E N T R E L A Ç O S Testando cor de fundo
E N T R E L A Ç O S

Sábado, Julho 12, 2003




Martha Medeiros
13/07/2003


It´s only rock´n´roll

São muitos os momentos legais do filme O Homem Que Copiava, detalhes para serem percebidos, nuanças, experimentações: pode-se dizer que o filme é, do começo ao fim, excitante. Mas tem um pico. Tem um momento em que a câmera corre, o Lázaro Ramos corre, a adrenalina corre e a gente tem vontade de disparar junto: é quando entra o som do Creedence. O rock é a ovelha negra da música e sobrevive de sua má fama. Frank Zappa certa vez disse que um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler. Decretou o analfabetismo de toda uma geração, enquanto Elvis Presley não estava nem aí: "Não sei uma nota de música. E nem preciso".

O rock não é mesmo a música mais criativa do mundo, mas tem a seu favor o fato de não ser apenas música. Existe toda uma provocação que a eleva (ou a rebaixa, como queira) a outro tipo de categoria. Não é trilha sonora pra meditar, relaxar, introverter-se, ouvir no elevador ou numa sala de espera. É visceral. Quem gosta, adora; quem não gosta, odeia. É da categoria "barulho na certa".

A maioria das músicas, em seus mais diversos gêneros, provocam reações internas, na alma e no coração. São absorvidas não só pelos ouvidos como também pela pele, produzem um leve arrepio e se instalam dentro. O rock não se assenta tão facilmente. O rock entra e sai, entra e sai, e analogias são permitidas, fique à vontade. Provoca reações físicas mais nervosas. Desperta em nós o tarado, o revolucionário, o selvagem, o irreverente, o imoral, o infantil, o louco. O jazz, por exemplo, desperta em nós o sofisticado: é um gênero mais nobre, tranqüiliza os ânimos. Sofisticação é ótimo, mas para esquentar os tais ânimos, nada como duas guitarras, baixo e bateria.

O rock cativa pelo que tem de incômodo, vibrante e sexy. Já virou um clichê dizer que ele é mais atitude do que música, e se formos ampliar isso para a vida fora dos palcos, podemos dizer que Elis Regina foi mais roqueira que Paula Toller, mal comparando. Assim como são "roqueiros" Quentin Tarantino, Andy Warhol, Angelina Jolie, Michael Moore. O jornalista Paulo Francis achava que rock era música de jeca, mas era outro que tinha uma postura muito rock'n'roll, mesmo sendo o rei dos eruditos.

Esta crônica é a troco de? Hoje é dia internacional do rock. E por amor aos Beatles, aos Rolling Stones, à Jovem Guarda, a Rita Lee, a Lou Reed, a Janis Joplin, a Tina Turner e, lógico, a Creedence, resolvi fazer uma homenagem a este estilo musical que sobrevive apesar de seus altos e baixos e com uma acirrada concorrência - não é mole o que tem de gêneros alternativos e inventivos disputando espaço com o rock. But I like it.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
13/07/2003




Foto(s): Jason Reed, Reuters/ZH

Sexo ao vivo

Em Botsuana, sul da África, num parque ecológico, o presidente George W. Bush e sua esposa assistiram a uma cena insólita.

A administração do parque separou quatro elefantes para que fossem vistos pelo casal presidencial e comitiva.

Mas, chegado o presidente ao recanto, um elefante subiu para cima da elefoa e descaradamente começou a praticar um congresso carnal.

Os repórteres e cinegrafistas de todo o mundo focalizavam o intercurso, enquanto o presidente e a primeira-dama cochichavam sobre a curiosa coincidência, constrangidos.

Tiveram de esperar vários minutos até que os elefantes cessassem o ato amoroso, que foi presenciado de cima por um elefante ou elefanta com ciúme, conforme mostra a foto aí de cima.

Se o casal de animais fosse de javalis, a visita do presidente ao parque ficaria inteiramente prejudicada: os javalis costumam fazer sexo durante horas, sem interrupção. O javali é considerado o mais viril de todos os animais, mais até que a capivara macho, que é capaz de cobrir as fêmeas do seu domínio territorial até durante 30 vezes por dia.

Claro que mudando de montaria. Não é o caso do javali, que se exercita sexualmente com uma única fêmea durante oito horas, sem tirar de dentro.

Um rali!

Já o elefante é mais modesto, foi possível a Bush continuar a sua visita: em cinco minutos ele termina o serviço. Seu pênis mede 60 centímetros e pesa pouco mais de um quilo, o que é até reduzido para o tamanho do seu corpo.

E o esforço que o elefante macho faz para ficar montado na fêmea é muito exaustivo, sua compleição não é propícia para os longos enlaces. Tem de ser bater e valer, por isso o casal Bush não esperou muito pelo ato sexual e ir lá saudar de perto o casal de nubentes.

Bush até posou para os fotógrafos segurando a presa de um dos elefantes.

Eu fiquei imaginando o seguinte: já pensaram se a cena lúbrica dos elefantes tivesse sido realizada diante do ex-presidente Bill Clinton?

Com a fama de maratonista sexual de Clinton, ele chegando no parque e os elefantes logo em seguida apresentando armas, essa coincidência metafórica iria causar um rebuliço na imprensa mundial.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
13/07/2003



O primeiro celular

O primeiro celular a gente não esquece, sobretudo quando esse aparelho entra em nossa vida por caminhos, digamos assim, transversos.

Faço parte, com Luis Fernando Verissimo, de dois movimentos, o MSN, Movimento dos Sem-Netos, e o MAC. Esta sigla ainda provoca calafrios em nossa geração. Na época da ditadura, designava o Movimento Anticomunista, um bando paramilitar que tinha como propósito liquidar a esquerda. O Verissimo, corajosamente, fazia charges mostrando o MAC como um rinoceronte sentado em cima de um pobre brasileiro. Esses tempos passaram, e MAC é hoje o Movimento Anticelular, formado por aqueles que, como o Verissimo e eu, resistem à avassaladora onda dos telefones móveis. Foi o Verissimo quem criou a sigla, e ele é altamente contagioso: contou numa crônica que, cada vez que senta no avião, tem de se certificar que aquela tramela da mesa está riogorosamente na vertical. Pois o mesmo passou a acontecer comigo: aderi compulsivamente aos Vigilantes da Tramela (VT) e também ao MAC.

A resistência ao celular, porém, tem limite, por mais que nos esforcemos por defender nossa privacidade. Mortificado, confesso aqui que acabei cedendo às injunções do chamado progresso. Na semana passada fui a Vitória, no Espírito Santo, levando na bagagem - pela primeira vez - um reluzente celular.

Pelo que paguei um vexame. Um dos organizadores da Bienal do Livro foi me apanhar no aeroporto. Enquanto rumávamos para o hotel, ele comentou:

- Engraçado, tenho a impressão de que estou ouvindo um celular chamando.

Eu já ia atribuir aquilo a um delírio dele quando me dei conta: era, sim, um celular - o celular que eu levava na bagagem. Isto é o que acontece quando novas teconologias invadem nossa vida. Até nos acostumarmos, pagamos o maior vexame.

O que me lembra um incidente acontecido em Porto Alegre. Um médico foi até o centro da cidade de táxi e esqueceu no carro o seu bip, à época um dispositivo ainda raro. Pouco depois, o bip começou a soar. Quando o motorista viu aquela coisa, ficou em pânico. Uma multidão se juntou ali, e todos juravam que era uma bomba (por que razão alguém colocaria uma bomba no automóvel de um pobre taxista foi algo que ninguém se perguntou). Felizmente apareceu alguém que acalmou o pessoal, explicando que bip não é bomba (quanto a celular, não tenho tanta certeza).

Inovação tem disso. No tempo em que as pessoas se comunicavam por pombo-correio não havia dessas coisas. Obviamente surgiam outros problemas. Semana passada um pombo-correio que deveria ir de Londres a Paris, num torneio dessas aves, acabou pousando em Nova York. Bem, mas se celular pode tocar no cinema, pombo-correio pode pousar em lugar errado, não é mesmo?

Diário de Bordo
Cartas, recados, e-mails

- Escrevi aqui uma crônica (sobre viajantes que deixam animais de estimação em casa) contando a história de um psiquiatra que, do Exterior, consolou seu cachorro pelo telefone. Pois diz a Lourdes Vendruscolo: "Em 2001 viajei para a Rússia, e de lá liguei para casa. Minha empregada disse que meu cão Rock estava tão mal que ela temia que morresse antes de minha volta. Pedi que pusesse o fone na orelha do Rock. Após lamber o telefone ele começou a correr de alegria. Depois, numa outra viagem, a empregada me disse que o Rock havia adormecido sobre a mesa, ao lado do telefone." História comovedora, Lourdes. Só espero que tua conta telefônica não tenha sido muito alta.

Na crônica do último domingo, comentei várias possíveis origens da expressão OK. O Celso Camargo, o Fernando Terroso (Rio Grande) e o Diego G.F. mandaram e-mails acrescentando mais uma: na Guerra Civil americana eram emitidos informes sobre o número de vítimas. Quando o número de mortos era zero, a expressão era Zero Killed, mas este Zero era lido como a letra O e o Killed abreviado para K: daí OK.

Um nome que condiciona destino, enviado pela Camila Saccomori: o do urologista Silvio Pinto. E sabem como se chama a fábrica que faz aqueles bonés do MST, que tanto deram o que falar? O nome é Bonelli.

O presidente Flavio Fachel, do Esporte Clube Cruzeiro, convida-me para os 90 anos de aniversário do clube. Meu pai, que morreu nonagenário e era conselheiro do time, ficaria feliz, como feliz fico eu com esta celebração. O aniversário ocorre no dia 14 de julho, data da queda da Bastilha. A Bastilha caiu, mas o Cruzeiro, ao menos em nossos corações, não cairá jamais

scliar@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
13/07/2003


Corpo e mente

Mente e corpo têm uma relação parecida com a de pais e filhos. A mente cuida do corpo e tenta regular os seus hábitos e apetites e protegê-lo dos seus excessos. É sempre mais sensata, previdente - enfim, mais adulta - do que o corpo, que se não fosse por ela nem se criaria. Mas com o tempo a relação vai mudando, e assim como os filhos aos poucos adquirem autonomia e passam a não depender tanto da atenção dos pais, o corpo também começa a dar folga à mente. Como, por exemplo, deixá-la dormir até mais tarde enquanto ele levanta da cama, escova os dentes etc., faz seu próprio café e sai. Você já deve ter tido esta experiência. Está na rua há horas, ou no seu trabalho, ou no meio de uma aula, quando a sua mente subitamente acorda, olha em volta e reclama:

- Por que você não me acordou?

- Não precisava - responde o seu corpo.

- Onde estamos? O que está acontecendo? Meu Deus. Você levantou da cama, escovou os dentes, tomou café, saiu para a rua e chegou até aqui sozinho?!

- Foi.

- Você é um desmiolado!

- Certo. Mas agora preciso de você.

- Calma, calma. Antes, tenho que tomar um café pra acabar de acordar. Há casos em que a mente só acorda no meio da tarde. Outros em que o corpo volta para casa à noite e a mente ainda está dormindo. Aí o corpo vai ver televisão, para não despertá-la.

Com o tempo, a relação mente e corpo muda de outras maneiras também. Antes, era o corpo que queria (sexo, comida, festa, emoções) enquanto a mente pedia moderação. Depois a mente é que quer, e o corpo é que diz "tá doida".

- Vamos! A noite nos espera - diz a mente.

- Vai você - diz o corpo, se espreguiçando.

- Sem você não tem graça. Sem você não tem sentido. Ou eu não tenho sentidos. Nem transporte. Vamos!

- Não era você que me dizia para pensar bem antes de obedecer meus impulsos? Pois eu pensei bem, e desta poltrona ninguém me tira.

- Você não tem que pensar. Eu é que penso por você.

- Ultimamente, só pensa besteira.

- Sim! Besteira. Loucuras. Vida. Vamos!

- Sossega, mente.

Antes, o corpo é levado pela paixão, ouvindo alertas da mente o tempo todo. "Cuidado", "Olha lá o que você vai fazer", "Pense nas conseqüências", "Não esquenta", "Te controla". O corpo ouve ou não ouve, obedece ou não obedece, mas, entre vexames e arroubos bem-sucedidos, mantém-se a harmonia familiar. Depois, o diálogo se inverte.

A mente:

- Eu vou lá dar uma mordida nessa bunda.

O corpo:

- Não vai não.

A mente:

- Ah, vou.

- Não conte comigo.

- Covarde.

- Tente pensar em outra coisa.

- Não posso. Tenho que morder essa bunda.

- Pense no que você vai ter que fazer para morder a bunda. Primeiro, subir na passarela. Com as suas condições físicas, não conseguiria. Os seguranças certamente interviriam e você acabaria apanhando. Teria que correr atrás da modelo, que fugiria de você. Se conseguisse alcançá-la, teria que escolher a nádega e morder a bunda na primeira tentativa, porque não haveria uma segunda. Pense no escândalo, nas fotos nos jornais, na cena na TV.

- Não interessa. Vou morder essa bunda. E é agora. Você está pronto?

- Claro que não.

- Um, dois e...

- Mente: odeio usar a mesma frase que você vivia me dizendo contra você, mas é a única que cabe neste momento.

- Que frase?

- Comporte-se.

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David Coimbra
13/07/2003


Alceu Collares numa de suas campanhas pelas ruas de Porto Alegre, rondando os botecos da cidade e seus misteriosos e insinuantes croquetes de carne
Foto(s): Banco de Dados/ZH

Os croquetes do Collares
Lá estava eu, cobrindo a campanha de 90 para o governo do Estado. Era repórter de política, jogo duro trabalhar com a política e suas reentrâncias e volutas. Alceu Collares, candidato do PDT, caminhava pela Assis Brasil, cumprimentava os passantes, beijava criancinhas. Fazia calor, ele suava, todos suávamos. De repente, anunciou:

- Tô com fome.

E estacou em frente a um boteco com luminoso da Pepsi e balcão de fórmica. Entrou. Cumprimentou o proprietário de bigode e avental. Analisou as opções gastronômicas. Em meio a bolos ingleses pouco agressivos, seis belicosos croquetes jaziam lado a lado numa pequena estante de vidro, feito sardinhas. Eram croquetes de bom tamanho, roliços e pardos. Collares apontou:

- Dá um.

O homem fez aterrissar um croquete num pires. Serviu-o ao candidato. Que, nham!, nham!, o devorou em dois bocados. Ainda mastigando, Collares ordenou:

- Mais croquete.

Desta feita, o dono do bar alinhou três no pires. Ficaram no máximo dois segundos apontando para o candidato, feito torpedos da marinha. Collares traçou-os todos, um depois do outro, sem vacilar.

- Mais! - pediu. - Mais!

O comerciante, encantado, sacou os dois últimos cilindros da estante e apresentou-os a Collares. E esses também sumiram rapidamente na boca voraz do futuro governador.

- Bom... - comentou Collares ao cabo da refeição, alisando a barriga. Depois do que se foi, apertando mãos, enquanto um assessor pagava a despesa.

Collares venceu a eleição, como se sabe, e creio que a combinação de apetite com desassombro talvez tenha muito contribuído para seu sucesso eleitoral. Falo em desassombro por que todo croquete é um mistério. Aí está uma verdade sobejamente aceita. Claro, não me refiro ao cândido croquete caseiro, feito por amorosa mão de vó, mãe ou madrinha. Refiro-me ao croquete cuja origem é ignota, ou apenas vagamente conhecida, como os seis croquetes ferozmente engolidos por Collares. Croquetes de boteco, isso é o que eram. Sempre hesito ante um croquete de boteco. Confesso até que algumas vezes me acovardei e preferi um nem tão apetitoso mas muito mais confiável sanduíche de queijo. Mas, se premido pela fome, comeria. Talvez não seis, quantidade de resto irresponsável. Um ou dois, tudo bem.

