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Sábado, Agosto 09, 2003




Acessório colunável
As socialites Narcisa Tamborindeguy e Vera Loyola dão asas ao bom humor e à criatividade, bancam as estilistas e criam coleções exclusivas de sapatos sensuais e bolsas artesanais
Marcia Disitzer

Narcisa (à esq.) venderá sua linha de sapatos na loja da amiga Cláudia Simões. Narcisa agregou seu estilo extravagante à minha marca, diz Cláudia



As duas figuras mais comentadas da sociedade carioca voltam a atacar. Direto das colunas sociais para a máquina de costura, as socialites Vera Loyola e Narcisa Tamborindeguy resolveram dar um sentido ainda mais fashion às suas vidas. Vera acaba de criar uma linha de bolsas artesanais que leva o simpático nome de Feita-Em-Casa e Narcisa se prepara para lançar uma coleção de sapatos com seu nome desenvolvida em parceria com o amigo Bruno Chateaubriand nesta segunda-feira, na loja Cláudia Simões do Rio Sul. As novas estilistas entram com a experiência de quem vive nas altas rodas e com um círculo de amigas poderosas, que podem, por exemplo, desembolsar R$ 690 numa bolsinha exclusiva. Claro nem precisa perguntar elas adoram moda desde bebezinhas.

Vera conta que tudo começou na posse do presidente Lula. Sempre gostei muito de trabalhos manuais. No dia da posse, resolvi aplicar uma bandeirinha do Brasil na minha bolsa. Todos adoraram, conta a socialite, que garante que máquina de costura é com ela mesma. Tenho bordadeiras e costureiras que trabalham para mim. Mas se tiver que fazer, eu mesma faço. Não estou mais com a mão na massa, mas coloquei a mão na bolsa, brinca ela. Os modelos da sua grife são artesanais e misturam técnicas como crochê e tricô. E as alças são de bambu que, segundo a filosofia oriental, é o símbolo da vida, explica ela, que já confeccionou mais de 80 modelos de bolsas, que vende em casa, com direito a chazinho e torradas.

Enquanto Vera prefere o estilo feminino de ser, Narcisa assume um lado mais sexy. Os sapatos que levam seu nome têm plataforma, salto alto e não passam despercebidos. Criei uma coleção de 11 modelos. Eles são superconfortáveis e duráveis, porque já cansei de calçar sapatos de grife, como Yves Saint Laurent, que quebraram o salto e me deixaram na mão, conta Narcisa, que confessa sua tara pelo acessório. Sou igual a Imelda Marcos, diz, referindo-se à ex-primeira dama das Filipinas, que tinha mais de 3 mil sapatos.

Empolgada em abrir novas frentes, Narcisa procurou uma empresa de marketing, que fez uma pesquisa para descobrir o que seu nome desperta no mercado. A pesquisa revelou que as pessoas gostam do meu lado erótico, espontâneo. E que elas querem me vestir e me usar, explica. Por conta dessa avaliação, Narcisa planeja virar outros produtos. Quero lançar um perfume com o meu nome. Estou botando meu pezinho com as unhas pintadas com esmalte Chanel no mercado da moda. Depois, botarei o corpo inteiro e bronzeado, finaliza.

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Pai vai ganhar lembrancinha
Filhos deixam para comprar presente na última hora. Comércio tem poucas esperanças
Valéria Maniero

Filhos pretendem gastar menos do que com o presente dado às mães

O presente para o Dia dos Pais ¿ ou melhor, a lembrancinha ¿ mais uma vez ficou para a última hora. Para atrair os consumidores, o varejo, que amargou queda de 9,24% nas vendas do Dia das Mães e 10,16% no Dia dos Namorados, aposta nas promoções de inverno. Mesmo assim, as previsões são negativas.

O faturamento do comércio deverá cair entre 8% e 10%, em relação ao ano passado. A taxa de juros (Selic) sofreu queda, mas não vai se refletir agora nas vendas. Esperamos resultados positivos para o Dia das Crianças¿, comenta Luís Otávio de Souza Leal, coordenador do Núcleo Econômico do Instituto Fecomércio-RJ. Só no primeiro semestre, segundo a instituição, as vendas no Rio caíram 7,19%.

Para Ruy Quintans, professor do Ibmec Business School, a situação só deve começar a melhorar no fim do ano, se a Selic continuar trajetória de queda. Para este Dia dos Pais, o professor aposta no presente-lembrança, mas defende que os celulares ainda estão em alta pelas facilidades de pagamento. Segundo pesquisa da Fecomércio-RJ, aumentou de 3,24% para 4,50% a intenção de dar o produto nessa data, em comparação com 2002.

Com pouco dinheiro no bolso, os consumidores devem preferir artigos de vestuário, na opinião de Marcelo Araripe, diretor de Marketing da Egec, empresa que administra quatro shoppings no Rio. ¿A data não é uma das principais do varejo, mas cai, tradicionalmente, na liquidação de inverno. O preço baixo torna-se grande aliado nas vendas¿, afirma.

A Associação Brasileira de Shopping Center (Abrasce), que representa 164 estabelecimentos de todo o País, torce para que o faturamento, neste mês, pelo menos empate com o registrado no ano passado (4,11%).

A estudante Fabiana dos Reis Melo, de 24 anos, ainda está escolhendo o presente de seu pai. Mas uma coisa é certa: será mais barato do que o do Dia das Mães. ¿No presente da mãe, a gente sempre capricha mais¿, admite. Segundo a Fecomércio-RJ, 71,23% das pessoas gastarão menos do que no ano passado.

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Uma homenagem para os pais

Para ser pai, não precisa ser homem
o verdadeiro pai é aquele que cumpre o papel
nos seus mais profundos sentimentos...

Para ser pai, precisa ter o respeito,
e olhar atentamente quando seu filho lhe solicita.
Precisa ser amável e cobrir seu filho com um olhar carinhoso.
Precisa saber parar com tudo
e ouvir tudo o que seu filho tem a falar.
Precisa saber elogiar a todo momento
para que ele se sinta seguro e mais tarde
possa enfrentar as grandes dificuldades da vida.
Precisa se sentir grande, infinitamente grande
para que seu filho possa levar uma vida inteira
para lhe admirar...

Pai é aquele que está junto ao seu filho,
não importa se ele é homem ou mulher,
desde que esteja fazendo o certo
para que o filho aja de maneira certa também.
Não importa se o pai não é o pai biológico,
mas que ele seja o espelho perfeito para se refletir.

Não importa se quem está junto do filho tenha acabado de chegar,
mas o importante é que ele permaneça,
para passar a segurança que ele também não vai partir...
Não importa a idade deste pai,
basta que ele se sinta um menino,
e coloque-se a brincar com seu filho.

Não importa a raça deste pai,
importa que ele ensine seu filho a aceitar a todos igualmente.
Não importa a profissão deste pai,
mas ele deve mostrar ao filho
que o mais importante é gostar do que se faz.

Não será um bom pai aquele que escondido em seus problemas,
não participar da vida do filho que necessita de cuidados.
Não servirá como espelho, aquele pai que corre a vida
se amargurando e sequer tenta ser melhor.

Pai, é e sempre será aquele que ao lado do filho,
consegue descobrir a vida,
e apreciam juntos cada descoberta,
e assim,
são como crianças, na mesma idade
pelo afeto,
pela sintonia,
pelo amor

Por Deus,
por ser filho,
por ser PAI.

Recebido do meu amigo Miron lá da terra do Erico Veríssimo. Thanks amigo por todas as mensagens que sistematicamente tens me enviado.

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O que comemorar?
LUIZ KIGNEL/ Advogado

Do latim pater, a palavra pai designava originalmente toda pessoa que dava origem a outro ser. O Direito Romano, base de nosso ordenamento civil, conferia ao pai o título de paterfamiliae, o cidadão romano chefe de família. Já definiam os romanos que "is est pater quem justae nuptiae demonstrant" (o pai legítimo é aquele que o matrimônio como tal indica). E nesta condição todos os seus descendentes a ele se vinculavam sem poder de oposição, onde se incluía a própria esposa.

Durante todo o século 20 convivemos no Brasil com o pátrio poder, pelo qual todas as decisões da família eram tomadas apenas pelo homem da casa, tendo a esposa apenas participação colaborativa, mas não decisiva. Apenas com o novo Código Civil, em vigor desde 11 de janeiro de 2003, substituiu-se esta expressão (diga-se ultrapassada) para poder familiar, em que marido e mulher, juntos, deliberam consensualmente sobre os destinos de uma família.

Em sentido jurídico, pai é o ascendente masculino de primeiro grau. Eis, portanto, a definição legal. Mas a palavra pai não se limita à letra da lei e surge de formas variadas em nosso dia-a-dia. O dicionário Houaiss aponta com precisão um sem-número de variáveis. É o "pai da pátria" (defensor de um país), "pai da criança" (autor de uma idéia), "pai das queixas" (delegado de polícia), "pai Gonçalo" (marido sem iniciativa, dominado pela mulher), "pai mané" (indivíduo ingênuo), "pai dos burros" (dicionário) e assim por diante. Eis aqui a definição popular.

Da mesma raiz latina encontramos a palavra paternitas, mostrando a qualidade ou o fato de ser pai, designando o liame jurídico que une pai e filho. E assim fiz minha enquete caseira e pedi aos meus filhos que definissem a palavra paternidade. Surpreendidos com uma pergunta tão inusitada, meu filho de 13 anos disse "o direito do pai de ter a guarda do filho". Minha filha de 11 anos disse "é o que o pai passa para o filho". E meu caçula de três anos, bem, confesso que não insisti com ele ante o olhar entediado daquele questionamento.

A paternidade não institui direitos sobre os filhos, mas sim deveres para com os mesmos

Com as definições jurídica, popular e familiar, concluo que pai tem, sobretudo, forte conotação de hierarquia, de poder, de gestão. Neste Dia dos Pais, em que o ego masculino fica ainda mais comprometido, uma autocrítica é sempre bem vinda, a começar pela readequação da expressão poder familiar. O Código Civil, que em seu artigo 1.630 substituiu a expressão pátrio poder por poder familiar, deveria ter disposto, em substituição, a expressão pátrio dever ou, sendo fiel ao novo texto legal, dever familiar. A paternidade não institui direitos sobre os filhos, mas sim deveres para com os mesmos.

O artigo 1.634 do Código Civil é preciso ao determinar aos pais a garantia da criação e educação de seus filhos. E isto não se dá apenas no sustento material ou alimentar, mas também e especialmente no exemplo moral, de forma que a geração vindoura tenha corretamente moldado seu caráter. E, ao contrário das obrigações conceituais, em que a contraprestação deste dever familiar se dá de forma pecuniária (custeio da educação, alimentação, vestuário etc), o exemplo moral requer comprometimento, renúncia e vocação. Não se pode exigir de outras pessoas atitudes que nós mesmos não adotamos, regra esta que seguramente se aplica de pai para filho.

Neste dia 10 de agosto festejamos o Dia dos Pais. Não se pode defini-lo como uma data do calendário civil. Estas têm dia certo e um caráter público institucional, como 21 de abril ou 7 de setembro. O Dia dos Pais também não é uma data religiosa, o que dispensa maiores justificativas. Portanto, deveríamos concluir ser um dia meramente comercial cujo ápice ocorre na entrega dos tradicionais presentes. E assim será apenas se o paterfamiliae deixar ser.

Mas esta data poderá ser vista de outra forma. Porque da palavra paternidade vem a raiz do adjetivo "paterno" que, outra vez recorrendo ao mestre Houaiss, significa "que lembra o amor de pai; carinhoso, afetuoso, paternal". Ou seja, a maior gratificação do Dia dos Pais não é receber um presente do filho, mas oferecer um carinho para ele.

