Espero que retornes
sempre a este espaço feito para você.
Obsessivo pela vida e por tudo que ainda não descobri, seguirei na busca de mais sorrisos, abraços, emoções e tudo o que me faça perder o chão. Adoro o mundo virtual e sei que o mundo real nem sempre é a melhor opção, mas não sairei por aí, voando sem direção!
Acredito que a vida é a história mais bonita - e espero longa - que podemos escrever mas isso possui um lado bom: Essa história é só minha, não importa quantos personagens passem por ela, não importa quantos desastres façam parte da minha história, o mais interessante desse enredo é esperar e desejar que tudo sempre acabe com um final feliz.
E se você minha amiga, tem alguma dúvida quanto a isso, lembre-se que é você quem está escrevendo a sua própria história, portanto, tem o direito e o dever de fazer dela uma linda história e eternizá-la. As emoções preenchidas hoje, serão a nossa maior saudade de amanhã! Viver intensamente é apenas viver. Não queira outra forma de vivenciar essa passagem.
E penses: Seremos até o fim da vida um livro inacabado, delineado, com orelhas e páginas soltas, Muitas escritas é verdade mas esperamos tenham muitas em branco a serem preenchidas ainda. Com um enredo mutante com ou sem técnica na escrita. Poemas, poesias, prosas e crônicas sem metragem, nem limites.
A capa tenta fazer jus ao contexto mas pouco consegue. Minhas páginas já construídas ora tem fotografias e desenhos coloridos ora o P&B predomina e a história vai seguindo alternando-se nas classes literárias e também criando novas. Porque a minha história não é a melhor que a sua ou de quem quer que seja, nem pior, é apenas única.
Durante uma vida, não podemos ver tudo o que gostaríamos
de observar ou aprender,tudo que desejaríamos saber.Com um amigo nesta caminhada tudo fica mais fácil.Obrigado por vires aqui todos os dias e seres meu amigo
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9:06 AM by Cassiano Leonel Drum ELIANE CANTANHÊDE
Memória e história
BRASÍLIA - Dilma Rousseff pode ter vivido ontem o grande momento de seus quatro (ou oito) anos de governo, com a instalação da Comissão da Verdade e o início da Lei de Acesso à Informação. São dois passos importantes para um país que há 27 anos tricota sua democracia.
A menina que lutou, foi presa e torturada por uma ditadura militar tornou-se a primeira presidente mulher do Brasil e, emocionada, mal contendo o choro, lembrou que a verdade não é retaliação nem perdão, é "memória e história".
E centrou no drama interminável dos desaparecidos, que é um drama também de cada um de nós: "É como se disséssemos que existem filhos sem pai, existem pais sem filhos, existem túmulos sem corpos".
Para dar um caráter histórico à cerimônia, Dilma se fez ladear pelos antecessores Sarney, Collor, Fernando Henrique e Lula, brindando com todos eles num almoço no Alvorada. Um momento, mais do que suprapartidário, republicano.
Quanto aos alvos e à extensão da Comissão da Verdade, seus sete membros refletem o que se discute na própria sociedade e divergem publicamente se é para investigar só os torturadores ou se é para vasculhar também a esquerda armada.
Diante do consenso de que a verdade é "memória", sem retaliação e sem a intenção de judicializar os resultados, a solução para o impasse -ou como se chamem as divergências- é simplesmente contar a história, com seus atores e seus momentos, sem cortes, sem trucagens.
Não se preocupem as vítimas, os familiares, a esquerda, porque essa história fala por si. Basta contá-la, sistematizando o que já há e acrescentando o quanto falta para que tenha um começo, um meio e (finalmente...) um fim.
Foi uma guerra desigual e desumana, com torturadores de um lado e torturados de outro. Não há nenhuma outra verdade a ser investigada que possa se impor a essa realidade.
É preocupante e precisa sensibilizar as autoridades de segurança pública o resultado de pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em seis Estados, entre os quais o Rio Grande do Sul, indicando um elevado índice de desconfiança por parte da população gaúcha em relação à polícia.
Como a falta de confiança está ligada diretamente à insatisfação com os serviços prestados por organismos policiais, é importante que as providências sejam definidas em conjunto com as comunidades. Uma situação como a atual, que se repete de maneira geral no restante do país, só pode interessar aos próprios criminosos.
Entre as conclusões do estudo, destaca-se o fato de 53,9% dos que se manifestaram em nome dos gaúchos considerarem a polícia nada ou pouco confiável. Não por acaso, a maioria dos descrentes na corporação tem pouca renda, mora mal e percebe a violência como uma deformação incorporada ao seu cotidiano.
Nesse ambiente, no qual muitas vezes o próprio crime organizado passa a assumir papéis típicos do Estado, agentes da lei e criminosos tendem a se confundir nas suas ações. Em consequência, os policiais costumam ser encarados como uma ameaça, não como proteção.
O primeiro movimento que precisa ser feito para atenuar esse quadro é o de aproximação entre a autoridade policial e líderes das comunidades, pois é possível potencializar os avanços nessa área com uma atuação em conjunto. Mas é imprescindível que os organismos de segurança também façam sua parte nesse processo.
Isso implica a necessidade de maior qualidade nos serviços e o reconhecimento de que é possível, sim, melhorar alguns indicadores, como o tempo de atendimento às vítimas e a taxa de esclarecimento de homicídios.
Polícia e sociedade precisam se encarar mutuamente como aliados, não como adversários. Quando esse estágio for alcançado, o Estado estará finalmente mais próximo de melhorar as estatísticas relacionadas à segurança pública.
Nunca tentei dissuadir quem tivesse convicções arraigadas.
Nunca me aproximei de mulher que pertencesse a outro homem. Ao contrário, inclinei-me sempre por mulher que não pertencesse a ninguém.
Nunca fiz dívida que não pudesse pagar. E, quando por momentos não pude pagar determinadas dívidas, não dormia à noite enquanto não pudesse saldá-las. Por sinal, nunca concordei com aquela máxima mau-caráter de que quem tem de se preocupar com a dívida é o credor e não o devedor.
Nunca cobrei dívida de quem me tivesse caloteado se ela fosse pequena. Fingi sempre que tinha esquecido.
Nunca gostei de dizer “adeus”, sempre substituí esta palavra por “até breve”, até mesmo quando quem partiu tinha morrido.
Nunca em toda a minha vida guardei mais que dois segredos. Ainda os guardo e suponho que os guardarei até a morte.
Nunca cometi calúnia (atribuir a autoria de crime inexistente a outrem). Mas já cometi difamação, do que sempre acabei me arrependendo. Ainda na segunda-feira passada, difamei alguém no microfone em resposta a uma agressão injustificável que sofri num debate, uma espécie de legítima defesa.
Nunca dei mais que duas palmadas em filhos meus pequenos. Já meu pai nunca me deu menos que duas violentas bofetadas.
Nunca tive inveja de amigo meu. Já ciúme de amigo meu que se aproximava mais de outrem que de mim, tive-o mais de mil vezes.
Nunca invadi chácara alheia, quando eu era criança, se as bergamotas lá existentes fossem verdes. Já quando as bergamotas eram maduras, eu invadia mais que o MST.
Nunca recusei um enfrentamento pessoal. Fui admiravelmente corajoso em alguns, miseravelmente covarde em outros, dependendo do tamanho ou do poder de fogo dos meus antagonistas.
Nunca deixei de comprar brigas e já fugi de muita briga. Quando comprei briga, não calculei nada. Quando fugi de briga, fui estratego.
Já chorei de dor e já chorei de alegria. Gozado, mas nunca consegui sorrir de sofrimento ou na derrota.
Nunca serei rico a ponto de me julgar poderoso, mas sempre me considerei na pobreza como um súdito.
Participei, sim, da campanha que garantiu a posse do Jango depois da renúncia do Jânio. Como ouvinte. Fui para a frente do palácio do governo, como todo mundo, em Porto Alegre. Mais por curiosidade do que por qualquer ímpeto legalista.
Eu trabalhava na Editora Globo, só porque não tinha me formado em nada, não queria mais estudar e a família – por um preconceito inexplicável – não queria um vagabundo em casa. Naquele dia, o expediente acabou mais cedo. Motivo: guerra civil iminente.
Fui para a Praça da Matriz. A indignação com o que estavam preparando contra a posse do Jango, a Constituição e o Rio Grande do Sul era geral, mas não sei como nos comportaríamos se os tanques do III Exército realmente surgissem na praça para acabar com a resistência do Brizola, como estavam anunciando.
A disposição da maioria era a de formar uma barreira humana. Não passarão! Mas não era uma atitude apenas passional. Vários estrategistas militares espontâneos, com ideias sobre como agir, contribuíam com planos para a batalha possível.
Discutia-se como os tanques chegariam ao palácio. Alguém nos assegurou, com precisão científica, que nenhum tanque conhecido conseguiria subir uma ladeira com o grau de inclinação da Rua General Câmara, que vinha dar na praça. Eles teriam que pegar a Rua Duque por baixo, o que aumentaria as chances de uma ação de bloqueio em toda a extensão da rua estreita.
Ou poderiam subir pela Avenida Borges, dobrar na Riachuelo ou na Jerônimo Coelho... De qualquer jeito, não passariam. Mas havia a possibilidade de um ataque aéreo. Aviões estariam ou não estariam a caminho do Estado para reforçar o contingente da base aérea de Canoas e bombardear o Brizola.
Os ataques não vieram, mas a tensão permaneceu alta, aliviada por piadas nervosas. Naquele clima, qualquer bobagem virava um clássico. Ouvi que chegou alguém esbaforido – grande palavra, o clima era esbaforido – com a notícia:
– Voou bala na Praça da Alfândega!
– O quê?
– Parece que caiu um baleiro...
(Baleiro, crianças, era quem vendia balas na rua ou nos cinemas. Faziam parte do ritual de ir ao cinema na época as balas “café com leite” que colavam no dente. Mas acho que estou misturando as eras: as balas “café com leite” não foram contemporâneas da Legalidade. Ou foram?).
Havia mesas para a inscrição de voluntários na Rua da Praia, e dizem que, por um breve e alucinado instante, o Partido Comunista teve o maior quadro da sua história. Estudantes faziam comícios relâmpagos na rua e se revezavam, entrando em bondes para conscientizar seus ocupantes. O jornalista Marcão Faerman, que então era estudante, contava que se reuniam no fim do dia para comparar experiências e uma vez ouviu uma queixa: “Peguei um bonde Gasômetro reacionário...”.
O palácio não foi atacado, o III Exército aderiu à Legalidade, Jango tomou posse e três anos depois veio o golpe que o derrubou. O bonde reacionário tinha se atrasado um pouco na Rua Duque, mas acabou chegando a Brasília.
O "Grito", do pintor norueguês Edvard Munch, ficou pronto para ser parodiado e consumido
FIZERAM O diabo com a "Mona Lisa". Duchamp pintou-lhe um bigode; Botero copiou-a, acrescentando vários quilos à sua figura, e Mauricio de Sousa desenhou a Mônica na mesma pose. De alguma forma, o quadro de Leonardo da Vinci resiste a essas paródias. É até provável que tais brincadeiras tenham o objetivo inconsciente de "testar" o poder da Gioconda.
Por mais banalizada que a imagem esteja, acho que seu mistério continua. Não tenho certeza se "O Grito", de Edvard Munch, aguenta a superexposição que lhe aconteceu nos últimos tempos.
Desde o espetacular arremate do quadro, num leilão no começo do mês, vê-se "O Grito" em toda parte.
Serve de símbolo, entre outras coisas, para o "Veta, Dilma"; funciona bem quando uma revista semanal quer falar da alta de preços ou da corrupção; pode ser posta no Facebook como retrato de qualquer usuário que se sinta atulhado de compromissos ou tonto com muitas chamadas no celular.
