Espero que retornes
sempre a este espaço feito para você.
Obsessivo pela vida e por tudo que ainda não descobri, seguirei na busca de mais sorrisos, abraços, emoções e tudo o que me faça perder o chão. Adoro o mundo virtual e sei que o mundo real nem sempre é a melhor opção, mas não sairei por aí, voando sem direção!
Acredito que a vida é a história mais bonita - e espero longa - que podemos escrever mas isso possui um lado bom: Essa história é só minha, não importa quantos personagens passem por ela, não importa quantos desastres façam parte da minha história, o mais interessante desse enredo é esperar e desejar que tudo sempre acabe com um final feliz.
E se você minha amiga, tem alguma dúvida quanto a isso, lembre-se que é você quem está escrevendo a sua própria história, portanto, tem o direito e o dever de fazer dela uma linda história e eternizá-la. As emoções preenchidas hoje, serão a nossa maior saudade de amanhã! Viver intensamente é apenas viver. Não queira outra forma de vivenciar essa passagem.
E penses: Seremos até o fim da vida um livro inacabado, delineado, com orelhas e páginas soltas, Muitas escritas é verdade mas esperamos tenham muitas em branco a serem preenchidas ainda. Com um enredo mutante com ou sem técnica na escrita. Poemas, poesias, prosas e crônicas sem metragem, nem limites.
A capa tenta fazer jus ao contexto mas pouco consegue. Minhas páginas já construídas ora tem fotografias e desenhos coloridos ora o P&B predomina e a história vai seguindo alternando-se nas classes literárias e também criando novas. Porque a minha história não é a melhor que a sua ou de quem quer que seja, nem pior, é apenas única.
Durante uma vida, não podemos ver tudo o que gostaríamos
de observar ou aprender,tudo que desejaríamos saber.Com um amigo nesta caminhada tudo fica mais fácil.Obrigado por vires aqui todos os dias e seres meu amigo
Vejo no noticioso que estamos em último lugar quanto ao retorno,para cada cidadão, dos gigantescos impostos que pagamos mesmo num cafezinho. Em muitas coisas andamos lá na rabeira do mundo, mas parece que nosso ufanismo continua pulsante.
Vai daí, acompanho meio distraída a celeuma em torno de alguma cena tórrida numa das camas do Big Brother, programa a que assisti há anos, quando ele se iniciava, achando bobamente que aquilo não iria durar.
Depois, vi fragmento e ouvi comentários, o suficiente para notar que a vulgaridade se perpetua e torna sem que se perceba: fica natural. Há quem vá me achar antiquada, alienada, severa.
Não imagino que a gente deva usar saia comprida, manga idem, feito freiras de antigamente. Detesto a antiga hipocrisia em assuntos sexuais. Naturalidade e liberdade são positivas, mas a gente não precisa exagerar... Precisamos, já grandinhas, usar saia tão curta que a maioria fica tentando puxar um centímetro mais para baixo, num desconforto idiota?
Precisamos, homens e mulheres, fingir que sexo é só o que importa, ou em idade avançada expor peles murchas em profundíssimos decotes como se o tempo nos tivesse ignorado? Um pouco de recato é questão de higiene, dia uma amiga minha, jovem e sensata. Mas haja coragem para nadar contra a correnteza, em quase todos os assuntos e modismos deste nosso tempo.
Aí vem o tal programa BBB, que virou manchete, no qual um casal (nada original, pois a isso eu mesma assisti nos primeiros tempos) faz ou finge fazer sexo embaixo da coberta sabendo que é filmado.
Nada novo, isso já se viu ali com alguns parceiros a mais na cama, ou no sofá espiando, pois, se é o olhar voraz do BB que tudo espreita, por que não? Alguém ousou reclamar, mas parece que a maioria achou tudo bobagem, todos estavam gostando, o povo espectador aplaudindo, por que não, por que não?
Afinal, não somos tropicais, liberados, avançados, modernos, embora digam que somos Terceiro Mundo – ou exatamente porque somos? Não sei se progresso se mede pela vulgaridade. Não sei se avanço se calcula conforme a deselegância, e se ascender socialmente implica baixar as calças, levantar a saia, tirar o que sobrou do sutiã. Tenho dúvidas.
Tenho insegurança a respeito do que representam essas drásticas mudanças, do antigo primeiro tímido beijo na boca cheio de encantamento e mistério, e esse ficar atual, muitas vezes ainda na infância, no qual vale quase tudo e meninas engravidam sem saber – e sem saber de quem – nesses falsamente inocentes joguinhos eróticos em salões de festa, quando a luz diminui, ou dentro de piscinas sem adulto por perto, ma com bebida.
Escrevi há tempos dois artigos dizendo que família deveria ser careta: cada dia me convenço mais de que toda a sociedade deveria ser um pouquinho mais careta. Com jovens menos pressionados a enveredar precocemente por uma sexualidade que ainda não é a deles nem psíquicas nem biologicamente.
Com adultos que não precisam inventar uma modernidade fictícia, mas ser amorosos e responsáveis – mais naturalmente alegres, não tendo de se expor de corpo e alma, feito, diz minha amiga Lygia Fagundes Telles, “carne em gancho de açougue”.
Essa aceleração no escrachado, no pretensamente liberado, essa ânsia de ser uma celebridade, de ser notado (não necessariamente amado), essa exigência de ter imediatamente um emprego bom, fácil, muito bem pago, e todas as sensações que o mundo (da fantasia) pode oferecer, depressa, logo, agora, não têm volta.
Pois a construção de uma vida, uma profissão, uma pessoa, importo pouco diante da onde de caricaturas de mulheres, homens ou gays que invade nossas telinhas e respinga no nosso colo. E o mundo gira para a frente. Tudo está virando um grande cenário de reality show?
Que reality, aliás? Pois não me parece que essa seja a realidade concreta. E é isso que alimenta minha esperança de que, apesar de tudo, se afirme e espalhe a velha mania do bom gosto e da compostura, que, como caldo de galinha, nunca fez mal a ninguém.
* Escritora - Tradutora. Colunista da VEJA - Fonte: Revista VEJA impressa, ed. 2254, nº 5 - 01 de fevereiro de 2012.
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5:54 PM by Cassiano Leonel Drum Por CHARLES DUHIGG e KEITH BRADSHER
Aonde foram os empregos do iPhone
Em feira de empregos no ano passado, a Foxconn Technology, que monta iPhones na China, foi inundada de candidaturas.
Não faz muito tempo, a Apple se gabava de seus produtos serem fabricados nos Estados Unidos. Hoje quase todos os 70 milhões de iPhones, 30 milhões de iPads e 59 milhões de outros produtos que a Apple vendeu no ano passado foram montados em outros países.
Em um jantar na Califórnia em fevereiro do ano passado, o presidente Obama perguntou a Steven P. Jobs, da Apple, por que esses empregos não poderiam voltar para os EUA. "Esses empregos não vão retornar", Jobs teria respondido.
Não é apenas uma questão de os salários fora dos Estados Unidos serem mais baixos. Os executivos da Apple acreditam que a enorme escala das fábricas no exterior, além da flexibilidade, diligência e habilidade industrial dos operários estrangeiros, já superaram tanto suas contrapartes americanas que "made in the USA" deixou de ser uma opção viável para a maioria dos produtos da Apple.
Um ex-executivo descreveu como a Apple pediu para uma fábrica chinesa modificar a produção do iPhone semanas antes de o aparelho chegar às lojas. A Apple tinha modificado a tela do iPhone no último minuto, exigindo uma revisão geral na linha de montagem. Novas telas começaram a chegar na fábrica à meia-noite.
Um chefe de seção acordou 8.000 operários nos alojamentos da companhia, de acordo com o executivo. Cada operário recebeu uma bolacha e uma xícara de chá e, meia hora depois, iniciou um turno de trabalho de 12 horas, encaixando telas de vidro em molduras chanfradas.
"Não existe fábrica americana capaz de fazer algo semelhante", disse o executivo.
A Apple emprega 43 mil pessoas nos Estados Unidos e 20 mil em outros países. Muito mais pessoas trabalham para as empresas para as quais a Apple terceiriza funções: outras 700 mil pessoas trabalham como engenheiras e na fabricação e montagem de iPads, iPhones e de outros produtos da Apple. Mas quase todas elas trabalham para empresas com sede na Ásia, Europa e outros lugares, em plantas das quais todas as companhias de eletrônicos dependem para fabricar seus produtos.
"A Apple é um exemplo da razão pela qual é tão difícil gerar empregos para a classe média nos EUA hoje", disse Jared Bernstein, que até 2011 era assessor econômico da Casa Branca. "Se ela representa o pico mais alto do capitalismo, precisamos nos preocupar."
Histórias semelhantes poderiam ser contadas sobre outras companhias nos Estados Unidos, Europa e outras regiões. A terceirização tornou-se comum em centenas de setores, incluindo a contabilidade, os serviços jurídicos, o setor dos bancos, têxteis e farmacêuticos. Mas, embora a Apple esteja longe de estar isolada nesta tendência, ela oferece uma visão da razão pela qual o sucesso de algumas grandes empresas não vem se traduzindo em número expressivo de empregos no país de origem dessas companhias.
"Antigamente as empresas sentiam a obrigação moral de apoiar os trabalhadores americanos, mesmo quando isso não era a opção financeira mais acertada", comentou Betsey Stevenson, que até setembro passado foi economista do Departamento do Trabalho dos EUA. "Isso deixou de existir. Os lucros e a eficiência falam mais alto que a generosidade."
Executivos da Apple dizem que o sucesso da empresa beneficiou a economia americana, por empoderar empreendedores e gerar empregos. "Não temos a obrigação de resolver os problemas dos EUA", disse um executivo da Apple. "Nossa única obrigação é criar o melhor produto possível."
Conseguindo os empregos
Alguns anos depois de a Apple ter começado a produzir o Macintosh, em 1983, Steve Jobs afirmou que este era "uma máquina fabricada na América". Mas, em 2004, quase todas as operações da Apple eram feitas fora do país.
A Ásia era atraente porque sua mão de obra semiqualificada era barata. Mas não foi isso que levou a Apple a apostar na Ásia.
O foco sobre a Ásia "deveu-se a duas coisas", disse um ex-executivo da Apple. As fábricas na Ásia "conseguem aumentar ou diminuir a escala de produção em menos tempo" e "as cadeias de fornecimento asiáticas já superaram o que existe nos Estados Unidos".
Essas vantagens ficaram evidentes em 2007, assim que Jobs, insatisfeito com o fato de as telas de plástico do iPhone ficarem riscadas, exigiu telas de vidro.
Os fabricantes de celulares vinham evitando usar vidro, havia anos, porque o vidro requer grande precisão no corte e moagem, algo extremamente difícil de conseguir. A Apple já tinha escolhido uma companhia americana, a Corning Inc., para manufaturar vidro reforçado. Mas para descobrir uma maneira de recortar as chapas de vidro em milhões de telas de iPhones seria preciso encontrar uma planta de corte de vidro desocupada, centenas de chapas de vidro para usar em experimentos e um Exército de engenheiros de nível médio.
Então uma fábrica chinesa se candidatou a fazer o trabalho.
Quando uma equipe da Apple visitou a fábrica chinesa, seus proprietários já estavam construindo uma nova ala, "caso vocês nos dêem o contrato", disse o gerente. O governo chinês tinha concordado em subsidiar custos de muitas indústrias, incluindo os dessa fábrica de corte de vidro. Ela tinha um galpão cheio de amostras de vidro disponíveis gratuitamente para a Apple. Os donos disponibilizaram engenheiros a custo quase zero. Eles já tinham construído até dormitórios no local.
A fábrica chinesa ficou com o contrato.
Vantagens chinesas
A oito horas de carro da fábrica de vidro fica um complexo, conhecido como Foxconn City, onde o iPhone é montado. O lugar tem 230 mil empregados, muitos dos quais trabalham seis dias por semana, 12 horas por dia. Mais de um quarto da força de trabalho da Foxconn vive em alojamentos coletivos da empresa, e muitos operários recebem menos de US$ 17 por dia.
Em meados de 2007, segundo o ex-executivo da Apple, depois de os engenheiros da Apple terem aperfeiçoado um método de corte de vidro reforçado para que ele pudesse ser usado na tela do iPhone, os primeiros caminhões carregados com o vidro chegaram à Foxconn City no meio da noite. Foi quando os gerentes acordaram milhares de operários para que montassem os celulares.
Em comunicado à imprensa, a Foxconn Technology contestou o relato do ex-executivo e escreveu que um turno que começasse à meia-noite seria impossível, "porque temos regulamentos rígidos relativos aos horários de trabalho de nossos funcionários". A Foxconn disse que os turnos começam ou às 7h ou às 19h e que os empregados são avisados com pelo menos 12 horas de antecedência sobre quaisquer mudanças na programação. Empregados da Foxconn contestaram essa declaração.
A Foxconn possui dezenas de fábrica na Ásia, no leste da Europa, no México e no Brasil. Ela monta estimados 40% dos eletrônicos para consumidores de todo o mundo, e tem clientes como as gigantes Amazon, Dell, Hewlett-Packard, Motorola, Nintendo, Nokia, Samsung e Sony.
Os executivos da Apple tinham estimado que precisariam de cerca de 8.700 engenheiros industriais para o projeto do iPhone. Os analistas da empresa tinham previsto levar até nove meses para encontrar tantos engenheiros nos EUA. Na China, levou 15 dias.
Vários analistas estimam que, se fossem pagos salários americanos, o custo de cada iPhone aumentaria em US$ 65. Mas fabricar o iPhone no país exigiria muito mais que apenas a contratação de americanos: exigiria transformar as economias nacional e global. Os executivos da Apple acreditam que os EUA não possuem as fábricas e os operários que seriam necessários.
