E N T R E L A Ç O S
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Sábado, Maio 17, 2003




O Azeitador de Maquinário

Por Paulo Rebêlo
Especial para o PERNAMBUCO.COM


A palavra azeitador não está classificada no dicionário. Não tem nada a ver com azeite. Ou até tem, depende do ponto de vista. Azeitador é simplesmente o bondoso cidadão responsável por fazer a troca de óleo nas mulheres, a partir das necessidades exclusivas delas.

Bem-azeiturados são aqueles que já assimilaram a verdade: os engates do maquinário feminino requerem troca de óleo tanto quanto os engates masculinos. A natureza assim definiu. As mulheres, paulatinamente, acordam à realidade e param de ficar esperando príncipes encantados ou aquele cara que vai me assumir.

É quando entra em cena o azeitador, que efetua uma nobre e necessária manutenção no maquinário, sem responsabilidades posteriores típicas do bom moço mauricinho.

Como diz o sábio filósofo baiano Renato Fecchine: ele diz que é valentão, que quer tudo arrumadinho; só que quando deita longo ronca, e quando acorda está bem murchinho.

Quando o condutor oficial do maquinário feminino não sabe (ou não quer) mais fazer a fogueira pegar fogo, entra em cena o capeta dos engomadinhos, o Freddy Krueger dos engravatados, o anti-cocotagem, o verdadeiro profissional: o azeitador de maquinário.

Oficina de plantão e borracharia 24h

Todo homem adora ser convocado, às vezes em caráter de urgência e no meio da madrugada, para azeitar um maquinário. É uma questão de assistência social, de boa ação com a humanidade. Às vezes, até de convicção religiosa: quem não lembra da parábola do Bom Samaritano? Pois é. Um telefonema padrão, naquela sexta-feira à noite solitária:

-- Alô, Fulano?
-- Olá, Beltrana. Que surpresa, ligando a esta hora.
[ depois de um breve blá-blá-blá tradicional... ]
-- Fulano, você está muito ocupado? Não queria atrapalhar.
-- Estou sem fazer nada. De repente podemos combinar alguma coisa?
-- Olha, peguei um filme ótimo na locadora, mas não gosto muito de assistir filme sozinha. Você me conhece, né? [claro que o azeitador conhece, até demais]
- Eu poderia comprar uns sanduíches e passar aí, que tal?
- Que bom. Mas não pense outra coisa, é só para assistir filme, viu?

Ao dizer é só para assistir filme ou quero apenas conversar, nada mais e outras variações do gênero, a paciente deixa claro de que você não dará viagem perdida.

Iludidos são os enamorados que ignoram a existência do azeitador de maquinário. O azeitador geralmente é um ex-namorado; mas também pode ser um amigo mais próximo, um esquema plus ou esquema premium, uma paixão jurássica e reprimida, uma paixão platônica, enfim, todos essas espécimes que vivem de plantão.

A mulher não quer acabar o relacionamento seguro e estável que ela tem, resultado do inconsciente coletivo feminino de ¿estabilidade acima de tudo, estou ficando velha. Fazer o quê, então? Mais serviço para o azeitador, versão personnalité.

Com o azeitador, as mulheres se liberam para fazer o que não fazem com o oficial, nos sentidos vertical e horizontal da palavra.

Caso a digníssima esteja se sentindo escanteada, sem atenção, sem carinho ou simplesmente insatisfeita na horizontal mesmo, pode ter certeza que sempre haverá um azeitador de plantão para dar assistência física e psicológica. Sempre. E sempre significa sempre, mesmo. Com ênfase no sempre.

Freud não explica; O Azeitador, sim

A depender da disponibilidade na agenda do azeitador para bater um papo após a troca de óleo, ele pode até servir como confidente. Quando o azeitador é meio ranzinza, ou até muito ranzinza, às vezes Super Ranzinza, pode atuar como psicólogo emergencial. E funciona, acreditem.

Azeitador de maquinário é uma profissão milenar, não entra em extinção. Então, caro colega, se você não está dando no couro como deveria, mais dia ou menos dia ela irá precisar dos dedicados serviços beneficentes de um azeitador.

No início, toda cidadã desolada com o relacionamento reluta em admitir que precisa de ajuda profissional. Fica se perguntando se o problema não é com ela, fica dizendo para si mesma que é normal, que vai passar. Acontece que o tempo é o senhor da razão e, sem sombra de dúvida, chegará o dia em que o azeitador de maquinário entrará em ação. Até porque o tempo passa mesmo e a gente só vive uma vez.

Jamais podemos culpar o azeitador por namoros falidos. A culpa da incompetência alheia não é do azeitador, ele apenas efetua um serviço profissional de forma prestativa, sempre disposto a ajudar quem precisa. E não cobra nada.

Inclusive, é notório o fato de, muitas vezes, o azeitador ser o responsável por manter estável o relacionamento dos outros. Pois é. Depois de algumas paradas estratégicas com um bom azeitador de maquinário, a mulher até esquece a incompetência do oficial e o relacionamento dos dois (três) segue anos a fio.

O segredo de todo bom azeitador de maquinário é nunca esquecer do lema: elas querem estabilidade e segurança; então, se elas não tiverem isso com outro, vão querer ter com você.

O azeitador de maquinário só tem um bug: não pode se apaixonar. Porque, se isso acontecer, é bom estar preparado para, daqui a alguns meses, ter muita raiva daquilo que você já foi um dia.

www.rebelo.org




Maitena lança na Bienal o segundo volume de 'Mulheres alteradas'


Giovana Hallack

Atenção mulheres solteiras: há um pequeno povoado no Uruguai, na beira do mar, onde quase todos os homens são solteiros maravilhosos. Lindos, bronzeados, surfistas e ainda cozinham para você!

- Mas não são para casar, queridas - avisa logo Maitena, autora de "Mulheres alteradas" e moradora do tal povoado, La Pedrera. A cartunista argentina está no Rio para lançar o segundo volume da série na Bienal. Neste sábado, ela participa do bate-papo no Café Literário, às 17h30m. O tema: 'você conhece a mulher alterada?'

Maitena conhece, e muito bem. Suas tiras retratam fielmente todas as crises femininas, mas com humor. Ela mesmo se considera alteradíssima:

- Quando fiz quarenta anos, passei um mês chorando. Estava casada, magra e cheia de sucesso, mas chorava sem parar - lembra Maitena, que completa 41 nesta segunda e promete comemorar em alto estilo, com uma festa.

Os livros são um sucesso. No Brasil, o primeiro volume já vendeu 45 mil cópias e até o final do ano será lançado o terceiro livro da série. Ao todo são cinco, que serão sucedidos pela nova série, 'Mulheres superadas'. Apesar do título, as 'superadas' não superaram coisa nenhuma. E continuam insatisfeitas:

- A insatisfação feminina não deve ter cura É um problema que se arrasta por gerações. Se o sujeito não liga, você reclama. Aí ele começa a ligar muito e você reclama mais ainda!

O sucesso de seus livros - que já foram lançados na América Latina e na Europa ("Podem ficar tranqüilas, mulheres também roem as unhas", diz ela) - é creditado pela autora à capacidade da mulher reconhecer (e rir de) seus problemas:

- Temos autocrítica. Se você aponta o defeito de um homem, ele enlouquece. Nós conseguimos aceitar mais nossos fracassos e falhas. E achar graça.

Os livros mostram diferentes mulheres, mas com muito em comum:

- Não importa se são ricas ou pobres, magras ou gordas. Todas mulheres dão importância ao corpo, ao amor e aos relacionamentos e se preocupam com filhos. Mesmo que optem por não tê-los.

Os tempos modernos e as trocas de papéis não assustam Maitena.

- Estamos procurando novas experiências, e isso é o mais importante. Não se trata de descobrir quem - homens ou mulheres - ganhou ou perdeu com as mudanças. Hoje temos possibilidade de experimentar.

Apesar de não se considerar uma feminista, defende o movimento:

- Foi o mais importante movimento do século passado, se formos levar em conta as mudanças que ele gerou. E se não fosse pelas feministas, até hoje estaríamos em casa passando roupa.

Apesar das conquistas do feminismo, ainda existem graves injustiças.

- A celulite, por exemplo. É muito injusto!

A obsessão feminina pelo corpo é real e Maitena acredita que os homens estão menos preocupados com os corpos femininos que as mulheres.

- Somo muito exigentes conosco e isso também reflete um narcismo. É importante buscar um equilíbrio, mas isso parece ser o mais difícil!

E apesar das suas críticas ácidas aos relacionamentos, ela acredita no casamento. Tanto que já se casou "quatro ou cinco" vezes. E tem três filhos. Acha que conseguiu evoluir ou, pelo menos, "escolher melhor".

- E cometer erros diferentes!

Mas faz caretas ao falar dos 'ex'. Não acredita em amizade após a separação. E muito menos sexo:

- Transar com o 'ex', para mim, é necrofilia.




Paulo Sant'ana
18/05/2003


Vicente Celestino

Como confinar-se durante meses e anos dentro do lar sem o atrativo da televisão? Quem tem um pouco mais de recursos alarga o leque de canais com a NET e assiste a filmes bem mais interessantes, importantes formas de passar o tempo sem sair de casa, tanto pela ameaça da violência quanto pela carestia espalhada nos restaurantes e boates.

É irrenunciável ver televisão. Seja para ver um show, seja para assistir a esportes, seja para a novela, uma maneira que se encontra para fixar-se por meses numa mesma história ou num encadeamento de enredos, seja até para assistir de longe e de soslaio ao apavorante noticiário sobre a violência de que se foge ao sentar na poltrona ou afundar na cama.

O hábito de acordar cedo me vem da infância, quando não existia a televisão e eu era obrigado a recolher-me ao quarto, junto com meu irmão, logo após a janta.

O aparelho de rádio era monopólio do meu pai e ficava à sua cabeceira da cama, longe do meu quarto. Quantas vezes eu me esgueirava pela escuridão do corredor e ia até à porta do quarto de meu pai para filar a transmissão de rádio!

Às vezes até para escutar as novelas de rádio, as grandes coqueluches da época. Mas na maioria das ocasiões para ouvir os grandes cantores do rádio, daí que me surpreendo hoje cantando ainda enormes letras de músicas dos ídolos de então: Isaurinha Garcia, Linda Batista, Dalva de Oliveira, Nélson Gonçalves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Francisco Alves e tantos outros.

Era o tempo da glória de Vicente Celestino. Esses dias, aqui na Redação, o Moacyr Scliar foi me buscar lá no bar para cantar para o Luiz Zini Pires, que está preparando edição sobre o centenário do grande Vicente Celestino, o Coração Materno. Não me fiz de rogado:

Disse um campônio à sua amada

Minha idolatrada, diga o que quer.

Por ti vou matar, vou roubar,

Embora tristeza me cause, mulher.

Provar quero eu que te quero

Venero teus olhos, teu porte, teu ser

Mas diga, tua ordem espero,

Por ti não importa, matar ou morrer.


E aí a amada com campônio lhe pede uma prova do seu amor: que ele vá buscar de sua mãezinha (dele) inteiro o coração. O campônio loucamente cumpre o desígnio da namorada, rasga o peito da mãe, arranca-lhe o coração e leva-o como troféu para a camponesa.

Uma tragédia, a mãe acorda-o num pesadelo e joga-lhe sobre a cabeça a terrível culpa do matricídio, o campônio acaba se suicidando.

As letras eram longas, arrastadas, romanceadas, nas canções e nas serestas. Dramáticas letras das músicas que eu surripiava com meus ouvidos, como um meliante, às escondidas, do rádio de meu pai.

Vicente Celestino e sua metálica voz de tenor maldizia teatralmente sua amada:

"Eu ontem rasguei seu retrato

Ajoelhado aos pés de outra mulher".

Quando hoje me apodero da minha televisão no meu quarto, sinto piedade do menino que fui e não tinha um rádio para ocupar o abismo da sua noite.

E que se esforçava para decorar as letras das músicas, sem possuir uma vitrola.

Quanto me custou decorar centenas de letras de músicas que até hoje ainda guardo preciosamente em minha memória.

Era preciso rondar nas vizinhanças as casas dos que tocavam banjo, cavaquinho ou violão, ouvindo-os obsequiosamente em seus ensaios vespertinos, debaixo das figueiras, das pereiras, dos limoeiros, das aroeiras, o que me faz até hoje amar a música popular brasileira com um devotamento perpétuo.

Ah, se tivesse televisão no tempo de Vicente Celestino, subindo as escadarias de uma catedral:

"Porta aberta, tens o emblema de uma cruz,

Esta porta não se fecha, contra ela não há queixas,

São os braços de Jesus".
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Moacyr Scliar
18/05/2003


Onde estão as noivas de antanho?

Foto(s): Arte/ZH



Antes que maio termine é bom lembrar que este costumava ser o mês das noivas. Será que ainda é? Será que alguém ainda noiva? Desculpem, mas esta pergunta me parece pertinente numa época em que até o casamento parece estar saindo de moda. Quem acha estranho o casamento deve olhar com estranheza ainda maior o noivado.

Não sem razão. O noivado do passado era uma espécie de limbo, uma situação intermediária em que a pessoa estava comprometida, mas não totalmente, e que podia se prolongar por muitos anos antes do casamento propriamente dito. Não é de admirar que muitas histórias e superstições tenham surgido desta situação. O vestido de casamento deve ser branco - a cor da pureza. Ai de quem ousasse pensar em outra cor; vermelho, por exemplo, sempre foi particularmente abominado. Versinhos em inglês resumem a ameaça: "Married in white, you have chosen right/ married in red, you'd better be dead" ("Casando de branco, você escolheu certo/ casando de vermelho, melhor teria sido a morte").

O noivo não pode ver a noiva antes da cerimônia: dá azar. A noiva deve usar algo novo - afinal, ela está começando uma vida nova - mas também algo antigo, simbolizando o repeito ao passado, e algo emprestado, que testemunha o apoio de pessoas ao casamento. Depois da cerimônia, todos os homens podem beijar a noiva - que assim se despede do mundo masculino. Joga-se arroz, símbolo de fertilidade, no jovem casal e assim por diante.

Isto quando o noivado termina em casamento, o que nem sempre acontece. Uma clássica, trágica e patética figura é a da Noiva Abandonada (e abandonada no templo, ao qual o noivo não comparece, é pior ainda). Hoje em dia, noiva abandonada vai à luta; entra na justiça, pede indenização. As pessoas já não são fatalistas, já não são humildes, já não se resignam a sofrer em silêncio - e neste sentido, as mulheres aprenderam muito, e podem até dar lições aos homens.

Mas a lenda da Noiva Abandonada permanece, sobretudo quando a pobre moça morre de desgosto, o que, nessas melancólicas histórias, é um desfecho freqüente. Dizem que, quando isto acontece, o espectro da Abandonada aparece e pode ser visto - em espelhos, à meia-noite em ponto.

O que implica uma mensagem. Porque o espelho é o símbolo maior de nossa vaidade. É ali que a figura espectral escolhe aparecer, como a lembrar que a vida é feita de ilusões e que atrás da promessa de felicidade pode estar a desilusão. Sem o noivado a vida fica mais simples. Mas fica mais pobre em fantasias, sempre necessárias. Como disse Eça, precisamos colocar, sobre a nudez crua da verdade, o véu diáfano da fantasia. No caso, o véu usado pelas noivas de antanho. Onde estão elas?

Diário de Bordo
Cartas, recados, e-mails - Comentando a matéria que escrevi acerca do hábito de ler no banheiro, o escritor Alexandru Solomon (SP) lembra a historinha de Voltaire. O filósofo francês mandou um apaixonado bilhete a uma senhora que queria conquistas. Esta, indignada, disse que ia rasgar a carta e usá-la para vocês já sabem o quê. Voltaire então compôs um poema: "Petits papiers, je vous envie/ allez, suivez votre destin./ Mais, en passant je vous en prie/ annoncez-moi chez le voisin." (Papeizinhos, eu vos peço/ ide, segui vosso destino./ Mas, de passagem, eu vos peço/ anunciai-me na vizinhança.) Pelo jeito, Voltaire acreditava que a propaganda é alma do negócio (sexual, no caso).

Agora, se a "vizinhança" estava receptiva, é outro problema. O Fermino Costa manda um curioso nome que condiciona destino. Trata-se de um delegado que investigou a fuga de presos através de um túnel e que se chama Nagashi Furokawa. Os presos cavaram o furo, mas quem cavou os presos foi o delegado. Que poderia ser também um bom jornalista: afinal, este é um ofício em que cavar um furo é a glória. Falando em interpretações, o escritor Carlos Osório Magalhães (Pelotas) usa a numerologia para me antecipar a vitória na candidatura à Academia Brasileira de Letras: diz ele que o número da cadeira ajuda: é 31, contrário de 13, portanto significando boa sorte.

Obrigado pelo bom augúrio, Carlos. Acho até que vou jogar na loteria. Falando em candidatura para a ABL, estou emocionado com o generoso apoio. Começou com a ARI, continuou com a bancada federal (uma iniciativa do senador Pedro Simon, ajudado pelo grande escritor que é Lourenço Cazarré), o TC do Estado, o Ministério Público, as Câmaras de Porto Alegre (através da vereadora Margarete Moraes) e de São Luiz Gonzaga, a FM Cultura com ajuda de um belíssimo time de escritores e intelectuais...

Aquele gurizinho que escrevia histórias numa casa humilde da Rua Fernandes Vieira nunca pensou que teria tal reconhecimento. Nada como ser escritor no Rio Grande. E falando em livro, o mais popular de nossos cronistas reúne sua produção em O melhor de Mim. Até no número de crônicas Paulo Sant'Ana é original: 64, uma para cada aninho de sua fantástica vida. E aí a gente só lamenta que Sant'Ana não seja centenário.
scliar@zerohora.com.br





Martha Medeiros
18/05/2003


A última moda

Foto(s): Arte/ZH


A novidade ainda não foi anunciada nas páginas da Elle e também não foi comentada nos programas de moda da tevê. Ainda não fizeram desfiles no São Paulo Fashion Week. É quase um segredo de Estado, mas não demora estará nas passarelas e vitrinas de todo o país. O slogan da grife poderia ser: "Um dia você vai ter um". Seria um jeans? É moda casual? Casualíssima. Para ser usada em qualquer lugar, a qualquer hora do dia ou da noite. É a Linha de Roupas Balísticas Dissimuladas. Em bom português: roupas à prova de bala.

Recebi um catálogo com a nova linha de modelos femininos, masculinos e infantis. Isso mesmo, modelos infantis: jaquetinhas para a garotada. As fotos não foram tiradas pelo Duran, mas parece. Superprodução.

Delete da sua memória aqueles coletes rígidos e pesados usados apenas por pessoas ligadas às Forças Armadas ou por guarda-costas. Estamos falando de uma linha leve, confortável, flexível e confeccionada nos mais diversos tecidos. Coletes em estilo safári, agasalhos coloridos, jaquetas com acabamento em couro. Roupa esporte.

O preço? Sob consulta. Mas há boas promoções. Você pode comprar um colete III (que resiste a calibres acima de 9mm) pelo preço de um colete II. A jaqueta é reversível? Não, mas o miolo balístico é removível. E viva a rima.

Ainda bem que nós, gaúchos, temos o hábito e o dever de nos agasalhar em função do nosso inverno gelado. No tropicalíssimo Rio de Janeiro, onde esta moda tem mais urgência de ser comercializada, não sei como vão fazer.

Biquínis balísticos? Camisetas regatas dissimuladas? Nada que um bom estilista não resolva. Mas ele tem que ser rápido.

Tente ver o lado positivo disso tudo: sai mais em conta ter uma jaqueta blindada do que um carro blindado, sem falar que a jaqueta vai com você para qualquer lugar, de agências bancárias a pátios de universidade. O carro só lhe protege enquanto você está dentro dele.

Outro dia me disseram que eu andava muito alarmada e que isso não tinha cabimento, afinal a vida não anda tão brutal assim. Então recebi o catálogo de Roupas Balísticas Dissimuladas e resolvi que realmente era hora de escrever sobre algo mais leve, como moda, por exemplo.
martha.medeiros@zerohora.com.br




Luis Fernando Verissimo
18/05/2003


Amigos para sempre

Eram tão amigos, tão inseparáveis, que decidiram morar juntos. Não na mesma casa, num condomínio de casas. Compraram um grande terreno e cada um dos quatro casais construiu sua casa. Nenhuma ficava a menos de 30 metros da outra, e a grande área verde era comum às quatro. Ali, Paulo e Marta Helena, Zé Carlos e Titina, Alex e Flávia, Marino e Júlia continuariam fazendo o que sempre faziam, o que gostavam de fazer, o que os mantinha unidos. Conviveriam. Reuniriam-se ora na casa de um, ora na casa de outro. Fariam jantares - sempre só os oito - todas as semanas. Jogariam. Vôlei: homens contra mulheres, ou times mistos (os que preferiam o Paul MacCartney contra os que preferiam o John Lennon, por exemplo; eram os anos 60). Mímica. War. Cartas. Tinham todos mais ou menos a mesma idade. Não tinham filhos. Quando viessem os filhos, eles seriam criados ali, no condomínio. Cresceriam juntos e seriam amigos como os pais eram amigos. Aquela amizade nunca acabaria. Amigos para sempre.

Na inauguração oficial do condomínio, com os oito reunidos no centro do gramado compartilhado pelas quatro casas, os oito com copos de champanha erguidos, o Paulo disse exatamente isso:

- Amigos, para sempre.

- Amigos para sempre - disseram todos.

Paulo disse mais. Disse:

- Que a nossa vida seja sempre assim. Que nada mude. Que nunca nos separemos!

- Que nunca nos separemos!

Trinta anos depois, Alex convenceu a Júlia, com quem tinha se casado depois do divórcio dela e do Marino, a visitar o local. Júlia resistira. O Alex tinha aquelas manias. Era um sentimental. Ela preferia não ser lembrada do passado. Mas o Alex insistira e agora ali estavam eles, no meio da grama alta, do capim que quase chegava aos seus joelhos, olhando em volta, olhando as três casas ainda de pé e o que restara da quarta casa depois do incêndio. "Que horror" disse a Júlia.

Só uma das casas estava ocupada e seu dono obviamente não se preocupava em conservá-la, ou em cuidar do terreno. A churrasqueira, que também era compartilhada pelo condomínio, estava coberta por vegetação selvagem. Um solitário espeto enferrujado jazia sobre lajotas rachadas como uma arma deixada para trás depois de uma batalha perdida. "Lembra?" disse Alex. "Anrã" disse Júlia, desanimada. Era ali, na churrasqueira comum, num ensolarado domingo de manhã, na absurda briga do Paulo e do Zé Carlos, por nada, por um mal-entendido bobo, que a mágica começara a se desfazer.