Nesse sentido, "O Grito" é bem o contrário da "Mona Lisa". Qualquer significado "cola" no quadro de Munch, porque não faltam motivos para um ser humano dar seus gritos de desespero de vez em quando.
Nenhum rótulo funciona direito na "Mona Lisa". Como disse o crítico Walter Pater (1839-1894), ela "é mais antiga do que as rochas entre as quais está posando".
Como o vampiro, continua Pater, "ela esteve morta muitas vezes, e aprendeu os segredos do sepulcro; mergulhou em mares profundos, e guarda consigo o dia que neles se extinguiu".
Captando bem a indiferença jocosa do retrato, Pater conclui que, para a Mona Lisa, "tudo (e o termo sugere todos os desastres da história humana) nada mais foi do que o som de liras e de flautas".
Certamente, não é desse tipo de sons que está tratando "O Grito". O homenzinho do quadro nunca esteve morto, nem mergulhou no mar; parece prestes a atirar-se da ponte.
Não é ele quem grita, embora sua boca aberta dê essa impressão. Segundo o poema de Munch que acompanha o quadro, "eu estava andando na rua com dois amigos/ o sol se punha, o céu se avermelhou como sangue/(...) meus amigos continuaram o caminho, eu fiquei para trás/ tremendo de angústia:/ senti um grande grito na natureza".
É a natureza quem grita, o que aliás torna razoável a apropriação do quadro pelos ambientalistas. O homenzinho, por isso, tapa os ouvidos com as mãos.
Munch pintou uma ponte perto da casa onde morava, na vizinhança de um matadouro -e também do manicômio onde sua irmã estava internada. Os gritos de loucos e de animais abatidos, numa paisagem de sangue, não eram tão simbólicos e psicológicos assim.
Mas não deixa de ser sintomático o modo como a imagem é interpretada atualmente. O grito vem de nós, e não de fora. É o desespero de alguém que se sente diminuído pelos problemas à sua volta -pouco importando quais sejam, o atendimento da TV a cabo ou o excesso de solicitações de amizade no Facebook.
Esse disparate entre a intensidade da angústia e a pequenez do problema combina bem, infelizmente, com o quadro de Munch. A razão para isso é que o personagenzinho tem muito de figura de cartum. Poderia ser o Gasparzinho, Homer Simpson ou um E.T.
Sua face é como um balão, a ponto de esvaziar-se. A grande beleza do quadro, como em Van Gogh ou na arte expressionista em geral, está no fato de que natureza e ser humano, o "fora" e o "dentro", se comunicam. A paisagem e o homem são retratados na mesma ventania de pinceladas, na mesma tormenta, no mesmo fluxo.
A "Mona Lisa" se mantém soberana, muito além da paisagem do fundo, também atormentada e irreal. A subjetividade de "O Grito" extravasa para todos os lados, mas é uma subjetividade enfraquecida.
Para o teórico Fredric Jameson, com o pós-modernismo desaparece a "estética da expressão", e a obra de arte deixa de ser sinal da angústia para assumir uma superficialidade irônica e vazia.
O "Grito" ficou pronto para ser parodiado e consumido. O que foi vendido por US$ 120 milhões de dólares na Sotheby's é apenas uma, dentre as quatro versões da obra feitas pelo pintor.
O próprio Munch, quem sabe, estava tentando exorcizar aquela imagem por força da repetição. E o espanto do homenzinho, sem dúvida, tem outro motivo agora: como é alto o preço que se paga para pôr toda essa angústia no bolso!
RIO DE JANEIRO - Num dia 30 ou 31 de dezembro, fui visitá-lo na Elizart, seu sebo na rua Marechal Floriano, no velho centro. Na saída, soltei uma frase: "Quando morrer, não quero ir para o céu. Quero ir para um sebo". Ele gostou e anotou.
Manuel Mattos, ou Manel, à antiga, era assim. Vivia pelas palavras, ditas ou impressas.
Se minha ideia era a de ir para um sebo depois de morto, Manel fez melhor: praticamente nasceu em um, fundado por seu pai, e passou a vida nele. O mundo era só uma extensão das estantes. Não se contentava em comprar livros raros e machucados, às vezes sem capa, dar-lhes um trato -como copiar à mão o sumário e aplicá-lo à guisa de capa- e em exibi-los em bancadas para o primeiro que passasse. Conforme o livro, tinha de procurar a pessoa que, a seu ver, fora feita para ele.
Quando lhe disse que estava pesquisando sobre Maneco de Almeida, autor de "Memórias de um Sargento de Milícias", cumulou-me de livros, revistas e recortes raros sobre seu xará, material que tirou de sua reserva particular. Não contente, subiu comigo ao morro da Conceição, um dos cenários do livro. Manel sabia tudo sobre cada esquina daquele e de outros berços do Rio.
Pouco depois, caiu doente. O câncer castigou-o por mais de um ano. Mas, a cada má notícia, ele se superava e vencia mais uma etapa.
Até que, no dia 12 de abril, ligou-me no fim da tarde. Esperava viver mais um dia -só mais um-, mas sabia que não seria possível.
"Não pensei que fosse acabar como peru, morrendo de véspera", ele riu. Citou minha frase pela última vez. Despediu-se tranquilo e partiu poucas horas depois.
Visitá-lo na Elizart no último dia útil do ano já era uma tradição. Continuarei a fazer isso. O sebo estará lá, tocado por seus irmãos e seu filho. E sei que, de muitas maneiras, Manel também estará. Afinal, é o seu céu.
Na vida o roteiro algumas vezes é ruim, troncho, sem graça nem sentido; ele a Chris não pôde consertar
NA SITUAÇÃO em que conheci a Chris Riera era bem provável que não houvesse gostado dela -e assim seria, fosse ela qualquer outra pessoa que não a Chris Riera.
Uns cinco anos atrás, Chris avaliou um roteiro que escrevi para o diretor Paulo Morelli. Era minha primeira experiência com longas-metragens e, apesar do conhecimento e da paciência do Paulo e de sua parceira no projeto, Nina Crintzs, me ajudando como podiam, meu amadorismo falou mais alto: o roteiro ficou ruim, troncho.
Chris, à época, era uma espécie de chefe dos mecânicos da dramaturgia, na produtora O2, auxiliando roteiristas a consertarem, alinharem e balancearem suas histórias. Depois de ler minhas cento e tantas páginas, mandou um longo e-mail. Em nenhum momento dizia "não gostei", "isso é ruim", "tá errado". Em vez disso, mostrava os defeitos com delicadeza e precisão. Apontava saídas. Sugeria outros caminhos.
Lendo seus comentários, percebi três coisas: que eu não entendia patavina de narrativas audiovisuais, que estava diante de uma profunda conhecedora do assunto e que era possível dizer a alguém que seu trabalho está lastimável de uma forma encantadora.
Não à toa, portanto, Chris Riera se tornou, na última década, um nome recorrente nos créditos de alguns dos melhores filmes e séries nacionais, colaborando com Fernando Meirelles, Cao Hamburguer, Tata Amaral, Karim Aïnouz, entre outros -uma eminência loura pairando, com graça e talento, por trás de muitas tramas, personagens e cenas que você assistiu e assistirá por aí.
Pós-graduada em dramaturgia em Yale e tendo trabalhado em produtoras de cinema nos EUA, trouxe de lá o pragmatismo e know-how que tanta falta fazem por estas plagas. Afinal, apesar de termos produzido alguns ótimos filmes nos últimos 20 anos, o roteiro continua sendo nosso calcanhar de Aquiles.
Um roteiro não é uma obra de arte: é um manual de instruções para uma obra de arte. É relojoaria. Engenharia. Requer conhecimento de engrenagens, cabos e roldanas, balística. Demanda trabalho e paciência de Jó.
F. Scott Fitzgerald, durante um tempo, escreveu para Hollywood. Não deu certo. "Contrataram um escultor para trabalhar com encanamento", comentou seu amigo Billy Wilder. A frase geralmente é citada para menosprezar a indústria cinematográfica, mas prefiro ver nela o contrário: a elevação da hidráulica ao status de arte.
Muito de um roteiro é, sim, encanamento: saber que tubos conectar, em que ângulos, para que a água entre aqui e saia lá, com a temperatura e pressão certas, sem vazar. Isso explica por que são tão poucos os bons roteiristas brasileiros: nesta terra de bacharéis, ninguém quer ser encanador, todos queremos ser escultores. Queremos ouro sem garimpo, brilho sem polimento.
Aqui, portanto, a Chris Riera -essa Giacometti da hidráulica dramatúrgica- era mais importante do que em qualquer outro lugar. Eu torcia muito para que nossos caminhos se cruzassem num futuro projeto e eu contasse novamente com seu luxuoso auxílio. Não contarei. Na vida o roteiro algumas vezes é ruim, troncho, sem graça nem sentido -e este foi o único roteiro que a Chris, apesar de todo seu talento, doçura e generosidade, não pôde consertar.
Na semana que passou, vivi duas experiências que nada têm a ver uma com a outra, mas mesmo assim correlacionei. Uma foi a visita que fiz ao Projac, o centro de produções da TV Globo, no Rio. Mais de 8 mil pessoas trabalham nessa indústria do entretenimento, que os funcionários chamam carinhosamente de fábrica de sonhos, mas que eu chamaria de fábrica de ilusões – parece a mesma coisa, mas há uma sutil diferença.
Fiquei bem impressionada com o realismo das cidades cenográficas, com destaque para o lixão de Avenida Brasil e a rua de Copacabana onde se passa a série Tapas e Beijos – não sei se Deus está nos detalhes, mas Roberto Marinho está. Um trabalho absolutamente preciso, caprichado. Parece mesmo que você está num lixão, que está mesmo em Copacabana, quase se perde o ceticismo. Quase.
Ao chegar perto da entrada da casa do Big Brother, senti o impacto. Nenhum livro sobre semiótica, nenhum discurso sobre as emoções pré-fabricadas vendidas pela TV me deram tanta consciência: adentrar os bastidores – qualquer bastidor – é um choque de realidade às avessas. Impressiona e é triste ao mesmo tempo.
A outra experiência: a peça Adeus à Carne, de Michel Melamed. Uma ópera contemporânea praticamente sem texto – ousadia nesses tempos em que esbanjamos palavras. O recado é dado através da sonoplastia e da expressão corporal.
O fio condutor da obra é o Carnaval, e é com alegorias totalmente nonsense que Melamed põe pra desfilar no palco a proximidade que existe entre nascimento e morte, nossas competições absurdas, nossa frágil expressividade verbal, a dor e o prazer que brotam da mesma fonte, o amor que mais afasta do que aproxima – isso se eu pesquei alguma coisa. O que mais se ouvia no final do espetáculo era: “Não entendi nada, mas adorei”.
Na peça, o momento que coloca a plateia em alvoroço: os seis integrantes do elenco surgem com as cabeças cobertas por logotipos das emissoras de TV do país, grandes escafandros que não permitem que eles enxerguem. Teletubbies adultos. É engraçadíssimo e perturbador: com a TV enfiada na cabeça, que espécie de crescimento e liberdade podemos almejar?
O Projac é o símbolo da eficiência. Reduto de artistas, e não falo apenas de atores, mas de figurinistas, cenógrafos, marceneiros, iluminadores, técnicos em efeitos especiais. Profissionalismo extremo a serviço da ilusão. É como se eles dissessem: não acredite no que você não vê, acredite apenas no que vai ao ar.
Michel Melamed, por sua vez, é um performático que pretende provocar espanto e inquietação por uma via bem mais subjetiva e onírica. É como se ele dissesse: não acredite no que você vê, acredite apenas no que fica subentendido.