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Falta pai
DILAN CAMARGO/ Subsecretário de Cultura do Estado

É alentador que os veículos da RBS estejam se empenhando em fazer ouvir a infância sem voz. Campanhas como "O amor é a melhor herança", programas como Conversas Cruzadas com debates entre autoridades políticas e judiciárias, as reportagens sobre a trajetória dos meninos ninjas, e vários artigos na página de opinião, tocam nessa imensa ferida que a sociedade e governos não curam.

Mas a verdade é que falta pai!

Falta pai porque os homens, sobrecarregados de trabalho, viciados no seu individualismo, ou incapazes de manifestar o seu afeto masculino, são eloqüentes ausências dentro de suas casas. Falta pai porque, nas sextas-feiras à noite ou nos sábados de manhã, filhos de pais e mães separados, com suas mochilinhas e o travesseiro debaixo do braço, esperam em vão e em lágrimas, que seus pais os busquem para passarem um fim de semana juntos.

Falta pai porque em Porto Alegre 595 crianças e adolescentes perambulam abandonados pelas ruas e porque a nossa cidade é a capital nacional de jovens drogados.

Falta pai porque os adultos regrediram à orfandade civil mantidos infantilizados pelo consumismo que se utiliza de uma propaganda que lhes promete tudo e por uma sociedade que a outros nega a mínima cidadania econômica e social.

Falta pai porque em Porto Alegre 595 crianças e adolescentes perambulam pelas ruas

Falta pai porque os homens não amam, mas simplesmente "azaram" e "faturam" as mulheres e se comprazem na alienação do seu falocentrismo. Falta pai porque os homens não registram seus filhos no cartório e muito menos nos seus corações. Falta pai porque os homens perderam a paternidade-autoridade, perderam-se na paternidade autoritária ou se esconderam na covardia dos que negam o seu sangue e o seu nome aos que dele e de uma mulher nasceram.

Falta pai porque a sociedade matou os heróis caseiros e elegeu os simulacros de heróis maquiados por uma mídia de baixa informação, entretenimento vulgar e desreferenciada de valores éticos. Falta pai porque vivemos numa época de difícil sobrevivência psíquica onde o "eu" sofre todos os tipos de assédio, desde o sexual, o moral e o consumista. Falta pai porque os pais preferem gastar mais com tênis de marca do que com livros e discos com seus filhos.

Falta pai porque os pais sentem-se amedrontados de serem os únicos a dizerem os necessários "nãos" num cotidiano de permissividades glorificadas. Falta pai porque homens permitem que os corpos de suas filhas sejam vulgarizados e violados à luz do sol. Falta pai porque a liberdade se reduziu à falsa escolha de uma grife ou à permissão para jovens ricos exorcizarem o seu tédio existencial queimando vivos índios e mendigos.

Falta pai porque essa maravilhosa condição da espécie humana foi esvaziada do seu significado profundo e da sua essência civilizatória. Falta pai porque o chamado de "pai" não é respondido dentro e fora de muitas casas.

Que não te falte o teu. Mas falta pai!

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A van da literatura

"Qualquer um pode escrever um livro. Duro mesmo é ficar no sofá, sem escrever nada. Não escreva. Se realmente tiver de escrever, trate o resto da humanidade aos tapas e pontapés"

Ivan Lessa é o maior escritor brasileiro. Só que o Brasil é tão desgraçado que nosso maior escritor nunca se interessou em escrever um livro. Preferiu dedicar-se a não escrever. É muito mais difícil não escrever do que escrever. Qualquer um pode escrever um livro. Qualquer um pode publicá-lo. Duro mesmo é ficar deitado no sofá, sem escrever nada. Requer uma aceitação filosófica da própria transitoriedade. Requer o desprendimento de um sufi. Ivan Lessa resumiu sua determinação de não escrever da seguinte maneira: "Que nossa presença seja leve aos outros, ocupados com seus mistérios e empombações. Falemos baixo".

Eu escrevi livros. Um monte de livros. Cheios de mistérios e empombações. Quem melhor definiu minha carreira literária foram os humoristas do Casseta e Planeta. Alguns anos atrás, contaram que um assassino, fugindo da polícia, escondeu-se dentro de um dos meus romances, o único lugar que ninguém jamais abriria. No domingo passado, o mesmo Casseta e Planeta voltou ao assunto e retratou-me nos fundos de uma van, a caminho de um festival de literatura em Parati, amolando o tempo todo meus companheiros de viagem, Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor e Marilena Chaui. Acontece que agora eu não escrevo mais. Desci da van literária. Como um alcoólatra numa reunião do AA, um dia me levantei da cadeira e jurei que nunca mais escreveria um romance. Há seis anos, quatro meses e duas semanas não faço uma linha de literatura. De tempos em tempos, sou tentado a retomar o hábito, sobretudo depois da noite de autógrafos de algum amigo. Ivan Lessa já disse que o único bom motivo para escrever um livro é irritar os amigos. Ele disse também que amigos custam um dinheirão e, ao contrário de liquidificador, não vêm com garantia. Bem melhor que ter um amigo é ter um conhecido no pub.

Conheci Ivan Lessa em Londres, em 1981. Todas as quartas-feiras almoçava com ele num restaurante chinês no centro da cidade. Ele sempre me levava três livros, dentro de um saco de supermercado. Eu lia tudo e devolvia na semana seguinte. Para ler os livros que ele me emprestava, fui negligenciando os estudos universitários na London School of Economics, até largá-los definitivamente, no fim do 1º ano. Em sua recente passagem por Londres, Lula recebeu uma homenagem da London School of Economics. O reitor chegou a chorar. Eu já era grato a Ivan Lessa por ter sabotado minha carreira estudantil. Depois da homenagem a Lula, fiquei duplamente grato. Embora eu não devesse falar desse jeito. Era divertido debochar do Lula nas primeiras semanas de governo, quando ninguém debochava dele. Agora todo mundo debocha, até o Casseta e Planeta.

Aprendi muitas coisas com Ivan Lessa. Algumas delas, só entendi recentemente. Isso de não sair escrevendo um romance atrás do outro, para mim, foi uma conquista difícil, que precisou de muito esforço e muita autoflagelação. Como nem todo mundo teve a sorte de ter um tutor como Ivan Lessa, estou passando adiante suas lições aqui, agora, de graça. Lição número 1: não escreva. Lição número 2: se realmente tiver de escrever, "trate o resto da humanidade aos tapas e pontapés".
Diogo Mainardi

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Comportamento

Crônicas de um pai transtornado

Escritor americano relata como é difícil ter filhas adolescentes
Ronaldo França

Existe um momento na vida em que o casal sente uma falta danada do tempo em que seus filhos eram bebês e a coisa mais estranha que eles faziam desaparecia com a troca das fraldas. Isso acontece quando as crianças chegam à adolescência. O escritor americano W. Bruce Cameron tem uma ótima definição sobre essa fase: "Os bebês são caracterizados pelo que não podem fazer: não podem andar, falar nem sair da sala quando você quiser explicar por que a vida era muito mais dura quando você estava crescendo. Já os adolescentes são caracterizados pelo que não farão: não vão limpar o quarto, não vão sair do telefone nem vão ouvir quando você quiser explicar por que a vida era muito mais dura quando você estava crescendo".

A convivência entre pais e filhos adolescentes nunca foi fácil. Pior ainda quando se trata do relacionamento entre pai e filha. Com duas adolescentes em casa, Cameron fez das preocupações e agruras dele e das chatices e rebeldias delas a matéria-prima de seu livro 8 Regras Simples para Marcar um Encontro com Sua Filha Adolescente Confissões de um Pai Transtornado (M. Books, 225 páginas). O livro, lançado recentemente no Brasil, deu origem à série americana de televisão 8 Simple Rules, exibida aqui pelo canal pago Sony.

Com muito humor, a obra trata dos assuntos mais comezinhos que envolvem o dia-a-dia de um pai com sua filha adolescente. Segundo Cameron, quando uma garota completa 13 anos, ela olha para o pai como uma espécie de misto de caixa eletrônico sem limite e motorista ele deve liberar dinheiro e levá-la ao shopping para que possa gastá-lo. Apenas isso. "Como todo bom pai sabe, as famílias se organizam melhor em patriarcados. É como um rebanho de cervos pastando calmamente sob o olhar do glorioso líder", escreve Cameron. "Infelizmente, as filhas adolescentes, em geral, têm problemas para compreender esse arranjo elegante e ecológico. Elas querem até 'discutir', o que no mundo real poderia levá-las a ser banidas do rebanho e mandadas para viver com bodes ou coisa parecida."

A convivência ficou ainda mais tumultuada, nos últimos anos, quando os pais passaram a participar (ou pelo menos tentam) mais ativamente da vida das meninas. Por um lado é bom. Por outro, no entanto, só faz agravar o ciúme que ele tem dela. Afinal, não é nada fácil ver que, de uma hora para outra, a princesinha do papai se transformou em uma adolescente beligerante e com idéias próprias. De repente, o corpo da menina ganha curvas e seu cérebro só registra assuntos relacionados a amigas, garotos, música, passeios e roupas. É como se ele perdesse as rédeas da situação.

E o ciúme do papai vai aumentando... Pior ainda quando ela começa a namorar. "Seus lábios já fazem muito esforço falando ao telefone e não preciso me sujeitar ao stress de ver a boca de algum garoto pressionando-os", é o que Cameron gostaria de poder dizer às filhas. "Apesar das mudanças de comportamento dos últimos anos, o pai sempre vai ter ciúme de sua filha", diz a psicóloga Ceres Alves de Araujo, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "Como até a adolescência o pai é o modelo de homem para a filha, nunca ninguém é suficientemente bom para ela."

Cameron é bastante preciso ao narrar a cumplicidade da mãe com a filha adolescente como se as duas mais a natureza conspirassem contra o pai. "Às vezes minha mulher diz que eu sou muito duro com os garotos e pergunta se eu não me lembro da época em que tinha a idade deles", conta Cameron. "É claro que eu me lembro. Afinal, já fui um deles e sei que os beijos têm efeitos imprevisíveis no cérebro masculino, que geralmente manda sinais aleatórios para as mãos."

Da experiência pessoal de Cameron com suas filhas é possível aprender alguns truques para facilitar o relacionamento. Ou, pelo menos, para torná-lo um pouco menos estressante. Em entrevista a VEJA, ele elencou alguns deles:

"O pai não deveria se incomodar em ser chofer da filha. Pelo menos assim ganha tempo para conhecê-la melhor, coisa que ela gostaria de evitar a todo custo."

"Não caia na chantagem emocional de sua filha. Você não imagina quão espertas as adolescentes são! Cada vez que você reclamar, por exemplo, que ela não avisou que chegaria mais tarde, ela vai contra-atacar: 'Se eu tivesse um celular...' Daqui a pouco, ela terá outras tantas razões para pedir o modelo de celular que acessa a internet, tira fotos e o que mais inventarem."

"E aqui vai a pior notícia de todas: você não pode desistir! Você pode até dizer para sua filha 'o.k., você venceu', e ela continuará a discutir com você. Há sempre um motivo para reclamar. Ambos estão cumprindo seus papéis. Elas são as filhas adolescentes e você é o pai".

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Boné se veste, usa, põe, coloca ou bota?

Quando se deixou fotografar com o boné do Movimento dos Sem-Terra na cabeça, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de outras, provocou uma polêmica em muitas redações de jornais. Afinal, o presidente vestiu, usou, colocou, pôs ou botou o boné do MST?

Vestir seria o verbo menos adequado, com certeza, por mais que os dicionários dêem o exemplo vestir luvas. Usar indicaria pelo menos um emprego mais demorado desse tipo de acessório. Nada impediria, porém, que o termo fosse adotado na ocasião, como fizeram alguns jornais. A precisão de linguagem terminou por dar preferência a colocar ou pôr.

