o que é ser caro em se tratando de saúde?
Esperamos, tão cedo quanto possível, que a população possa receber boas novas em relação aos novos leitos com o padrão HCPA. Que melhor aplicação do dinheiro público em saúde poderia haver? Quita-se parte da imensa dívida da Ulbra com o governo federal e este repassa o Hospital Independência ao Hospital de Clínicas, uma empresa pública que orgulha nosso país.
O HCPA é um hospital de alta confiabilidade em saúde, construído e mantido por inspiração e transpiração dos gaúchos. É tempo para que se expanda. Com um cordial abraço, (as.) professor Amarilio Vieira de Macedo Neto, presidente do Hospital de Clínicas”.
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Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010
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6:51 PM by Cassiano Leonel Drum
RUY CASTRO
O mergulhão morreu em vão
RIO DE JANEIRO - Há dez anos, a foto (por Domingos Peixoto) de um mergulhão todo sujo de óleo, saindo com dificuldade da água escura e lutando para respirar numa praia também manchada de óleo, comoveu o mundo.
Ele era uma das vítimas do vazamento de 1,3 milhão de litros de um duto da Petrobras na baía de Guanabara, que matou milhares de aves e toneladas de peixes, contaminou manguezais sem conta e influiu diretamente na cadeia de vida no mar. Foi a maior tragédia ambiental na história da baía.
A imagem do mergulhão asfixiado era uma dura condenação da ação miserável do homem, de seu devastador domínio sobre a natureza. Conheço gente que ficou sem dormir por isso.
Não se tratava apenas de um ser em agonia, mas do que ele representava -as muitas famílias, humanas ou não, que, como ele, tinham perdido seu ambiente e sustento. Algumas dessas famílias nunca se recuperaram, e boa parte do óleo continua até hoje no fundo da baía.
Onze funcionários da Petrobras foram processados. Dez anos depois, o processo terminou, e com o resultado que se esperava: todos, de um jeito ou de outro, absolvidos. Nem a angustiante figura do mergulhão conseguiu sobrepujar as firulas e tecnicalidades jurídicas que levaram à absolvição.
Ouço dizer que, na época da calamidade, os sistemas de controle dessas agressões pelo Ibama eram muito mais tíbios e que, hoje, a Petrobras não se safaria tão facilmente. Leio também que a própria Petrobras, prevenindo zebras, passou a investir mais na gestão ambiental.
Quero crer. Até lá, vale o que um cético disse outro dia: exceto se for pobre, ninguém vai preso no Brasil; se preso, não será julgado; se julgado, não será condenado; e, se condenado, não terá de cumprir a pena. O mergulhão morreu em vão e pelos pecados de todos nós.
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6:48 PM by Cassiano Leonel Drum
ELIANE CANTANHÊDE
Nas estrelas
BRASÍLIA - Como estava escrito nas estrelas (e previsto pelos quatro estrelas do Alto Comando da Aeronáutica), Jobim, Amorim e uma fila de autoridades negaram a informação de ontem da Folha de que o presidente Lula e o ministro da Defesa já tenham batido o martelo a favor dos caças Rafale.
Mas isso já iria acontecer mesmo e finalmente aconteceu depois que a francesa Dassault aceitou um desconto de US$ 2 bi no seu pacote, que inclui 36 aviões, logística, armamento e transferência de tecnologia para transformar o Brasil em futuro produtor de aviões supersônicos.
Como também prometiam a Suécia e os EUA, mas com menores preços, entre outras vantagens.
Vale a pena até registrar o cuidado da Aeronáutica para "desmentir" sem mentir. Diz a sua nota que não houve "comunicado oficial" -o que não exclui um comunicado pessoal e verbal sobre a decisão.
A questão é que os desmentidos foram protocolares, e nem o governo americano, nem o sueco, nem a Boeing, nem a Saab são bobos. Se o Brasil mandou renegociar só o preço dos franceses, depois de fechada toda a etapa de propostas e avaliações, os outros dois, a Suécia e os EUA, também querem.
Se, como dizem Jobim e Amorim, não há decisão e tudo ainda está em estudo, que se mantenha o teatro, ops!, o ritual de dar as mesmas chances, iguaizinhas, para todos. Assim são processos de seleção sérios e justos, de países sérios e justos. E que se arrogam líderes.