Empregos para a classe média minguam
Eric Saragoza entrou na unidade manufatureira da Apple em Elk Grove, Califórnia, pela primeira vez em 1995, e a fábrica perto de Sacramento empregava mais de 1.500 trabalhadores. Saragoza, que é engenheiro, integrou uma equipe de elite de diagnóstico. Seu salário subiu para US$ 50 mil ao ano.
Alguns anos depois de Saragoza começar no emprego, seus patrões explicaram que o custo de fabricação de um computador de US$ 1.500 em Elk Grove era de US$ 22 por aparelho. Em Cingapura, era de US$ 6. Em Taiwan, US$ 4,85.
Algumas das tarefas realizadas em Elk Grove foram transferidas para o exterior. Depois disso, foi a vez de Saragoza. Um dia em 2002, depois de concluir seu turno, ele foi convocado para uma salinha, demitido e escoltado para fora do prédio da empresa.
Depois de alguns meses, procurando trabalho para sustentar sua família de sete pessoas, Saragoza começou a se desesperar. Então aceitou um emprego para verificar iPhones e iPads devolvidos. Por US$ 10 a hora, sem benefícios, esfregava milhares de telas de vidro. Depois de dois meses ele se demitiu. O salário era tão baixo que valia mais procurar outros empregos.
Uma noite, enquanto Saragoza enviava currículos on-line, do outro lado do mundo uma mulher chegava ao escritório. A funcionária, Lina Lin, é gerente de projeto em Shenzhen, China, da PCH International, que tem contratos com a Apple para produzir acessórios, como os estojos que protegem as telas de vidro do iPad.
Lin ganha um pouco menos do que a Apple pagava a Saragoza. Todos os meses ela e seu marido colocam um quarto de seus salários no banco. "Empregos não faltam em Shenzhen", disse Lin.
Segundo economistas, uma economia em dificuldade pode ser transformada por fatos inesperados. Por exemplo, a última vez em que analistas arrancaram seus cabelos por causa do desemprego nos EUA foi nos anos 1980 e a internet mal existia. O que ainda não se sabe é se os EUA serão capazes de aproveitar as inovações do futuro para gerar milhões de empregos.
A aparentemente egoística atitude de enriquecer multiplica seus efeitos
em uma sociedade
A crescente educação financeira que vem abraçando a classe média ainda concentra seus esforços em reduzir dívidas, escolher melhor os financiamentos e reduzir gastos supérfluos -isso é previsível, já que passam por aí as principais decisões financeiras da classe média brasileira.
Mas ainda pouco se discute sobre ambição, enriquecimento e independência financeira. Falar sobre enriquecimento ainda é tabu em nossa cultura.
Seria bom mudar isso. Ao buscar sua riqueza e, principalmente, compartilhar com pessoas próximas seus objetivos, você estará não só encurtando o trajeto para alcançá-los como também estará contribuindo para a riqueza de muitas outras pessoas.
Colocando em prática um plano de investimentos, o primeiro efeito será a formação de uma poupança crescente em seu banco ou em qualquer outro investimento.
Quanto mais recursos um banco tiver nas contas de seus clientes, mais fundos terá para emprestar a empreendedores.
Quanto mais poupança, menores serão os juros, pois dinheiro abundante fica mais barato.
E a conclusão é que, quanto mais os empreendedores de um país investem em seus negócios, mais empregos geram e mais riqueza se multiplica.
A aparentemente egoística atitude de enriquecer multiplica seus efeitos em uma sociedade.
No fundo, um país nunca será rico enquanto seus cidadãos não resolverem enriquecer. Pense um pouco mais em você, no futuro de sua família. Pense nas consequências de negligenciar seu futuro. Nas consequências de ser demasiadamente generoso consigo ou com terceiros hoje, comprometendo no futuro sua capacidade de doar e também de viver.
O mesmo vale para as relações de trabalho. Há uma ilusão generalizada criada pelo mundo corporativo, capaz de induzir o trabalhador a acreditar que ele dedica anos e anos de sua vida a uma suposta causa "de mercado".
O profissional moderno trabalha hoje pela carreira, pelo mercado, mas esquece que os maiores interessados em seu sucesso não são seu empregador nem esse "mercado", mas sim sua família.
As pessoas que mais querem o bem do trabalhador abrem mão de sua companhia, de seu papel de pai ou mãe, marido ou esposa, para que se possa ganhar o pão de cada dia.
A ilusão está no fato de o trabalhador ser induzido a acreditar que a empresa é mais importante que ele mesmo. Seria uma atitude muito egoística reconhecer que trabalhamos e ganhamos apenas pelo fato de estarmos enriquecendo os donos das empresas?
Reflita: as empresas não pagam salários por caridade ou generosidade. Pagarão nossos salários enquanto formos capazes de aumentar seus lucros e, quanto mais contribuirmos para esse aumento, mais seremos recompensados.
Essa visão aparentemente egoística das relações de trabalho é, na verdade, uma visão justa e promotora do enriquecimento.
Cada empresário deveria procurar meios de conscientizar seus colaboradores de que o papel do trabalhador nas empresas é aumentar os lucros dos acionistas. Não há nada de errado ou feio nisso.
É justo, pois o acionista, antes de mais nada, é aquele que soube reservar parte de sua riqueza e então colocá-la para trabalhar, contando com terceiros -seus colaboradores- para ter sucesso nessa tarefa.
Uma provável consequência desse desenvolvimento da consciência coletiva seria a inspiração para que cada colaborador pensasse um pouco mais em seu futuro, reservando parte daquela recompensa para formar uma boa poupança e, um dia, montar sua própria empresa -com outros colaboradores trabalhando para multiplicar seu capital.
Uma sociedade com crescimento saudável passa, portanto, pela necessidade de enriquecimento de cada uma de suas partes.
Se as atuais famílias ricas entesourarem seus conhecimentos sobre riqueza, estarão, no mínimo, fadadas à estagnação de seu patrimônio. Valorizar o enriquecimento dos indivíduos é garantir que os negócios de nossos netos continuem prosperando.
GUSTAVO CERBASI é autor de "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" (ed. Gente) e "Como Organizar sua Vida Financeira" (Elsevier Campus).
As moscas sumiram, pois o lixo orgânico é embalado nas sacolas plásticas; com o seu banimento, veremos lixo pelas ruas ou em caixas de papelão
Quem está com a razão? Os supermercados, os fabricantes, o poder público ou o consumidor?
O debate sobre o acordo do governo com os supermercados a respeito do banimento das sacolas plásticas tem de começar imediatamente e em nome da verdade.
Quais interesses estão realmente envolvidos?
O detalhe é que este acordo voluntário entre o governo e os supermercadistas só atende a um dos lados da balança.
Até agora, parece que os argumentos político e econômico afloram, já que o meio ambiente está só de pano de fundo.
Os supermercados gastam R$ 500 milhões ao ano com as sacolinhas plásticas. Ao tentar bani-las, a pergunta é: eles irão repassar esse custo ao consumidor diminuindo o valor dos produtos?
Esse mesmo consumidor já adquiriu um direito, e agora resolveram tirá-lo sem consultar.
As sacolas plásticas significam somente 0,2% dos aterros sanitários. Elas são muito menos poluentes em todo ciclo de produção e, principalmente, são reutilizáveis.
A questão da saúde pública, pouco abordada neste debate, precisa vir à tona.
Onde estão as moscas? Sumiram, porque o lixo orgânico é embalado nas sacolas plásticas.
Com a operação de banimento, teremos de comprar muito mais sacos de lixo para minimizar este impacto. A conta é simples: em média R$ 75,00 a mais por mês no orçamento doméstico. As classes C, D e E irão aguentar?
Veremos, assim, muito lixo jogado nas ruas ou em caixas de papelão. Vai ocorrer uma ampliação das doenças infecciosas.
Por outro lado, já que o governo, tão cioso pela causa ambiental, entrou nessa história, há uma questão básica a abordar.
Só em São Paulo, mais de 100 mil trabalhadores, direta ou indiretamente, perderão seus empregos.
O governo, como instituição imparcial e isenta, deveria, minimamente, ouvir o conjunto da sociedade envolvida. Assim, além dos citados no início do artigo, os trabalhadores necessariamente teriam que participar do debate.
Diante de tal situação, porque os deputados estaduais não propuseram audiências públicas para coletivizar o debate e tirar conclusões mais imparciais?
Cabe aqui, portanto, algumas conclusões e proposições, diante do cenário que se apresenta:
1) Os interesses econômicos e políticos envolvidos nesta questão estão acima do ambiental;
2) O governo de São Paulo deveria sugerir um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) para definir uma ação conjunta entre os envolvidos e chegar a um acordo que possa satisfazer, a médio prazo, o interesse comum da sociedade;
3) A educação ambiental para o consumo responsável deveria ser o objetivo indutor que formaria a consciência e a sensibilização de todos, voltados para práticas sustentáveis e que relevem o consumo consciente.
Aí sim, ajustados à causa e com imparcialidade, a sociedade e os herdeiros do futuro sustentável agradecerão.
LÍVIO GIOSA, 59, administrador de empresas, é vice-presidente da ADVB (Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil), coordenador do Ires (Instituto ADVB de Responsabilidade Socioambiental) e presidente do Cenma (Centro Nacional de Modernização Empresarial)
30 de janeiro de 2012 | N° 16963
ARTIGOS - Bruna de Mello Vicente*
Tentativa de igualdade
Fiquei estarrecida com os comentários na reportagem de ZH sobre o novo sistema de seleção de cotistas para ingressar na UFRGS. Sou negra e passei em Medicina na UFRGS pelas cotas para negros de escolas públicas. Admira-me que pessoas que tenham estudado História para passar no vestibular critiquem as cotas.
Será que não estudaram que, quando houve a Lei Áurea, os negros ficaram sem emprego e indenização por todos os anos de trabalho forçado e de torturas, ou que grande parte dos imigrantes europeus ganhou terras para morar e trabalhar, ao contrário de nós?
Segundo dados da Síntese dos Indicadores Sociais 2010 feitos pelo IBGE, três quartos dos 10% mais pobres são negros. Pesquisas mostram que até hoje alguns negros que têm o mesmo emprego de brancos ganham menos que estes. As desigualdades ainda existem. Afinal, não é fácil mudar mais de 300 anos de História com apenas 123.
Há algo que muitas vezes esquecemos: as universidades públicas não foram criadas para que pessoas sem condições de pagar um curso superior possam se qualificar? Então, por que vestibulandos de escolas particulares estão reclamando?
Em vez deles, não deveríamos nós, alunos de escola pública, sem renda suficiente para pagar uma universidade particular, pedir maior reserva de vagas? Nem todos que estudam em escola particular têm condições de pagar um curso superior. Muitos estudam lá com bolsas e outros com o esforço de seus pais.
Como os meus, que batalharam para pagar cursinho para eu passar em uma universidade federal, pois não teriam condições de pagar um curso superior. Porém, sabemos que muitos estudantes de escolas particulares têm condições de pagar sua faculdade e estão tirando vagas daqueles que estudam em uma escola pública porque seus pais não podem pagar por sua educação e acabam com um péssimo aprendizado, pois todos nós sabemos que nosso ensino público é muito inferior ao ensino particular.
As pessoas não podem continuar criticando as cotas sem levar em consideração a educação pública brasileira e as condições de índios e negros neste país. Não seria a favor delas se todos vivessem de maneira igualitária, com direitos, condições sociais e raciais iguais e sem preconceitos. Contudo, nossa sociedade não é assim e, enquanto ela não for uma sociedade igual, cotas terão que continuar existindo para tentarmos obter um país sem diferenças sociais.
30 de janeiro de 2012 | N° 16963
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL
Ribamar
Este Ribamar de que falamos é o título de um belíssimo livro de José Castello, saído pela Bertrand do Brasil. O autor é um dos mais importantes intelectuais da cena literária brasileira, e eis que isso é pouco, pois o adjetivo “literária” é muito restrito para designar uma obra que passa pela crítica, pelo jornalismo, pelo ensaísmo, pela crônica e, em grande estilo, pela ampla reflexão artística.
Com sua dicção mansa, José Castello nos convence de seus juízos sem apelar para teorias ou modelos interpretativos, e assim ele se insere numa importante vertente da crítica literária brasileira, aquela que situa a obra dentro de um quadro maior e ancorado no tempo e no espaço. Mas José Castello, com sua inventividade, é também romancista, e premiado em certames dos mais prestigiados, como o Jabuti – que não lhe falhou no livro de que nos ocupamos.
Ribamar, se quisermos – e não queremos – reduzir a um breve conceito, seria o romance da paciência. A paciência já começa pelo tempo de escrita que, parece, levou uns quatro anos inteiros. É preciso que o livro decante, que as palavras se acomodem umas às outras. É o romance da paciência, também, porque tratar de uma relação pai e filho, ainda que no plano ficcional, é preciso muito tempo, o tempo para desfazer as amarguras e as incompreensões. O autor, que assume um narrador em primeira pessoa, cita Kafka, especialmente o Kafka do Carta ao Pai, obra que tem um extraordinário papel no romance.
Acompanhamos, com alvoroçada parcimônia – passe a contradição –, o crescer do filho à medida em que entende melhor o pai, ou melhor, sai à busca dos elementos para entendê-lo, o que o leva a um labirinto em que não há um minotauro à espera, mas uma figura humana a ser discutida, detestada e amada.
A percorrer os vários capítulos, há fragmentos de uma mesma canção versada em fragmentos do pentagrama, escrita numa linguagem redonda, infantil, que era a canção Cala a Boca, que lhe cantava o pai.
A linguagem, por ser de um filho, sempre terá um timbre de dependência, mas que é capaz de dizer, de maneira comovente, referindo-se à relação com o pai: “Talvez eu tenha escolhido armas inadequadas, como um boxeador que, ao subir ao ringue, em vez de vestir luvas, porta um sabre”.
Belo, sim – e terrível. E apenas um grande livro é capaz de dizer tudo isso.
Ao meio-dia de ontem surgiu a informação decepcionante: D’Alessandro permanece no Internacional.