TV e teatro. Aí, talvez esteja a diferença entre fábrica de ilusões e fábrica de sonhos.
16 de maio de 2012 | N° 17071
ARTIGOS - Cezar Miola*
Paradigma inovador
A entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação (LF 12.527/2011) vem exigindo da administração pública, em todas as suas esferas, importantes esforços para o cumprimento do objetivo fundamental da norma, o de permitir o acesso da sociedade a documentos e informações de interesse público detidas pelo aparelho estatal.
A tarefa exige diversas medidas concretas, tais como o aperfeiçoamento de portais eletrônicos, a criação de serviços específicos de atendimento ao cidadão e o treinamento dos servidores. Mas, para além das iniciativas organizacionais, a efetiva implementação da lei dependerá de interações bem mais complexas entre as instituições públicas brasileiras e a sociedade, destinatária de suas prestações.
Dentre elas, assinale-se a que impõe ao poder público a superação de concepções de origem histórica ainda presentes no serviço estatal, segundo as quais, por variadas razões, seria necessário manter sob reserva o conjunto de informações manejadas no curso da gestão.
Embora limitações sejam contempladas pela norma, nas situações em que a divulgação ou o acesso irrestrito às informações possam ser lesivos à segurança da sociedade ou do Estado (art. 23), ou, ainda, à intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais (art. 31), o fato é que o regramento, ao estabelecer a publicidade como preceito geral, apresenta inovador paradigma para a administração pública, mais adequado às exigências relativas à transparência e ao exercício do controle social que caracterizam as democracias modernas.
Nesse mesmo sentido, merece destaque o comando legal que demanda dos órgãos e entidades públicas o fornecimento de informações em linguagem clara e acessível, de fácil compreensão (art. 5º), visando a impedir que o tecnicismo burocrático frustre ou prejudique o acesso ao conteúdo pleiteado.
Falamos da instrumentalização do exercício de direitos que não são recentes, pois assegurados pela Carta de 1988, mas que, agora, recebem o devido estímulo. Em síntese, o advento dessa legislação terá o efeito de provocar mudanças positivas nos ambientes estatais, tensionando os organismos da administração pública no sentido de rever posicionamentos superados e de incorporar, concretamente, práticas compatíveis com os valores republicanos e democráticos ditados pela Constituição da República.
É impressionante e inédito o que acontece no México. Já são 71% dos municípios mexicanos controlados pelo narcotráfico. Ou seja, o poder do Estado em 71% dos municípios mexicanos transferiu-se para os narcotraficantes.
Nesses municípios, o poder da Justiça e dos governantes pertence, pelo terror, aos narcotraficantes.
Os narcotraficantes adotam ações cada vez mais ofensivas para amedrontar a população e as autoridades, usando carros-bomba e armas de guerra.
No domingo passado, entre milhares de atentados que já se verificaram nessa tomada de poder pelos traficantes, autoridades de Monterrey, no Estado de Nuevo León, encontraram 49 corpos mutilados, num crime ligado a um acerto de contas entre quadrilhas de narcotraficantes.
Os números são avassaladores: a guerra contra o narcotráfico, até agora vencida pelos criminosos, já alcançou 50 mil mortes.
A estratégia dos criminosos para dominar o país ganhou um novo e terrível ingrediente: cresce cada vez mais o número – já são 80 – de jornalistas assassinados pelo tráfico desde o ano 2000.
O jornal El Mañana, em Nuevo Laredo, estampou no domingo um editorial estupefaciente: deixará de publicar, por tempo indeterminado, qualquer notícia relativa à violência na cidade e em outras áreas do país.
Esse jornal sofreu um atentado com tiros e explosivos na sexta-feira passada e afirma que seus diretores resolveram nada mais noticiar sobre violência do narcotráfico pela falta absoluta de condições para o livre exercício da imprensa.
Esse ataque foi o sétimo a um meio de comunicação no Estado de Tamaulipas nos últimos seis anos.
Em 2010, o jornal El Diario, de Ciudad Juárez, já tinha publicado um editorial polêmico em que pedia trégua aos traficantes depois que dois de seus jornalistas foram assassinados.
Os jornalistas, principalmente do Norte, podem ser considerados correspondentes de guerra. E, quanto mais aumenta o crime, mais jornalistas que noticiam os fatos relacionados com o conflito são assassinados.
É como se os jornalistas estivessem no Líbano ou no Iraque. O México já é hoje o país mais perigoso para se exercer o jornalismo na América Latina, é o terceiro no mundo e fica à frente de Paquistão e Afeganistão.
Recentemente, o governo editou uma lei em que passa para o âmbito da Justiça federal toda ameaça ou ação contra jornalistas, mas ninguém acredita na eficácia dessa medida.
Assim, calando a imprensa, aterrorizando a população e pondo em xeque a independência da Justiça, falta pouco para os narcotraficantes possuírem o domínio total sobre o país.
Ainda assim, o governo combate tenaz e energicamente os criminosos e essa guerra se tornou uma queda de braço institucional.
Vejam a que ponto pode, em qualquer sociedade, progredir o poder do crime, o que vinha acontecendo até pouco tempo nas favelas do Rio de Janeiro.
No México, o povo está à mercê dos traficantes, a Justiça sente-se encurralada pelos atentados, e a imprensa, um dos últimos baluartes da ordem, vai soçobrando aos poucos.
Tomara que não seja necessária uma intervenção externa no México, que ainda assim, se ocorresse, seria difícil de ser executada e redundaria banhada em sangue.
Como entretenimento somente o cinema não me interessa, prefiro o futebol que é ao vivo e ninguém antecipa o final na fila. Dos filmes, espero sustança. Acho chato os filmes em 3D e só vou pela minha filha. Ela, aliás, prefere muito mais brincar do que ir ao cinema. Sinal dos tempos?
Há 30 anos, no tempo em que eu era um pouco mais que um guri, ia-se ao cinema não só por prazer. Achava-se que havia uma espécie de engrenagem cósmica que precisava de todas as peças para funcionar. Eu era uma dessas peças. E essa engrenagem tinha capacidade de mudar as coisas para melhor. Buñuel, Bergman, Godard, Resnais, Glauber. Nem tudo era fácil, e esse é o meu ponto.
Assisti ao 2001 do Kubrick com apenas nove anos, levado pela professora, junto com a minha turma do Grupo Escolar Benjamin Constant, no cinema Astor. Ok, não entendi nada, mas os macacos lutando, as naves espaciais, a música; tudo aquilo ficou impresso, e retido na memória.
No meu último espaço por aqui, eu trouxe a indignação do Fernando Meirelles a respeito do fracasso de público do Xingu, produzido por ele. E agora mesmo, em São Paulo, conversei com o Walter Carvalho, que se disse decepcionado com o andamento em Porto Alegre do filme que fez sobre Raul Seixas – ele me informou que o público não chegou a 4 mil espectadores.
Enquanto isso, o cineasta Peter Greenaway, em palestra recente no Brasil, declarou que o cinema está morto. Pelo menos, esse que se conhece, cheio de regras de roteiro, feito para capturar o público. Nele, diz Greenaway, os atores só sabem transar e morrer.
Putz, que enrosco. O cinema mais sensorial, com finalidade crítica, inquietante, parece cada vez mais improvável. Os exibidores fogem desse tipo de filme como vampiro do sol. Por outro lado, o cinema convencional estaria fadado à morte.
Bom, apesar disso, vou dizer o seguinte. Estou preparando um filme no momento, pretendo filmá-lo no final do ano; nele as pessoas vão transar e morrer, desculpe Greenaway. Esse projeto tem me tomado alguns anos de vida, por isso espero que até lá eu ou o cinema não morramos.
Desejo que a equipe se envolva na realização, leia, instrua-se, imagine, procure saber o que está se tentando. E, afinal, espero que o filme tenha finalidade crítica e inquietude, desculpe exibidor (só não desista, hein?), devo isso aquele menino de nove anos sentado no Astor.
Sobretudo, desejo que o filme fique bom, vou me esforçar para isso. Razão pela qual, apesar de tudo, sonho com casas cheias, recordes de bilheteria, críticas bem conceituadas. Enfim, um sucesso.
BRASÍLIA - Os "velhos fantasmas" estão voltando, como alertou a presidente Dilma Rousseff ontem, uma segunda-feira particularmente caótica mundo afora e Brasil adentro.
As Bolsas despencaram e a Bovespa caiu 3,21%, praticamente zerando os ganhos do ano. O dólar ultrapassou pela primeira vez em anos a marca dos R$ 2 e fechou o dia bem perto dela. A inflação já extrapolou a meta e ninguém mais se lembra que existe (ou existia) um centro da meta.
A coisa parece ficar feia, com o Brasil baixando alegremente os juros, mas convivendo com dois riscos -ou seriam fantasmas? Inflação em alta, crescimento em baixa. As novas previsões já ficam abaixo dos 3% para 2012, com o detalhe de que a indústria é quem mais ajuda a puxar as expectativas para baixo.
A desindustrialização já acende uma luz amarela, que converte para vermelha em alguns setores, como o têxtil, graças à carga tributária infernal, aos buracos, trancos e barrancos da infraestrutura e ao custo da energia elétrica. Dizem os empresários que é o terceiro maior do mundo.
Enquanto isso tudo, e enquanto a CPI patina em manobras diversionistas e protelatórias, o que faz Dilma? Abre o saco de bondades. Pior: bondades que todos nós só podemos aplaudir, deixando o esperneio para um ou outro economista "morrinha".
Dilma formalizou um reajuste de mais de R$ 1,5 bilhão para um milhão de servidores ativos, aposentados e pensionistas, quase que simultaneamente ao anúncio do Brasil Carinhoso, que incrementa os desembolsos do Bolsa Família. Coisas de fada madrinha, talvez um tanto dissonantes em ambientes cheios de fantasmas ameaçadores.
Mas, enfim, ela deve ter uma avaliação precisa das contas públicas, tanto quanto todo mundo já sabe de antemão o resultado político: a economia mundial vai ladeira abaixo e a brasileira começa a sofrer solavancos, mas a popularidade de Dilma continua subindo que é uma beleza.
Não existe mais empresa e marca; elas são uma coisa só, uma experiência só, uma verdade só
A ERA da informação significa, entre muitas coisas, que seremos cada vez mais transparentes, mais verdadeiros.
Cada vez mais publicamos dados pessoais, profissionais e empresariais para quem quiser ver ou para quem queremos que veja. Os perfis nas redes são cada vez mais ricos e detalhados. As redes são cada vez mais ricas e detalhadas.
Se só o começo das novas tecnologias disparou esse big bang social, imaginem as redes sociais daqui a três, cinco, dez anos. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, fala numa "lei do compartilhamento" ("law of sharing"), segundo a qual a quantidade de informações compartilhadas digitalmente dobrará a cada ano.
É muita informação.
Claro que é possível fazer circular informações falsas nas redes -elas são ótimas para isso também. Mas parece haver em nós uma vontade mais forte de comunicar o que somos, o que pensamos e o que sentimos.
Essa eterna busca da verdade, tão velha quanto o ser humano, agora tem ao seu serviço a tecnologia perfeita. O que não é casual nem subproduto de outras buscas. Criamos toda essa tecnologia de comunicação e informação justamente porque ansiamos por nos comunicar e informar. O conhecimento é a mãe do valor. Conhecer é valorizar.
As empresas abertas há muito tempo têm o saudável hábito de abrir seus dados ao público, o que revolucionou a economia. Quando mais pessoas souberam mais sobre as empresas, mais pessoas se sentiram seguras e estimuladas a investir nelas.