O resultado é que a decisão já está tomada, mas a agonia continua, com Jobim quebrando a cabeça e manejando a pena para criar argumentos lógicos, racionais e convincentes para explicar por que foi um e não o outro, indicado por quem entende desse riscado.
Ele vai precisar de muita imaginação. Do contrário, é melhor justificar a decisão numa única linha: "Vão ser os Rafale e pronto". Ou mais curto ainda: "Porque eu, Lula, e eu, Jobim, queremos".
elianec@uol.com,br
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7:00 AM by Cassiano Leonel Drum
Ficções e relações na internet
Há quem diga que na internet está todo mundo sozinho junto com todo mundo. Há quem reclame dos excessos de “imeils” e da falta de controles na rede. Existem os que acham que a maior parte das mensagens é superficial, de baixo nível ou comercial demais.
Críticas e elogios à parte, a coisa está aí para ser bem utilizada e até os vovôs estão navegando, à procura do que for possível. Esse papo todo é para introduzir o belo livro de contos Histórias do Mundo Virtual, de Tânia Alegria, gaúcha radicada em Portugal e finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2009 com o livro de poemas InVerso.
A coletânea tem ilustrações da fotógrafa espanhola Beatriz Morán e suas oito narrativas retratam os afetos e desafetos do mundo virtual, onde, como se sabe, não há fronteiras e limites. Tânia Alegria nasceu em Porto Alegre e desde 1969 reside em Portugal.
Formada em Direito e Ciências Sociais pela Pucrs e pós-graduada em Ciências Sociais e Políticas em Lisboa, depois de 25 anos trabalhando com comércio exterior Tânia, leitora obstinada desde jovem, resolveu dedicar-se a escrever. Já publicou contos e poemas no Brasil, em Portugal e na Espanha, e neste Histórias do Mundo Virtual revela-se pessoa e narradora experiente.
Encontros e desencontros, amores e desamores, certezas e equívocos, crimes e intrigas e muito mais dos universos reais e virtuais, habilmente mesclados por Tânia, estão nos contos da antologia, que, de quebra, têm altas doses de poesia e sensibilidade verdadeiramente humana. Ah, tem ainda fina ironia e humor nas histórias de homens e mulheres meio indefinidos de nosso tempo.
Na introdução, Cristiano Crivella referiu que “percorrendo sem passaporte os caminhos da palavra escrita, os protagonistas das diversas narrativas que compõem a obra tentam transpor as fronteiras entre o mundo real e o virtual, envolvendo-se em relações afetivas caracterizadas por contornos nebulosos e cujo desfecho é imprevisível.” É por aí.
Tânia Alegria mostra os velhos seres humanos envolvidos com os novos meios eletrônicos de comunicação e, a partir daí, afloram sentimentos, emoções, amores, desamores e rancores de todos nós, protagonistas desses dias em que cada um é seu próprio editor, como previu Marshall McLuhan há décadas.
As ilustrações de Beatriz Morán dão um toque especial ao volume de narrativas. 136 páginas, Editora Movimento, Crivella Editora e Editora e Livraria Porto Alegre, telefone (51) 3337-3836.
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6:57 AM by Cassiano Leonel Drum
Rei morto, república posta
Acaba de ser lançado o segundo volume da famosa série Revolução Francesa, do professor, jornalista, político e escritor Max Gallo, best-seller na França, com mais de 250 mil exemplares vendidos.
O volume tem por título Às armas, Cidadãos e refere-se ao período 1793-1799, justamente o período que sucedeu ao guilhotinamento do rei Luís XVI. O primeiro volume da série, lançado há poucos meses pela L&PM, intitulado O Povo e o Rei, cobriu o período 1774-1793, desde a coroação até a queda de Luís XVI, o “Luís Capeto”.
Com o rei morto, a luta pelos valores de liberdade e igualdade foi travada na política e teve como aliada principal a guilhotina: os jacobinos, liderados por Robespierre, clamam ao povo que a punição do rei não seja o fim da batalha. Os girondinos, formados pela elite dominante, assumem o poder com a morte de Robespierre e tentam uma conciliação. No entanto, o povo permanece insatisfeito.
