E N T R E L A Ç O S ENTRELAÇOS E N T R E L A Ç O S ENTRELAÇOS
Espero que retornes sempre a este espaço feito para você.

O homem das luvas

Se uma cidade é um corpo vivo, como já sugeriram tantos poetas, o coração desta minha Porto Alegre amada é, sem dúvida, a Praça da Alfândega. Temos uma Rua da Praia sem praia e uma Praça da Alfândega sem alfândega, mas naquele retângulo em que as duas se encontram pulsa a vida da província/metrópole. Estive lá na tarde mais luminosa desta semana que está terminando e fiz uma travessia de saudade e encantamento pelos caminhos de pedra, à sombra dos jacarandás e sob a proteção dos heróis de todos os matizes que habitam aquele recanto mágico. Nilson Souza



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Quinta-feira, Julho 24, 2008



Juremir Machado

UMA LINDA HISTÓRIA

O maestro João Carlos Martins esteve em Porto Alegre para reger a Ospa. Acompanhei as suas entrevistas, especialmente a que deu para Sérgio Couto, do 'Programa das 7', da Rádio Guaíba. Maravilhosa. O Serginho está fazendo o melhor programa de cultura do rádio gaúcho. Há quem só ache bela uma história triste.

Como se apenas no sofrimento existisse grandeza. São os admiradores sádicos da desgraça alheia. Ou se expressam mal. Querem louvar a superação e terminam valorizando a dor. Acabam sempre no elogio sob a forma de sermão ou de moral e cívica: fulano é um exemplo...

João Carlos Martins tem uma história triste. Mas, acima de tudo, bela. Apaixonado por música desde menino, estudou piano e mostrou ter muita bala nos dedos. Aos 20 anos de idade, apresentava-se no Carnegie Hall.

Seria o maior intérprete de Bach. Uma lesão, num jogo de futebol, em Nova Iorque, tirou-lhe, no entanto, o movimento da mão direita. Parece um filme terrivelmente dramático: a angústia do pianista na hora do gol.

Ele não desistiu. Não está na sua personalidade. Fez tratamento. O jogo, às vezes, perverso da vida prosseguiu. As suas mãos foram afetadas pela doença dos movimentos repetitivos. Parou de tocar e tornou-se, nessa sua permanente relação com o esporte, treinador de boxe. Isso é tão verdadeiro que parece inverossímil.

Aos poucos, voltou à música e inventou um novo estilo para a deficiência das suas mãos doentes. Virou o pianista da mão esquerda. Sucesso total.

Aí, em Sofia, na Bulgária, foi assaltado e recebeu um golpe na cabeça, perdendo novamente parte do movimento das mãos. A esquerda foi a mais afetada. Ainda assim, continuou a tocar com os dedos que, a cada dia, podia usar, ritmando as notas com o sofrimento que sentia. Não havia saída. Fim de linha.

Em 2003, sonhou que o maestro Eleazar de Carvalho lhe dizia: 'Vem, que eu vou te ensinar a reger'. Foi. Entrou numa escola e aprendeu regência. Rapidamente começou uma nova e bem-sucedida carreira. Hoje, com a Bachiana Filarmônica, ele brilha muito e não perde a simplicidade.

De quebra, trabalha música semanalmente com jovens carentes, despertando sensibilidades e sonhos considerados por muitos, os pragmáticos, como fadados aos porões da alma. João Carlos Martins é um exemplo? Certamente. Mas não é isso que importa. Afinal, nem todos têm o mesmo talento nem a mesma capacidade de superação.

Fundamental é a sua história. Em si mesma. Mesmo que ninguém pudesse segui-la ou dela tirar uma lição, ainda assim se trataria de algo extraordinário e maravilhoso.

Esse é o sentido da arte. E do esporte. Antes de ser um exemplo para uma humanidade ordeira ou disciplinada, como sempre sonharam os funcionalistas dos regimes autoritários, arte e esporte devem ser fruição em si mesmos. Ou seja, a paixão pelo gesto sublime acima de tudo.

É por isso que se diz, embora os simplórios e os fanáticos pelo sucesso não entendam, que um artista produz, mais do que tudo, para si mesmo. Um escritor, por exemplo, na solidão do seu ambiente de trabalho, renova a cada dia o amor pelo ato da escrita, alheio ao resultado ou aos aplausos.

Quer escrever. Essa é a sua vida. João Carlos Martins tem tanto talento que o sucesso nunca lhe abandonará. Ele, como um grande artista, nunca abandonará a música. O boxe com certeza perdeu um grande treinador.

juremir@correiodopovo.com.br

Uma excelente quinta feira para todos nós

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24 de julho de 2008
N° 15672 - Paulo Sant'ana


Ainda sobre o tédio

Voltando ao tédio, tema tão recorrente quanto a vida. Eu sei por que fez tanto sucesso a coluna que escrevi sobre o tédio esses dias.

É porque desempregados não têm tédio. Desempregado só tem um mal: o desemprego.

O tédio é um mal que devasta os empregados, os que estão com a vida encaminhada, os aposentados.

E como os assinantes e leitores de Zero Hora são tipicamente de classe média, possuem carro e muitos têm casa na praia, o tédio é dominante entre eles.

Por isso é que todos se identificaram na coluna que escrevi sobre o tédio.

O tédio é um mal que corrói o espírito e derruba o homem porque ele é permanente, são portadoras dele as pessoas aparentemente bem resolvidas.

O tédio também é sintoma aparecido nas pessoas que não têm problemas. Quem tem problemas não tem tédio: tem problemas, não tem tempo de ter tédio.

O tédio é o seguinte: está tudo bem, mas a gente não se sente bem. Como eu já disse, o tédio é filho legítimo do pessimismo: está tudo bem, mas isto não é normal, se continuar assim tudo bem, acabará terminando mal.

Está tudo bem, mas não acontece nada diferente para melhor. Só aquela rotina massacrante, as coisas todas nos lugares, não aparecem novos desafios nem novos encantos, a vida vira uma modorra insuportável, não há espaços para improvisos, tudo se repete de forma insistente, a gente já sabe o que vai acontecer, nada muda.

Está tudo bem, mas não acontece nada de melhor.

Isto também é o tédio.

Quando você avista uma pessoa que tem tudo para ser feliz, é bem empregada, tem família articulada, ou é rica, mas ela diz que não é feliz ou aparenta não ser feliz, isto é o terrível tédio.

É a mesma coisa que você morar em Capri, ter toda aquela paisagem extraordinária à sua disposição, mas só tem aquela paisagem, que de tão linda se torna cansativa.

Isto é o tédio. O tédio é uma paisagem só, exuberante, mas fastidiosa.

O tédio vem muito quando a gente tem um emprego só, uma aposentadoria só, uma mulher só, um marido só. Está tudo muito bem, nem a gente quer que modifique, mas bem que podia ser mais variado.

Isto é o tédio.

O tédio faz parte daquele axioma de que eu era feliz e não sabia. Quase sempre quem porta o tédio é invejado pelos outros, que queriam ter a vida dele. Esses que invejam o tedioso não têm tédio, têm necessidades.

Só que o tedioso é que sabe que a sua vida não é lá tão assim invejável como parece aos outros, tornou-se aborrecida, é um triunfo frustrante, porque definitivo, constante, sem transformações.

O tédio é sinônimo de tristeza, porque caiu sobre a criatura humana uma praga, a de que será sempre triste e insatisfeita, nunca mais aquela mágoa se apaga, mesmo quando aparentemente tudo está bem para ela.

O tédio é isso, é todo fim de dia ou fim de mês, do trabalho para casa, quando sai o pagamento são as mesmas contas que o devoram, o mesmo noticiário desolador na televisão, todos os dias, parece que decorado, pontilhado de violências e de corrupção.

E o tédio é uma condenação da pessoa humana, tão terrível, que ninguém sentirá tédio no inferno, mas o tédio transpõe a vida do homem e o acompanha à eternidade: todos sentirão tédio no paraíso.

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24 de julho de 2008
N° 15672 - Luis Fernando Verissimo


Para valer

Numa carta ao Estado de S. Paulo o sr. Cesário Ramalho da Silva, presidente da Sociedade Rural Brasileira, comentou um texto meu sobre a reforma agrária intitulado "Injustiça e desordem", publicado aqui há semanas.

O sr. Cesário não gostou do texto. Nele eu lamentava a demora de uma reforma agrária para valer no país e o sr. Cesário pergunta: "Que reforma agrária para valer seria essa que dilapidaria o setor do agronegócio, que segura as contas do país, com efeito multiplicador de gerar riqueza, emprego e renda para a indústria e os serviços?" .