A verdade constrói. Constrói valor, constrói confiança, constrói prosperidade. Estamos cada vez mais perto dela.
Outro dia o Google abriu para o público seu Project Glass. Um protótipo de óculos que coloca no campo de visão todas as informações e conexões que a web pode oferecer. E ainda obedece ao seu comando de voz. É difícil explicar, de tão futurista. Sugiro dar uma olhada no vídeo que o Google subiu no YouTube para explicar. Basta digitar Project Glass e acompanhar o dia de um usuário dos óculos.
Já outro cientista quer criar um software que irá analisar automaticamente as coisas que você lê ou escreve num computador para dizer se aquilo é verdade ou não.
São (r)evoluções como essas que colocarão cada vez mais em xeque o antigo regime no qual vivemos tão confortavelmente, inclusive na propaganda.
É o fim da marca fantasia e o começo da marca verdade. Não existe mais empresa e marca. Elas são uma coisa só, uma experiência só, uma verdade só. As marcas agora precisam ter personalidade, integridade e opinião.
E, se devemos mais informação aos consumidores, temos muito mais informação para atendê-los.
O turbilhão de dados que deixamos disponíveis nos softwares que nos cercam e nos servem 24 horas por dia começa a ser estudado e estruturado por estatísticos e outros cientistas e terão, em muitas áreas, o mesmo efeito que o sol rompendo a madrugada.
É uma luz que torna nossos hábitos transparentes para os bons pesquisadores. O estudo dos hábitos inclusive tornou-se área expoente da ciência, muito bem financiado por corporações, por institutos e por universidades.
Já sabemos que os hábitos muitas vezes são mais importantes do que o raciocínio na hora de tomarmos decisões e que, ao transformamos uma sequência de ações num hábito, como pegar o sabão durante o banho, a nossa atividade mental é muito menor. É muito difícil quebrar um hábito de compra -os publicitários sabem disso.
Em outra coluna que escrevi aqui, disse que a pesquisa estava sufocando a criatividade e a ousadia na propaganda, nos levando a uma acomodação em nome da acomodação do consumidor pesquisado. Uma acomodação hoje fatal.
Defendo esse outro tipo de pesquisa, não sobre o que o cliente/consumidor/cidadão quer, mas sobre o que ele é.
Note bem: a transparência total é inviável, até porque o direito à privacidade é fundamental e inviolável. Mas a tendência é clara, e precisamos nos adaptar. A nova realidade, ou a nova verdade, exigirá muito de nós.
NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.
33 – A infatigável Madame de Staël confessou que não sabia por que as pessoas – especialmente os homens – cansavam dela tão rapidamente. Benjamin Constant, que a amou enquanto pôde, disse que nunca conheceu uma mulher que fosse tão continuamente exigente. A vida de todos os que andavam a seu redor – cada hora, cada minuto, anos a fio – devia estar à sua disposição, ou sobreviria uma explosão maior que a soma de todos os terremotos e trovoadas.
Sempre que falava no fracasso de seu relacionamento com madame, Constant queixava-se, com amargor, de que sempre tinha se sentido necessário – mas nunca suficiente.
34 – Solinus, naturalista romano do início da Era Cristã, ao descrever a fisiologia da mulher, classifica o fluxo menstrual como uma “doença monstruosa”, cujos efeitos maléficos são relacionados no tratado que ele chama de Coisas Memoráveis: se não houver precauções, tudo se estraga à sua volta – as sementes não germinam, os vinhos azedam, as plantas murcham, as árvores perdem os frutos, o ferro enferruja e o bronze oxida.
Além disso, as mulheres neste estado têm um olhar tão funesto que mata o brilho dos espelhos e tira a nitidez de seus reflexos, fazendo o rosto de quem neles se olha aparecer encoberto por uma espécie de névoa. Solinus, no entanto, reconhece que a existência da mulher é importante para que o homem possa gerar sua descendência. Observa que há algumas que nunca poderão ter filhos, mas entre essas, conclui nosso grande especialista, algumas se curam de sua esterilidade no momento em que casam com outro homem...
35 – Conta Plutarco que Leo Bizantino, famoso orador, foi um dia a Atenas para tentar conciliar duas facções políticas que se hostilizavam naquela cidade. Quando levantou para falar, no entanto, a assembleia começou a rir e a caçoar de sua baixíssima estatura, que era realmente fora do comum.
“O que vocês diriam, então”, perguntou, “se conhecessem minha mulher, que mal chega à minha cintura?”. Como era de esperar, os risos redobraram, mas ele, imperturbável, concluiu: “Pois saibam que Bizâncio é grande e nós somos pequenos, mas quando eu e ela começamos a brigar, não há cidade que chegue para nós!”.
36 – Em seu Caderno de Apontamentos, Samuel Butler, escritor inglês e tradutor de Homero, sugere que a Rainha Vitória, que sempre viajava como Condessa de Balmoral, certamente ficaria bem mais feliz se pudesse viajar apenas como uma simples Mrs. Smith. “No fundo, há muito de Mrs. Smith escondido dentro de qualquer rainha – assim como há muito de rainha escondido dentro de qualquer Mrs. Smith.”
Esse rapaz me fez lembrar algo improvável. Vou dizer o que é, e você não vai acreditar: é uma escadaria que existe bem ali na Fernando Machado, uma escada íngreme, de pedra, que se ergue da parte baixa da cidade e leva aos píncaros do Alto da Bronze. Parece a escada d’O Exorcista, o mais denso filme de terror de todos os tempos.
Pois todos nós tínhamos assistido a O Exorcista e estávamos ao pé daquela escadaria numa noite antiga. Fazia frio e a névoa envolvia a Fernando Machado, a antiga Rua do Arvoredo, e subia os degraus, lenta e ondulante, exatamente como no filme. Exatamente!
Nós vínhamos de uma festa na casa de uma namorada minha que eu conhecera na Papagaius. Cada um dos meus amigos havia se arranjado com uma amiga dela, o Plisnou com a prima, uma moreninha bem bonitinha, e estávamos todos felizes e nos gabando e comemorando nossas façanhas e então deparamos com a escadaria.
Era assustadora, mas aquela era uma noite de vencer desafios e então alguém propôs:
– Vamos subir?
Vamos, vamos! Subimos, destemidos, e a cada degrau comentávamos a respeito das artimanhas do demônio, de como aquela vizinha que morava no prédio da Sândi havia sido com toda a certeza possuída, dos espíritos malévolos que saem das sepulturas à noite e vagam em busca de corpos vivos onde se homiziar.
Alcançamos o Alto da Bronze ainda falando acerca dessas coisas fantásticas, descemos até a Praça 15 caçoando do Amilton Cavalo, que havia pego uma guria que usava chapa, esperamos meia hora pela chegada de um ônibus que passasse pela Assis Brasil e voltamos para casa combinando de jogar bola nas quadras do Dom Bosco durante a tarde.
Você percebeu do que sentíamos medo, naquela época?
Do Coisa-Ruim, do diabo, de Satanás e seus asseclas, das almas penadas que, não satisfeitas com todas as maldades que cometeram em vida, ansiavam por atormentar os outros depois da morte.
Era por isso que vacilávamos, ao pé da escadaria da Rua do Arvoredo. Hoje não haveria hesitação alguma. Simplesmente não subiríamos, de jeito nenhum. Mas nunca por medo do transcendental, e sim do físico, material e muito mais perigoso ato humano. Sentiríamos medo do ataque de assaltantes que certamente ocorreria, e ocorre, naquele lugar.
Foi disso que esse rapaz me fez lembrar, esse Wangler, do Caxias: de um tempo em que zanzávamos pela madrugada porto-alegrense sem medo da violência urbana, só com o saudável medo do Além. Porque Wangler jogou domingo passado como se jogava naquelas priscas eras: como um ponta.
Wangler fez na direita o que Joãozinho, do Cruzeiro, fazia na esquerda. Joãozinho era um ponta-esquerda que jogava com o pé direito, cortando para dentro, atormentando o marcador. Wangler joga com a bola colada no pé esquerdo, ora investe na diagonal, área adentro, ora voa para a linha de fundo, ora surge no meio para chutar. Foi o personagem da final do Gauchão.
O Inter, desde o Gre-Nal, já era o campeão gaúcho. O Caxias desceu a Serra a fim de não ser humilhado. Fez mais do que isso. Vendeu caro a derrota, valorizou a taça, tornou a festa do Inter mais alegre. E mostrou que algumas coisas que havia antes da Era da Internet ainda têm o seu valor.
O organizador D’Alessandro amadureceu. Hoje é o dono do time. Sua entrada no intervalo da decisão de domingo mudou o Inter e tornou racional o desenvolvimento do jogo no meio-campo. A idade e talvez até o aumento de salário transformaram D’Alessandro num tipo de jogador utilíssimo: o organizador de time.
Como vencer Um jogo é ganho por bons jogadores, uma decisão é ganha por homens.
O Inter venceu na imposição, mais até do que no futebol. Venceu porque não admitia perder, submeteu o Caxias, intimidou-o, arrancou a taça de suas mãos.
Homem já passa a identificar suas próprias cuecas. O que é um tremendo avanço tecnológico. Mas toda evolução tem seus efeitos colaterais. Maurício que o diga.
Ele estranhou uma cueca preta em sua gaveta. Quase que a vestiu sem pensar, na saída do banho, naquela pressa que aceita o improvável. No entanto, algo incomodou no exemplar. Ou a marca de caveira ou o tamanho folgado criou a incerteza de seu domínio. Definitivamente não era dele. Nunca fora dele. Por pouco não cheirou para tirar a cisma. Evitou a fungada para reduzir os danos da humilhação.
O sangue subiu com o raciocínio. Ser corno não é uma decisão fácil, exige madureza, sabedoria e, acima de tudo, provas.
Antes de definir autoria, eliminava hipóteses:
1) Não tinha filhos.
2) Não tinha irmãos.
3) Sua mulher também não tinha irmãos.
4) Seu pai morreu.
5) O pai de sua mulher morava longe.
6) Não jogava mais futebol com amigos.
Desprovido de figuras masculinas diretas na convivência, apanhou a peça, agora com um certo nojo, segurando a etiqueta com a ponta dos dedos, e seguiu para discutir com a esposa. Não restava dúvida de que ela deveria conhecer a origem do enxerto.
Sua boca borbulhava de ódio:
– Safada, será que ela me trai, e ainda na minha cama, e ainda lava a cueca do cara e bota dobrada nas minhas coisas?
Estava convicto de que a vizinhança inteira debochava de sua virilidade, de que o porteiro ria de sua tolice romântica.
Ao encontrar Lúcia tomando café na cozinha, ele ergueu a bandeira negra a fim de guerra.
– De quem é essa nojeira?
– Sua?
– Não!
– Não é o que estou pensando...Não vai dizer que anda trazendo cueca de outro homem para casa, Maurício!
– O quê?
– Não tem cabimento encher o armário com roupa de amigo. Intimidade não se empresta, fica chato. É como escova de dente.
– Amor, não peguei nada emprestado de nenhum amigo.
– Então, o caso é mais grave, o que anda fazendo, amor? Não me diz que vem me traindo? E com rapazes?
– Tá maluca, Lúcia. Você me conhece.
– Não sei não, é suspeito, me explica o que faz uma cueca de um estranho em sua gaveta?
– Sei lá, também quero saber, iria mesmo perguntar para você.
– Para mim? Eu não uso cueca. Que vergonha! Ai se minha mãe sabe...
– Eu não fiz nada, juro, a cueca apareceu de repente em minhas roupas.
– Deixa eu ver? Ai que horror, tem cheiro de usada. Ai, não acredito, tem pentelhos.