Agora, nunca, nem nos tempos mais pedregosos da vida, comi um croquete de rodoviária. Pois aí está toda a questão: o croquete de rodoviária é o verdadeiro mistério, o verdadeiro desafio. Quem fica impávido quando confrontado com um croquete de rodoviária? Quem acredita na inocência de um croquete de rodoviária? O deputado Collares acreditaria? Não é possível. Collares é um homem do mundo, sua inocência há muito se perdeu em alguma das esquinas penumbrosas da existência.

Já aquele que acredita na inocência do croquete de rodoviária, essa pessoa seria como que a redenção de uma civilização cínica. Se existe alguém que crê nas boas intenções de um croquete de rodoviária, ainda existe fé, ainda existe pureza.

Pois bem. Agora acho que encontrei. Li que os presidentes de clubes e de federações votaram na reeleição do Ricardo Teixeira porque, com ele, o Brasil venceu duas copas, porque o Campeonato Brasileiro é bom, porque a gestão dele é competente. Ou seja: eles acreditam na boa fé da direção da CBF. Apostam nela. Endossam-na. E a aplaudem. Espantoso! Não tenho dúvida: esses crentes também confiariam num croquete do rodoviária. Comeriam-no com gosto e comentariam:

- Foi feito com amor.

Gente singela ainda habita esse planeta. O mundo é bom. A felicidade até existe. Os passarinhos cantam. Ela me ama. E o sol brilha.

Diego: saber cair também é uma arte do futebol
Foto(s): Ricardo Duarte, Banco de Dados/ZH


Diego no chão, o Inter no céu
Diego tem drible, velocidade e passe escorreito, esconde bem a bola, gira com rapidez sobre o adversário, tudo isso ele tem e faz. Mas nenhum desses é seu principal predicado. Porque a grande qualidade de Diego é saber cair. Ninguém até hoje, no futebol brasileiro, caiu com tamanha eficácia. Diego cai para vencer.

O processo de queda bem-sucedida de Diego começa antes da partida. Sua figura é em tudo comovente. Entra em campo trotando, com os cotovelos dobrados à altura do peito. Ele bóia dentro da camiseta enorme, fica ainda menorzinho nos calções que quase lhe chegam aos joelhos. Seu ar é pueril, seu rosto é desprovido de brincos maliciosos, de arranjos exóticos no cabelo. Ao contrário, sua boca sempre entreaberta é decorada por um aparelho ortodôntico juvenil, uma boca de filho mais moço.

Começa o jogo. De repente, Diego recebe a bola e arremete para a linha de fundo. O adversário o acompanha e, como não consegue desarmá-lo, como Diego é invariavelmente mais rápido, lá vem o tranco, ou um passa-pé, ou simplesmente um encostão. É o que basta para Diego finalmente cair. Mas ele não cai, apenas; ele se desmancha, parte por parte, desaba na grama. Então, esparramado no solo, ele não rola, berrando, como muitos fazem. Nem se senta furioso, a reclamar. Nem faz para o juiz aquele gesto com o indicador e o polegar unidos, pedindo cartão para o adversário. Não. Diego tão-somente se ajoelha e fita o vazio com olhos arregalados, inocentes, redondos de espanto. Seu rosto é todo perplexidade e dor, ele está como que a balbuciar:

- Mas como fizeram uma malvadeza dessas comigo?

É aí que o juiz se transforma em justiceiro. Vem da intermediária disposto a acabar com aquela violência contra um pobre menor, uma quase criança, e marca o pênalti, e apresenta o cartão, e tira o brutamontes covarde de campo.

Diego cai brilhantemente. E o Inter sobe.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Pirataria e Contrabando
Piratas do lazer



Como a ilegalidade está ameaçando a indústria do entretenimento
(arte de Gilmar Fraga/ZH)

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TROGLODITA


Ando desconfiado que essa vontade de isolamento que se apodera da gente toda vez que pinta um desenlace, um desengano, uma incerteza no amor ou outras sacanagens da vida é a mais clara manifestação da nossa herança troglodítica, que driblou as armadilhas dos elos perdidos, escapuliu, e chegou cá ilesa.

Ou então como se explica essa minha compulsão mometânea por uma furna qualquer só porque ela não disse qual, dentre os uns, o um que ela deseja e ama.


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SUPERCURTAS

O que o elefante disse pro homem nu?
- Legal, mas você consegue comer amendoim com isso?

Como e que se chama um traficante armado ate os dentes ?
*É melhor chamar de senhor...

Por que o Manoel ficou duas horas olhando fixamente pra lata de suco de laranja?
* Porque estava escrito "concentrado".

Como e que se faz um monte de velhinhas gritar "Merda"?
* E so gritar "Bingo".

Por que mandaram embora o enfermeiro homossexual do banco de semen?
* Por beber em servico.

Por que Hittler odiava os judeus?
* Porque nao conhecia os argentinos.

O que e preciso para reunir os Beatles?
* Mais tres balas.

Um advogado e sua sogra estao em um edificio em chamas. Voce so tem tempo pra salvar um dos dois. O que voce faz? Voce vai almocar ou vai ao cinema?

Um baiano deitado na rede pergunta pro amigo:
* Meu rei... tem ai remedio pra picada de cobra?
* Tem. Por que, voce foi picado?
* Nao, mas tem uma cobra vindo na minha direcao

Na sala de aula:
- Juquinha, em quantas partes se divide o cranio?
- Depende da porrada, professor...

Conversa de casados:
- Querido, o que voce prefere? Uma mulher bonita ou uma mulher inteligente?
- Nem uma, nem outra. Voce sabe que eu so gosto de voce

A mulher comenta com o marido:
- Querido, hoje o relogio caiu da parede da sala e por pouco nao bateu na cabeca da mamae... - Maldito relogio. Sempre atrasado...

Qual a semelhanca entre um político e um cachorro atropelados???
Antes do cachorro, ha marcas de freada.

Um portugues sequestra o filho de um ricaco e lhe envia uma caixa e uma carta. Na caixa havia uma orelha. A carta dizia:
"Esta orelha eh minha. A proxima serah de vosso filho"

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Depende de nós


Foram nos dados o pincel e tintas. podemos pintar o paraíso e depois entrarmos nele. Não importa as cores que estivermos usando agora. Sempre podemos escolher outras. Gostaria que juntos pudéssemos construir novas pontes para a loucura. Estou ficando farto da sanidade mental e especialmente a nossa definição dela. Loucura no dicionário, não precisa ser no ¿Aurélio¿ inclui "êxtase", entusiasmo, riso. Vamos sair da sociedade que depende do riso enlatado.

Vamos Soltar-se mais!!!!! Vamos quebrar a rotina; quebrar velhos hábitos. Podemos sentir o quanto será maravilhoso o dia em que pudermos se dar conta de que somos singulares no mundo inteiro, e não permitamos que nos digam que não, mesmo que afirmem que o propósito é uma ilusão. Vamos viver a ilusão, se for preciso. Vamos exaltar a nossa humanidade. Exaltar a nossa loucura. Vamos exaltar as nossas imperfeições. Exaltar a nossa solidão. Mas vamos exaltar fundamentalmente nós mesmos.

Se fizermos tudo errado, vamos fazer tudo de novo. Vamos rir dos nosso problemas. É com o coração que se pode ver direito; pois o essencial, apesar da tecnologia avançada, continua invisível aos olhos.

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Lya Luft
12/07/2003


A boa raiz

Adaptando a frase de uma amiga, digo que saí de Santa Cruz do Sul mas Santa Cruz não saiu de mim. Apesar de minha longa ausência, a cidade resolveu me fazer sua cidadã honorária, e todos os eventos ligados a isso nesta segunda-feira confirmaram que o tempo é uma ficção: tudo continua vivo.

Andando pela praça da catedral (onde me casei), junto do chafariz (onde a gente andava de bicicleta quando estava seco), vendo os bancos onde namorei (meu Deus, como éramos inocentes), sendo incrivelmente entrevistada, fotografada e acarinhada, eu me senti ainda a menina trapalhona e sonhadora que há décadas ali nasceu e cresceu. A que se embalava na rede no terraço dos fundos da casa que hoje perdeu o imenso jardim - nele agora crescem edifícios em lugar dos altos álamos e eucaliptos. Sou a mesma que contemplava os morros azuis em torno, certa de que lá moravam o unicórnio, os duendes e as bruxas, e a que inventava para si mesma incessantemente histórias de fadas, princesas e cavalos alados.

Santa Cruz mudou, pois cresceu e se modernizou. Tem universidade, tem belas casas, deliciosos restaurantes e cafés. Mas mudou sem se deformar, como as pessoas cuja beleza extrapola o físico. Onde ficava o casarão de meus avós maternos, que aparece em tantos livros meus com seu jardim e sua parreira, o relógio de parede e a escada rangente, abre-se o vazio prenúncio de mais um edifício. Mas diante de minha casa floresce aquela magnólia mágica de antes, junto da janela de um quarto de menina.

Foi emocionante e um pouco estranho ser homenageada com tanto afeto por tanta gente. Um velho jornalista me contou que seu jornal publicou um artigo meu quando eu tinha 12 anos: a audácia daquela meninota me divertiu. Um ex-aluno de meu pai quando este era diretor da Faculdade de Direito relatou como um representante da ditadura nos anos negros insistia em mudar alguma decisão de meu pai em favor de um funcionário ou aluno considerado "suspeito". Interpelado pelo militar, que talvez estivesse constrangido, meu pai respondeu calmamente - e imagino bem a luzinha irônica no fundo de seu olhar: "Minha decisão está tomada. Se quiser mudar, traga seus tanques".

Outros comentavam a beleza de minha mãe, minhas artes de criança mimada, ou de fictícia excelente aluna do meu colégio Mauá, que nunca fui: demais agitada, demais distraída, demais perguntadeira, demais indisciplinada. Desses reencontros destaco a que cuidou de mim, brincou comigo, viajava conosco, e me ensinou tantas coisas: Luci Kessler (Bender), cuja mãe, já falecida, a minha "Tante Kessler", personificava a bondade e a infinita paciência necessárias com a criança inquieta que fui. Na pessoa delas homenageio aqui a humanidade de todos os meus conterrâneos.

Portanto minha raiz melhor, a raiz boa que ama a vida e acredita nas pessoas, está ali fincada para sempre. Terem-me feito duplamente santa-cruzense oficializou esse laço que, mesmo se pouco exercido, é real e me sustenta.

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Jorge Furtado
12/07/2003


Samba e amor


Poesia é coisa muito boa. Na forma de música então, melhor, você aproveita até no trânsito. Nei Lisboa está na praça num disco que já começa bem pela capa, ótimo trabalho de Marcelo Pires e equipe sobre a obra da artista plástica gaúcha Lucia Koch. Ouvir um disco do Nei (ou qualquer disco muito bom) leva tempo, ainda não cheguei na faixa... deixa eu contar... 11.

(Única crítica à capa: cadê o número das músicas? Custa? Pensem nos fãs da terceira idade!) Claro que você pode ouvir algumas vezes sem prestar muita atenção nas letras, só com a música e a voz do Nei qualquer criança já brinca e se diverte. Prestando mais atenção, só melhora. O disco abre com Primeiro Amor, uma declaração de amor que só um pai recente poderia produzir: "Fosse por mim era lei / cada paixão que eu guardei / se precisar, tava ali / tava como eu deixei". Vai Chover é a faixa 2 (CD tem faixa?) e segue falando de amor: "Amor que relampejou / e quando começou / fomos buscar abrigo".

Também tem amor na três, Relógios de Sol, amor de parceria e intimidade, em que o poeta expõe seu balaio de guloseimas: "Relógios de sol e copos de chuva / punhados de azul / receitas de ajuda / uns quadros de Deus / fatias de fruta-pão". Tem amor nostálgico em Pra te lembrar, amor inútil em Bar de Mulheres ("Se amas por nós dois, de mim já não precisas mais"), Amor Executivo, amor de pai em Bom Futuro, amor até de não amar em Isso são horas. Nei faz a gente lembrar que o amor, apesar de ser surrado diariamente por legiões de bobagem, continua em forma.

Outro grande disco é Ventura, dos cariocas Los Hermanos. Dizem que o samba está de volta e eu nem reparei que ele tinha saído. Deve ter ido na esquina com o Zeca Pagodinho pra buscar cerveja, mas já voltou. Marcelo D2 também caiu no samba, mas a melhor novidade do terreiro é Los Hermanos. O disco não é só samba, tem boas letras de rock e baladas, mas abre com Samba a Dois, que é tão bom que parece que sempre existiu. A letra é uma homenagem ao samba e, especialmente, ao Chico Buarque: "Quem me ensinou a te dizer / vem que passa o teu sofrer / foi mais um que deu as mãos entre nós dois".

Tem brincadeiras intertextuais, rimas fáceis, ricas e ocultas. E ainda dá para batucar! Se você, como eu, perdeu o disco anterior e só conhecia a banda pelo rock-chiclete Anna Julia, tão simples e banal que tocava em caminhão de gás na praia e deve ter virado buzina de automóvel, esqueça e comece a ouvir como se fosse um disco de estréia. Só com o Ventura Los Hermanos já pode ser considerada uma das melhores bandas do país.

jorge.furtado@zerohora.com.br

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Cidadania
Novo aliado em defesa das crianças



Em linguagem acessível, site Minha Cidadania facilita o acesso ao Estatuto da Criança e do Adolescente (foto Paulo Franken/ZH)

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Caro assinante,
aqui estão os destaques de VEJA desta semana.
Boa leitura e bom fim de semana.
Kátia Perin - VEJA on-line (vejaonline@abril.com.br)

Especial
Há pelo menos 200.000 brasileiros levando uma vida dupla de cidadão pacato durante a semana e destemido aventureiro nos sábados e domingos. O que os leva a isso? Especialistas dizem que apesar de todo o processo de civilização, o homem é um animal e precisa dar vazão a sentimentos instintivos.
No site: outras informações sobre esportes radicais.

Brasil
Analistas divergem sobre uso do termo recessão, mas ninguém tem dúvida de que o Brasil chegou ao fundo do poço. Os sinais da crise são visíveis em todas as esferas de atividades do país. E o pessimismo em relação ao segundo semestre cresceu entre os empresários.

Entrevista
O presidente colombiano, Álvaro Uribe, diz que as Farc não querem diálogo e pede ajuda internacional para derrotar a guerrilha e o narcotráfico.

Internacional
Silvio Berlusconi comprou uma briga com a Alemanha ao comparar um deputado, companheiro de partido do chanceler Gerhard Schroeder, a um guarda de campo de concentração. O resultado foi um bate-boca que pode colocar em risco o turismo de alemães na Itália.

Economia
Mais barata e econômica que os carros, a moto tem se transformado em uma opção muito apreciada pelos brasileiros. Nos últimos cinco anos, a venda do veículo cresceu 75% no país.

Moda
O inglês John Galliano, da Dior, tem uma rara qualidade: solta a imaginação como nenhum outro e também ganha dinheiro, até com alta-costura.

Design
Os irmãos Campana, Fernando e Humberto, são dois dos brasileiros mais conhecidos no mercado de design internacional. O criativo trabalho da dupla pode ser conferido no livro Campanas.
No site: veja fotos das criações.

Estilo
De Louis Vuitton a Alexandre Herchcovitch, o chique no verão será desfilar com uma sandália de plástico assinada.

Turismo
Novas regras para o visto dificultam a vida de quem mora em cidade sem consulado americano. A partir do dia 15 deste mês, todos os solicitantes entre 16 e 60 anos precisam comparecer pessoalmente aos escritórios para conseguir a autorização de viagem.

Gastronomia
A comida japonesa está em alta em todo o Brasil. Em São Paulo já há mais restaurantes de sushis do que churrascarias.