E botar? Ele apareceu em algumas críticas ao presidente, mas sempre no sentido irônico, um estigma que o verbo carrega no Brasil. Botar equivale, na norma culta da língua, praticamente a todos os significados de pôr, mas, talvez por influência de botar ovos, ficou mais restrito à linguagem coloquial, na qual forma até expressões de caráter popular, como botar para quebrar. A mídia poderia ter dito, a sério, que o presidente botou o boné do MST. Mas sempre haveria quem visse intenção depreciativa na frase.

Costuma-se dizer que não existem sinônimos perfeitos, ou seja, há sempre uma palavra que exprime melhor determinada situação. Por isso mesmo, nem sempre é possível justificar por que, em muitos casos, certo vocábulo substitui outro que definiria com maior exatidão a idéia a expor.

O universo vocabular citado nestas digressões é um excelente exemplo desse processo lingüístico. Deixando de lado o verbo botar, pela sua meia-rejeição injustificada, constitui tarefa inglória explicar como colocar aos poucos relegou a injusto segundo plano o verbo pôr, um dos mais ricos do idioma.

Colocar, mais propriamente, significa pôr em algum lugar e deveria ser usado, em princípio, para coisas materiais: Colocou o boné. / Colocou o livro na estante. / Colocou os azulejos na parede. Já pôr é um verbo que se emprega tanto para coisas materiais quanto para formar locuções e frases feitas ou para definir coisas abstratas e do espírito. Assim: pôr o boné, pôr em prática, pôr o dedo na ferida, pôr em xeque, pôr em pratos limpos, pôr a mesa, pôr frente a frente.

Apesar disso, hoje em dia tudo se coloca: colocou a questão em pratos limpos, colocou o dedo na ferida, colocou o adversário em xeque. Erro? Impropriedade? O rigor de estilo recomendaria a escolha de pôr nesses casos. Mas, como colocar no lugar de pôr já se tornou um modismo permanente (registrado nos dicionários atuais), termina sendo inútil lutar contra a sua mudança de sentido.

O que convém recomendar é a fuga do exagero. Como dizer que jovens à procura de emoções fortes colocaram fogo no índio. Ou que um participante de debate colocou mal a questão ou fez uma colocação equivocada. Por que não levantar um problema, fazer uma sugestão ou observação? No mínimo se evitaria que alguém colocasse uma colocação equivocada, como se ouviu há pouco numa mesa-redonda da TV.

Eduardo Martins é jornalista e autor dos livros Manual de redação e estilo, de
O Estado de S. Paulo, e Com todas as letras O português simplificado.

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Brasil

Previdência Governo colhe vitória maiúscula na reforma
A importância das reformas para o crescimento
Polícia O assassino do diretor de Bangu III

Internacional

Estados Unidos Howard Dean, o candidato-surpresa
Arnold Schwarzenegger quer o governo da Califórnia
O tamanho do antiamericanismo

Geral

Comportamento As formas para lidar com filhas adolescentes
Esporte A falência de Mike Tyson
Especial Retratos de um Brasil que dá certo
Memória Roberto Marinho
Clima Onda de calor na Europa
Automóveis Quattroporte, o Maserati com motor Ferrari
Saúde Pílulas de ervas e frutas para emagrecer
Estilo Os figurinistas das apresentadoras de TV
Gastronomia Bolos que são obras de designers

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Animais O preço dos gatinhos exóticos
Restaurantes As melhores cozinhas típicas
Investimentos Como aplicar em títulos do governo via internet
Filhos Livros ensinam como criar meninos e meninas
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Artes e Espetáculos

Música Roqueiros mexicanos do Maná são sucesso no Brasil
Cinema O fracasso de Jennifer Lopez e Ben Affleck
Amarelo Manga, com Matheus Nachtergaele
Livros Um ensaio de Stephen King sobre o gênero terror
Televisão As boas causas de Manoel Carlos
Ensaio Roberto Pompeu de Toledo

Conheça a seção Pergunte ao Médico em VEJA Saúde. Uma forma de tirar dúvidas sobre os males e as doenças mais comuns.

Leia trechos do livro Contos Legais, que reúne vários autores especialistas em direito.

Ouça trechos do novo CD A Bossa Muito Moderna de João Donato.

Leia na seção Em Dia o que ocorreu com processos contra Roseana Sarney e Antonio Carlos Magalhães.

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Rosane de Oliveira
09/08/2003


Escolas abertas para a paz


Se está funcionando no Rio, onde os índices de criminalidade são superiores aos do Rio Grande do Sul, o projeto de abrir as escolas para a comunidade aos fins de semana tem tudo para dar certo por aqui. É uma idéia simples, de baixo custo, na qual vale a pena apostar. A experiência, realizada pela Unesco em parceria com os governos do Rio, de São Paulo, de Pernambuco e da Bahia, mostrou queda de até 70% nos índices de violência nas comunidades carentes que ofereceram atividades lúdicas, culturais, artísticas e esportivas nos fins de semana.

Entusiasta da abertura das escolas aos sábados e domingos, a gaúcha Marlova Noleto, coordenadora do programa da Unesco, vendeu a idéia ao governador Germano Rigotto logo depois da posse. Marlova convenceu o governador e o secretário da Educação, José Fortunati, de que ao oferecer uma alternativa de lazer para os jovens em escolas que normalmente ficam fechadas no fim de semana, reforça-se o vínculo com a comunidade.

Pesquisas mostram que a criminalidade aumenta entre a noite de sexta-feira e a madrugada de segunda-feira. Fechadas, as escolas viram alvos de vândalos e de ladrões. Abertas, a própria comunidade se encarrega de protegê-las. A oferta de atividades saudáveis, como a prática de esportes, pode reduzir até o interesse pela droga e pelo álcool, que estão na raiz do aumento da criminalidade.

Ao apostar na abertura das escolas aos fins de semana, Fortunati pode estar iniciando hoje uma revolução silenciosa, embora o número de escolas atingidas na primeira fase seja insignificante. Para que esse projeto tenha êxito, o governo não pode frustrar a população. Será preciso garantir as oficinas, cursos e atividades de lazer prometidos, mesmo que no início o nível de interesse seja baixo.

Buscar a parceria com organizações não-governamentais é o caminho para driblar a falta de recursos do Estado, que não tem como contratar monitores para as oficinas nem orientadores para as atividades esportivas. Se a experiência der certo, crescem as chances de se atrair voluntários dispostos a contribuir para a melhoria da vida nas comunidades carentes.

rosane.oliveira@zerohora.com.Br

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Paulo Sant'ana
09/08/2003


Forte comparação

Esses dias, em conversa com o diretor de Redação de Zero Hora, Marcelo Rech, confessei a ele qual o assunto que menos gosto e mais evito abordar: aquele em que os dois lados em disputa têm razão.

Exatamente o caso desta reforma da Previdência que está fazendo trepidar a nacionalidade.

Os dois lados têm razão. E digo que os dois lados têm razão porque se verificou um fenômeno espetacular em todo este episódio: todas, absolutamente todas as pessoas, sem exceção, inclusive eu, que deram opinião sobre a reforma previdenciária, foram a favor dela se não eram funcionários públicos, contra ela se o eram.

Mas hoje eu quero botar lenha nessa fogueira. Vou publicar um e-mail que me mandou um leitor, que não se identificou nem como funcionário público, nem como trabalhador privado, mas os meus leitores, pela minha introdução, facilmente saberão distingui-lo.


Eis o polêmico e-mail: "Sant'Ana. Privilégios? Onde? O trabalhador da iniciativa privada tem: 1) Fundo de Garantia do Tempo de Serviço; 2) indenização sobre o saldo do FGTS de 40% quando da demissão; 3) política salarial com revisão e atualização permanente; 4) tem direito a aviso prévio; 5) tem reajustes dos salários periodicamente, negociando índices, datas e periodicidade; 6) tem participação nos lucros das empresas; 7) são seus direitos convenções, acordos e dissídios coletivos de trabalho; 8) tem contribuição devida de 7,65%, 8,65%, 9% e 11% (apenas sobre o teto); 8) salário família; 9) idade mínima para aposentadoria não existe para homem ou mulher; 10) não tem tempo mínimo no cargo para aposentadoria; 11) tem reposição das perdas salariais; 12) tem atividades de risco e pode se aposentar com 15, 20 ou 25 anos de atividade/contribuição; 13) o trabalhador do regime geral, quando aposentado, nunca terá cessado seu benefício, em função de alguma atitude disfuncional da empresa em qualquer época; 14) o reajuste do RTPS no período de 1996 a 2002 foi de 69% para todos os benefícios, a saber: 1996 =15%, 1997 = 7,76%, 1998 = 4,81%, 1999 = 4,61%, 2000 = 5,81%, 2001 = 7,66%, 2002 = 9,20%".

Prossegue: "Já o servidor público: 1) não tem direito ao FGTS; 2) não tem direito à indenização de 40%; 3) não tem política salarial (o valor do salário é fixado em lei e o reajuste é de acordo com a vontade do governo, a grande massa deles vai para nove anos sem reajuste); 4) não tem seguro-desemprego; 5) não tem aviso prévio; 6) tem direito a reajuste anual reconhecido pelo STF, mas de 1995 a 2001 não foi concedido nenhum reajuste (em 2001 foram concedidos 3,5%); 7) não tem direito a participação nos lucros ou superávits governamentais; 8) não tem dissídios e nem acordos coletivos; 9) contribui com o percentual fixo de 11% sobre o total das salários; 10) não tem direito ao salário família; 11) são-lhe exigidos 60 anos para homens e 55 para mulheres como idade mínima para se aposentar e 35 e 30 anos de contribuição, respectivamente... Diante de tudo isso, pergunto para o cidadão contribuinte: ONDE ESTÃO OS PRIVILÉGIOS?". (ass) Gilmar Ribeiro da Silva, telefone (55) 30257943, Santa Maria".

De plano flagrei na comparação do leitor a omissão (imperdoável) das duas maiores vantagens dos funcionários públicos sobre os trabalhadores privados: a estabilidade e a integralidade dos vencimentos ao aposentar-se, embora a reforma recém aprovada subtraiu-lhes a última para os futuros servidores.

Podem os leitores pinçar outras incoerências, mas o levantamento impressiona a uma primeira vista.

Mas não lhes disse que é um assunto em que os dois lados têm razão?
psantana.colunistas@zerohora.com.Br

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>i>Jorge Furtado
09/08/2003

Introdução ao eumesmismo

Hoje eu acordei e abri minha janela. Hoje eu acordei e fiquei pensando na nossa relação. Hoje eu acordei e fui comprar um jornal. Hoje eu acordei e tive que ir no banco. E fui pra aula. E fui malhar. E olhei para o céu. E tomei nescau. E fiquei com muita cólica. E coloquei meu biquíni, decidida a ir na piscina. Hoje eu acordei e não fiz nada. Hoje eu acordei e encontrei na Internet 699 textos com "hoje eu acordei e...".

Em inglês ("I woke up this morning and...") são 12.200 textos. "Eu, por exemplo..." aparece em 8.330 textos. O "eumesmismo", diários, cartas, confissões, conselhos, queixas e outras querelas, são uma praga literária que se alastra nas livrarias, domina as colunas de jornais e revistas e explode na Internet, onde muita gente acha que dúvidas e abluções matinais são assuntos de interesse público.