Foi um golpe de mestre do argentino. Deixou a torcida colorada nervosa com a possibilidade de sua saída, levou até o fim a expectativa, enquanto negociava com os dirigentes do Internacional um volumoso aumento de salário.
Obteve o aumento, fica em Porto Alegre, onde já está ambientado. É sempre difícil arranjar uma babá para os filhos na China, sua esposa iria encontrar um ambiente desconhecido e uma língua intraduzível. Foi muito melhor permanecer a uma hora de viagem de Buenos Aires e com os bolsos cheios de dinheiro.
Pior que a expectativa dos torcedores do Internacional foi a dos torcedores do Grêmio.
Dizia-se que a proposta dos chineses era irrecusável, e nós, gremistas, tínhamos razões de sobra para esperar um ótimo desfecho, que não veio.
Parece que vamos ter de aguentar mesmo até a inauguração da Arena o futebol lúcido e construtivo de D’Alessandro ao lado dessa potência física que não envelhece chamada Guiñazu.
Resta ao Grêmio esperar com paciência que D’Alessandro e Guiñazu envelheçam e a disputa Gre-Nal volte então a ser parelha.
D’Alessandro foi perfeito em sua estratégia. Tinha ouvido o estádio colorado inteiro gritar para que ele ficasse, mas mesmo assim não confirmou, astuciosamente, sua permanência.
É lógico, faltava o acerto com o Internacional. Os torcedores colorados saíram do Beira-Rio com uma dupla frustração: vitória insuficiente por 1 a 0 contra o Once Caldas, que deverá decretar a desclassificação vermelha, e as declarações lacônicas de D’Alessandro, dando a entender que iria embora.
No entanto, D’Alessandro jogava com maestria, queria arrancar mais dinheiro do Internacional, o que conseguiu afinal. O ralo 1 a 0 aterrorizou Giovani Luigi, que cedeu ao argentino e estará pagando agora a D’Alessandro o maior salário que já se pagou em todos os tempos a um jogador no RS.
Golpe de mestre de D’Alessandro. Os argentinos são mestres em negociar com os brasileiros, fazem de nós o que bem entendem, tomam o nosso dinheiro e juram que sempre amaram o Brasil e o clube brasileiro por que jogam.
Tudo bem para os colorados, que vão ficar com o jogador, embora tenham de pagar os tubos.
Mas, e para nós, gremistas, que ficamos torcendo uma semana para o D’Alessandro ir embora, o que nos restou?
Uma profunda decepção e mais uma vez uma roupa e nariz de palhaço diante dessa farsa talentosamente armada pelo D’Alessandro.
O Espião que Sabia Demais é o título bobo de um bom filme. Mas um comentário que ouvi na saída do cinema diz tudo: “Não entendi nada, mas adorei”. É daqueles filmes em que a interpretação de alguns atores, a atmosfera, a fotografia etc. dispensam a compreensão. Você não precisa entender para adorar. Tudo é para ser subentendido, e este é um dos seus atrativos.
Mas quem não quer que o subentendido seja tão “sub” assim talvez saia do cinema frustrado. Desafio qualquer um que viu o filme a dizer o que, exatamente, incrimina o “mole”, ou a toupeira plantada pelos soviéticos no Serviço Secreto britânico que George Smiley acaba desmascarando. Ou então isto está explícito no filme e eu é que perdi. Nunca se deve descartar os devaneios, ou a burrice, de um crítico.
Quem não se contenta em gostar sem entender pode preparar-se antes de ver o filme. Fazer uma espécie de curso de iniciação à trama. A melhor opção seria ler o livro do John Le Carré no qual o filme é inspirado. Le Carré também costuma ser elíptico quando poderia ser direto, mas no livro não há dúvida sobre a armadilha que montam para enredar o espião. Quem não puder ler o livro pode procurar a série feita pela BBC, com Alec Guinness no papel de George Smiley.
Serviria como uma introdução ao mundo de Smiley e o desenlace seria suficientemente claro para você depois poder aproveitar o filme atual sem se preocupar em entendê-lo. Só que aí teríamos outro problema. A BBC e Alec Guinness fizeram a adaptação definitiva de Le Carré e do seu improvável herói. Nas comparações, O Espião que Sabia Demais perderia feio e nem um ator com a qualidade de Gary Oldman se salvaria. Depois de Alec Guinness, qualquer outro George Smiley é certamente um impostor.
As duas melhores versões para o cinema de livros do Le Carré, na minha opinião, são a primeira, O Espião que Saiu do Frio, com Richard Burton dirigido por Martin Ritt, e A Casa da Rússia, com Sean Connery dirigido por Fred Schepisi, que, além da beleza da Michelle Pfeifer como a russa cujo encanto é mais forte do que qualquer lealdade ou ideologia, tem a beleza da música de Jerry Goldsmith. O Jardineiro Fiel, do nosso Fernando Meireles, foi uma tentativa respeitável. O terceiro lugar é dele.
O quarto, vá lá, é de O Espião que Sabia Demais.
Mudos
Não sei se O Artista merece toda essa festa. É um filme agradável e curioso com alguns bons achados, mas a novidade se esgota em pouco tempo. E ele tem um precursor que, se não era muito melhor, foi o primeiro com a mesma ideia, o Filme Mudo, do Mel Brooks. A melhor piada do Brooks: só um personagem fala em todo o filme – o mímico Marcel Marceau. As melhores piadas de O Artista são do cachorro.
Em "O Formigueiro", eu queria expor o "cerne claro" da palavra, materializado no branco da página
Não vou discutir se o que escrevo, como poeta, é bom ou ruim. Uma coisa, porém, é verdade: parto sempre de algo, para mim inesperado, a que chamo de espanto. E é isso que me dá prazer, me faz criar o poema.
E, por isso mesmo, também, copiar não tem graça. Um dos poemas mais inesperados que escrevi foi "O Formigueiro", no comecinho do movimento da poesia concreta.
É que, após os últimos poemas de "A Luta Corporal" (1953), entrei num impasse, porque, inadvertidamente, implodira minha linguagem poética. Não podia voltar atrás nem seguir em frente.
Foi quando, instigado por três jovens poetas paulistas, tentei reconstruir o poema. Havíamos optado por trocar o discurso pela sintaxe visual.
Já em alguns poemas de "A Luta Corporal", havia explorado a materialidade da palavra escrita, percebendo o branco da página como parte da linguagem, como o seu contrário, o silêncio.
Por isso, diferentemente dos paulistas -que exploravam o grafismo dos vocábulos, desintegrando-os em letras-, eu desejava expor o "cerne claro" da palavra, materializado no branco da página.
Daí porque, nesse poema, busquei um modo de grafar as palavras, não mais como uma sucessão de letras, e sim como construção aberta, deixando à mostra seu núcleo de silêncio.
Mas não podia grafá-las pondo as letras numa ordem arbitrária. Por isso, tive de descobrir um meio de superar o arbitrário, de criar uma determinação necessária.
Ocorre, porém, que essas eram questões latentes em mim, mas era necessário surgir a motivação poética para pô-las em prática.
E isso surgiu das próprias letras, que, de repente, me pareceram formigas, o que me levou a uma lembrança mágica, de minha infância, em nossa casa, em São Luís do Maranhão.
A casa tinha um amplo quintal, em que surgiu, certa manhã, um formigueiro: eram formigas ruivas que brotavam de dentro da terra.
Eu ouvira dizer que "onde tem formiga tem dinheiro enterrado" e convenci minhas irmãs a cavarem comigo o chão do quintal de onde brotavam as formigas. E cavamos a tarde inteira à procura do tesouro que não aparecia, até que caiu uma tempestade e pôs fim à nossa busca.
Foi essa lembrança que abriu o caminho para o poema, mas não sabia como realizá-lo. Basicamente, eu tinha as letras, que me lembravam formigas, mas isso era apenas o pretexto-tema para explorar a linguagem em sua ambiguidade de som e silêncio, matéria e significado. Que fazer então?
Como encontrei a solução, não me lembro, mas sei que não surgiu pronta, e sim como possibilidades a explorar.
Tinha a palavra "formiga", que era o elemento cerne. Experimentei desintegrá-la -numa explosão que dispersou as letras até o limite da página- e depois a reconstruí numa nova ordem: já não era a palavra "formiga", e sim um signo inventado. Foi então que pensei em grafar as palavras numa ordem outra e que nos permitisse lê-las.
Em seguida, surgiu a ideia mais importante para a invenção do poema: constituir um núcleo, formado por uma série de frases dispostas de tal modo que as letras de certas palavras servissem para formar outras. Nasceu o núcleo do poema, a metáfora gráfica de um formigueiro.
Ele surgiu da conjugação das seguintes frases: "A formiga trabalha na treva a terra cega traça o mapa do ouro maldita urbe".
Construído esse núcleo, o poema nasceu dele, palavra por palavra, sendo que cada palavra ocupava uma página inteira e suas letras obedeciam à posição que ocupavam no núcleo. Desse modo, a forma das palavras nada tinha da escrita comum. Não era arbitrária porque determinada pela posição que cada letra ocupava no núcleo.
"O Formigueiro" foi, na verdade, o primeiro livro-poema que inventei, muito embora, ao fazê-lo, não tivesse consciência disso.
Chamaria de livro-poema um tipo de criação poética em que a integração do poema no livro é de tal ordem que se torna impossível dissociá-los.
Nos livros-poemas posteriores, essa integração é maior, porque as páginas são cortadas para acentuar a expressão vocabular. O livro-poema é que me levou a fazer os poemas espaciais, manuseáveis, e finalmente o poema-enterrado, de que o leitor participa, corporalmente, entrando no poema.
E sabe o que um amigo gritou quando viu a nova presidente da Petrobras? "O Brasil entrou em guerra?!"
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Novidades no periquitério da Dilma! Sabe como se chama a mais cotada pra ser a chefe da Secretaria da Mulher? Inês PANDELÓ! Vai tratar as colegas a pandeló!
E eu tô louco pra ver o pandeló dela. Rarará! E sabe o que um amigo gritou quando viu a nova presidente da Petrobras? "O Brasil entrou em guerra?!" Rarará!
E o predestinado do dia! Olha o nome de um chaveiro em Aracaju: Hugo Chaves! E a previsão da mãe: "Meu filho, você vai se chamar Hugo Chaves, e vai ser chaveiro ou presidente da Venezuela".
E esta de Balneário Camboriú: "Prefeitura resolve parto de égua. Égua que pariu um potro em plena via pública foi recolhida pela Inclusão Social". Por isso que a Dilma é tão popular: tão incluindo até égua.
E eu já disse que a Dilma bateu recorde de popularidade porque esse é o Ano do Dragão. E aquele assessor com um cigarrinho na mão: "Presidenta, tem fogo?". "Tenho". "Então cospe aqui". Rarará!
E sabe o que os moradores de Pinheirinho cantavam enquanto apanhavam da PM? "Ai, ai, assim você me mata!". Avisa pro Alckmin que a polícia de São Paulo parece polícia de ditador árabe!
E o Kassab? O Kassab foi ovacionado no aniversário de SP. Tacaram ovo nele. E subiu o colesterol do ovo. E como escreveu um sujeito no meu Twitter: "Que desperdício e que puta sacanagem com a galinha, que fez a maior força pra botar".
E o BBB? O "Big Bagaça Brasil"! Por que os caras, aqueles rinocerontes tatuados, ficam gritando "obrigado, Brasil"?. Eles deviam era gritar: "DESCULPA, Brasil". E adoro os collants das BBBs. São tão colados que as pererecas ficam em alto relevo! Rarará!
E aquele surreality show da Band, o "Mulheres Ricas"? Devia era se chamar "Vergonha Alheia"! Quando aquelas mulheres abrem a boca, quem fica com vergonha sou eu! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é lúdico! É que, em Palmas de Monte Alto, na Bahia, tem a pousada Camarada - Dormitório e Namoratório. Adorei o namoratório! Rarará! E se você fosse um ovo, que fim você preferiria: frito, cozido ou estourado no Kassab? Estourado no Kassab. Atirado pela Narciza!
E comer fora em São Paulo tá tão caro que os garçons deviam apresentar a conta com meia na cabeça e luvas pra não deixar impressão digital. Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza. Que vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Com algum cuidado com a vaidade e a sorte de ter uma boa saúde, os anos passam e a vida (quase) não muda
Vi na Folha, terça-feira última, um belo caderno especial com o nome "Sem medo de envelhecer", e como costumo me meter em coisas para as quais não fui chamada, vou dar minha opinião.
Só que, sinceramente, não conheço bem o assunto. Vivo da mesma maneira que vivi a vida inteira; quase nada mudou. Deixei de fazer alguma coisa que fazia antes? Poucas, que não me fazem falta (a natureza é sábia), mas sei que fiquei mais impaciente com as pessoas. De resto, tudo igual, praticamente.
Tenho observado que, dependendo do país, a velhice é encarada de maneira diferente. Na Europa, por exemplo, não se refere a uma pessoa dizendo que ela é velha -nem jovem; essas palavras não são usadas quando se fala sobre alguém, seja homem, seja mulher. Ao falar, eles podem dizer eventualmente "deve ter em volta de 50" (ou 60, ou 70), e só.
O Brasil é difícil para quem não é mais uma gatinha -com os homens é diferente, é claro-, e a cada ano surge uma "safra" nova, palavra, aliás, bem deselegante; quando um novo verão se anuncia, algumas, que conseguiram alguma notoriedade no anterior, pela beleza, pelo frescor da juventude, deixam de ser famosas. Só permanecem na crista da onda as que têm um algo mais.
Com algum cuidado com a vaidade e a sorte de ter uma boa saúde, os anos passam e a vida (quase) não muda.
Todos podem -e devem- continuar trabalhando, indo à praia, viajando, dançando, comendo, bebendo, namorando, e muitos são mais felizes do que na plena juventude.
Porque sabem o que querem, não perdem tempo com o que não interessa; as mulheres, como já não têm tantas ilusões, sabem que podem ser felizes sem a necessidade de um amor, um companheiro, um marido; um homem, enfim.