O golpe e o fim da Revolução vêm por Napoleão, levando a França para mais um período de ditadura e império.Com a precisão histórica, com a agilidade de uma boa reportagem e com a sedução narrativa digna de um bom romance, Max Gallo revela a desintegração do poder e o surgimento de um mundo novo que sonha com a paz e pratica a guerra num rio de sangue.
Com novas visões históricas, Gallo mostra que o derramamento do sangue real de Luís XVI, num momento crucial da história, tornou impossível qualquer tipo de conciliação. O perigo andava por toda a parte, tanto nas fronteiras quando dentro do país.
Por quase nada as pessoas se tornavam suspeitas de trair a pátria e a guilhotina - a navalha nacional - ameaçava a todos. O terror está na ordem do dia e o povo, por sua vez, passava fome. Finalmente, em 1795, o diretório proclama o tempo da Concórdia e todos começam a sonhar com uma reconciliação.
Mas os dirigentes corrompidos desviam as riquezas, se refestelam no luxo e o povo volta a reclamar: no tempo de Robespierre, pelo menos tínhamos pão! Max Gallo é autor de dezenas de livros, sendo a maior parte deles constituída de romances com fundo histórico.
Nas páginas da série Revolução Francesa, sem dúvida o maior acontecimento da idade moderna, o autor dá voz aos personagens do período e torna a revolução viva, como se tudo fosse como a trama de um romance policial. Tradução de Julia da Rosa Simões, 344 páginas, R$ 58,00, L&PM Editores, telefone (51) 3225-5777.
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6:53 AM by Cassiano Leonel Drum
05 de fevereiro de 2010 | N° 16237
PAULO SANT’ANA
Por que fumo
Estive interpretando o meu hábito de fumar. Por que fumo? Psicologicamente porque não tenho paciência para esperar.
Como fico impaciente em todos os momentos de ócio, recorro ao cigarro para amenizar a impaciência.
Li certa vez um artigo de um psiquiatra em que ele afirmou que o fumante recorre ao cigarro sempre que se defronta com um obstáculo. É mais ou menos isso.
O fumante se torna, assim, uma presa indefesa das suas grandes ou pequenas aflições e recorre à fuga do tabagismo como única resposta para a sua atribulação.
Mas como é que o fumante, nas ocasiões alegres e prazerosas, ainda assim recorre ao cigarro? Talvez porque, entregue ao deleite, quer naquele momento afastar de si qualquer lembrança que haja em seu espírito das dificuldades por que passa, tornando mais intenso e fixo o prazer.
O cigarro não passa de uma tolice e de uma fraqueza. Tanto que milhões de fumantes deixam de fumar e se sentem iguais ou melhores do que no tempo em que fumavam.
Basicamente, o vício de fumar é o preenchimento gestual de uma divagação, de uma reflexão.
Fora de dúvida que, embora não solucionem seus problemas ao acender um cigarro, os fumantes, no entanto, atravessam melhor a imposição dos passatempos quando fumam. Ao fumante, a vida parece ser mais tolerável e melhor de ser enfrentada com o cigarro.
E, para o viciado em tabaco, a vida se torna insuportável sem o cigarro.
Quanto ao gosto por fumar, o sabor de fumar, não tenho muito que declarar. Não sinto gosto ao fumar, não sinto delícia pelo sabor do fumo quando o ingiro em meu corpo.
Essa afirmação, no entanto, se contradiz ante o fato de que só fumo uma marca de cigarro, nenhuma outra me atrai e até não consigo fumar cigarros de outras marcas, o que parece querer dizer que aprecio, sim, o gosto de fumo. E o único gosto que me serve – ou o melhor gosto que me serve – é o da marca do cigarro que fumo.
Há fumantes que adoram puxar profundamente a fumaça, quando da tragada, até os pulmões.
Não é o meu caso, não trago profundamente a fumaça do cigarro, faço-o apenas superficialmente, pressinto que o fumo pouco passa da laringe e se vai aos pulmões é em pequena quantidade.
É uma tolice fumar. Mas o homem vive imerso em tolices.