O fato do Paulo estar endividado e da Titina estar traindo o Zé Carlos com o Marino não ajudara, apesar do consenso de que o Zé Carlos sabia de tudo e não se importava e que o Paulo, sempre metido a grande coisa, merecia a ruína. Também fora ali, atrás da churrasqueira, que Alex e Júlia tinham começado seu namoro escondido. "Incrível", disse Alex, pensando na rapidez com que aquela amizade que duraria para sempre se desfizera. Culminando no episódio dos foguetes, a briga entre Paulo e Marta Helena e Zé Carlos e Titina porque o filho dos primeiros tinha passado no vestibular e o Zé Carlos Júnior não, os foguetes comprados para comemorar a vitória do Júnior atirados contra a casa de Paulo e Marta Helena porque estes festejavam a vitória do filho acintosamente, para humilhá-los. O incêndio da casa de Paulo e Marta Helena, o processo, a orelha do Zé Carlos quase arrancada pela Marta Helena, e tudo o que se seguira. Incrível.

- Você acha que a convivência humana é um inferno, Júlia?

- Vamos embora, Alex.

Ou: Paulo ergue o seu copo de champanha no meio do gramado e diz.

- Amigos para sempre.

Todos:

- Amigos para sempre!

Paulo:

- Que nossa vida seja sempre assim. Que nada mude. Que nunca nos separemos!

- Que nunca nos separemos!

Neste momento, algo acontece. Um raio atinge o copo erguido do Paulo. Há uma reversão de polos magnéticos. Qualquer coisa assim. E 30 anos depois os quatro casais continuam os mesmos. Ainda vivem no condomínio e ainda têm a mesma idade. Nada mudou. Os oito usam as roupas e os penteados dos anos 60. Quando se visitam, o que é freqüente, as mulheres vão de minissaias ou "hot pants", os homens de cabelos compridos e calças apertadas com boca-de-sino. O condomínio se transforma numa curiosidade, as pessoas vêm de longe para ver aquele fenômeno, a vida de oito amigos eternizados. Os oito fingem que não notam as pessoas espiando através da cerca, os helicópteros sobrevoando suas casas, e o fato de que nenhum deles envelhece ou muda de hábitos, ou consegue sair do condomínio. Com sua amizade salva do tempo, serão amigos para sempre, para sempre. Um inferno.

Desculpa

Na semana passada, incluí o cômico Ankito numa lista de pessoas que mandavam e-mails do além. Não sei se o Ankito usa e-mail, mas do além não é: vários leitores me avisaram que ele continua vivo e ativo. Espero que continue assim por muito tempo, e me desculpe.


Sistema Prisional
24 horas no Presídio Central



ZH testemunhou a rotina dos presos que chegam à maior cadeia gaúcha (foto Júlio Cordeiro/ZH)




Com orgulho
Exposição e livro de fotos reúnem famosos em imagens inusitadas, valorizando tipos e situações bem populares

Alícia Uchôa



A atriz Carolina Dieckmann encarou o tanque sem medo e descobriu que tarefas domésticas também podem servir para esfriar a cabeça


Roberta Rodrigues interpreta: Ela está se arrumando para o Baile funk



Luciana Curtis mostra que não precisa de véu para ser mística e religiosa



Baldan evita rotular os personagens e jura que a interpretação é livre, mas quem não gostaria de um malandro taxista com a cara do Gianecchini?



Não interessa se o assunto é futebol, samba ou religião. O importante é ter orgulho de ser brasileiro. Seja ele caipira, playboy ou funqueiro. O fotógrafo Ernesto Baldan se despiu de preconceitos e lança, segunda-feira, no NorteShopping, a exposição e o livro Sem Vergonha, com fotos inusitadas dos atores Reynaldo Gianecchini, Carolina Dieckmann, Roberta Rodrigues e Aline Moraes.

Vai ter gente vendo o sem vergonha na sacanagem, mas a idéia é não se envergonhar do que se gosta. Seja pagode ou calça apertada, é a nossa cultura, explica Baldan. No espírito da coisa, Roberta Rodrigues completa: Vergonha é um bloqueio. Não tenho vergonha de nada. É um engano achar que a loura é burra e a gostosa é vulgar. Por que o que é popular não pode ser chique? Todo mundo aceita a moda da heroína chique (onda de modelos fotografadas com cara de drogadas), mas não podemos nos divertir com a boquinha da garrafa?, protesta o fotógrafo.

Descendente de italianos, ele levanta a bandeira brazuca com orgulho. A gente não tem que se envergonhar dos nossos costumes e do gosto popular. Tenho orgulho disso tudo, enfatiza Baldan, que já expôs no Museu de Arte Moderna, mas só está realizado agora, no NorteShopping. Queria meu trabalho num espaço popular. E nada melhor do que um shopping com orgulho de ser suburbano, diz. As fotos têm a ver com a estética da Zona Norte e do que a gente faz, festeja o diretor de marketing do NorteShopping Marcelo Araripe.

O livro Sem vergonha (70 págs., R$ 5), que tem introdução de Hermano Vianna, reúne 60 fotos e tem ainda Elza Soares, Cauã Reymond, Graziela Schmitt e Jonathan Haagensen. A renda será revertida para o projeto Sambando Com o Pé no Futuro que, fora do Carnaval, ocupa quadras de escolas de samba com oficinas profissionalizantes. A exposição tem entrada franca.

Fotos: Ernesto Baldan


As rainhas das festas nas embaixadas
Adaptada aos novos tempos do governo Lula e sob o comando de embaixatrizes festeiras, a diplomacia de Brasília retoma a vida social


Sandra Brasil

Fotos Tina Coelho



A PROFESSORA GREGA
Antonia Doukas, da Embaixada da Grécia: festeira de primeira e referência para as embaixatrizes mais novas
A ALUNA ESPANHOLA
A bela Ralitsa, embaixatriz da Espanha, que se aconselha com a colega grega: dedicação aos esportes


Depois de oito anos convivendo com Fernando Henrique Cardoso, a comunidade diplomática de Brasília viveu uma fase de expectativa durante a eleição presidencial. Se os tucanos vencessem, os embaixadores teriam de se entender com José Serra, dono de um temperamento fechado e seco, muito diferente do sedutor FHC. Em caso de vitória do PT, havia dúvidas mais profundas do que apenas as de caráter pessoal. Alguns embaixadores manifestavam em conversas informais uma dose de preocupação exagerada. Temia-se que a relação com alguns países pudesse sofrer um certo arranhão. Houve até quem achasse que, apenas por razões ideológicas, a representação de Cuba acabaria ganhando um destaque especial, desproporcional à importância comercial da ilha para o Brasil. Lula venceu e, passados os quatro primeiros meses de governo, as preocupações pré-eleitorais se dissiparam ¿ e o circuito diplomático retomou o tradicional clima festivo, adaptadíssimo ao governo petista.

Basta conferir os números. VEJA pediu às representações diplomáticas com sede em Brasília que informassem quantas festas deram no ano passado e neste ano. Trinta das 94 embaixadas existentes no Distrito Federal responderam à pergunta. Elas informaram ter oferecido mais de 700 eventos em 2002, algo como catorze encontros sociais por semana. Computados os eventos promovidos por essas mesmas trinta embaixadas nos quatro primeiros meses do ano de 2003, a média permaneceu inalterada: catorze festas por semana. Ou seja, a Brasília dos embaixadores continua tão alegre sob a gestão Lula quanto era na fase FHC. Algumas das embaixadas mais festivas deste ano foram a de Israel, com dez recepções, a da Espanha, com onze, e a da Alemanha, com quinze eventos. No dicionário diplomático, "recepção" é palavra de definição ampla. Ela inclui almoços e jantares para políticos, promoção de exposições de arte, coquetéis e as festas propriamente ditas, que reúnem a elite local, brasileira e estrangeira, em torno de uma celebração. As festas raramente são dançantes.


Nem todos os encontros fazem o mesmo sucesso ou produzem os mesmos comentários positivos. Algumas embaixadas, por empenho pessoal dos titulares, conseguem agradar mais do que outras. Desde que assumiu em janeiro a chefia do grupo de países que integram a União Européia no Brasil, o embaixador Stratos Doukas, da Grécia, promoveu dezesseis recepções nos primeiros quatro meses de 2003 ¿ quase uma por semana. Suas festas são comentadíssimas e a chave do sucesso é sua mulher, Antonia, com quem Doukas está casado há 36 anos. Em Brasília, a embaixatriz Antonia já é tida como a nova "locomotiva" do mundo diplomático brasiliense. Ela se envolve pessoalmente não apenas na supervisão dos arranjos para os encontros, mas na decoração das mesas e na confecção dos pratos. Já preparou até feijoada. Entrosadíssima na sociedade local, por duas vezes ultrapassou os limites do restrito círculo diplomático e aceitou convite para ser jurada de concurso de miss. Antonia morou em sete países e fala quatro idiomas além do português fluente, que aprendeu quando morou no Rio de Janeiro entre 1977 e 1981. "Da primeira vez que morei no Brasil, o Lula era um sindicalista perseguido. A vitória dele demonstra o amadurecimento do país", avalia a embaixatriz. Antonia já preparou alguns almoços para ministros e auxiliares de Lula. Sobre os petistas, comenta que são ótimos convivas. "Foram todos muito pontuais", diz.



Por causa de seu destaque social, Antonia acabou se tornando uma espécie de professora das embaixatrizes mais novas. Uma de suas alunas mais notáveis é Ralitsa Pavlova de Coderch, 27 anos. Natural da Bulgária, ela é casada há dois anos com o embaixador da Espanha no Brasil, José Coderch, 28 anos mais velho. A bela e simpática Ralitsa está fazendo sucesso desde que chegou ao Brasil, em outubro de 2001. Com 1,78 metro e 63 quilos, ela causa furor por onde passa. A novata acompanha o marido a pelo menos quatro compromissos sociais por semana. "Com Antonia, aprendi que preciso ter um livro para fazer três anotações importantes de cada recepção que promovo. São elas: os nomes dos convidados, o menu e qual roupa eu estava usando", afirma Ralitsa, feliz com as atribuições de embaixatriz. Seu encantamento com o Brasil é tão grande que planeja desfilar na Mangueira no Carnaval e ter pelo menos o primeiro filho "brasileirinho". A jovem tem três paixões no Brasil: o Rio de Janeiro, farofa e pão de queijo. "Cheguei a comer vinte pães de queijo depois do café-da-manhã. Que perdição!"

Boa jogadora de tênis, Ralitsa torna-se professora nas quadras. Toda terça-feira, das 8 às 10 da manhã, ensina oito embaixatrizes a jogar na quadra da Embaixada da Espanha. Dos 12 aos 15 anos e meio, Ralitsa representou a Bulgária em diversos torneios na Europa. Foi graças ao tênis que conheceu o marido, então embaixador da Espanha na Bulgária. "Eu tinha 22 anos", conta. Uma lesão afastou-a do tênis profissional. Para manter a forma, Ralitsa pratica duas horas de atividade física todos os dias. Intercala o tênis com golfe, natação, squash e ginástica. Desde que chegou a Brasília, a embaixatriz já ganhou quatro torneios, o último em abril, no Clube da Aeronáutica. Ao todo, participaram 36 tenistas 33 homens e três mulheres. "Os generais ficaram brincando comigo. Diziam: 'O que vão falar das Forças Armadas brasileiras, que organizaram um torneio misto e quem ganhou foi uma mulher?'", diverte-se Ralitsa. Brinca-se em Brasília que a festa perfeita é aquela organizada por Antonia, da Grécia, com a presença de Ralitsa, da Espanha.

Paulo Lima
Emivaldo Silva




O BELGA "À CARIOCA"
O embaixador da Bélgica, acima e ao lado, com a mulher numa festa a fantasia, de "malandro carioca"

Os embaixadores formam um elo direto entre países. Cabe a eles a tarefa de trocar informações, promover o comércio internacional e ajudar na condução de contenciosos políticos e econômicos entre nações. A essas funções se soma a vida social, que é cansativa. Muitas vezes, são três jantares na mesma noite. "Os coquetéis são o terceiro expediente de um embaixador", resume Paulo Tarso Flecha de Lima, com a experiência de quem foi embaixador do Brasil em Londres, Washington e Roma durante doze anos. "Nesse meio, festa não pode ser entendida como futilidade."

Emivaldo Silva



A FANTASIA AMERICANA
Donna Hrinak em fantasia no 4 de julho

Quem leva a regra a sério é a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Donna Hrinak, que surpreendeu os convidados que compareceram à festa promovida por sua embaixada para comemorar o 4 de julho, data da independência dos Estados Unidos, no ano passado. Ela apareceu com uma roupa que era uma mistura de bandeira americana com Estátua da Liberdade. Já é grande a expectativa sobre qual traje Donna vestirá neste ano. Nesse universo estrangeiro, que raramente se mistura ao mundo dos debates políticos do Congresso Nacional, há poucos brasileiros além dos integrantes do governo. Um destaque é a cearense Maria do Carmo Veranneman, que se casou com o diplomata belga Jean-Michel Veranneman de Watervliet no começo dos anos 80. No ano 2000, Veranneman de Watervliet voltou como embaixador. Portanto, a embaixatriz da Bélgica é uma cearense. E detalhe: animadíssima. Para comemorar o Carnaval deste ano, Maria do Carmo promoveu um baile à moda antiga para 120 pessoas. Na festança, escolheu uma fantasia de baiana. "Meu marido disse que também queria usar algo do Brasil. Vesti-o de malandro carioca, com cordão dourado e pistola de brinquedo." Ela conta que alguns embaixadores convidados disseram que o belga estava vestido mesmo era de traficante do filme Cidade de Deus. Tudo não passou de uma homenagem ao Brasil. E que homenagem!


Com reportagem de Cynthia Almeida Rosa




Sérgio Abranches

A inteligência
da agricultura
"A Embrapa não pode parar, sobretudo em um governo que pretende alcançar a meta de fome zero"

Ilustração Ale Setti

Nos anos 70, o cerrado era um quase deserto, uma savana rala e despovoada. A Belém¿Brasília, um corte vermelhão em direção "ao continente perdido". Miragens da geração perdida dos 50. Hoje, o cerrado é responsável por quase metade dos grãos produzidos no Brasil. A Belém¿Brasília leva à fronteira agropecuária de alta produtividade e alto crescimento. A agricultura brasileira passou por enormes transformações estruturais tecnológicas e empresariais. Ocupou espaços considerados impróprios para plantação ou criação. Uma mudança que teve por trás muita inteligência.

Em 1973, um amigo meu, Carlos Baldijão, fazia pós-doutoramento em bioquímica em Cornell, nos Estados Unidos, onde eu estava também. Usava porcos em suas experiências. Ficávamos impressionados com a qualidade dos suínos de lá. A produção brasileira era de má qualidade e irrisória. Em 2001, produzimos 2,2 milhões de toneladas e exportamos 476 000 toneladas de uma carne suína de muito melhor qualidade e com menos colesterol.

Quem acha que galinha caipira é aquele animal de carne dura e baixa capacidade reprodutiva, que bota não mais que oitenta ovos por ciclo reprodutivo, comparados aos 330 ovos da galinha industrial, é porque não conhece a galinha 051. É uma caipira capaz de pôr entre 280 e 300 ovos e que pode ser criada nas condições de uma caipira comum. Nossa produção de frango em 1990 era de 13,6 quilos por habitante. Em 2002, foi de 33,8 quilos. Somos o segundo maior exportador mundial, abaixo apenas dos EUA. A exportação deles cresceu 4,3% entre 1997 e 2002. A nossa, 146%. Esse frango come ração de alta tecnologia, que tem milho e soja resultantes de grande avanço genético.

Nossa carne, vinte anos atrás, era de baixa qualidade, e o garrote típico ficava velho antes de se tornar pesado, dando carne dura. Hoje, a produtividade de nosso plantel rivaliza com a dos melhores do mundo. Nosso bezerro é rústico, fácil de criar, precoce, vai para o abate ainda jovem, produz carne de boa qualidade e macia.

Quando olhamos as vacas brasileiras no pasto, não estamos vendo tudo. O capim que elas comem é de uma espécie adaptada às condições climáticas e ao solo daquela região específica. O animal vem de uma linhagem de alta biotecnologia e bioengenharia, acopladas a apurada seleção desenvolvida por pesquisadores qualificados e produtores modernos.

A mesma história pode ser contada para caprinos e ovinos, trigo, milho e cevada, hortaliças, feijão e frutas. Por todo lado vemos a agricultura brasileira em franco progresso, sobretudo tecnológico, aumentando produção, produtividade e qualidade. Alguém quer plantar girassol de alta produtividade e mais resistente a doenças? Que tal experimentar o BRS 191, híbrido simples de girassol, precoce e com alto teor de óleo? Soja? Somos o maior produtor de baixo custo do mundo. Neste ano produziremos mais que os americanos. Temos espécies apropriadas para o cultivo em cada Estado produtor: a BRS 205 é para o Rio Grande do Sul, e a BRS 206, para o Mato Grosso do Sul. Nossa produção de grãos aumentou 94% entre 1990/1991 e 2002/2003 e a área plantada, somente 12%, um ganho de produtividade de 73%.

Todos os exemplos de novas espécies, animais e vegetais, são mais resistentes às principais doenças e pragas que tipicamente atacam as criações e culturas brasileiras.

O que eu ainda não disse é que no DNA de todo esse progresso técnico, do capim às vacas, do abacaxi ao feijão nordestino, de todas as BRS, está impresso "made by Embrapa" ou "em parceria com a Embrapa". Essa empresa estatal de serviços de alta qualificação é a inteligência por trás da agricultura brasileira. É claro que tal avanço não seria possível sem bons empresários, e os melhores desenvolvem sua própria capacidade tecnológica. Mas não conheço um caso de produtor brasileiro, pequeno, médio, grande ou enorme, que não se tenha beneficiado do trabalho da Embrapa.

Os projetos que a empresa toca e que dão continuidade ao imenso progresso técnico já conquistado estão ameaçados de paralisação por falta de recursos. Uma ameaça não só de estagnação, mas, em muitos casos, de regresso. O governo tem de saber que existem cortes que causam danos irreversíveis à saúde econômica do país. A Embrapa não pode parar, sobretudo em um governo que pretende alcançar a meta de fome zero. Mas está, também, na hora de os empresários reconhecerem que no DNA de sua riqueza atual há boa dose dessa inteligência subsidiada. Vale um esforço maior de parceria ao inverso, patrocinando parte desse patrimônio tecnológico imperdível. Esse pode ser o grande teste da inteligência empresarial do campo brasileiro.


Sérgio Abranches é cientista político
sergioabranches@sda.com.br





Caro assinante,

aqui estão os destaques de VEJA desta semana.

Boa leitura e bom fim de semana.

Kátia Perin - VEJA on-line
vejaonline@abril.com.br


O conteúdo integral das revistas estará disponível na internet a partir de sábado à tarde

Especial
Marisa Letícia Lula da Silva, 53 anos, tem rompido velhas barreiras. Ela é uma figura presente na maioria dos compromissos oficiais de Lula. Está sempre a seu lado e tem até um gabinete colado ao do marido no Palácio do Planalto.
No site: acesse galeria de fotos com várias fases da primeira-dama.

Brasil
Ameaça de expulsão revela o oportunismo dos radicais e o modo dissimuldao, quase envergonhado, com que a cúpula do PT se reciclou.
No site: acompanhe notícias diárias sobre política.

Internacional
Ao fim de duas guerras os americanos ainda não sabem responder onde estão Osama Bin Laden, o pai de todos os terroristas islâmicos, e Saddam Hussein, que até a semana passada continuava solto em seu país.
No site: acesse especial sobre a Guerra do Iraque.

Entrevista
O mais respeitado dissidente cubano, Oswaldo Payá, diz que o fim do comunismo depende apenas do "fatalismo biológico": a morte do ditador Fidel Castro.

Comportamento
Pesquisa inédita revela que o brasileiro quer fazer mais sexo, sente-se pressionado a satisfazer o outro e tem dificuldade em lidar com os problemas debaixo dos lençóis.

Ciência
Cardiologistas americanos anunciam que a pressão arterial ideal é aquela que fica abaixo do tradicional 12 por 8. Pessoas que sempre estiveram nesse patamar, considerado normal até então, agora já estão no grupo de risco para doenças do coração.

Diplomacia
Adaptada aos novos tempos do governo Lula e sob o comando de embaixatrizes festeiras, a diplomacia de Brasília retoma a vida social.

Consumo
A nova coleção de bolsas da Louis Vuitton mal chegou às lojas e as falsificações já estão espalhadas pela cidade nas bancas de camelôs.

Cidades
Com muita festa e um prefeito que saiu do armário, Berlim disputa o turismo GLS no mundo. O principal alvo são os turistas dos Estados Unidos, onde os gays têm alto poder aquisitivo e viajam mais do que a média da população.

Tradição
A Índia é o maior consumidor do metal nobre no mundo e gasta 1,5% do seu PIB em jóias. Boa parte é usada para pagar o dote milionário das noivas.

Artes e Espetáculos
Música: Um DVD duplo e um CD triplo trazem registros inéditos dos shows épicos do Led Zeppelin, banda inglesa dos anos 70. São imagens do grupo em ação na cidade de Nova York. Algumas passagens, nem mesmo os integrantes do Led conheciam.
No site: ouça sucessos.

Cinema: No filme Tiros em Columbine, o documentarista Michael Moor criva de balas o modo de vida americano, e a cultura de medo de que o país se alimenta.
No site: assista ao trailer e acesse as fotos sobre a produção.

Livros: Em O Paraíso na Outra Esquina, o escritor Mario Vargas Llosa fala de personagens que devotaram a vida a ideais radicais sem nunca alcançá-los.
No site: leia trechos do livro.

30 refúgios para você passar o fim de semana

25 programas para curtir o fim de semana




Lya Luft
17/05/2003


Meu outro lado
Deus,
eu faço parte do teu gado:
esse que confinas em sonho e paixão,
e às vezes soltas no pasto
de uma terrível liberdade.
Sou, como todos, marcada no flanco
pelo susto da beleza, o terror da perda,
e pela funda chaga desta arte
com que pretendo segurar o mundo.

No fundo,
Deus,
eu faço parte da manada
que corre para o impossível:
vasto povo desencontrado
a quem tanges, ignoras,
ou contornas com teu olhar absorto.

Deus,
eu faço parte do teu gado
estranhamente humano:
marcado para correr, amar, morrer,
querendo colo, explicação, perdão
e permanência.