Se encontrarem, ótimo, mas quando olham para trás e lembram do quanto sofreram quando se acharam apaixonadas -um homem era necessário para que uma mulher pudesse existir-, devem pensar: "ah, quanto tempo perdido".
Hoje, homens e mulheres numa faixa de idade mais alta podem fazer tudo o que querem, sem precisar nem mesmo de um amigo/a, porque são mais seguros, coisa que ninguém é quando jovem. A não ser quando desistem e passam a viver não suas próprias vidas, mas as dos filhos, e depois, as dos netos. Aí é a aposentadoria da vida, uma escolha pessoal.
A cultura brasileira é cruel no quesito idade. Dizer que uma pessoa é -ou parece- jovem é um elogio, e chamar de velho é uma maneira de insultar, geralmente usada quando não encontram outra coisa para dizer àqueles de quem não gostam, com quem não concordam.
A rigor, o assunto nem deveria existir -a não ser, é claro, para ajudar os que não podem viver com independência, precisando de cuidados especiais, o que pode acontecer com gente de qualquer idade, gente que teve a má sorte de ter problemas de saúde.
Nessa minha última viagem, percebi que em Paris, por exemplo, ninguém é apontado como gay; que seja um homem (ou mulher) que tem relações amorosas com pessoas do mesmo sexo, disso não se fala -tanto como não se fala se alguém é jovem ou não. As pessoas são como são, e ninguém perde tempo "carimbando" ninguém; simplesmente não tem importância.
Mas aqui, ai da mulher que é ou foi bonita, quando os anos vão chegando. Essas não são perdoadas, e a idade que têm é assunto de discussão, se têm dois anos a mais ou a menos.
Por isso, resolvi aumentar a minha, e se me perguntam, digo que acabei de completar 91 anos; assim, corro o risco de ouvir um "mas que incrível, não parece", o que é sempre bom de ouvir.
E como estou saindo de férias, mando um beijo e até março.
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9:43 AM by Cassiano Leonel Drum Eliane Cantanhêde
No devido lugar
BRASÍLIA - O porta-voz do Irã, Ali Akbar Javanfekr, disse que Lula "está fazendo muita falta", e o chanceler do Reino Unido, William Hague, desconversou sobre uma possível mediação do Brasil na Síria, no Irã e no conflito Israel-Palestina.
Javanfekr lamenta que o Brasil não seja mais um amigão. Hague, de certa forma, coloca o país no seu devido lugar. Em ascensão, mas sem essa de potência mundial.
Dissemina-se assim para além das fronteiras brasileiras a percepção de que algo muda na política externa, mas a guinada é de tom e de estilo. O Brasil, porém, não está virando as costas para a "esquerda" e a política Sul-Sul para priorizar a "direita" e o Norte. Tenta apenas recuperar uma diplomacia mais recatada e reequilibrar as alianças.
Dilma fala pouco, mas diz o que quer. Preferiu o Fórum Social em Porto Alegre ao Fórum Econômico em Davos, concedeu visto para a oposicionista cubana Yoani Sánchez e vai nesta semana a Cuba encontrar-se com Raúl e (talvez) Fidel Castro.
Ela não vai condenar publicamente a morte de mais um dissidente do regime mas também não vai tapar a boca, os olhos e os ouvidos, fingindo que nada aconteceu -como Lula, que confraternizou com Fidel às risadas justamente no dia em que um outro opositor morreu por greve de fome.
O mais provável é que converse reservadamente com os Castro tanto sobre presos políticos quanto sobre a autorização para a blogueira Yoani sair do país e vir ao Brasil. Ela tem cacife para isso. O comércio com Cuba cresceu 31% em relação a 2010 e atingiu US$ 642 milhões em 2011.
A viagem a Cuba pode ratificar uma política externa menos ideológica, não partidária e sem ranços contra EUA ou pró Venezuela.
O desafio de Dilma agora é evitar uma política externa excessivamente cautelosa, corrigindo o que andava errado sem perder as inegáveis conquistas da era Amorim. É, aliás, o que ela tenta fazer na política interna.
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9:41 AM by Cassiano Leonel Drum Carlos Heitor Cony
Um mundo que acabou
RIO DE JANEIRO - Alguns leitores reclamam que eu confesse nada saber de nada, e, apesar disso, dar palpite sobre vários assuntos. Pensam que se trata de um charme hipócrita e inútil, dou de barato que todos têm razão. Mesmo assim, enquanto a lei, a ordem e a polícia não me proibirem, continuarei na minha.
Não sei se alguém está entendendo o que se passa com a economia mundial. O que vejo e ouço todos os dias é que tudo está na pior, países sólidos, referência para os demais, atravessam crises dramáticas, as perspectivas de crescimento diminuem e aumentam os números de miseráveis e desempregados.
Pelo que deduzo, após a Segunda Guerra Mundial, quando todos esperávamos a reentrada da humanidade no paraíso do qual fora expulsa por causa de uma maçã, houve a tal reunião de Bretton Woods, que deu as linhas básicas para a economia de uma era de paz e prosperidade.
O que havia de melhor foi adotado pelos cérebros mais geniais da época. Houve a criação da ONU, que substituiria a fracassada Liga das Nações, e logo depois vieram o Banco Mundial, o FMI e outras instituições para garantir a operacionalidade da economia mundial.
Em 1944, Bretton Woods levou em conta um mundo que não existe mais. Novos países apareceram nos mapas, outros sumiram, as prioridades mudaram, os recursos também. A tecnologia fez avanços consideráveis, se o general Patton tivesse um iPhone igual ao de qualquer bancário ou estafeta de Brás de Pina, ele teria tomado Berlim, o que impediria a União Soviética de dividir o mundo durante a Guerra Fria
As maravilhas daquela conferência estão ultrapassadas. É necessário que alguém -que não seja eu- repense a economia mundial em face das novas realidades que a política e a tecnologia criaram.
O Facebook tem rendido muitas risadas entre mim e minhas amigas. Temos um grupo que se reúne com certa frequência (da maneira antiga: ao vivo), e volta e meia surge o assunto. Claro que todas estão na rede social, com exceção de duas. Duas mulheres de Neanderthal, entre as quais, eu.
Antes não estávamos no Facebook porque não nos fazia a menor falta, masagora não estamos porque virou questão de honra. Tem sido uma diversão resistir à insistência de quem alega que estamos “fora do mundo”.
A Danuza Leão afirma, em seu último livro, que é um mico a gente tornar público que não entende nada de rede social. É mais moderno dizer que está por dentro, mesmo que não saiba ligar um computador. Ai, Danuza, tarde demais. Já pendurei na parede meu diploma de pré-histórica. Tenho mestrado e doutorado em alienação virtual.
O que não me impede de estar no Face. Não, não estou me contradizendo, tenho uma meia-dúzia de perfis na rede. Se você procurar, vai encontrar gente que extrai frases das minhas crônicas e faz uma gentil colaboração, melhorando- as, e também gente que se faz passar por mim, trocando ideias com seus adicionados como se fosse eu.
A generosidade desse pessoal não tem limite. Antigamente, isso seria considerado crime, agora está enquadrado como “homenagem”. Eu agradeço pra quem?
“É uma terrível calamidade, para uma época, não saber mais a quem estimar.” Essa frase eu não tirei da internet, e sim de O Eterno Marido, de Dostoievski, livro escrito em 1869, quando, por incrível que pareça, eu ainda não era nascida. E você, está seguro de que seus estimados são realmente quem dizem ser?
O Facebook é uma ferramenta dinâmica, agregadora, mobilizadora e tornou o e-mail obsoleto. Pena que possua algumas contraindicações, como, por exemplo, fazer com que não sejamos mais donos nem da nossa memória. No último encontro com as amigas, fomos às gargalhadas por causa de uma discussão a respeito de uma moça chamada (vou trocar o nome dela para manter sua privacidade, espero que ela não me processe por isso) Zezé Velasques.
Segundo minhas amigas que estão no Face, Zezé diz ter sido minha querida amiga do colégio. Eu nunca fui colega de nenhuma Zezé Velasques, esse nome nunca constou da minha agenda de telefones, nunca colei uma prova dessa menina, tenho certeza de que nunca disse nem oi para qualquer Zezé Velasques, mas há quem diga que estou delirando, que claro que fui colega dela no Anchieta, onde, segundo também dizem, estudei a vida toda, mesmo que no meu histórico escolar conste que dos 6 aos 17 anos eu tenha sido aluna do Bom Conselho.
Em quem acreditar? Não olhe pra mim, há muito que deixei de apitar na minha própria história.
Aqui, de fora do mundo, meu beijo pra Zezé e pra todos que ainda conseguem lembrar dos amigos sem a ajuda de aparelhos.
29 de janeiro de 2012 | N° 16962
ARTIGOS - Marcos Rolim*
Três desafios na segurança
O PM aposentado Carlos Vinicius Silvestre foi baleado na cabeça em um assalto a uma padaria na Restinga. Pelas informações disponíveis, foi executado quando estava no chão e não oferecia qualquer resistência. Falamos, então, de conduta infame, marcada pela covardia e esperamos que a polícia consiga identificar o responsável, colhendo as evidências que amparem a necessária condenação. Não apenas porque é necessário punir o autor, mas também porque é preciso neutralizá-lo, de forma a impedir que volte a matar.
A tragédia deve, não obstante, para além das providências legais, atualizar vários desafios. Entre eles, cito três:
1) o que deve ser feito para garantir maior segurança aos nossos policiais civis e militares?
2) o que fazer para amparar os familiares desses profissionais em casos de morte violenta ou invalidez?
3) como desenvolver políticas públicas eficientes para reduzir a violência e inibir os caminhos que formam pessoas capazes de matar mesmo quem não lhes oferece resistência?
Cada uma dessas questões encerra enorme complexidade. Mas é preciso assinalar que nenhum policial estará minimamente seguro se seus direitos fundamentais como cidadão não forem assegurados pelo Estado. Isto envolve várias providências, a começar por uma política salarial que garanta – especialmente aos subordinados não oficiais e não delegados – a imprescindível valorização profissional; além de uma política de formação e de defesa dos direitos humanos dos policiais que lhes assegure amparo psicossocial e que os proteja nas corporações diante de eventuais posturas humilhantes e/ou arbitrárias, normalmente amparadas por noções deturpadas de hierarquia e disciplina.
Quanto ao apoio aos familiares dos policiais vitimados, lembro que o RS possui legislação única no país – a Lei nº 11.314, de 20 de janeiro de 1999, que “dispõe sobre a proteção, auxílio e assistência às vítimas da violência” e que inclui medidas de apoio aos familiares de policiais, agentes penitenciários e monitores da então Febem (atual Fase). Resultado de projeto de minha autoria, a lei – sancionada pelo governador Olívio Dutra – nunca foi aplicada.
Por fim, sobre os esforços de prevenção à violência, um dos temas mais importantes e urgentes à espera de política pública inovadora foi tratado pela excepcional série de reportagens publicadas por Zero Hora na última semana sobre os egressos da Fase.
As evidências colhidas pelas matérias falam por si só: o sistema que temos de execução de medidas socioeducativas em meio fechado é não apenas ineficiente, mas – ao que tudo indica – contraproducente. Ele piora o prognóstico dos adolescentes privados de liberdade, agenciando o agravamento dos perfis infracionais e a reprodução ampliada da própria violência. É hora de mudá-lo.
Geraldo e Marina estão casados há 15 anos. Uma noite os dois sentados no sofá da sala assistindo à novela Geraldo diz:
– Marina, preciso te contar uma coisa.
– O quê, Geraldo? – Eu voo.
– Você o quê, Geraldo?
– Eu posso voar. – Que loucura é essa, Geraldo?
– É verdade. Descobri quando eu tinha uns 11 anos. Se eu quiser, posso sair voando agora mesmo.
– Geraldo, para de dizer bobagens e deixa eu assistir à novela.
– Você não acredita? Então olhe só.
E Geraldo decola do sofá, dá algumas voltas por dentro da sala, sai pela janela aberta, circunda o prédio da frente, volta e senta de novo no sofá.
Marina desmaia.
Já restabelecida, Marina pergunta:
– Por que você nunca me disse nada? Por que esperou até agora para me dizer?
– Eu queria ter certeza que o nosso casamento era sólido. Que você não se apavoraria com a revelação, que acabaria se acostumando com ela. Achei que depois de 15 anos não havia mais perigo de você sair correndo.
– Mas você nunca falou pra ninguém que pode voar? Nunca contou?
– Não. Na escola, eu já era meio esquisito. Se descobrissem que eu também voava, não iriam largar do meu pé. Meus pais também se assustariam. Você é a primeira pessoa a saber.
– Mas Geraldo... Todos precisam saber que você voa. Você é um fenômeno da Natureza! Um caso único. Tem que ser examinado pela Ciência...
– Deus me livre.
– Nós podemos ganhar dinheiro com isso. Você virará uma celebridade internacional. Se apresentará em shows. Já posso até ver você chegando no palco pelo ar e...
– Tá doida. A coisa que eu menos quero no mundo é atrair atenção.
– Quando é que você voa? – pergunta Marina.
– Às vezes, de noite, quando você está dormindo, eu saio pela janela e sobrevoo a cidade. Com a lua cheia, é bonito.
Marina (sentida):
– E você nunca pensou em me levar junto para passear ao luar, como o Super-Homem fazia com a mocinha no filme... Geraldo! E se você for o novo Super-Homem?! Um Super-Homem de verdade? Você pode ser o herói que o mundo está esperando.
– Eu, Super-Homem, com esta cara, com este físico, com esta gastrite crônica? Não, obrigado. Prefiro continuar como técnico contábil, com a minha vidinha de sempre.
– Mas Geraldo...– E você tem que jurar que não vai contar pra ninguém, Marina. Jura.
– Está bem, Geraldo. Eu juro.