Só que eu podia ter arranjado uma tolice menos prejudicial e mais higiênica para mim.
O presidente chinês Hu Jintao está declarando que já havia pedido a Barack Obama que não recebesse nos EUA o líder espiritual do Tibete, o Dalai Lama.
O porta-voz da Casa Branca, Bill Burton, declarou que Barack Obama avisou Pequim no ano passado de que se encontraria com o Dalai Lama.
Está feito o impasse, porque a China não quer o encontro, alegando que quaisquer contatos entre países diversos com o Dalai Lama significam prestígio à causa separatista do Tibete.
É uma visível e indevida intervenção da China na liberdade diplomática e política norte-americana.
Mas ameaça um estrondo entre as duas potências.
A China insiste em manter o Tibete afivelado política e institucionalmente a seu território.
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6:50 AM by Cassiano Leonel Drum
05 de fevereiro de 2010 | N° 16237
DAVID COIMBRA
Os presos do Brasil
Prende-se demais neste país.
Prende-se errado.
A prisão é um instrumento punitivo mais ou menos recente no mundo ocidental. Consagrou-se com a Revolução Francesa, como quase todas as instituições do Estado moderno. Antes do século 18, os criminosos não eram presos.
O Estado já se vingou do infrator, e o fazia com tanta crueldade que a Lei de Talião, o “olho por olho, dente por dente”, foi considerada um avanço – pelo menos estabelecia-se uma relação entre o delito e a punição. Com a sofisticação da Civilização, houve outros avanços, embora lentos. A ninguém ocorria a ideia de restringir a liberdade do condenado.
O buraco no chão em que Herodes atirou João Batista, a masmorra na qual os legionários de Nero aprisionaram Pedro, a caverna em que Sócrates recebia Platão durante o período do seu julgamento, cada cárcere desses tinha a mesma função: reter o acusado até que fosse proferida a sentença. Assim, a pena de João Batista foi a decapitação, a de Pedro ser crucificado de cabeça para baixo no Coliseu e a de Sócrates beber um cálice de cicuta. A nenhum deles cabia a possibilidade da reclusão forçada.
Na Idade Média, a mesma coisa. Não havia penitenciárias. As masmorras serviam para que o acusado esperasse pela condenação, que não raro era de mutilação, açoite, estripamento, humilhação pública ou, se o sujeito tivesse sorte, a morte rápida.
A restrição de liberdade surgiu como uma medida humanitária, portanto. E foi. Mas está desgastada.
A Arte, que está sempre à frente do Direito, ofereceu um exemplo bem ilustrativo disso, e o melhor: com base na realidade. No filme Meu Nome não é Johnny, o protagonista, João Estrela, é preso por tráfico de drogas.
Ele de fato é um traficante, mas a juíza que examina seu caso percebe que se trata mais de um aventureiro do que de um traficante profissional. Pela letra fria da lei, teria de condená-lo à reclusão por longo período. Mas resolve lhe imputar uma pena alternativa: o recolhimento por dois anos a um manicômio judiciário.
É o que lhe salva a vida. Saído do manicômio, João Estrela passou a trabalhar e reintegrou-se à comunidade. Tivesse sido preso, transformar-se-ia irremediavelmente em um bandido.
É o que causam certas condenações. O sujeito comete um delito, mas não é um bandido. Talvez seja um projeto de, mas ainda não o é. Preso, torna-se um. Pelo convívio com assassinos, estupradores, sequestradores e traficantes, por ter de sobreviver nesse meio e, também, porque ele passa a ver-se como um bandido.
Ele foi reduzido a tal, agora é esta a sua vida. Ele não tem alternativa, porque suas referências sociais são as do presídio. As do mundo do crime.
O debate que levanta o Rio Grande, o chamado “prende-solta”, é um debate atrasado e triste. Nunca se prendeu tanto no Brasil, nunca os presídios estiveram tão lotados, e nunca a criminalidade foi tamanha.
A repressão do Estado é importante e tem de ser bem aparelhada. Mas a pena de restrição de liberdade não há que ser a principal forma de punição. A Justiça precisa dispor de outras ferramentas punitivas. Não porque é mais humano. Não para que se faça bondade com o infrator. Mas porque é mais inteligente.
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