Ela soluçou o início de choro, bateu a porta de casa e saiu furiosa.
Maurício não descobriu de quem era a cueca. Isso não merecia mais sua preocupação. Necessitava achar um jeito de acalmar a esposa.
Posted
6:18 PM by Cassiano Leonel Drum LUIZ FELIPE PONDÉ
A traição da psicologia social
Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros
Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).
Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.
Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.
Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.
Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...
Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.
O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".
Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.
Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.
Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.
Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.
Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.
Posted
6:12 PM by Cassiano Leonel Drum POR JUSTIN GILLIS LAMONT, OKLAHOMA
O mistério do aquecimento: as nuvens
Cientista defende a inação contra o aquecimento global
Os céticos das mudanças climáticas reconhecem que a liberação de gases estufa fará o planeta se aquecer. Mas afirmam que as nuvens -que, dependendo de seu tipo, podem aquecer ou resfriar a terra- vão mudar de modo a combater a maior parte da elevação prevista na temperatura mundial.
"As nuvens são a maior incerteza", falou Andrew E. Dessler, pesquisador climático da Universidade Texas A&M em College Station. "Os céticos climáticos dignos de crédito estão apostando todas suas fichas nas nuvens."
Richard L. Lindzen, professor de meteorologia no Instituto Massachusetts de Tecnologia, é um dos principais proponentes da ideia de que as nuvens serão salvadoras. A posição de respeito que ocupa em seu campo -ele vem fazendo contribuições seminais para a ciência climática desde os anos 1960- ampliou sua influência.
Lindzen diz que a terra não é especialmente sensível aos gases estufa porque as nuvens vão reagir para combater esses gases. Ele acredita ter identificado um mecanismo especial. Num planeta em processo de aquecimento, diz ele, a cobertura menor de nuvens altas nos trópicos permitirá que mais calor escape para o espaço, combatendo a elevação na temperatura.
"Muita coisa assustadora que simplesmente não faz sentido vem sendo aventada", disse.
Lindzen recebe tratamento de astro em reuniões de céticos das mudanças climáticas. Quando ele aparece nas conferências do Instituto Heartland, a principal organização americana a promover o ceticismo quanto às mudanças climáticas, é recebido com aplausos retumbantes.
Mas a maioria da comunidade científica afirma que Lindzen foi além de qualquer leitura razoável das evidências, para fornecer um perigoso álibi para a inação.
Termostatos naturais
É verdade que as nuvens exercem efeito enorme sobre o clima. A energia que move a vida na terra chega como luz solar. Para permanecer em temperatura estável, a terra precisa devolver para o espaço a energia que recebe, principalmente sob a forma de calor. As nuvens alternam o fluxo de energia nas duas direções.
Tudo contabilizado, as nuvens têm o efeito de resfriar a terra. Nuvens densas e baixas são as responsáveis pela maior parte desse efeito, na medida em que refletem a luz solar de volta para o espaço.
Muitas nuvens altas e finas exercem influência oposta, permitindo a passagem da luz solar que chega e prendendo o calor que tenta escapar da atmosfera.
"É como tampar uma panela que está sobre o fogão", disse Andreas Muhlbauer, pesquisador de nuvens na Universidade de Washington.
Ao liberarem gases estufa, que também bloqueiam o calor que procura escapar, os humanos estão perturbando o equilíbrio de calor da terra. No século 19, químicos comprovaram que esses gases, especialmente o dióxido de carbono resultante da queima de combustíveis fósseis, funcionam como um cobertor invisível na atmosfera, bloqueando parte do calor que procura escapar para o espaço. Na metade do século 20, quando ficou clara a rapidez com que estavam subindo os níveis de dióxido de carbono, alguns cientistas começaram a prever um aquecimento do planeta.
Mas é difícil traçar uma previsão precisa do aquecimento do planeta, por várias razões, especialmente a questão de como vão reagir às nuvens. Pesquisadores têm virtual certeza de que a quantidade de vapor de água na atmosfera vai subir, juntamente com a temperatura. Mas isso não revela muito sobre o tipo ou a localização das nuvens que vão se condensar a partir desse vapor.
Os programas de computador mais complexos chegaram a uma conclusão ampla comum: é pouco provável que as nuvens mudem o suficiente para contrapor-se à maior parte do aquecimento causado pelo homem. Alguns acreditam que as nuvens podem amplificar a tendência de aquecimento, por meio de vários mecanismos, incluindo a redução de algumas das nuvens baixas que refletem muita luz solar de volta para o espaço. Outras análises de computador prevêem um efeito neutro.
Uma meta importante das pesquisas climáticas é melhorar o modo como as nuvens são representadas nas análises computadorizadas, e alguns dos dados mais importantes para isso estão vindo do pico de uma montanha na zona rural do Oklahoma, perto da cidade de Lamont, onde o Departamento de Energia dos EUA comanda a maior instalação mundial para mensurar o comportamento de nuvens.
Recentemente, novos radares no valor de US$ 30 milhões foram instalados no Oklahoma e em outros locais de pesquisas, prometendo uma visão melhor das entranhas das nuvens. Satélites também estão fornecendo dados melhores e as teorias da atmosfera estão sendo aprimoradas. "Estamos a caminho de melhorar muito", opinou o pesquisador da Nasa Anthony D. Del Genio.
A teoria da fuga de calor
Lindzen concorda que o dióxido de carbono é um gás estufa e diz que quem discorda disso é "maluco". Ele também concorda que o nível de dióxido de carbono na atmosfera está subindo em decorrência da atividade humana e que isso deve levar ao aquecimento do clima.
Mas, há mais de dez anos, ele vem afirmando que, quando a temperatura de superfície se eleva, as colunas de ar úmido que se elevam nos trópicos vão provocar mais chuva, deixando menos umidade disponível para virar gelo, que forma as nuvens finas e altas conhecidas como cirrus. Assim como os gases estufa, as nuvens cirrus reduzem o resfriamento da terra e uma redução nessas nuvens contrabalançaria o aumento dos gases estufa.
Lindzen chama esse mecanismo de efeito íris, devido à íris do olho, que se abre à noite para permitir a entrada de mais luz. A "íris" de nuvens altas da terra se abriria para a fuga de mais calor.
Quando Lindzen divulgou essa teoria, em 2001, disse que ela era fundamentada por dados de satélite obtidos sobre o oceano Pacífico. Mas outros pesquisadores disseram que os métodos que ele empregou para analisar os dados eram falhos e que sua teoria fez suposições que não condizem com os fatos conhecidos.
Aguardar e os riscos que isso encerra
Hoje, a maioria dos pesquisadores considera a teoria de Lindzen desacreditada. Ele não concorda, mas vem tendo dificuldade em apresentar seus argumentos na literatura científica. Em 2009, Lindzen publicou um artigo apresentando mais evidências em favor de sua teoria, mas novamente outros cientistas identificaram erros, entre eles o fato de não terem sido explicadas imprecisões conhecidas nas medidas feitas por satélite.
Lindzen reconheceu que o artigo de 2009 continha "alguns erros estúpidos" nos dados dos satélites. No ano passado, ele tentou propor mais evidências em favor de seu argumento, mas, depois de analistas de um periódico americano de prestígio terem criticado o artigo, Lindzen o publicou num periódico coreano pouco conhecido.
Lindzen diz que outros cientistas estão determinados a reprimir visões divergentes. Os outros cientistas alegam que ele retrata incorretamente os trabalhos de outros pesquisadores.
Lindzen disse: "Se eu tiver razão, teremos poupado dinheiro" ao evitar tomar medidas para limitar as emissões de gases. "Se eu estiver enganado, saberemos disso em 50 anos e poderemos fazer alguma coisa."
Mas os cientistas da visão majoritária respondem que o impulso da sociedade de esperar para agir apenas intensifica os riscos.
Com o tempo, ficará evidente como as nuvens estão reagindo. Mas, segundo os cientistas, pode levar décadas para isso ficar claro, e, se a resposta for que uma catástrofe está a caminho, provavelmente já será tarde para evitá-la. Até lá, dizem os cientistas, a atmosfera conterá tanto dióxido de carbono que o aquecimento substancial será inevitável, e o gás só poderá retornar a um nível normal após milhares de anos.
14 de maio de 2012 | N° 17069
ARTIGOS - Paulo Brossard*
É muito grave!
Quando menos se espera, surge uma surpresa, ainda que velha e carcomida, e por isso mesmo surpresa ainda maior. Confesso que não supunha tivesse de ver o ressurgimento de uma grosseira violência fartamente praticada ao tempo do regime autoritário.
Pois a censura à imprensa que vicejou naquele período passou a ter defensores, agora sob a máscara do “marco regulatório da comunicação”, volto a dizer que, nesta altura do século, não imaginava que alguém tivesse a ousadia de pretender a censura à imprensa e o autor dessa iniciativa fosse parlamentar com a agravante de ser presidente de partido numeroso que, aliás, tem na presidente da República uma filiada. É espantoso.
A propósito, começo por lembrar a observação de Guglielmo Ferrero em seu profundo estudo sobre “O Poder”, “a censura, a princípio limitada à imprensa de oposição, pouco a pouco alarga-se a todas as manifestações do espírito”, razão por que, escreveu Rui Barbosa, “de todas as liberdades, é a da imprensa a mais necessária e a mais conspícua”, e como sempre ocorre quando se cuida dos valores supremos de liberdade, de dignidade humana, de justiça, é a ele que se recorre;
e, quando se verifica que o presidente de um partido e parlamentar por ele eleito postula a censura à imprensa, é de ser lembrada a lição do estadista que também foi jornalista; em “A imprensa e o dever da verdade”, “por agros e amaríssimos que sejam os assuntos ventilados, quando a verdade o exige, muita vez se perderá por carta de menos, mas por carta de mais não há perder nunca. Quanto mais robusta a nacionalidade, mais largo os seus costumes no exercício deste direito.
É um dos sintomas, por onde melhor se revela, em qualquer comunidade, a sua boa saúde moral. As que não suportam com serenidade a discussão dos escândalos públicos, e não reconhecem o civismo dos que, para os desmascarar, se afrontam com o poder, o dinheiro, a soberba dos grandes, ainda bem longe se acham dessa autonomia, em que se lhe embala a vaidade”.
Pois é esse patrimônio cultural e institucional que se pretende agora mutilar, quando resistiu inclusive em períodos de ostensiva, desabrida e demorada ditadura. É realmente impressionante a naturalidade com que se apregoa a natureza da iniciativa e sua finalidade.
Como é sabido, foi a Veja que, por primeiro, divulgou irregularidades graves em ministério que levou o respectivo titular a pedir demissão, maneira diplomática de despachar o ministro envolvido. A partir de então, sucederam-se as denúncias, de evidente gravidade, deduzidas por conceituados jornais, de resto, os maiores do país, a Folha de S. Paulo, o Estadão, o Globo... até que os dois últimos ministros alvejados foram “blindados” pela senhora presidente, segundo se diz, para não comprometer o ministério inteiro, que terminaria esfarrapado pelo critério pelo qual fora composto.
O fato é que foi a imprensa, e só ela, que descobriu e divulgou as insignes anomalias e todas teriam ficado incólumes não fora a imprensa, pois dos serviços estatais nenhuma contribuição apareceu. Nenhuma. Agora a situação se agravou ainda mais. Para resumi-la, sirvo-me do editorial do O Globo que usou de seu prestígio e autoridade para analisar um fato inédito.
O artigo começa assim: “Blogs e veículos de imprensa chapa-branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT desfecharam uma campanha organizada contra a revista Veja, na esteira do escândalo Cachoeira/ Demóstenes/ Delta”. E aditou “é indisfarçável, ainda, a tentativa de atemorizar a imprensa profissional como um todo...”