Segue dizendo que toda a nação já entendeu que o setor rural é o maior responsável pelo crescimento da economia brasileira, junto com a estabilização da moeda, salvo os que insistem num pensamento "ideológico" e atrasado sobre a questão - como, suponho, o meu.

E recorre a uma analogia curiosa: "É como voltar ao tempo do Brasil colônia, onde nós, colonizados, não podíamos acumular riqueza porque tudo pertencia à Coroa portuguesa".

Me parece que se a situação colonial evoca alguma coisa é a atual coexistência no Brasil do latifúndio sem proveito social ou econômico e as legiões de banidos da terra, com a Coroa portuguesa no papel do proprietário ausente.

Não se quer a dilapidação de negócio algum e sim uma reforma agrária que inclua os milhões de hectares vazios mantidos no Brasil só pelo seu valor patrimonial - uma realidade notória que o sr. Cesário não cita - na cadeia produtiva, com colonização bem feita e bem apoiada.

O sr. Cesário diz que não há exemplo de reforma agrária que deu certo. Eu tenho alguns. Li um relatório da ONU sobre os efeitos dramáticos na cidade de Calcutá, conhecida pela miséria e a extrema degradação urbana, da reforma agrária feita na sua região.

Uma reforma agrária radical livrou o Japão de uma estrutura fundiária feudal e teve muito a ver com sua recuperação depois da guerra. A louca corrida para ocupar o Oeste americano não é modelo para nenhum tipo de colonização racional, mas não deu errado.

E já que exemplos americanos legitimam qualquer argumento, mesmo os do pensamento "ideológico", recomendo que se informem sobre o Homestead Act, com o qual o governo dos Estados Unidos lançou, no século 19, o maior programa de distribuição de terra da História.

Não surpreende a desinformação sobre reformas agrárias alheias que deram certo, ou só foram frustradas pela reação violenta. Os próprios sucessos da incipiente reforma agrária brasileira são ignorados.

Sobre os assentamentos que estão funcionando em paz, e produzindo, e contribuindo para o efeito multiplicador que o sr. Cesário, muito justamente, exalta, só se tem silêncio.

O texto que desagradou ao sr. Cesário foi motivado por uma manifestação, depois atenuada, do Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que equiparava o movimento dos sem-terra à guerrilha e pedia sua dissolução.

Diante da flagrante iniqüidade da situação fundiária brasileira, mostravam, como na frase de Goethe, que preferiam a ordem à justiça. A criminalização do movimento dos sem-terra seria a outra face da descriminalização, pela absolvição e o esquecimento, de atos como o massacre de Carajás.

Acho que o sr. Cesário e seus pares concordam comigo que a escolha não precisaria ser feita, que ordem ideal seria a que advém da justiça, ou da ausência da injustiça. Mas isso, claro, pressupõe outro Brasil. Talvez outra humanidade.

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24 de julho de 2008
N° 15672 - Leticia Wierzchowski


Salve, Jorge

Tenho ouvido Cara B, o último trabalho de Jorge Drexler, de quem sou fã há muito tempo. Com filhinho de dois meses, eu passo uma quarta parte do meu dia amamentando e, por conta disso, no quartinho do Tobias rola muita música de boa qualidade. Aqui em casa, meu marido e eu achamos que uma criança, pra crescer sadia, precisa basicamente de amor, leite e Tom Jobim.

A ordem não é criteriosa, vai depender da situação; embora Tom Jobim resolva grande parte dos casos de choradeira (se bem que Tobias, como a neta do Verissimo, também curte Charles Aznavour). Enfim, o fato é que o meu filho tem ganhado muito leite, muito amor e muito Jobim - e mais uma boa dose de Jorge Drexler.

Fazia três anos que Drexler não cantava em Porto Alegre - o tempo passa rápido mesmo. No último verão, tive a sorte de ver um concerto dele em Punta del Este, mas embora o show estivesse bom, Drexler parecia meio deslocado naquele imenso palco cheio de luzes coloridas, como alguém usando uma roupa emprestada... No show de segunda-feira, no Bourbon Country, a coisa foi bem diferente.

Quem logrou vencer as filas e dificuldades para garantir um lugar no teatro foi brindado com um show belíssimo, ora cálido, ora experimental, onde Jorge Drexler estava na sua melhor forma, brindando o público com belas canções em arranjos intimistas.

A coisa já estava pra lá de boa, mas quando Vitor Ramil entrou no palco, tudo ficou melhor ainda. A voz de Vitor está cada dia mais pura e mais bela - quando os dois cantaram Astronauta Lírico, juro que fiquei com vontade de chorar.

Lá pelas tantas, a luz causou uma pequena ilusão de ótica no palco, e Vitor Ramil pareceu tremular um instante, como se fosse desfazer-se subitamente no ar. Nada mais justo, já que aquela voz parecia vir de outro plano mesmo.

Enfim, foi tudo lindo. Drexler mostrou que tem um trabalho impressionante e importante - Oscar à parte, ele é um dos grandes compositores dos nossos dias, e isso bem pra além das fronteiras do Cone Sul.

E é simpático como só os uruguaios sabem ser. Depois do show, voltei correndo pra casa, ainda com Astronauta Lírico soando em meus ouvidos. Meu pequeno Tobias me esperava louco de fome; mas, nessa noite, amamentei em silêncio, pra não apagar o gostinho do show.


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Quarta-feira, Julho 23, 2008



GILBERTO DIMENSTEIN

Uma vida em quadrinhos

Gualberto Costa abriu, na praça Roosevelt, uma livraria especializada em HQs que funciona até de madrugada

HÁ SETE MESES, GUALBERTO COSTA resolveu se aventurar e colocar suas poucas economias num inusitado negócio: uma livraria especializada em histórias em quadrinhos, na praça Roosevelt, aberta durante a madrugada.

O horário de funcionamento adaptou-se ao dos freqüentadores da praça, uma tribo que aprecia a boêmia combinada com o teatro alternativo, circulando em meio aos travestis, drogados, mendigos e prostitutas.

"Sempre tive o projeto de criar um lugar que cultuasse o universo das histórias em quadrinhos", conta Gualberto, um dos idealizadores do principal prêmio brasileiro para essa modalidade de arte gráfica, o HQ MIX, cuja entrega ocorre hoje.

Provavelmente, se tivesse feito um "business plan" para seu empreendimento, ele não receberia muito estímulo.

Se já é difícil manter uma livraria num país de iletrados, imagine então num local como a praça Roosevelt, cuja clientela que consome alguma cultura só anda por ali de madrugada (nem sempre sobriamente), mudando a paisagem do começo da rua Augusta.

Ele próprio seria um interessante personagem de quadrinhos. No começo da década de 1970, prestou vestibular para engenharia e arquitetura no Mackenzie. Estava convencido de que deveria fazer, ao mesmo tempo, os dois cursos, que lhe pareciam complementares.

No intervalo entre os dois vestibulares, comprou uma revista alternativa de artes gráficas ("O Balão") e leu uma matéria sobre cartunistas e autores de HQs -alguns deles, informava o texto, estudantes do Mackenzie.

Local da leitura: praça Roosevelt. "Foi nesse lugar, lendo a revista, que comecei a imaginar minha vida de artista gráfico."

Naquele mesmo ano, Gualberto, sem nenhuma pretensão, tinha vencido um concurso de histórias em quadrinhos.

Os cursos foram concluídos, mas serviram apenas para levá-lo ao prazer da produção de HQs. Isso, no entanto, durou pouco tempo -ele logo desistira da profissão de desenhista. "Preferi ser um militante da arte a ser um artista."

Ele preferiu ser um animador cultural. Participou da fundação de salões de humor (como o de Piracicaba), liderou o movimento para a criação de um museu de artes gráficas (apesar de aprovado em decreto estadual, ficou no papel) e, enfim, idealizou o prêmio HQ MIX.
A movimentação provocada pelos teatros alternativos, trazidos pelo grupo Os Satyros, escrevia um roteiro da recuperação de uma cidade.

Lendo ou conversando com antigos moradores, Gualberto sentiu-se tentado a quebrar o jejum de 15 anos e a escrever um livro cujo cenário é a praça Roosevelt, com seus antigos e novos personagens.

Gualberto ainda não sabe se tem um negócio para ganhar dinheiro, mas desconfia que talvez tenha um bom caso para contar -e, é claro, numa história em quadrinhos.

gdimen@uol.com.br

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JOSÉ SIMÃO

BATMÃE! Batman bate na mãe!

Agora, o Christian Bale vai ter que pedir um habeas corpus, um BATCORPUS!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Rumo a Pequim! Sabe como se diz "estou perdido" em chinês? "U ómi lula!" Rarará! TÔ PERDIDO! U ÓMI LULA!