E os dois continuam com a vidinha de sempre. De vez em quando, ela faz um pedido, como:
– Bem, uma lâmpada do lustre queimou. Você pode trocar pra mim?
E o Geraldo voa até o teto, muda a lâmpada do lustre e volta para o sofá. E os dois continuam vendo a novela.
A vida não passa de uma sucessão muitas vezes irritante de esperas.
Espera pelo ônibus, espera pelo elevador, espera pelo metrô, espera por aumento de salário, espera por melhor emprego, espera pela ansiada felicidade.
Quantas e quantas vezes me apanho esperando que me venha o sono à noite e, quando perco o sono pela madrugada, fico esperando que o sol desponte para que chegue o horário de vir trabalhar.
Todos nós esperamos por dias melhores, esperamos que cesse esse azar desgraçado que já há meses não se cansa de nos sufocar com incessantes coisas que não dão certo.
Espera por casar, espera por ter filho, espera que às vezes dura décadas para adquirir a casa própria, espera que a mulher venha algum dia a cessar essas suas ondas caudalosas de mau humor, espera que o marido venha um dia a se tornar mais delicado, mais cordial, mais afetuoso.
Espera para que a filha se forme no colégio ou na faculdade, espera que um dia sucedam ao administrador do edifício, e o atendimento aos condôminos seja mais atencioso.
Espera que o nosso patrão ou superior reflita que foi muito duro e demasiadamente severo conosco na última vez que nos convocou para uma conversa e que se normalize logo a seguir essa relação fundamental.
Tudo é espera, até a espera de que volte a esperança.
Espera de que cessem as doenças e as que nos atacam agora se suavizem.
Espera que surja um grande amor, irrompendo das brumas da solidão e do abandono.
Espera que volte a saliva, o paladar e o apetite que foram surripiados pela radioterapia. Espera que possa haver a reconciliação para o lamentável atrito que se teve com o amigo, com o filho, com o funcionário da garagem.
Não há outra solução que não sejam as frequentes e infalíveis esperas.
A espera é um ato tão peculiar na vida humana, que chegaram até a criar salas de espera nos consultórios médicos, além da espera nas filas de consultas e cirurgias do SUS.
E vá espera nas filas dos bancos, espera angustiante por uma promoção no emprego, espera por um prêmio na loteria, espera infindável que a situação no país melhore.
Estamos condenados às esperas. Basta ter vida para ter espera, esperar é um sinal forte de vida.
Levamos nove meses esperando por nascer: para esperar também. Levamos a vida inteira esperando para morrer.
E nem os mortos deixam de esperar, talvez pelo Juízo Final.
E às vezes somos ainda ameaçados violentamente de que não vamos perder por esperar.
Sociedades poligâmicas são mais violentas, diz pesquisa
Segundo pesquisadores, a adoção da monogamia diminui competição entre solteiros e reduz as taxas de estupros, sequestros e homicídios
Cena de 'Big Love', extinta minissérie da HBO sobre um clã polígamo. Para cientistas canadenses, esse tipo de relação acirra tensões e gera violência (Reprodução/Nova Temporada)
Como seria o mundo se a poligamia fosse a regra? Segundo um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, o mundo seria mais violento, com altas taxas de estupros e homicídios.
A pesquisa, que acaba de ser publicada na revista Philosophical Transactions of the Royal Society, afirma que a monogamia se tornou a regra em quase todas as culturas do planeta justamente por evitar problemas que se tornariam crônicos em um sistema em que as pessoas têm mais de um cônjuge.
POLIGAMIA
É a união reprodutiva entre mais de dois indivíduos de uma mesma espécie. Entre os humanos, já foi a regra. O Velho Testamento faz várias referências ao assunto. O personagem Jacó, por exemplo, teve duas esposas e 12 filhos, que teriam dado origem às doze tribos de Israel.
Ainda é praticada no Oriente Médio e em partes da África e da Ásia, além dos Estados Unidos, onde seitas fundamentalistas, não reconhecidas pela organização principal da religião mórmon, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, permitem o casamento poligâmico.
Regulamentada pelo Alcorão, é relativamente comum no mundo islâmico, apesar de estar perdendo adesão. O profeta Maomé chegou a ter 16 esposas, mas hoje o permitido são, no máximo, quatro. Foi proibida no Nepal em 1963, na Índia, parcialmente, em 1955, na China em 1953 e, no Japão, em 1880. Nunca foi permitida no Brasil.
A maioria das civilizações já permitiu alguma forma de poligamia em determinado momento de sua história. Invariavelmente, a prática beneficiava (e ainda beneficia, onde ela é vigente) os sujeitos mais poderosos, que podem sustentar mais esposas. Esses fatos intrigaram os pesquisadores, que acabaram concluindo que o bem estar social motivou a institucionalização da relação monogâmica.
"Nosso objetivo foi entender a razão de o casamento monogâmico ter se tornado a regra na maioria das nações desenvolvidas nos últimos séculos, já que historicamente a maioria das culturas praticou a poligamia", afirmou Joseph Henrich, professor de antropologia cultural.
A razão, descobriu o estudo, é a estabilidade social que a monogamia traz, um contraponto às altas taxas de crimes como estupros, sequestros, roubos e homicídios das sociedades poligâmicas. Para os pesquisadores, grupos de homens solteiros são os responsáveis por crimes desse tipo.
"A escassez de mulheres disponíveis aumenta a competição entre os solteiros", afirma Henrich. Como o número de homens e mulheres é parecido, mesmo com uma pequena maioria de mulheres, se alguns homens casam com várias mulheres, outros ficam sem nenhuma.
O maior ganho evolutivo da monogamia, conforme a pesquisa, é garantir uma distribuição igualitária de casamentos. Com a diminuição no foco da competição, as famílias podem gastar mais tempo fazendo planos, produzindo riqueza e investindo na educação dos filhos. Além disso, a menor competição aproxima a idade média de maridos e esposas, o que faz com que a mulher ganhe poder de decisão no casamento.
28 de janeiro de 2012 | N° 16961
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES
Contos Tradicionais - 2ª Parte
Éfora de dúvida que Charles Perrault influenciou os irmãos alemães Jacob Grimm (nascido em 1785) e Wilhelm Grimm (1786) homens de maior erudição e inteligência que o poeta francês. Os Grimm, cultos como eram, deram sempre importância aos contos, perceberam a sua imanência, rastrearam as suas origens até a Índia, num pan-arianismo que era cultural e não racista.
Além de acrescentarem contos que Perrault desconhecia, os Grimm publicaram versões em alemão de contos que por serem comuns à toda Europa já haviam aparecido na publicação de Perrault. As versões em alemão não eram cópias servis das versões francesas, porque isso não existe no folclore, onde quem conta um conto aumenta um ponto, mas insisto na semelhança das versões de Perrault, dos Grimm e das nossas, gaúchas e campeiras: ponto para a imanência e para a perenidade do folclore.
Em 1954/1955, me tornei assistente do Dr. Carlos Galvão Krebs, emérito folclorista gaúcho, que me ensinou o que sei e através de quem privei com homens notáveis, como Câmara Cascudo, Alceu Maynard de Araújo, Aires da Mata Machado Filho, Veríssimo de Melo e Edison Carneiro.
De maneira geral, nós acreditávamos, graças a uma suposta didática do folclore, que havia um “folclore nocivo”, o qual não podia ser levado às crianças, porque falava em violência, morte, antropofagia e palavrões. Hoje eu sei que estávamos errados. Não há folclore nocivo. Há o folclore e o não-folclore. Ainda mais, como seriam nocivos estes contos tradicionais, destinados precisamente às crianças, ingênuas e puras atuais?
Waltdisneysear estes contos para expungir seus aspectos “nocivos” é errado. Os contos falam desde sempre em mortes, pais soltando os filhos famintos no mato para as feras comerem, bruxas más e antropófagas e madrastas cruéis. E daí? O mundo ainda hoje está cheio de maldade e violência. É “positivo” mentir para as crianças, contar que só existem fadas bondosas e príncipes belos, se elas vão crescer e ver a verdade? E não é melhor que elas saibam que existe maldade no mundo pelo amor filtrado na voz do pai, da mãe, da avó?
Ainda hoje e cada vez mais os pais estão soltando Joãozinhos e Mariazinhas na selva escura e perigosa das cidades, para que não morram de fome em casa, embora possam ser devorados pelas feras dos becos, das praças, dos desvãos das pontes.
Depois de seis décadas de cambalhotas, futebol, corridas e má postura, fui apresentado para um certo senhor Ciático, do qual só tinha ouvido falar superficialmente nas aulas de anatomia do meu antigo curso de Educação Física ou pelo relato de terceiros. Todos falavam muito mal dele. Diziam que era terrível, que pegava as pessoas pela coluna e as torturava da forma mais cruel e impiedosa. Confesso que nunca dei a devida atenção a esses relatos, pois raramente consideramos a dor alheia na sua devida dimensão.
Mas o indesejado das gentes foi chegando sorrateiro e instalou-se entre a L5 e a S1, que na linguagem do esqueleto significa quinta vértebra lombar e primeiro segmento da região do sacro – aquele rabinho que herdamos dos nosso ancestrais símios.
Na verdade, o ciático sempre esteve no seu lugar, cumprindo a sua nobre função de levar as ordens de movimento para as articulações e músculos dos membros inferiores. O que despertou sua fúria foi a hérnia de disco situada no ponto referido.
Bom, chega de lero-lero pseudocientífico. O que quero dizer é que dói muito, uma dor incessante, terrível, desconcertante, inimaginável para quem nunca a sentiu. Parece que não vai terminar nunca. Passei vários dias sem caminhar, sem estender a perna, sem ao menos ser capaz de vestir as meias sozinho.
Para quem sempre foi metido a atleta, não poderia haver maior desespero. Meu desconforto só não foi maior porque sempre encontrei apoio afetivo e profissional.
Está sendo um doloroso aprendizado. Uma vez fiquei preso no elevador. Durou apenas alguns minutos, mas a sensação de prisão e sufocamento quase me deixou em pânico. Desde então, sempre que falta luz, corro até o elevador para ver se ninguém ficou preso. Agora, tenho certeza, passarei a prestar mais atenção nas dores alheias.
Pois é justamente por isso que resolvi compartilhar esta experiência pessoal com os meus leitores. Sejam vocês jovens ou maduros, atletas ou sedentários, prestem atenção no conselho da minha fisioterapeuta:
– Sente sobre os ísquios!
Significa sentar ereto, com o peso sobre aqueles ossinhos mais salientes da região glútea – e não escarrapachados sobre o sacro, com a coluna torta, como costumamos fazer no sofá de casa.
Se você não fizer isso, o sr. Ciático te pega. E ele é pior que o bicho-papão.
Voltemos à questão do aeroporto Salgado Filho, levados por uma resposta do superintendente a uma crítica desta coluna sobre os preços que se cobram no estacionamento no local.
Eis a resposta e depois novas críticas: “Prezado Sant’Ana. Como um leitor assíduo de sua coluna em ZH, acompanho as diversas questões polêmicas do Estado através da tua abordagem, onde o espírito jornalístico se destaca ao garantir espaço para cada um dos lados apresentar a sua versão.
Porém, ao ler a sua coluna de hoje (24.01) intitulada ‘Cocaína no volante do táxi’, notei a questão levantada sobre o preço cobrado no estacionamento do Aeroporto Internacional Salgado Filho, o qual tu defines como imoral. Visto isso, gostaria de lembrar que no início deste ano, mais precisamente no dia 3/01, atendendo a solicitação dos passageiros e usuários, uma nova administradora assumiu o estacionamento de veículos do aeroporto de Porto Alegre (RS).
Com a concessionária, foi lançada uma nova tabela de preços, pela qual na primeira meia hora são cobrados R$ 5, na primeira hora R$ 8 e na segunda hora R$ 10, valores razoáveis, como mencionado na coluna. Além disso, foi providenciada uma adequação nessa nova tabela, em que a cada hora adicional será acrescentado R$ 1 em cima do valor fixo, o que proporciona um preço correspondente ao praticado no mercado.
Desde já, ficamos à disposição para qualquer dúvida sobre o assunto em pauta. (Ass.) Jorge Herdina, superintendente do Aeroporto Internacional Salgado Filho”.
Ótimo, senhor superintendente. Mas eu perguntaria a Vossa Senhoria se não tinha de ser levada em conta, para a cobrança do estacionamento, a característica do local, onde passageiros que vão embarcar deixam seus carros no estacionamento por vários dias e retornam de suas viagens sem qualquer contemplação a esse prazo longo a que são submetidos. Um desconto, uma consideração com esse fato seria merecida aos passageiros, senhor superintendente. Eu sei que é uma questão de mercado, mas a peculiaridade do aeroporto, com estacionamento por vários dias tinha de ser levada em conta para atenuar o preço opressivo.
Mas tem mais sobre o aeroporto, senhor superintendente. Constatei pessoalmente que a única pizzaria do local não obedece a horários rígidos, frequentemente no início da manhã ela permanece irritantemente fechada, o que acontece também no horário de fim de noite, ficando os passageiros famintos, não tendo a quem recorrer, eis que o horário das outras lancherias também é desorganizado.
Além disso, observe a péssima comida que é servida a preço salgado no restaurante do local, no bufê se pode notar quase todos os dias a massa exposta fria, quando se sabe que espaguete e talharim frios, sem estarem quentes, são intragáveis. Corrija isso, senhor superintendente, estou falando em nome de leitores que reclamam acerbamente contra esses defeitos.
E finalmente vamos à questão dramática da farmácia. Aquilo que há no aeroporto não é farmácia. Cerca de 80% dos remédios que os passageiros solicitam não existem na farmácia. É grave isso, senhor superintendente, as pessoas vão viajar com a certeza de que comprarão seus remédios no aeroporto e trombam com a falta deles. É grave porque, encerradas no aeroporto, não mais têm onde adquirir seus medicamentos. A farmácia parece estar falida de tantos remédios que faltam.