Como se vê, é urgente amordaçar a imprensa que descobriu coisas que o aparato estatal com seus imensos recursos nem imaginava pudessem existir.
Recapitulando: não sei que dia é hoje e não tenho noção das minhas coordenadas. O que não faz a menor diferença. O que interessa é que estou com fome e com sede, em uma lancha sem combustível, boiando no meio do oceano, com um pagodeiro chato que salvei do afogamento por pura caridade.
Já estou começando a colocar em dúvida minha própria sanidade mental. Eu, um sujeito calmo, cheguei ao ponto de enfiar o pandeiro na cabeça do sujeito. Tenho que me acalmar.
DIA DE HOJE, ou de ontem, tanto faz
Como todo dia tem um santo protetor, comecei a rezar de forma generalizada para todos os santos. Quem sabe algum me escuta? O tempo está bom. Bom pra quem está na praia. Aqui, nessa situação, sem uma nuvem no céu, o sol não é bem-vindo. Infelizmente, não sou eu quem decide isso.
Na falta de chapéu, improvisei um guarda-sol com a tampa do isopor. Só sei que nada sei. Latitude, longitude, calendário gregoriano... Não sei minha posição no tempo e no espaço, o que me fez lembrar da Teoria da Relatividade de Einstein. Pensei em comentar o assunto com meu companheiro de viagem, mas desisti. Tô com fome. O maluco tá comendo peixe cru.
Eu sou vegetariano. Me ofereceu algas marinhas, dizendo que é uma espécie de alface aquático. Tô morrendo de sede. Dei mais um gole na cerveja quente, o que foi uma péssima ideia. Aleluia! Debaixo do colchonete encontrei uma garrafinha de água. A sorte está começando a sorrir para nós.
É o que parece. Tomei um gole discreto, medindo nossa reserva do líquido precioso e passei para meu companheiro. O maluco meteu a boca no gargalo e esvaziou a garrafa. Perdi a compostura. Peguei o pandeiro e enfiei de novo na testa do cara.
Foi quando ouvi, em inglês, uma voz com som de megafone: “Mãos na nuca! Largue sua arma, cucaracho! Aqui é a Guarda Costeira dos Estados Unidos da América. Você tem todo direito de ficar calado... Caso não tenha advogado etc, etc...”.
AMANHÃ, ou melhor, tomorrow
Como é que eu, só de bermuda e sem documentos, vou explicar que não sou imigrante ilegal tentando entrar em Miami? E que, apesar de todas as evidências, pandeiro é um instrumento musical?
A vida consiste também no exercício do fingimento. Muitas vezes a gente dissimula para agradar aos outros.
Quando me perguntam se vou bem, a vontade que tenho é de dizer que não, mas digo que sim para não desagradar a quem me preza.Se digo que não, a pessoa vai ficar preocupada.
Se não fingíssemos, seríamos uns chatos. Falar a verdade é muito constrangedor. Vai a gente falar a verdade, contar tudo que está se passando, ninguém tem saco para ouvir queixas dos outros.
Então a gente disfarça e conta coisas boas, pelo menos a conversa se torna mais agradável.
Eu tenho uma admiração profunda pelas pessoas que nunca se queixam, dizem que levam a vida numa boa, que está tudo dentro dos eixos, mas a gente sabe que não é verdade.
Mas há pessoas que têm a vocação sublime de não se queixar da vida, para elas tudo é róseo, elas suportam estoicamente as amarguras, têm uma consciência estupenda de que a vida não é sopa, é uma luta constante, todos os dias aparecem dificuldades, mas fazer o quê?
Há pessoas que sabem que o homem, por sobre quem caiu a praga da tristeza do mundo, não consegue fugir do desalento.
Ele se esgueira, ele tergiversa, mas está quase sempre batendo nos rochedos rudes do infortúnio ou pelo menos das atrapalhações.
Há algumas pessoas, por exemplo, que têm sérias dificuldades financeiras para levar a vida em frente.
Estão sempre correndo atrás nas suas contas, mas dão um jeito daqui, um jeito dali, um empréstimo, atrasam por um ou dois meses uma conta, vão levando a vida procrastinando compromissos, mas no fim do mês fazem uma ginástica danada para conciliar o salário com as despesas.
São uns heróis, atravessam a existência debaixo do orçamento ingrato, mas milagrosamente permanecem otimistas e até mesmo alegres.
Isso é o que chamo de dissimulação, de fingimento, um modo de driblar a vida.
São uns heróis, eu rendo a eles minhas homenagens.
Se se quer ser mais ou menos feliz, tem que fingir. Mesmo estando na pior, tem de fazer parecer aos outros que se está numa boa.
E se a gente não for parecer a si próprio que está numa boa, acaba enlouquecendo.
E tudo isso levado à frente pela esperança de melhorar. Sem a esperança não dá para seguir em frente.
Eu conheço pessoas seriamente amarguradas que, no entanto, estampam sorrisos permanentes em seus rostos. São admiráveis. Isso não é bem fingimento, é forma de conduta para tentar jogar para longe a pressão da infelicidade, e têm razão: se a gente for ceder ao sofrimento e se entregar, tudo estará perdido.
É preciso fingir, é preciso tentar enganar o azar, um dia acaba esta pindaíba e a gente consegue se livrar dessas encrencas.
A criatura humana tem de ser antes de tudo uma forte, não podemos se entregar pros home, não está morto quem peleia, disse no meio de cem cachorros uma ovelha.
A melhor forma de enfrentar a opressão é a coragem e o otimismo.
Depois de passar outra tarde inteira estudando e escrevendo num banco duro da Biblioteca Britânica, Karl Marx teria dito que um dia a burguesia ainda lamentaria as suas hemorroidas. Marx foi o melhor exemplo da sua própria exortação aos filósofos, a de que era preciso mudar o mundo em vez de apenas entendê-lo, e teria mais razão do que a maioria dos intelectuais para achar que seu trabalho tinha consequência, ou que suas hemorroidas não tinham sido em vão.
Outro intelectual do século dezenove, Sigmund Freud, também poderia reivindicar a mesma pertinência para o seu trabalho duro, e a mesma influência na história humana, mas, enquanto hoje ainda se ouvem alguns lamentos pelas hemorroidas do Marx – ou pelo menos se discute se o mundo teria sido o mesmo com ou sem ele, ou com ou sem elas –, a relevância histórica de Freud é pouca.
Antes que freudianos me mordam, explico que a importância de Freud, como pioneiro e teórico, ainda é imensa e que suas teses e terapias, mesmo as que hoje estão ultrapassadas, afetaram a história pessoal de muita gente.
Mas a História com maiúscula, a história da humanidade como “case” de neurose coletiva, não tomou conhecimento da inversão freudiana da exortação marxista, a de que era preciso reinterpretar o mundo para poder entendê-lo, e mudá-lo.
Nenhuma das descobertas de Freud sobre o inconsciente e o comportamento neurótico, sobre o homem movido por impulsos que mal conhece, teve o mesmo impacto da ideia marxista do homem econômico, entregue a leis históricas que mal domina.
Nem impacto social nem intelectual, pois fora algumas tentativas de juntar Marx e Freud numa explicação só – num pobre homem atacado por fora pelo determinismo econômico e por dentro por ele mesmo – e uma ou outra iniciativa de interpretar a história psicanaliticamente, como fez Norman O. Brown num livro hoje esquecido, a investigação da humanidade como candidata a um divã não prosperou.
Que eu saiba. E basta olhar em volta para ver quanta coisa Freud ao menos explicaria, mesmo que não mudasse.
Quanto às hemorroidas citadas por Marx, são um símbolo da pretensão de todos nós a fazer alguma diferença com o que escrevemos. É insuportável saber que o único efeito de passar tanto tempo neste computador no mundo real seja uma possível tendinite.
O sábado já é das mães. Em seu post na seção Mulheres pelo Mundo, Renata Neder da ONG International ActionAid, escreve sobre os relatos de pessoas do mundo inteiro sobre suas mães.
Como esse post estará publicado na véspera do dia das mães, queria escrever algo sobre o papel das mães nas nossas vidas e no mundo. E aí me lembrei de um exercício do qual participei na Tanzânia uma vez. Para abrir uma sessão sobre gênero e orçamento, fizemos uma discussão sobre a importância e o papel das mulheres na vida de todos nós. Cada um deveria falar de uma mulher que tenha sido importante ou marcante na sua vida.
Todos, sem exceção, falaram de suas mães. Mães da Nigéria, de Serra Leoa, do Quênia, da Zâmbia, do Sudão. Mães de vários países, mas com o mesmo coração enorme de mãe, que carrega o maior amor do mundo. Resgatei algum desses relatos:
Mwanza (Quênia): “Quando eu era pequeno, não queria ir para a escola de jeito nenhum. Não queria ir e além disso era muito longe. Eu morava em uma área rural e a escola ficava a 10 quilômetros da minha casa. Mas a minha mãe, apesar de não ter estudado, fazia questão que eu estudasse. Ela me levava e me buscava todos os dias na escola para garantir que eu não iria deixar de ir, para garantir que eu iria estudar. 10 km para ir e 10km para voltar… e ela me levava a pé todos os dias. Hoje eu agradeço a ela pelo que sou, por onde eu cheguei. Não teria chegado até aqui se ela não tivesse sido firme em me fazer ir para a escola.”
Felix (Nigéria): “Minha mãe teve 15 filhos, mas 3 morreram. Ficamos só 12 irmãos. Ela ficou viúva muito cedo e por isso sofreu muito preconceito, uma mulher sozinha com 13 filhos… Ela não conseguia empréstimos para ajudar no seu pequeno negócio porque era mulher. Mas mesmo com todo o preconceito e com todas as dificuldades, ela fez de tudo para mandar todos os filhos para a escola. Minha mãe era uma lutadora.”
David (Nigéria): “Eu sou o filho mais novo e o único homem. Meu pai fez de tudo por mim, tudo o que eu precisava, meu pai me dava. Mas meu pai não fazia o mesmo pelas minhas irmãs. Meu pai não queria que as minhas irmãs estudassem. Mas minha mãe fez questão que todas as filhas também estudassem e ela deu um jeito de pagar todas as taxas da escola. Quando a minha irmã mais velha foi para outra cidade, longe de casa, para poder continuar os estudos na escola secundária, meu pai disse que ela estava era indo para a prostituição.
Mas mesmo assim, minha mãe e minha irmã se mantiveram firmes, e ela seguiu os estudos. Depois que ela se formou na universidade e começou a trabalhar, quando ela ganhou seu primeiro salário, ela voltou pra casa para mostrar o resultado de ter ido à escola. Só assim, e depois de tantos anos, meu pai finalmente se desculpou pelo que disse. Se não fosse pela força da minha mãe, nenhuma das minhas irmãs teria estudado.”
Ndjira (Zambia): “Minha mãe teve que largar a escola muito cedo, não pôde continuar os estudos. Mas ela fez questão de que todos os seus filhos estudassem. Quando eu estava na escola, a minha mãe estudava comigo matemática. Mesmo ela tendo largado muito cedo a escola primária, ela estudou comigo matemática até eu me formar. Era incrível… ficava imaginando como ela poderia saber e conseguir estudar toda aquela matemática comigo tendo largado a escola primaria assim tão cedo… Era mesmo um dom. Eu tenho certeza que se ela tivesse tido uma oportunidade, ela teria sido alguma matemática ou cientista importante.”
Relendo esses relatos e pensando em tantas outras histórias que conheço, penso como é linda – e árdua – a luta das mães para dar uma vida melhor aos seus filhos. Mãe é isso aí, é não ter medo de enfrentar o mundo, é essa coragem desmedida, é essa força infinita, é esse amor imenso.