É possível que entre as milhares de bobagens autocomplacentes haja alguma boa literatura, cólicas e nescaus matinais podem evoluir para reflexões interessantes sobre a vida, a morte ou a reforma da Previdência, mas a procura quase nunca vale o tempo perdido. Se você quer boas histórias ou alguma informação, vai ter que enfrentar centenas de eus por exemplo, cronistas impregnados de si mesmos distribuindo conselhos úteis para uma vida feliz, um amor verdadeiro ou uma carreira de sucesso. E, é claro, vendendo seus peixes, livros, sites, palestras e cursos. O mercado é grande e lucrativo, vidas vazias buscando recheio é o que não falta.

Acho que foi o Voltaire quem disse que o primeiro homem que comparou uma mulher a uma rosa foi um gênio e o segundo foi um imbecil. O certo é que o inventor do eumesmismo foi um gênio, Michel de Montaigne (28/2/1533 - 13/9/1592). Filho de um nobre recente, Montaigne aprendeu a falar em latim, como se fosse uma língua viva, e lia os clássicos desde garoto. Aos 40 anos, recolheu-se a uma torre de seu castelo e, à espera da morte, passou a escrever seus Ensaios, repletos de erudição e bom humor, tendo como tema principal ele mesmo.

"Os outros formam o homem, eu relato a seu respeito e represento um em particular, bastante malformado: eu mesmo. (...) Não posso fixar o meu objeto; ele vai, confuso e titubeante, com uma ebriedade natural. Pego-o em qualquer lugar, como está, no instante em que com ele me divirto; não descrevo o ser, descrevo a passagem. Ninguém tratou de um assunto do qual entendesse ou o qual conhecesse melhor do que faço. (...) Descrevo uma vida baixa e sem brilho: dá na mesma; é possível achar toda a filosofia moral numa vida popular e privada tanto quanto numa vida feita de matéria mais rica: cada homem leva em si a forma inteira da condição humana."

Felizmente a morte não veio tão cedo e Montaigne deixou uma das maiores obras já escritas. Calvino diz que "os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo..." e nunca "Estou lendo...". Eu, que nunca conheci quem tivesse levado porrada e não tivesse lido Montaigne na primeira infância, confesso que só fui conhecê-lo muito recentemente, ao ler um dos ensaios sobre os canibais brasileiros.

Procurei em sebos e nunca encontrei a tradução de Sérgio Milliet (Abril Cultural, 1980) e só com a reedição brasileira traduzida por Rosemary Costhek Abílio (Os Ensaios, três volumes, Martins Fontes, São Paulo, 2000-2001) pude botar a mão nos livros. Terminei de ler na semana passada e recomeço qualquer hora dessas. Eumesmismo, quando é bom, vicia.

P.S.: Se você quer um tira gosto antes de correr para a livraria, muitos dos Ensaios estão disponíveis na Internet. Sugestão de site:

www.librairie.hpg.ig.com.br/MicheldeMontaigne.html

jorge.furtado@zerohora.com.Br

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Lya Luft
09/08/2003


Dizer sim, dizer não

De tantos que escrevi, o livro que talvez mais me agrade seja O Ponto Cego. A história, longamente pensada - e difícil de construir -, de um menino falando, de sua perspectiva, sobre sua família complexa e esquisita - não mais do que são algumas famílias reais. Brinquei muito, nesse tempo, com a idéia de dizer "sim" ou "não" a si mesmo, aos outros, à vida, aos deuses. Dizer "sim" ao negativo, ao sombrio, ao danoso, em lugar de dizer "sim" ao bom, ao positivo, ainda que difícil. A questão é saber a hora de pronunciar uma ou outra palavra, assumir uma ou outra postura.

Aqui vão, apanhadas ao acaso no livro, algumas frases daquele estranho menino que não queria mais crescer porque ser adulto lhe parecia lamentável:

"O meu nome não importa. Para as pessoas eu sou apenas 'esse Menino aí' ou 'aquele Menino'. Quando eu for adulto, se continuar crescendo desse jeito, será que vão me chamar de 'Esse Homem'?"

"Aos sete anos decidi parar de crescer. Achei bom ter para sempre sete anos - esse número é o mais bonito: são sete os patamares, sete os pecados e sete os mares, sete a conta do mentiroso, gatos dourados têm sete vidas, bela é a lua sobre o campo quando no sétimo dia a morte começa a desdobrar as asas. Sete pode ser um número par: basta que a gente acredite nisso."

"Aos sete anos atingi o ponto cego na minha visão das coisas. O ponto cego é um fenômeno da visão humana segundo o qual, conforme convergência e refração, pode-se ver o que habitualmente permanece oculto: a possibilidade além da superfície, o concreto afirmado na miragem. Assim eu inventei, assim eu decretei, assim é."

"O ponto cego é onde a gente pode sempre dizer: 'sim' ou 'não'. O ponto mais cego é onde a gente não sabe quem disse 'não' primeiro. E a gente devia, quem sabe, naquele momento ter dito sim."

"Quando com audácia e dor alguém se busca e se encontra, e se recusa a continuar pagando o eventual injusto preço da acomodação, às vezes decide e vai viver a sua história. Então em geral se salva, no chamado da vida. Ela finalmente para si mesma diz: 'Sim'."

"Viver é todo dia se inventar: feliz, infeliz, vitorioso, derrotado, audacioso ou cheio de pena de si mesmo. Inventar o real é conquistá-lo: é o dom dos que não acreditam só no comprovado, nem se conformam com o rasteiro."

"Nossa impotência é que às vezes a gente joga fora o certo e recolhe o errado. Da acomodação brotam fantasmas que tomam a si as decisões: quando ficamos cegos não percebemos isso, e deixamos que a oportunidade escape porque tivemos medo de dizer o difícil 'sim'. O 'não' é também um ponto cego por onde a gente escorre para o escuro da resignação. O ponto mais cego é onde a gente nunca mais poderá dizer 'sim' para si mesmo. E aí tudo se apaga. Mas com o 'sim' as luzes se acendem e tudo faz sentido."

lya.luft@zerohora.com.Br

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Ensino
Escolas abertas à comunidade



Colégios estaduais, como o Almirante Bacelar, da Capital, realizam atividades culturais, esportivas e de lazer no fim de semana para atrair a população e pedir socorro no combate à violência nas escolas (foto Fernando Gomes/ZH)

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Veja os destaques da Revista Isto É deste fim de semana, acessando o site pelo link daqui.


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Sexta-feira, Agosto 08, 2003




PROMESSAS
Adaptação

Se tiveres fome, eu te ofereço
Dos alimentos o mais saboroso
Com o tempero do meu melhor afeto.

Eu te prometo, se tiveres sede,
Te servir da água mais cristalina,
Fresca e tão pura quanto a amizade.

Se te sentires só na noite escura,
Eu te ofereço a minha companhia,
Sem que por isso me devas ser grato.

E se vier o medo, eu te garanto
Ouvir-te a história, segurar-te a mão,
Deixar acessa a lâmpada do quarto...

Mas se tiveres o coração deserto,
Se te sentires, como eu, abandonado,
Se te cansares de caminhar só,
Se precisares de ternura e afago.

Então...
Eu te prometo algo mais raro:
Prometo que serás meu eterno companheiro!

Virgínia Vendramini

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PAI

Pai, pode ser que daqui a algum tempo, haja tempo pra gente ser mais, muito mais que dois grandes amigos...pai e filho, talvez...

Pai, pode ser que daí você sinta qualquer coisa entre esses vinte ou trinta longos anos em busca de paz...

Pai, pode crer eu estou bem, eu vou indo, estou tentando, vivendo e pedindo, com loucura pra você, renascer...

Pai, eu não faço questão de ser tudo. Só não quero e não vou ficar mudo, pra falar de amor pra você...

Pai, senta aqui que o jantar tá na mesa, fala um pouco, tua voz tá tão presa, me ensina esse jogo da vida, onde a vida só paga pra ver

Pai, me perdoa essa insegurança, é que eu não sou mais aquela criança que um dia morrendo de medo nos teus braços você fez segredo Nos teus passos você foi mais eu

Pai, eu cresci e não houve outro jeito, quero só recostar no seu peito pra pedir pra você ir lá em casa e brincar de vovô com meu filho no tapete da sala de estar

Pai, você foi meu herói, meu bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo, nem você, nem ninguém está sozinho...Você faz parte deste caminho, que hoje eu sigo em paz... Pai, pai, pai...

Fábio Júnior

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Pai fantasma
Lisboa, 21 de Dezembro de 1992

Querida Marta,

Amanhã é o dia de anos do meu pai. Tenho andado a pensar no que hei-de oferecer-lhe, mas ainda não cheguei a nenhuma conclusão.

Ele pediu à minha mãe para não convidar ninguém, pois logo a seguir ao jantar tem de voltar para o hospital.

Ela ficou chateadíssima e disse que já tinha tudo programado. «Então, desprograma, Bé. Não devias ter feito convites sem me consultares...», foi tudo o que ele disse. Pela primeira vez há muito tempo, senti certa pena da minha mãe.

Voltando ao assunto da prenda, a melhor ideia que me ocorreu foi oferecer-lhe uma moldura com uma fotografia que a avó Ju me tirou o ano passado na praia. É a única fotografia decente que tenho, isto é, não estou com cara de débil mental, como nas outras. Pode ser que ele goste e que se lembre um pouco de mim quando olhar para a mesa que tem no consultório...

De qualquer maneira, resolvi escrever-lhe um cartão de parabéns e, sem eu saber como nem por quê, saiu-me uma coisa que nem sei se se pode chamar poema. É assim:

Às vezes cruzamo-nos no corredor
E eu acendo a luz para te ver melhor.
Jantamos juntos na noite de Natal
Porque senão até parecia mal.
Deito-me sempre sem te ver chegar
E quando acordo já foste trabalhar.
Mudei de penteado e tu nem reparaste.
Chamei-te muitas vezes e nem para trás olhaste.
Apesar de tudo, não quero mais nenhum:
És um pai-fantasma, mas pai há só um...

Será que é duro demais? Fui sincera e pronto. Amanhã, quando a mesa estiver posta para o jantar, ponho-lhe o cartão debaixo do guardanapo. Não quero que ele tenha uma indigestão, mas se ficar um bocado mal-disposto, só lhe faz bem.

Para aprender !

Vou ao centro comercial comprar a moldura. Tem de ser verde, para condizer com o consultório.

Um beijo da Joana

MARIA TERESA MAIA GONZALEZ - A lua de Joana

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A Mulher Madura

Affonso Romano de Sant'Anna



O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85)

O texto acima foi extraído do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986, pág. 09.

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MENTIRA


Mentiram-me ontem

E hoje mentem novamente

Mentem de corpo e alma

Completamente

E mentem de maneira

Tão pungente

Que eu acho

Que mentem

Sinceramente

Mentem sobretudo

Impunemente!

E de tanto mentir

Tão bravamente

Constroem um país

De mentira

Diariamente!


Afonso Romano de Santana

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CAROLINA DIECKMANN não faz esforço para ficar bonita. Pelo contrário. A atriz atribui sua beleza às 12 horas de sono por dia. Costumo ir me deitar à meia-noite e desperto ao meio-dia.

Só acordo mais cedo quando tenho gravação de manhã, revela à revista Boa Forma deste mês, da qual é capa. Atualmente, não sobra muito tempo para a malhação, mas a ginástica olímpica, o judô, o balé e a natação que praticou dos 4 aos 14 anos ajudam a atriz, de 24 anos, a manter o corpo bem torneado.





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José Simão
simao@uol.com.br


Brasília urgente! Ouro em chute na vidraça!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! O Pan comeu em Brasília! Vocês viram os caras metendo o pé nas vidraças do Congresso? Servidores ganham ouro em chute na vidraça! Então quem mais saiu ganhando com essa reforma da Previdência foi o vidraceiro! Já pode até se aposentar! E vocês viram o nome do major escalado pra conter os manifestantes? Major Bulet. Mas 'bullet', em inglês, quer dizer bala. Bulet de borracha ou bulet de chumbo? Rarará!