E aqui em Sampa tem um túnel com problemas de iluminação. Como é o nome do túnel? Noite Ilustrada. Noite Ilustrada fica às escuras! Rarará!

E sabe por que o Batman não consegue prender o Coringa? Porque ele pediu um habeas corpus! É o BatCorpus.

O Super-Habeas! Últimas notícias: o ator Christian Bale, o Batman, foi preso porque bateu na mãe. Então é o BATMÃE! Rarará!

Ele que vai pedir um habeas corpus, um BATCORPUS! E sabe o que o Batman faz quando vê o Robin? Pega o batmóvel, vai pra batcaverna e bat uma. Rarará!

Sabe por que o Batman é apaixonado pelo Robin? Porque amor de morcego é um amor cego!

E mais um recado da Dercy do twitter.com/dercy: "Tô tomando um brunch com o Chacrinha, vou almoçar com o Paulo Autran e jantar com o Bolinha". Rarará!

E eu recebi uma foto duma clínica com três Ferraris e dois Porsches estacionados na frente. Clínica de Aumento de Pênis. Ou seja, ter Ferrari ou Porsche não é tudo na vida! Ou então é sintoma! Rarará!

E os Gornaldos? O Gornaldinho Gaúcho foi pro Milan. E vai vestir a camisa 80. Jogador com o peso na camisa. O Milan tem essa mania.

Pro Gornaldo FOFÔNEMO deram a camisa 99. Jogadores com o peso estampado na camisa! Como se diz em futebol: é o peso da camisa!

E diz que um índio foi pro cartório pra mudar de nome. "Como é seu nome?" "Grande Nuvem Azul que Leva Mensagem para o Mundo." "E quer mudar pra que nome?" "E-MAIL." Rarará!

É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Campo Maior, no Piauí, tem um armazém chamado ARMAZÉM DO PÓ! Ueba!

Já imaginou se fosse no Rio? Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Mutante": companheiro fardado que fica multando carro! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

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23 de julho de 2008
N° 15671 - Martha Medeiros


A inocência dos vereadores

Algum tempo atrás, durante o programa Saia Justa, a jornalista Mônica Waldvogel fez uma divertida e enxuta definição sobre o gênero humano: mulher é chata, homem é bobo.

Tive que rir, porque a generalização, ainda que desfavorável para ambos os sexos, tem lá sua razão de ser. Nós, mulheres, temos muitas qualidades, mas somos chatas. Dramatizamos tudo, nos apegamos a detalhes, não damos férias para nossas mágoas, temos vocação pra sargento, já nascemos adultas, e gente adulta demais é chata.

E os homens são maravilhosos, mas como são bobos. Ficam se comparando uns com os outros, têm o ego inflado, contam vantagens para disfarçar a insegurança, são eternos meninos. Você acha que não procede? Ah, procede.

Um exemplo disso foi parar no jornal ontem: cinco senhores de Carazinho, vereadores a serviço da vida pública, deram seu voto a favor para que a Câmara Municipal homenageasse as moças que trabalham numa danceteria, com a justificativa de que elas oferecem momentos de descontração a seus clientes. Podem ser mais bobos?

Uma notícia como essa, para quem tem bom humor, é um refresco entre tantas reportagens sobre tiroteios e mortes estúpidas. Eu achei engraçado.

Fiquei imaginando esses cavalheiros depois do expediente, ou mesmo em plenário, comentando sobre os ótimos serviços da boate Garotas da Gogo e tendo a idéia de fazer uma deferência pelos nove anos de aniversário da casa, sem achar que isso fosse gerar qualquer incômodo. Chego a ficar comovida com a pureza deles.

Homenagem, quem não gosta? Imagino que em Carazinho tenha um armazém comemorando cinco anos de funcionamento, uma farmácia completando 10 anos na rua principal, uma lotérica há 15 anos servindo à população, e todos esses estabelecimentos já devem, também, ter sido contemplados com uma moção comemorativa apresentada pela Câmara.

É bonito que os vereadores queiram homenagear não só esses, mas todas as classes de trabalhadores, sem exceção.

Talvez tenham pensado que uma consideração às moças contaria pontos junto à comunidade, pois demonstraria que os políticos da região não têm preconceitos. Bobos. Esqueceram que está todo mundo aí fora a fim de apontar nossos erros, de julgar nossas atitudes, de colocar o dedo no nosso nariz e gritar: culpado!

Se ofereceram para o sacrifício na maior boa-fé, achando que a sinceridade do gesto bastaria para que fossem compreendidos. Ninguém quer compreender ninguém, só se pensa em acusar. Hoje em dia, até mesmo crianças já aprenderam a trocar ingenuidade por autopreservação.

De certa forma, fiquei feliz de saber que ainda resta uma certa inocência no mundo. E que há mulheres, como as garotas da Gogo, que fogem à regra: duvido que sejam chatas.

Hoje quarta-feira é o Dia Internacional do sofá. Aproveite, namore e que tenhamos todos uma ótima quarta-feira.

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23 de julho de 2008
N° 15671 - Paulo Sant'ana


A navalha do caminhão

Impossível ficar alheio ao terrível desastre acontecido na madrugada de ontem sobre a ponte do Arroio Concórdia, no quilômetro 371 da Tabaí-Canoas, em Fazenda Vilanova, um pequeno município do Vale do Taquari.

Nós todos, eu que escrevo esta coluna e vocês que a lêem, estávamos dormindo em segurança nos nossos lares, naquele instante, pouco depois das 4h da madrugada.

Às vezes nos passa despercebido que durante a noite milhares de pessoas estão trafegando nas estradas, sob chuva, como foi o caso, sob neblina, como acontece sempre no inverno, vencendo distâncias, correndo riscos cada vez maiores num país que abandonou inacreditavelmente as ferrovias e atira todas as pessoas para o tráfego sinistramente perigoso das rodovias.

As 13 pessoas que morreram no choque do caminhão com o ônibus, mais as 24 que escaparam feridas ou ilesas, com exceção do motorista do caminhão, vinham desde Porto Xavier com destino a Porto Alegre.

Iriam percorrer 669 quilômetros, uma viagem estúpida que atravessa todo o Estado, que dura 12 horas intermináveis e tinha de ser feita num trem seguro e confortável, mas não há trens para transportar as multidões, nem nas estradas nem nas cidades do Brasil.

E ficamos todos à mercê do destino nas estradas não duplicadas e sem acostamento nas pontes. E 669 quilômetros de percurso, um ônibus ou qualquer veículo ultrapassa, é ultrapassado ou cruza com milhares de outros veículos, em todas essas incidências se estabelece o risco de vida nas estradas, dependendo as vidas de todos de quem dirige o veículo em que se está e dirige os dos outros milhares de veículos.

É muito risco, ainda mais quando é noite e chove, como aconteceu nesse desastre. Ainda mais quando todos dentro do ônibus dormem, contagiando até o motorista de sono.

E ainda mais quando as estradas são salpicadas de caminhões, muitas vezes agressivos, dirigidos por motoristas que parecem ser donos do percurso, aterrorizando os veículos menores e obrigando-os em grande parte das vezes a se refugiarem contra o acostamento, sob pena da morte inevitável.

Quando a televisão mostrou a imagem do lado esquerdo do ônibus, o lado do motorista, viu-se que toda a lataria foi rompida, rasgada pela navalha do caminhão, que foi destroçando a todos que estavam nas janelas.

Escaparam de morrer os que estavam do lado direito do ônibus, mas muitos se feriram.

Os dois primeiros atingidos, em lapso de segundo, foram os motoristas, ambos deixaram viúvas e filhos bebês.

E mais outras 11 mortes de passageiros. Morreram dormindo. E os que sobreviveram não se davam conta do que lhes estava acontecendo. Para chegar socorro, àquela hora, demoraria duas horas, depois da chegada do socorro foram necessários mais 80 minutos para resgatar mortos e feridos de dentro do ônibus.

Com o frio da madrugada e a escuridão da noite, imagine-se o sofrimento dessas dezenas de pessoas, entre elas um bebê de sete meses de idade, que restou miraculosamente ileso.

Resta-nos a piedade sobre os mortos e feridos e a solidariedade para suas famílias.

E uma dúvida que me acicata e que não consigo transformar em certeza: será correto que as empresas de ônibus destinem aos grandes percursos o horário da noite, para que os passageiros possam dormir?

Será certo isso ou os grandes percursos tinham de ser feitos à mais segura luz do sol?

No entanto, também me ocorre que as pessoas são obrigadas a viajar à noite para poderem trabalhar no dia seguinte.

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23 de julho de 2008
N° 15671 - David Coimbra


O bordel das prostitutas virgens

Em Ulsan existe o bordel das prostitutas virgens. Juro, prostitutas virgens.