PS: somos muitos, dizia, se lembro bem, o Demônio enfiado no corpo de algum infeliz. Todos somos muitos, sem sermos necessariamente diabos. Escrevi meu primeiro poema ainda menina; alguns de meus livros de criança, eventualmente em alemão, mostravam à margem minhas garatujas ("letra horrível", escrevia a professora inevitavelmente em meus cadernos), tentativas de traduzir aquilo para o português; de certa forma escrevi no ar meus primeiros romances quando fantasiava mil coisas embalada na rede do terraço grande, na casa de meu pai, diante do jardim, vendo ao longe os morros azulados. Quando, já adulta, tentei escrever algo mais intelectual, fui medíocre.

Em meus dois mestrados não consegui nota máxima: "Muito bem escrito, mas sem espírito científico", diziam os da banca. E acertaram, de modo que me recolhi à literatura, onde a mediocridade pelo menos não é marcada com notas. Agora dei para inventar histórias de criança, sobre uma bruxa boa e várias bruxas más. Porém esse meu outro rosto ainda está por se mostrar. Hoje, vai um poema do Secreta Mirada.




E depois eles não sentem nenhuma vergonha em divulgar os lucros de seus balanços: Vinha lendo ontem no avião de São Paulo para Porto Alegre as grandes manchetes, tanto da Folha quanto do Estadão: mais de 5 bilhões de lucros, retirados de quem? de voce, de mim de tantos assalariados que tiveram suas passagens de ônibus e lotação aumentadas por conta de um petróleo que baixou em torno de 50% e do dólar que diminuiu mais de 20%. Só que as passagens e os comubustíveis ficaram todos lá em cima. Pena, não é, que aconteça isso num governo chamado popular. Já quanto a saúde ser caso de justiça, bom para nós advogados, mas cadê nosso Ministro da Saúde?

Paulo Sant'ana
17/05/2003


Os leitos do tribunal

O Jornal do Almoço mostrou o caso do paciente que anteontem teve um derrame cerebral, sua família imediatamente levou-o para atendimento médico, 11 hospitais de Porto Alegre não tinham vaga para o urgente tratamento.

O paciente ficou oito horas em um posto de saúde, sob derrame. Ou seja, com as funções orgânicas ou a vida ameaçadas.

Como não havia solução para o dramático impasse, alguém deve ter sugerido à família do paciente que recorresse à Justiça, última instância dos desesperados.

Veio o mandado da Justiça para que fosse concedido o leito e o tratamento ao paciente, o que foi logo providenciado.

Mas foram oito longas horas de espera e do que se poderia chamar de agonia.

Aguça-me a curiosidade sobre o que está acontecendo com os inúmeros pacientes de doenças graves que necessitam de pronta internação e não possuem recursos ou não lhes ocorre a iniciativa de recorrer à Justiça.

Ou então aqueles casos de tal urgência que o recurso à Justiça, que implica demora, chegaria tarde. Ou na hipótese de que todos os pacientes que são recusados no internamento recorressem à Justiça, onde encontrariam lugares para eles?

Que estranha situação a de uma pessoa que é atacada por um derrame e a família sai com ela à procura de internamento, dizem-lhes então que têm de recorrer à Justiça.

Ou seja, a saúde virou um caso de Justiça. E quem sai atrás de um médico é obrigado a procurar um advogado.

A impressão que o Sistema Único de Saúde me transmite é de que esse racionamento brutal de vagas nos hospitais é proposital, faz parte de uma estratégia das autoridades: vende-se a dificuldade para que multidões de pacientes recorram ao tratamento particular, pago.

Ou seja, se forem oferecidas prontas vagas a todos os necessitados, todo o ônus do atendimento médico recairá sobre o SUS e explodirá seus cofres.

Só que esta provável manobra acarreta a dor e a morte das pessoas.

Um médico denunciou anteontem que só na unidade de saúde em que trabalha, um posto de Porto Alegre, existem cerca de 300 pessoas esperando por consulta com proctologista há cerca de dois anos. E há outras 250 pessoas aguardando também há cerca de dois anos consulta com urologista.

Se num só posto é este o número, se em só duas especialidades é este o número, são milhares os abandonados à dor e à própria sorte na saúde gaúcha.

Não é difícil de adivinhar o destino da totalidade dessas pessoas que não são atendidas: ou deram um jeito de pagar consulta ou, caso terrível de grande parte delas, viu agravar-se a sua moléstia, recorreu a um hospital, onde não havia vagas, apodreceu ou morreu.

Triste, arrasador.

E de tal forma já se institucionalizou esse colapso, que já o temos de encarar como definitivo.

A menos que irrompa de repente entre algum governante e parlamentares um surto de humanidade e lucidez.

Leio que tiveram alta significativa as ações da Petrobras anteontem, em razão de que foi divulgado o lucro da empresa nos últimos três meses, batendo um recorde.

Bem como esta coluna tinha previsto. Com os combustíveis tendo uma violenta alta atribuída ao dólar, que depois baixou e refletiu-se em ridícula redução dos preços nos postos, só podia mesmo a Petrobras engordar os seus ganhos.

E subiram suas ações, a maioria em poder público.

Como a maior parte do preço dos combustíveis, mais que o dobro do preço que cobra a Petrobras, reverte em impostos para os governos federal, estaduais e municipais, se esses entes federativos também negociassem ações no mercado, não haveria melhor negócio do que adquiri-las.

E o consumidor é que paga, esfolado, essa farra fiscal.

psantana.colunistas@zerohora.com.br




Jorge Furtado
17/05/2003


Atrás da porta

Veja uma semana de novelas e duvido que não depare com pelo menos uma escutada atrás da porta. Normalmente a porta está entreaberta, e o ator, em close, faz aquela cara de quem está escutando atrás da porta, você sabe como é, olhar de surpresa, boca entreaberta, sobrancelhas crispadas, esgares e suspiros, isso quando não leva a mão ao peito, compungido, e morde o lábio. O procedimento narrativo é tosco, uma das maneiras mais banais de fazer circular informações do enredo: o público sabe que Alberto ouviu a conversa entre Suzana e Reinaldo, e agora?

Shakespeare e Molière cansaram de botar gente escutando atrás da porta ou da cortina, e a tosquice se justifica plenamente numa novela. Imagine o que seja escrever 40 laudas por dia de uma trama que envolve mais de cem personagens. É trabalho para mentes brilhantes, não consigo nem datilografar nessa velocidade, o que dirá escrever.

Escutar atrás da porta é baixa dramaturgia, mas, eu acho, não é jornalismo. Eu sei que o episódio está superado, o Grêmio melhorou muito, temos centroavante, o Tinga deu um drible num jogador do Olimpia que eu não entendi até agora, e o Luis Mário está jogando muita bola, mas a publicação de uma conversa privada dos dirigentes do Grêmio foi um absurdo. Chego atrasado ao assunto, mas quero registrar meu protesto como gremista e como leitor.

Todo mundo sabe que os termos de uma conversa em particular são muito diferentes dos de uma conversa pública e que, variando o interlocutor, os termos também mudam. O que os jornalistas dizem dos atletas ou dirigentes em reuniões de redação ou o que os atletas e dirigentes dizem dos jornalistas no vestiário não é publicável. O mesmo vale para o que os diretores dizem sobre atores e vice-versa, ou o que os empregados dizem sobre os chefes, professores sobre os alunos, médicos sobre pacientes, publicitários sobre os clientes, e sempre vice-versa.

Nem precisamos sair de casa: ou você, em família, comenta o que pensa sobre os seus tios, primos, namoradas do tio, primo da cunhada, aquele gordo suado com bafo de alho, mesmo quando ele está na sala? E se o seu celular estiver ligado e amanhã o gordo suado ler sua opinião no jornal e vier tomar satisfação, com aquele bafo de alho?

Luiz Felipe foi vítima de uma artimanha semelhante quando uma equipe de televisão gravou, pela janela, o que ele dizia aos jogadores no vestiário. Imagine o que jogadores e dirigentes dizem no vestiário sobre os jogadores dos outros times, suas mães, esposas e irmãs. E aí? Qual o interesse jornalístico disso? Se os dirigentes estivessem planejando subornar um juiz, dopar jogadores ou assaltar um banco, a publicação poderia impedir um crime e a conversa é outra.

Não estavam. Chamar alguém de "ovelhinha" é de uma pureza que parece piada. O que se diz em casa ou no trabalho é uma coisa, o que se diz para o jornal é outra, ainda bem. O Dicionário Houaiss têm 75 palavras que definem o que seja publicar conversas ouvidas atrás da porta ou pela janela ou por um celular não desligado. Uma delas é mexerico. Jornalismo não está na lista.

jorge.furtado@zerohora.com.br




David Coimbra
17/05/2003

Moreninha, pequeninha


Foto(s): Arte/ZH

Ela tinha 18 anos. Ele 50. Ela era linda como só alguém de 18 anos consegue ser. Ele era um homem sisudo, casado, pai de dois filhos. Renato, esse o seu nome. Um exemplo de retidão conservadora. Tanto que usava bigode. Um bigode liso, ralo, aparado com precisão. Um bigode hoje em dia, imagine.

Havia mais de 30 anos, Renato trabalhava como supervisor de um clube de futebol. Adorava seu serviço burocrático e rotineiro. Quando o dia começava, Renato já sabia como terminaria. Isso, para ele, era a felicidade. Renato podia ser considerado uma espécie de Seu Verardi, do Grêmio. Estava tudo muito bem posto na sua vida, tudo agradavelmente estagnado.
Até que ela começou a olhar para ele.

Ah, Renato reconhecia aquele olhar. Já tinha sido olhado assim antes. Era um sinal. Quase um convite. Ele agora necessitava de cautela. Como se estivesse num jogo de xadrez. Cada movimento em falso poderia ser fatal. Cada avanço significava um perigo. Mas, como contava com a boa vontade dela, sabia que o sucesso era iminente, desde que tivesse paciência. Precisava apenas comentar:

Como tu estás linda hoje, Lari.

Ela se chamava Larissa. Fazia seis meses que estava no clube, trabalhando como secretária do Departamento de Futebol. Moreninha, pequeninha, riso fácil, Larissa enlevava o velho Renato com aquela sua voz rouca. E agora o olhava. A partir dessa deixa, ¿como tu estás linda hoje, Lari, Renato sabia o que aconteceria: depois de uma semana de conversa fútil, ela toparia sair com ele. Um jantar, dois, no máximo três, e iriam para um motel. Renato se cevaria nas jovens, tenras e rijas carnes de Larissa, teria algumas horas de prazer e, no dia seguinte... ia querer mais. Aquele dia se repetiria. Quem sabe por alguns meses. Renato ficaria apaixonado, como não ficar apaixonado por uma criatura tão deliciosa? Então, quando ele estivesse enfeitiçado até a raiz dos cabelos, quando não pensasse em mais nada a não ser Larissa, Larissa, Larissa, quando ela fosse toda a cor da sua vida, ela iria deixá-lo.

Ele sabia disso. A experiência avisava. Se a abordasse, iria sofrer. Porque ela era jovem demais. Suas referências, suas experiências, seus parâmetros, tudo era diferente. Nas primeiras crises, assim que passasse a empolgação, ela se cansaria dele. E partiria.

Não, não, Renato não poderia se aproximar daquele perigo adolescente. Melhor continuar com o afeto sereno da sua mulher, melhor continuar com seus filhos, sua casa, sua vida, suas tabelas de viagens, suas listas de material esportivo, seus formulários, oh, como amava aqueles formulários. Tudo estava certo, tudo estava no seu devido lugar. Para que mudar? Se desse um passo em direção àquela tentação de braços morenos, perderia essa vida. Sim, ele SE perderia.

Mas era para isso que Renato raciocinava, para isso servia sua inteligência e toda a sua vasta experiência. Exatamente! Ele era um homem vivido, ele conhecera muitas mulheres, ele sabia de todos os truques e como evitá-los. Não seria ele, o escolado Renato, o velho Renato, o malandro Renato, o homem que deslindava as manhas dos jogadores, das mulheres dos jogadores, das amantes dos dirigentes, não seria ele que que se deixaria seduzir por uma pirralha. Mesmo que a pirralha fosse fascinante e sensual e cheirosa e doce e... Foi nesse instante que Larissa passou diante da mesa de Renato. Passou olhando, como vinha olhando nos últimos dias. Sorria. Renato sorriu também. Debruçou-se sobre a mesa. Levantou uma sobrancelha. E disse, a voz saindo sozinha de sua garganta, como se não fosse dele:

Como tu estás linda hoje, Lari...

Em linha reta
As pessoas têm muitas certezas. Aquelas opiniões bem formadas e conclusivas. Todo mundo, os taxistas, os ascensoristas, os cirurgiões, os astrofísicos, os cantores de churrascaria. Todos. Como conseguem? Eu cá estou sempre cheio de dúvidas. Não consigo, por exemplo, desenvolver tanta convicção a respeito de um jogo de futebol. O time joga mal, perde e as pessoas já o definem como um aglomerado de pernas-de-pau. Mas, na rodada seguinte, o time goleia, e aí vai ser campeão do Brasil. Cada rodada um conceito. Sempre peremptório. Sempre definitivo. Como se consegue ter tanta certeza assim sobre tudo? Quarenta e seis rodadas, quarenta e seis opiniões. Sinto-me inferiorizado diante de tamanha sabedoria. Lembra o Poema em Linha Reta, que o Fernando Pessoa escreveu sob o pseudônimo de Álvaro de Campos. Aí vai um trechinho para inspirar o seu sábado:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

david.coimbra@zerohora.com.br


Ensino
Caminhada contra a reforma



Os professores estaduais realizaram ontem em Porto Alegre uma assembléia de protesto à reforma da Previdência. Depois do ato, seguiram em direção ao prédio do IPE e, mais tarde, ao Piratini, para entregar reivindicações salariais (foto Mário Brasil/ZH)


Sexta-feira, Maio 16, 2003


O silêncio da mente
A meditação entra na moda e conquista executivos, artistas, profissionais liberais, políticos e intelectuais


Celina Côrtes
Colaboraram: Leonel Rocha (Brasília) e Rita Moraes (São Paulo)





Assim como a psicanálise entrou na moda nos anos 70 e 80, quando nenhum intelectual que se prezasse escaparia do crivo de Freud, Lacan ou Jung, a meditação está virando uma ferramenta indispensável na busca do autoconhecimento e da felicidade. Até astros como Richard Gere e Madonna aderiram à prática.

No Brasil, artistas, executivos, políticos e profissionais liberais já a utilizam como arma contra o stress. Nos três centros da Fundação Siddha Yoga, em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a procura por cursos aumentou 100% nos últimos cinco anos. No Instituto Nyingma do Rio, de budismo tibetano, houve um crescimento de adeptos de 20% em um ano. Até adolescentes começam a despertar para a busca do bem-estar.

Na casa da atriz Julia Lemmertz, a filha Luiza, 15 anos, já segue os passos da mãe, que tem o hábito há 20 anos e já chegou a meditar até em avião e atrás de cenário de novela. Consigo fazer tudo com mais clareza no meio da loucura e isso me ajuda a decorar os textos¿, diz a atriz. Luiza fez o curso de meditação na férias de janeiro e não quer outra vida. Sai para o colégio às 7 horas, mas antecipa o despertador em uma hora para aquietar a mente. É ótimo antes da aula. Dá um foco. Não fico mais nervosa nas provas, comemora a garota.

A meditação é uma prática milenar utilizada não só pelos orientais há mais de cinco mil anos, mas também pelos povos indígenas do Ocidente. A diferença é que o Oriente fez mais propaganda a respeito e manteve a prática, informa o xamã e terapeuta Sthan Xannia, do Paz Geia Instituto de Pesquisas Xamânicas, de São Paulo. Ele e seus adeptos praticam a meditação nativa que resulta da adaptação de práticas tradicionais de várias etnias.

A meditação ganhou projeção no Ocidente principalmente quando celebridades como os Beatles, na década de 60, começaram a se interessar pelo assunto.Também cresceu com a propagação do budismo, a doutrina criada na Índia há cerca de 2.500 anos, pelo príncipe Sidarta Gautama, o Buda, que abandonou a realeza em busca de iluminação espiritual.

Independentemente da linha, religiosa ou não, que a adote, ela é sempre um meio de entrar em contato consigo mesmo. Em quase todas as versões, consiste em se dedicar um tempo para aquietar-se, prestar atenção na respiração ou criar imagens ou emoções agradáveis. A maioria adota um mantra, uma frase ou uma palavra a ser repetida. Grande parte das práticas disponíveis no Brasil consta do livro O que é meditação (Ed. Nova Era), recém-lançado pela comerciante carioca Sandra Rosenfeld, 48 anos. Em pouco mais de 100 páginas, a autora discorre sobre como e por que meditar, de forma agradável e quase didática. Comecei há dez anos e no início frequentei templos, mas hoje exercito sozinha, durante 40 minutos, quando acordo e antes de dormir, conta ela.

Ligação Os locais mais procurados pelos brasileiros para a prática da meditação são os centros de siddha yoga, de zen-budismo, de budismo tibetano e principalmente as sociedades de meditação transcendental, que não tem ligação com nenhuma religião e possuem centros em 150 países. A meditação transcendental é uma técnica sistematizada na Índia há 50 anos pelo mestre Maharishi Mahesh Yogi, físico e matemático que aos 85 anos vive na Holanda. A diferença entre esta e outros métodos é que nela não se exige o controle dos pensamentos.

A técnica só se pode aprender pela prática e pela transmissão pessoal. Mas podemos dizer que não exige esforço, diz o suíço Markus Schuler, diretor da Sociedade Internacional de Meditação Transcendental de São Paulo. Para aprendê-la, entretanto, não é barato. O curso de uma semana custa em média R$ 1 mil. As técnicas tradicionais, em geral, são ministradas gratuitamente.






Ai está parte da reportagem principal da revista Isto É deste fim de semana, que encontra-se online no endereço www.terra.com.br/istoé

João Paulo Nucci, Luiz Cláudio Cunha e Sônia Filgueiras
Colaborou: Leonel Rocha (DF)


Brasil tem tudo para sofrer uma mudança importantíssima na próxima semana. Na terça-feira 13, o PMDB, maior partido do Senado e a segunda maior bancada da Câmara, entrou formalmente na base de apoio ao governo Lula, o que garante a maioria de votos no Congresso para a aprovação das reformas ainda no segundo semestre , consolidando um cenário de estabilidade vital para a economia.

E na quarta-feira 21, quando encerrar a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o País deve ver algo que não acontece desde agosto de 2002, no ocaso do governo FHC: a queda da taxa de juros, sonho de dez entre dez brasileiros. Técnicos da equipe econômica estão convencidos de que há espaço para baixar os juros já nesta semana. A dúvida é a intensidade da queda: 0,5% ou 1%. Seria o primeiro e modesto degrau de uma escada descendente por onde pode recomeçar a ascensão da economia brasileira. A angústia pela queda dos juros aflige até o funcionário público número 1 do País.

Na terça-feira, antes de almoçar com o PMDB, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontrou o deputado Luiz Antônio de Medeiros (PL-SP) numa cerimônia da Marinha, em Brasília, e comparou a decisão de reduzir os juros com uma colheita: ¿É o mesmo que levar um engenheiro a um pomar e pedir a ele para colher tangerinas. Ele vai escolher as frutas verdes, antes de estarem maduras. O camponês não erra, sabe que a tangerina deve ser colhida em dois ou três dias. Assim são os juros¿, comparou. Especialistas da área econômica estão confiantes de que o terreno está maduro e
os frutos já podem ser colhidos.

O futuro ficou menos incerto na economia, com o entendimento acertado entre o Planalto e o PMDB. Existem muitos cálculos de parte a parte. Pelo governo, a conta das reformas não fechava sem a forte presença do PMDB, que tem, só no Senado, 22 cadeiras, quase o mesmo número de senadores (31) dos sete partidos que formam a base governista. Com o ingresso do PMDB no bloco oficial, o Palácio do Planalto passa a contar com 325 deputados e 53 senadores no Congresso, acima do quórum mínimo de 308 deputados e 49 senadores necessários para aprovar as reformas.

Os acertos políticos começam, finalmente, a sintonizar com os bons impulsos da economia. As taxas inflacionárias voltam a dar sinais de que foram domadas. ¿Já não existe risco de descontrole¿, reconheceu o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, na mesma terça-feira em que Lula falava da época da colheita. Na última semana, alguns índices inflacionários mostraram que o dragão está sob controle. O IPCA, que o BC olha com cuidado ao examinar a possibilidade de redução dos juros, fechou abril em 0,97%, taxa ainda alta, mas bem inferior à do mês anterior, que ficou em 1,23%. Já os índices calculados pela Fundação Getúlio Vargas e pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) registram trajetória de queda nos preços do atacado, que antecipam o comportamento dos índices no varejo.

A Fipe, que mede a inflação de São Paulo, chega a prever risco de deflação neste mês. ¿Quem decide queda de juro é o BC, mas está claro que a evolução dos indicadores aponta para uma trajetória de queda gradual, progressiva e sustentada dos juros¿, reforça o economista e líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Descontadas as flutuações de humor e realizações de lucro do mercado, o risco Brasil, que mede o índice de confiança dos investidores internacionais, cedeu mais de 300 pontos nos últimos dois meses, chegando à casa dos 800 pontos.

Pode não ser o ideal, mas a marca guarda uma distância confortável dos impensáveis 2.400 pontos registrados durante a campanha eleitoral de 2002, no auge da especulação que equiparou o Brasil a uma Argentina em moratória. O País está hoje muito menos vulnerável a choques externos do que no final do ano passado, declarou o presidente do BC, Henrique Meirelles, em Sevilha, na Espanha, na quinta-feira 15, durante reunião de dirigentes de bancos centrais das Américas. Meirelles, no entanto, mantém o discurso duro: juros menores só com a inflação domada.

E a capa como sempre em todos os fins de semana é esta aí abaixo:




Bem, como voces verificam foi rápido renovar o visto americano em São Paulo, embora as filas quilometricas e a papelada a ser analisada e ainda consegui trabalhar a tarde. Mas convenhamos, efetivamente é um teste de paciência que fazem com as pessoas que desejam passar ou visitar os Estados Unidos.

Sexta, 16 de maio de 2003.


CLÁUDIO HUMBERTO
O GOVERNO SARNEY TROCAVA CARGOS POR VOTOS, O DE LULA FAZ O CONTRÁRIO (Deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), que se opõe ao fisiologismo do seu partido)

Brasil já é lixão de pneus velhos
O decreto nº 4.592 do presidente Lula transforma o País no lixo preferencial do Primeiro Mundo, que não sabe o que fazer das sobras de sua produção anual de 900 milhões de unidades. Os encalhes vão para o Uruguai e a Argentina, de onde Lula autorizou a importação. Resíduo sólido de difícil eliminação, o pneu velho atenta contra a saúde pública, como criadouro do mosquito da dengue. Estudioso do tema, o senador Edison Lobão (PFL-MA) revelou que o Brasil importou 43 milhões de pneus usados, só no ano passado.