A intenção desta coluna não é outra senão regenerar com urgência os serviços de um aeroporto que se diz internacional e serve pizzas e outros lanches em horários sazonais, isso é inadmissível.
Hoje dificilmente você encontrará uma Guiomar. Se encontrar, será bem velhinha. As mulheres não se chamam mais Guiomar, nem Dagmar, como a daquela música de João Bosco & Aldir Blanc, “O Rancho da Goiabada”, que diz que os boias frias, quando tomam uma birita, espantando a tristeza, sonham com bife a cavalo e batata frita.
A verdade é que a mulher do Didi chamava-se Guiomar, e era uma linda mulher – nos anos 50, mulheres lindas podiam se chamar Guiomar. Essa em questão era uma cantora de certa fama. Trabalhava vestida de odalisca num programa apresentado pelo Ary Barroso, que, naturalmente, tinha uma queda por ela. Quando Didi casou-se com Guiomar, Ary compôs um samba, “Risque”, pedindo, despeitado, que ela riscasse o nome dele de seu caderninho de endereços.
O Didi a que me refiro é o jogador, não o amigo do Dedé.
Acontece que Didi já era casado e tinha filhos, quando enamorou-se de Guiomar. Deixou a primeira família, constituiu uma segunda e causou escândalo no país. Mas ninguém o incomodou muito, porque ele era craque. Meia-direita de passe escorreito e lançamentos de 50 metros, bicampeão do mundo em 58 e 62, estava um único nível abaixo dos imbatíveis Pelé e Garrincha. Nelson Rodrigues chamava-o de “Príncipe Etíope”, tal a sua elegância. Neném Prancha disse sobre ele:
– Quem vê o Didi na rua, sem nem saber de quem se trata, logo pensa: “Aquele crioulo deve ser um troço na vida”.
Era.
Em 59, Didi foi contratado pelo Real Madri, que pretendia montar o melhor time de todos os tempos com ele mais o argentino Di Stéfano e o húngaro Puskas, que já estavam lá. Mas Didi fracassou no Real e, um ano depois, já vestia de novo a camisa listrada do Botafogo.
Puskas disse que Didi não deu certo no Real por ter engordado com a boa comida europeia, mas, lá da Espanha, Guiomar escrevia artigos para os jornais brasileiros acusando Di Stéfano de boicotar o seu marido, tudo por inveja vulgar. Foi tão enfática, Guiomar, que vingou essa versão. Di Stéfano tornou-se persona non grata para os brasileiros da época. Muitos até o acusavam de ser um simpatizante do ditador Franco, o que, aliás, era verdade.
Seja como for, o fato é que Guiomar sempre cuidou dos interesses de Didi. Era ela quem negociava os seus contratos e fazia eventuais reivindicações aos dirigentes dos clubes em que o marido jogava. Era correspondida. Na Copa de 1954, os jogadores ficaram confinados à concentração.
Naquele tempo, não havia celular nem internet. Didi queria ligar para Guiomar, os dirigentes da então CBD não deixavam. Didi fez greve de fome. Meio fajuta, é verdade, porque Nilton Santos levava-lhe comida escondido, mas fez.
Em 1958 a coisa foi mais grave. A Seleção estava treinando no Maracanã, quando, de repente, Didi deu um grito de horror:
– Perdi minha aliança!
O treino parou. Ele caiu de quatro na grama:
– Ninguém se mexe! A Guiomar vai ficar uma fera!
Num instante, todos, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Zito, Belini, Zagallo, todos aqueles craques num instante puseram-se de gatinhas e passaram a vasculhar cada palmo do campo de cem metros de comprimento. Não acharam. À noite, Didi pediu:
– Acendam os refletores!
E os refletores se acenderam para que ele seguisse na busca. Vã. A aliança não foi encontrada. Mas o desespero de Didi parou nas páginas dos jornais e, no dia seguinte, alguém foi avisá-lo:
– Dona Guiomar está lá fora, querendo falar com o senhor.
Didi foi, não sem algum temor a lhe amolecer as pernas. Encontrou a mulher sorridente e emocionada:
– Te vi de quatro no jornal, procurando pela nossa aliança. Achei lindo. Vamos comprar uma mais bonita ainda!
Mandava muito, a Guiomar. Lembrei dela quando soube das notícias do casamento do Damião. Como ele reagirá ao matrimônio? Já vi jogadores falindo por causa de um casamento mal assestado, assim como vi outros se tornando muito maiores do que eram graças a uma esposa atenta e amorosa. O que se dará com Damião? Já marcou um gol pós-enlace. Marcará outros? Não parará mais de marcar, enquanto durar a felicidade conjugal?
Didi seguiu casado e feliz até o fim da vida. Quando morreu, aos 72 anos de idade, Guiomar murchou de tristeza e morreu um mês e meio depois. Belo exemplo de casal de sucesso. Embora haja quem diga que a história da aliança fosse um golpe do Didi.
Teria sido uma trama armada para justificar a perda da aliança em outras circunstâncias, menos explicáveis. Se foi isso mesmo, não diminui o amor que ele tinha por Guiomar, mas aumenta sua capacidade criativa. Gênio. Didi era capaz de lances de gênio.
“Se está no elevador, a pessoa te vê e não entra. Se está no refeitório, não senta na mesma mesa. Não chama pelo nome, não pede por favor.”
Parece África do Sul durante o apartheid, mas é Brasil, 2012. O depoimento é de uma mulher que trabalha na limpeza de um hospital na capital paulista. O simples gesto de colocar o uniforme, conta ela, já faz com que comece a ser vista de forma diferente – ou melhor, não vista. Uma pesquisa divulgada esta semana pelo Dieese sobre trabalhadores de limpeza da cidade de São Paulo ouviu 1.851 coletores de lixo, varredores, auxiliares de limpeza e jardineiros.
De acordo com o levantamento, um em cada quatro entrevistados diz já ter sofrido discriminação relativa ao trabalho. A maior queixa: serem tratados como cidadãos de segunda categoria, indignos da cortesia mínima de um bom-dia, de um obrigado, de um por favor. O estudo ratifica o que o psicólogo Fernando Braga da Costa já havia demonstrado no livro Homens Invisíveis, publicado em 2004, sobre sua experiência convivendo com os garis da USP. No livro, o psicólogo desenvolve a tese da “invisibilidade pública” de profissionais como faxineiros, ascensoristas, empacotadores, garis.
A invisibilidade dos trabalhadores da limpeza é talvez apenas a mais evidente em um país culturalmente habituado a naturalizar a desigualdade de tratamento – ajustado, em muitos casos, para operar conforme a classe social do interlocutor. Ignorar o porteiro ou tratar a faxineira como se fosse um eletrodoméstico parece tão natural quanto rir da piada sem graça do chefe ou atender um cliente conforme a roupa que ele está usando.
É uma espécie de lei não escrita da selva social brasileira: para cima tudo, para baixo justiça. Se não dá para dizer que somos os únicos do mundo a agir assim, é preciso reconhecer que, em muitos países, o trabalho é respeitado como um valor em si, independentemente do tamanho do contracheque ou do status social da função.
Homens e mulheres invisíveis do Brasil dependem de ônibus, fazem fila no posto de saúde, estudam em escolas em que os professores fazem greve. Quando viram notícia – porque desabou a casa onde moravam ou invadiram o terreno onde construíram suas casas –, parecem personagens de uma tragédia que se desenrola em um país distante, onde a gente não vai nem a passeio.
A literatura, que poderia dar rosto e voz a esses personagens, tem se ocupado cada vez menos deles. São poucos os livros que nos levam a observar a paisagem brasileira desde uma outra perspectiva: do lado de dentro do ônibus lotado, do lado de cima da maca estacionada no corredor do hospital, do lado de quem nem sempre é brindado com a gentileza de um bom-dia quando está vestindo um uniforme ou fazendo um trabalho braçal.
Para quem sente falta deste ponto de vista, sugiro a leitura de Passageiro do Fim do Dia, do escritor Rubens Figueiredo. Um romance obrigatório, narrado desde a perspectiva da maioria invisível de um país que só enxerga o que quer ver.
Faz uns 36 anos que comecei a resenhar livros na imprensa. Portanto, se não aprendi, não posso botar a culpa no tempo. Gostar de livros impressos. Tem horas que me sinto um dinossauro no meio de um salão de um museu (de Nova Iorque, História Natural, de preferência), meio assim feliz e soterrado em meio a milhares de volumes, esses objetos seculares, de design imbatível e fascínio infinito.
Fico pensando se não seria melhor assinar um coluna sobre viagens turísticas espirituais ou hábitos na internet, sei lá. Há uns 20 anos um ex-editor de PA me disse na Feira do Livro que o livro tinha morrido, que seria tudo eletrônico e tal.
Ele tornou-se escritor e vive - e bem - de livros impressos. Sim, eBooks, iPads e outros meios estão aí, fazendo algum ou muito sucesso, mas é bom lembrar que conforme a Câmara Brasileira do Livro o número de exemplares vendidos aumentou em 13% em 2011, que há tendência de queda no preço e que, assim, o número de exemplares e leitores tende a aumentar. Coisas boas. Tomara! Acho que aí esta coluna de Livros do JC, que vai fazer 18 anos de circulação semanal e ininterrupta, vai seguir por mais uma data.
Aí o titio aqui se aposenta, se jubila en Punta del Este, ou, quem sabe, se torna colunista de eBooks ou se reinventa com algum outro lance do momento. Segundo matéria simpática do New York Times de 20 de novembro de 2011, especialistas e famílias que opinaram sobre livros acham que o papel tem ainda algumas vantagens sobre as mídias digitais.
Na matéria o executivo Mateus Thomson, 38 anos, de um site de mídia social, acha que o filho de 5 vai aprender a ler mais rápido com o livro e que, de noite, deve haver hora de leitura de papel.
Para ele os sinos e assobios de um iPad se tornam mais uma distração e ele pensa que se o menino ficar só com o tablet, acabará se distraindo e brincando com jogos o tempo todo, sem a concentração indispensável aquela da leitura. É isso. Concordo, o livro segue como meio mais completo, abrangente e importante para a difusão de conhecimento e acho que a coluna e eu estamos garantidos por mais uns tempos, se os queridos leitores me derem esse prazer. Topo.
Prometo seguir defendendo os impressos. De mais a mais, não custa lembrar, mesmo e principalmente em causa própria, que dinossauros até que são uns bichos simpáticos e legais, especialmente quando estão bem alimentados, calmos, silenciosos e imersos em alguma leitura gostosa. (Jaime Cimenti)
No vilarejo Burgo São Judas, de 74 casas (mais da metade abandonadas), um bar, uma mercearia e uma igreja com presbitério, nada acontecia e ninguém entendeu como aquelas doze mortes ocorreram, justamente onde nada ocorria.
Assim começa a narrativa de XY, o novo romance do escritor italiano Sandro Veronesi. Em XY, numa manhã, no vilarejo, uma mulher acorda desesperada, banhada em sangue. Constata que a cicatriz de um corte sofrido no dedo há mais de quinze anos reabriu de forma inexplicável.
Ao mesmo tempo um sacerdote descobre os horrores guardados sob a neve da pequena localidade italiana: corpos de adultos e crianças mortos de uma maneira que desafia a lógica e vão colocar em teste a fé do pároco. A relação entre o sangramento e a série de assassinatos vai ligar o padre e a mulher para sempre. Giovanna Gassion, psiquiatra e psicóloga, sempre pautou sua vida pela racionalidade e manteve enterrados dentro de si traumas, dúvidas e desilusões.
Ao ver seu próprio sangue, ela tem reaberta, além de sua própria ferida, toda a experiência que a levou a cortar o dedo na adolescência. Sem explicações para os assassinatos inusitados, a médica praticamente tem sua sanidade posta em xeque quando descobre que o corte voltou a sangrar justamente no mesmo momento em que ocorreram as mortes em São Judas.
O sacerdote tem sua vida posta de cabeça para baixo por ser uma das testemunhas da descoberta de corpos enterrados sob o gelo. A polícia desorientada o aponta como suspeito, mas desconfia de um atentado terrorista. Perseguido pelas autoridades que tentam mascarar a verdade, o sacerdote fica sem alternativa e permanece na cidade, numa espécie de cárcere privado.
Oito adultos, duas crianças, um cavalo e um cachorro morreram cada um de um jeito diferente, seja por doença, acidente, engasgo com casca de pão e até mesmo por mordida de tubarão, em plena montanha. O sacerdote busca esclarecimentos racionais e científicos com a psiquiatra. Ela não apresenta a sanidade mental habitual, pouco pode fazer. Ou seria ela a chave do enigma? Teria alguém sobrevivido à chacina?
A visão científica da mulher (X) representada pela médica e as questões da fé (Y) representadas pelo sacerdote vão se alternar e os dois vão revendo seus conceitos. Delírio, medo, impotência e angústia estão presentes. Se dissipará a espessa bruma do mistério e do horror? Teriam todos perdidos a fé e o juízo? Editora Rocco, 320 páginas, R$ 45,00, www.rocco.com.br
No primeiro pronunciamento após os desabamentos de três prédios no centro do Rio, o prefeito Eduardo Paes preocupou-se em dizer que as causas da tragédia ainda deveriam ser investigadas sem pressa e sem atropelos. As questões técnicas envolvidas no acidente devem de fato ser esclarecidas, mas uma conclusão antecipa-se a qualquer detalhe ligado à engenharia.
O que já se sabe é que ocorreu no Rio mais um caso exemplar de negligência do setor público diante de evidências de irresponsabilidade. Indícios apurados no dia seguinte apontam que o primeiro prédio a desabar, levando outros dois junto, estava em obras conduzidas clandestinamente. Pelos relatos de pessoas que trabalhavam ou circulavam pelo edifício, sabe-se que há muito tempo ouviam-se estalos e outros sons característicos de um processo de degradação da estrutura do imóvel.