Fica na Coréia do Sul isso. Estive lá por 21 dias a fim de cobrir o Brasil na Copa do Mundo de 2002. Vinte e um dias em Ulsan. Um dos lugares mais aborrecidos do mundo. A cidade nem é pequena nem nada, tem o tamanho de Porto Alegre.

Mas trata-se de uma cidade industrial e, como toda cidade industrial, é cinzenta, poluída e triste. Um desses locais em que as pessoas só pensam em trabalhar. Nada de diversão, nada que não seja prático e monetário, só dinheiro, dinheiro, dinheiro.

Cedo da noite, a cidade fechava. Não havia mais nada para se fazer. Terminava minhas matérias invariavelmente depois da meia-noite, aqueles ulsanenses todos dormindo, eu querendo sair para comer um filé de três dedos de altura e tirar a poeira da garganta com uma cerveja gelada, mas quem diz que encontrava algum bom bar ou restaurante abertos?

De jeito nenhum. Caminhava pelas ruas e via tão-somente desolação. Imagino que na época, em Ulsan, eles passavam pela mesma onda moralista que passamos hoje no Brasil.

Um repórter carioca dizia que Ulsan era como enterro de pobre em dia de chuva, e era. Foi esse repórter carioca que descobriu o bordel das prostitutas virgens. Um bar chamado Seven, cheio de russas. As russas, como se sabe, são belíssimas. Sharapovas e Kournikovas são encontradas aos cardumes em cada beco sujo de Moscou.

Então, lá estavam todas aquelas russas dentro de minissaias sumárias, caminhando sobre saltos vertiginosos de botas que lhes escalavam joelhos acima, até as fronteiras das coxas macias.

Podia fazer frio que as russas se vestiam do mesmo jeito... despojado. Não eram freqüentadoras - trabalhavam lá. O lugar não era muito grande. Havia umas 15 mesinhas circulares, cantinhos escuros, música eletrônica, garçons e seguranças coreanos que deviam lutar kung fu.

Quer dizer: a aparência toda era de um bordel. Ou "boate de encontros", como se diz lá em Erebango. Porém, as mulheres estavam proibidas de fazer sexo. O repórter carioca se revoltou. Como assim??? Pode tudo, menos sexo???

Isso mesmo, elas podiam dançar com o cliente, conversar com ele, beijá-lo e acariciá-lo até que ele ganisse de angústia, mas, se chegasse ao sexo, poderiam ser expulsas da Coréia. Donde, o lugar ficou conhecido por toda a imprensa internacional como o bordel das prostitutas virgens.

t Essas russas, foi uma surpresa o que aconteceu com elas mais tarde e que vou relatar em seguida. Suponho que estivessem lá como uma concessão do governo coreano aos estrangeiros que visitariam o país durante a Copa do Mundo. A Coréia do Sul é uma democracia capitalista, mas o Estado jamais se omite.

Foram ações do Estado, conjugadas com a disciplina do povo, que transformaram a Coréia, arrancaram-na da miséria e a instalaram em confortáveis níveis de desenvolvimento. Ações voltadas para um único setor: a Educação.

Visitei famílias comuns de coreanos, fui as suas casas e constatei que os pais dão à educação de seus filhos o status de primeiríssima prioridade. O mesmo aconteceu com vários países hoje com bom padrão de desenvolvimento, como Vietnã, China, Cingapura e Japão, sem citar os ocidentais.

Na Coréia, todo o ensino básico e secundário é gratuito e todas as crianças são obrigadas a ir à escola. Em compensação, o terceiro grau é pago, mas, mesmo assim, oito de cada 10 coreanos vão para a universidade.

Os pais coreanos não se limitam a pôr os filhos no colégio. Financiam-lhes cursos de inglês, de informática, de balé, de história, de piano, de tudo o que lhes puder complementar a educação. Quando os índices das escolas saem, os coreanos festejam como se fossem vitórias de seus times de futebol. E foi isso que um pai coreano me disse:

- Vocês, brasileiros, vibram com o futebol; nós com a educação.

O que me faz lembrar de uma frase do centroavante francês Thierry Henry sobre o virtuosismo dos jogadores brasileiros:

- Os brasileiros são bons de bola porque seus filhos, em vez de estar na escola, estão jogando futebol.

Muito certo. Uma frase de centroavante. Fico pensando que nós, tratando com seriedade o ensino básico e o médio, poderíamos construir uma sociedade desenvolvida e mais justa, como a Coréia, mas sem a chatice de um lugar como Ulsan, feio, cinza e triste, um lugar que mantém intocadas até mesmo as lindas russas do insólito bar Seven.

Se bem que, ao que demonstram os indícios, as russas não ficaram tão intocadas assim. Um dia, eu e mais alguns amigos repórteres do Riosãopaulo estávamos entrando no hotel da Seleção e quem vemos saindo, risonhas e buliçosas? As russas! O repórter carioca as abordou, indignado:

- O que vocês estão fazendo aqui??? E a mais bela delas, uma loira de pernas sem fim e olhos de mel, respondeu, sorrindo:

- Visitamos os jogadores de vocês. No dia seguinte, só saíram notícias negativas a respeito da Seleção .

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23 de julho de 2008
N° 15671 - Diana Corso


Guardiã das gavetas existenciais

Sempre quis ser cronista, queria ter essa capacidade de pinçar um elemento aparentemente irrelevante do cotidiano e com ele interpretar o mundo.

Este espaço, desde o qual aqui vos falo, transformou-me não nisso, mas numa microensaísta, foi o que deu para fazer. Mas nas páginas da Zero Hora eu vi, não sem inveja (da branca), o nascimento duma cronista de verdade.

Lembro de certa crônica escrita pelo Cony nos dias do impeachment do presidente Collor. O jornal derramava urgência, empolgados pelo momento histórico, estávamos inebriados dum espírito cívico, determinados a julgar e punir as safadezas dos poderosos de plantão. Dissonante, ele dedicou seu espaço jornalístico a falar de suas cadelas Setter.

Fiquei impactada pela liberdade de pensamento, não era um gesto de alienação, simplesmente alguém lembrou, sutilmente, que e a vida segue, cheia de grandes pequenos caprichos.

Cláudia Laitano é capaz disso, mas é no exercício da memória que seu livro de crônicas Agora Eu Era revela-se encantador. Ela nos lembra que possuímos uma gaveta cheia de cacos históricos, bijuterias quebradas, fotos sem importância, coisas que se deixou para ler no dia de são nunca, que ela sabiamente chamou de almoxarifados existenciais.

Os nossos ficam lá, juntando poeira à espera da faxina inclemente, que nos deixará entre saudosos e reflexivos, mas disso não faremos arte, ela sim.

Suas crônicas conectam-nos com um acervo coletivo de lembranças, que são velhas propagandas, programas de TV, lugares, objetos e hábitos do passado recente.

Mas, diferente daqueles livros de "mofolândia", catálogos visuais da cultura pop de décadas passadas, as memórias evocadas por ela estão ao serviço de um questionamento inclemente, nada moralista. O bom humor e a leveza embalam a densidade de suas reflexões, não se engane, ela nos alfineta.

Recentemente, ela passou por uma grande dor, a morte de sua mãe. Na tristeza do velório me disse: perder a mãe é diferente. Só depois entendi. Não estou desmerecendo os pais, eles fazem uma falta imensurável, mas é de outra natureza.

Mãe é o hard disk da nossa vida. É guardiã das memórias, das gavetas e almoxarifados que a gente pode nunca consultar, nem limpar, pode até nem querer lembrar, mas descansa sabendo que alguém armazena isso para nós.

Perder a mãe é assistir ao incêndio de boa parte dos arquivos da nossa infância. Só me ocorre dizer, enquanto inútil consolo, que a Cláudia, como cronista, é, nesse sentido, um pouco mãe para todos nós, seus leitores.


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Terça-feira, Julho 22, 2008



RUBEM ALVES

A aldeia nunca mais será a mesma

Algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotinado cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada

ENTRE CERTOS POVOS ditos primitivos, cujos costumes eram rigorosamente regulados por leis que os séculos haviam acumulado, o aparecimento de algum fenômeno incomum nos céus era sinal de que transgressões desses costumes eram permitidas na terra.

É lei dos jornais que só se publicam notícias novas. Isso vale para os tempos normais. Mas algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotina do cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada.

Considero esse fato como um sinal nos céus que me permite transgredir a lei dos jornais: vou contar uma história que já publiquei muitas vezes.

É um conto do Gabriel García Marquez, que, na minha opinião, é o conto mais fantástico jamais escrito.