Amigo beneficiado
Um dos maiores beneficiados do decreto do presidente, liberando a importação de pneus usados, é Francisco Simeão. Amigo de Lula, ele é o dono de um jatinho Lear-Jet 31 muito usado por petistas ilustres. Chico Simeão é dono também da BS Colway, que, favorecido por liminares, importa por ano 1,2 milhão de pneus velhos, só da Europa.

Às claras
Os ministros e o chefe Lula adoram holofotes: a Presidência da República mandou instalar refletores no seu campo de futebol da Granja do Torno.

Rodovia privatizada...
O procurador Flávio Paixão de Moura Júnior pediu nulidade da licitação que privatizou em 1995 o trecho da BR-116 que liga o Rio a Teresópolis e Além Paraíba. E que os donos da lambança (governantes e beneficiários) indenizem a União por danos morais, com duas vezes o valor do contrato.

...inferniza Teresópolis
Os petistas Luiz Sérgio, Antônio Carlos Biscaia e Carlos Santana querem um debate público sobre a exploração (não há expressão mais adequada) da CRT na rodovia BR-116, com a participação dos moradores. Teresópolis foi dividida ao meio: quem mora no quinto distrito agora paga para ir ao centro.

Companheiro PO
Em discurso na festa dos 50 anos da Abav, o senador Paulo Octávio (PFL-DF) mostrou sua adesão aos novos tempos. Por duas vezes ele usou o pronome de tratamento petista "companheiro": para saudar o ministro Walfrido Mares Guia (Turismo) e o presidente da Abav, Tasso Gadzanis.

Negócio lucrativo
A importação de pneus usados é negócio de alta lucratividade, embora proibida no Brasil desde 1991. Importados graças a liminares, os pneus velhos custam 58 centavos de dólar a unidade e, depois de remoldados a baixo custo, são vendidos como seminovos a 25 dólares.

Passe disputado
Ex-secretário da Receita Federal no governo FhC, Everardo Maciel foi convidado pelo Banco Mundial para realizar estudos sobre a situação econômica e tributária no México. O serviço começa no dia 9 de junho. O ex-xerife tem também convite para virar conselheiro fiscal da Ambev.

Tá tudo dominado
Na prática, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, delegou a condução do problema transgênicos ao ministro Roberto Rodrigues (Agricultura), defensor radical dos organismos geneticamente modificados.

Pavio curto
Conhecido pelo pavio tão longo quanto seus cabelos, o ministro Ciro Gomes se irritou com os jornalistas que queriam saber se ele realmente abriria mão da candidatura presidencial, em 2006, conforme afirmara pouco antes, na Câmara. Foi mal-educado, como sempre: Ah, vão catar coquinho!.

Stand secreto
A embaixada do Brasil em Washington montou stand na feira de turismo World Travel Expo International de Gays e Lésbicas, no final de abril. O embaixador Rubens Barbosa informou ao Itamaraty que o stand recebeu mais de 700 visitas, em quatro horas. O Itamaraty manteve segredo.

Classificados PT
Chama-se Fernando Moura a figura que circula nos meios empresariais como amigo-irmão do ministro José Dirceu. Diante dos interlocutores, ele liga no celular e chama o ministro de Zé. Como diria o genial Elio Gaspari, é do tipo que persegue a diligência. Coisa de governo honrado. Pelo menos um empresário registrou o estilo de Moura para a eternidade.

Fome zerada
O líder do PSDB no Senado, Arthur Vírgílio (AM), acredita que o presidente Lula dá uma contribuição inestimável ao Fome Zero, com tantos convites a partidos e governadores na busca do apoio para as reformas: Um dia é café da manhã, noutro dia é almoço, churrasco e por aí vai, ironiza.

Turismo zero
A Câmara aprovou requerimento de Ronaldo Vasconcelos (PTB-MG) convocando Carlos Lessa, do BNDES, a explicar por que vai emprestar US$ 1 bilhão a empresas argentinas. Presidente da Subcomissão de Turismo, o deputado está perplexo: há anos o setor não vê a cor do dinheiro do banco.

Con Fidel, siempre
Virou novela o apoio de Chico Buarque a Fidel, no site http://www.porcuba.cult.cu, em "firmas finales". O nome do brasileiro continua lá, apenas mudou de lugar: "Chico Buarque" era seguido de "Chomsky, Noam"; agora, "Buarque de Holanda, Chico" está ao lado de "Brodsky, Patricio A". Todos dando a maior força no ditador que prende e até fuzila quem clama por liberdade.

Poder sem pudor: Sr. Lei, muito prazer
Durante o governo Fernando Henrique, no final de 1999, o ministro Pedro Malan (Fazenda) fingia interesse na reforma tributária, discutindo-a com parlamentares. Sempre muito cordial, ele perguntou ao deputado Antônio Kandir (PSDB), ex-ministro de Planejamento do mesmo governo:

- O senhor prefere que eu o chame de deputado ou de ministro?

Antônio Palocci (PT-SP) meteu o bedelho, provocando gargalhadas:

- Ministro, em São Paulo ninguém chama o Kandir de ministro, nem de deputado. Todo mundo chama ele de lei. Lei Kandir.

Cláudio Humberto com Teresa Barros




David Coimbra
16/05/2003


A Loba

Essa mulher, a Loba. Sua história é espantosa. No princípio, ela não era a Loba. Era uma mulher normal, das que assistem a Friends e lêem Bridget Jones. Casou-se com um nababo da cidade, um homem quase 30 anos mais velho. Viveram felizes por algum tempo, fizeram viagens, conheceram ramblas e bulevares. Ela ficou grávida. Concebeu uma linda filha de olhos aquosos e tez de leite. Tudo ia bem.

Aí o marido começou a mudar.

Açulado por maus amigos, ele passou a refocilar nos prazeres da noite porto-alegrense. Mulheres. Álcool. Loucuras. E embora a Loba seja uma mulher desejável, o casamento soçobrou. Abandonada com uma filha pequena, ela por pouco não perdeu a razão. Passou duas noites e dois dias chorando. No terceiro, reagiu. Deixou a filha com a mãe. Avisou que ia fazer uma viagem. Sumiu. Ninguém sabe para onde foi. Ao cabo de 40 dias, voltou mudada. Voltou transformada na Loba.

Entenda: ela era uma mulher pudica, moralista, reta como o caminho da virtude. Depois daquela quarentena que se tornou a Loba.

Claro, faz-se necessário ressaltar que ela não veste a pele de Loba em tempo integral. Durante o dia, trata-se de uma mãe zelosa, uma dona de casa perfeita. Mas, assim que o sol afunda nas águas turvas do Guaíba, dá-se a metamorfose. Ela solta os cabelos bastos, enfia-se em roupas sumárias, pinta-se agressivamente e sai. Sai todas as noites, de segunda a segunda, sem falta. Sai sozinha e sozinha chega aos bares e boates da cidade, os lugares mais conhecidos, mais freqüentados. Fica lá, sentada ereta, com uma bebida na frente, olhando séria para lugar algum. Um chamariz para os homens. E os homens se aproximam, assediam-na. Caem na cilada.

A Loba em pouco tempo os cativa. Porque a Loba primeiro promete, depois negaceia. Eis o segredo. Uma mulher, quando ela oferece desafios a um homem, aí que ela o conquista. A Loba entrega o corpo, jamais a alma. A Loba é misteriosa, é incompreensível. Isso corrói a sanidade mental dos homens, os tortura e os torna presas da sua perfídia. A Loba, depois que um homem se apaixona por ela, ela o abandona, como um dia foi abandonada.

Há dezenas de homens infelizes arrastando-se pela noite de Porto Alegre, vagando sem rumo pelas ruas sombrias. Vítimas da Loba. Se você vir uma mulher deslumbrante sentada sozinha numa mesa de bar, fitando o vazio, cuidado. Não se aproxime. Porque você apenas conseguirá algumas noites de sexo depravado, sexo enlouquecedor, sexo incomparável e inesquecível, porém casual. Porque você apenas irá se saciar de luxúria, antes de sofrer, sofrer, sofrer.

david.coimbra@zerohora.com.br




Paulo Sant'ana
16/05/2003


Um grande locutor

Todos os dias, há 31 anos, topo com ele nos corredores da Rádio Gaúcha, é um personagem indefectível do meu cotidiano.

Vejo-o conferindo os textos que dali a pouco lerá no microfone. Estou me referindo ao locutor de notícias José Aldair, 37 anos na Rádio Gaúcha.

Pelos cálculos que fiz, ele já leu cerca de 40 mil noticiários como este Correspondente Ipiranga que leva ao ar três a quatro vezes por dia para todo o Rio Grande e o Brasil, quase quatro décadas de infalíveis transmissões.

É um dos mais corretos e atilados locutores do país. Os ouvintes já estão acostumados à sua voz grave e vibrátil, à tonalidade séria e respeitável que imprime à sua voz, à pronúncia escorreita e estudada dos nomes estrangeiros, às meticulosas e apropriadas pausas entre as frases, os períodos e os assuntos.

Um extraordinário profissional, sua voz é a mais característica de todas as 400 vozes que falam diariamente na Rádio Gaúcha, ele é o distintivo e a marca mais notáveis da nossa emissora, tornou solenes os seus espaços diários, escutados sempre em silêncio, respeito e atenção pelos milhares de ouvintes, há mais de uma geração.

Como nunca trabalhou em televisão, não recebe nas ruas as galas que nós todos que expomos nos vídeos os nossos rostos encontramos diariamente no reconhecimento popular.

Ao que eu saiba, nunca recebeu prêmios por seu trabalho, essas pesquisas de preferência popular esquecem lamentavelmente os locutores, esses pilares do rádio, um veículo encravado definitivamente na alma popular.

O José Aldair é como o vinho, quanto mais antigo, melhor. E ele permanece ali no seu posto, das primeiras horas da manhã, no meio do dia, até as primeiras horas da noite.

Sua voz retumba todos os dias nas prosaicas habitações das vilas, nos casarios da mediania, nas alturas dos apartamentos e nos abrigos das vivendas urbanas, assim como nos mais longínquos rincões do meio rural.

Seus boletins são referências do jornalismo, pontuais e precisas fontes de informação, adornadas pela respeitabilidade que infunde a sua conspícua e enérgica dicção.

É um desses homens e profissionais que, mais que úteis e necessários, se tornam imprescindíveis. E que se incorporam de tal modo à dinâmica social do cotidiano, pela sua indispensabilidade, que talvez só venhamos a atentar para sua estupenda importância se, acaso, um dia, o que nunca acontecerá, nos faltasse.

Mas ele não falta nunca, está sempre ali na trincheira, como uma rocha altaneira, um carvalho imarcescível.

Que o seu destino é servir. E ele teima humilde, quase que anônimo mas sobranceiramente em servir.

Desculpem, mas hoje me tocou, num impulso que tolhi durante muitos anos, soltá-lo irreprimivelmente no reconhecimento ao mérito de um colega de trabalho, uma abelha da minha mesma colmeia, que engrandece a minha profissão, essa sublime saga do jornalismo que o José Aldair Nidejelski ainda mais enobrece.

psantana.colunistas@zerohora.com.br



Religião
A igreja feita de vidro



A capela da Ulbra em Canoas, com capacidade para 450 pessoas, construída com superfícies espelhadas, terá seu culto inaugural hoje (foto Elisângela Fagundes, divulgação/ZH)


Quinta-feira, Maio 15, 2003




Se a moda pega, os jornais e revistas de anuncios irão ganhar uma boa grana, com esses anuncios, por aqui, vocês concordam?

Quinta, 15 de maio de 2003, 09h35
Traída publica dados de mulher que pegou seu noivo


A polícia espanhola prendeu uma jovem de 22 anos acusada de publicar dados pessoais de uma mulher que, no passado, teve um caso com seu noivo. Os anúncios foram postados em sites de sexo na Internet.
Conforme a polícia da Catalunha, R.G.T. publicou nos sites nome e telefone da mulher com um recado para que todos os interessados entrassem em contato o mais rápido possível. A mulher acabou recebendo diversas ligações de pessoas que leram os anúncios. Ela precisou mudar seu número telefônico e fez uma denúncia à polícia.

Agentes do grupo de Delitos Informáticos da Polícia descobriram que os anúncios foram publicados por alguém de Barcelona e acabaram chegando até R.G.T. por interrogatórios. Ela confessou ser a autora da vingança e foi detida.



Algumas fotos interessantes para serem olhadas e descobrirmos que aquilo que nem imaginamos, também existe.




Rússia, 15/03/2003 - Os participantes de uma competição internacional de gatos em Moscou não recomendam fazer isso em casa.

Rússia, 07/03/2003 - Dog Fashion Moscow. O cachorrinho é um dos modelos da coleção outono/inverno russa pra cachorro

China, 31/01/2003 - Uma mulher passa um cobra viva pelo nariz em frente ao Templo da Terra, em Pequim.

Japão, 07/05/2003 - Modelo exibe sutiã especialmente criado para homenagear o castelo Ebo, no Japão.




Amor - O Interminável Aprendizado
Affonso Romano de Sant'Anna

Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado.

Se enganava.

Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado.

Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sabia nunca, como ali já não se saciara.

De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos.

Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.

Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.

O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava.

Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.

O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.

Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.

O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final.

Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.

E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não.

Absurdo.

Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?

Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.

Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.

Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado.

Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.

O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado.

Optou por aceitar a sua ignorância.

Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado.

E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.




Bom a nossa aula hoje no WISE UP, teve a coordenadora de professora, até porque ela usou o espaço da aula para apresentar a nossa nova - fessora nova - : A dona Marcia que juntamente com a Giovana estiveram presentes e participaram da aula. Bem que não é uma má idéia ter assim professoras junto com a gente ajudando a fazer os exercícios de aula.

Mas tudo bem terça-feira próxima já será com a dona Márcia. Seja bem vinda fessora e esperamos que sinta-se ótimamente, isso é em casa, entre nós.

Amanhã não deverei postar aqui neste espaço, vez que estarei indo hoje a noite para Sampa para renovar o visto americano amanhã lá no consulado. Se tiver um vôo logo depois de meio dia ainda posto a tarde, senão a noite estarei de volta a este espaço, com certeza. Então não fiquem chateados, é só porque ainda está fazendo muita névoa pela manhã aqui no Salgado Filho e os aviões estão decolando tarde, por isso já irei hoje a noite, de sorte que amanhã pela manhã já estarei lá.

Dona Ticcia lá do Não Discuto, nosso almoço acabou ficando para a próxima semana, espero, porque amanhã já é sexta-feira e não estarei por aqui. Segundas, quartas e sextas acho melhor, Mas se você preferir terças e quintas, This is not have problem.




Vinte dicas para aproveitar a solidão e uma para estragar tudo

Ulisses Tavares

Como dizia um filósofo ao final de muito pensar sobre a frágil condição humana: "só duas certezas: sozinhos nascemos, sozinhos morreremos". Mas, como dizia aquele meu amigo cínico e prático: "enquanto não morremos, e já que nascidos estamos, devemos achar maneiras agradáveis de preenchermos nossos momentos de solidão".

De solidão, todos os homens e mulheres entendem e sabem o quanto pode doer ou fazer crescer. O sábio Cazuza afirmava, numa canção, "que solidão é pretensão de quem fica fazendo fita". Impossível contestar. De fato, se você quiser ficar sozinho, vai ficar mesmo, principalmente se não tiver coragem de sair de seu casulo, de sua fortaleza emocional, de seu cofre, e tentar compartilhar sentimentos desgostosos e prazeres com os outros.

Afinal, nestes tristes tempos, que Einstein definiu como uma época em que é mais fácil quebrar o segredo do átomo que o segredo do coração de seu vizinho, seu irmão, seu amigo da esquina, se você não tomar a iniciativa de pegar o telefone e ligar, abrir a porta e sair, idem com a boca e falar, nada vai acontecer.

Porém, existe o estar sozinho por incompetência e o estar sozinho por escolha própria. Este último é tranqüilo, enriquecedor e necessário. Falando nele, e de conversas com chegados meus, fiz uma lista de sugestões úteis de como lidar com a solidão:

Leia um bom livro, e lembre-se: um bom livro é o que prende você e preenche.

Tire uma soneca, normalmente estamos mais cansados do que pensamos e o corpo está com atraso de anos de sono bom.

Pratique um passatempo qualquer, por mais idiota que seja, de golfe a palavra cruzada.

(Re) conheça seu corpo, feche (ou abra bem) seus olhos e sinta ou veja seus braços, sexo, barriga, pernas, etc, isso é muito diferente de se ver num espelho antes de ir pra balada.

Arrume sua casa, ter as coisas em ordem é como pôr a alma em ordem também.

Leve o cachorro pra passear, coitado, talvez ao contrário de você, ele adore sair.

Faça uma lista dos amigos, atuais e antigos, para os que você pisou na bola, ligue pedindo desculpas, para os outros, simplesmente diga que ligou porque estava com saudades.

Não faça nada, se dê esse prazer, esse luxo no mundo moderno, quem disse que você tem que estar sempre ocupado?

Família, lembra de seus parentes? Aquela tia que era ótima na sua infância e uma chata, na sua opinião, hoje em dia, vai adorar seu telefonema, e-mail, cartinha.

Um diário, há quanto tempo você não escreve um? Agora dá tempo.

Pense na vida, pense, repense, reflita, veja o que quer mudar, o que é possível mudar e o que não precisa mudar.

Deus, uau, o que é isso? Quem é? Todas as religiões concordam que pensar sobre Deus, é uma boa forma de rezar.

Sinta sua respiração, tente expirar e inspirar conteúdo o mesmo número de vezes.

Olhe para o céu, de preferência, deitado no chão do quintal ou da praça, imagine animais e formas que as nuvens sugerem.

Entre na Internet, em vez de mulheres peladas e sites de encontrados, procure museus, galerias de arte, biografias.

ONGs, serviços voluntários, associações comunitárias, já lhe ocorreu que praticar o bem aos outros, mais carentes que você, pode diminuir seu sofrimento?

Contar buraquinhos de um pedaço da parede, os iogues garantem que funciona e isso lhe trará paz, se bem que eles costumam usar uma mandala (aqueles desenhos repetitivos e coloridos)

Grite, reclame, fantasia, tudo em voz alta.

Agora, se você já tentou tudo isso e não gostou, radicalize, vá á luta e preencha seu vazio existencial paquerando alguém. Qualquer uma. Prometa mundos e fundos e fique com ela. Daí por diante, "my bródi", você não estará mais sozinho. Mas conhecerá, com certeza, a pior solidão que existe. A solidão a dois. A única que não tem dica que dê jeito.

Ulisses Tavares é escritor e co-autor do livro "Guia do Homem, que a Mulher Também Deve Ler", publicado em parceria com Tettê Schmidt - ambos na foto (Geração Editorial, 166 páginas).




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Heloísa Helena é companheira-bomba!

Buemba! Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Diz que o Lula come muito pra tirar o atraso do tempo em que comia no bandejão da Volks. E a Heloísa Helena no restaurante só pede CONTRAfilé. E ainda vai entrar na Marinha pra ser CONTRA-almirante. E a Rosinha tá lançando o Tiro Zero: as balas entram na universidade sem passar pelo vestibular.

E os três radicais do PT? Babá, Heloísa Helena e Luciana Genro. Os Três Mosquiteiros. Vão ficar comendo mosca! E eu já sei o que eles vão fazer quando forem expulsos. O Babá vai fazer propaganda de xampu. A Heloísa Helena vai ter um programa infantil e ainda vai lançar uma boneca, você aperta, e a boneca grita: 'Délinquentes, teje preso e sou contra'. E a Luciana Genro vai fazer propaganda de chapinha. Aliás, aquilo que ela tem na cabeça é cabelo ou macarrão parafuso? PIOLHO NELES! Rarará! É mole? É mole, mas sobe.

E a Heloísa Helena tá virando cult! Vou fazer uma camiseta com a cara dela: 'PT: fundei e afundei'. Rarará! Aliás, o maior castigo pra Heloísa Helena não seria a expulsão, mas fazer ela virar patricinha. Fazer esteira, passar o dia no shopping, dormir abraçada com um Piu-piu de pelúcia e usar um fichário com a cara do Rodrigo Santoro. Pior, botar ela pra trabalhar em 'Malhação'. E nada de marxismo cristão, 'Jesus era camarada'. Vai virar carismática. Fã do padre Marcelo.

E aí perguntaram pro Babá se ele ia recorrer à Justiça, e ele: 'Jamais vou recorrer à Justiça burguesa'. Ué, então vai recorrer à Justiça proletária? Aliás, o PT devia botar uma focinheira na Heloísa Helena.

E o ministro do interior saudita disse que os carros-bomba eram conduzidos por terroristas suicidas. Como é que ele conseguiu chegar a uma tão brilhante, rápida e inteligente conclusão? E eu não agüento mais bomba: homem-bomba, mulher-bomba, carro-bomba, sapato-bomba e SUPOSITÓRIO-BOMBA. E mulher-bomba é a que todo mundo tem em casa. E Portugal estava recrutando homens-bomba, mas explodiram no treino. E eu já disse como é mulher-bomba em Portugal: bota um OB, acende o pavio e tapa as duas orelhas. BUM!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um amigo meu estava em Porto Ferreira, interior de São Paulo, quando viu uma placa maravilhosa: 'Solar dos Jovens de Ontem'. Tucanaram o asilo. Atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Erradicar': expulsar radical. Expulsar a Heloísa Helena! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza.

Email simao@uol.com.br




Paulo Sant'ana
15/05/2003


Respeito recíproco

Fatalmente chegaria o dia em que haveria um choque frontal entre as posições da deputada Luciana Genro (PT-RS) e as de seu pai, Tarso Genro, ministro do Desenvolvimento Econômico e Social.

Chegou o dia. E o choque se dá nas dimensões intestinas do partido.

Com admirável coragem, a deputada Luciana Genro não arreda pé de suas convicções ideológicas e enfrenta a direção partidária e o governo, declarando-se contrária a vários dispositivos da reforma previdenciária, entre os quais a taxação dos inativos.

O PT tentou enquadrar ideologicamente a filha do ministro. Tendo ela resistido, vai enquadrá-la em processo disciplinar, cuja pena máxima é a expulsão.

Chama a atenção a exemplar relação política que o ministro Tarso Genro mantém com sua filha desde que ela tornou-se parlamentar estadual.

Nunca fez com ela dobradinha ideológica ou partidária. A filha lá, ele cá. Certa vez, para surpresa geral, quando se cogitava da candidatura de Tarso Genro à Presidência da República, em substituição a Lula, Luciana Genro declarou que seu candidato a esse posto era João Pedro Stédile, do MST, em evidente oposição a seu pai.