Cinema
No filme A Viagem de Chihiro, o diretor japonês Hayao Miyazaki mistura o real ao surreal do universo infantil de uma forma inpensável na tradição ocidental.
No site: assista ao trailer e veja fotos da produção.

Livro
O carioca Marcello Mansur - o DJ Memê - é o profissional mais requisitado quando um músico deseja injetar uma batida dançante e moderna às suas músicas. Sua parceria mais famosa foi com Lulu Santos nos anos 90. Agora os dois estão juntos mais uma vez no lançamento do CD Bugalu.
¿ No site: ouça sucessos de Memê.

Veja São Paulo
Campeões da feiúra e belezura paulistanas
Trinta personalidades elegem os símbolos urbanos mais feios e mais bonitos da cidade.

Veja Rio
Vinhos
O que há de melhor em várias faixas de preço. Como montar uma adega em casa. Onde aprender a conhecê-los. Dicas para organizar uma noite de queijos e vinhos.

O conteúdo integral das revistas estará disponível
na internet a partir de sábado pela manhã


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Sexta-feira, Julho 11, 2003




Como sempre em todos os fins de semana ai está a capa da Revista Isto É. As manchetes da mesma estão elencadas abaixo. A Revista Veja como sempre, ultimamente, está postando sua capa somente no sábado pela manhã, embora já envie sua newsletter na sexta-feira a noite.

Governo Lula discute porte de arma enquanto continua aberta a porta para a entrada clandestina de pistolas, fuzis, submetralhadoras e até mísseis de pequeno alcance

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BRASIL

CONTA PETRÓLEO
Documentos mostram que a Petrobras recebeu recursos de doleiros paraguaios via Banestado

RETRATO DO BRASIL
ONU elogia avanços do País mas ressalta sua maior chaga

NAMORO COM BRIZOLA
Filha de Garotinho tenta reaproximar os pais do PDT

RECUO DO RECUO
Lula admite negociar pontos centrais da reforma da Previdência

OS MAIS ACESSADOS COMO SERÁ SEU BEBÊ
Calcule as chances de seu pimpolho, prestes a nascer, puxar pelo pai ou pela mãe

GUIA DE POSIÇÕES SEXUAIS:
Bonecos mostram o que fazer

GRAFOLOGIA: Confira se a sua letra revela mesmo seu perfil

HIERÓGLIFOS: Escreva seu nome à moda dos faraós

REFLEXOLOGIA
Dor em pontos nas solas dos pés revela problemas de saúde

RAIO-X

HERANÇA INDIGESTA
Justiça dará veredito sobre importação de pneus do Uruguai

ACERTE NA ESCOLHA E RELAXE
Spas e clínicas devem ter supervisão médica

JOGOS DO BARULHO
Proliferação de lan houses pede regulamentação desse tipo de jogo

O RIO ENTRA EM CAMPO
Capital fluminense entra na disputa para sediar Olimpíadas de 2012

SÓ A PÍLULA NÃO BASTA
Tratamento da disfunção sexual masculina deve envolver a mulher

MARGINAL DAS LETRAS
Obra inédita retrata o conturbado escritor francês Jean Genet

PADRÃO NACIONAL
Fome Zero é indicado pela ONU como modelo de política social

Fotos mostram que o protocolo não tem vez quando presidentes
Encontram beldades

ECONOMIA

ESPÓLIO DO MAL
Reajuste de tarifas públicas pune consumidor e engessa o governo

ROMBO CONFIRMADO
TC confirma suspeita de operações irregulares na Rio Previdência

ESPECIAL

AFASTE O COPO
Governo declara guerra contra o alcoolismo com uma lei para conter a doença
TESTE: Devo procurar ajuda? Descubra se "o seu exagero" passa da conta


MUNDO

AFAGOS AOS POBRES
Bush faz périplo à África e promete US$ 15 bi contra a Aids

TRABALHO À VISTA
Portugal quer regularizar empregos temporários para brasileiros

Memórias da Aeronáutica nacional e de seu maior ícone, Santos Dumont, estão dilaceradas

TESTES

HUMANO OU ROBÔ?
Descubra se você está mais para "super-humano" ou C3PO

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Quando o Brasil passa a colher mais de 120 mil toneladas de grãos e quando a agricultura, embora colhendo sementes transgenicas consegue dar uma vida digna aos que nela trabalham, o Brasil agricola tem orgulho de ser. O que já não ocorre com alguns outros setores. Mas enfim, o frio continua e vamos para mais um fim de semana de inverno. Para uns com muitos sabores, de encontros, carinhos, ternos olhares e para outros, de afazeres, de estudos e de vivenciar o seu aqui e agora para melhor se conhecer.

Vagão dos Ventos


Ah, como dói saber que os mesmos braços
Que enlaçaram o meu corpo já não mais
Guardam de mim lembranças e sinais!
Ah, como dói este romper de laços!

Ah, como fitam os meus olhos baços
Em meu espelho os refletidos ais
Do coração, lugar de onde não sais,
E onde tu ocupas todos os espaços!

Ah, quem me dera um dia eu habitar
Terras estéreis e não mais plantar
Estas sementes vis de sofrimentos!

Talvez por companhia só lembranças,
A alma vazia e mortas esperanças
De ir aos teus braços no vagão dos ventos.


Silvia Schmidt
*Humancat*

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VOCÊ NÃO PERCEBEU
Silvia Schmidt

Você, que sempre esteve tão por perto,
Buscando decifrar meus sentimentos,
Tentando adivinhar meus pensamentos,
Sondando sutilmente o meu deserto ...

Você, parto de dores, de tormentos,
Que tanto assediou do jeito incerto
Um mundo que julgava estar aberto
Aos seus ruidosos e invasores ventos ...

Não percebeu que eu vinha de outra terra,
Sem espaço algum para quem berra
Palavras adoçadas com veneno?

Siga o seu rumo ... o meu é diferente ...
Vá sob o sol, caminhe com sua gente ...
Pertenço à noite ... deixe-me ao sereno

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O verão na Filadélfia


Filadélfia no verão ainda é a cidade plácida e quente, onde a vida de rua se traduz nas tavernas com portas abertas, nas fileiras de casas ocupadas e nos avós atentos ao movimento. Mas com o Centro barulhento, um outro tipo de vida pública, envolvendo bilhetes de teatro e telefones celulares, leva as pessoas para as ruas.

O alto verão é também o tempo de explorar as salas refrescantes dos museus que fazem as suas melhores exibições nesta época. Ou para visitar os rios: o Delaware, com a vida noturna nos píeres; e o mais tranqüilo Schuykill, onde as margens gramadas convidam para piqueniques e caminhadas.
O African American Museum está celebrando o blues neste verão. Além de uma mostra fotográfica, até 3 de setembro, o museu promoverá concertos ao ar livre na hora do almoço às quartas-feiras.

Andy Warhol: um observador social está em cartaz na Pennsylvania Academy of Fine Arts até 21 de setembro. A mostra, incluindo pinturas dos ex-presidentes Reagan e Nixon, Mao e Lênin, é a maior do artista desde 1988. Para um rápido tour, a Fundação para Arquitetura faz passeios a pé de duas horas em cinco dias da semana: sábado e domingo, às 14 horas; e terça, quarta e quinta-feira, às 18 horas.

MONSTRO - Uma diferente tendência da história pode ser vista no pesado prédio da Eastern State Penitentiary, uma das mais antigas penitenciárias do país, aberta em 1829 e que foi a casa de Al Capone. O gótico monstro de pedra foi recentemente recuperado depois de décadas de decadência e está aberto para visitas.

Pedestres sempre procuram a Society Hill. É um local simpático, de tijolos vermelhos na frente da calçada, abrangendo o Independence National Historic Park e dotado de casas e igrejas com pequenos jardins, e com muitos prédios no estilo georgiano. Perto dali, a South Street agita a noite com bares e tendas.

Atravessando a Society Hill, perto da Market Street, está a parte antiga, onde há 20 anos haviam fábricas abandonadas. A área agora está cheia de galerias, cafés, clubes e restaurantes. Adeptos das caminhadas e das pedaladas podem se dirigir para o Benjamin Franklin Parkway, que vai do Centro ao Philadelphia Museum of Art.

A Filadélfia fez de tudo o que se possa imaginar para receber os visitantes na Convenção Nacional dos Republicanos: seus monumentos foram polidos, as calçadas consertadas e os hotéis ganharam um novo brilho. Mas a convenção foi curta, de 31 de julho até 3 de agosto, e o verão, longo, dando lugar a muito mais semanas de puro turismo.

No dia 30, às 21 horas, a cidade saudou a convenção com um desfile de 59 barcos iluminados e houve uma queima de fogos de artifícios ao longo do Delaware. Não precisava ser um delegado para entrar na festa política, descrita como uma feira mundial de políticos. Houve exibições históricas e interativas no Pennsylvania Convention Center, que podiam ser lidas num teleprompter. E no Atwater Kent Museum há uma exibição sobre os 200 anos de campanhas presidenciais americanas. Até 26 de novembro.

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Frenéticas

As detetives mais sensuais do cinema ressurgem em As Panteras Detonando com muito mais ação e humor. Rodrigo Santoro aparece em três seqüências
Zean Bravo

Antes de comprar ingresso para a sessão de As Panteras Detonando, que chega hoje ao País ancorado por megacampanha de marketing, deve-se levar em conta a máxima de que cinema é a maior diversão. Seqüência do sucesso de 2000, mais uma vez dirigido por McG, a nova aventura do trio de detetives é satisfação garantida para quem deixar o mau humor de fora da sala escura. Protagonizada por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu, a fita é misto de ação e paródia ainda mais acelerado que o original. Para rir e não levar a sério.

Dito isso, é só entrar na onda das frenéticas Natalie (a carismática Cameron), Dylan (Drew) e Alex (Lucy). Sem medo de parecerem ridículas, elas batem, apanham, voam pelo ar, gritam, dançam e usam disfarces de freiras a dançarinas de boate recheando calcinhas pretas e meias arrastão. E sim: pontuam a trama com diálogos chulos. Na seqüência em que o passado de Dylan é descoberto, as outras duas panteras fazem todos os trocadilhos possíveis com a palavra bunda, referência ao verdadeiro sobrenome da personagem de Drew.

A revelação sobre quem era Dylan antes de virar pantera é um dos fios condutores do roteiro. Dessa vez, a trama gira em torno da missão secreta das detetives, que devem recuperar dois anéis com informações codificadas sobre a identidade de pessoas inscritas num programa de proteção a testemunhas. Tudo desculpa para uma colagem de esquetes repletos de citações, que parodiam cenas de Os Caçadores da Arca Perdida, Cowboy do Asfalto, Matrix e até Flashdance, e que acabam lembrando filmes de sátira como Top Gang.

A ação contínua ¿ rapidinha, rapidinha, cheia de música mostra ainda as meninas despencando de uma ponte, surfando, concorrendo num enduro de motocross. Ufa!

E no meio do caminho das detetives superpoderosas está o enfurecido Seamus O Grady (Justin Theroux), ex-namorado de Dylan, sedento por vingança. Não é só. Elas enfrentam ainda o surfista assassino Emmers (Rodrigo Santoro em sua tão propagada e curta participação), assistente da vilã-mor Madison Lee (uma quarentona Demi Moore metida quase sempre em pouca roupa), pantera aposentada que se volta contra o misterioso chefe das detetives, Charlie (que nunca aparece e tem a voz do veterano John Forsythe).

Adaptação para o cinema do seriado dos anos 70, o filme é repleto de participações curiosas. Jaclyn Smith, a pantera Kelly da TV, aparece numa cena na pele da detetive veterana. Repare também na Madre Superiora, quando as meninas se disfarçam de freiras. Ela é vivida por Carrie Fisher (a princesa Lea de Guerra nas Estrelas). Menos conhecida por aqui, a cantora Pink, responsável pela música-tema do filme, também faz uma ponta.

Namorados de Natalie e Alex no filme anterior, Pete (Luke Wilson) e Jason (Matt LeBlanc) também dão as caras. Astro de filmes de ação, Jason é quase cópia de Joey, engraçado bobalhão interpretado por LeBlanc na série Friends é hilária a cena em que ele conhece o sogro, pai de Alex. Jason também é responsável por outro momento engraçado: na trama, o filme que ele acaba de protagonizar é Maximum Extreme 2, cujo cartaz é cópia do de Missão Impossível, com Tom Cruise. Em As Panteras Detonando pode-se perder até a coerência, mas nunca uma piada.

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José Simão
simao@uol.com.br


Portugal Urgente! Lula escorrega no bacalhau!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa. E o Lula tá em Portugal. O quê? Mais um idioma que ele não domina? Devia ter levado a Maria da Conceição Tavares de intérprete. E avisa pro Lula que bicha é fila, puto é menino e e-mail se chama carta voadora. E a parada gay em Lisboa se chamou Parada de PORTUGAYS! Rarará! E diz que um português casou virgem, nunca tinha visto uma xereca e, quando a Maria levantou os braços, ele gritou: 'O quê? Mais duas?'. Rarará!

E o 'Jornal Hoje' exibiu uma matéria sobre os pastéis de Belém cujo recheio é um segredo de mais de dois séculos. E na porta do recinto onde se prepara o recheio estava a placa: 'Sala Secreta'. E o Lula disse que a melhor forma de combater o terrorismo é por ações pacíficas. E o presidente Sampaio rebateu dizendo que a melhor forma é cobrir Portugal com uma lona: 'Portugal mudou-se! Saída secreta'.

E eu já disse que português não é burro, é básico. E tudo eles respondem 'depende'. Eu estava em Lisboa quando perguntei: 'O Museu Naval fica longe?'. 'Depende.' Depende de quê? 'Se vais rapidinho é cinco minutos, se vais devagarinho é 15.' E, se eles continuarem a maltratar os brasileiros residentes em Portugal, nós vamos adotar uma represália: não compra mais pãozinho na padaria. Só no supermercado, Pão Pullman!

E aquele americano que saiu do coma depois de 19 anos e falou três coisas: mamãe, Pepsi e papai. Nessa ordem de importância. A Santíssima Trindade americana. E se fosse o Bush seria: Papai, Saddam e Bin Laden. E se fosse o Palófi: papai, pafóca e juros!

E agora tá confirmado: Israel fará convênio com o Brasil para ajudar o Fome Zero. Ou seja, Israel lança o MARMITZVA! E um amigo meu estava viajando quando viu a placa 'Motel Fazenda'. E aí me perguntou o que a gente faz em motel fazenda. Cobrir vaca em pasto. Rarará!

E A VOLTA DA MÚMIA! O FHC, vulgo Maria Antonieta Tropical, declarou para o 'Clarín' que o FMI errou na Argentina e acertou no Brasil. Acertou sim. Acertou em cheio no bolso do brasileiro! É mole? É mole, mas sobe!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que uma amiga recebeu um panfleto propaganda da padaria da esquina dizendo que há dez anos o estabelecimento está honrado em fazer artefatos de trigo. Tucanaram o pãozinho! Socorro! Chama o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês! E hoje não tem Cartilha do Lula porque ele tá com a língua plesa em português. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza.

Email simao@uol.com.br

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Paulo Sant'ana
11/07/2003


Show do Tostão

Agora mais esta do Silvio Santos concedendo uma entrevista em que declara que está para morrer por doença cardíaca terminal e que vendeu o SBT para o Boni e para a mexicana Televisa.

A primeira constatação de que Silvio Santos não estava falando a verdade é que a revista que publicou a entrevista, a Contigo, é considerada uma "revista de fofocas".

Visivelmente foi gozação do Silvio Santos. Ou então ele se cansou das fofocas que a revista publicou a seu respeito e resolveu se vingar, prestando declarações lunáticas.

A repórter que conseguiu a entrevista com Silvio Santos, pelo telefone, desde Orlando, nos EUA, onde ele se encontra, se defende: "Se é uma brincadeira, ele está brincando com as coisas mais importantes dele, o SBT e ele mesmo".