E o Babá com aquele apito na boca tá cada vez mais parecido com o Pedro de Lara! E a Heloísa Helena ficava ajudando as vítimas do confronto. É a nossa Ana Neri. Ela devia ir pro Pan. Modalidade porrada em tropa de choque! OURO! Rarará! É mole? É mole mas sobe!

Pan urgente! OBA! Ganhamos ouro no basquete. Salvou a pátria. Porque nós só tínhamos conquistado dois ouros: tiro e corrida. Bem Brasil: um atira e o outro sai correndo! Rarará! E sabe como tão chamando aquele uniforme dos atletas? Maiô de macho! E tem medalha até pra boliche. Então agora só falta o pega-vareta, reco-reco amarelinha e bronha!

E um leitor mandou avisar pro Lula que pro espetáculo do crescimento não tem que baixar o preço dos carros, tem que baixar as calcinhas. E aquele porta-voz do Lula, o André Singer? Diz que é tão desmaiado que já estão chamando de morta-voz. Rarará! O morta-voz do Lula!

Portugal urgente! Os básicos estão de volta. Essa é inacreditável. Olha a notícia que saiu no jornal 'Lance' sobre o estádio Alvalade em Lisboa: 'Por um erro no projeto de construção, cerca de 600 lugares que tiveram a visão obstruída por um placar eletrônico foram destinadas aos cegos que terão entrada gratuita'. Sensacional. Só na terrinha mesmo! Básico!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um amigo meu foi pra Paranaguá e leu a placa: 'Vendo ovos sertanejos'. Tucanaram o ovo caipira. Tucanaram o Zezé di Camargo e Luciano!

Pior, olha o comentário de um jornal americano sobre a Monica Chupinsky: 'A estagiária que manteve relações sexuais incompletas com o presidente'. Tucanaram a chupeta de novo? Socorro. Chama o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês

E atenção! Cartilha do Lula! Mais um verbete pro óbvio lulante: 'Biscoito': repeteco de trepada. Rarará. Nóis sofre mas nóis goza. O lulês é mais fácil que o inglês. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. O já famoso Estoura Brasil!
UFA!

Email simao@uol.com.br

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David Coimbra
08/08/2003


Como embriagar uma esposa

Estão casados há uns 25 anos. Namoram desde os albores da pré-adolescência. Conheceram-se a vida inteira, ele sabe tudo, tudo sobre ela. Tudo. Tem só uma dúvida. Que manifestou meses atrás, enquanto tomávamos capuccino no bar da Redação:

- Nunca vi minha mulher bêbada.

Olhei para ele. Nunca? Nunca. Ela não bebia. Jamais havia bebido. Com exceção de um único ano de sua vida: o ano em que tinham terminado o namoro. Aquele ano, a esposa bebeu. Ela própria admitiu, depois. Mas estavam separados, ele pouco a encontrava. Mais tarde reataram, noivaram, casaram-se. Quando ele perguntava a respeito daquele ano, ela fazia um vê com as sobrancelhas:

- Não quero falar disso.

Ele não insistia. Mas, de uns tempos para cá, tem pensado no assunto. Por que ela não bebe com ele? Por que nunca mais bebeu? Como ficará bêbada? O que estará escondendo? Meu amigo está perdendo o sono e a serenidade.

- Preciso ver minha mulher bêbada - murmura, cada dia parecendo sentir mais dor. - Como posso fazer para vê-la bêbada? Isso ainda vai acabar comigo. Vai acabar com meu casamento.

O problema do meu amigo tem me atormentado também. Alguém aí me diga: como embriagar uma esposa abstêmia? Essa resposta pode salvar um casamento.

Vestido de noiva

Ela fitava o vazio com seus olhos claros, alheia ao entrechoque de assuntos dos amigos da mesa. Então, falou com voz suave porém límpida, e o que disse nos silenciou de um golpe. Nem tanto devido ao suspiro que tinha pendurado na vírgula daquela frase, mas por seu significado:

- Meu vestido de noiva era branco, agora está bege.

Todos os olhares se engancharam nela. Havia uma história ali, e ela queria contá-la. Talvez precisasse contá-la. Disse, ainda com o olhar no nada:

- Um dia, um homem com grisalho nas têmporas largou tudo por mim.

Tudo. A casa, a mulher, os filhos, o emprego, a vida inteira ele decidiu mudar por ela. Resolveram se casar. Marcaram a data. Ela mandou fazer o vestido de noiva. Branco. Alvíssimo como a virtude. Aí, ela vacilou. Ficou em dúvida, não sabia mais se queria. Ele não suportou. Sumiu. Ela se arrependeu, ansiava por dizer a ele que o amava, sim, que o queria. Mas ele havia desaparecido.

O vestido está guardado desde aquela época. Vez em quando ela o tira da gaveta, experimenta-o, olha-se no espelho, pensa que seria uma noiva tão linda. Na tarde daquele dia em que estávamos juntos ela tinha feito isso. Abriu a caixa em que dormia o vestido, desdobrou-o e o vestiu. Mirando-se no espelho, disse para si mesma a frase que repetiria no bar:

- Meu vestido de noiva era branco, agora está bege.

E soluçou baixinho, prometendo ao céu não desistir de esperar a volta do homem com grisalho nas têmporas.
david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
08/08/2003


Falência da segurança carioca

O assassinato do diretor do presídio Bangu 3, no Rio de Janeiro, pode ser classificado de apavorante.

Abel Silvério de Aguiar foi crivado de balas por ocupantes de dois carros que cercaram seu automóvel na Avenida Brasil.

O curioso é que as investigações em torno do assassinato se dirigem para o raciocínio de que o diretor do presídio foi executado a mando de traficantes presos em Bangu 3 ou por policiais ou por agentes penitenciários.

É a segunda vítima da cúpula penitenciária carioca que tomba em apenas 13 dias: o chefe de segurança do complexo de Bangu, Paulo Roberto Rocha, foi também assassinado em 24 de julho último.

Esses dois crimes atestam claramente que, embora presos, os detentos cariocas mantêm uma hegemonia política sobre seus carcereiros, de tal sorte que conduzem com este poder o clima dominante nos presídios.

Se um diretor de presídio é assassinado fora do presídio, há sinal evidente de que os tentáculos do crime organizado transcendem os muros prisionais.

Ou seja, a grande desgraça que se constata é que o Brasil começa a ingressar numa área de verdadeira tragédia em matéria penal: não há eficácia em recolherem-se os delinqüentes aos presídios, eles continuam com poder de atuação criminal ilimitado fora dos limites das prisões.

Como administram as prisões cariocas os seus diretores, se têm consciência de que suas vidas e as de suas famílias dependem da instabilidade do humor dos presos que têm sob sua custódia?

Como há que se manter a ordem e a disciplina nos presídios se qualquer contrariedade dos detentos com a orientação administrativa pode determinar a morte dos chefes dos carcereiros?

Evidentemente que os agentes penitenciários intimidam-se e cedem a todas as pressões da massa carcerária.

Pode existir fato mais assustador?

A rodada do Brasileirão que terminou ontem foi trágica para o Grêmio e sublime para o Internacional.

Depois de perder quatro gols feitos na primeira etapa, o Grêmio desabou em preparo físico no segundo tempo e agarrou-se desesperadamente à lanterna do certame. Somem-se ao desastre gremista as vitórias de Goiás e Fortaleza e tirem de perto de quem for gremista qualquer frasco de veneno.

Uma desgraça.

Enquanto isso, depois que todos os vanguardeiros da tabela patinaram em empates (Cruzeiro, São Paulo e Santos), o Internacional conseguiu três pontos no Beira-Rio e agora desponta como aspirante legítimo ao título.

Nunca houve nas últimas décadas ano melhor para o Inter e mais funesto para o Grêmio.

Pior que ser funcionário público depois da reforma previdenciária, só mesmo ser gremista.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Jogos Pan-Americanos
Esforço recompensado



Com um arremesso de 18m48cm, a paulista Elisângela Adriano conquistou para o Brasil a medalha de prata no arremesso de peso (foto Washington Alves, divulgação COB/ZH)


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Quinta-feira, Agosto 07, 2003




Você Está Certo :
A Natureza Não Erra


Quando lhe dizem que você é uma errada estão dizendo que Deus errou quando fez você.

Nesses momentos mantenha-se calma e reflita:

Seus pensamentos:
Você está disposta a entregar sua cabeça e deixar que os outros pensem por você?

Seu coração:
Você aceita anular os seus sentimentos em favor de sentimentos alheios?

Sua alegria:
Você se dispõe a sufocá-la para assumir tristezas de quem não se importa com você?

Seus gostos:
Você quer privar-se do que gosta para atender ao que esperam de
você?

Seu trabalho:
Você entende como certo trabalhar para outros e também
para si mesmo?

Seus sonhos:
É de sua vontade abandoná-los para realizar os sonhos de outras pessoas?

Seu tempo:
Você quer colocá-lo à disposição dos outros a ponto de não sobrar tempo para você?

Sua Vida:
Você seria honesta consigo mesmo se deixasse que alguém lhe ditasse como
se deve viver?

Reflita sobre as respostas que chegarem
e ame-se.

Sempre que lhe disserem que você é uma errada, estarão dizendo que a Natureza errou quando fez você.
Ligue-se ao Universo, que apoia e orienta todos os atos e todos os passos seus.

Avance com segurança e, se alguém lhe disser que você tem erros, mande-o reclamar
com Deus.

Silvia Schmidt
Humancat

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Alegria nas bancasRevista da FM O DIA chega amanhã às bancas, mostrando os bastidores da rádio, entrevistas com os artistas que fazem a programação e muita promoção para os leitores
Tatiana Contreiras



Kelly Key está na capa da primeira edição. Ela fala de trabalho e vida pessoal em três páginas de entrevista. A cantora fez fotos exclusivas para a Revista da FM O DIA

A partir de amanhã, a FM O DIA vai ultrapassar os limites do dial. O número um da Revista da FM O DIA chega às bancas, mostrando para os ouvintes tudo o que rola no mundo da música e nos bastidores da rádio que é líder de audiência, com mais de 2 milhões de ouvintes por mês e média de 262 mil por minuto. Para o leitor, coisa boa é o que não falta: de promoções exclusivas às reportagens, passando pelas colunas, a revista mensal e com preço de R$ 1,50 promete trazer muita novidade.

Nesta primeira edição, a musa Kelly Key vem na capa. No recheio, tem espaço para o mundo dos micareteiros, uma noite dos ouvintes no ensaio do show de Lulu Santos e até o que rolou na visita de Alexandre Pires e da revelação Luka aos estúdios da FM O DIA. Para o público, é uma interação maior com o universo da rádio, avalia o superintendente de Marketing do Grupo O DIA de Comunicação, Mário Reis. O ouvinte vai poder conhecer os locutores e saber mais de perto o que está acontecendo com os artistas. É uma extensão do que se ouve na rádio, completa Mário.



A vagaba tem uma página em que dá dicas sobre sexo, sua especialidade. O locutor Ricardo Gama ganhou desenho que ilustra sua coluna

A primeira edição da revista sai com 60 mil exemplares e circula no Rio e no Grande Rio. No time da Revista da FM O DIA, jogam os colunistas David Brazil, DJ Marlboro, Mauro Leão e a Vagaba, que responde a dúvidas sobre sexo. Locutores e DJs também participam, como na seção Na Garupa do Ricardo Gama, em que o apresentador dos programas Big Mix e As Melhores da FM O DIA entrevista um astro da música.

Cupons de desconto em lojas, bares e casas noturnas, além de promoções como o sorteio de uma scooter, darão ao leitor a certeza de que o custo com a revista será recompensado.