Uma prova concreta de que a consangüinidade entre os dois jamais influiu em seus atos ou pensamentos é que nem Tarso Genro jamais conseguiu demover sua filha de suas posições quanto o contrário, até mesmo porque têm sempre e elogiosamente mantido uma autonomia de procedimentos e idéias que em nenhum instante se misturou com o parentesco.

Tarso Genro agora se adianta ao impasse. Ele se declara sem "tranqüilidade subjetiva" para votar a favor ou contra Luciana, caso o julgamento da filha vá parar na instância a que ele pertence, o diretório nacional, declarando-se suspeito e afastando-se do exame.

O ministro se opõe às posições da filha, perfilando-se à fidelidade partidária e ao governo que ele integra, mas recusa-se tanto a ser um dos seus carrascos quanto ao constrangedor ato de ter de absolvê-la e ser acusado de protecionismo familiar.

Calcula-se o drama íntimo, permeado de dor e constrangimento, que vivem pai e filha neste momento.

Mas ambos ganham a admiração da opinião pública por jamais terem deixado vazar de seus lábios qualquer palavra de censura de um ao outro, num respeito recíproco de notável grandeza, ainda mais se levando em conta as delicadas e idiossincráticas relações familiares.

Fosse no tempo antigo, a filha já teria sido esmagada pelo pai. E espanta que nos tempos atuais o pai não tenha sido embuçalado pela filha.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Nilson Souza
15/05/2003


Lição amarga

Jane Elliot é uma megera capaz de arrancar lágrimas de jovens sensíveis sem demonstrar qualquer compaixão. Ela luta contra o racismo e impõe verdadeiras sessões de tortura psicológica a grupos de infelizes portadores de olhos azuis. Já acompanhei dois de seus programas no GNT e ambos me deixaram perturbado. Ainda bem que ela também tem enxaqueca durante dois dias depois de massacrar a garotada com perguntas ríspidas, comentários sarcásticos e provocações irritantes.

Por que ela faz isso? Para mostrar que num simples exercício de poucas horas os brancos discriminados sentem-se agredidos e perdem a compostura, enquanto negros, latinos e integrantes de outros grupos sociais minoritários são obrigados a suportar durante toda a vida os preconceitos e as humilhações.

A experiência é simples e ao mesmo tempo dolorosa. Ela separa as pessoas pela cor dos olhos e pede para o grupo de olhos claros esperar numa sala, enquanto passa instruções aos demais. A brincadeira séria começa por um chá-de-banco em situação constrangedora: há apenas três cadeiras na sala para um grupo de mais de dez pessoas.

Depois de um longo tempo, os loiros são convidados a retornar para a companhia do grupo maior, sem saber que todos os demais estão orientados para tratá-los como pessoas inferiores. A psicóloga chega a ser cruel, insinuando a todo momento que as pessoas de olhos azuis são ignorantes, pouco inteligentes, arrogantes e incapazes de ter bons sentimentos. Mesmo sabendo que estão sendo testados, os jovens sucumbem diante da pressão emocional - alguns choram, outros se tornam agressivos e muitos tentam fugir da situação difícil, baixando os olhos, evitando o diálogo ou até mesmo saindo da sala.

A doutora Jane não perde ocasião para lembrar que negros e latinos (ela está nos Estados Unidos) sofrem muito mais, o tempo todo, e não têm saída em uma sociedade comandada por brancos.

Outro dia acompanhei um exercício semelhante numa palestra sobre comunicação. Cada integrante do grupo que saiu da sala foi instruído a contar uma história para um companheiro que ficou à espera - e este tinha a orientação de não prestar atenção no que o outro falava. Evidentemente, a comunicação não se completou, além do que os encarregados de passar a mensagem aos companheiros desatentos foram tomados de justificada indignação. Ninguém gosta de ser tratado de forma agressiva ou desatenciosa.

A antipática doutora Jane Elliot dá amargas, mas eficientes lições de fraternidade.




Luis Fernando Verissimo
15/05/2003


Interpretando a barba

O Lula de barba preta faria o mesmo governo que faz o Lula de barba branca? Não é conjetura vazia, a resposta tem a ver com várias perplexidades do momento. Se o Lula da barba ameaçadora também se abrandasse no poder e fizesse mais ou menos o que o Lula da barba patriarcal está fazendo, isso significa que a reação radical que recorreu a tudo para que ele não se elegesse antes deve desculpas à nação. São eles os responsáveis pelos 13 anos em que, em vez do Lula no Planalto com dólar e Risco Brasil baixos, bênção do FMI e a esquerda no poder onde pode ser melhor vigiada e controlada, tivemos anti-Lulas, alguns até bastante estranhos, atrasando a nossa vida.

Os próprios banqueiros que tentaram aquela desesperada manobra terrorista com o dólar antes das últimas eleições deveriam hoje estar atirando cinzas de contrição na cabeça. Eles não sabiam o que estavam fazendo e quase puseram tudo a perder! O branqueamento da barba tornou o radical elegível porque representa a sabedoria ou apenas a resignação que vem com o tempo?

Lula é o mesmo, só com uma barba mais confiável, ou mudou junto com a barba, cansou de esperar e concordou em ser ele mesmo o anti-Lula definitivo, o seu próprio antídoto? Não tinha ocorrido à direita brasileira esse modo revolucionário, inédito no mundo, de livrar-se da esquerda: dar-lhe o poder. A direita passou 13 anos tentando evitar o impensável justamente porque não tinha pensado adequadamente a respeito. Ou talvez a protelação da eleição do Lula até que a sua barba ficasse branca é que foi sábia. Um patriciado não mantém suas abotoaduras por tanto tempo na sociedade mais desigual do planeta sendo burro o tempo todo.

Só deixaram o Lula entrar no Planalto quando a armadilha não podia mais ser desarmada, ainda mais por um cordato senhor de barbas brancas. Não existe melhor lugar para a esquerda mostrar suas contradições do que no poder, onde nenhuma coerência dogmática sobrevive por muito tempo, e se junto com a esquerda se entredevorando em público os banqueiros continuam felizes, felizes como nunca, o que mais pode pedir a direita? Lula, pinte a barba. Só para a gente se lembrar como era.


Reportagem Especial
Argentina dá as costas a Menem

Rosane Oliveira
Enviada Especial, Buenos Aires


Foram mais de 24 horas de incerteza até o ex-presidente Carlos Menem confirmar ontem à tarde que renunciava à candidatura à Casa Rosada. O advogado peronista Néstor Kirchner, 53 anos, dá início no próximo dia 25 a uma nova fase de esperança para a Argentina



Propaganda do ex-presidente recebeu faixas com a expressão ¿foste¿ (foto Enrique Marcarian, Reuters/ZH)


Quarta-feira, Maio 14, 2003




Trouxe outra vez o Secretárioo de Educação de São Paulo para esta página, porque gosto de sua sensibilidade, empatia e inteligência. Coloco alguns livros dos 34 já publicados por ele, e no post seguinte está um artigo sobre os professores que, embora longo, acho interessante, até porque minha primeira professora, também faleceu à pouco. Que os céus dos professores a guardem.

GABRIEL CHALITA

Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, doutor em Direito pela PUC de São Paulo, mestre em Direito e em Ciências Sociais pela mesma universidade, bacharel em Direito e Filosofia, membro da União Brasileira de Escritores e autor de mais de 30 livros, Gabriel Chalita também é o atual Secretário de Educação do Governo do Estado de São Paulo. Esta sua obra, em linguagem acessível, fartamente ilustrada e com concepção visual moderna e atraente aborda a história da filosofia em perspectiva histórica, dos pré-socráticos ao iluminismo, analisando em ordem cronológica as contribuições dos filósofos mais representativos de cada período.






LIVRO DOS SONHOS,O
CHALITA, GABRIEL

Não importa que o sonho por si mesmo seja pouco claro. Que a sua morada seja a bruma, a penumbra, a neblina, o crepúsculo e, sobretudo (para os poetas, os loucos e os amantes), o Luar. Que importa que ele habite o enigma? Que importa que se esconda no imo e no silêncio, no desconhecimento, ou no letargo? Ele despertará e virá à tona, à luz e à vida e viverá para sempre, pois que seu apanágio é a imortalidade. O que se pode afirmar é que o sonho é uma antecipação do Futuro, se o considerarmos no Tempo. Uma antecipação da Realidade, se o considerarmos na Essência.

História de professores que ninguém contou (Mas que todo mundo conhece)
Gabriel Chalita

"Os grandes homens e mulheres da ciência, os grandes pensadores, filósofos e humanistas, os grandes artistas de todos os séculos, os grandes esportistas de todos os tempos e, enfim, as personalidades que vivenciaram e escreveram, com seus sonhos e, muitas vezes, com as suas vidas, a História da humanidade, em algum momento tiveram (ou foram influenciados por) educadores que lhes proporcionaram o conhecimento necessário à realização de seus objetivos."

Resgatar a auto-estima dos educadores, elevando-os à condição de artífices da História da Humanidade. Esse é o objetivo do livro Histórias de professores que ninguém contou (mas que todo mundo conhece), do professor e atual secretário de Estado da Educação de São Paulo Gabriel Chalita. A obra presta uma homenagem aos profissionais da educação, reconhecendo seu papel decisivo na formação da cidadania.


O livro reúne catorze histórias que retratam a magia, a dinâmica, os sonhos e as dificuldades inerentes ao exercício cotidiano do magistério. As narrativas conseguem transportar os leitores para um tempo e um espaço especiais e únicos na vida de todos... O primeiro dia de aula, as primeiras professoras, o ambiente escolar, o uniforme, os amores, os dissabores, os medos, os desejos e as expectativas que compuseram toda a nossa trajetória educacional vêm à tona com uma vivacidade que emociona e, ao mesmo tempo, desperta para a importância dos mestres em nossas vidas.

O autor mescla realidade e imaginação num texto sensível, resultante da experiência e das observações perspicazes de quem pratica o magistério desde a adolescência. Com maestria, Chalita expõe aos leitores o complexo e fascinante universo das escolas das redes pública e privada do País. Educadores, alunos, funcionários, pais, avós e colegas de classe se misturam, originando um panorama tão universal quanto peculiar. A velha mestra saudosa e nostálgica, a jovem professora entusiasta e incansável, a servente que ministrava aulas de reforço embaixo da árvore secular, o professor universitário apaixonante e apaixonado, os dramas, conflitos e lutas dos alunos da periferia e do reformatório... Sentimentos e ações convergindo para a fascinante aventura que é a realização plena do binômio ensino-aprendizagem...

Um livro que traz de volta a esperança e a convicção de que, na vida, como diz Fernando Pessoa, "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena".




papel do professor
Gabriel Chalita

"O professor é o grande agente do processo educacional". "A alma de qualquer instituição de ensino é o professor. Por mais que se invista na equipagem das escolas, em laboratórios, bibliotecas, anfiteatros, quadras esportivas, piscinas, campos de futebol, tudo isso não se configura mais do que aspectos materiais se comparados ao papel e a importância do professor".

Quando interrogado sobre a possibilidade do professor ser substituído pelo computador, o professor Gabriel Chalita responde: " O computador nunca substituirá o professor. Por mais evoluída que seja a máquina, por mais que a robótica profetize evoluções fantásticas, há um dado que não pode ser desconsiderado: a máquina reflete e não é capaz de dar afeto, de passar emoção, de vibrar com a conquista de cada aluno. Isso é um privilégio humano".

Desse ponto em diante a entrevista segue como monólogo.

"Pode-se ter todos os poemas, romances ou dados no computador, como há nos livros, nas bibliotecas; pode até haverá possibilidade de buscar informações pela internet, cruzar dados num toque de teclas, mas falta emoção humana, o olhar atento do professor, sua gesticulação, a fala, a interrupção do aluno, a construção coletiva do conhecimento, a interação com a dificuldade ou facilidade da aprendizagem.

Os termos de que a máquina possa vir a substituir o professor só atingem aqueles que não têm verdadeiramente a vocação do magistério, os que são meros informadores desprovidos de emoção. Professor é muito mais que isso. Professor tem luz própria e caminha com pés próprios. Não é possível que ele pregue a autonomia sem ser autônomo;que fale de liberdade sem experimentar a conquista da independência que é o saber, que ele queira que seu aluno seja feliz sem demonstrar afeto. Ninguém dá o que não tem. O copo transborda quando está cheio, o mestre tem de transbordar afeto, cumplicidade, participação no sucesso, na conquista de seu educando; o mestre tem de ser referencial, o líder, o interventor seguro, capaz de auxiliar o aluno em seus sonhos, seus projetos.

A formação é um fator fundamental para o professor. Não apenas a graduação universitária ou pós-graduação, mas a formação continuada, ampla, as atualizações e os aperfeiçoamentos. Não basta que um professor de matemática conheça profundamente a matéria, ele precisa entender de psicologia, pedagogia, linguagem, sexualidade, infância, adolescência, sonho, afeto, vida.

Não basta que o professor de geografia conheça bem sua área e consiga dialogar com área afins como história, ele precisa entender de ética, política, amor, projetos, família. Não se pode compartimentar e contentar-se com bons especialistas em cada uma das áreas.

Para que um professor desempenhe com maestria a aula na matéria de sua especialidade, ele precisa conhecer as demais matérias, os temas transversais que devem perpassar todas elas e, acima de tudo, conhecer o aluno. Tudo o que diz respeito ao aluno deve ser de interesse do professor. Ninguém ama o que não conhece, e o aluno precisa ser amado. E o professor é capaz de fazer isso. Para quem teve uma formação rígida, é difícil expressar os sentimentos; há pessoas que não conseguem elogiar, que não conseguem abraçar, que não conseguem sorrir, o professor tem de quebrar essas barreiras e trabalhar suas limitações e as do aluno.

Não há como separar o ser humano profissional do ser humano pessoal. Certamente o professor, como qualquer pessoa, terá seus problemas pessoais, chegará à escola mais sisudo que o habitual e terá mais dificuldade em desempenhar seu trabalho em sala de aula. Os alunos notarão a diferença e a eventual impaciência do professor nesse dia, mas eles não sabem os motivos da sisudez do mestre e podem interpretar erroneamente.

Exatamente por isso é preciso cuidar para que contrariedades pessoais não venham à tona, causando mágoas e ressentimentos.

Ao enfrentar problemas de ordem pessoal o professor deve procurar o melhor meio para sair do estado de espírito sombrio e poder desempenhar seu trabalho com serenidade. A leitura dos clássicos, o contato com a arte, com a natureza, uma boa terapia, uma reflexão mais profunda sobre a contrariedade por que se está passando pode ajudar muito. Ninguém é mau em essência, como já dissemos, mas um professor descontrolado deve rever seu comportamento sob pena de ser mal interpretado por seus alunos.

Sabe-se que a dificuldade financeira é um obstáculo para a maior parte dos professores deste país, mas não pode servir de desculpa: há numerosos programas culturais gratuitos, há bibliotecas públicas, a natureza está aí e não cobra nada para ser contemplada. Não se trata de ignorar a lamentável situação em que se encontram os professores no que diz respeito aos patamares salariais. Essa classe vem sendo tratada com desrespeito pela grande maioria dos administradores públicos do país. Para obras de cimento e cal há dinheiro, para um salário digno de quem forma o cidadão brasileiro não há verbas. Entretanto, isso não pode ser desculpa para a acomodação, para a negligência ou para a impaciência.

O professor tem o direito constitucional de fazer greve e ninguém pode deixar de respeitá-lo por isso, mas não têm o direito de ser negligente, incompetente, displicente, porque o aluno não tem culpa. Se o problema é com os administradores, eles é que devem ser enfrentados. è melhor entrar em greve, com todos os problemas decorrentes disso, do que ser uma aula sem alma apenas porque não se ganha o suficiente.

Desde os primórdios da cultura grega, o professor se encontra em uma posição de importância vital para o amadurecimento da sociedade e a difusão da cultura. As escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles demonstram a habilidade que tinham os pensadores para discutir os elementos mais fundamentais da natureza humana. Não perdiam tempo com conteúdos engessados. Discutiam o que era essencial. Sabiam o que era essencial porque viviam da reflexão, e a aula era resultado de um profundo processo de preparação. Assim foi a escola de Abelardo, com os alunos quase extasiados pelo carisma do professor pela forma envolvente e sedutora como eram tratados os temas. Sócrates andava com seus alunos e ironizava a sociedade da época com o objetivo de fazê-los pensar, de provocar-lhes a reflexão, o senso crítico. Não se conformava com a passividade de quem acha que nada sabe e, portanto, nada mais há que mereça ser estudado ou refletido.

Jesus cristo, o maior de todos os mestres da humanidade, contava parábolas e reunia multidões ao seu redor, fazendo uso da pedagogia do amor. Quem era esse pregador que falava de forma tão convincente, ensinava sobre um novo reino e olhava nos olhos com a doçura e a autoridade de um verdadeiro mestre? A multidão vinha de longe para ouvi-lo falar, para aprender sobre reino e sobre o que seria preciso fazer para alcançar a felicidade. O grande mestre não precisa registrar as matérias, não se desesperava com o conteúdo a ser ministrado nem com a forma de avaliações, se havia muitos discípulos ou não. Jesus sabia o que queria: construir a civilização do amor. E assim navegava em águas tranqüilas, na maré correta, com a autoridade de quem tem conhecimento, de quem tem amor e de quem acredita na própria missão.

Sócrates e Cristo foram educadores, formaram pessoas melhores. Não há como negar que os numerosos profetas ou simples contadores de histórias conseguiram tocar e educar muito mais do que qualquer professor que sabia de cor todo o plano curricular e tudo o que o aluno deve decorara para ser promovido. Ninguém foi obrigado a seguir a Cristo, não havia lista de presença nem chamada, e mesmo assim a multidão se encantava com seus ensinamentos - ele tinha o que dizer e acreditava no que dizia, por isso foi tão marcante. O professor precisa acreditar no que diz, ter convicção em seus ensinamentos para que os alunos também acreditem e se sintam envolvidos. Precisa de preparo para ir no rumo certo e alcançar os objetivos que almeja.

O professor que não prepara as aulas desrespeita os alunos e o próprio ofício. É como um médico que entra no centro cirúrgico sem saber o que vai fazer e sem instrumentação adequada. Tudo na vida exige uma preparação. Uma aula preparada, organizada, com conteúdo refletido muito provavelmente será bem sucedida. Aula previamente preparada não significa aula engessada: não lhe dará o direito de falar compulsivamente, sem permitir intervenção do aluno, não dialogar com a vida, não dar ensejo a dúvidas; o professor não deixará de discutir outros temas que surgirem apenas porque tem que cumprir o roteiro de aula que preparou. Pode até ocorrer que ele dê uma aula diferente daquela que planejou mas isso é enriquecedor.

Preparação é planejamento. Muito professores fazem planejamento do início do ano de qualquer maneira, apenas para cumprir exigências formais. É lamentável. Se o professor investir tempo refletindo cada item de seu planejamento, sem dúvida terá muito menos trabalho durante o ano para cumprimento de seus objetivos porque planejou, sabe onde quer chegar, sabe o tipo de habilidade que precisa ser trabalhada e como avaliar o processo do aluno.




Mandou o bilhete e foi dormir
mario prata

Sentei-me aqui e comecei a escrever esta crônica sobre os peitinhos.

Peitinhos de mocinhas. Inocentes peitinhos. Estes que elas levam para a rua debaixo de uma camiseta e sem a devida proteção de um sutiã ou, como dizem em Portugal, guarda-seios.

No exato momento que ela se vestiu daquela maneira sabia tudo. Sabia que iam olhar, sabia que com uma pequena variação atmosférica, poderiam ficam um pouco mais rijos e em destaque. Sabia que os homens iriam olhar com variados tipos de observações íntimas. Sabia o que as mulheres mais velhas iriam pensar. Sabia o que o namorado, caso tivesse, iria pensar. Mesmo assim - e talvez por isso - levou os dois seios para o passeio público.

Pois eu estava aqui escrevendo a crônica sobre a menina. Pensando com os meus botões o que teria ela na cabeça, pois no tronco eu sabia. E via. Até sentia. E a menina são várias por aqui onde moro e escrevo. E os seios, em dobro.

Eis que, "de repente, não mais que de repente", como diria o Vinicius, o barulhinho da chegada de um e-mail. Eu não deveria ir lá olhar, tinha que ficar aqui concentrado na minha menina e seu par de seios maravilhosos. Mas fui. Era mais de meia-noite. E recebo, eletronicamente, um lacônico e bem escrito bilhete de um velho amigo dizendo que estava querendo se matar, mas só tinha uma mísera faca de cozinha em casa. E não era brincadeira. O cara estava falando sério. Ligo para a casa dele, quem atende é a secretária eletrônica, com a sua voz rouca. Pensei: foi com a velha faca de cozinha mesmo. Mando um e-mail. Ele não abre. Observo que ele mandou o seu bilhete-suicida para "undisclosed-recipient", ou seja, para várias pessoas.

O aviso era geral. O caso era mais grave do que eu pensava e dos peitinhos que eu analisava.

Eu em Florianópolis, ele no Rio de Janeiro ameaçando que não queria "nem choro nem vela e muito menos uma fita amarela". Esqueço a menina e seus dois seios sem faca, ligo para um amigo comum, o Fernando Morais que, por sua vez, estava no Guarujá. Uma da manhã, conto. O Fernando abre seu computador.

Tava lá a mesma mensagem. Diz que vai acionar alguém no Rio de Janeiro.

Acordo a minha editora no Rio que, assustada, vai ligar para outro amigo comum. Alguém tem que ir até a casa dele. Da meia-noite até umas 3 da manhã, os e-mails começaram a rodar pelos ares, os telefones a tocar. Foi o Eric quem conseguiu falar com o filho dele. O suicida estava dormindo. Mas está dormindo mesmo? Alguém cutucou? Estava. Mandou o bilhete e foi dormir.

Xingamos o cara. Isso não se faz com os amigos. Queria se matar, escreveu o texto, passou o pepino pra gente e foi dormir. Resolvi ir dormir também. Mas me lembrei da menina dos peitos livres e da crônica. Voltei para o word.

Mas voltei agora com dois problemas. O que faz a menina não usar o sutiã e o que faz um amigo que avisa que vai se matar e não se mata? Conclusão óbvia.

Os dois querem chamar a atenção, os dois estão pedindo que olhemos para eles. Os dois estão procurando amigos. Tanto ela, como ele, querem ajuda.

Os dois merecem uma crônica. Os dois não me deixaram dormir mais. Amigo é pra essas coisas.

Meu amigo acaba de me ligar pedindo desculpas pela aporrinhação. Mandei ele para aquele lugar. Quanto à menina, ainda não telefonou. Nem um e-mail me enviou. Quem sabe, mais tarde, né? Quando estiver mais frio e a vida aflorar com mais firmeza na cabeça, no tronco e nos membros das minhas jovens amigas e meus velhos companheiros.

E, para se suicidar, meu amigo, tem que ter muito peito!