Era uma aldeia de pescadores perdida num fim de mundo, onde a monotonia e o tédio haviam se apossado dos corpos dos homens e das mulheres, de sorte que, dos seus olhos, fugira toda a luz, e ninguém esperava receber das palavras de alguém fosse beleza, fosse sorriso, fosse amor... Era a eterna repetição do mesmo enfado e do mesmo tédio...

Foi então que um menino que olhava para o mar viu uma forma flutuando ao longe, diferente de tudo o que ele já havia visto. Ele gritou -e todos vieram correndo, na esperança, talvez, de uma novidade que lhes desse assunto sobre o que falar.

E lá ficaram, parados na praia, esperando, até que finalmente o mar, sem pressa, depositou a coisa estranha na areia... Era um morto desconhecido, tendo por roupa só as algas, os liquens e as coisas verdes do mar.

Desconhecido, sem passado e sem nome... Mas tinham de fazer o que deviam: os cadáveres têm de ser enterrados. E era costume naquela aldeia que os mortos fossem preparados pelas mulheres para o sepultamento.

Assim, o levaram para uma casa e o colocaram eucaristicamente sobre uma mesa, as mulheres de dentro, os homens de fora, e grande era o silêncio -até que uma delas, com voz trêmula, observou:

"Tivesse ele morado em nossa aldeia, teria de ter abaixado a cabeça sempre para entrar em nossas casas, pois é alto demais"... E todos assentiram com um imperceptível gesto de cabeça.

Mas logo uma outra falou -e perguntou como teria sido a voz daquele homem, se teria tido em sua boca as palavras que fazem com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo... E todas sorriram, algumas delas chegando a passar as mãos pelo cabelo, com saudades...

E grande foi o silêncio, até que aquela que limpava as mãos inertes do morto perguntou sobre o que elas teriam feito, se teriam construído casas, travado batalhas, navegado mares e se teriam sabido acariciar o corpo de uma mulher...

Ouviu-se, então, um discreto bater de asas, pássaros de fogo entrando pelas janelas e penetrando nas carnes.

E os homens, espantados, tiveram ciúme do morto -que era capaz de fazer amor com suas mulheres de um jeito que eles mesmos não sabiam.

E pensaram que eram pequenos demais, tímidos demais, feios demais, e choraram os gestos que não haviam feito, os poemas que não haviam escrito, as mulheres que não haviam amado.

Termina a história dizendo que eles, finalmente, enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma. A Dercy Gonçalves morreu. Nossa aldeia nunca mais será a mesma...

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CARLOS HEITOR CONY

Dercy

RIO DE JANEIRO - Entre as coisas estranhas que me aconteceram, a mais complicada e inútil foi a de superintender a teledramaturgia da antiga Rede Manchete, que então atravessava boa fase, com produções de sucesso, como "Marquesa dos Santos" e "Dona Beja".

Em conversa com Adolpho Bloch, ele sugeriu que se fizesse uma novela tendo como cenário principal uma gafieira dos tempos em que ele chegara da Rússia, e cujo nome era "Kananga do Japão".

Havia o filme "Cabaret", um palco da Berlim dos anos 20 do século passado. A partir desse palco, foi contada a história da ascensão do Terceiro Reich.

Contratei pesquisadores para fuçar a história nacional dos anos 29 a 39, fizemos um bom levantamento de fatos políticos, sociais, esportivos e artísticos, mas nenhum deles sabia o que era Kananga do Japão. Muito menos o próprio Adolpho, que fora freguês da gafieira.

Convidamos Dercy Gonçalves para dar um depoimento sobre aquele período. E dela veio a luz: Kananga do Japão era o nome de um perfume vagabundo, muito usado pelas prostitutas que vinham da Europa e se instalavam no Mangue ou nas imediações da velha Praça Onze.

Numa reunião qualquer, quando alguém dizia que sentia o cheiro daquele perfume, era um código decente para avisar que havia uma profissional no pedaço.

A partir dessa informação, foi mais fácil desenvolver o roteiro da novela, na qual a própria Dercy fez uma ponta, como a grande comediante do teatro de revista que só acabou com o advento da televisão, na qual ela também teve papel de destaque.

Fez um gênero difícil para a sua época. Ela lembrava que, quando dizia um palavrão, era criticada como desbocada. E reclamava: "Hoje o palavrão é expressão cultural".

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JOSÉ SIMÃO

O palavrão tá a meio pau!

A Dercy é a única que morre e, em vez de tristeza, vira uma esculhambação! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! A Dercy não morreu.

A Dercy fez bingo. BINGÔ! Luto no palavrão. O palavrão tá a meio pau. A Dercy é a única que morre e, em vez de tristeza, vira uma esculhambação!

Sabe o que são Pedro falou pra ela? "Idosa falando palavrão só pode ser a Dercy." "Idosa o caraio, me dá um selinho aí, véio." E ela já mandou dois recados do além:

1) Tô tomando um brunch com o Chacrinha e vou almoçar com o Costinha;
2) Ô, cambada, eu não tô vendo o Elvis aqui, não!; Aliás,
3) Aqui ninguém vai comer a minha perereca! Rarará!

E ela morreu sem atender um dos meus pedidos: posar pelada pra "Playboy", a PLAYLANCA! E sabe o que ela falou no velório? "Puta merda, vocês vão passar o dia aqui olhando pra minha cara, vão assistir à corrida, porra".

Por falar em corrida, o Galvão Urubueno reinventou a geometria: "Aqui, no circuito da Alemanha, tem uma reta curva". O Galvão inventou a reta curva. Sensacional! Rarará!

E essa: "Via Amarela culpa o terreno pelo buraco do metrô". Sobrou pro buraco. Porque o terreno não pode reclamar. Pagaram pro terreno não falar nada.

E mais outra: "Daniel Dantas não é banqueiro". Sei, então ele é bancário? Rarará. Tiro daí duas conclusões: o Dantas não é banqueiro e a culpa é do terreno!

E eu já disse que o ministro do Supremo Gilmar Mendes inventou o HABEAS MIOJO! Habeas corpus instantâneo. O Dantas é preso e, em três minutos, ele tá solto. Três minutos e um copo d'água e sai um habeas corpus.

Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Lavras, Minas, no bar do Tiririca, tem uma placa no banheiro: "Se não souber mijar como homem, urine como mulher". Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! Rarará!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Camelo": companheiro que tem dois buchos, um pro churrasco e outro pra cachaça! O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo, que eu não vou!
simao@uol.com.br

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GREAVES, O QUASE MALDITO

Porto Alegre é uma cidade faceira. Toda hora recebe alguma sumidade artística. Tem para todos os gostos. Faz pouco, veio a linda e espetacular Joss Stone, que só desafinou ao recusar, por desconhecimento, o que a absolve por completo, uma camisa do Internacional jogada pelo público.

Agora mesmo, no Festival de Inverno da Secretaria Municipal da Cultura, o uruguaio Jorge Drexler encantou os seus fãs já encantados. Nesta quarta-feira, no Sesc, será a vez de John Greaves.

O homem, embora pouco conhecido no Brasil, é uma fera. Britânico, tem passado os últimos 20 anos mais em Paris do que em qualquer outro lugar, o que é sempre uma boa credencial. Não pode ter mau gosto quem escolhe Paris para viver.

Foi aí que ele decidiu gravar um disco interpretando versos do poeta maldito Paul Verlaine, o mesmo que abandonou a mulher, isso no século XIX, para namorar o não menos maldito Rimbaud, beirando os 18 anos de idade, em quem deu um tiro e, por essa singela demonstração de amor, teve de passar uma temporada luminosa na cadeia, onde burilou sua veia melancólica, enquanto o seu antigo amor tomava outros rumos, trocando a poesia radical por algo mais pacífico e rentável, o tráfico de armas na África.

Greaves faz rock, jazz, música eletrônica e o que mais se possa imaginar. Fui, a convite do serelepe Ronan Prigent, bater um papo com Greaves no Bistrô do Margs.

Saí de casa com uma questão inevitável: por que Verlaine e não Baudelaire? A resposta só podia ser uma: os versos 'ímpares' de Verlaine se adaptam melhor a ser musicados e cantados do que os alexandrinos de Charles Baudelaire. Um roqueiro erudito. É mole?

Quem gosta de poesia não pode perder essa parada. Fui conferir no MySpace e vi que Greaves não brinca em serviço. Nada como falar de poesia para tornar a vida mais interessante numa segunda-feira. Greaves diz que não mexeu em uma só vírgula dos versos de Verlaine.

Lembrou que alguns o fizeram. Por exemplo, Charles Trenet, numa das minhas canções favoritas, conhecida justamente como 'Verlaine', trocou 'blessent mon cœur' (ferem meu coração) por 'bercent' (embalam).