Para obter repercussão para seu trote, Silvio Santos teria de ser dramático e mórbido como foi, tratando de um tema que se constitui em tabu sagrado para os artistas famosos: as doenças sem cura de que eles sofrem.

Essa é a primeira segurança de que se trata de um trote, uma caçoada, uma brincadeira. A segunda pista que leva à certeza de que Silvio Santos estava gozando a repórter e a revista é que, quando foi indagado pela jornalista sobre qual doença terminal de que estava sendo alvo respondeu: "Ataque do Coração em Seis Anos".

Isso é uma piada, não há uma doença que na sua denominação indique o prazo fatal para o paciente.

Silvio Santos, a se confirmar toda a aparência de troça da sua entrevista, presta um grande desserviço ao jornalismo. Porque o jornalismo tem a obrigação da credibilidade.

No entanto, ele não é jornalista. É um grande comunicador e um empresário de sucesso. Não seria lícito esperar-se dele esse compromisso com a sobriedade jornalística, ainda mais que a revista que publicou ontem a entrevista se dedica à fofoca e à especulação álacre sobre a vida íntima dos artistas.

No entanto, Silvio Santos pisou no tomate no que se refere ao respeito que ele deve ao seu público, que o ama e é constituído em sua maioria de pessoas simples e ingênuas, que vão levar a sério sua zombaria e muitas irão chorar e fazer preces pela sua alma, diante do auto-anúncio de sua morte.

O fato tem todas as tintas de uma brincadeira macabra. Se se confirmar essa impressão, Silvio Santos não terá nenhum lucro com esta burla, só desvantagens.

A repórter Ana Carolina Soares, que colheu a entrevista-bomba com Silvio Santos, declarou o seguinte: "Esta é a reportagem da minha vida".

Como ontem afirmei aqui nesta coluna, a profissão de jornalista é muito perigosa, agora mesmo estou correndo um risco nesta coluna, ao classificar de comédia a entrevista de Silvio Santos. E se for séria?

A repórter da Contigo correu esse risco quando publicou sua entrevista. A que ela diz ser a reportagem "da sua vida" pode ter sido a da sua morte como jornalista.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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David Coimbra
11/07/2003


A escova da Branca de Neve

Minha escova de dentes é da Branca de Neve. Sem querer. Precisava de uma escova nova, aqui na Zero, e fui comprar no postinho do outro lado da rua. Cheguei ali, peguei uma escova aleatoriamente, nem vi direito qual era. Escovei os dentes uma vez, duas, qualquer cafezinho me faz escovar os dentes. Aí está algo que aprendi, na looonga estrada da vida - escovar os dentes é muito, MUITO importante. Ah, se soubesse disso antes... Mas, como ia contando, só pela terceira escovada percebi: com mil incisivos, comprei uma escova da Branca de Neve!

Olhei para os lados. Estava sozinho no banheiro. Será que alguém, nas escovadas anteriores, viu a minha escova da Branca de Neve? Maldição. Examinei a escova. Decidi jogá-la fora. Só que, puxa, estava gostando dela. Não por ser bonitinha, que é, mas por escovar bem. Tão macia. E, como é pequena, intromete-se em quaisquer desvãos entre os molares, feito um râmster.

Fui ficando com ela. Passei a ter cuidado. Quando alguém entra no banheiro, cubro o desenho colorido da Branca de Neve com o polegar e tento continuar escovando com naturalidade. Em seguida, meto-a numa pequena bolsa. O problema foi que dia desses me distraí, deixei-a repousando na pia enquanto passava fio dental. O Jones Lopes da Silva entrou no banheiro. Logo o Jones, gozador e fofoqueiro! Eu estava longe da escova, não a alcançava. O Jones veio vindo. Dei um passo na direção da escova. Ele veio. Veio. Avancei outro passo. Torcia para que ele não olhasse para a escova. Mas ia olhar, claro: pretendia usar a pia, não havia como não olhar. Eu tinha que desviar a atenção dele. Como???

- Viu aquilo dos maiores seios do Brasil, Jones?

Ele parou. Virou-se para mim.

- S-seios?

Deus é pai. Fui me aproximando da escova.

- A Camila Mortágua. Botou silicone. Disse que agora é dona dos maiores peitos do Brasil.

O Jones sorriu com a idéia.

- Que tamanho? - salivou.

- Grandes. Bem grandes. E redondos.

Mais um passo.

- Redondos?

- Praticamente duas bolas de futsal - levei as mãos em concha até o peito. O Jones arregalou os olhos. Aproveitei e peguei a escova! Peguei! O Jones sorria para o azulejo branco da parede.

- Duas bolas... - repetiu, sonhador.

Escorreguei para fora do banheiro. Suspirei, ao sentar a salvo no meu lugar. Tudo para não virar motivo de chacota da redação inteira. Agora entendo os que reclamam das piadas do Casseta & Planeta contra os gaúchos. Entendo. O Casseta e o Jones, esses realmente não dá pra agüentar.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Clima
A cor do frio



No dia mais frio do ano, a geada branqueou parte do Estado e embelezou ainda mais a Rota do Sol (foto Roni Rigon, Agência RBS/ZH)


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Quinta-feira, Julho 10, 2003




Bordando Palavras
Silvana Duboc


Aqui, agora, sem dor, posso falar daquele amor,
das noites mal dormidas, das tantas feridas
que ele abriu em meu coração ...

Posso falar daquela paixão que rondou a minha alma
enquanto a calma de mim se distanciou ...

Hoje, refeita da agonia, eu posso descrever
tudo que eu sentia, aquele turbilhão
de todo tipo de emoção ...

Não ...
não que eu tenha me curado, apenas coloquei de lado
aquelas ilusões e entendi que as grandes paixões
sempre terminam em nada e somos obrigados
a trilhar outras estradas ...

Então eu fui ... tenho seguido por aí,
mas na verdade nunca te esqueci,
e trago aqui dentro as cicatrizes
daqueles momentos que vivi ...

Estranhamente gosto de acariciá-las
através destas palavras que insisto em bordar ...

Estranhamente tento retornar
àquele tempo que não vai voltar, onde todas sangravam
e meus olhos encharcados pelos teus procuravam ...

Te amei ... só eu sei o quanto amei e a ti nunca contei ...
mas só eu sei como te amei ... e te amei tanto
que perdi a lucidez e da vida não pude mais ver o encanto,
cega que fiquei pelo meu pranto quando de mim tu partiste ...

Te amei ... até que meu coração ruiu,
te amei até a última gota que esvaiu, como roupa que se torce
e nada mais tem pra pingar ... te amei até não agüentar!
e hoje tenho a certeza de que te amei
muito mais do que a mim mesma ...

Te amei ... com toda beleza, amei mais do que eu podia,
muito mais do que eu devia, bem além do que eu queria ...

e agora só me restou, depois de todo esse amor
um mero retalho bordado com as marcas do passado.

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Estarei mentindo
Silvia Schmidt

Se eu te disser, amor, que eu não te amo,
Ouvirás das mentiras a mais pura,
Escutarás a dor que não se cura
Dentro do peito que revela o engano

Se eu te disser, amor, que eu vou embora,
Não abras portas : não me moverei
Mentindo ainda assim eu estarei,
Prevendo o adeus, essa temível hora

Hora de ver o quanto nada posso
Longe de ti fazer, de mim perdida,
Quanto enfraqueço fora do que é nosso,

Quanto me assusto diante da partida
Tão semelhante a traiçoeiro fosso
Que não reserva espaço para a Vida

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O PRESENTE
Bruno kempel

Fui à livraria comprar um buquê de versos. O florista que me atendeu disse-me que estavam em falta. Mas não desisti. Fui até à loja que vende flores e pedi um livro de poesias cheirando a jasmins. O livreiro desculpou-se dizendo que estava esgotado.

Teimoso como sou entrei no circo querendo comprar a tristeza do palhaço, mas só tinham para vender a caricatura do seu sorriso. Diante disso, fui até a maternidade tentando achar; um pouco de ternura, mas a enfermeira garantiu-me que isso só se encontra nos livros de poesia.

Então, ante o dilema de parar ou seguir, decidi continuar à procura do presente, pois queria mandar algo que significasse mais do que apenas um mimo. Sim, revirei meia cidade buscando alguns gritos de felicidade, mas só achei gemidos de segunda mão. Tentei encontrar suspiros de prazer, porém o lojista só dispunha de silêncios que não paravam de gritar.

Revirei as estantes à cata de um vinho feito de suor gerado no desejo e de lágrimas paridas na emoção do encontro, mas apenas achei garrafas vazias e;cansadas de esperar por quem as encha. E foi assim que de prateleira em prateleira, de loja em loja, de bairro em bairro, esgotei o estoque de possibilidades, pois na cidade apenas sobraram sem mácula as esquinas da vida, as praças da esperança, as árvores impávidas, e os ninhos sem cadeado onde habitam os pássaros sem tristeza.

Por tudo isso é que só me restou uma alternativa, e uso antes que seja tarde demais. Espero então que aproveite a esquina que lhe mando para nela aguardar até que o sinal da felicidade fique verde de alegria; a praça, para que desde um dos seus bancos, e olhando o céu, possa desfolhar a alegoria do amanhecer recitando borboletas de todas as cores; as árvores, para que; à sombra dos seus galhos floresça a inspiração sempre que ela visite os seus domínios.

Os ninhos, para dar guarida ao gorjeio sentimental que sua sensibilidade borde em prosa e verso sobre a toalha de renda da vida; e os pássaros felizes, para que sobrevoem as paisagens que a sua imaginação lhes implante nas retinas. Como já disse, isto foi o único que achei para mandar. Sei que é muito pouco, pouco até demais, não mais do que uma amostra de esperança, mas como tratei de explicar, foi o único que achei para mandar e espero que gostes.

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Pancadão na moda
Blue Man bota funk na passarela do Fashion Rio e funqueiros levam a platéia ao delírio
Flávia Motta



Modelo funqueira: corpão e suingue

Diz a letra que funk é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado. Pois nem Elvis Presley que dividiu cena com Sapão, Vanessinha Pikachu e outros ícones do ritmo carioca ontem, no desfile da Blue Man conteria a famosa pelvis. A apresentação da nova coleção de David Azulay teve ainda música clássica, pop rock e maracatu. Mas foi o batidão e a dança dos bailes que conquistaram a platéia e o dono da grife. Estava tão concentrado na coleção que fiquei com preguiça de fazer o desfile. Me convenceram de chamar a Bia (Lessa, diretora de teatro, responsável pelo desfile) e não me meti em nada. Mas, no ensaio, quando entrou o funk, já gostei. É minha praia, garante David, que viu a platéia ir à loucura com os negões funkeiros, recebidos com aplausos e gritaria.

A intenção de Bia era levar para passarela a realidade democrática da praia. Mas tem a valorização do indivíduo e o respeito às tribos, destaca a diretora. E, por respeito às tribos, não houve representações: Bia optou por colocar gente comum pra desfilar. ¿Os meninos da Zona Sul que tocam maracatu são eles mesmos e os funkeiros também. O desfile no Rio possibilita essa atitude lúdica, acredita.

Para que tudo ficasse bem real, a produção foi procurar nas ruas os funkeiros da passarela. Gente saída da Cidade de Deus, de Madureira, Belford Roxo e Cavalcante direto para o mundo fashion. Integrantes do grupo de dança Os Deuses do Funk, Leandro Ribeiro, 17 anos; Luiz André Ribeiro, 16, e Evandro Bernardino, 18, foram descobertos durante apresentação no morro da Serrinha. A gente ficou com um pouco de vergonha, mas se garante. A platéia foi ao delírio¿, esnoba Luiz André. Integrantes de um grupo de modelos da CDD, Joyce Rodrigues, 19, e Wagner Ramos, 17, comemoravam a conquista e o fato de terem sacudido até os bastidores. Adoro funk e estávamos todas dançando e doidas para entrar com eles, confessa a modelo Juliana Martins ao lado de uma rebolativa Gianne Albertoni.

Conquistado pelo pancadão numa visita ao baile do Bandeirantes Tênis Clube, Dany Roland não podia deixar o ritmo de fora na trilha que assinou para o desfile. Fiquei fascinado. E tem tudo a ver com essa tolerância do brasileiro com todas as culturas, teoriza. Da platéia, Ivo Meirelles aplaudia sem parar. Estou feliz da vida de o funk ter chegado aqui. É um novo começo: o funk fazendo moda.



Passinhos e a boa forma dos rapazes arrancaram gritinhos do público. Difícil era reparar nas sungas e biquínis

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José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! MST é: Meu Salário Terminou!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República do Boné! Ops, Direto do País da Piada Pronta: 'Bomba explode em show de Belo'. Então não foi explosão, foi implosão. O show se implodiu. E um amigo me disse que a situação tá tão braba que ele tá mais apertado do que São Jorge em lua minguante. E avisa pro Lula que um outro amigo também vai botar um boné do MST: Meu Salário Terminou!

E esta aqui: '40% dos servidores estão parados'. E os outros 60% continuam parados. Rarará! E continua a polêmica da vitória do Rio sobre São Paulo para sediar as Olimpíadas. E os paulistas continuam ofendidos com a frase do Cesar Mala: 'As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental'. E já lançaram a represália pela internet: 'Beleza é fundamental! Paris pra 2012!'. Rarará!

E diz que agora as Olimpíadas dependem do COB, Crime Organizado Brasileiro! E São Paulo seria ouro em duas modalidades: jogar lixo no Tietê e matar pernilongo no tapa. Aí os atletas iam pensar que o povo tava aplaudindo, mas na realidade tava é
matando pernilongo no tapa: clac, clac, clac, pá!

E uma amiga disse que antigamente as mulheres gostavam do cara cavalheiro, romântico e educado. Agora a onda é caratê: o caratê grana, o caratê carro e o caratê fama. Rarará!

E o Malanta elogiou o Palófi. Que sacanagem. O Malan elogiando alguém é sacanagem. É a primeira vez que elogio vira sacanagem. E a mania agora é chamar o Zé Dirceu de Stálin: 'O Zé Dirceu é um Stálin! O Zé Dirceu é um Stálin'. Mas um leitor acha que na realidade o Zé Dirceu é um cruzamento de Stálin com Jeca Tatu. Rarará!

E continuam as reclamações sobre as estradas brasileiras. Um amigo foi viajar nas férias, e tinha tanto buraco, mas tanto buraco, que sabe o que ele fez? Parou pra pescar. Num buraco. Ficou pescando num buraco. É mole? É mole, mas sobe! Rarará!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que num hospital eu vi a placa: 'Favor depositar qualquer quantia para pessoas com hiposuficiência econômica'. Tucanaram os pobres! Aliás, ferraram com os pobres. Um colunista da revista 'Newsweek' escreveu que a guerra contra a pobreza acabou. E os pobres perderam.

E atenção. Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. 'Esgotado': companheiro que caiu no esgoto. 'Quilate': Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro. Quilate, mas não morde. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

Email simao@uol.com.br

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Nilson Souza
10/07/2003


O pão e as rosas

Sou um apreciador de pães. Quando saio do trabalho à noite, costumo passar no posto de gasolina da esquina para comprar pão quente. Isso mesmo: no posto de gasolina. Já vai longe o tempo em que só padarias vendiam pão, só açougues vendiam carne e era preciso passar na quitanda para comprar frutas e verduras. Os supermercados e as lojas de conveniência subverteram tudo - e nos trouxeram mais conforto, é bom reconhecer. Pois gosto tanto do pão-de-leite do posto vizinho que não me conformo em consumi-lo sozinho. Sempre compro alguns a mais e saio distribuindo pelo caminho. Na última terça-feira, fiz a festa dos meninos que armam pirâmide e fazem malabarismo com calotas na sinaleira da Ipiranga.