Fragmento 5


Tanto mais eu te comtemplo
tanto mais eu me absorvo
e me extasio

Como te explicar
o que em teu corpo eu sinto,
o que em teus olhos vejo,
quando nua nos meus braços
no meus olhos nua,
de novo eu te procuro
e no teu corpo vou-me achar?

Como te explicar
se em teu corpo eu me eternizo
e de onde e como
sendo eu pequeno e frágil
pelo amor me dualizo?

Tanto mais eu te possuo
tanto mais te tornas bela,
tanto mais me torno eu puro.

E à força de tanto contemplar-te
e de querer-te tanto,
já pressinto que em mim mesmo
eu não me tenho,
mas de meu ser, ora vazio,
pouco a pouco fui mudando
para o teu ser de graça cheio.

Affonso Romano de Sant'Anna




Balada dos Casais

Os casais são tão iguais,
por isto se casam
e anunciam nos jornais.

Os casais são tão iguais,
por isto se beijam
fazem filhos, se separam
prometendo
não se casarem jamais.

Os casais são tão iguais,
que além de trocar fraldas,
tirar fotos, acabam se tornando
avós e pais.

Os casais são tão iguais,
que se amam e se insultam
e se matam na realidade
e nos filmes policiais.

Os casais são tão iguais,
que embora jurem um ao outro
amor eterno
sempre querem mais.

Affonso Romano de Sant'Anna




Depois do diploma...
Chegou a vez das certificações ganharem destaque no mercado de TI
Mylène Neno


Você finalmente acaba de pegar seu diploma após alguns anos de estudo nos bancos da faculdade. Isso sem contar com o período do cursinho, que ajudou a superar aquele vestibular difícilimo. Agora você só quer mesmo é comemorar, né? É melhor pensar bem, formando. Principalmente se você garantiu um canudo em uma das carreiras da área de TI. A velocidade da renovação da tecnologia é tão vertiginosa que agora até o diploma ganhou uma versão, digamos, mais hi-tech. Hoje em dia se, além do tradicional diploma, o profissional contar com o chamado canudo de silício tem mais chances no mercado de trabalho.

Mas o que é esse canudo de silício? É a certificação, um documento avalizado pelo fabricante de determinado software que comprova o conhecimento técnico do profissional sobre uma tecnologia específica. Cada vez mais as empresas sentem necessidade de mão-de-obra extremamente qualificada. A certificação é a prova de que o profissional é qualificado, é uma garantia de sua qualidade técnica, explica a gerente de marketing de Treinamento e Certificação da Microsoft Brasil, Luciane Galuppo.

O império de Gates, aliás, é um dos que vem investindo bastante nessa área de treinamento e certificações, oferecendo sete carreiras e dezenas de exames oficiais. Desde 1994, a MS já expediu mais de 12 mil certificações em produtos ativos e espera contabilizar esse ano mais de três mil formados em todas as áreas até o final de junho. As certificações vão proporcionar empregos e salários mais atrativos, mas não é só isso que garante a contratação, diz.

O alto custo inicial já que um curso preparatório para esses exames custa em torno de R$ 2 mil e cada prova sai por aproximadamente US$ 80 é visto na maior parte das vezes como um investimento. Depois de um ou dois meses trabalhando, o profissional consegue recuperar o valor investido. Mas aproximadamente 40% dos nossos cursos e exames são pagos por empresas, que investem na própria equipe¿, garante a executiva.

Para o diretor do Infnet, Andre Kischinevsky, esse valor gasto é muito barato em relação aos benefícios obtidos.




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Deu overbook no Cadeião de Pinheiros!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! A onda agora é decorar nome de bandido: Beira-Mar, Baturé e Baianinho! Pegaram o Baturé no Habibs. No Habibs? Mas não era o Saddam que tava escondido lá? Diz que o Baturé tava comendo esfirra com os amigos. E levou um quibe! Taí uma boa manchete: 'Bandido foi comer esfirra e levou um quibe'. Aí eu contei prum taxista: 'O Baturé foi preso no Habibs'. E ele: 'Ô esfirra cara!'.

E eu já sei como pegaram o bandido. Como a esfirra do Habibs é a mais barata do planeta (R$ 0,45), todo mundo vai comer lá: polícia, bandido. E aí se encontraram! E diz que o Baturé ia ser levado pro Cadeião de Belém mas não tinha vaga. Não tinha vaga? É alta estação? Tava dando overbook no Cadeião de Belém! Rarará. É mole? É mole mas sobe!

E três notícias que abalaram o planeta: 'Caso Pedrinho, Vilma Martins é presa em Goiás e vai pra UTI'. Espero que a UTI seja bem longe do berçário! Rarará! Segunda notícia: 'Golpe na Colômbia, ladrão saca R$ 12 mil com cartão do presidente'. Então não é roubo, é restituição! E o presidente quer que o cara seja perdoado. Já sei, cem anos de perdão!

Pior, o ladrão encontrou na carteira do presidente o número da senha pra fazer os saques. Merece! E ainda quer governar a Colômbia! Rarará! E alguém especialista em sofisticação sexual pode me explicar o que significa esse anúncio: 'Bianca e Luana, fazemos café com leite, pão na chapa, prazer total'. Eu tô louco pra fazer pão na chapa! Só não sei como!

Favela da Rosinha Urgente! Diz que agora tem boca de droga nas universidades! Pra consumo interno! Então se alguém estiver procurando um tema pra pesquisa de mestrado, sugiro: 'A influência do fumacê na educação universitária'. E aí o pai pergunta pro filho: 'Como é que tá a faculdade, meu filho'. 'UMA DROGA!'. Rarará! E o pai: 'Tá aprendendo o que na faculdade?'. ' Introdução ao Crack, História do Narcotráfico e Seminários de Cocaína avançada' O Garotinho investiu muito na educação. O Beira-Mar também!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um delegado declarou na Eldorado: 'O Baturé estava envolvido na facilitação de fuga de 120 jovens em confronto com a lei'. Tucanaram os pivetes. Tucanaram os de menor! Rarará!

Socorro! Tá mais fácil acabar com a pneumonia asiática que com o tucanês! Atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Quilate': companheira Michele, a cachorrinha do Lula. Nóis sofre mas nóis goza! Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Email simao@uol.com.br




Joelmir beting
Quarta-feira, 14 de maio de 2003


Asas de chumbo

O sufoco da aviação comercial brasileira tem como único consolo a encrenca de igual calibre que joga areia nas turbinas das 267 companhias que exploram linhas internacionais em todo o mundo.

Com sobras de crise sistêmica para a maioria das 502 operadoras de alcance doméstico.

Tem-se por esses números que o lado da oferta está inchado para um negócio que teria de voar quase lotado, de preferência. Ou com pelo menos dois terços de ocupação, por sobrevivência. Claro, sem guerra tarifária canibalesca, mero subproduto da superoferta.

Um modelo anacrônico para um negócio de capital intensivo, em processo de evolução tecnológica continuada. Com um paradoxo a bordo: as novas tecnologias de operação na terra e no ar e de manutenção de frotas e instalações e de reposição de equipamentos e sistemas estão encarecendo a unidade de produto ou serviço.

Diferentemente do que ocorre em quase todos os demais setores da economia moderna - que se permitem realizar produtos e serviços cada vez melhores a custos e preços cada vez menores. Ou a custos e preços pelo menos estáveis.

A crise do setor emergiu na crista da onda de transformações em cadeia:

desregulamentação dos mercados e respectivas reservas, choques encavalados de competição, ondas montantes de modernização, esgotamento de subsídios oficiais, fim da era do combustível barato... Fechando a roda: terrorismo ubíquo e pneumonia bíblica deixando em terra um terço ou mais da demanda já reprimida.

Para analistas britânicos do setor, ouvidos pela The Economist, o coronavírus que ataca o mercado alado não é a falta de competição, DNA da acomodação. Bem ao contrário, é o excesso de concorrência.

A maior do mundo, a American Airlines, detém apenas 7% do mercado global.

No primeiro quadrimestre, perdeu na operação do negócio US$ 10 milhões por dia. Demitiu meio mundo, incluído o presidente.

Com as duas asas na inadimplência, o novo titular, Gerard Arpey, tenta renegociar com os credores o que já havia sido renegociado em janeiro. Os investidores não mais colocam dinheiro no setor. Juntas, as 10 maiores companhias americanas totalizaram, em abril, US$ 3,2 bilhões em valor de mercado. Em bloco, elas devem na praça US$ 103 bilhões.

Desde 11 de setembro de 2001, o dia que ainda não terminou, queda acumulada de 36% na demanda mundial de passagens aéreas. Claro, incluídos os efeitos da desaceleração do PIB global de 3,1% para 1,6% ao ano neste triênio 2001/2003.

SECOS & MOLHADOS

Mamutes - Um Jumbo da Boeing, com ou sem leasing, não sai da linha de montagem de Seattle por menos de US$ 250 milhões. Do tamanho do "capital cost" que a Volkswagen depositou na fábrica de caminhões em Resende, RJ. A heráldica KLM vale em bolsa US$ 410 milhões. Ou menos de dois Jumbos.

Da fusão - Com a fatura de quatro Jumbos dá para cimentar a fusão da Varig com a TAM, avaliada pelo banco Fator em exatamente US$ 1 bilhão no novo aporte de capital. Em tempo: o passivo da Varig já está em US$ 2,2 bilhões.

Sem cura? - O renomado Robert Crandall, ex-chairman & CEO da American Airlines, disse outro dia em conferência de consultoria: "Existe algo de fundamentalmente errado numa indústria irremediavelmente incapaz de recuperar seu capital cost a médio ou a longo prazo." Boeinnng!




Primeiro trimestre com as férias, carnaval, evidente que não é representativo, mesmo assim o lucro do BB foi de quase quinhentos milhões, o que dá uma tendência de neste ano repetir o lucro relevante do ano passado. Enquanto isso os bancários, estão diminuindo, também pudera, você vê alguém hoje que se forme para ser bancário?.

Empresas
Banco do Brasil tem lucro de R$ 479 milhões

O Banco do Brasil (BB) lucrou R$ 479 milhões no primeiro trimestre deste ano, apresentando rentabilidade de 21,3% em relação ao patrimônio. O resultado teve aumento de 37,2% em relação aos R$ 349 milhões de igual período de 2002. O lucro corresponde a R$ 0,65 por lote de mil ações. Com o resultado, o BB ultrapassou o Unibanco e é o quarto no ranking de lucros no período, entre as instituições que já divulgaram resultados. O BB ficou atrás do Banespa, que teve resultado positivo de R$ 830 milhões, do Itaú (R$ 714 milhões) e do Bradesco (R$ 508 milhões).

Segundo o vice-presidente de Finanças do BB, Luiz Eduardo Franco de Abreu, contribuíram para o bom desempenho da instituição, a valorização dos títulos públicos, as receitas obtidas com intermediação financeira e as tarifas cobradas por prestação de serviços.





Paulo Sant'ana
14/05/2003


O monopólio da violência

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse anteontem no Programa do Jô que o Estado detém o monopólio da violência.

É o chamado jus cogendi, o direito à força, que pode ser empregado pelo Estado para a manutenção da ordem.

E creio que também para cumprimento de ordens judiciais, o que afinal vem dar na mesma coisa.

Por isso é que se vê, no Brasil e em todo o mundo, a polícia baixar o cassetete em populares nas manifestações de rua. Por sinal, eu sempre disse que polícia só bate em manifestantes em países democráticos.

Porque nos países totalitários ou autoritários a polícia bate nos cidadãos em ambientes fechados ou nas masmorras.

O ministro Bastos é tido como um dos maiores criminalistas do país. Declarou no Programa do Jô que vendeu todas as ações do seu escritório, assinou 1,1 mil renúncias a processos que estavam a seu cargo, e foi ser ministro da Justiça, pois perdeu três eleições com Lula e não poderia na quarta, vitorioso, recusar-se a participar do governo.

Pareceu na entrevista ser um homem sensato e respeitador da lei. Quando Jô Soares sugeriu que as prisões federais para bandidos perigosos fossem construídas em lugares distantes, como a Ilha de Fernando de Noronha, por exemplo, o ministro disse que a lei não permite isso, já que os detentos têm direito a visitas e a ficarem reclusos em lugares próximos de seus familiares.

Eu não sei se esse princípio do Direito de que o Estado tem o monopólio da violência não tem exceções. Tenho dúvidas.

Porque a lei concede o direito à violência, por exemplo, a todas as pessoas que estão sob ameaça de agressão, a si ou a outrem, no caso da legítima defesa.

E há também um artigo do Código Civil que permite à pessoa que está tendo esbulho possessório em sua propriedade agir com energia e violência para coibir a invasão.

Mas esta é uma discussão acadêmica, só que me ocorreram essas duas prováveis exceções ao monopólio da violência do Estado.

Está de tal jeito o Brasil, com os traficantes cariocas avançando pelo terrorismo civil e dominando vários territórios da capital carioca, os surtos impressionantes de assaltos em Belém do Pará e em outras capitais brasileiras, que não há monopólio da violência do Estado, mas sim um oligopólio da violência.

No sábado, impossibilitado por amolação na saúde de comparecer ao casamento da filha de meu amigo ex-deputado Jorge Uequed, senhorita Gisele Uequed, com o jovem Augusto Timm, estou mandando daqui os meus votos de perenes felicidades aos noivos e seus pais.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Martha Medeiros
14/05/2003


Vá ao teatro

A piada é conhecida, costuma ser estampada em camisetas: vá ao teatro mas não me chame. Pra muita gente, teatro é o supra-sumo da xaropice. Não tem efeito especial, não tem edição, não dá pra locar e assistir em casa. Teatro nada mais é do que pessoas interpretando um texto ao vivo. Realmente, pode ser um pé. Ou deslumbrante.

Hoje vou menos ao teatro, mas já fui tanto, tanto, que não me sinto em atraso. Tive oportunidade de ver peças magníficas, de estar a poucos metros de Tônia Carrero, Fernanda Montenegro e Marília Pêra interpretando textos de Shakespeare, Fassbinder, Millôr Fernandes, Dario Fo. O teatro já me mobilizou, já fez eu repensar minha vida, já me fez rir e me fez ficar com uma bola na garganta. É uma troca de energia muito intensa, o palco é como um templo, um lugar de reverência, para mim mais tocante que uma igreja.

Na minha adolescência, Bailei na Curva, School´s Out e o grupo de bonecos Cem Modos foram os espetáculos mais marcantes. Depois disso veio Trate-me, Leão, a que assisti sei lá quantas vezes, fiquei possuída. E olha que era um elenco de iniciantes, uns tais de Regina Casé, Luís Fernando Guimarães, Patrícia Travassos e Evandro Mesquita, uma molecada carioca. Em seguida vi Capitães de Areia, de Jorge Amado, com outro grupo de amadores, liderados por uma menina chamada Bianca Byington. E dali a uns dias assisti a uma peça com outras duas garotas de que ninguém tinha ouvido falar. A peça chamava-se Recordações do Futuro, e as garotas eram Débora Bloch e Andréa Beltrão. Tudo sensacional. Tudo gente estreando. E eu estreando junto como platéia. Em tempo: foi ontem.

Vi também Antônio Abujamra, Paulo Autran, Antônio Fagundes, Beatriz Segall, Henriette Morineau... Cruzes, eu vi Henriette Morineau numa montagem de Ensina-me a Viver. E mais um grande elenco de notáveis, bem ali, ao alcance dos meus olhos. Como é possível não gostar de ser testemunha de um artista realizando sua arte ao vivo? Eu gosto muito, e desgosto também, porque teatro pode, sim, ser chatérrimo, mesmo quando é sucesso de crítica e público. O musical Cats, que o mundo inteiro aclamou, achei de cortar os pulsos.

Eu nunca imaginei que meu trabalho um dia subiria ao palco, mas alguns textos meus acabaram sendo dramatizados em 2000, e serão outra vez, pelo mesmo grupo, a partir da próxima sexta, na peça Almas Gêmeas. Não é nenhum Nelson Rodrigues, mas pode vir a ter pra você o mesmo significado que tantas peças tiveram pra mim, pode despertar em você uma religiosidade diferente, pode ajudar a apurar seu senso crítico. Vale a pena deixar um pouco de lado a televisão e assistir a pessoas interpretando textos na sua frente, correndo riscos, expondo-se à sua vaia e ao seu aplauso. No mínimo, isso: a gente sempre sai do teatro se sentindo importante.
martha.medeiros@zerohora.com.br




José Fogaça
14/05/2003


Perfis de coragem negra

Foi suando em bicas que cheguei ao bairro negro de Inglewood, em Los Angeles da Califórnia, naquele fim de tarde de 1976. Já então era impossível dominar, a pé, a fragmentada geografia da cidade e sua gigantesca dispersão horizontal. Nada, no entanto, me impediria de realizar o que me havia proposto: assistir a Kareen Abdul Jabbar, nascido Lewis Alcindor, completamente desconhecido no Brasil, simplesmente o maior fenômeno da história do basquete americano. Vê-lo em quadra, no auge dos seus 20 anos, numa época em que não havia transmissões por satélite, fez daquele dia um dia único e inolvidável.

Vinte anos se passaram, e o acaso me fez cair às mãos um livro extraordinário: Perfis de Coragem Negra. Seu autor: Kareen Abdul Jabbar.

Infelizmente nunca publicado no Brasil, Perfis de Coragem Negra defende vigorosamente a tese de que os exemplos individuais jogam um papel importante na luta pelo rompimento do círculo fechado de pobreza e baixa auto-estima vigente nas comunidades negras. Na verdade, a diferença entre as crianças negras e os filhos de brancos está em que estes possuem exemplos a partir dos quais podem projetar suas perspectivas de vida, seus planos profissionais, suas aspirações e seus sonhos. No mundo dos brancos, bem ou mal, há uma elite, que cumpre o importante papel de modelo e estímulo às novas gerações. As quotas obrigatórias para o ingresso de estudantes negros nas universidades existem justamente para isso: para a formação de uma elite, cujo papel será o de encorajar os jovens a buscarem com seu esforço pessoal o caminho da realização e de suas próprias conquistas.

Os partidos políticos e os intelectuais progressistas no Brasil sempre torceram o nariz a essa tese, sob a alegação de que a afirmação da cidadania negra teria que se dar coletivamente, no bojo de uma grande transformação social para todos, não apenas para alguns. O sistema de quotas não seria mais do que um movimento de sedução e cooptação pelo "establishment".

No entanto, hoje, fruto da política de discriminação positiva, existe uma classe média negra socialmente significativa nos Estados Unidos, constituída de intelectuais, artistas, diretores de cinema, músicos, juízes de direito, médicos, políticos, engenheiros, esportistas, empresários, comunicadores e jornalistas - que ainda não existe no Brasil.

Os lances notáveis que vi saírem dos braços longilíneos e das mãos mágicas de Kareen Abul Jabbar, naquele longíquo dia de 1976, mudaram minha forma de entender o basquete e o esporte. Mas foi seu livro que me fez mudar a forma de compreender a luta pela igualdade racial no mundo.
jose.fogaça@zerohora.com.br




David Coimbra
14/05/2003


Eu e a morena

Foto(s): Arte/ZH

O certo, certo mesmo, era a gente ter trilha sonora. Para cada momento, uma cortina musical. Ou pelo menos para os momentos importantes. Encontro aquela morena de olhos amendoados, meu coração sai correndo peito acima, tumtumtumtum. Aí ataca um Chico Buarque, de preferência na voz do Caetano:

Morena dos olhos dágua
Tira seus olhos do mar
Vem ver que a vida ainda vale o sorriso
Que eu tenho pra lhe dar.

Muito mais romântico. Muito mais chances eu teria com a morena.

Ou então meu dentista, o doutor Ramão, vem se aproximando com o alicate, disposto a arrancar meu siso incluso como se ele fosse uma erva daninha. Tema do Tubarão: Tan-tan, tan-tan, tan-tan, tan-tan!

Ou quando recebo a bola na ponta, ali no futebol sete, uso toda a minha habilidade para aplicar um rabo-de-vaca no marcador, derivo em diagonal rumo à área, velocidade alucinante, a defesa em pânico, e começa a música do Canal 100:

Que bonito éééééééé...

Legal.

Os jogos de futebol, se tivessem trilha sonora, seriam de muito mais fácil compreensão. O Inter, mais do que os outros times, necessitaria desse recurso. Porque o Inter é um time complicado de se entender. Às vezes luminoso, às vezes cômico. Por exemplo, o jogo contra o Goiás. O primeiro tempo vibrante, elétrico, de combinações de jogadas no meio e no ataque, seria embalado pela Linha de Passe, da velha e saudosa dupla João Bosco & Aldir Blanc, apesar de o Aldir Blanc ser vascaíno:

Já era a Tirolesa, o Garrincha, a Galeria,
A Mayrink Veiga, o Vai-da-Valsa, e hoje em dia
Rola a bola, é sola, esfola, cola, é pau a pau,
E lá vem Portelas que nem Marquês de Pombal.
Mal, isso assim vai mal, mas viva o Carnaval,
Lights e sarongues, bondes, louras, King-Kongs,
Meu pirão primeiro é muita marmelada,
Puxa-saco, cata-resto, pato, jogo-de-cabresto
E a pedalada quebra outro nariz,
Na cara do juiz.
Aí, há quem faça uma cachorrada
E fique na banheira, ou jogue pra torcida,
Feliz da vida.

Genial, não é mesmo? É realmente uma pena que o Aldir Blanc seja vascaíno.

Agora, e o jogo contra o Guarani? Qual seria a trilha do jogo contra o Guarani? Arrisco a introdução: E agora, mais um show de bom humor e gargalhadas com o trio mais biruta da Terra! E toca a característica dos Três Patetas: Ná-ná-ná Ná-ná Ná-ná-ná...

Só assim para entender aquele jogo. Sim, senhor, tudo ficaria mais fácil de ser assimilado, se a vida viesse com trilha sonora.

Sábado à noite
A generosidade das mulheres é comovente. Recebi dezenas de convites para ir ao cinema, depois do texto de sexta-feira passada. Naquela coluna, contei sobre uma incursão solitária que fiz ao cinema num sábado à noite. Todos os convites foram de fato tentadores, mas o que mais me enterneceu, confesso, foi o da dona Ilka, do Morro Santana.

Dona Ilka ligou aqui para a Redação, disse que é uma senhora já de alguma idade e contou que está com uma doença que a impede de se locomover. Não tem condições, portanto, de ir ao cinema.

Mas tu podes vir aqui em casa ver TV comigo no sábado à noite ¿ acrescentou a dona ilka. Vai ter um café esperando por ti.

Puxa vida, obrigado, dona Ilka!