Nunca é demais recordar que estes extraordinários versos, 'les sanglots longs des violons de l’automne/ blessent mon cœur d’une langueur monotone', a 'mensagem Verlaine', foram difundidos pela BBC em junho de 1944 como sinal do desembarque aliado na Normandia. Esse pessoal, definitivamente, fazia tudo em altíssimo estilo.

O maior elogio feito por grandes jornais como Le Monde e Libération a Greaves é classificá-lo de inclassificável. John canta em francês, língua estranha ao rock, a poesia de um clássico da França. Isso é que é ousadia.

Deu tão certo que até agora nem sequer o seu sotaque foi criticado. O artista gosta de poetas malditos e tem talento para ser maldito. Só não o é, no sentido literal, por serem muitos os seus admiradores contumazes.

Temi que o show de Greaves coincidisse com outro espetáculo poético imperdível, o jogo do Inter contra o São Paulo. Nesse caso, haveria um conflito de interesses de dilacerar o coração. Felizmente, o show de Greaves começa às 20h e termina às 21h30min.

O jogo do Inter começará 15 minutos depois. Não há, portanto, desculpa. Pessoas de extremo bom gosto poderão assistir aos dois. Não há incompatibilidade entre essas duas coisas. Em francês, 'jouer' serve para jogar, tocar, brincar...

juremir@correiodopovo.com.br

Ainda que com chuva e ciclone extra tropical que tenhamos todos uma ótima terça-feira

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22 de julho de 2008
N° 15670 - Paulo Sant'ana


Teta gorda do TCE

Não tenho o costume de criticar os altos salários nem me move a inveja contra eles.

No entanto, têm chamado a atenção os altos salários pagos no Tribunal de Contas do Estado, divulgados nos últimos dias pela coluna de Rosane de Oliveira, em Zero Hora.

Há servidores ganhando R$ 55 mil no Tribunal de Contas. E 131 servidores do Tribunal de Contas ganham mais do que o teto estabelecido: são salários que vão de R$ 30 mil a R$ 55 mil.

Causam alarma esses privilégios exatamente pela penúria por que passa o Estado. Os brigadianos, os professores, os demais funcionários do Estado estão ganhando salários humilhantes, tanto que passou uma lei no plano federal que concede um piso salarial aos professores brasileiros (R$ 950) e o Tesouro gaúcho calculou que os gastos com esse aumento, que vigorará a partir de 2010, somarão R$ 1,5 bilhão por ano.

Se só com o gasto de aumento se somarão R$ 1,5 bilhão, é porque grande parte dos professores ganha em torno de R$ 500 mensais.

Como é então que com o Estado quebrado há 131 servidores do Tribunal de Contas ganhando acima de R$ 30 mil até R$ 55 mil?

Estive fazendo a conta: o que percebem esses 131 servidores do Tribunal de Contas daria para pagar de 7 mil a 8 mil novos PMs, que seriam acrescidos aos pouco mais de 25 mil PMs que se estrebucham para cuidar do policiamento ostensivo em nosso Estado.

Isto é um deboche, um acinte.

Como é que se instalou na surdina durante todos esses anos essa sinecura sugadora dos cofres públicos no Tribunal de Contas?

Como é que deixaram se instalar? Como é que esses 131 servidores do Tribunal de Contas ganham salários superiores aos do presidente da República, dos governadores, dos ministros, dos procuradores, dos juízes e dos ministros do Supremo?

Como é que foi cevada essa teta do Tesouro estadual durante esses anos todos? Quanto maior a ordenha, mais cresce a teta.

Esses salários de R$ 55 mil do Tribunal de Contas são equivalentes aos dos maiores craques do futebol brasileiro. Os maiores, porque 90% dos jogadores profissionais do Brasil ganham menos de R$ 1 mil.

São salários milionários que foram urdidos debaixo do tapete, sem o conhecimento da opinião pública durante muitos anos.

Só altos executivos de grandes empresas ganham em torno de R$ 55 mil mensais. 90% dos executivos de empresas não alcançam esse salário.

Como é então que, por mais capacitados que possam ser esses marajás do Tribunal de Contas, deixou-se criar este limo, medrar este cancro salarial no Tribunal de Contas?

E o Estado falido, quebrado. E os servidores do Poder Executivo sem um tostão de aumento há muitos anos, com a inflação crescendo assustadoramente e corroendo os ganhos dos funcionários até a miséria.

Repito: só com o que ganham 131 servidores do Tribunal de Contas do Estado se poderiam pagar de 7 mil a 8 mil PMs.

Por isso é que não há dinheiro para pagar um mínimo decente aos policiais e às professoras.

Não tenho inveja dos salários dos outros nem me aplico a ficar criticando altos salários, são testemunhas os leitores desta coluna, mas foram tantos os protestos que chegaram às minhas mãos por leitores e ouvintes, contra essa mamata do Tribunal de Contas, que ficou irresistível deixar de censurá-la.

É demais!

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22 de julho de 2008
N° 15670 - Luís Augusto Fischer


Dante mais perto

Não sei como é que o leitor lida com isso, mas o caso é que quem vive no mundo da cultura letrada sempre tem consciência da dívida que se acumula em sua vida: quanto mais conhece e lê, mais sabe que tem a ler, e ali no horizonte vai crescendo a sombra daquela montanha de livros jamais lidos que seria imprescindível ler.

Quando se lê em mais de uma língua, o problema se agrava; quando se freqüenta mais de uma época, o parafuso dá mais uma volta na rosca sem fim do conhecimento.

Tomemos o caso do italiano: trata-se de uma língua de cultura antiga, espessa, praticamente infinita para apenas uma vida de leitura. Vai-se ver o presente e ali está Umberto Eco, que é romancista e erudito comentador de literatura; recua-se um pouco e ali está Italo Calvino, romancista que, por sinal, estabeleceu uma inteligente (e desesperante) tipologia dos livros que temos que ler, no capítulo inicial de Se um Viajante numa Noite de Inverno.

Indo bem lá para trás, vamos encontrar Dante Alighieri (1265 - 1321), por muitos títulos o primeiro autor moderno de literatura. E como ler sua obra?

Não faz muito saiu uma versão em prosa de sua Comédia (L&PM), que ganhou o adjetivo Divina só 200 anos depois, tradução que se soma a algumas outras em português (há um pela editora Itatiaia, outra pela 34, outra ainda pela Bertrand).

Sua Vida Nova, coletânea de poemas líricos acompanhados de comentários do próprio autor, também tem mais de uma tradução entre nós.

Sobre ele, há em nossa língua coisa de alta erudição (Auerbach, Curtius, Bloom), assim como comentários apaixonados, como o de Jorge Luis Borges. Tudo isso é uma selva, talvez tão escura quanto aquela que abre a Comédia, "nel mezzo del camin" da vida do narrador.

Para aliviar o tormento do candidato a leitor é que apareceu o excelente livro de Eduardo Sterzi Por que ler Dante (Globo).

Aliando com grande habilidade o comentário erudito com um texto fluente, claro e preciso, o livro desenha a vida, a obra e, mais importante, as singularidades e as conquistas de Dante.

Uma introdução de luxo ao autor, um estudo de nível raríssimo no Brasil, uma leitura prazerosa para quem queira abater um pouco daquela dívida impagável.

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22 de julho de 2008
N° 15670 - Moacyr Scliar


A polêmica do insulfilme

A morte do menino João Roberto Amorim Soares, baleado pela polícia dentro do carro da família no Rio de Janeiro, suscitou revolta e polêmica.

Esta centrou-se basicamente no treinamento (ou falta de treinamento) dos policiais, mas outros pontos foram levantados. Um deles: até que ponto o insulfilme que revestia os vidros do veículo acabou prejudicando a família?

O insulfilme é uma película de poliéster coberta com uma camada fina de metal. Para quem está dentro do veículo, esta película é transparente, praticamente não atrapalha o motorista; a luz do sol penetra pouco e o olhar de quem está fora menos ainda. O uso, desde 1998, é legal, desde que o material apresente uma transparência mínima de 50%.

Os adeptos do insulfilme dizem que a película diminui o esforço ocular ao dirigir e que reduz o calor dentro do carro, conservando melhor o estofamento. Impede também o vidro de estilhaçar-se, quando atingido por uma pedra, por exemplo.

Mas o grande argumento é o da privacidade e segurança: de fora, não dá para ver o interior do carro. Com isto, prováveis assaltantes não sabem o que poderão encontrar. E quem, por qualquer razão, não quer ser visto, tem na película uma proteção.

Estas são as notícias boas. As ruins, além do erro da polícia antes mencionado, são que não apenas os motoristas e os passageiros têm privacidade; qualquer intruso também a terá.