Tem um ditado que diz "Melhor é o pão quando o coração está contente". Pois eu acho que compartilhar o pão também deixa o coração contente. Foi com a alma alegre que descobri, nas últimas leituras da noite, uma agradável coincidência: celebrava-se na terça-feira o Dia do Padeiro. Na adolescência, muito antes de ingressar nesta aventura maravilhosa do jornalismo, cheguei a trabalhar como padeiro, mais especificamente como distribuidor de pães. Mas conheci bem os homens enfarinhados, que atravessam as noites e as madrugadas preparando a massa ou suando na boca do forno. Nem sabia que existia um dia especial para homenageá-los.

E o mais interessante - li naquela noite - é a simbologia da data escolhida. Os panificadores celebram a profissão no dia de Santa Isabel. Conta a lenda que Isabel, rainha portuguesa, costumava distribuir pão aos pobres longe dos olhos do rei. Numa época de fome no reino, vendeu suas jóias para comprar trigo e garantir a alimentação do povo. Certo dia, quando fazia as doações, seu marido chegou repentinamente e ela escondeu os pães no longo vestido. Questionada pelo rei, respondeu que estava colhendo flores. O marido, então, exigiu que ela mostrasse o que escondia. Quando a rainha soltou as vestes, caíram rosas perfumadas.

É só uma história bonita, dirão os céticos, e eu tendo a me colocar entre eles. Mas aprendi na minha vida passada de adolescente que o pão nosso de cada dia, saído do posto de gasolina ou do forno da padaria, é também o resultado de um milagre chamado trabalho.
nilson.souza@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
10/07/2003


Culpa maior

Cartum: as caravelas de Pedro Álvares Cabral aproximam-se da praia, onde um grupo de índios as observa. Um índio olha para outro e diz: - Iiih... Lá vem aquele papo de reforma agrária. O papo de reforma agrária pode não ser tão antigo quanto o descobrimento do Brasil, mas é certamente um dos nossos temas mais velhos e recorrentes.

Tanto que adquiriu uma certa candura de folclore. Falar muito de reforma agrária e nunca fazê-la seria uma das simpáticas inconseqüências brasileiras, algo como a nossa impontualidade ou outro mau hábito qualquer. Mas como era um ideal nobre, e o fato de termos tanta terra agia como uma espécie de remorso geográfico permanente, a reforma agrária estava em todo discurso de candidato e todo programa de governo, à esquerda e à direita.

O grande, o imperdoável crime dos que começaram a organizar o movimento dos sem-terra foi, em primeiro lugar, se organizarem, e em segundo querer transformar retórica em realidade. O de afrontarem um dos pressupostos do patriciado brasileiro e dos seus discursos, que é o de que a boa intenção se basta, e os exime de fazer. Desafiaram uma das mais arraigadas tradições nacionais.

Não se trata de justificar ou incentivar as invasões do MST e a ilegalidade, mesmo porque a violência sempre favorece a reação. Mas a culpa maior pelo ponto de combustão a que chegou a questão fundiária no Brasil não é do ativismo que hoje assusta de multidões de enjeitados do campo e das cidades, que não são causa mas efeito, e sim de toda uma História de promessas não cumpridas ou mal cumpridas, insensibilidade, oportunidades perdidas - e bons discursos.

Não adianta nada, claro, ficar aqui dizendo que a conta da dívida social brasileira acumulada desde as caravelas, a conta de tudo que não foi feito, está chegando, quá-quá-quá e bem feito, porque numa combustão geral nos queimaremos todos. Mas não culpem as vítimas. Lula não vestiu um uniforme inimigo, como quer a reação, quando botou o boné do MST. O inimigo usa cartola. Ou usava, nas charges antigas.

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Paulo Sant'ana
10/07/2003


O sol da liberdade
Era da mais intensa alegria o clima entre os familiares e os colegas do jovem auxiliar de mecânico Fernando Araújo da Silva, 24 anos, depois que ele transpôs, ontem, o pórtico do Presídio Central e ganhou a liberdade.

Desde que fiquei sabendo do caso de Fernando, dia 4 deste mês, apostei tudo em sua inocência.

Uma arriscada aposta. Porque todas as informações que eu recebia do Tribunal de Justiça de Santa Catarina eram de que ele era o homem procurado pela Justiça, autor de um assalto em Balneário Camboriú.

Eu tinha somente a palavra da esforçada e talentosa advogada de Fernando, bacharel Cristiane Bonetti Ferreira, que peregrinara por dias em Santa Catarina, esforçando-se por entre varas e comarcas da Justiça de lá para libertar o inocente.

Parecia tudo em vão.

Foi quando decidi apostar na inocência de Fernando, baseado em todos os detalhes da sua saga dramática, um desses lances de azar por que passa uma pessoa no transcurso da vida, capazes de arrasá-la.

Pelo assessor de imprensa do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Ângelo Medeiros, tive sempre contato telefônico com aquela Corte, onde de início ninguém se convencia da inocência de Fernando - e todos de lá me diziam que era concreta a participação dele no assalto que acabara em sua condenação, enquanto que quase inutilmente eu bradava que tudo se resumia a um grande erro a que a sentença tinha sido induzida pela forte coincidência da trama enganosa (o verdadeiro assaltante se identificara como Fernando, usando a identidade dos documentos que lhe furtara).

A coluna de domingo passado que escrevi foi temerária. Se Fernando ou sua advogada estivessem mentindo, eu pagaria caro por ter encampado publicamente e nesta coluna de grande repercussão a versão deles.

Agora, só agora, sinto que foi meritório o risco que corri, baseado apenas na minha cognição sobre os acontecimentos. A advogada do inocente foi a grande artífice de sua libertação.

Mas eu, Zero Hora e o Diário Gaúcho tivemos participação essencial, assim como várias autoridades da Secretaria da Justiça e Segurança e da Justiça gaúcha (Susepe), na derrubada dos óbices que se levantavam à soltura do inocente.

Ninguém irá devolver a Fernando os 18 dias de pânico e terror que passou no cárcere. Mas o consolará a corrente pública de solidariedade de que ele foi alvo.

Há uns 12 anos, este colunista foi agraciado com o prêmio máximo do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, presidido então por este bravo Jair Krischke. Foi o maior laurel desta coluna.

E, enquanto este espaço continuar a liderar estes avanços e conquistas em favor da frágil experiência humana, o jornalismo e a vida valem a pena ser exercitados.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Uma cidade em estado de choque



Tornado que arrasou parte de São Francisco de Paula legou um morto, mais de 50 feridos e o terror de uma noite interminável
Pelo menos 20 casas foram trituradas e outras 300 parcialmente destruídas pela tempestade que chegou à cidade no início da noite de terça-feira (Ricardo Chaves/ZH)


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Quarta-feira, Julho 09, 2003




Meu Príncipe Encantado

Autora: Tahyane


Quisera ter doces lembranças...
de amores de tempos de outrora
Resgatar a tua imagem na memória
Sentir em mim a tua emoção

Quisera poder relembrar os momentos
que estão na esteira do tempo marcados
quando juntos estávamos enamorados
Quando o mundo era só o nosso amor

As estrelas que hoje vejo no céu a brilhar
atravessaram o tempo e continuam a cintilar
num pisca-pisca provocante como a me relembrar
que somente a elas posso mirar

Sinto somente marcante ausência
de um não sei o quê precisar
Uma saudade doída de alguém
que não consigo do rosto lembrar

Quisera encontrar o encantado castelo,
em que estás como Príncipe a me esperar...
Para valsar no calor dos teu braços
Para com teu beijo adormecer e sonhar

Eu sinto somente a saudade
somente a sentida ausência
somente a inexplicável tristeza
de não poder sentir o teu amor

Imagino-te nos meus acordados sonhos
Trago no coração um amor que é so teu
Somente a minha alma te ama e não eu!...

E eu vivo na terra sonhando com o céu
o mesmo céu estrelado fundo de cena
de dois eternos apaixonados:

Eu a triste cinderela,
e tu o meu Príncipe Encantado!...

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Lira do amor romântico
Carlos Drummond de Andrade

Atirei um limão nágua
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão nágua
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão nágua,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão nágua,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão nágua
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão nágua,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão nágua,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.

Atirei um limão nágua,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão nágua
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão nágua,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão nágua,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão nágua,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão nágua,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh¿alma dolorida.

Atirei um limão nágua,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão nágua.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão nágua,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão nágua,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.

Atirei um limão nágua,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.

Atirei um limão nágua
e caí n¿água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão nágua,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

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Folhas de Rosas
Florbela Espanca

Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo ...

E falo-lhes d'amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente...

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m'embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...

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José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Rubinho atropela o Galvão!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! CPI do Boné! Continua a polêmica do boné do Lula, aquele red cap do MST! O Lula deveria ter feito como a turma do rap: botava o boné pra trás. Aí não dava problema. Ou então ter botado o boné de orelhas do Mickey. E um outro disse que o Lula lançou o Fashion Rural Week. E essa bombástica notícia: 'Lula testa avião da Airbus para substituir o Sucatão'. Já sei, ele tá testando a Sheila Mello pra substituir a Marisa.

E só tem dois jeitos de ficar rico no Brasil: ganhar na Megasena ou achar o Saddam Hussein. E acaba de sair o salário menstruação: vem uma vez por mês e dura três dias. E um desempregado e ex-comprador de carro zero tem uma sugestão para as montadoras esvaziarem o estoque: vendam os carros pros robôs.

E ainda continuam falando do Santos: um leitor me disse que o Santos perdeu porque o Leão esqueceu de convocar o Pelé, o Pepe e o Serginho Chulapa. E que o Robinho agora vai dar pedalada em bicicleta ergométrica. Taí um bom presente pro Robinho: bicicleta ergométrica. E o Boca ganhou a Libertadores e vai pro Japão. Ou seja, QUEM TEM BOCA VAI A TÓQUIO!

E as férias? Um amigo meu foi pro interior e chegou rouco de tanto dar bom-dia pros cobradores de pedágio. E disse que as estradas estão cheias de buracos no acostamento, esperando a vez pra entrar na pista. BR é abreviatura de buraco. Rarará. A gente não desvia mais dos buracos, desvia das estradas!

E alguém ainda assiste F-1? Aliás, muda logo o nome da Fórmula 1 pra Fórmula Schumacher. E o Ufanismo Urucante do Galvão? Foi só ele gritar 'lá vem o Rubinho' que o teletubbie roda na primeira curva. Aliás, sabe o que eu faria se fosse o Rubinho? ATROPELAVA O GALVÃO! Rarará. E eu já disse que o Rubinho devia ser piloto de enceradeira, encerar curva.

Momento Carla Perez na Fórmula Schumacher. Ross Brawn, diretor-técnico da Ferrari, disse que a equipe tinha que se recuperar e dar uma guinada de 360 graus. Então fica tudo na mesma? Um Schumacher em primeiro e o Rubinho em sétimo? Rarará.

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um amigo meu viu a placa no estacionamento do aeroporto de Londrina: 'Vaga sujeita a detritos de aves'. Tucanaram a cagada de passarinho. Rarará.

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Abundantes': as sheilas. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Email simao@uol.com.br

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Com toda a animação
O festival Anima Mundi Chega a sua 11ª edição cada vez mais brasileiro, numeroso e tecnológico
Alessandra Carneiro





Dois destaques da Mostra: Almas em Chamas, de Arnaldo Galvão, e The Chubbchubbs!, da Imageworks, dirigido por Eric Armstrong e vencedor do Oscar de curta de animação

Começa na sexta a 11ª edição do Anima Mundi, que traz um recorde no número de filmes: são 586 animações, entre curtas, longas, seriados e comerciais. O número de trabalhos brasileiros também é o mais alto de todos os tempos: foram 219 inscritos e 101 animações nacionais selecionadas, sendo o país com o maior número de trabalho na mostra.

Para César Coelho, um dos diretores do festival, tal crescimento se deve ao acesso mais fácil à animação com o avanço tecnológico dos últimos anos. No início, os melhores filmes eram em película. Agora, encontramos muitos trabalhos em vídeo com qualidade excepcional. A produção ficou bem mais barata com todos os recursos tecnológicos de hoje, diz.

E para provar que é possível fazer animação com custo quase zero, a IBM, uma das patrocinadoras do Anima Mundi, está desenvolvendo um software livre de animação, como vocês conferem com mais detalhes na página ao lado.

No entanto, o grande nome dessa edição vem de uma escola de cifras milionárias, na qual gasta-se, mas também ganha-se muito dinheiro com animação. Doug Sweetland é um dos grandes nomes da Pixar, estúdio hollywoodiano de animação, que tem no currículo filmes como Monstros S.A., Vida de Inseto e Procurando Nemo, que está em cartaz.

Sweetland vai participar de um Papo Animado (encontro do público com grandes nomes da animação) e ministrar um workshop para 35 animadores escolhidos através de um processo seletivo.

Mas quando o assunto é computação gráfica, o Brasil não faz feio. Muito pelo contrário. Arnaldo Galvão, que exibe trabalhos no Anima Mundi desde sua primeira edição e também estará presente em um Papo Animado, apresenta seu último curta Almas em Chamas, que fez sucesso nos principais festivais de cinema no Brasil e no mundo.

E enquanto o festival não chega, aproveite para curtir (e votar) nas animações do Anima Mundi Web http://www.animamundiweb.com.br, que traz 20 trabalhos em Flash.





O Anima Mundi Web traz 20 trabalhos em Flash e qualquer internauta pode ser jurado e escolher suas animações preferidas. Metade dos trabalhos selecionados são brasileiros.

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Martha Medeiros
09/07/2003


Cada um por si

Pra ficar só com três exemplos recentes: um grupo de taxistas de Porto Alegre linchou um assaltante, garotos de classe média alta do Rio surraram um motorista por causa de uma discussão e cerca de 800 pessoas destruíram uma revenda de motos em Capão da Canoa para vingar a morte de um adolescente que foi injustamente acusado de roubo. São só três exemplos. De onde saíram estes tem muito mais.

Fazer justiça com as próprias mãos deixou de ser uma atitude excepcional para ser uma atitude corriqueira. Ninguém mais quer saber de esperar por processos que se arrastam por anos. Agora as vítimas da violência criam suas próprias leis e as cumprem num prazo mais exíguo: na mesma hora.

Esta agressividade pode ser percebida no cotidiano, em qualquer lugar. As pequenas irritações do dia-a-dia viraram irritações gigantescas. Se lhe deixam aguardando na linha, você bate o telefone com fúria. Se uma balconista questiona a validade do seu cartão de crédito, você diz que vai mandar fechar aquela espelunca. Uma pessoa discorda de suas idéias e você despeja em cima dela um vocabulário que faria Plínio Marcos corar. O cara pisa no seu pé e você quer apenas que ele morra.

Motivos fúteis? Eu diria: aparentemente fúteis. Por trás de toda essa estupidez existe muita contenção. Gente que agüentou calada várias humilhações no passado, gente que não realizou nem metade dos seus sonhos, gente que não tem grana pra viver como gostaria, gente que é bombardeada diariamente por cenas violentas na TV e no cinema e que assiste ao reverenciamento de uma arte sem sentido. Violência na TV serve como catarse? Talvez tenha servido um dia, hoje está tão banalizada que está servindo é de inspiração.

A gente pegou uma carona na guerra do Iraque, que acontecia bem longe do nosso nariz, para ficar quite com nossa consciência: colocamos bandeirinhas brancas nas antenas dos carros e assim fizemos nossa parte. E agora que a gente está neste ringue a céu aberto, onde estão as bandeirinhas brancas? O que é que a gente faz? Alguém dê uma idéia de como se briga contra a lerdeza do Judiciário, contra a falta de segurança e contra a falta de perspectiva, porque sem idéia melhor, vamos continuar brigando uns contra os outros e continuar sendo uma nação de perdedores.
martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
09/07/2003


A sorte dos traídos

Quando entrei no ambiente, percebi que estavam falando de alguém famoso e de muito êxito: metade da roda dizia que o cara era gay, a outra metade o acusava de corno.