Presto aqui, então, minha modesta homenagem à fibra dessas mães, sua coragem, seu amor infinito e incondicional. E como, às vezes, a mãe que dá amor e batalha por nós não é a mãe em si, mas sim a avó, a tia, a irmã, o pai… essa homenagem se estende também a elas.
Para todas as mães que querem um mundo melhor para os seus filhos, e também o melhor de seus filhos para o mundo, um feliz dia das mães!
E para a minha mãe, um beijo especial com muito amor. Amor de filha também é infinito!
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6:29 PM by Cassiano Leonel Drum RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA
A Justiça do amor
Um pai foi condenado a pagar à filha R$ 200 mil de indenização por abandono afetivo. A decisão, inédita, é do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Essa história mexe com sentimentos – e não com reconhecimento de paternidade ou pensão alimentícia. Não deveria pertencer à Justiça, e sim à vida e à consciência de cada um. Como legislar sobre a prática do amor?
É um caso comum. Uma professora de 38 anos, Luciane Nunes, que mora em Votorantim, interior paulista, decidiu há dez anos processar o pai, Antônio Carlos Jamas dos Santos, dono de postos de combustível em quatro Estados, por não ter cuidado dela direito, na infância e na adolescência. Luciane havia nascido de uma longa relação extraconjugal do pai, que durou oito anos.
A mágoa da menina foi agravada por ciúme e rejeição. Os filhos que o pai teve em casamento formal com outra mulher estudaram nas melhores escolas, aprenderam várias línguas. Ela não. Além de uma vida mais confortável, seus meio-irmãos tiveram a atenção paterna em casa. As brincadeiras, as broncas, os carinhos, os conflitos. Ela não.
Luciane cresceu, casou, teve filhos. Mas não superou o ressentimento. Decidiu colocar o pai de castigo numa sala de tribunal. Mostrar publicamente que, como empresário, ele pode ser bem-sucedido e morar em condomínio de luxo. Mas, como pai, embora a tenha reconhecido, não a amou o suficiente. Não a educou. Deixou a tarefa a cargo da mãe. Antônio Carlos conta uma história bem diferente: diz que tentou se aproximar várias vezes da filha, mas a mãe não permitia e era agressiva.
Como encontrar a verdade? Não invejo a juíza Nancy Andrighi, do STJ, que justificou a sentença. “Amar é faculdade, cuidar é dever.” A juíza está certa, não há como discordar. Ela listou algumas obrigações constitucionais da paternidade, “deveres inerentes ao poder familiar”: convívio, cuidado, criação e educação dos filhos. É melhor pensar direito antes de engravidar. Para dar à luz e não às trevas.
A professora que processou o pai por abandono afetivo obteve vitória judicial. Mas não o amor dele
Luciane é hoje uma mulher que conseguiu, após uma década de processo, uma vitória judicial importante. Mas não o amor do pai nem a paz interna. A indenização, fixada inicialmente em R$ 415 mil, foi reduzida à metade. Antônio Carlos diz que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF). Se o Supremo julgar e der razão a Luciane, abrirá caminho para uma enxurrada de filhos que não se sentem amados.
Por enquanto, o abandono afetivo não é previsto em lei. Há dois projetos. Um deles propõe detenção de até seis meses para pais acusados de não dar afeto ao filho menor. O outro propõe indenizar por danos morais os filhos e os idosos sem afeto. Quantos velhos são esquecidos em asilos sem receber visita ou ouvir uma só palavra de filhos e netos?
É complicado legislar sobre o exercício do amor e suas subjetividades. Se todos decidíssemos pedir indenização por uma carência temporária ou persistente de afeto, as Varas de Justiça teriam de fechar. Não dariam conta.
O sentimento de abandono nem sempre traduz a realidade. Algumas pessoas acham que amar pressupõe um contato diário. É preciso falar todos os dias. Pessoalmente, pelo telefone ou computador. Há quem se sinta sempre abandonado, mesmo com dezenas de amigos.
O trauma é maior se quem não demonstra amor é o pai ou a mãe. A falta de afeto pode causar profundos estragos emocionais nas crianças e nos adolescentes. Alguém duvida disso, mesmo sem ser psicanalista ou psicólogo?
Para ser pai e mãe, não basta dar nome e dinheiro. Tem de acompanhar, conversar, orientar, ouvir, disciplinar, brigar, beijar, rir e chorar. Ajudar no dever de casa. Consolar, estimular. Não é nada fácil ser pai ou mãe. Todos erramos em alguma medida, por excesso ou falta de zelo. Como somos humanos, dificilmente encontraremos o equilíbrio certo para cada filho, todos diferentes entre si.
Não sei se a mãe de Luciane bloqueou o acesso do pai à filha. Muitas mulheres agem assim, por vingança e ignorância. Mas conheço um número maior de mães que se esforçam, em vão, para o pai se envolver mais na educação do filho. Há homens, separados, que acham que, para ser pai, basta almoçar uma vez por mês com os filhos, compartilhar fotos e trocar uma ideia pelo Facebook, mesmo morando na mesma cidade. Não basta.
A decisão que beneficia Luciane, nas palavras da juíza Nancy, “abre um caminho para a humanização da Justiça”. Talvez abra caminho também para injustiças. Uma indenização não muda sentimentos. Não obriga ninguém a passar a amar. Ao contrário, azeda uma aproximação futura.
Se existe algum benefício na decisão do STJ de São Paulo, é levar as famílias a uma reflexão. Já que amar é cuidar, por acaso sou omisso ou negligente com meus filhos? E com meus pais? O Dia das Mães é um bom domingo para pensar se cuidamos direito de quem mais amamos.
A grande inquietação de uma mãe, ao contrário do que se imagina, não é saber se ela dará conta de trocar as fraldas, se o choro do filho é de febre ou de fome, se ela está sendo severa ou molenga demais ou se o filho se sente suficientemente amado. Isso, ao vivo, a mãe resolve. Quando ele é bebezinho ou ainda tão pequeno que não consegue resolver na-da — nem comer — sem a sua ajuda, a mãe tem seus questionamentos, mas ao mesmo tempo é preenchida por uma alegria descomunal, porque ele está lá, numa continuidade de seu ventre, naquela ligação mágica, milagrosa e intraduzível.
Toda mãe sabe que os problemas realmente começam quando ele parte para tomar, sozinho, a condução para a escola ou quando vai dormir na casa dos amiguinhos. É o primeiro indício do que há de mais óbvio — e cruel — na criação de um filho: que ele pertence não a ela, mas ao mundo.
Ninguém saberá mais do que ela – nem ele próprio – o que é melhor para o filho. Ninguém o amará mais do que sua mãe, ou lhe desejará mais alegrias do que ela. Se alguém, por ventura, atirar em sua direção, quem terá o impulso de se jogar na frente senão sua mãe? E pode aparecer qualquer mocinha apaixonada que o amor dela jamais chegará aos pés do seu. Mas, um dia, ele preferirá a companhia dela à sua, e isso vai matá-la por dentro.
O maior desafio daquela que o ensinou a dar os primeiros passos é justamente deixá-lo caminhar sozinho. E, na primeira noitada em que ele não telefonar para dizer onde está, a que horas chegou e com quem está andando, ela sentirá uma dor dilacerante, uma preocupação que nunca teve, nem consigo própria – até porque ela se garante, mas seu bebê não.
Custa-lhe telefonar de cinco em cinco minutos para dizer se comeu direito, se está triste ou feliz, se gostou do filme que acabou de ver no cinema? Uma mãe deveria ser atualizada, via aplicativo de iPad, dos mínimos passos e estados de espírito do filho; só assim ela ficaria relativamente em paz.
Isso vale para qualquer tipo de mãe, da mais extremada à mais independente, que gosta de dizer aos quatro ventos que o Dia das Mães não lhe importa, que é uma data como outra qualquer e que nem pensem em vir almoçar neste domingo porque ela marcou uma aula de dança. Na semana passada, num almoço entre amigas, uma delas avisou à mesa que pretende firmemente colocar um chip em seus filhos para localizá-los a qualquer hora assim que a engenhoca for permitida — isso, claro, com a anuência deles. Essa ideia ingênua causou espécie nos presentes, que riram da doce ilusão dessa mãe.
Um dia, alguém virará para ela e dirá o quanto seu filho é inteligente, gentil, educado e amado por todos. Ela quase desmaiará de surpresa e emoção e só então saberá o que é a tal da felicidade.
A angústia de saber se você é ou não boa mãe não é uma questão de ego, mas a preocupação com o futuro do ser mais amado do universo. Afinal, o grande medo da humanidade é o futuro e, no caso de uma mãe, esse medo vem em dobro, porque ela teme pelo futuro de duas pessoas — o dela e o do filho (mais o dele do que o dela). Se algum dia ela lhe faltar, o que será dele?
Pois eu vou dividir com vocês uma historinha pessoal. Perdi minha mãe para o câncer muito cedo, aos quatro anos, e só sobramos eu e meu pai. Só entre aspas, porque logo se mudaram para nossa casa minha tia e minha avó, para se ocupar de mim. Seis anos depois, foi meu pai quem partiu, e eu fui adotado pela mãe, pela irmã e pela sobrinha dele. Antes disso, quando ele ficou viúvo, conheceu uma namorada, Angélica, que tinha uma filha com síndrome de Down, Emi. E o grande medo de Angélica era o que aconteceria a Emi caso um dia ela lhe faltasse.
Ela fundou, então, uma escola voltada somente para crianças portadoras de deficiência neurossensorial, cheia de professoras atenciosas e amiguinhos como Emi. Um dia, Angélica partiu ao encontro do meu pai. E fomos eu e sua outra filha que assumimos a escola de Emi. O detalhe é que a maioria das alunas tinha idade bem avançada e havia perdido seus pais. Se o medo do futuro é pertinente a todas as mães, imagine a uma mãe de excepcional. Uma delas, Belinha, de quase 80 anos, foi adotada pela fonoaudióloga da escola. Portanto minha tia virou minha mãe; eu, de certo modo, fui mãe de Emi; e a fonoaudióloga foi mãe de Belinha, e assim caminhou a humanidade.
Nem todo órfão tem essa sorte, é verdade. Mas é preciso acreditar na capacidade de solidariedade do ser humano, uma rede de mãos dadas que nos fez chegar até esse patamar evolutivo. Não é preciso ter medo; é preciso ter fé.
Fé nas pessoas, fé na família, fé no amanhã, fé no filho e fé nos amigos que hão de ajudá-lo quando você lhe faltar ou quando você não estiver por perto. Tudo pode dar errado, assim como tudo pode dar certo, pois toda pessoa tem, no fundo, uma mãe em potencial dentro de si. Mas é preciso disciplina, paciência e generosidade para despertá-la.
Penso hoje nas mães dos presos, naquelas que perderam seus filhos, naquelas que perderam suas mães, nas que se dividiram entre tantas jornadas de trabalho para prover o sustento da família.
Mas, sobretudo, naquelas que perfilharam, ainda que não oficialmente, os filhos de outros e, a partir da dor, construíram um jardim de infinitas possibilidades. É para esses anjos, que foram muito além de um ventre físico, que dedico este dia.
Empresas ampliam licença para reter talentos e ter funcionárias motivadas
Enquanto os sindicatos reivindicam a extensão da licença-maternidade para as trabalhadoras, há empresas que, por conta própria, oferecem o benefício às futuras mães. O objetivo é que, além de terem o tempo necessário para si e para a criança, elas voltem mais motivadas e tranquilas ao trabalho.
A multinacional alimentícia Nestlé foi uma das primeiras a implementar o período de seis meses isoladamente no Brasil, em 2007.