Em sua coluna da Folha de S. Paulo, Ruy Castro conta que um conhecido sofreu um seqüestro relâmpago em seu carro revestido de insulfilme. Resultado: os seqüestradores puderam rodar com o seqüestrado à vontade, sem receio de serem perturbados.

Há um outro aspecto, este desconcertante. O motorista que é fechado por outro já não pode emparelhar seu carro com o do imprudente e olhar feio ou fazer sinais de qualquer tipo, ameaçadores ou obscenos.

Pergunta: isto é bom ou é ruim? Em primeiro lugar, é preciso dizer que é uma coisa muito comum, uma freqüente forma de comunicação não-verbal.

Que surge cedo na vida. Um estudo realizado no Canadá mostrou que bebês sorriem mais quando os pais estão olhando para eles. Este olhar também facilita o reconhecimento, pela criança, do rosto do pai e da mãe.

Até aí, tudo bem, mas quando se trata de adultos a coisa muda. Em geral as pessoas não gostam de ser miradas, sobretudo fixamente. "Nunca me viu?" é a frase que comumente traduz a irritada reação de quem está sendo olhado. No sudeste asiático é uma grosseria olhar fixo para outra pessoa.

O olhar fala, como sempre o souberam os caudilhos e ditadores latino-americanos. Os óculos escuros que usavam, e que numa época tornaram-se marca registrada, tinham o objetivo de silenciar esta potencial fala, de tornar o autocrata uma pessoa enigmática, de desígnios tão insondáveis quanto poderosos.

O olhar penetrante, como diz o adjetivo, penetra nas pessoas. Não por outra razão os americanos usam a expressão "eye contact", contato ocular.

É um contato, mas um contato - perdão pelo trocadilho, leitores - sem tato, que pode facilmente levar à agressão verbal e física. "Avoid eye contact", evite o contato ocular, é um conselho freqüentemente dado nos Estados Unidos, e um filme de animação sobre Nova York tem exatamente este título.

Bem, o insulfilme está evitando o contato ocular entre os motoristas. De novo: é bom, isso? As opiniões variarão.

A turma do deixa-disso dirá que sim. Aqueles que se frustram quando não descarregam a agressividade dirão que não. Melhor seria se, no carro ou em qualquer outro lugar, pudéssemos nos olhar as pessoas sem desconfiança, sem raiva.

É ótimo isolar a luz e o calor, é bom proteger o carro. Mas carros não são pessoas. Nestas, a transparência é, ou deveria ser, uma virtude.


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Segunda-feira, Julho 21, 2008



Artigo - Fernando de Barros e Silva - Folha de S. Paulo - 21/7/2008

Ilusões perdidas

Num país tão brutalmente desigual, soa até ofensivo perguntar se a Justiça é elitista. Como? Claro que sim, como a saúde e a educação, direitos universais no papel. Os que não podem pagar (professor, médico ou advogado) se viram na moenda social brasileira.

Essa é também uma sociedade autoritária. Escravocratas durante séculos, seguimos patrimonialistas. E saímos de uma ditadura de duas décadas há pouco mais de 20 anos. Essas marcas estão inscritas na maneira de pensar, no país que conseguimos ser: ainda desiguais demais, ainda democratas de menos.

O "affaire Dantas", além do potencial explosivo, é rico porque traz à tona esse núcleo de problemas: privilégio e impunidade de um lado, demanda por justiça social e por lei para todos, de outro.

A simpatia popular pende para o elo mais fraco -neste caso, o delegado da PF, o que por si só é uma boa ironia. Não se deve caluniar a polícia abstratamente, disse o filósofo Adorno ao amigo Marcuse, pouco antes de morrer em 1969.

Mas não se deve também relevar o viés autoritário ou os abusos heterodoxos do inquérito (como se fossem "só" males menores) em nome do desejo por justiça.

Não é preciso querer livrar a cara dos vilões para notar que ninguém nessa história faz boa figura. Este parece ser o xis da questão.

A polícia atropela a lei para combater privilégios; advogados invocam a lei para preservar os mesmos privilégios. Quantos interesses inconfessáveis escondem cada intenção geral?

Talvez este episódio nos coloque diante do que o crítico Roberto Schwarz chamou de "desigualdade social degradada", a saber: esgotada a perspectiva histórica de uma vida nacional e coletiva decente, a sociedade se reproduz mais e mais e de cima abaixo sob o signo da delinqüência.

Daniel Dantas seria, tanto quanto Fernandinho Beira-Mar, um tipo capaz de iluminar a trama contemporânea do país.

Ficamos ainda sem saber se é um prenúncio de boas novas ou um sintoma dos limites do Brasil.

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Coluna - Nossa Economia - Paulo Guedes - Época num. 0531 - 21/7/2008

Não são “perfeitos”, mas buscam permanente a eficiência, ao mesmo tempo em que são espelho de nossos humores

A furiosa condenação é de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, em artigo publicado no jornal O Globo da quarta-feira passada: “Os bancos americanos erraram no cálculo dos riscos em uma escala colossal, com conseqüências globais.

E gestores dessas instituições saíram de cena com bilhões de dólares em recompensas”. Concordo com Stiglitz: banqueiros incompetentes, regiamente pagos, expandiram seus empréstimos, causando agora uma formidável crise creditícia, com efeitos sobre toda a economia mundial.

Prossegue o crítico: “A maciça alocação de recursos para a construção civil foi um enorme equívoco. Novas residências foram construídas para famílias que não podiam pagar por elas, e agora milhões de residentes tiveram de deixar suas casas.

Mesmo aqueles que sempre foram responsáveis, cuidadosos em seu endividamento, verificam agora que o mercado desvalorizou suas residências além do que podiam supor em seus piores pesadelos. E a destruição se amplia: os despejos e as falências provocam uma desaceleração econômica prolongada”.

De novo, concordo: a bolha imobiliária foi um erro de cálculo monumental. Quebrou a indústria de construção residencial. Arrastou à falência milhares de famílias que não conseguiram pagar suas hipotecas.

Causou uma devastação nos balanços das instituições financeiras. Derrubou o crescimento da produção e do emprego nos Estados Unidos e lançou enormes sombras sobre a economia mundial.

Conclui Stiglitz, e mais uma vez concordo: “Ninguém pode argumentar que os mercados financeiros fizeram um belo trabalho”. Discordamos, entretanto, quanto às raízes da crise. Stiglitz atribui as origens da desordem atual às falhas de um mercado supostamente perfeito.

Em minha opinião, uma percepção ingênua dos fenômenos de mercado, como a crença nos mercados perfeitos, fornece exatamente o que seus críticos mais utilizam como munição nos momentos de crise e descontinuidade.

O argumento da suposta infalibilidade dos mercados em bases científicas e a pretensão de transformar economia e finanças em ciências exatas produzem uma perigosa mistificação: confundir brilhantes construções mentais para entender a realidade com a própria realidade.

Banqueiros incompetentes erraram no cálculo dos riscos. Mas estimulados pelo Federal Reserve

Os mercados não são “perfeitos”. São, isto sim, poderosos instrumentos de coordenação econômica em busca permanente de eficiência. Mas são também o espelho de nossos humores, refletindo nossa falibilidade nas avaliações. São contaminados por excesso de otimismo e de pessimismo. São humanos, demasiado humanos.

Em 17 de março, adverti nesta coluna: “Esta crise, cujo epicentro se encontra no mercado de crédito americano, é mais séria que as superficiais análises em Wall Street nos queriam fazer crer.

Sua profundidade tornou inescapável a conclusão de que, nas raízes do fenômeno, estão os excessos na expansão de crédito da era Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.

Ninguém mais acredita que uma crise de tais proporções pudesse decorrer de uma pequena desatenção de Ben Bernanke, o atual presidente do Fed, ou mesmo de um pequeno erro de cálculo de meia dúzia de empresas de construção civil na Califórnia e na Flórida”.

Sim, banqueiros incompetentes cometeram erros grosseiros no cálculo dos riscos. Mas estimulados pelo Federal Reserve. Sim, a expansão excessiva do crédito causou bolhas imobiliárias, erros de alocação de recursos, especulação na compra de ativos, desembocando no colapso do crédito e no estouro das bolhas.

Mercados demasiado humanos ampliaram a onda de alta produzida por um Fed demasiado frouxo. E agora as ondas de baixa arrebentam sobre milhões de americanos que se endividaram em demasia, acreditando que os juros baixos do Fed durariam para sempre.

Se os mercados são condenáveis por erros de cálculo dos riscos assumidos, o Federal Reserve deve ser condenado por “moral hazard”: indução ao risco excessivo e ao comportamento temerário.

Por estímulo artificial à especulação e por enganar miseravelmente milhões de americanos que acreditavam na perfeição das autoridades monetárias – e não dos mercados.