A revista é um sonho antigo, conta Renan Miranda, gerente artístico da FM O DIA. Para o ouvinte, é muito importante, porque ele vai entender melhor a rádio que hoje ele só imagina como é, completa. Segundo Renan, os artistas que estouram nas paradas e agora nas páginas da revista curtiram a novidade. Eles foram super-receptivos. A FM O DIA tem uma empatia muito grande no meio artístico e no mercado fonográfico, porque é uma rádio que acredita nos novos artistas, aposta nos talentos.

Kiko, do KLB, assina embaixo. Rádio é uma coisa que você só escuta, não tem cara. Agora os ouvintes poderão conhecer melhor a história da rádio, os locutores e todas as outras coisas que rolam nos bastidores, diz o moço. Acho superbacana a idéia de a FM O DIA lançar uma revista, porque a rádio dá muita moral para os artistas, principalmente para nós, do samba, diz Luciano Becker, do grupo Swing & Simpatia.

Agora, poderemos contar nossa história e ouvintes conhecerão melhor os artistas, pelas fotos e entrevistas, diz Bruno, do Sorriso Maroto, que também está neste primeiro número.

A festa de lançamento acontece dia 19, na Via Show, em São João de Meriti, com shows do Rouge, Gustavo Lins, Molejo, Luka, Buchecha e Salgadinho.

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José Simão
simao@uol.com.br


Pan Urgente! Peru derruba as pererecas!


Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Mulheres Desgraçadas Urgente! E a Globo, que não consegue gravar a cena da bala perdida? Eu acho que a bala se perdeu. A bala perdida se perdeu. Não conseguiu achar o Leblon! Não é bala perdida, é bala tonta: não consegue achar a vítima! E já imaginou se eles estão gravando a cena da bala perdida e começa a chover bala perdida de verdade? A vida imita a arte!

E essa novela devia chamar Mulheres Desgraçadas: uma só bebe, outra só apanha, outra tem câncer e a outra é baleada. E a outra tem que transar com o Tony Ramos! Com aquele seu vison natural! E a outra ainda tem que agüentar as caras de canastrão do Zé Mayer. É muita desgraça! E eu já disse que o importante não é ser mulher, o importante é ter bunda!

E com essa redução do IPI pra indústria automobilística já dá pra gente comprar dois carros: um carrinho de pipoca e um carrinho de cachorro-quente. E aí diz que a loira entrou numa loja de informática e pediu uma cortina pink pra tela do computador. E o vendedor: 'Mas computador não usa cortina'. 'Mas é que eu tenho Windows.' E mais uma piada pronta: o senador americano pelo Havaí se chama Robert Bunda. Bob Bunda. Espero que ele nunca venha passar férias no Brasil!

Pan Urgente! Ganhamos ouro em atletismo! Normal, brasileiro é especialista em atletismo. Tem que ser o maior atleta pra sobreviver! E temos seis pratas e oito bronzes. Já dá pra fazer um faqueiro e abrir uma fábrica de sino! E é melhor levar bronze do que levar ferro!

E o Peru derrubou as brasileiras. Coitadas das meninas do vôlei. Coitadas nada, que sorte, foram derrubadas pelo Peru! Peru derruba pererecas! E ouro em iatismo eu não quero. É muito de elite. Muito Marina da Glória. Depois dessa, só falta ganhar ouro em cricket, gamão e bridge! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um bispo anglicano está sendo acusado por um homem 'por ter tocado de forma inadequada'. Tucanaram a mão boba! E no condomínio de um amigo meu estão cobrando 'taxa pra pagar removedor de resíduos sólidos caninos'. Tucanaram o cocô de cachorro!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. 'Coveiro': companheiro que planta couve. 'Sopapo': levar um papinho com a Heloísa Helena. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! No pingolim! Pra ver se bate no teto!

Email simao@uol.com.br

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Rosane de Oliveira
07/08/2003


Teste de coerência

Sobram motivos para se definir como histórica a sessão da Câmara encerrada na madrugada de ontem com a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno. Em primeiríssimo lugar porque um governo do PT conseguiu, em sete meses, aprovar uma reforma antipática para os funcionários públicos, seus aliados em todas as últimas eleições. Em vez de virar refém das corporações, como profetizava a oposição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu enfrentá-las para fazer uma reforma que considera importante para o futuro da previdência social e do país.

Não é a reforma dos sonhos de ninguém, até porque para ser aprovada foi preciso construir uma proposta minimamente palatável. Mas é um começo, e há pontos meritórios, que só não vê quem não quer ou quem tem alguma coisa a perder. O teto salarial, por exemplo. Pode ser alto em comparação com o que ganha a maioria dos brasileiros, mas pelo menos é um limite.

O governo só aprovou a reforma porque metade das bancadas do PSDB e do PFL, coerente com o seu passado, votou com o governo. Não foi favor, como sugerem declarações ouvidas ontem. Para um partido como o PSDB, que tem perspectiva de retomar o poder em 2006 e sabe que cedo ou tarde a reforma da Previdência terá de ser aprovada, é um excelente negócio ver o PT comprar essa briga. Os nomes dos que votaram a favor da reforma se perderão na poeira, apesar dos tradicionais cartazes com as fotos dos chamados "traidores", mas a História registrará que a reforma da Previdência foi aprovada no governo Lula. Essa contradição será explorada à exaustão na próxima campanha eleitoral.

Foi uma sessão histórica porque pôs a nu a coerência de deputados do governo e da oposição. Petistas e comunistas que no governo Fernando Henrique encabeçavam passeatas contra a reforma da Previdência agora defenderam a proposta com unhas e dentes, votaram a favor e pregam a punição dos infiéis. Parlamentares da base aliada do governo tucano, que aceitavam até a contribuição dos inativos de salário mínimo, agora votaram contra para fazer média com os servidores públicos.

Pior do que pisotear antigas convicções - por reconhecimento tardio de um erro ou por interesse eleitoral - foram as omissões. A abstenção é um tipo de covardia, principalmente quando está em jogo um tema da importância da reforma da Previdência. Quem não votou por medo da reação dos eleitores ou da punição do partido traiu a confiança de quem lhes deu o mandato.

Covarde também foi o ato dos manifestantes que quebraram vidros do Congresso na tentativa de invadir o prédio, num gesto que o presidente Lula classificou como "vandalismo gratuito e irresponsável". Trata-se de um atentado contra a democracia, que precisa ser repudiado com vigor. Quem acha que agredindo o Parlamento vai garantir a simpatia da opinião pública ou convencer os parlamentares a mudarem o voto no segundo turno erra em dose dupla. E prejudica os colegas que, de forma pacífica, tentam fazer valer seus pontos de vista.

rosane.oliveira@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
07/08/2003


La Pannonica

O pouco que se sabe sobre a baronesa Pannonica de Koenigswarter só aumenta a estranheza por não se saber mais. Quem gosta de jazz a conhece apenas como uma nota de pé de página nas biografias do saxofonista Charlie Parker, que morreu no seu apartamento de Nova York, e do pianista e compositor Thelonious Monk, possível amante, que morreu na sua mansão em New Jersey. Sempre achei curioso que essa personalidade, certamente fascinante, com credenciais literárias até de anjo da morte, não tivesse merecido mais do que referências oblíquas na história dos outros.

Ou estou mal informado, o que é provável, ou ao contrário de mulheres como Alma Mahler e Lou Salomé, que também ficaram célebres mais pela sua participação na vida de homens importantes do que pelo que eram, ninguém ainda se interessou em contar a história da baronesa. Andei googleando o seu nome e descobri o bastante para ficar ainda mais intrigado com este mistério. La Pannonica daria um livro e tanto.

Kathleen Annie Pannonica de Koenigswarter, ou Nica, nasceu em 1916 e era descendente de Nathan Mayer Rothschild, o fundador do ramo inglês da dinastia financeira que subvencionou boa parte da História da Europa desde o século 18. Criou-se em Paris, foi uma das primeiras mulheres a pilotar um avião e casou-se com um aviador francês, Jules de Koenigswarter, supostamente um espião de Churchill na França ocupada pelos nazistas, quando fez parte da resistência - como a baronesa, que seria a encarregada de levar mensagens para De Gaulle no seu exílio inglês.

Depois da guerra, Jules tornou-se diplomata e o casal foi para o México, mas a baronesa escapuliu para Nova York, onde o novo estilo de jazz chamado "be-bop" chegava ao auge. Ela tornou-se amiga e patrona de vários jazzistas, uma espécie de Peggy Guggenheim do jazz com a diferença de que nunca lucrou com seus protegidos como Peggy lucrou com seus pintores. Existem várias músicas, como a Nica's Dream, do Horace Silver, dedicadas a ela.

Charlie Parker morreu assistindo televisão no seu apartamento na Quinta Avenida, em 1955. Monk e sua mulher Nellie moraram com ela até a morte dele, em 82. Se formavam um ménage a três ninguém sabia, muito menos, aposto, o distraído Monk, que lhe dedicou a bela Pannonica e outras composições, mas morreu nos braços da Nellie.

Além dos que se referem à sua ligação com o jazz, o nome da baronesa só aparece em um saite da Internet: sobre colecionadores de carros de luxo. Ela era dona, entre outros, de um raro Bentley Continental 57, que ficou conhecido como o "Be-Bop Bentley", pois era nele que Nica transportava seus amigos músicos na noite de Nova York. Ela morreu em 1990, com 74 anos. Um livro, nada. Sua vida daria uma história cultural do século 20. Ou de um certo século 20.

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Nilson Souza
07/08/2003


A menina de Eldorado

Tenho relatado seguidamente neste espaço os encantos deste ofício de contar histórias da vida real. Graças à magia das palavras, quem trabalha com informações tem o poder de tocar na alma de outras pessoas. Mas, de vez em quando, também tem a sua exposta. Antes de processarmos as boas e as más notícias, somos atingidos por elas. Por isso, acabamos desenvolvendo couraças que nos permitem suportar os impactos das tragédias e das dores humanas. Às vezes, porém, somos pegos desprevenidos e caímos na armadilha do envolvimento.

Foi o que me aconteceu esta semana com a menina de Eldorado do Sul. Não a conheço, não sei o seu nome, nem imagino qual é a cor dos seus olhos ou o comprimento dos seus cabelos. Só sei que tem 12 anos e quatro irmãos menores. Mas não pude mais tirá-la do pensamento desde que tomei conhecimento de sua incrível história. Sem pai presente e abandonada pela mãe na última sexta-feira, ela passou dois dias cuidando sozinha dos irmãos menores, num casebre miserável e quase sem ter o que comer. Somente na noite de domingo, já desesperada com a situação e sem saber como consolar os pequenos, um deles doente, é que procurou socorro.

As crianças foram socorridas, mas o drama não terminou aí. No dia seguinte, um incêndio destruiu o abrigo para o qual haviam sido levadas. Tiveram que ser transferidas para uma creche. E aí a mãe apareceu, querendo os filhos de volta - apesar de ter em seu histórico outros episódios de negligência para com os filhos. Não vou julgá-la. Sei lá que descaminhos do destino levaram aquela mulher a tal degradação. Mas também não dá para aceitar que seus filhos sejam sentenciados a igual castigo.

Como fazer? Confortado por não ser juiz de tão complexa causa, recorro à lição do profeta: "Vossos filhos não são vossos filhos, são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem".

Sei, são apenas palavras. Mas, como as palavras têm poderes mágicos, quem sabe essas não se transformem em luzes que ajudem a iluminar os caminhos da menina de Eldorado do Sul e dos seus sofridos irmãos.
nilson.souza@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
07/08/2003


Volúpia de reformas

Ainda tem de baixar a poeira sobre a reforma da Previdência, aprovada em primeiro turno pela Câmara, para que se possa saber da sua exata extensão e profundidade.