"Ele é gay, as suas amizades todas são com gays", dizia um dos difamadores. O outro replicava: "Que gay nada, é conhecido de todos que foi traído pela sua mulher".

Logo em seguida me revelaram o nome do difamado: realmente, se tratava de uma das maiores estrelas do seu metiê, em nível nacional.

Para ser assim tão caluniado, era fácil prever que se tratava de um homem de sucesso.

Tentei pôr ordem na discussão, com o que já entrei de rijo nela, pondo mais lenha na fogueira.

É que nessas conversas masculinas jogadas fora, quando surge um assunto que tem como personagem central um político, logo ele é acusado de ser corrupto.

E se o cara é jornalista ou artista, não se livra da recriminação por ser gay ou corno.

Algum defeito tem de ter uma pessoa assim tão destacada, cujo mérito é incontestável. Por um estranho fenômeno de agressividade, nós tendemos a achar que uma pessoa qualquer, quando se realiza tanto em sua atividade, há de ter um defeito primordial que a descaracterize como pessoa feliz ou realizada.

Ofende-nos a idéia de que alguém possa ter o atrevimento de nos superar em qualidade e talento ou a não se equiparar conosco em nossos defeitos ou desvantagens.

Tentei pôr ordem na discussão sobre o difamado. E uma frase minha ecoou por toda a sala: "Ninguém pode ser corno e gay ao mesmo tempo. O corno é sempre chegado em mulher".

Foi uma risada geral. E alguém sugeriu que aquela minha frase inspirasse uma coluna, daí que os leitores estão hoje topando com a transcrição de uma conversa irresponsável, dessas que recheiam o cotidiano das pessoas que se reúnem habitualmente, no bar, na esquina, na barbearia ou nos intervalos do trabalho.

Não há atração mais irresistível na folga entre os grupos de trabalho ou de lazer do que falar da vida alheia.

Como a minha frase fez sucesso, deitei falação sobre o perfil psicológico do corno.

A lenda do marido traído é fruto do ufanismo machista: como a maioria dos maridos não é traída ou não sabe que é traída, caçoa-se do corno como uma pessoa inferior. Isto é, os imprecadores do corno sentem-se superiores a ele, falar mal do traído é uma forma de auto-elogio.

O corno então passa a ser um instigante alvo estigmatizado, tornando-se assim um dos tipos mais intrigantes da modernidade.

Ninguém tem coragem de comunicar ao corno que ele é corno, o que aguça o mexerico: se não podem dizer ao corno que ele é corno, todos dizem isso aos outros quando se encontram.

Mal sabem que o traído vive numa tensão dramática com a sua sorte. Em primeiro lugar, é desconsiderado por todos um mérito gigantesco do corno: ele ama. É por isso que seus detratores o detratam: fazem-no por inveja. A maioria dos que murmuram ou falam dos cornos não ama suas mulheres.

E nesse particular o corno é um estóico: ninguém ama mais do que ele. Ele ama tanto que às vezes sua cornice consiste essencialmente em licenciar sua mulher para ser feliz com outro. Ele se realiza com a felicidade da sua mulher. E se a felicidade dela depende disso, então inconscientemente ele a libera para a transgressão.

A delícia existencial do corno está centrada em dois caminhos antípodas. O corno adora qualquer um deles. Ele busca afanosa e delirantemente que a sua mulher confesse ou negue que o trai.

Qualquer que seja a decisão que ela tomar, quando ele puser na mesa todas as evidências da traição, fará o deleite do corno.

Se ela negar, o corno se sentirá aliviado. E prestigiado.

Se ela confessar, ele a perdoa.

A mentira ou o perdão são os alicerces básicos da aventura e da ventura do homem traído.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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David Coimbra
09/07/2003


Ele disse aquilo

Não devia ter dito aquilo. Não era o momento. Não era o lugar. Na verdade, aquilo só devia ser dito quando estivesse sozinho, bem protegido pelo recesso do lar. O problema é que só pensava nela. Elaelaela. O que estava acontecendo? Não era mais o mesmo. Sentia... coisas. Coisas que nunca havia sentido. Quando ela estava por perto, Cristo!, era estranho. Os sintomas: ele chegava a tremer, um suor frio lhe gotejava da fronte, o peito retumbava com palpitações. Seria gripe? Parecia. No princípio, até cogitou: essa mulher me dá gripe. Depois viu que não. Viu que o troço não ia passar com uma Neosaldina. Era mais grave. Estava... apaixonado!

Por isso disse aquilo. Sim, senhor: não diria algo semelhante, se não tivesse ficado idiotamente apaixonado. Que erro. Aquilo lhe saiu da boca no instante em que fincou os calcanhares na marca do pênalti, esperando um cruzamento. Era centroavante. Dos bons. Dos fazedores do gol, que centroavante tem de ser fazedor de gol. O lateral se preparava para cobrar o escanteio. O maior tumulto na grande área, um ambiente hostil, elétrico, de dentes rangidos, de cotovelos pontiagudos, de mães xingadas. Aí ele disse. Não conseguiu se conter. Pensava nos olhos plácidos dela, no cheiro que se evolava do seu umbigo, e disse:

- Ai, ai...

Ai, ai... Com reticências e tudo. O tempo parou por um instante. Em seguida, ouviram-se os risinhos dos zagueiros. Os colegas de time lhe lançaram olhares de repreensão. Como é que um centroavante experiente dizia ai, ai pisando na região belicosa da grande área, cercado de inimigos, às vésperas do escanteio? Onde ficava o respeito? O respeito!

O centroavante percebeu que cometera um deslize. Que sua fama de mau, de cínico, de homem sem medo, que essa imagem laboriosamente construída durante tantos anos, ela ia se esboroar. Ele corria um sério risco. Ele estava pondo em xeque sua carreira. Os adversários continuavam mangando dele, os colegas ainda balançavam a cabeça, indignados. Até o juiz desenhou um sorrisinho sardônico, atrás do apito preto. Centroavante que diz ai, ai... Puá!

O centroavante sentia o peito apertado. Naquele momento, queria jamais tê-la conhecido. Queria nunca ter sentido o que sentia. Ansiava por voltar a ser o homem livre que fora.

Aí o lateral cobrou o escanteio.

A bola viajou em semicírculo pelo ar. Ele saltou. No momento mesmo do salto, lembrou-se dela sorrindo mansamente e do cheiro que emanava daquele umbigo. Ele próprio sorriu, ao desferir uma testada na bola. Sorriu e cabeceou. E continuou sorrindo. Não porque a bola estivesse entrando no gol, não porque seus companheiros de time corriam para abraçá-lo, não porque a torcida urrasse de prazer nas arquibancadas. Não. Ele sorria porque continuava a lembrar dela. Elaelaela. Por causa dessa lembrança suave, não por causa do gol, no meio dos abraços, em pleno triunfo, ele repetiu, num novo suspiro:

- Ai, ai...

Mas dessa vez ninguém reparou. Dessa vez, todos corriam felizes para o meio do campo, comemorando mais uma de tantas vitórias do centroavante.

Foto(s): Valério Trabanco, Playboy, divulgação/ZH

As razões do Guga
Guga cansou do tênis profissional. Pudera: cada semana em um continente. Treino, treino, treino. Dormir com o Larry. Comer muita banana, muita salada, rúcula, chicória, nabo. Aquela coisa. E ficar longe da Praia Brava, dos torpedinhos de siri do Bar do Pirata e das sereias douradas da Ilha. Como Maryeva, a morena que a revista Playboy inexplicavelmente colocou dentro do bustiê preto que você vê aí. Numa época feliz, o Guga namorou com Maryeva. Hoje, não namora mais. Você, que é amante do tênis, observe bem a Maryeva e diga: você não perdoaria o Guga?

Os garis da Erico Verissimo
Todos os dias, no começo da tarde, os garis da prefeitura vão jogar bola no campinho do Cete, ali na Erico. Um jogo animado, dá para perceber. Eles se esforçam, deslocamentos constantes, intensa movimentação, ambas as equipes procuram tirar os espaços do adversário. Futebol-força. Mas com talento.

Vejo nacos do joguinho de uma janela do meu apartamento. Nunca me quedei na assistência por mais de uma passada de vistas, mas às vezes acontece algo que me detém por certo tempo. É quando o pessoal pára a fim de ver a partida. O pessoal que digo são os passantes. Os tais transeuntes, todo mundo já foi transeunte alguma vez. Eles vêm caminhando pela calçada, avistam os garis jogando e se detêm. Ficam ali, agarrados à tela de arame, como se estivessem numa arquibancada. Ficam alguns minutos, olham atentamente a movimentação dos jogadores, depois se vão, mão no bolso, assobiando a última do Rei.

Agora, alguém aí me diga por que uma pessoa dispõe de seu tempo para assistir a uma pelada disputada entre os garis na hora do almoço. Por quê??? Se você respondeu que isso acontece porque o futebol é uma diversão realmente popular, porque o brasileiro está acostumado a se distrair com o futebol, você ganhou um enroladinho de pizza do bar da Zero. Então, se já existe essa cultura de apreço pelo futebol, imagine o que seria um jogo entre dois grandes do país, com segurança nas ruas, conforto no estádio e ingresso barato. Imagine. E você entenderá que o futebol brasileiro é como o cérebro humano: usa só 10% da sua capacidade.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Clima
São Francisco de Paula vive noite de pânico e morte



Uma tormenta que durou cerca de meia hora varreu a cidade de São Francisco de Paula, na serra gaúcha, por volta das 19h de ontem. Dezenas de pessoas tiveram de ser atendidas no único hospital do município. Três foram transferidas para outras cidades. Casas foram destelhadas e, algumas, derrubadas.

Bombeiros, policiais e voluntários entraram a noite envolvidos em resgates, alguns dramáticos. Pelo menos uma morte, de uma mulher, é atribuída aos efeitos da tempestade.

Outras regiões do Estado também foram castigadas. No Norte, telhados foram quebrados por pedras de gelo. Na Grande Porto Alegre, as fortes precipitações causaram alagamentos. Em Novo Hamburgo, uma das mais inundadas, passageiros receberam a ajuda de bombeiros para desembarcar na rodoviária (foto Ricardo Chaves/ZH)


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Terça-feira, Julho 08, 2003




E chove torrencialmente ainda em Porto Alegre. Aliás anoiteceu por volta das 14:00 h e não mais fêz-se dia. Hoje estou de monitor novo, grandão assim colorido e aos poucos devo ir fazendo meu up grade. Depois placa mãe, processador, que espero seja um de 2,4 para frente. Mas tudo isso poderia fazer-me bem mais feliz do que estou. Só que minha alegria não está nas coisas, muito menos nas novas. Pois é, infelizmente as lojas ainda não vendem algumas coisas de que precisamos para ser mais felizes...

MEU AMOR INDECISO!

O que dizer
se no amanhecer
meus olhos encontram doce encantamento?

O que falar
se as palavras ditas
jamais serão ouvidas...

O que pensar
se um breve encontro inusitado
traz à alma
algo ¿impensado¿
e ao corpo
sentidos escondidos...

Talvez querer
talvez deixar
talver ouvir a voz
que teima em não se permitir

Um arrepio que esconde
sentidos dessentidos
vontades disfarçadas
vazios a serem preenchidos...

Uma olhadela
mais do que um olhar
fortuito
mais do que poderá ser dito
e o desfecho de uma espera...

Cida Piussi

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CONTRADIÇÕES

Se fujo, corro, solidão me mata;
Se fico morro: teu olhar me afoga...
Se calo... sofro, que o falar me roga
O canto triste que nos arrebata.

Se nego, tenho o prazer furtado;
Se aceito, quebro teu sorriso manso...
Se me recuso não terei descanso,
Que do encanto me terei privado.

Fico, não fujo. Solidão acaba...
Canto, não calo: teu olhar me afaga;
Não nego, aceito. Morro de paixão!

Divina musa dos meus tristes ais!...
Não, não recuso, que tocando vais...
Todas as cordas do meu coração!

Valdez

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NAMORAR

Essa palavra tem várias definições nos dicionários...
Da inspiração à atração, da paixão até a posse.

No entanto se analisarmos o ato de namorar com o coração,
descobriremos nele a forma divina de dois seres exercitarem o amor.

Não como um contrato comercial que vai da posse
aos direitos e obrigações...

Namorar é o ato de se dar,
é quando uma pessoa encontra na outra sua parceira,
através da afinidade dos objetivos comuns, de atração física,
mental e espiritual, formando-se aí o casal.

Namorar é compartilhar, é ter cumplicidade,
namorar é dividir as alegrias, é dar apoio nas adversidades,
namorar é relevar os defeitos, é valorizar as virtudes,
namorar é saber que você não apenas escolhe...
mas também foi escolhido.

E o mais importante...
Namoro não tem idade ou tempo,
Basta haver AMOR.

Não sei o autor.

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Terça, 8 de julho de 2003.

Para atrair a garotada e seus pais

Centros comerciais promovem atividades extras durante as férias, visando aumentar as vendas
Silvana Caminiti

As férias escolares podem ajudar a incrementar as vendas de lojas e restaurantes. Esse é um dos motivos pelos quais, nesse período, os shopping centers sempre criam atividades extras voltadas para crianças. Afinal, além de potenciais consumidores, as crianças vão aos centros comerciais acompanhados de pai ou mãe, que aproveitam o tempo em que o filho está se divertindo, para gastar.

Prova de que a estratégia funciona é que, em janeiro e julho, as vendas são, em média, 10% maiores em relação a meses como fevereiro, março, setembro e novembro ¿ quando não existem datas que impulsionam as vendas, como Dia das Mães, dos Namorados, dos Pais, das Crianças ou Natal.

E como estamos em julho, os shoppings estão com atividades extras. O Carioca Shopping, em Vicente de Carvalho, por exemplo, resolveu aproveitar o lançamento do novo filme de Renato Aragão, Didi, o Cupido Trapalhão, unindo o apelo do filme em cartaz à programação prepara pelo shopping.

Márcio Araújo, gerente de Marketing do centro comercial, explica que eventos unindo filmes em cartaz com as atividades também ajudam a reforçar a imagem do shopping como um centro de lazer.

¿O Carioca Shopping é identificado como um espaço com as melhores opções de cinema da região, por contar com o único multiplex da Zona Norte. Essas ações integradas potencializam o fluxo que o Cinemark proporciona¿, comenta Araújo.

A programação acontecerá a partir do dia 15 e se estende até 3 de agosto, na Praça de Eventos, onde está sendo montado um cenário especial, com nuvens e anjos.

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José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Rubinho atropela o Galvão!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! CPI do Boné! Continua a polêmica do boné do Lula, aquele red cap do MST! O Lula deveria ter feito como a turma do rap: botava o boné pra trás. Aí não dava problema. Ou então ter botado o boné de orelhas do Mickey. E um outro disse que o Lula lançou o Fashion Rural Week. E essa bombástica notícia: 'Lula testa avião da Airbus para substituir o Sucatão'. Já sei, ele tá testando a Sheila Mello pra substituir a Marisa.

E só tem dois jeitos de ficar rico no Brasil: ganhar na Megasena ou achar o Saddam Hussein. E acaba de sair o salário menstruação: vem uma vez por mês e dura três dias. E um desempregado e ex-comprador de carro zero tem uma sugestão para as montadoras esvaziarem o estoque: vendam os carros pros robôs.

E ainda continuam falando do Santos: um leitor me disse que o Santos perdeu porque o Leão esqueceu de convocar o Pelé, o Pepe e o Serginho Chulapa. E que o Robinho agora vai dar pedalada em bicicleta ergométrica. Taí um bom presente pro Robinho: bicicleta ergométrica. E o Boca ganhou a Libertadores e vai pro Japão. Ou seja, QUEM TEM BOCA VAI A TÓQUIO!