Como um prédio de 20 andares, no centro histórico da cidade, era submetido a reformas sem que a fiscalização flagrasse a irregularidade? Os desabamentos se somam a outros eventos trágicos que se repetem no Rio com preocupante frequência e denunciam quase sempre as omissões do setor público. As prefeituras ou o governo do Estado falharam ao não adotar medidas preventivas que evitassem a tragédia da enxurrada que matou mais de 200 pessoas no Morro do Bumba em Niterói, em abril de 2010.
Voltaram a falhar em janeiro de 2011, quando da morte de cerca de 900 pessoas nos deslizamentos de morros na serra fluminense. Em todas as tragédias, passando pelas explosões de bueiros na cidade do Rio de Janeiro, o que se expõe é a omissão de quem tem o dever da fiscalização e da prevenção.
Os maiores danos de traumas como esses são humanos, com a perda de vidas, sequelados ou famílias desabrigadas. Prejuízos materiais atingem somas milionárias. Mas há outros danos que abalam uma cidade e um Estado, quando, junto com os prédios, desaba também a imagem de cenários associados a dois eventos internacionais, a Olimpíada e a Copa do Mundo.
É desalentador que, depois do esforço para que o Rio seja a síntese da imagem do Brasil nos dois eventos, a percepção no Exterior passe a ser a de uma cidade e de um Estado relapsos em questões básicas de segurança. O que transparece, a cada acontecimento trágico, é que as autoridades buscam consolos, reafirmam compromissos, emocionam-se e, em pouco tempo, voltam a conduzir suas gestões como se nada tivesse ocorrido.
O trauma que o Rio enfrenta não pode, no entanto, apenas comover o resto do Brasil. Situa-ções de risco são mascaradas, em todo o país, e principalmente nas grandes cidades, pela ineficiência do monitoramento da condição de prédios antigos, naturalmente vulneráveis a desgastes.
É de se perguntar, em meio às tentativas de entender o que de fato determinou os desmoronamentos, o que prefeituras e governos de outros Estados têm feito para que a população não esteja sob a mesma ameaça do que ocorreu no centro do Rio. É uma interrogação inquietante, diante das suspeitas de que as omissões não são exclusividade de cariocas e fluminenses. É um momento oportuno para que se ofereçam respostas.
Interessante esse desabamento e soterramento de três edifícios em pleno centro do Rio de Janeiro, anteontem.
Sempre passa pela cabeça de quem mora em um prédio alto que um dia aquele edifício poderá desabar. Mas isso passa assim pela cabeça sem muito sentido, nós vivemos trabalhando ou morando em prédios altos, às vezes visitando, e nunca caiu nenhum deles.
Mas passa remotamente pela cabeça.
Aconteceu no Rio de Janeiro anteontem, no entanto, o seguinte: os dois prédios maiores que ruíram tinham 18 andares, um deles, 11 andares o outro.
E, no meio dos dois, um pequeno edifício de apenas quatro andares.
Desabou exatamente o maior edifício, o de 18 andares.
E o azar foi o dos dois prédios menores, o de 11 andares e o de quatro andares: o edifício grande desabou e caiu sobre os dois edifícios menores.
Ou seja – vejam como é a vida –, os dois prédios menores tinham firme estrutura, não desabaram: eles foram soterrados pelo prédio maior.
Mas não é azar de quem trabalhava nos prédios menores?
Muito maior azar do que o azar dos que trabalhavam no prédio maior. Afinal, foi ele que desabou, os outros ruíram no arrastão.
Eu fico com uma dúvida, acontece que esses três prédios atingidos eram antigos.
A dúvida é a seguinte: as prefeituras, principalmente de cidades grandes e altas, fazem inspeções das estruturas dos edifícios? Como é que numa selva de pedra os engenheiros vão saber que o edifício tal está mal das pernas e corre o risco de desabamento?
Será que existe serviço municipal de verificação periódica do estado dos prédios? Sou ignorante em engenharia, mas tenho quase certeza de que não existe esse serviço, ele só funciona quando aparece uma denúncia de prédio que está tremendo.
E, não existindo fiscalização periódica e constante, em caso de desabamento a responsabilidade civil e financeira das indenizações aos proprietários e às vítimas não cabe às prefeituras?
Parece-me muito claro que cabe.
A única coisa em que eu estava em cima e desabou foi um coreto de Carnaval no Partenon, quando eu era criança.
O chão do coreto fugiu-me dos pés e eu e mais umas 40 pessoas caímos de uma altura de três metros.
Fraturei um pé. E levei um susto danado. Caíram por cima de mim duas pessoas. E os ferimentos de todos foram de menor monta, tivemos sorte.
Mas, como agora aconteceu lá no Rio de Janeiro, é terrível: penso até que as pessoas que estavam nesses edifícios cariocas nem sentiram a morte, levaram um baque e deixaram de existir.
O homem é um ser físico. Parece óbvio; não é. Um antigo vice-presidente dos Estados Unidos chamaria isso de uma verdade inconveniente. Porque, de certa forma, é uma verdade que reduz a dimensão da espécie humana. O homem gosta de acreditar que se move prioritariamente por valores intangíveis. Gosta de acreditar que é um ser nobre, diferente do restante dos animais do planeta por ser animado por vida espiritual.
Certo.
Agora pense no seu dedo mínimo, tão pequeno e insignificante que é chamado de “minguinho”. Você nunca tece reflexões sobre o minguinho, não é? Claro que não. Você pensa todos os dias nos seus cabelos, que ajeita a mirar-se no espelho e lava com xampu restaurador e besunta com gel; você talvez se aflija com os sulcos que os anos vão lhe cavoucando nas comissuras dos lábios e dos olhos, e nessa minúscula região também aplica cremes franceses que custam 50 euros;
você faz abdominais para enrijecer a barriga; você protege bem os pés com calçados elegantes, até porque, você sabe, a primeira peça do vestuário masculino na qual as mulheres reparam são os sapatos. Pois bem. Você está atento a todas as partes do seu corpo. Mas você nunca pensa no minguinho, nunca olha para ele, nunca dedica 10 segundos do seu dia a ponderar acerca do minguinho.
Bem.
Neste momento raro em que, devido ao parágrafo acima, você está pensando no seu minguinho, suponha que ele esteja doendo. Doendo muito por conta de alguma doença de minguinhos. O que acontecerá? Você só vai pensar no minguinho.
Você não conseguirá fazer mais nada direito por causa do minguinho. Os lábios em forma de coração daquela morena, as elevações da vida religiosa, os prazeres inefáveis do saber e da cultura, os euros e os dólares todos, nada disso tem importância. Só o que importa é o seu dedo minguinho, o dedo minguinho é o suserano do seu ser, o dedo minguinho é o centro do mundo.
Por quê? Porque o homem é um ser físico.
É por isso que você precisa evitar certas temeridades. Dirigir em alta velocidade, fazer ultrapassagens perigosas, praticar acrobacias inúteis, saltar de paraquedas se não for para invadir a Normandia ou porque o avião está caindo, limpar janelas de edifícios sem corda de segurança, chamar uma mulher de gorda, todas essas, e outras tantas, são ações estúpidas que podem causar mutilações. Quer dizer: que podem profanar o seu corpo, e com isso, profanar a sua mente e acabar com a sua vida.
O homem é um ser físico. Mas gostaria de ser puramente espiritual. E a fase mais espiritual da vida, mais ideológica, a fase em que o ser humano mais anseia pelos valores intangíveis, não por acaso corresponde ao auge do seu vigor físico: a juventude.
O jovem sonha com realizações, com a glória, com a justiça ou com a revolução. Com “algo mais” do que a vida mundana, comum, material, “física”. E, quando um jovem experimenta drogas, ele quer algo além do prazer físico; ele quer alcançar o intangível.
Ele arrisca a sua integridade física por uma experiência extrassensorial, ou seja, além dos sentidos. Além do físico. As campanhas contra as drogas precisavam convencer o jovem disso, de que ele é um ser físico. E de que nenhuma experiência transcendental vale mais do que um dedo minguinho.
Posted
4:17 PM by Cassiano Leonel Drum Contardo Calligaris
Embaixo do edredom do "BBB"
Indiciar Daniel é como a polícia prender um ator que teria realizado os crimes previstos no roteiro
Na madrugada entre sábado e domingo retrasados, o "brother" Daniel Echaniz, 31, e a "sister" Monique Amin, 23, deitaram-se numa cama do "Big Brother Brasil 12". Ao que parece, ambos estavam para lá de Bagdá.
Graças a câmaras hipersensíveis, os assinantes do "BBB" 24 horas entreviram assim uma movimentação sugestiva debaixo do edredom de oncinha que cobria Daniel e Monique. Alguns se indignaram porque, aparentemente, Daniel se agitava, enquanto Monique ficava parada.
Mais tarde, Monique disse se lembrar de beijos e amassos, e só: se Daniel tivesse feito mais, ele seria "mau-caráter", pois ela tinha desmaiado. Daniel afirmou que não houve relação sexual. Mesmo assim, ele foi expulso do "BBB" por "comportamento inadequado" e encara agora, "no mundo real", uma acusação de estupro (caso seja provado que ele transou com Monique enquanto ela estava inconsciente).
Quando eu era criança, durante um verão na Espanha, eu insistia para assistir a todas as touradas.
Não é que eu fosse um "aficionado" da cruel e requintada arte de tourear; eu só queria ver sangue na arena, esperava que, ao menos uma vez, o touro enfiasse seu corno na pança do toureador. Depois de um mês vendo cavalos de picador sendo feridos, tive "sorte": vi um toureador esventrado por um majestoso Miúra, da Andaluzia.
O espectador do "BBB" não é diferente de mim naquelas férias espanholas, e a Globo, no caso, aposta em sua curiosidade um pouco mórbida: a possibilidade que haja comportamentos inadequados é a razão para alguém ficar acordado de madrugada, assistindo ao "BBB" 24 horas. Tanto faz, você dirá: que os espectadores queiram comportamentos inadequados ou se indignem por causa deles, de qualquer forma, Daniel teria ido longe demais -transar com uma mulher inconsciente é crime.
Concordo. Mesmo assim, quando li que a polícia tinha indiciado Daniel, achei bizarro, como se as forças da ordem se metessem num palco de teatro ou num set de cinema, para prender um ator que teria realizado o crime previsto no roteiro.
Espere aí, alguém objetará, o "BBB" não é uma ficção! Esse, de fato, é o argumento de venda de todos os reality shows. No entanto, segundo, por exemplo, Scott Stone (roteirista de "The Mole", "The Man Show" etc.), os reality shows, antes de serem escrotos, são, sobretudo, escritos. Obviamente, eles não seguem um roteiro acabado, com cenas e diálogos detalhados, mas se alimentam numa sinopse escrita de situações, conflitos e alianças desejáveis entre personagens.
Daniel e Monique podem não ser atores, e o episódio do edredom pode não ser dramaturgia. Mesmo assim, as ações entre "brothers" e "sisters" do BBB não são propriamente "realidade".
No mínimo, os reality shows são parentes da "commedia dell'arte": improvisações a partir de um "canovaccio" (roteiro rudimentar), com personagens escolhidos porque eles correspondem às máscaras estereotipadas das quais o "canovaccio" precisa. De muitas dessas máscaras, aliás, espera-se que produzam comportamentos inadequados.
Então, se Daniel for acusado e processado, o "BBB" deveria ser acusado e processado com ele, por instigar o crime, ou seja, por ter, de uma certa forma, "roteirizado" o suposto estupro de Monique.
Em suma, a "realidade" produzida pelos "reality shows" é duvidosa, e considerar crime o "comportamento inadequado" de Daniel não é muito diferente de a polícia invadir o set de "Dormindo com o Inimigo" para salvar Julia Roberts e prender Patrick Bergin, o marido espancador.
Mas talvez eu esteja me preocupando por nada; talvez, nessa confusão entre realidade e ficção, a chegada de polícia e procuradoria ao "BBB" seja apenas mais um artifício dramático, para convencer o público de que o show é mesmo "de verdade".
Bom, nesta semana, além de Daniel e Monique, tivemos a grávida de quadrigêmeos factícia e a Luiza que está no Canadá. Não sei se Daniel e Monique se darão mal ou bem. Luiza ganhou vários contratos comerciais "reais". Resta que a mulher dos quadrigêmeos pode ser acusada de falsidade ideológica.
Será que é justo? Ela inventou uma história, que se tornou pauta e nos entreteve. Ganhou um dinheiro com isso? E por que não? Afinal, foi menos do que ganha um ficcionista médio.
Seja como for, Zé Simão é sortudo: sem querer desmerecer seu talento, é óbvio que o mundo (ou é só o Brasil?) faz de tudo para facilitar seu trabalho.
Posted
4:13 PM by Cassiano Leonel Drum Eliane Cantanhêde
Desmotivados e motivados
BRASÍLIA - Dilma não suporta mais o ministro Mário Negromonte, mas ele está encastelado nas Cidades e dali não sai nem arrastado. Prefere empurrar os assessores pela janela. Ontem caiu o seu chefe de gabinete, Cássio Peixoto, baiano como Negromonte e indicado pelo PP como ele.
Vão-se os assessores, fica a cadeira, mas o vexame de Negromonte e o constrangimento do Planalto aumentam a cada dia, com lances de ridículo. O mais novo foi a explicação do ministério para a demissão de Peixoto: ele estava "desmotivado". Quanto às reuniões esquisitas para discutir licitações previamente com uma (pelo menos) empresa? Nenhuma palavra.
Enquanto parte do PP tenta livrar-se de Negromonte e fatiar novamente o Ministério das Cidades, o PMDB luta bravamente para tentar salvar o "insalvável" diretor-geral do Dnocs (Departamento Nacional de Obras contra as Secas), Elias Fernandes Neto.
O que menos importa aí é que a seca está castigando boa parte do país, especialmente no Sul e no Nordeste, e cobrando mais eficiência. O que conta é que o motivado Neto é amigo do peito do líder pemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves, chefão do PMDB.