A salvação do Brasil
Como é que o crime organizado consegue ser assim tão organizado? Tudo funciona com precisão japonesa, no crime organizado. A distribuição de drogas é perfeita nenhum consumidor fica sem fornecimento, se dispõe de dinheiro para pagar pela mercadoria. A segurança é exemplar todos têm seu fuzil AR-15, com farta munição. O sistema de comunicação tem a eficiência de uma CNN o morro inteiro é avisado quase que instantaneamente, quando a polícia está nas imediações.

O crime organizado pode ser considerado uma prova cabal da elevada capacidade de planejamento do povo brasileiro.

O que me leva a concluir que o crime organizado talvez seja a solução de todos os nossos problemas. A começar pelo futebol. O futebol brasileiro é uma charneca desorganizada, uma bagunça pastosa na qual os clubes patinam de jogo a jogo. Tem o maior potencial do mundo, mas funciona tropegamente por conta da desorganização. Por que não colocamos os líderes do crime organizado no comando do futebol? Já estou vendo os calendários qüinqüenais, os campeonatos todos patrocinados, começando e terminando placidamente e, se algum clube recorresse à Justiça Comum, a execução sumária de seus presidentes. Que maravilha. Fernandinho Beira-Mar para presidente da CBF!

Bom, mas se quiserem acabar com o crime, também tem solução: é só colocar os cartolas da CBF nas favelas do Rio. Aí vai ser o caos, aí vai ser o crime desorganizado.
david.coimbra@zerohora.com.br


Oriente Médio
Al-Qaeda volta a matar



Rede de Bin Laden é acusada de atentado que matou pelo menos 29 na Arábia Saudita
Quatro explosões estremeceram Riad na noite de segunda-feira, estabelecendo um clima de tensão na cidade, conforme relatou por telefone a ZH o embaixador do Brasil no país, Luiz Sérgio Gama Figueira (foto Ali Fraidoon, AP/ZH)


Terça-feira, Maio 13, 2003




Livro conta 8 histórias de sucesso

Sebrae/RJ publica estudo de universitários com casos bem-sucedidos de pequenas empresas
Silvana Caminiti


A história de sucesso de oito pequenas empresas fluminenses virou livro. Editada pelo Sebrae/RJ, a publicação foi lançada na última sexta-feira na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ). Os exemplos que constam do livro Oito Casos de Sucesso da Pequena Empresa foram selecionados e relatados por alunos de graduação da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), Ibmec Educacional e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os estudantes participaram da Jornada de Casos da Pequena Empresa, realizada no ano passado pelo Sebrae, em parceria com a Associação Comercial do Rio.

Na Jornada, experiências de sucesso das empresas atendidas pelo Sebrae são objeto de estudos desenvolvidos por universitários fluminenses, a partir de metodologias utilizadas pelas Universidades de Babson e Harvard.

O objetivo é estimular nas universidades o estudo de casos de micro e pequenas empresas que representem a realidade brasileira. ¿Para o meio acadêmico, principalmente nos MBAs, é importante que os estudantes tenham acesso aos casos brasileiros e não aos cases multinacionais, como ainda acontece nas salas de aula¿, explica o diretor-superintendente do Sebrae/RJ, Paulo Mauricio Castelo Branco.

Ele lembra que o livro contando a história das oito empresas será distribuído gratuitamente a alunos, professores e reitores de universidades, e também para as empresas que constam da publicação. ¿Para quem quiser comprar, vale lembrar que parte da edição estará à venda nas livrarias das universidades e nas unidades de atendimento do Sebrae¿, comenta Castelo Branco.

Sebrae: 0800-782020, http://www.sebraerj.com.br




Bom, como a BRASILTELECOM, continua sem consertar minha linha de ADSL a quase uma semana, prometi a mim mesmo não me irritar e deixar assim as coisas acontecerem. Vamos verificar se quando chegar a conta efetivamente eles vão reduzir todos os pulsos gastos com linha discada. Mas simplesmente prometem de vir e não vem, sábado me deixaram plantado toda a manhã e nem noticias. Ontem fui trabalhar e eles disseram que o local estava fechado. Só que haviam pego meu celular e meu telefone, então acho que já é um pouquinho de má vontade mesmo.

Mas acontece que é linha física, na rua cuja terceirizada afirma que já concertou, só que o sinal continua intermitente. Aí eles querem é testar o meu modem. ora bolas, aí vão comprovar que não é o modem e vão ter que voltar para sanar o defeito físico e assim vai passando o tempo. Legal, não, enquanto isso o Terra não quer saber, eles estão provendo se não usa, paga igual.

Fiquem ai com o Macaco Simão e uma boa terça-feira para nós todos.

José Simão
simao@uol.com.br


Fome Zero! O povo vai comer égua!

Buemba! Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Os criadores gaúchos foram se encontrar com o Lula e deram uma égua pro Fome Zero! Uma égua? Ops, um vale-égua! E o povo vai comer égua? Espero que não seja a egüinha pocotó. Aí vai ser a eguinha mocotó. Mocotó. Mocotó! Mocotó! E o Lula tá tão gordo que vai descer a rampa rolando. Rarará! Aliás, sabe o que é 'preto e branco e preto e branco e preto e branco'? Uma freira rolando a escada! Rarará!

Favela da Rosinha urgente! E claro que o Rio está sem controle, o Beira-Mar tá em São Paulo. E o Beira-Mar tá tão obeso que vai ser mandado prum spa de segurança máxima! E o Garotinho não tá fazendo lhufas! A Rosinha deve estar decepcionada. Vai mandar o Capitão Bolinha dormir no sofá da sala. 'Bolinha vai pra caixa e não solta pêlo.' 'Bolinha, um mês sem jogar videogame.' E a violência nas universidades? Uma mãe contou pra outra: 'Estou superpreocupada com a segurança do meu filho'. 'Ele se meteu com drogas?' 'Não, ele passou no vestibular.' Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

Buemba 2! Demi Moore está sendo processada por assédio sexual! Ela contratou um cara pra tomar conta da cachorra dela e acho que o cara não gostou da periquita dela. Diz que ela o assediou e está pedindo milhões de dólares. Como disse um amigo meu: 'Quero ser assediado pela Luma, não cobro um centavo e ainda tomo conta da cadela Daisy!'. Esta foi demais: adestrador de cachorro é alérgico a periquita. Em represália, ela devia processá-lo por ATÉDIO sexual!

E as chinesas estão usando sutiã como máscara anti-gripe. Se fosse no Brasil, iam acabar botando silicone no nariz. E esta outra notícia aqui: vereador do PT em Esperantina no Piauí criou o Dia Nacional do Orgasmo! E o slogan é 'Fome Zero, Orgasmo Dez'. Eu prefiro o slogan da minha amiga: 'Eu não quero só comida, eu quero SER comida'. No Piauí!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um amigo meu estava na avenida Presidente Vargas em Belém do Pará quando viu a placa: 'Cultura Usada, Livros e LPs'. Tucanaram o sebo! E olha este anúncio num jornal em Porto Alegre: 'Gluteoplastia, harmonização do contorno corporal'. Tucanaram a plástica na bunda! Temos que chamar o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês. Que tá pior que praga de sogra: a véia morre, e a praga continua!

Atenção! Cartilha do Lula! Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Contra-regra': anarquista. Vulgo Heloísa Helena. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza.

email simao@uol.com.br




Joelmir beting
Terça-feira, 13 de maio de 2003


Dinheiro no interior

Balanço do agronegócio no primeiro quadrimestre do ano, cotejado com o mesmo período do ano passado: 1) aumento de 19% na colheita de verão; 2) aumento de 31% no valor exportado; 3) aumento de 41% no saldo externo apurado.

A nova safra de grãos, já nos rescaldos, deve ficar ao redor de 115 milhões de toneladas. O ministro Roberto Rodrigues calcula que haverá empenho ainda maior para o ano-safra 2003/2004. Não se afasta a hipótese de uma expansão de até 10% no próximo plantio. Menos por ampliação de área ou de fronteira e mais por aporte maior de insumos modernos nos espaços já cultivados.

Não é para menos. Nesta altura do calendário, grandes e médios produtores e valentes cooperativas de produção desfilam um coeficiente de capitalização bem acima da média histórica do setor.

Ou seja: o dinheiro está rolando solto em quase todas as cadeias de valor do agronegócio. A tal ponto que o grosso do replantio e do custeio, a partir de agosto, deve ocorrer com o cacife dos recursos próprios. Ou como costuma dizer Gilberto Adrien, que é do ramo: "O lucro ainda é o melhor adubo da terra."

Que o diga o complexo descomplexado da soja. Cultura intensiva de tecnologia, com índices de produtividade já acima dos americanos e argentinos, a soja totaliza, no quadrimestre, aumento de exatos 88% no seu faturamento lá fora.

Mais até que outras commodities de exportação, ela desfruta de um triplo toque de Midas: a) elevação do preço lá fora; b) valorização do dólar aqui dentro; c) dolarização dos derivados no mercado interno (em 2002, o óleo de soja subiu 72% no varejo). Esta nova colheita deve furar a barreira de 50 milhões de toneladas, cerca de 20% acima do festejado ano-safra anterior.

O novo recorde da soja não ofusca a nova façanha do milho. Com a colheita de verão já encerrada e com esta safra recorde de repique, vulgo safrinha, o milho promete perto de 43 milhões de toneladas. Mas já purgando, até por causa disso, queda nos preços de até 25%. Bom para a ração do porco, do frango, do leite, da carne... Pois os embarques das nobres proteínas animais cresceram 23% no quadrimestre, atraindo exatamente US$ 1 bilhão. Algo parecido com dois terços de tudo o que Brasil gastou, de janeiro a abril, na importação de alimentos.

A acomodação do dólar na bitola de R$ 2,90 a R$ 3,10 é hoje a base do planejamento do agronegócio para o ano-safra 2003/2004. O câmbio já deixou de ser uma festa tipo bolha. E não se deve empenhar o futuro sobre bolha no presente.

SECOS & MOLHADOS

Animação - O mercado global do trio de ferro soja-milho-trigo confia em alta sustentada de preços neste próximo verão do Hemisfério Norte. Na soja, os estoques de passagem dos Estados Unidos são os menores em 25 anos. Na semana passada, o bushel cravou US$ 6,38 para julho - a maior cotação desde 1997.

Elo perdido - O agronegócio brasileiro continuará desfalcado de um regime de crédito rural adequado. Os bancos, BB à frente, estão financiando diretamente menos de um quinto do PIB agrícola. E o seguro rural ainda é meramente residual.

Fechadura - Outro complicador pela proa: a União Européia não está mesmo a fim de rebaixar suas barreiras. E a nova lei agrícola americana vai simplesmente ampliar os generosos subsídios à produção nativa. Dá para competir com o Tesouro americano?




Arnaldo Jabor
Terça-feira, 13 de maio de 2003


Rio pode virar uma Palestina sem causa

Enquanto procurarmos uma solução para o crime no Rio, não haverá solução. Não haverá solução enquanto não entendermos que somos parte do problema - nós, a polícia, a burocracia, a lei, as Forças Armadas, governos central e estadual. Solução é um conceito antigo e obsessivo; só um processo amplo, multidisciplinar, um processo lento, caro, difícil poderá ir melhorando a coisa toda.

São 650 favelas, com mais de 30 mil armas pesadas (calcula-se), aumentando o número cada dia, chegando de barco pela baía, de aviãozinho, de caminhão.

Por trás de nosso atual 'combate ao crime' há um velho sonho burguês de harmonia: riquinhos felizes em suas casas, classe média contente com sua mediocridade e pobres diabos em seu destino de empregados ou escravos, como no tempo de Machado de Assis. Nós ainda falamos dos criminosos como se fossem desviantes de nossa moral, como gente que se perdeu da virtude e caiu no 'pecado', no mundo do mal.

Não se trata mais de crime contra a virtude. Michou. O que surgiu foi uma nova sociedade periférica, feita de fome e funk, de rancor e desejo de consumo. E são estranhas anomalias do desenvolvimento torto e da democracia de massas - há uma terceira coisa crescendo aí fora, como um monstro Alien que se esconde nas brechas da cidade. Mas, mesmo assim, ainda sonhamos com um mundinho limpo, com uma utopia de Ipanema. Dançou, gente boa, 'never more'.

Algum sucesso, algum avanço só virá se desistirmos de defender a 'normalidade' de nosso sistema, pois não há mais normalidade alguma; precisamos é de uma urgente autocrítica de nossa ineficiência.

A nossa secular irresponsabilidade está em questão. Nós é que temos de nos reformar, subverter nossas cabeças, nossas polícias, nossos poderes. A defesa pública está engarrafada numa rede de burocracia corrupta, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência leve e imaginosa do bandidos. Não adianta mais dizer "que horror". Todas as causas da violência sempre estiveram aí, há 100 anos, como uma bomba de retardo, uma mina enterrada. Só agora ficou visível. Ficamos reclamando de quem? Quem culpar? Não sabemos. Xingamos um vago sistema policial e político e sonhamos secretamente com extermínio de favelas, incêndios, bomba atômica contra o tráfico. Queremos acabar com criminosos com mata-baratas, detefon, detergentes. Não há detergente que lave mais branco o Rio.

A verdade é que o Brasil sempre teve a 'cultura do desrespeito' à Lei. Nossa sociedade foi montada na transgressão à ordem, no horror à coisa pública, aos direitos da maioria; somos uma sociedade de contraventores, de sonegadores, de pequenos psicopatas lights do dia-a-dia, uma sociedade de malandros cariocas. Nossa violência difusa, herdeira do escravismo, está nos quartos de empregada, no trato com os pobres, no egoísmo endêmico dos burgueses. Tínhamos de ter dito "que horror" há 50 anos, quando ainda dava para sanear as favelas. Agora é tarde. Isso que está acontecendo é a realidade previsível, não é uma anomalia. Os criminosos estão expondo nossa absurdíssima incompetência, os criminosos estão nos desmascarando. A cocaína despertou nossos narizes e o morro. Nossa consciência demorou, mas agora 'bateu'.

Só que, no meio do caos carioca, os 'bárbaros' operam com mais facilidade do que os 'racionais'. Os criminosos cariocas têm a mesma vantagem dos terroristas - não têm rosto e ninguém sabem de onde vêm. Eles são microempresas privadas, filiais da grande multinacional do pó. Nós somos o Estado incapaz. Eles agilizam métodos de gestão. Eles são rápidos e criativos. Nós somos lentos e burocráticos. Eles lutam em terreno próprio.

Nós, em terra estranha. Eles não temem a morte. Nós morremos de medo. Eles estão no ataque. Nós, na defesa. Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós. Nós os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaços. A droga e as armas vêm de fora. Eles são globais. Nós somos regionais.

E não adianta nomear 'garotinhos', molequinhos, homens-de-ouro, forças-tarefa. Não há macho que resolva isso aí. Tem de haver todo um repensamento profundo para se iniciar um novo processo.

A luta contra o crime não é mais uma luta policial; não é mais a Lei contra o Pecado. Não. O crime cresceu tanto que se tornou um problema de Estado-Maior. Sim. Trata-se de uma luta política, policial-militar. Acho que tem de haver uma séria articulação das Forças Armadas com as polícias. Digo essas coisas e penso: "Quem sou eu, santo Deus, para deitar regras?" Mas, já que ninguém apresenta um programa racional e claro, meto minha colher e acho, sim, que os militares têm de entrar na questão. E não quero dizer que os soldados e recrutas têm de subir morro como polícia, mas que coronéis e generais deviam traçar estratégias conjugando repressão e comunicação, conscientização, juntamente com sociólogos, urbanistas, numa séria e 'científica' campanha de Estado Maior, de cúpula, até com consulta a especialistas estrangeiros. Acho, na minha solidão de cidadão horrorizado, que temos de mudar a atitude de exclusão e de muros.

Temos de entrar nas favelas, não para atacar e matar, mas para integrar. O programa favela-bairro foi das poucas coisas decentes planejadas até hoje.

Como anda? Deveria haver algo assim, com escopo saneador e de dissuasão.

Demora muito? Sim. Mas, se levamos 100 anos armando essa bomba, leva tempo para desativá-la. Seria, em suma, tudo que o Rio e seus governos nunca fizeram.

Será que o Rio vai conseguir se modificar? Espero que sim, senão isso vai virar uma Palestina suja, irreal, uma Cisjordânia endêmica, com um terrorismo sem causa e sem religião de um lado e impotentes Sharons do outro.




No dia do automóvel. dia da Abolição da escravatura - 115 anos e dia do aniversário de minha sobrinha dona Bruna - Nossa dona Bruna já podes fazer a carteira e dirigir por ai hein - mais responsabilidade. Parabéns, saúde, felicidades e que a data multiplique-se umas dez vezes mais.

Moacyr Scliar
13/05/2003


E quem cuida dos médicos?

Quando têm problemas de saúde, 90% dos brasileiros recorrem ao SUS, exclusivamente (29%) ou como complemento ao seguro médico (61%). Mas o que pensam as pessoas acerca dos serviços recebidos? Esta pergunta deu origem a uma grande e oportuna pesquisa, resultante de uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Os resultados fazem pensar.

Como é fácil imaginar, a imagem do SUS não é das melhores. Mas também não é tão ruim quanto poderia parecer. Na verdade, há dois tipos de pessoas que criticam o Sistema Único de Saúde: aqueles que não usam os serviços e falam baseados no noticiário, e aqueles que têm dificuldades em conseguir atendimento por causa das filas - que são, de longe, o principal motivo de queixa. A espera por consultas, ou por exames, ou por internações angustia dois terços das pessoas que recorrem ao SUS. Em comparação, só 2,5% e só 2,9% se queixam da falta de medicamentos e de profissionais, respectivamente.

A fila, então, é a grande barreira. Mas, ultrapassada esta barreira, o que acontece? De novo, temos números impressionantes. O que as pessoas acham melhor é, pela ordem, as cirurgias (80% de usuários satisfeitos), a vacinação (79%) e as internações hospitalares em geral (72%). Nesta lista estão em último lugar as consultas: consultas especializadas, consultas odontológicas e consultas médicas em geral, aprovadas por uma percentagem bem menor: 56%.

E isto deve fazer pensar. Porque a consulta médica prestada pelo generalista representa a porta de entrada para o sistema de saúde. Na unidade ambulatorial de saúde 80% dos problemas poderiam ser resolvidos - sem referência ao especialista, sem internação hospitalar, às vezes sem exames laboratoriais, às vezes até sem medicamentos. Por que não acontece isto? A falta de recursos e de condições de atendimento explica muita coisa, mas a questão é saber se parte do problema não reside na insatisfação dos próprios profissionais.

Basta ver as cartas que muitos deles estão enviando para ZH. "Precisamos trabalhar dominando diuturnamente nossa revolta", diz a doutora Maria Cristina Comiran, num recado à Página 10. Compreensível. Não é fácil enfrentar a doença, o sofrimento, a morte. Alguém poderia alegar que os médicos sabiam disso quando entraram na Faculdade de Medicina, o que é verdade, mas não serve de proteção contra o desgaste emocional que vai se acumulando ao longo dos anos.

É preciso cuidar dos profissionais de saúde, e isto não se traduz apenas em salários condignos, como também em reconhecimento em estímulo para o aperfeiçoamento científico e para a participação no planejamento das ações de saúde. É mais fácil obter satisfação vacinando do que dando uma consulta, mas isto não significa que a consulta tenha de se transformar no calcanhar-de-aquiles do sistema. E, para que a consulta seja boa, o médico deve ter condições. Inclusive emocionais.
scliar@zerohora.com.br




Luís Augusto Fischer
13/05/2003


Os ausentes, os Malavoglia

Ando lendo um romance italiano recém-saído por aqui, pela Ateliê Editorial, chamado Os Malavoglia, de Giovanni Verga (1840 - 1922), em volume que traz também um luminoso ensaio de Antonio Candido. Foi editado na Itália em 1881, ano em que no Brasil saía aquele pequeno milagre chamado Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, contemporâneo quase justo de Verga, eis que viveu entre 1839 e 1908. Não há relação direta entre os dois: enquanto o livro de Machado é cosmopolita no assunto (a vida chique e urbana de um filho das elites brasileiras que jamais trabalhou na vida) e na forma de contar a história (Machado inventou um morto a narrar), Verga trata de gente simples, a família Malavoglia, vivendo em uma colônia de pescadores do jeito que Deus manda e a Virgem permite.

A novidade vem na narração. O autor italiano meteu a gente simples na ficção, contando as coisas de seu jeito, usando formas dialetais de linguagem e repetindo muitas frases feitas e refrões da sabedoria popular. O resultado é perturbador, ainda mais levando em conta a época, aquele período em que os miseráveis eram tratados de cima para baixo, na literatura como na vida, jamais tendo a palavra. (No Brasil, quem primeiro conseguiu esse milagre de modo consistente foi Simões Lopes Neto, na década de 1910, ao dar a palavra a Blau Nunes, que fala em dialeto também, nos geniais Contos Gauchescos.)

Não é fácil a tarefa de escritores que tentam ultrapassar a barreira cósmica entre pobre e literatura. Tomemos o caso bem mais próximo de Paulo Ribeiro, escritor e jornalista, professor da UCS e meu amigo. Dez anos atrás, ele publicou uma novela comovente, Vitrola dos Ausentes (Artes e Ofícios), um impressionante exercício ficcional que dá a palavra a cada um de vários miseráveis, de bolso ou de alma, que moram em certa localidade. É um livro imprescindível, tem 10 anos de existência e - ah, a dureza da vida - não vendeu até agora nem a primeira edição.

O leitor, que é uma alma sensível, vai avaliar o que isso significa. Paulo Ribeiro, parente de pleno direito do italiano Verga, quis fazer falar a toda uma gente cuja experiência de vida nos enriquece na exata medida em que preserva sua singularidade. Paulo botou a linguagem a trabalhar para tal, com competência, e os leitores não se apeteceram. Faz parte? Pode ser. Não é por hoje ser mais um 13 de maio, aniversário da Lei Áurea, que eu digo isso; mas é uma lástima para todos, o Paulo Ribeiro, Giovanni Verga e os pobres do mundo. fischer@zerohora.com.br




Liberato Vieira da Cunha
13/05/2003


O glamour de uma era

O cinema é uma arte múltipla e por isso tão indecisa quanto a condição humana.

Lembrei ontem um filme cujo argumento foi rejeitado duas vezes por cinco grandes estúdios americanos. Aceito enfim pelo sexto, o ator convidado a estrelá-lo pagou US$ 10 mil para não embarcar no que era tido como um previsível fracasso. O produtor detestou de cara o visual da primeira atriz e o novo primeiro astro andava tão envolvido com desventuras domésticas que só topou o papel emburrado, estado de espírito aliás perceptível em todas as cenas.