E as férias? Um amigo meu foi pro interior e chegou rouco de tanto dar bom-dia pros cobradores de pedágio. E disse que as estradas estão cheias de buracos no acostamento, esperando a vez pra entrar na pista. BR é abreviatura de buraco. Rarará. A gente não desvia mais dos buracos, desvia das estradas!

E alguém ainda assiste F-1? Aliás, muda logo o nome da Fórmula 1 pra Fórmula Schumacher. E o Ufanismo Urucante do Galvão? Foi só ele gritar 'lá vem o Rubinho' que o teletubbie roda na primeira curva. Aliás, sabe o que eu faria se fosse o Rubinho?

ATROPELAVA O GALVÃO! Rarará. E eu já disse que o Rubinho devia ser piloto de enceradeira, encerar curva.

Momento Carla Perez na Fórmula Schumacher. Ross Brawn, diretor-técnico da Ferrari, disse que a equipe tinha que se recuperar e dar uma guinada de 360 graus. Então fica tudo na mesma? Um Schumacher em primeiro e o Rubinho em sétimo? Rarará.

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um amigo meu viu a placa no estacionamento do aeroporto de Londrina: 'Vaga sujeita a detritos de aves'. Tucanaram a cagada de passarinho. Rarará.

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Abundantes': as sheilas. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Email simao@uol.com.br

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Liberato Vieira da Cunha
08/07/2003


Em torno de uma pergunta

Sempre me torna sua lembrança ao som da canção a que chamam Felicità. Hoje me volta contudo a bordo de uma melodia nostálgica, que atende por Frag'nicht warum ich gehe. Não me peçam para traduzir: o significado exato nem importa. O que conta para mim é esse Warum, esse porque, que surgia de repente, envolto em música, e me punha em estado de plenitude.

Esse Warum me pegava, impressentido, às vezes nos saraus da cantina do terceiro andar do hostel. Outras, no restaurante La Taverna, um puxado sobre as largas calçadas de Kurfürstendamm, onde era mais comum escutar La Vie en Rose ou Lili Marlene. Outras ainda nos cafés da vizinhança de Kolpinghaus, nos quais - por motivos inexplicáveis em alemão, inglês, ou em qualquer idioma do universo - eu era tomado por milico americano: fui de sargento a major, receio que com total desconhecimento dos chefões do Pentágono.

Uma noite - de súbito era outubro -, compareci a uma festa um tanto ruidosa para o meu gosto. Era a despedida de nós todos, 15 colegas de países, hábitos, línguas, crenças diferentes, embora naquele fim de curso já fôssemos irmãos. E calou-se então o conjunto de rock e ouvi Warum, de novo e suavemente Warum. Ou melhor: Por quê?, pois lhe acrescentei desde aí o ponto de interrogação, como antes lhe aplicara o W maiúsculo.

Por que fui escolhido para viver aquele verão em Berlim? Por que até agora acho que foi o mais intenso de quantos naveguei? Por que, tendo volvido depois a Berlim - não tanto quanto desejaria -, nunca provei de igual sensação de plenitude?

Warum?

Não sei. Porém suspeito de que pela singela razão de que eu era à época um cara de 30 e poucos anos.

Mas isso nem a voz de Susana Rinaldi - que me surpreende hoje do fundo de um CD recém comprado ao acaso, cantando o mesmíssimo Warum - é capaz de esclarecer.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
08/07/2003


Fábula moderna

Nosso tempo, que reprocessa tudo, oferece oportunidades como a que o Gilberto Perin está aproveitando com talento, ao fazer suas Fábulas Modernas, série de agradáveis programas levados na RBSTV e na TVCOM. O mote vem de velhas fábulas, como a da Rapunzel; depois, o trabalho é confrontar com aspectos da realidade - no caso da moça que vivia na torre, o Perin botou a falar duas mulheres, uma residindo em cobertura de região nobre, outra morando em casa singela pendurada no morro. O resultado é ótimo por todos os lados: o inteligente diálogo com a velha lenda, o delicado retrato da vida e, não menos, o adequado assopro nas brasas da teledramaturgia aldeã, de vida precária.

Tem também o recente e bem construído filme do Jorge Furtado, O Homem que Copiava, espécie de fábula moderna. Digo "fábula" e paro um pouco, porque não sei se se trata disso mesmo. Aliás, este é justamente o ponto em que eu empaquei a propósito do filme: não consegui decidir se a dramaturgia ali queria se encaminhar pelas sendas do realismo ou pretendia trilhar o caminho da alegoria.

Esses dias, comentando o filme com o Enéas de Sousa, que em matéria de cinema é doutor, contei a ele a minha restrição, dizendo que tal irresolução compromete o resultado. O espectador começa a assistir a história do jovem xeroqueiro como uma trama realista, em que o protagonista conta centavos lentamente, diante de nossos olhos; depois, o mesmo telespectador fica meio sem chão, pela sucessão de histórias mais ou menos irreais e mesmo descabidas apresentadas na seqüência. Para mim, é problema; mas para o Enéas, não - disse ele que o filme é a representação do ponto de vista do rapaz xeroqueiro, um sujeito para quem o mundo é mesmo uma espécie de nonsense, de absurdo. O filme, então, representaria diretamente essa falta de sentido, essa inconsistência.

Não sei se consigo concordar com a idéia, que porém é interessante: o filme como uma representação da percepção fragmentária e desconcatenada do rapaz. Sei que o filme ainda está me incomodando. Fico tentando, como fiz quando o vi, colocar o melhor da minha percepção de espectador a serviço da construção do sentido; e, então como agora, sinto uma incompletude desconfortável. Porque O Homem que Copiava, carregando na mão esquerda um evidente humanismo, marcado em personagens cheios de arestas como a vida, talvez subscreva, com a direita, uma niveladora e tarantinesca estética pós-moderna - aquela que, ali onde queríamos a igualdade, nos deu a indiferença.

fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
08/07/2003


Armas em casa: a visão da saúde pública

Neste último fim de semana, a campanha pelo desarmamento no Brasil ganhou impulso. No sábado, dois notáveis juristas responderam a uma pergunta ("Deve-se proibir armas no Brasil?") formulada pela Folha de S. Paulo: Miguel Reale Júnior, que há pouco recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UFRGS (contra as armas), e Denise Frossard (a favor). No domingo, ZH publicou matéria de duas páginas sobre o tema. E ainda no domingo a TV mostrou um rolo compressor (homenagem ao Inter?) destruindo 4 mil armas no Rio. Um projeto de lei deve ser enviado ao Congresso tornando crime inafiançável o porte de armas.

Há boas razões para essas iniciativas. No Brasil, as causas externas de óbito, que incluem homicídios, suicídios, acidentes, estão em franca ascensão no ranking da mortalidade. Em conseqüência, a expectativa de vida - número de anos que uma pessoa pode esperar viver -, que vinha crescendo de forma animadora no país, agora aumenta mais lentamente entre os homens, por causa dos óbitos violentos.

O Censo de 2000 computava 1,9 milhão de mortes por causas externas nas duas décadas precedentes. Desse total, mais de 1,5 milhão de mortes correspondiam ao sexo masculino (82,4%). A maior parte dessas mortes ocorreu, tragicamente, no grupo de 10 a 39 anos de idade. Ou seja: pessoas ainda jovens, no auge da vida.

Mas não existe unanimidade acerca desta questão. Nos Estados Unidos, a National Rifle Association, cujo presidente, Charlton Heston, foi devidamente ridicularizado por Michael Moore no filme Tiros em Columbine, defende o porte de armas, que é considerado um direito, segundo a Constituição americana. No Brasil também temos defensores desta posição. Mas, encarada a questão do ponto de vista da saúde pública, como o fez Miguel Reale Júnior, não pode haver qualquer dúvida: armas em casa não matam bandidos, matam gente da família.

Recente estudo feito em Harvard mostra, com clareza, que, quanto maior o número de armas por domicílio numa região, maior será o número de óbitos, sobretudo óbitos infantis. Comparando os cinco Estados americanos mais "armados" com os cinco menos "armados", verifica-se que, em 10 anos, o número de homicídios infantis por arma de fogo foi, naqueles, três vezes maior; o número de suicídios foi sete vezes maior, e o número de mortes acidentais 17 vezes maior. E não são só as crianças as vítimas. Em 2000, metade dos homicídios de mulheres foi por arma de fogo. Em 80% dos casos, quem as matou não foi um bandido, mas sim alguém próximo: o marido, o namorado. Mais: a presença de armas de fogo na casa multiplica por cinco o risco de suicídio entre as mulheres.

Os apologistas das armas de fogo alegam que os cidadãos precisam se defender contra o crime, e citarão casos de pessoas, armadas, que conseguiram frustrar assaltos. Mas a pergunta se impõe: estes casos são a regra - ou a exceção? Os números acima não deixam dúvida: a suposta defesa acaba vitimando inocentes, e numa escala que já configura epidemia. Quem tem de defender a população é o poder público. Qualquer outra solução equivale a escrever torto por linhas tortas na esperança de escrever direito. E isto, amigos, nunca acontece.

Em O Homem que Copiava, a violência brasileira está presente, mas ela não obscurece o fato fundamental: Jorge Furtado, grande cineasta, é o poeta do cotidiano brasileiro.
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
08/07/2003


Burocracia cruel

Ocorre que por todas as evidências, salvo exceção descomunal, não foi Fernando Araújo da Silva quem cometeu o crime por que outro homem foi condenado.

A advogada do inocente, bacharel Cristiane Bonetti Ferreira, foi até Camboriú, obteve lá a ficha datiloscópica do condenado, sua fotografia, provando que não se trata de Fernando.

Quando a advogada de Fernando Araújo da Silva mostrou a fotografia do condenado, fornecida pela Justiça de Santa Catarina, aos familiares do rapaz inocente, eles imediatamente o reconheceram como primo de Fernando.

Ele furtou os documentos de Fernando e os usou para se identificar quando lá foi preso por assalto. Seu nome é João Batista da Silva Forte e está atualmente recolhido a um presídio de Charqueadas, por outro assalto.

A advogada do rapaz inocente está passando por agruras para soltar seu cliente. Tem em mãos as provas da sua inocência, a fotografia do verdadeiro criminoso e a ficha de suas impressões digitais.

Foi a Santa Catarina, lá impetrou um habeas corpus na 1ª Vara Criminal, que tinha de ser relatado por um desembargador. Vejam o que ela me escreveu: "O desembargador tinha de entrar de férias dois dias depois. Antes de examinar o pedido, solicitou informações à comarca de origem (Camboriú). Ou seja, para não precisar examinar o mérito e como conseqüência liberar um inocente e, ainda, para não comprometer-se com o caso, preferiu passar o problema para outro julgador. Até hoje, as informações de Camboriú não chegaram ao Tribunal de Justiça e certamente chegarão negativas, eis que o processo se encontra no próprio Tribunal de Justiça".

O relato da advogada é impressionante: "Ainda em conversa com o juiz da Vara de Execuções de Florianópolis, que foi quem expediu o mandado de prisão, este informou que não tinha competência para cuidar do caso, eis que sua função era apenas executar a pena".

Mas como, se era exatamente disso que se estava tratando: da execução de pena, no caso, em cima de um inocente.

Um juiz de execuções criminais tem de zelar também e muito principalmente para que um inocente ou um provável inocente não cumpra pena por crime que não tenha cometido!

E lá se veio embora a advogada sem ter tido seu pleito atendido. Enquanto isso, se desenvolve pedido de perícia da advogada na comarca da condenação. Era para ter chegado até ontem pela manhã em Porto Alegre o resultado, assim como culminação de diligência solicitada pela Vara de Execuções daqui da nossa Capital, mas até a noite de ontem, nada.

Há informações de que a Susepe daqui também se movimenta, com o auxílio prestimoso do diretor do Presídio Central.

E o presidente da OAB-RS, bacharel Valmir Batista, em correspondência a esta coluna, declara colocar o órgão que dirige a serviço do paciente a partir de hoje, sensibilizado com os entraves burocráticos.

Só que um homem, ao que tudo indica inocente, conforme provas cabais que possui sua advogada, cumpre já 17 dias de pena no Presídio Central, afastado das funções da empresa de que é empregado, atirado a uma cela onde há outros 10 presos.

Não é de desanimar com esta emaranhada e crucial burocracia?

É a liberdade de uma pessoa que está em jogo. Uma ordem por telegrama ou um pronto despacho judicial tinha de libertá-lo imediatamente.

Quando bastava que esses mandados de prisão fossem acompanhados obrigatoriamente de ficha datiloscópica e de fotografia do acusado para que se evitassem essas deploráveis injustiças.

Uma lástima.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reformas
Entre dois protestos



O presidente da Câmara, João Paulo Cunha (C), atravessa manifestação de funcionários da Varig depois de enfrentar servidores descontentes com a reforma da Previdência, reunidos no auditório da Assembléia Legislativa (foto José Doval/ZH)


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Segunda-feira, Julho 07, 2003




VALSA BRASILEIRA


"Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo

Eu descartava os dias
Em que não te via
Como de um filme
A ação que não valeu

Rodava as horas para trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Para encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento

Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer

E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer"

Valsa Brasileira - Edu Lobo e Chico Buarque

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Isso ou aquilo


Não quero ser que nem uma estátua viva, truncada pela completa inação, como essas que se pintam de cor de bronze ou de prata e ficam paralisadas aqui na Rua da Praia ou na Parque da Redenção com os músculos apáticos, como se tivessem morrido ou inoculado curare.

Quero nervos e músculos ativos, miolos fervendo, sangue nas veias, olhos atentos e poucos sobressaltos nas coisas de amar. E se o amor é mesmo amor, resulta nisso. Se for fugidio ou desertor resulta naquilo.

Adaptação - Não sei o autor

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Uma ilação

Além de míope estou ficando vesgo pelo doloroso esforço repetitivo de ler entrelinhas. E a conseqüência disso é a minha transformação num inusitado garimpador de coisas não ditas, num juntador de coisas apenas percebidas que nem sempre se confirmam.

Mesmo assim não desisto, nem retrocedo, porque minha cristalizada e doida convicção me faz crer que nas letras, como nos garimpos, o inexistente existe. Será?


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José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Tô lambendo tampa de Danoninho!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Duas notícias abalaram a nação. Essa é bombástica: 'Prótese do seio da ex-BBB Andréa explode'. É o PEITO-BOMBA! Já temos o sapato-bomba, o supositório-bomba e agora o peito-bomba. E essa outra: 'Sheila Melo ajuda deficientes visuais'. Já sei, vai lançar a bunda em braile!

E uma amiga me disse que o sexo na casa dela tá cada dia mais fantástico: uma vez por semana, domingo à noite!

E um leitor me disse que sorte do Santos é o Boca ser Júnior: imagine se fosse Sênior. E o chargista Frank, aproveitando a polêmica do boné do MST do Lula, lançou uma campanha: 'Mande um boné pro presidente você também'. É a BONÉCRACIA! E um amigo meu foi a uma conferência do FHC, chegou atrasado e o porteiro falou: 'Favor não fazer barulho'. 'O quê? Já tem gente dormindo?' Rarará!

E a minha empregada, depois de ver o Ibope, falou: 'Diminuiu a população do Lula'. E a situação tá tão braba que eu já tô lambendo tampa de Danoninho. E um amigo foi comprar uma geladeira e o vendedor perguntou: 'O senhor vai pagar como?'. 'Na Justiça.' Rarará! E os juros do cheque especial estão a 200%. Então tem que mudar o nome pra cheque ESPACIAL.

E já tem que incluir camisinha na cesta básica: a comida acaba no primeiro dia e aí passa o resto do mês comendo a patroa. É o Come Zero! E um outro me disse que antigamente ele dava uma boiada pra não entrar numa briga, hoje briga por um bife!