Os adeptos da previdência única estão eufóricos desde ontem, enquanto os servidores públicos se mostravam inteiramente desolados com as modificações.

É claro que os servidores futuros, os que ainda não ingressaram no serviço público, serão os mais atingidos.

Mas terão conhecimento das regras antes do ingresso, o que é pelo menos justo.

A grande dúvida é sobre até que ponto tiveram reduzidos seus direitos os atuais servidores: o governo e seus aliados dizem que em nada, mas há indícios de que em muito.

Tem de baixar a poeira para melhor avaliar.

Mas vem mais por aí: em seguida será votada a reforma tributária. O alerta vem de deputados federais do PSDB e do PFL, muitos deles tendo votado a favor do governo na reforma previdenciária. Eles afirmam que a reforma tributária vai onerar os contribuintes em cerca de R$ 41 bilhões por ano em todo o país. São R$ 41 bilhões a mais do que atualmente já é cobrado.

Uma insânia.

Mas será possível que, com todas as declarações partidas do governo federal e dos governadores de que não haverá aumento da carga tributária, isso não é verdade?

Mas é claro que é possível. Só um ingênuo não percebe que o título "reforma tributária" é apenas uma máscara para aumentar impostos.

Se o governo federal não cede em seu bocado, não querendo dividi-lo com os Estados e municípios, era evidente que vinha aí uma derrama.

Mais impostos ainda, em cima da carga tributária já hoje insuportável.

E logo em seguida a reforma trabalhista, pela qual serão reduzidos os direitos dos trabalhadores das empresas privadas.

Quem viver acreditará que os tempos são da mais patética desconstrução.

Olha eu aí, que não consigo viajar a lugar nenhum por ter de preencher diariamente meus espaços jornalísticos, estarei hoje em Osório, participando de uma sessão de autógrafos do meu livro O melhor de mim, a partir das 16h30min desta quinta-feira, no Espaço Cultural Conceição, como parte das atividades da 19ª Feira do Livro e do Fórum de Educação, que ocorrem simultaneamente em Osório, no Litoral Norte.

O escritor e jornalista Carlos Urbim também fará sessão de autógrafos no mesmo local, com o livro Os Farrapos, outro título igualmente editado pela RBS Publicações.

O sucesso que meu livro está fazendo me entusiasma. E não pude resistir à tentação de bater um papo com os osorienses e pessoas de todo o Litoral.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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São gestos como estes que não levam a nada, ou alias, levam a mostrar uma outra face deste Brasil que, apesar dos políticos, nós amamos. E depois o gasto com as reformas e consertos sai do seu bolso, do bolso deles e do meu também.

Reformas
Vandalismo no Congresso



Grupo de baderneiros usou pedras, paus ou os pés para quebrar 52 vidros do Salão Negro da Câmara (foto Eraldo Peres, AP/ZH)


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Quarta-feira, Agosto 06, 2003




http://basilico.uol.com.br/pais
Ao velho com carinho
Sites trazem promoções e dicas de presentes para você acertar em cheio no Dia dos Pais



Preparando-se para o Dia dos Pais, diversos sites incrementam seus serviços buscando um filão para a data. Desde dicas para presentes, passando pelos sites de cartões virtuais e até um grande número de sites de culinária dedicaram-se à ocasião, atrás de mais acessos.

Para quem ainda não tem idéia do que dar de presente para o pai, o site Central de Desejos (http://www.centraldedesejos.com.br) traz dicas para diferentes personalidades com as seções pai esportista, executivo, hi-tech, gourmet, intelectual, vaidoso e super pai. Para que ninguém erre na hora de escolher, nossas vitrines virtuais terão produtos para todos os estilos de pais, desde os modernos até os mais tradicionais, explica Daniela Aquino, diretora comercial do site. Os presentes também podem ser escolhidos por preço e categoria.

Mas quem já sabe com o que presentear e está atrás dos melhores preços, deve ficar de olho nas promoções das e-lojas. O Submarino (http://www.submarino.com.br) colocou no ar o hot site O dia-a-dia do meu pai, no qual os filhos podem escolher os presentes por perfil ou preço. Os consumidores ainda participam de uma promoção que vai sortear uma TV 43 Projeção Wega, da Sony, um Playstation, um Palm Zire, entre outros prêmios.

Já quem comprar um barbeador Philishave no Pontofrio.com (http://www.pontofrio.com.br) até sexta, ganha uma caricatura de seu pai. Para isso, basta que, após a aprovação do crédito, o comprador envie por e-mail uma foto do pai para philishave@ciaprod.com.br. O site também oferece produtos em até 10 vezes sem juros.

O Americanas.com (http://www.americanas.com.br) está com uma seção especial de informática parcelando em 12 vezes sem juros, e conta com uma promoção para sortear um DVD Theater da Philips.

Portais de culinária trazem seções especiais

Se a grana anda curta, um bom presente é preparar aquele almoço no domingo. Um bom exemplo é o Cyber Cook (http://www.cybercook.com.br), cujo especial de Dia dos Pais traz diversas receitas de botequim, como caldinho de feijão e lula a dorê.

O site Prato Feito (http://www.pratofeito.com.br) também preparou um hot site especial para a data, não só com receitas para agradar os pais, como também dicas de passeios e cartões virtuais.

Já o Basílico é indicado para os mais sofisticados, com dicas até de que tipo de bebida fica melhor com cada charuto. Confira em http://basilico.uol.com.br/pais/.

O Panelinha (http://www.panelinha.com.br) conta com um teste para descobrir o menu ideal para seu pai. Não custa nada fazer, não é?

Mas se você quiser preparar um prato diferente e de quebra aprender a arte da culinária japonesa, aponte para o site http://www.terra.com.br/culinaria/especiais/sushi/ e vire um sushiman (ou uma sushiwoman) de primeira! Seu pai, com certeza, vai ficar impressionado!

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Dura de matar
Gravação da morte de Fernanda, de Mulheres Apaixonadas, reúne mil pessoas no Leblon, mas a cena principal terá que ser refeita amanhã porque um flash disparou na hora errada
Marcelle Carvalho



Ao ouvir tiros na rua, Fernanda (Vanessa Gerbelli) sai do carro em que estava com Téo (Tony Ramos). Ele é baleado, ela se vira para vê-lo e leva tiros no ombro e no peito. Cena está prevista para ir ao ar sábado

A tão esperada cena em que Fernanda (Vanessa Gerbelli), de Mulheres Apaixonadas, é atingida por uma bala perdida finalmente foi gravada ontem, na Rua Dias Ferreira, no Leblon. Mas ela ainda não morreu. Pelo menos não para a produção da novela, que terá que regravar a cena amanhã, porque o flash de um fotógrafo que cobria a gravação disparou no momento em que a atriz era atingida pelo tiro, prejudicando a cena.

Exaltado, o diretor Rogério Gomes, o Papinha, encerrou o trabalho, aproveitando também que o horário para o fechamento da rua estava estourando e a noite, caindo. ¿Foi um flash que disparou e teremos que refazê-la quinta-feira (amanhã), mas sem fotógrafos¿, avisou, irritado. A gravação começou às 10h, se estendeu até as 17h20 e reuniu mil pessoas espalhadas nas calçadas e varandas dos restaurantes da rua. Uma superprodução foi montada para o trabalho. Eram 400 pessoas entre figuração, dublês, produção e equipe técnica.

Na cena, Fernanda e Téo (Tony Ramos) estão indo para o hotel quando entram em uma rua e ficam presos no engarrafamento. Sem saber o que impede o fluxo, Téo sugere que Fernanda siga a pé para não chegar atrasada, quando ouvem os tiros.

Os dois saem do carro. Ao olhar para trás, o músico vê o bandido, tenta proteger Fernanda, mas é atingido na nuca. Ela se vira para ver Téo, leva um tiro no peito e outro no ombro. A cena está prevista para ir ao ar no sábado e deverá ter oito minutos de duração. Esse foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira. Foi um teatro a céu aberto. Gostei quando uma senhora me deu um adesivo de Nossa Senhora, contou Tony Ramos.

Encantado com o realismo da cena, o público batia palmas a cada intervalo. Algumas pessoas se assustaram com os primeiros tiros e se abaixaram. Os efeitos especiais foram coordenados pelo produtor mexicano Federico Farfan, que usou tiros de festim e sangue à base de corante vegetal e mel. Numa placa de ferro foi colocada uma camisinha com 30 mililitros do preparado. Em cima dela ficava uma espoleta com óxido de chumbo, que, acionada por controle remoto, explodiu. Duas camisinhas foram colocadas em Vanessa e uma sob o cabelo de Tony.

É difícil fazer uma cena na rua. Mas a energia das pessoas acaba ajudando. Talvez essa tenha sido a cena mais difícil. Não consegui conter o choro em alguns momentos. Foi muito forte para mim. Com toda essa comoção, saio muito feliz da novela, diz Vanessa, que nunca passou por uma situação de violência, mas teve um tio assassinado.





Téo é o primeiro a ser atigindo pelos disparos e leva um tiro de raspão na nuca. Uma camisinha com placa de ferro por cima e mini-explosivo foram usados para produzir efeito do sangue jorrando do peito de Fernanda

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José Simão
simao@uol.com.br


Pan Urgente! Bronze a gente pega em Ipanema!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Pan Urgente! Esse Pan tá do Caribe! Ganhamos prata em tiro e bronze em carabina. Só falta levar ouro em AR-15!. O Brasil tá abrindo caminho a tiro no Pan? Vai ter que mudar o nome do torneio pra PANPANPAN!

E tá todo mundo dizendo que pra levar ouro em tiro a gente tinha que chamar o pessoal do tráfico, a turma do Morro do Alemão! E adivinha quem ganhou a medalha de ouro em tiro? Um americano, claro! Tiros em Columbine!

E avisa pros nossos atletas que chega de bronze. A gente só ganha bronze? Bronze a gente pega em Ipanema! E o que significa essa prova: lançamento de martelo feminino? Batedor de bife?! Rarará! E olha esta: ´Cubana bateu o recorde no lançamento de martelo´. Na cabeça do Fidel! Bate um martelo na cabeça do Fidel!

E continua a desorganização em Santo Domingo, é o país do Kubanapan! Sabe o que eles fizeram pra refrescar a piscina do polo aquático? Botaram pedras de gelo. É verdade! Virou Polo on the Rocks! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

Tormento Econômico. Um amigo foi demitido e perguntou pro chefe: ´Agora eu tenho que passar no RH pra pegar a demissão?´. E o chefe: ´Pode deixar que eu te entrego, o pessoal do RH acabou de ser demitido´. Rarará! E eu sei como o Lula pode fazer pra acabar com o desemprego: demitindo o pessoal que calcula o desemprego. Fecha o IBGE.

E reparou que o pessoal aqui em São Paulo trata o Fernando Henrique como um rei no exílio?! Porque tem gente que ainda estende o tapetinho, ajoelha e reza cinco vezes por dia em direção a Higienópolis! Rarará!

E tem um sex shop em Fortaleza chamado Putz. E os vizinhos querem fechar o sex shop. E sabe como se chama a rua? Pinto Madeira. Rarará! Piada pronta! E tem uns gaiatos formando um novo MST: Movimento dos Sem-Tcheca. Querem um lugar pra plantar a mandioca. Rarará! Levanta a sua bandeira!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que num rodeio em Tijucas, em Santa Catarina, tinha uma placa indicando: ´Condomínio para Cavalos´. Tucanaram a elite! Rarará! Socorro! Chama o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês!

E atenção! Cartilha do Lula! Mais um verbete pro óbvio lulante. ´Furacão´: espeto pra fazer churrasco de cachorro. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês!