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Jaime Cimenti

Um dia de sol

Naquela manhã de domingo, eu não tinha nenhum Prêmio Nobel a receber e nem a Juliana Paes estava me esperando no Parcão. Prêmio Nobel, Juliana Paes, o que é mais importante? Você decide.

Eram apenas nove da madrugada e eu nem sabia que tempo fazia lá fora, mas, mesmo assim, pulei da cama, ou melhor, para falar bem a verdade, fui levantando e me desenrolando devagarzinho feito um gato fazendo alongamento na academia de ginástica.

Vesti o abrigo esportivo, calcei os tênis e acordei um pouco mais quando abri a janela e o sol entrou por ela mansamente, pousando elegantemente igual à claridade de lâmpada dicróica.

Um dia de sol. Lembrei da rainha Elisabeth II, da Inglaterra. Não sou fã dela, gostava mais até da mãe dela, a rainha-mãe, que guardava uma garrafa de gim debaixo da cama.

Mas esses dias, na televisão, no dia do seu aniversário de 82 anos, ela me comoveu. Perguntaram para Elizabeth II o que ela queria de presente. Como se tivesse a resposta pronta há quinze anos, ela, uma das mulheres mais ricas e poderosas do mundo, disse simplesmente: um dia de sol.

Em Londres, como se sabe, não tem muito sol, e a rainha tem de tudo. Fiquei pensando uns minutos nela e no dia de sol, tomei café com leite, comi uma torradinha de pão de centeio e uma banana, tomei meus remédios e fui caminhar no Parcão.

Descendo pela Padre Chagas, fiquei observando o sol, a luz do sol e aquele céu azul de brigadeiro e fiquei feliz pela idéia para esta crônica. Não foi uma idéia original, claro, nem muito criativa, mas fiquei pensando que prefiro sol, calor e luz do que escuridão, sombra, neblina, chuva e frio.

Não tenho nada contra quem gosta de inverno, de roupas pesadas, do escuro e das cores tristes da estação. Sei que a natureza precisa de tudo, mas nada como a luz do sol para achar que o mundo e tudo mais estão começando de novo.

A luz do sol está aí sempre reinaugurando o mundo e a vida. É show antigo, milenar, imortal e está em cartaz há mais tempo que as peças e os fantasmas de Shakespeare e O Fantasma da Ópera, na Broadway. E, ainda por cima, o sol nem cobra nada.

E olha que hoje no mundo não tem almoço e nem muita coisa de graça por aí. Aproveite o dia, aproveite o dia de sol! É de grátis!

Jaime Cimenti - Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós.

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Jaime Cimenti

Releituras de clássicos eróticos em linguagem contemporânea

Leitores de todos os tempos nunca encontraram muitos bons exemplos de literatura erótica à disposição. Excluindo as obras de pornografia que sempre existiram e alguns poucos livros que deram tratamento digno e artístico aos temas eróticos, a história da literatura não revela quantidade significativa de contos, poemas e romances do gênero.

Para os leitores da atualidade, especialmente para os mais jovens, a situação é parecida e a leitura de clássicos às vezes se torna difícil por causa da linguagem e da temática.

O romancista, roteirista e editor paulista Flávio Braga foi criado em Porto Alegre e vive no Rio de Janeiro há 30 anos. Ele é autor de

O que contei a Zveiter sobre sexo e co-autor da coleção Amores Comparados, com Regina Navarro Lins, e acaba de lançar três livros que, em linguagem contemporânea, contêm narrativas inspiradas em clássicos eróticos da literatura da Roma Antiga e do século XVIII.

Os volumes fazem parte da Coleção Placere e têm como fontes Casanova, Petrônio, Marquês de Sade, Boccaccio, Masoch e As mil e uma noites.

Sade em Sodoma; Eu, Casanova, confesso e Enquanto Petrônio morre são os títulos das obras, que têm 160, 192 e 158 páginas, respectivamente, e custam R$ 21,90 cada.

Portanto, os leitores modernos, além de poderem contar com obras de Philip Roth, Henry Miller, Charles Bukowski e de brasileiros como Dalton Trevisan e João Ubaldo Ribeiro, agora poderão fazer uma espécie de releitura contemporânea de clássicos como Os 120 dias de Sodoma (Marquês de Sade); Satiricon (Petrônio) e Memórias de Casanova.

Para a recriação do romance de Sade, que narra uma orgia de quatro meses, Flávio Braga tomou por base os elementos da obra do Marquês, criou um novo protagonista e utilizou apenas 158 páginas, enquanto o clássico tem aproximadas 400.

No caso de Satiricon, Braga não procurou imitar o estilo de Petrônio e nem traçar um perfil dele no momento de sua morte, mas apenas utilizar-se de sua ambientação histórica em uma recriação literária. Já para a releitura de Casanova, o escritor valeu-se do recurso de uma confissão de seis horas que o protagonista fez a um abade indiscreto, que reproduziu de memória o longo e instigante depoimento do maior dos libertinos.

O livro pode muito bem ser chamado de o testamento dos libertinos e encanta pela prosa realista e viva e pelos detalhes picantes.

Enfim, para aqueles que não pretendem ler as obras originais, que são bem mais volumosas que as de Braga, os três volumes são uma boa síntese do que se produziu de melhor em termos de literatura erótica na Antiga Roma e no século XVIII.

Mas quem ler os três romances de Flávio provavelmente não deixará de conferir os clássicos, que, por serem clássicos, parecem ter sido escritos há pouco tempo. Editora Best Seller, telefone 21-2585-2000.

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21 de julho de 2008
N° 15669 - Paulo Sant'ana


Um homem de ação, de ações de valor e de valores

Chama a atenção de todos que assistimos às movimentações do tabuleiro de xadrez do caso Dantas o silêncio sepulcral do banqueiro em suas idas e vindas tanto à prisão quanto nas oportunidades em que foi chamado a depor.

Nunca pronunciou sequer uma palavra à imprensa, embora assediado por chusmas de repórteres. E nos depoimentos reservou-se também o direito do silêncio, não respondendo a nenhuma das perguntas que lhe foram feitas.

Um homem que aparentemente tem tanto a dizer, no entanto não diz absolutamente nada.

A imprensa e os seus interrogadores topam apenas com aqueles olhos claros que fingem serenidade, a ameaça de calva e o tope desarrumado da gravata.

Nada sai dele, senão um silêncio tumular, como que a dizer a todos: "Não se metam nisso, vocês não sabem nada do que está por trás de tudo".

Mas se calcula que haja muito por trás de tudo.

Um indício disso é que o delegado Protógenes Queiroz saiu do caso, pretensamente para fazer um curso. O juiz Fausto Martin de Sanctis, que mandou prender Dantas duas vezes, entrou em férias. O superintendente da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, também entrou em férias.

E o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, também entrou em férias. Cá para nós, este não era o momento para todos entrarem em férias.

Que caso é este em que seus principais personagens se afastam dele como o diabo da cruz?

O delegado, o juiz, o superintendente e o ministro não podem ser encontrados por estarem em férias e o banqueiro pivô dos acontecimentos está praticamente também em férias, pois não abre a boca e não pronuncia nenhuma palavra.

O caso pode até prosseguir, mas está órfão de seus principais personagens.

Este Daniel Dantas tornou-se um mito do mercado financeiro. Fez mestrado e doutorado na Fundação Getúlio Vargas, depois de formado em Engenharia Civil na Bahia.

Foi pupilo do economista e ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, era amigo de um prêmio Nobel da Economia, o italiano Franco Modigliani, e foi aluno de outros três vencedores do Nobel de Economia, tudo no Exterior.

Mas achava tempo para vir administrar como sócio a corretora Triplic no Brasil. Logo a seguir, logrou ser vice-presidente de investimentos do Bradesco, de onde foi liderar o Banco Icatu.

No Icatu, foi revelado o seu gênio financeiro, comprou ações de empresas de energia e telefonia quando elas valiam quase nada. As ações dispararam. O mesmo ele fez com ações da Petrobras quando elas eram pouco cotadas.

E, finalmente, quando o governo Collor instalou o confisco, ele resolveu investir em soja e café e livrou-se do período de aperto exportando os dois produtos.

Tendo enriquecido o Icatu, separou-se dele e fundou o Banco Opportunity. Então o gênio dele alastrou-se. Atirou-se de corpo e alma nas privatizações e fez consórcios entre telefonias e fundos de pensão.

Amealhou recursos de bancos estrangeiros e nesses consórcios estabeleceu teias entre holdings e sub-holdings que afinal vieram a ter a ele somente como gestor decisivo.

Evidentemente que esse homem que atravessou até agora quase quatro governos passou a ter uma importância perto do sobre