E eu já disse que vou estrelar mais um comercial do Vivo: VIVO DURO! E a Heloísa Helena está tão famosa que já tem até site: www.heloisahelena.contra! E diz que o Lula não subsidia mais nada só pra não ter que ouvir o Palófi falar FUBFÍDIO! E o Zé Dirceu diz que não é nenhum deus no governo Lula: 'Juro por mim mesmo que não é verdade'. E o governo FHC foi um grande discurso e o governo Lula é uma grande reunião. Fazem reunião até pra marcar data da reunião!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. Uma amiga foi comprar apartamento e o corretor disse que o prédio tinha 'gazebo gourmet'. Tucanaram a churrasqueira! Socorro! Tá mais fácil a Heloísa Helena virar patricinha que erradicar o tucanês!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. 'Manutenção': sustentar o irmão. 'Cutícula': organização das manicures ligada à CUT. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! É mole?

É mole, mas sobe! UFA!

simao@uol.com.br

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Skank no Clube da Esquina

Em seu novo disco, puxado por parceria de Samuel Rosa com Lô Borges, quarteto aposta nas canções e nas guitarras
Mauro Ferreira

SÃO PAULO - Compositor revelado no Clube da Esquina, em 1972, o mineiro Lô Borges era como um ídolo para os músicos do Skank, quando tomava tranqüilamente sua cerveja no bar Bolão, tradicional ponto boêmio de Belo Horizonte, freqüentado pelos então desconhecidos integrantes do quarteto. A vida deu voltas, o Skank virou sucesso nacional, se aproximou de Lô em 1998 e acaba de trazê-lo novamente às paradas. Parceria de Samuel Rosa com Lô, Dois Rios faz sucesso nas rádios e é a música que puxa o sétimo disco do grupo, Cosmotron, nas lojas esta semana, com referências aos Beatles (fonte do Clube da Esquina) e ao rock inglês dos anos 90, o BritPop.

¿Estava a fim de que o disco tivesse canções, melodias bem trabalhadas¿, conta Samuel. Em suas 14 músicas inéditas, Cosmotron tem também guitarras em vez dos metais dos primeiros álbuns do quarteto. ¿A influência do Clube da Esquina tinha ficado adormecida no nosso trabalho até Resposta (balada de Siderado, o quarto CD da banda). Mas sempre foi importante. E fico feliz que o Clube tenha seu valor reconhecido pelas novas gerações. O Lô nunca imaginou chegar num lugar e ser reverenciado por Marcelo D2¿, exulta Samuel.

Atuante no circuito independente desde 1991, o Skank ficou famoso em 1993 e completa uma década de sucesso como uma banda mutante. ¿Cosmotron é uma outra guinada na nossa carreira¿, define o baterista Haroldo Ferretti. ¿Buscamos as guinadas nesses dez anos, mas mantivemos a coerência e ela não nos impediu de fazer um disco diferente do outro. Fizemos uma ou outra concessão, porque o Skank sempre quis fazer parte do universo pop e tornar nossa música popular, mas nunca nos vendemos. Foi bom não ceder ao esquema do empresário Manoel Poladian, por exemplo. Ele queria comprar nossos shows quando a gente começava a estourar¿, lembra Samuel.

O título retrô do novo CD foi extraído da faixa Sambatron ¿ a que mais lembra o Skank dançante do início ¿ e remete aos filmes futuristas do anos 70. Outra referência da década é Construção, a música de Chico Buarque que inspirou Rodrigo Leão na elaboração da letra de Formato Mínimo, em que cada verso termina com palavra proparoxítona.

Recém-chegado da Dinamarca, onde dividiu o palco principal do festival Roskilde com o grupo inglês Blur, o Skank convidou o marroquino Paco Pigalle, fã da banda desde os primeiros shows em Minas, para participar de Nômade. Este reggae psicodélico de textura árabe é destaque do CD, produzido por Tom Capone, escolhido pelo grupo para enfatizar a crueza do som das guitarras.

Outra novidade do disco é Pegadas na Lua, primeira parceria de Samuel com Humberto Effe, cantor do Picassos Falsos, grupo alternativo da década de 80. ¿O fim dos conflitos do rock com a MPB aconteceu nos anos 90, mas o processo de fusão começou nos 80. Vi um show do Picassos em que o grupo tocava Noel Rosa. Isso era revolucionário¿, brada Samuel Rosa, mostrando que o Skank anda para frente sem deixar de olhar para trás.

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José Pedro Goulart
07/07/2003


Quem matou a idéia?

Crise. Essa é a palavra que se escuta em cada canto do planeta. Em Cannes, onde estive semana passada, não foi diferente. O mundo está em crise e à procura de culpados. Mas logo em Cannes, a capital da Côte d'Azur? O que haverá por lá? Lugar de tantos luxos, iates esplendorosos, onde Ferraris e Lamborguinis passeiam como se fossem Pálios? É que aconteceu, como acontece todo ano, o Festival Internacional de Publicidade, no mesmo lugar, aliás, do famoso festival de cinema. Sai a Cameron Diaz, entra o Nizan Guanaes, que esse é um balneário de eventos, e a fila tem que andar.

Mas eu falava da crise. E a crise não está na beira daquele mar de cor azul inigualável. Isso se não levarmos em conta a quantidade realmente expressiva de vovós que insistem em desafiar a sagrada lei de Newton fazendo topless. De resto, tem para todos os gostos, a praia inteira é um mostruário de peitos. Pequenos, médios, grandes, barbaridade tchê! e yashica. Yashica? Isso mesmo, se você quiser localizar seios perfeitos de moça bonita é só olhar para a calçada e descobrir para onde aqueles japoneses em grupo estão apontando suas câmeras fotográficas. Plazer, meu nome é Zozé.

Na praia da frente do Carlton Hotel ficam os turistas abonados (alemães, italianos, holandeses) e os turistas caras-de-pau (eu). Sivuplê monsieur, une champagne plus morango, cereja e caviar que a vida é bela e eu deixei a Isabelle Adjani lavando roupa no meu barco. Enfim, essa é realmente uma praia ultraprivada: você senta numa cadeira com seu próprio guarda-sol e fica isolado do vizinho por uma espécie de murinho de plástico. Foi numa dessas baias de luxo, ao lado de onde eu estava, que finalmente descobri um árabe podre de rico demonstrando-se possuidor de uma arma química altamente perigosa da cintura para baixo. É aqui Bush!

Curta-metragem mostrou figuras expressivas do cinema e da publicidade falando sobre a idéia

E a crise, afinal? Segundo os publicitários, está na idéia. Ou na falta dela. Em Cannes foi exibido um curta-metragem, patrocinado pela BMW e dirigido por Hermann Vaske, editor de uma das mais importantes revistas sobre publicidade, a Archive, perguntando a figuras expressivas do cinema e da publicidade quem, afinal, matou a idéia. Vejam, a premissa é que a idéia ESTÁ morta.

Trata-se apenas de encontrar o culpado. A pergunta é ingênua. As respostas dos entrevistados são especulativas, vagas e espantosamente sérias. Os caras levaram a sério uma pergunta dessa: quem matou a idéia? Sei. Eis a minha resposta: quem matou a idéia foi o cara que teve uma melhor. E o resto é manifesto.

jose.pedro@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
07/07/2003


Lugar na História

Velha questão: a História é feita por grandes líderes e grandes patifes ou os heróis e os vilões são só penduricalhos de um processo impessoal, de uma história que aconteceria mesmo sem o seu arbítrio ou predestinação? A História personalizada é mais atraente, claro. Quem não prefere uma narrativa com "personagens fortes" que determinam o seu destino e o dos outros pela sua ação, decisão e caráter? O governante inspirado, o general audaz e o tirano insano têm todos a mesma função: simplificam a História e nos isentam de procurar os seus significados ocultos, o que é sempre aborrecido, além de darem boas histórias. E são politicamente convenientes.

Pense em toda a auto-análise e comiseração poupada à civilização cristã pela idéia de que o horror nazista foi fruto de duas patologias passageiras, a de Hitler e a do povo que o apoiou, em vez de 2 mil anos de intolerância. Ou menos, se você datar a genealogia do Holocausto das fogueiras da Inquisição. Pense na vantagem de poder culpar todos os excessos do totalitarismo soviético num desvio de personalidade do Stalin. Até atribuir o momento atual a um choque de culturas teológicas é uma forma de personalização: seria tudo entre deuses de índoles diferentes. Heróis metafísicos, mas heróis.

Como as razões racionais para invadir o Iraque ou não existiam, ou são inconfessáveis, sobrou como explicação o caráter lamentável do Saddam. Há sempre um Ogro providencial e seus seguidores fanáticos para justificar a violência de um império. Bush também é uma simplificação conveniente, seja como herói ou como vilão. Sua personalidade é tão irrelevante quanto a de Saddam para a História do momento. Mas é mais fácil e prático pensar que tudo se resumiu mesmo a Caubói do Apocalipse x Carniceiro de Bagdá.

A personalização é atraente também porque inclui no processo histórico a possibilidade da escolha moral, a faculdade humana da regeneração. É bom pensar que a preocupação com seu lugar na posteridade pode mudar um líder e que suas reversões podem mudar a História: De Gaulle, contrariando a direita francesa, que o colocara no poder justamente para evitar isto, dando a independência aos argelinos; Nixon contrariando toda a sua biografia e iniciando a abertura para a China.

Agora, quem sabe, Ariel Sharon e os líderes palestinos decidindo que preferem passar à História como os que trouxeram a paz do que como heróis das suas respectivas intransigências. A personalização também simplifica as expectativas brasileiras. Nossa História estaria em suspenso, só esperando para ver que chapéu, afinal, o Lula vai usar no seu governo.

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Paulo Sant'ana
07/07/2003


O jogo que não houve

Se você ouvir ou ler alguma análise tática sobre o jogo de ontem entre Juventude e Internacional, duvide dela: ninguém viu nada, a neblina espessa que se derrubava sobre o gramado impediu que o público assistisse ao jogo.

Eu só não pude entender por que o árbitro recebeu tantos elogios da crônica esportiva. Se ninguém via nada, como se pode afirmar que o árbitro acertou em todas as jogadas?

Em dado momento, os comentaristas e repórteres chegaram a um acordo: como não viam nada, todos afirmaram que era estupenda a atuação do árbitro catarinense Godoy Bezerra. E justificaram a análise: se o árbitro não estivesse bem, os jogadores estariam reclamando.

Mas reclamar de que, se ninguém estava enxergando nada?

Um locutor foi espetacular: "Acho que terminou o primeiro tempo". E 10 minutos depois: "Suponho que vá começar o segundo tempo".

E logo a seguir: "Pelo vulto das camisetas e calções brancos do Juventude, a partida deve estar sendo muito disputada".

Aí chamou o repórter: "Aí junto do gramado, você está vendo alguma coisa?" E o repórter: "Enxergo tudo num raio de 20 metros de distância, mas, se alguém chuta a bola, já não vejo mais nada".

Então foi expulso o jogador Edu Silva, do Internacional, no primeiro tempo. O narrador Marco Antônio Pereira chamou o analista de arbitragens Roque José Gallas, que estava ao seu lado: "Não pude ver nada. Foi justa a expulsão, Gallas?" E o Gallas: "Justíssima".

Em seguida, foi expulso Maurício Fernandes, do Juventude. E o narrador: "Justa a expulsão, Gallas?" E o Gallas: "Justíssima, em tudo esta segunda expulsão foi igualzinha à primeira".

Isto é, nas duas expulsões, ninguém no estádio viu coisa alguma. A única coisa igual nas duas expulsões era a neblina.

Aí o narrador se sublimou: "Pela movimentação do bandeirinha aqui das sociais, quem está atacando é o Internacional".

Terminado o jogo, o repórter perguntou ao presidente do Internacional: "Que tal o jogo, doutor Fernando Carvalho?" "Que jogo?", devolveu o presidente. E o repórter: "Mas foi 1 a 1?", indagou hesitante. E o presidente: "Ainda não tenho certeza, vou ter de olhar a súmula do jogo".

Então o narrador apresentou assim o comentarista: "Para nos dar uma panorâmica do jogo, com vocês, Wianey Carlet". E a panorâmica do Wianey: "O que vimos hoje aqui no Alfredo Jaconi foi um jogo muito parelho".

A única coisa parelha era a neblina.

Outra do Wianey: "Lá no campo, não se enxerga nada, mas onde diabos foram se meter as minhas anotações?"

E as crônicas sobre o jogo que vão ser hoje publicadas nos jornais, pela primeira vez na História, serão escritas em braile.

Já no Olímpico, desapareceu definitivamente a neblina e o Grêmio ganhou raramente do Flamengo por 2 a 0.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Futebol
Grêmio mostra novo ânimo



Depois de um mês sem vencer, time de Flávio ganha de 2 a 0 do Flamengo no Olímpico (foto Paulo Franken/ZH)


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Domingo, Julho 06, 2003




São quatro figurinhas com a letra da música "Tocando em Frente", como a histórinha das figuras mais abaixo contada em capítulos, para você.

Poesia sensual

A sensualidade da Poesia - quando entendida como a mão destra que afaga com versos; como uma boca experiente que beija com palavras; como um discurso eloqüente que convida com silêncios - é um gênero que devemos preservar e cultivar, se quisermos defender-nos da árida intransigência da realidade.

As nossas formações e o nosso trabalho nos exigem decisões claras, frases cristalinas, gestos cortantes, posto que a modernidade, por mais que nos seduza com seus aparelhos cibernéticos e amores eletrônicos, não anulam o fato de que somos e seremos pessoas, e como tais, carentes de um abraço quente, de um olhar envolvente, de sentir-nos queridos, desejados e tocados.

Espero que os textos e poemas que apresento e que coloco aqui normalmente nas noites de todos os dias sejam a música de fundo de um encontro frutífero, e que as palavras sirvam para estender uma ponte entre os sonhos e a realidade.

Texto extraido lá do http://kampel.com/poetika/plbk.htm e adaptado.

Boa semana


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Desejo
Cassiano Ricardo

As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.
Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.

Ser deus ¿ e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.

Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.

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A Graça Triste
Cassiano - Mas do Cassiano Ricardo

Só me resta agora
Esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.
Ouço agora o rumor
Das raízes da noite,
Também o das formigas
Imensas, numerosas,
Que estão, todas, corroendo
As rosas e as espigas.
Sou um ramo seco
Onde duas palavras
Gorjeiam. Mais nada.
E sei que já não ouves
Estas vãs palavras.
Um universo espesso
Dói em mim com raízes
De tristeza e alegria.
Mas só lhe vejo a face
Da noite e a do dia.

Não te dei o desgosto
De ter partido antes.
Não te gelei o lábio
Com o frio do meu rosto.
O destino foi sábio:
Entre a dor de quem parte
E a maior ¿ de quem fica ¿
Deu-me a que, por mais longa,
Eu não quisera dar-te.

Que me importa saber
Se por trás das estrelas
haverá outros mundos
Ou se cada uma delas
É uma luz ou um charco?
O universo, em arco,
Cintila, alto e complexo.
E em meio disso tudo
E de todos os sóis,
Diurnos, ou noturnos,
Só uma coisa existe.

É esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.

É uma lápide negra
Sobre a qual, dia e noite,
Brilha uma chama verde.

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Solitude
Bruno Kampel

Após algemar os pés da realidade
às cicatrizes da esperança vitalícia

fui procurar a felicidade insubornável
e num gesto imprudente de ternura

desativei o sofrimento e a tristeza
e tendendo uma armadilha ao infortúnio

decapitei o dissabor do desengano
enquanto a melancolia como sempre

desfraldando suas dúvidas ao vento
deitava-se no leito ambíguo da memória

ao passo que a saudade penetrava
como faca nas ausências mais sentidas

e mar adentro feito sangue navegava
pelas veias das lembranças de outros dias.


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