O benefício para as mães é imediato e, para a empresa, a longo prazo, afirma a gerente de carreiras Lucimar Lencione. "Atraimos os melhores talentos para a empresa e também fidelizamos os que estão conosco", diz.
Além do tempo extra com o bebê, a empresa também custeia parte da creche e deve implementar neste ano um esquema de "home-office", para que as mães percam menos tempo no deslocamento de casa até o trabalho.
MELHOR FASE
Kathyanne Kirsch, 29, coordenadora de eventos da multinacional, aproveitou os seis meses de licença para passear com o filho Arthur, hoje com 11 meses. "Quando o bebê é pequeno, é difícil interagir com ele. A melhor fase é após o quatro meses."
Para Juliana Marcondes, coordenadora de atendimento ao cliente da varejista Walmart, o maior benefício da licença estendida é voltar ao trabalho com tranquilidade.
"Ter amamentado a criança até o período recomendado pelos médicos faz a profissional ter a sensação de missão cumprida", acredita ela, que é mãe de João Pedro, de um ano e três meses.
MENOS "WORKAHOLIC"
Para que os pais -mas principalmente as mães- mantenham ou melhorem a produtividade, algumas empresas, como a brasileira Embraco, de compressores, oferecem também creche dentro da empresa.
O objetivo, segundo Carlos Rosa, gerente de recursos humanos da companhia, é que os pais cultivem a proximidade com os filhos e que as funcionárias possam amamentá-los durante o dia.
"O instinto materno é muito forte e a mãe tende a deixar tudo, até mesmo o trabalho, para ficar com o filho, se não conseguir conciliar as tarefas", afirma o gerente.
A diretora de recursos humanos da farmacêutica Pfizer, Lisandra Ambrózio, 36, é um exemplo. Mãe de primeira viagem de Lívia, de nove meses, ela afirma ter mudado a forma de trabalhar depois da maternidade.
"Era muito 'workaholic'. Hoje, sinto que o trabalho me completa, mas não é minha razão de viver. Minha razão de viver é a Lívia", compara.
Com uma licença-maternidade de seis meses, a diretora pôde amamentar melhor a filha e levá-la para passear. "O período também foi bom para outras pessoas se desenvolverem na empresa enquanto eu estava fora."
Quando alguém me pergunta se sou o poeta Ferreira Gullar, eu respondo: "Às vezes"
Vou tratar hoje aqui de um assunto estritamente pessoal, mas na certeza de que, de uma maneira ou de outra, dirá respeito a muita gente: meu nome. E basta mencioná-lo para começar a confusão, já que são vários e, com frequência, escritos de maneira errada, a começar pelos bancos.
Explico: por mais que me empenhe, não consigo que, nos extratos, nos talões de cheque, venha escrito corretamente: em vez de José de Ribamar Ferreira, vem José Ribamar Ferreira. E isso já deu problema com o Imposto de Renda.
Ontem mesmo, ao receber novo talão de cheques, estava lá o Ribamar sem o "de".
A culpa, obviamente, é de meus pais que, dentre os muitos filhos que tiveram, escolheram logo a mim para o nome do santo mais popular da cidade de São Luís: São José de Ribamar.
No começo, não houve problema, já que em casa me chamavam de Zeca e, na rua, de Periquito. O problema apareceu quando me tornei poeta e passei a publicar poemas nos jornais.
Assinava-me Ribamar Ferreira e só então me dei conta de que muitos outros poetas eram, como eu, também Ribamar e o usavam com seu nome literário.
Não gostei, mas segui em frente, até que um poeta que assinava Ribamar Pereira publicou um poema ruim, em "O Imparcial", que saiu com meu nome.
Cioso de meu prestígio literário -praticamente inexistente-, vali-me da condição de locutor da rádio Timbira para avisar o público em geral de que o tal poema "As Monjas" não era da minha autoria e, sim, do senhor Ribamar Pereira.
A partir de então, decidi mudar de nome e passei a assinar Ferreira Gullar. É que um dos sobrenomes de minha mãe é Goulart e, eu, para evitar futuras coincidências, mudei-lhe a grafia, certo de que não haveria ninguém com nome semelhante em todo o planeta.
Disso me livrei, mas não de outros equívocos. Faz algumas semanas, recebi um jornal de uma pequena cidade do interior, anunciando a criação de um prêmio literário Ferreira Goulart. Agradeço, sinto-me honrado, mas desconfio de que exista algum espírito mau que se diverte em me sacanear.
Devo admitir, no entanto, que tenho alguma culpa nesse cartório, já que, ao longo da vida, adotei diversos nomes.
Por exemplo, quando estava na clandestinidade e precisava ganhar a vida, assinava artigos na imprensa alternativa com o nome de Frederico Marques (Frederico, de Engels; e Marques, de Marx), para enganar e sacanear a repressão.
Foi mais ou menos por essa época que o PCB me pediu que escrevesse um poema para a campanha pela libertação de Gregório Bezerra, e fiz um cordel, que intitulei "História de Um Valente" e assinei José Salgueiro (este, por ser o nome de minha escola de samba preferida).
Mas aí os militares invadiram minha casa à minha procura, prenderam a Thereza, depois soltaram.
Decidimos que era melhor eu ir para a União Soviética até que o processo aberto contra mim fosse julgado. Fui e lá, no Instituto Marxista-leninista, como todos os alunos eram clandestinos, tive de mudar de nome outra vez e passei a me chamar Cláudio.
Acontece que eu havia escrito, com Vianinha, o roteiro do filme "Em Família", que foi então premiado no festival de Moscou.
E tive que assistir à exibição, no auditório do instituto, desse filme, sem poder dizer a ninguém que aquele Ferreira Gullar que aparecia nos créditos era eu. Fiquei rindo para mim mesmo, no escuro.
De Moscou, fui para Santiago do Chile; de lá, para Lima e depois para Buenos Aires, onde vivi os derradeiros anos de meu exílio.
Naqueles países, não precisei usar de nome falso. Finalmente, voltei para casa, fui preso por alguns dias, mas logo me deixaram em paz.
Como tinha sido pelo Superior Tribunal Militar, pedi, apenas por precaução, uma cópia da sentença de absolvição e, para minha surpresa, o José de Ribamar absolvido não era eu, era outro.
É confusão demais, não acha?
E outro dia, ia eu pelo calçadão da avenida Atlântica quando alguns jovens se aproximam de mim.
-É o Goulart de Andrade!
-Nada disso. É o Paulo Goulart!
Por essa e outras é que, quando alguém me pergunta se sou o poeta Ferreira Gullar, respondo:
Pedir uma indenização -em dinheiro- porque não foi amada pelo pai, eu acho estranho
Abandono afetivo; e dá para entender que alguém entre na Justiça reivindicando uma quantia porque não recebeu do pai o afeto que gostaria?
O ideal seria que todos os pais cercassem seus filhos de carinho e de amor; mas isso é o ideal, e o ideal, como todo mundo sabe, não existe. Alguns pais não são nem carinhosos nem amorosos, que pena, mas a vida é assim, e uma filha que nunca teve o afeto paterno tem que entender que alguns não têm afeto para dar, ou apenas não conseguem -e tratar de viver a vida como ela lhe foi apresentada, isto é, como ela é.
Pedir uma indenização -em dinheiro- porque não foi amada pelo pai, acho estranho. Quem põe um filho no mundo tem obrigações, mas amor dá quem pode, nem é um problema de querer; e amor não se cobra, nem de pai nem de ninguém.
Fico pensando na quantidade de crianças que moram com pai e mãe e que nem assim recebem o afeto de que necessitam. Pais que não tomam conhecimento de suas existências, não conversam, nem ao menos olham para seus filhos, mesmo vivendo sob o mesmo teto. E aí, eles podem cobrar também? Como? Se cobrarem, e o juiz achar que têm razão, como estipular a quantia que vai compensar a indiferença que sofreram durante anos? Vai depender da conta bancária do pai, imagino, mas não acho que seja por aí. Quem foi abandonada e desamada tem que dar a volta no passado sabendo, inclusive, que isso acontece muito mais do que se imagina.
Abandono afetivo; imagino que sejam raros os que não têm, lá no fundo do coração, a sensação de não terem sido amados suficientemente pelo pai ou pela mãe. Todos precisamos de amor, e quando somos crianças queremos todo o amor do mundo, e de todas as pessoas. Com o tempo, aprendemos que se recebermos algum afeto -de poucas pessoas, e só às vezes-, já está mais do que bom.
Carência afetiva não é fácil; alguns conseguem -ou pelo menos dão a impressão- superar e viver bem a vida; outros vão sofrer até o último suspiro, mas de uma coisa tenho certeza: não se resolve com dinheiro. Se resolvesse, nenhum filho de milionário teria o problema.
O valor da indenização me põe curiosa, tanto quanto qualquer processo que implique "danos morais". Já passou um pouco de moda, mas nos EUA, até anos atrás, uma mulher assediada sexualmente -nada de muito grave, apenas uma boa e competente paquera- processava o paquerador e exigia uma quantia por danos morais; é possível?
É normal que quando alguém sofre algum tipo de constrangimento precise de um desagravo (recompensa) pelo que passou, mas querer em dinheiro é uma maneira muito esperta de dar a volta por cima. Danos morais são vagos e dependem do foro íntimo de cada um.
Quando vou a São Paulo e, no aeroporto, a Polícia Federal me faz tirar os sapatos, o cinto e o relógio, e ainda por cima pega minha tesourinha de unhas e joga no lixo, eu me sinto vítima de grande violência moral, e acho que teria direito a uma indenização em $$$ -e ter a minha tesourinha de volta, claro-, mas ainda não fiz isso por achar, entre outras coisas, ridículo; mas que é constrangimento, é.
E os namoros que não deram certo, os casamentos que não vingaram porque o amor acabou, será que isso também pode ser considerado abandono afetivo? Quanto vale o amor que deixaram de nos dar?
RIO DE JANEIRO - Imagine, leitor, a seguinte situação: empregado de uma grande empresa é incumbido de representá-la em uma série de eventos no exterior. Para fazer frente às despesas, recebe diárias. E é informado de que, ao voltar, não precisará prestar contas de seus gastos.
Difícil acreditar, não é? Qualquer um de nós que já viajou a trabalho sabe da obrigatoriedade de juntar todos aqueles papeizinhos que comprovam despesas. Mas é o que acontece na "empresa" Governo do Estado do Rio de Janeiro, como descobriu o repórter Italo Nogueira.
Apesar de o art. 11º do decreto 41.644 estabelecer que, ao voltar de viagem, servidores devem fazer o "acerto de contas mediante apresentação dos documentos comprobatórios das despesas realizadas", aqui se dispensou o cumprimento da lei.
Ao solicitar ao governo do Estado a prestação de contas dos gastos do governador Sérgio Cabral durante viagem a Paris em 2009, Nogueira descobriu que o decreto é mais uma daquelas leis que não pegaram.
Segundo a assessoria do governador, como as diárias são pagas com base em estimativas de gastos, "não há necessidade de posterior prestação de contas por parte do servidor".
Descobriu ainda que, segundo o parágrafo 3º do artigo 143 da Constituição estadual, governadores têm prazo de 15 dias, a partir do retorno, para apresentar relatórios sobre as viagens feitas. Mas segundo a Assembleia Legislativa estadual, "nunca foi praxe do Poder Legislativo cobrar o cumprimento" do tal artigo.
Seria interessante descobrir de quais outros artigos da Constituição estadual nunca foi praxe cobrar o cumprimento.
Frase ouvida por outro repórter da Folha, Marco Antônio Martins, nos corredores da Alerj: "Aqui ninguém é santo. Estamos no inferno, mas não sou eu o capeta".