O sujeito selecionado para crooner não cantava nem tocava piano. O elenco definitivo mostrava-se tão relutante com a trama que teve de ser contratado a peso de ouro. O roteiro estava incompleto: órfão de scripts o diretor ordenou, a certa altura, uma improvisação geral, dos diálogos à tomada seguinte. Ninguém tinha remota noção de como a história terminava, de modo que quase acabou em dois The End, com ameaça de um terceiro. Quem visitasse o set notaria de imediato um tenso clima de difusa infelicidade, segundo narra Otto Friedrich, no excelente City of Nets.

Que filme era esse? Bom, hoje é chamado de Casablanca, o maior dos êxitos cult de Hollywood. Ganhou três Oscar, rendeu fortunas, foi dissecado em teses eruditas, mas nem isso lhe roubou o charme inimitável.

E aqui dou um conselho grátis: se você estiver perdido numa locadora, vacilante entre serial killers, aliens, comédias tolas e a fita búlgara, cheia de acepções herméticas, sugerida por sua amiga radical, escolha Casablanca. O enredo traz um ou dois assassinatos, mas são presos os suspeitos de sempre. O único ET presente é o glamour de uma era hoje arquivada nos museus da Usina de Sonhos. Você se divertirá com um tipo de humor inteligente e clássico. E não terá de decifrar significados ocultos: todos serão explicitamente gloriosos.

Por acréscimo ouvirá Humphrey Bogart (aliás Rick) dizendo a Claude Rains:

- Vim para Casablanca por causa de suas águas.

E o bravo policial de Vichy:

- Águas? Que águas? Estamos no deserto!

E Bogart, acendendo um cigarro:

- Fui mal informado.

Quer ainda mais? Você se apaixonará por Ingrid Bergman. Aquela que, segundo Graham Greene, era a única star com um brilho na pontinha do nariz. A mesma que era capaz de iluminar a tela, dizendo simplesmente:

- Play it, Sam.
liberato.vieira@zerohora.com.br




Paulo Sant'ana
13/05/2003


Antídoto

Conta-me o Kenny Braga que um nosso amigo comum foi a um banco e solicitou empréstimo ao gerente, que consultou o computador para verificar o cadastro do cliente.

Depois de vasculhar o passado registral do nosso amigo, o gerente sentenciou: ¿Não é possível conceder o empréstimo, consta aqui uma dívida sua para com nosso banco¿.

Ao que respondeu o nosso amigo: ¿Evidente. Se eu venho lhe solicitar um empréstimo é porque estou devendo. Se eu não estivesse devendo, não estaria aqui lhe pedindo empréstimo, a essa hora estaria jogando tênis¿.

Essa história é um emblema da maior problemática das diversas faixas da classe média brasileira na atualidade.

É um tal de pega dinheiro lá para tapar aqui que não pára mais. De tal sorte que a maior despesa das multidões são os juros de empréstimos, cheques especiais e cartões de crédito.

Não há dúvida nenhuma de que os melhores clientes em potencial dos bancos, hoje, são os devedores dos próprios bancos.

O gerente da história aí de cima era um desavisado.

Uma das tarefas mais difíceis do cotidiano é inventar antídotos contra chatos.
Conta o escritor Fernando Sabino que o célebre senador Benedito Valadares (do ex-PSD) foi procurado no Senado por um eleitor.

Deu-lhe a atenção proverbial, mas o homem não parava de falar, era uma metralhadora verbal, não permitia sequer que o senador o interrompesse.

E dê-lhe conversa para cima do senador, a quem não ocorria como se livrar daquela enchente verborrágica.

Em dado momento, o senador disse ao homem: ¿O senhor permaneça aqui neste lugar e continue falando, que eu vou atender uma outra pessoa e volto aqui dentro de alguns minutos¿.

Essa história me parece proverbial. Porque uma das características básicas dos chatos é a sua obstinada tendência à ininterrupção.

Tem até o caso de alguém que foi perguntado se com freqüência andava conversando com Fulano. Resposta: ¿Encontro-me com ele todos os dias, mas não tenho conversado, é só ele que fala¿.

Reparem que o senador não cassou a palavra do chato, incentivou-o até a continuar falando, enquanto ia atender outro eleitor.

O que admira no golpe que o senador aplicou no chato é a sua habilidade em não lhe tirar o direito à palavra ¿ a maior ofensa para qualquer chato ¿ esquivando-se no entanto sorrateiramente de continuar escutando-o.
O que o chato fosse dizer enquanto falava sozinho não importava ao senador, pois ele não estava entendendo nada mesmo quando estava diante dele.
psantana.colunistas@zerohora.com.br


Governo Estadual
Esforço pelo Rio Grande



Os ex-governadores Jair Soares, Leonel Brizola, Pedro Simon, Alceu Collares e Amaral de Souza reuniram-se com Germano Rigotto, ontem à noite no Piratini, para tratar de assuntos gaúchos, entre eles uma saída para a Varig (foto Paulo Franken/ZH)


Segunda-feira, Maio 12, 2003






Uma dança das cadeiras
Programa DateXpress mistura jogo e reality show para promover encontro de casais em que a primeira impressão é a que conta
Érika Roesler

Tathiana Mancini, ex-MTV, vai apresentar o novo programa da Sony

SÃO PAULO. Os solteiros exibidos terão uma oportunidade de se arranjar, nem que o parceiro em questão seja apenas boa companhia para uma noite e nada mais. O canal por assinatura Sony (Net/ TVA) começou a produzir semana passada o DateXpress, mistura de jogo com reality show, ambientada em um estúdio com cara de boate e direito a torcida da platéia. O formato, que existe na Indonésia, sofreu pequenas alterações na produção brasileira.

A atração, que estréia propositalmente no Dia dos Namorados, 12 de junho, é uma espécie de gincana com três mulheres e três homens. O candidato que for mais rápido leva vantagem, já que a proposta do jogo é fazer com que cada um consiga mostrar seu lado mais interessante em questão de segundos. Vence quem conseguir um par. O importante é a impressão que a pessoa deixa quando se tem pouco tempo. Vamos brincar com o poder de sedução e atração, como acontece em bares e boates, define a produtora executiva Flávia da Matta. Os participantes precisam estar preparados para conquistar o outro, completa.

A ex-VJ da MTV Tathiana Mancini e o ator Marcel Mallio serão os apresentadores. Na primeira parte da brincadeira, os participantes respondem às perguntas dos apresentadores. No fim da rodada, cada candidato anota suas preferências. Na segunda parte do programa, as mulheres fazem perguntas aos homens e depois respondem às questões deles. Cada participante tem 15 segundos para responder. Encerrando essa etapa, cada um faz sua escolha final, o que não significa necessariamente a formação de seis casais.

Um candidato, por exemplo, pode sobrar e outro ficar com mais de um pretendente. Os casais que se formarem podem ter um segundo encontro, promovido pelo programa, que depois registra os depoimentos para exibir no episódio seguinte.

De acordo com os executivos do canal, qualquer pessoa pode tentar participar da gincana: basta estar disponível, ter bom humor e ser interessante. Passamos por alguns bares e restaurantes de São Paulo, convidando as pessoas para participar, diz Flávia. Quem quiser fazer parte do programa, na platéia ou na disputa pela cara-metade, pode se inscrever no site do canal (http://www.canalsony.com.br).

DateXpress será exibido em 16 programas semanais e deve ficar no ar até setembro. O primeiro programa terá pré-estréia dia 12, uma quinta-feira, às 20h30, e reprise no dia 15, às 22h. A partir do segundo programa, DateXpress passará sempre aos domingos, às 22h, com reprise no sábado seguinte, às 19h30.




Não tem graça

Em sua estréia em novela, Carol Castro faz sucesso com a Gracinha de Mulheres Apaixonadas, mas reconhece que público desaprova o jogo sujo da personagem
Alícia Uchôa

Bonita, divertida, mas atirada, a graça de Gracinha divide o público que torce pelo romance entre Cláudio (Erik Marmo) e Edwiges (Carolina Dieckmann) em Mulheres Apaixonadas e teme que o galã caia em tentação. Na verdade, o público está dividido, mas entre homens e mulheres, que me olham diferente. Elas torcendo pela Edwiges e os homens adoram a Gracinha, conta a atriz Carol Castro, que não se cansa de ouvir trocadilhos com o nome do personagem nas ruas.

Assanhada. Foi o que ouviu outro dia sobre a Gracinha a Sheila Mattos, que faz a Celeste, mãe da menina na novela e a principal incentivadora de um possível romance com Cláudio, que encarna o personagem e defende a filha até nas ruas. Outro dia quase apanhei na academia. Falaram mal da Gracinha e eu fiquei discutindo tentando defender, lembra a atriz. Edwiges é boba e insegura, dispara.

Sheila pode até defender, mas as cenas de Gracinha de calcinha e biquíni, com o corpo sempre à mostra, e partindo para cima do Cláudio têm dado o que falar. Ela é muito atirada e dá muito em cima dele. Acho que o público masculino só aprova porque na verdade eles querem alguém assim em cima deles também, palpita a publicitária Flávia Braga, 24 anos, que torce pela Edwiges.

Apesar da Edwiges ser um mulherão, é complicado resistir à tentação. Ela é jogo duro e cheia de dedos, a outra pode fazer tudo o que ele quer, pondera o estudante Rodrigo Costa, 21, que se fosse amigo de Cláudio o aconselharia a ficar com as duas. Mas se não desse, ficava com a Gracinha, que se equivale em beleza e é completa, baba.

Depois de causar inúmeras cenas de ciúmes na rival, Gracinha vai conseguir separar o casal quando aceitar o convite para viajar com Cláudio e for flagrada com ele por Edwiges no aeroporto. Eles vão para cama. Quando Gracinha vê que o terreno está ficando livre, resolve usar as suas armas e fica cada vez mais assanhadinha, adianta Carol, que apesar de achar como telespectadora o romance de Cláudio e Edwiges lindo, torce pela sua personagem.

Talvez ainda não seja agora mas, pelo menos por pouco tempo, ela vai conseguir o que quer. E isso vai dar uma balançada na Edwiges e vai servir para ela aprender a dar mais valor ao Cláudio, atiça ela, defendendo a tese que a história entre Gracinha e Cláudio é uma amizade que pode virar amor. Mas amizade colorida não tem graça. O que o público quer é uma relação romântica e caliente, seja com uma ou com outra.



Lula anuncia programa de cooperativas e ganha vale-égua

BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a representantes de 4 mil Centros de Tradições Gaúchas que vai iniciar no mês que vem um programa de cooperativas de crédito para beneficiar os agricultores.

Os gaúchos foram ao Palácio da Alvorada em trajes típicos comunicar sua adesão ao Programa Fome Zero. Segundo Fernando Chaves, que coordenou a marcha de 31 cavaleiros, os centros podem contribuir com cinco toneladas de alimentos.

Lula ganhou um vale-égua no valor de R$ 8 mil o animal será entregue em setembro, uma cuia de chimarrão banhada a ouro e prata e uma muda de erva-mate. O presidente comeu churrasco e mandou uma mensagem para as mães: Que elas sejam tratadas com carinho. É um dia para os filhos fazerem justiça a elas porque o filho só descobre a importância delas quando se torna pai ou mãe.




Bom e nada mais certo do que a morte chegar um dia, que vivermos um dia após o outro. Quer dizer, a probabilidade sempre aumenta. E foi assim com mais um tio meu, irmão de meu pai. E não conheço nenhuma dor que seja boa ou administrável, mas a dor da perda é sempre terrível para aqueles que ficam, esposa, filhos, filhas é sempre complicado e acredito que só o tempo mesmo para cicatrizar essas feridas.

Dai mais razão para nos agarrarmos a vida, vivê-la com intensidade, pois nunca sabemos até quando teremos saúde e oportunidades para vivenciá-la na sua plenitude. Perdoem se esta semana começa assim triste, mas vamos torcer para que melhore a medida que seguem os dias.




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Vendeu a mãe pra comprar o presente!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Ops, direto do Planeta da Piada Pronta: Bush e Blair indicados pro Prêmio Nobel da Paz. Não seria melhor INDICIADOS? Então eu vou sugerir pro ano que vem: Saddam Hussein e Bin Laden. O Beira-Mar pro Nobel de Química e o Malanta pro Nobel de Economia. E faz sentido o Bush ser indicado pro Prêmio Nobel porque o Alfred Nobel foi o inventor da dinamite. É tudo BUM! O Bush conseguiu acabar com duas instituições históricas: a ONU e o Nobel!

Favela da Rosinha Urgente! Eu acho que o Capitão Bolinha, ops, o Garotinho, devia renunciar e nomear o Beira-Mar pra Segurança. Queria ver se a bandidagem tinha coragem de aprontar. E adorei a charge do Dalcio com o Garotinho declarando: 'O meu governo investiu muito na educação. Antes as balas eram perdidas, agora as balas ingressam na universidade'. E sabe como você chama um traficante armado até os dentes? No mínimo de senhor!

Dia das Mães! Dia Delas! Dia das Jocastas! A Xuxa continua sendo a mãe do ano. Porque nunca deu pra filha comer aquele monte de porcaria que ela anuncia. E a situação tá tão braba que um amigo meu vendeu a mãe pra comprar o presente! E sabe o que um outro amigo deu pra mãe? Um vibrador! 'Porque a mãe tá velha mas não tá morta.'

E um lojista amigo meu apostou tudo nas vendas do Dia das Mães. Apesar de ter uma loja de cuecas. Deve ser pra mãe sapatão! Tem casal que é assim: o pai é gay e a mãe é sapata. Casal moderno: ele de bóbis e ela de terno!

E duas piadinhas de mãe. 'Mãe, me compra um sutiã, já tenho 13 anos.' 'Não, não vou comprar.' 'Compra mãe, já tenho 13 anos.' 'Não compro.' 'Compra mãe.' 'Cala a boca, ARTUR!' E a segunda: 'Mãe, o que é orgasmo?'. 'Não sei, pergunta pro teu pai.' E a maior mãe do mundo é a mãe judia. A revista 'Caras' devia fazer um especial sobre mães judias: revista ÇARAS! Toda mãe diz assim pro filho: 'Se você não comer, eu te mato'. Mas a mãe judia diz assim: 'Se você não comer, eu ME mato'. Rarará!
E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês.

É que uma amiga acabou de receber um cartão: 'Desejamos a você, geratriz da concepção humana, um feliz dia'. Geratriz da concepção humana? Tucanaram a mãe! Socorro. Tá mais fácil acabar com a pneumonia asiática que com o tucanês! Atenção! Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. 'Taxativa': prefeita Marta! 'Tofu': tô ferrado! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!


simao@uol.com.br




José Pedro Goulart
12/05/2003


A Marca Humana

Tente ler o texto a seguir imaginando um trailer de cinema.Viagra, vietnã, velhice, preconceito, sexo, enigma. Um professor de 70 anos tem um caso com uma mulher, faxineira da faculdade, opulenta, 34 anos. "Todo mundo sabe que você está explorando sexualmente uma mulher maltratada e analfabeta com a metade da sua idade".

Boxe, pai dominador, mãe compreensiva, irmão ressentido, irmã resignada. "Assassinar o pai não é necessário. Isso o mundo faz por nós. É a mãe que tem que ser assassinada." Coleman é o professor septuagenário, judeu, tem sua vida arrasada por uma acusação de racismo. Descobriu o Viagra e com ele vê arder novamente o extinto ou aquilo que parecia extinto. "Graças ao Viagra, passei a compreender as transformações amorosas de Zeus. Era esse o nome que deviam ter dado ao Viagra: Zeus".

Bill Clinton, americanos, Monica Lewinski, o pênis, a boca, o sexo parcial, a mentira e a falta dela. O salão oval ou a sala oral? O presidente ser-humano. O presidente que foi até um ponto e recuou. "Tivesse ido até o fim (todos os fins) e ela teria calado."

Amores esquecidos, amores recusados, amores envelhecidos. O verdadeiro amor é um ato narcisista. Então é um paradoxo. Coleman tem um segredo. Cruel demais. Algo maior que a própria culpa. Coleman quis driblar o destino ou aquilo que o destino parecia ter-lhe reservado. Mas não há destino. O que há é uma espécie de "surpresa previsível": algo que talvez fosse possível de se prever mas quando acontece é surpreendente.

Um escritor, o passado e a necessidade de contar. Contar para não esquecer. Ou enlouquecer. "E assim, imperturbável, ela se levanta da cama, onde estava sentindo aquele cheiro, o cheiro de Coleman sem roupas, cheiro de pele queimada pelo sol." O sexo é o sexo. O sexo é o animal liberado do jugo da consciência, do medo. É a vida com o seu prenúncio fatal. O sexo é também o assassino do desejo. É suicídio, aliás. Todo gozo é um suicídio.

Coleman talvez deseje a morte. Há nele a esperança da redenção, da purificação. Mas até nisso é preciso punição. A morte não poderá vir sem perda. E a perda é a do prazer que sente como nunca. Desse prazer que mata. Da pequena morte que anuncia àquela que será definitiva. Sabe-se da vida muito mais quando perdê-la é inexorável e triste. Quando se quer tirar dela algo perdido no tempo. "Nada dura, e no entanto nada passa, tampouco. E nada passa justamente porque nada dura"

A Marca Humana é um livro de Philip Roth. Espécie de catálogo de todas essas emoções que vão em zigue-zague enquanto muitos imaginam que é possível andar em linha reta.
jose.pedro@zerohora.com.br




Luis Fernando Verissimo
12/05/2003


"Esse não! Esse não!"

Minha porção mulher se chama Neide Conceição e gosto de pensar que ela é a responsável por algumas das minhas melhores atitudes. Ela está comigo desde o ventre materno e sempre convivemos muito bem, sem problemas. Costumo consultá-la de tempos em tempos e ela se contenta em ser apenas isso, uma consultora da minha personalidade, sem qualquer outra pretensão. Nunca tentou derrubar a porção dominante masculina, e ai que tentasse.

Como se sabe, não existe gaúcho homossexual, só porções masculinas que demoram a reagir quando a feminina se agranda. Em alguns casos o cara morre antes da porção masculina dele se recuperar, mas isso não quer dizer que seja homossexual, apenas que a reação atrasou um pouco. A Neide Conceição conhece o seu lugar.

Costumo conversar com ela enquanto faço a barba, que é quando a porção mulher da gente, sem nada para fazer, fica só observando esse nosso estranho ritual. Comentamos os assuntos do dia e freqüentemente me surpreendo com alguma observação dela, que nunca me ocorreria. Deve ser a tal intuição feminina. Por exemplo: nem eu nem ela estranhamos que o ex-ministro Malan tenha assumido um posto no Unibanco, pois competência e honorabilidade para isto não lhe faltam, e nem eu nem ela temos qualquer coisa contra o Palocci.

Mas, com aquele senso prático que caracteriza as mulheres mesmo em forma de porção, a Neide disse que o ideal na escolha de um ministro da Fazenda, ou mesmo um diretor de Banco Central, seria a possibilidade de fazer um "flash forward" para o futuro, quando ele já tivesse passado pelo ministério e seu nome fosse proposto para a diretoria ou o conselho de um grande banco. Quem fosse aceito logo seria descartado.

Quem fosse aceito com reservas seria considerado. Mas o ideal seria aquele que, baseado no que tivesse feito no Ministério da Fazenda ou no Banco Central, provocasse a reação mais irada de banqueiros vingativos: "Esse não! Esse não!"

Mas como outra virtude da Neide é o realismo, ela reconheceu que isso era impossível, me aconselhou a não sonhar mais e acariciou meu rosto com a minha mão para ver se a barba estava bem feita.




Paulo Sant'ana
12/05/2003


Cidade sitiada

Uma prova de que a população carioca é totalmente refém do medo dos traficantes é que diminuíram intensamente as viagens noturnas pelas Linhas Vermelha e Amarela, principais vias de acesso ou saída do Rio.

O vigia Carlos Campos, funcionário de uma empresa de segurança, diz sobre a Linha Amarela: "Chega a dar medo. Olho pelo retrovisor e não vejo uma viva alma".

Ora, nem uma viva alma à noite na Linha Amarela, onde o tráfego é intenso a qualquer hora do dia e da noite, é uma mudança de comportamento completamente influenciada pelo medo.

É preciso salientar que grande parte dos percursos das Linhas Vermelha e Amarela são crivados de favelas nas suas margens.

Segundo o gerente do Hotel Luxor, o hotel do aeroporto, é incontável o número de pessoas que chegam nos vôos noturnos e se hospedam no hotel, recusando-se a ir para suas casas durante a noite, com medo dos tiroteios e dos assaltos.

- São pessoas que desembarcam nos últimos vôos e, para não passar à noite pela Linha Vermelha, preferem dormir no hotel. Há casos também de passageiros dos primeiros vôos que preferem acordar no hotel do aeroporto a ter de circular de madrugada pelas ruas da cidade.

Nas regiões serrana e dos Lagos, o comportamento dos moradores e turistas foi também completamente alterado: a maioria dos hóspedes dos hotéis e pousadas, assim como os moradores das casas de descanso, deixou de chegar lá durante as sextas-feiras.

Todos viajam no sábado pela manhã, com receio de viajar à noite e serem interceptados ou alvejados por traficantes nas estradas.

Eu só estou pinçando este aspecto mutatório do fluxo citadino carioca para mostrar que todo o metabolismo de uma cidade muda em face da precariedade da segurança pública.

Nós não percebemos, mas, embora ainda não tenhamos por aqui o nível de precariedade na segurança pública que assalta o Rio, já mudamos completamente os nossos hábitos, em face do perigo que ronda as ruas.

As maiores cidades brasileiras, entre elas Porto Alegre, perderam sua espontaneidade, aquela atmosfera de passeio, liberdade, camaradagem, principalmente à noite, mas também durante o dia.

Sem qualquer dúvida, esta é a mais importante transformação no comportamento sociológico do brasileiro nas últimas décadas.

O brasileiro ficou mais triste e vive praticamente sitiado pela violência.

O Internacional não resistiu, por enquanto, aos holofotes da liderança. E perdeu feio para o Guarani em Campinas.

O líder agora é o Cruzeiro, quase 40 partidas invicto, desde setembro do ano passado, é impressionante a solidez e a regularidade do time de Luxemburgo. Ganhar do Santos na Vila Belmiro não é para qualquer um.

E aqui no Olímpico novamente se deu o iluminismo do centroavante, o gol de Christian foi um milagre de prestidigitação: de costas para a goleira, de repente o giro de 160 graus e uma virada que nos deixou a todos estupefatos.

Um centroavante é mais que meio time.
psantana.colunistas@zerohora.com.br


Futebol
Christian confirma a boa fase



Sob pressão do tráfico, colégios recorrem à prevenção e, quando ela falha, até à polícia
O atacante marcou o gol da vitória sobre o Coritiba, no Olímpico, que põe o Grêmio em 10º no Brasileiro (foto Valdir Friolin/ZH)


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