É curioso como esse confronto do Planalto com o PMDB lembra o da Europa com o Irã. Dilma aperta o cerco ao Dnocs (para dar uma satisfação à opinião pública), e a Europa impõe novo embargo ao petróleo iraniano (para evitar a bomba atômica).
Como reage o PMDB? Ameaça romper e retirar toda a sua gente do governo, inclusive da Petrobras. E o Irã? Desdenha das pressões e diz que quem perde com o embargo é a própria Europa, que fica sem petróleo.
Ninguém, porém, acredita que os pemedebistas vão mesmo sair da Petrobras, nem que quem perde mais com o isolamento do Irã é a Europa. O PMDB, como o Irã, está blefando.
A comparação para aí, porque tanto a história das Cidades quanto a do Dnocs são brasileiríssimas.
Ao contrário das afirmações sensacionalistas, Newton e Einstein não estavam errados; as novas descobertas da física só são observadas em escalas extremas
Se eu me apoiar em uma parede, eu vou pressioná-la, e ela vai reagir fazendo uma força igual e oposta à força que eu fazia sobre ela. É isso que me impede de cair. Trata-se da terceira lei de Newton, que aprendemos na escola.
Se confirmada a experiência de que os neutrinos podem viajar a uma velocidade superior à da luz, a terceira lei de Newton deixará de ser verdadeira? Deixará de ser válida qualquer outra lei conhecida e de uso cotidiano?
O que significam manchetes questionando se estamos passando por uma "revolução na ciência" ou se "Einstein estava errado"?
As profundas mudanças ocorridas na ciência no último século se referem a fenômenos que, em sua quase totalidade, só são observáveis em escalas microscópicas, a enormes distâncias ou a grandes velocidades. Eles não são observáveis sem equipamentos modernos muito especiais.
Os resultados da lei da gravidade, por exemplo, só se modificaram com as novas descobertas para distâncias astronômicas.
Um exemplo é a órbita de Mercúrio ao redor do Sol. Ela não é exatamente periódica, em razão da atração de outros astros (fenômeno que já era conhecido antes de Einstein), que faz com que o ponto de maior aproximação do planeta com o Sol se desloque a cada rotação.
No entanto, os cálculos da época não coincidiam com as medições, havendo uma diferença de 1% entre eles. Quando foi aplicada a relatividade geral de Einstein, tornou-se possível corrigir os cálculos anteriores em 25 milionésimos de grau por rotação (e uma volta tem 360 graus!), fazendo teoria e experiência coincidirem.
A relatividade restrita de Einstein também só modifica as leis de Newton para velocidades próximas à velocidade da luz.
Por exemplo: a estrela mais perto de nós, a Próxima da constelação do Centauro, está a cerca de quatro anos-luz, que é a distância que a luz percorre em quatro anos.
Um foguete que viajasse a uma velocidade de 10 mil quilômetros por hora (mais de dez vezes a velocidade de um Airbus) levaria 400 mil anos para chegar à estrela Próxima. Por isso, até nossos foguetes ainda são newtonianos!
O desenvolvimento da tecnologia permite medidas muito mais refinadas e tem trazido desafios à ciência, pois fenômenos que antes eram inobserváveis nem sempre estão de acordo com as previsões teóricas baseadas em experiências menos extremas. Novas teorias são necessárias para explicá-los.
No entanto, elas só alteram os resultados nesses limites, sendo esse, aliás, um dos critérios de consistência para essas novas teorias. Ou seja, aquém desses limites as novas teorias devem reproduzir os resultados das observações clássicas.
É por isso que tudo que Einstein provou continuará válido para situações em que a relatividade é necessária, seja qual for o resultado da experiência com os neutrinos.
Afirmações sensacionalistas sobre as novas descobertas não ajudam a sociedade a compreender a evolução da ciência. Essa evolução, ao contrário do que parece, é fortalecida quando surgem novas descobertas, pois elas ampliam os limites de compreensão da natureza.
ROBERTO LOBO, 73, doutor em física pela Purdue University (EUA), é professor titular do Instituto de Física de São Carlos da USP, ex-reitor da mesma universidade e presidente do Instituto Lobo
26 de janeiro de 2012 | N° 16959
ARTIGOS - Joselma Noal*
O polêmico canto do galo
Uma notícia sobre o canto de um galo em Capão Novo me levou a dividir com os leitores uma reflexão sobre a falta de paciência e tolerância, que a maioria das pessoas tem, com o barulho alheio.
Pois é, o canto de um galo pela madrugada e pela manhã perturba um número elevado de moradores e veranistas, no entanto uma minoria apoia. Aliás, tem até gente querendo adotar o tal galo! A polêmica tá tão grande pra aquelas bandas do Litoral, que o caso está sob responsabilidade da vice-prefeita, que tenta administrar de modo diplomático a situação.
E o dono do galo? Este gosta do seu animal de estimação, revela tristemente que o ano passado sacrificou o pai do galo (deste que agora canta) e não quer repetir o mesmo gesto. A coisa tá tão maluca, que parece que o galo vai parar em um hotel.
A questão é a forma como as pessoas reagem diante do canto do galo. Alguns estão indignados, perturbados, estressados, já outros adoram ouvir o canto do galo, relembram a infância no campo ou sonham com uma vida tranquila, longe da metrópole, algo que talvez nunca tenham vivido em um instante sequer na vida.
Quantas vezes também nós fazemos barulhos indesejáveis para os nossos vizinhos, ouvindo música, assistindo a um filme, em uma reunião de amigos, em uma festa?
Falta respeito com o próximo por parte do dono do galo, mas faltam também paciência e tolerância por parte dos vizinhos. Atualmente, convivo com o som do teclado do morador da casa aos fundos da minha, confesso que no início achei bacana, após alguns dias tolerável, agora irritante, mas não direi nada a meu vizinho, porque ele também convive com os barulhos advindos de minha residência e tampouco deve apreciá-los.
O cidadão de férias em Capão Novo, por que não aproveita para se divertir, em lugar de reclamar e fazer queixa formal do canto do galo? Tem gente com vocação pra queixoso e não adianta, podia estar no Caribe, em Paris ou em Nova York, que encontraria algum motivo pra justificar sua infelicidade e falta de sorte.
Talvez não fosse nada parecido a um canto de um galo, mas uma bagagem perdida, um restaurante com uma carta de vinhos insatisfatória, um guia pouco gentil, um atraso nos voos, enfim algum pretexto para julgar-se infeliz.
Veranistas de Capão Novo, por favor: é imprescindível ser tolerante para ter férias agradáveis. E guarde o segredo para uma vida na metrópole menos estressante!
*ESCRITORA, PROFESSORA DE LÍNGUA ESPANHOLA DA FURG
26 de janeiro de 2012 | N° 16959
ARTIGOS - Astor Wartchow*
Um outro mundo é possível?
A organização e realização de um evento de contraposição à inevitabilidade histórica, ou ao dito “fim da História”, é um delírio coletivo aos olhos e coração de um conservador sociopolítico, que, afinal, acredita que “a vida é assim mesmo, que as pessoas são o que são e que os governos são todos iguais. Enfim, o mercado é que sabe”.
Mas outro mundo é possível. Povos e governos experimentam ao longo de suas existências e mandatos diversas teorias políticas e econômicas, alternando sucessos e fracassos. Nos dois extremos das experiências recentes, encontramos o capitalismo e o comunismo, teorias ainda em busca de uma síntese.
Esta síntese imaginava-se realizada no Estado de bem-estar social tipo europeu, o famoso welfare state. Infelizmente, as alterações geopolíticas na Europa modificaram dramaticamente aquela realidade, submetendo-a a graves distúrbios socioeconômicos.
Sob protestos, reina o capitalismo com todos os seus defeitos. No núcleo de sua ação motora, o egoísmo, comportamento que alguns pensadores denominam de inevitabilidade da condição e natureza humanas.
A mundialização da economia e a concentração do capital afetam e comprometem a unidade e coesão social dos povos, enquanto as desigualdades econômicas aprofundam-se à medida que aumenta a supremacia dos mercados.
A contestação do modelo dominante legitima a revolta e a agitação popular. Configura-se, pois, um quadro de inúmeras contradições que demandarão um profundo esforço e exercício de mobilização, resistência, organização e construção de alternativas.
No centro, e entretanto, o exercício da liberdade pressupõe e exige a tolerância e a solidariedade. De tudo que foi pensado, dito e sonhado, sofismado ou não, o rol utópico sugere a seguinte pauta:
Utopia um: as relações econômicas deverão estar a serviço do ser humano, da pessoa, e não a pessoa a serviço da economia. A economia é objeto da pessoa e esta seu sujeito, e não a economia sujeito da pessoa e esta seu objeto.
Utopia dois: a liberdade de autodeterminação não pode limitar-se à capacidade e autonomia de consumo, mas sobretudo alcançar a ideia de um sentido próprio à vida, de sua consagração, conferindo um sentido positivo.
Utopia três: encontros com os sonhadores e os inconformados renovam a esperança de que virá o dia em que todos terão vida digna e acesso aos bens de consumo. Renova-se a esperança de superação deste estado de passividade, de mesmice, de deslumbramentos e macaquices com os modelos de vida dos impérios da hora.
Utopia nuclear: a esperança na superação da razão sobre o instinto predador.
Para encerrar, uma frase do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855): “Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. Aventurar-se no sentido mais amplo é precisamente tomar consciência de si próprio”.
Não gosto de ir a festas e outros encontros em que sou a maior atração. Sinto que constranjo outros que são atrações menores.
Havia uma pessoa muito atraente e famosa aqui em POA que estrategicamente evitava de me levar a eventos em que ela era a atração, com receio de que eu fosse superá-la no local.
Sinto-me mais à vontade quando nitidamente existem nesses eventos pessoas de maior vulto do que eu, até mesmo porque então diminui minha responsabilidade.
Cego é aquele que só enxerga até onde a vista alcança.
Surdo é aquele que só ouve até onde o ouvido alcança.
Mas comigo se dá uma coisa estranha: eu amo além de onde meu coração alcança. Meu coração emite ondas de raios X que perpassam o que amo e a quem amo e alcançam tudo que lhes for pertinente.
Um exame rigoroso me deu a triste notícia ontem: meus dois labirintos estão completamente inativados.
Imaginem a importância do labirinto, como um dos órgãos primaciais do corpo humano no que se refere ao equilíbrio, pois os meus estão inativados. Não digo extintos porque tenho esperança de que exercícios de reabilitação vestibular estafantes possam vir a recuperá-los.
Mas esse passou a ser agora o meu grande e máximo problema de saúde.
Em compensação, em exame também feito ontem pela radiologista Mariângela Friedrich, foi constatado que minhas artérias cervicais e cerebrais estão tinindo, irrigando meu cerebelo, meu cérebro, minha cerviz (nuca), meu couro cabeludo, meu rosto e todas as imediações da cabeça.
Ou seja, minha terrível tontura, não há agora mais dúvida, tem origem na desativação incrível dos meus labirintos, suponho que pelas cirurgias que extirparam vários tumores do meu ouvido (cerca de cinco).
Será que posso reativar meus labirintos?
Mas, enquanto eu puder ainda ouvir um violão e um bandolim, enquanto eu puder ter à minha volta amigos em torno a uma mesa, enquanto eu puder comer um espaguete à carbonara, enquanto eu tiver forças para visitar doentes nos hospitais e detentos nos presídios, enquanto eu puder escrever o que estou escrevendo, livro de textos inéditos que lançarei em breve e que já nos e-mails encontra leitores que se inscrevem como compradores, enquanto correr o sangue em minhas artérias e as ideias no meu cérebro, há vida e eu viverei.
Alguma coisa aconteceu no coração do Brasil quando acabaram com as lutas de “catch”. Elas eram um sucesso na TV e seus astros viajavam em caravanas pelo país, apresentando-se em ginásios e circos. As lutas não eram lutas, eram teatro. Não eram exatamente combinadas, mas seguiam um roteiro estabelecido e havia um acordo tácito de que ninguém sairia do ringue machucado, mesmo que saísse arremessado.
O roteiro básico não variava: eram os bons contra os maus, e os bons sempre ganhavam. Ou só perdiam quando o adversário traiçoeiro recorria a um golpe especialmente baixo, sob uivos de raiva da plateia. E a reação da plateia fazia parte do teatro.
Havia uma suspensão voluntária de descrença, e todos torciam pelo Bem contra o Mal – ou pelo bonito contra o feio, o esbelto contra o barrigudo, o correto contra o falso – com um fervor que não excluía a consciência de que era tudo encenação.
Era fácil distinguir os bons e os maus. Os bons eram atletas como o Ted Boy Marino, caráter tão irretocável quanto os seus cabelos loiros, que lutava limpo. Os maus tinham nomes como Verdugo e Rasputim, e comportamento correspondente ao nome. Lembro de um Homem Montanha, que mais de uma vez derrubou o juiz junto com o adversário. E não havia um Tigre Paraguaio?
Os bons geralmente começavam apanhando e, quando parecia que estavam liquidados e que o Mal triunfaria, vinha a eletrizante reação, durante a qual o inimigo pagava por todas as suas maldades. Humilhação e vingança, nada na história do teatro é tão antigo e tão eficaz. Nove entre 10 novelas de TV têm o mesmo enredo.
Não sei se ainda fazem espetáculos de “catch” pelo interior do país. Hoje, na TV, o que se vê é o “ultimate fighting”, ou “mixed martial arts”, dois lutadores simbolizando nada trocando socos e pontapés sem simulação, quando não se engalfinham no chão como um bicho de duas costas e oito patas em convulsão.
Nessas lutas não vale, exatamente, tudo – parece que esgoelar o outro e xingar a mãe não pode. Mas é o “catch” despido da fantasia, com sangue de verdade. Não há mais mocinho e vilão, apenas duas máquinas de brigar, brigando. Nem Ted Boy Marino nem Homem Montanha, apenas a violência em estado puro. Sei não, acho que empobrecemos.