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. No pingolim! Pra ver se bate no teto!
Ufa!

Email simao@uol.com.br

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Martha Medeiros
06/08/2003


Não fui eu que comecei

Resumo: uma garota estava com o namorado e ele pediu para tirar umas fotos dela quando os dois estavam num momento, digamos, íntimo. Ela topou e o cafajeste pôs as fotos pra circular na internet. É fato recente, que tem inibido uma família inteira do interior do nosso Estado. Esse tipo de situação não é exatamente uma novidade, a internet já possibilitou que usuários da rede vissem fotos de meninas nuas que não sabiam que estariam sendo expostas desse jeito. Mas sempre que fico sabendo disso eu desanimo.

Não vou perder tempo falando sobre o caráter de quem faz esse tipo de coisa, não há quem não condene essas atitudes infelizes. Talvez quem faça isso tenha até suas razões, talvez a garota tenha aprontado e isso seja apenas um ato de vingança, mas é uma vingança muito baixa. Enfim, nunca se sabem os detalhes e sempre é perigoso especular.

Portanto, deixemos pra lá os protagonistas da história e vamos nos concentrar na atitude dos coadjuvantes: as pessoas que receberam as fotos pelo correio eletrônico, pessoas que eram amigos, colegas, conhecidos ou desconhecidos da menina. Só há duas reações possíveis nesta hora: ou quebrar a corrente, deletando as fotos, ou passá-las adiante. O que me espanta é que a opção dois sempre parece mais tentadora.

É sabido que o ser humano é viciado numa fofoca. "Você viu as fotos?" "Não, ainda não, você me manda?" E assim a coisa se propaga e todo mundo se julga inocente: "Não fui eu que comecei". Inocentes, tá bom.

Se temos a decência de não fazer coisas como esta, temos que ter a mesma decência de não perpetuá-las. O fato de a gente não ter começado uma briga não nos isenta de responsabilidade caso venhamos a entrar nela. Se não fomos nós que inventamos uma mentira, somos ao menos cúmplices se a passamos pra frente. A gente pode não começar nada, mas pode ter a chance de interromper certas maldades. "Ah, mas aí é ser muito desmancha-prazeres!"

A internet foi uma das invenções mais fabulosas do século 20. É hoje indispensável, mas se bem usada. Quando cai na mão de desocupados e irresponsáveis, vira uma ferramenta de manipulação e humilhação, pois tem a seu favor o imediatismo, a facilidade e o anonimato: em dois segundos, apenas apertando uma tecla, você derruba alguém. Mas tudo bem, não foi você que começou.
martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
06/08/2003


São Gabriel é fio desencapado

O dólar teve anteontem um aumento que causou susto: bateu em R$ 3,07. Ontem baixou um pouco mas ficou acima de R$ 3.

Deixa eu entender. Ouvi ontem com atenção a entrevista que o Ranzolin fez com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que andou aqui por Porto Alegre exibindo o seu vasto e indiscutível conhecimento: as palavras brotam fáceis e escorreitas dos lábios de FH, que é portador de uma cultura extraordinária.

Ele fala sobre finanças, economia, mercado, com a mesma naturalidade que discorre sobre sociologia.

E quando fala fora do governo, sem o desgaste natural e implícito ao cargo de presidente, suas palavras adquirem mais credibilidade.

Fernando Henrique deu a entender que esta alta do dólar e do risco-país se deve ao MST, os investidores não gostam dessas trepidações sociais.

Eu fui ligando um fato ao outro: acontece que os exportadores receberam com euforia a alta do dólar, afirmando que o patamar ideal para a moeda norte-americana, sob o ponto de vista do interesse deles, é entre R$ 3 e R$ 3,20.

Não dá para esconder que o próprio governo brasileiro vibra com essa pequena mas significativa alta do dólar, afinal ela serve para desequilibrar a balança comercial em favor do Brasil.

Fernando Henrique disse claramente que o MST levanta o preço do dólar.

Então eu concluí, de dentro do meu empírico observatório econômico, que quem financia o MST são os exportadores.

E se na região de São Gabriel o MST é encarado com temor e intranqüilidade, em Novo Hamburgo e Caxias, onde estão os exportadores, o MST não é visto como um bicho-papão - e sim como um ocasional aliado.

Se o MST conseguir entrar em São Gabriel e receber, nas suas manifestações, a ajuda dos 3 mil trabalhadores urbanos que a CUT está prometendo mandar para lá, o dólar pode beirar os R$ 4.

Eu estou fazendo, é lógico, uma brincadeira, mas se há uma questão séria a ser resolvida é essa marcha do MST sobre São Gabriel.

Não se brinca com pólvora nem com fio desencapado.

Esses dias o professor José Fogaça lançou uma luz sobre o assunto, no Atualidade: está vigorando a lei do tempo de FH de que uma fazenda invadida não poderá ser desapropriada dentro de dois anos, por quatro anos se for reinvadida.

Ora, o MST não vai invadir esta fazenda de propriedade de Alfredo Southall, com 13 mil hectares.

Se o fizer, dará um argumento jurídico ao Supremo Tribunal Federal para votar contra a desapropriação, decisão que está sendo aguardada com grande expectativa.

O MST pode até tocar seus tambores de guerra em volta dos aramados da fazenda, mas não vai cometer esse gigantesco gol contra, invadindo-a.

Tranqüilizem-se sobre isso os assustados ruralistas.

Mas, na entrevista de ontem aqui em Porto Alegre, Fernando Henrique Cardoso declarou que a lei que impede a desapropriação de terras pela invasão não está sendo respeitada.

Mas como? O Supremo é que não vai desrespeitar uma lei.

Sob essa ótica legalista e política, afasta-se um risco material maior sobre esta marcha e contramarcha de sem-terra e ruralistas em São Gabriel.

Mas o país inteiro está com seus olhos voltados para São Gabriel. Melhor se fará se todos, governo. polícias, políticos, sem-terra e ruralistas não permitam que se acenda por lá nenhum pavio de confronto.

Não é hora, nesta crise de desemprego e de ausência de crescimento, de inflar o risco-país e o dólar numa contenda tão explosiva quanto desnecessária.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Diana Corso
06/08/2003


Fazes-me falta

O amor e a amizade são territórios de fronteiras sutis. As amizades juvenis são a primeira forma (em geral homossexual) de amar, amizades são amores que não vão para a cama, paixões são relações que se recusam a ser amistosas. Escrito pela portuguesa Inês Pedrosa, Fazes-me Falta (Planeta Editora) é um atípico romance sobre o quanto de amor há na amizade e vice-versa.

O livro é o discurso paralelo de dois amigos que vão alternadamente falando sobre sua relação, com o detalhe que ela está morta e ele não consegue esquecê-la. Embora se amassem, optaram pela amizade, pela abstinência do sexo. Diz ela: "Acreditei que na amizade encontraria o sabor mítico da correspondência absoluta, a felicidade sincrônica com que o amor apenas brinca". E ele: "Nós não podíamos prescindir um do outro. Não podíamos entrar no infinito jogo do corpo".

Alguns são amantes da paixão e não de um amado específico, são obcecados pela plenitude que aquela oferece. Outros fogem dela como o diabo da cruz, são mestres da trincheira, não prescindem da distância que lhes garante intacta a individualidade. Os casais se montam a partir da negociação das possibilidades e necessidades de entrega de cada um. Mas a amizade se constrói de limites, não se recomenda negócios nem sexo entre amigos, os amigos devem se manter na platéia uns dos outros.

Os nossos personagens quiseram o melhor dos dois mundos, pretenderam encontrar uma forma infalível de se amar através da amizade. Fizeram tudo isso para descobrir o quanto se abstiveram em vão. "Mas também a amizade se mostrou vulnerável ao tédio e à decepção. Tudo o que tocamos se desfaz", diz ela. Essa amizade abrigou a maior das ilusões românticas, a de nunca ser abandonado. São as perdas que nos ensinam a amar, se nunca tivéssemos sido preteridos no amor de nossa mãe estaríamos até hoje dependurados em seus seios, ébrios de satisfação. Caímos na vida em busca de amores e aventuras, porque sentimos falta, para sanar uma carência insolúvel. Foi preciso o xeque-mate da morte para que nossos protagonistas confessassem o quanto sentiam falta um do outro.

Em vida passavam de gato e rato, tiveram que admitir esse amor num monólogo, que através do leitor se torna diálogo. Inês Pedrosa escreveu um tratado sobre o desencontro, sobre a solidão que o amor e a amizade aplacam, mas não curam. Afinal, "não se consegue amar completamente senão na memória". Todo amado real terá apenas pálida semelhança com tudo o que esperamos dele.
diana.corso@zerohora.com.br

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David Coimbra
06/08/2003


O papa-defunto

Leio que 17 mil pessoas se inscreveram para uma vaga de coveiro, no Paraná. Tinha um amigo que trabalhava nessa área. Era papa-defunto. Tratava os clientes com frieza profissional. Os falecidos, digo. Havia perdido a reverência pela morte.

Quando um novo funcionário chegava à funerária, aí sim é que ele se divertia. Estava tudo combinado para o primeiro dia do novato. Ele se apresentava e meu amigo logo ordenava:

- Vai lá naquela sala vestir o morto que vamos enterrar hoje.

O novato olhava para a porta fechada e engolia em seco. Não sabia, lógico, que lá dentro estava um outro funcionário, um que ele não conhecia, deitado na mesa, olhos fechados, mãos cruzadas no peito, pés nus. A missão do coitado era calçá-lo. Antes de o novato entrar, meu amigo sugeria que ele evitasse olhar muito para o corpo.

- É só ficar de costas para o cadáver - sugeria meu amigo. - Te posiciona entre as pernas dele e toca apenas nos pés, que estão para fora da mesa.

O outro ia para a sala como se estivesse subindo no patíbulo. Entrava. Fechava a porta. Caminhava vacilante até o corpo. Colocava-se de costas para a mesa, como o recomendado. Arrepiava-se ao tocar no pé gelado, certamente pensando porque diabos tinha topado aquele serviço. E então, quando ele estava completamente distraído, o outro gaiato sentava-se de repelão e cingia-lhe o peito com os dois braços, prendendo-o fortemente, como se quisesse arrastá-lo para o túmulo.

Não sei como um não teve um ataque cardíaco, naquela funerária.

Meu amigo passava os dias nessas brincadeiras. E o curioso é que, com o tempo, começou a se parecer cada vez mais com um papa-defunto típico. Sempre havia sido magro, mas as noites em claro devem tê-lo feito perder mais peso, além de acentuar-lhe umas olheiras já profundas e roxas como as do Benício Del Toro. Então meu amigo chegava a um lugar, magro, alto, encurvado, olhos encravados nas órbitas, vestido de preto, todo de preto, e as pessoas anteviam que ali vinha um papa-defunto.

Ele vivia a pregar peças nos outros valendo-se de sua aparência e seu humor nigérrimo. Divertia-se sendo papa-defunto. Divertir-se-ia se passasse no tal concurso para coveiro, não tenho a menor dúvida. Imagine, então, se ganhasse dinheiro como jogador de futebol. Os jogadores vivem praticando uma atividade que, para a maioria dos mortais, é pura diversão. E há os que ainda reclamam, os que se sentem pressionados, os que se queixam da imprensa, da torcida, do tratamento dos clubes. Por favor! Se não resistem à pressão, que se inscrevam no concurso para coveiro, que trabalhem na funerária do meu amigo. Aí, sim, vão ver o que é se divertir.

Faça a coisa certa

Falta solenidade a esse mundo. Batinas. Sou a favor delas. Sacerdotes têm de usar batina, que lhes confere uma distância respeitosa do rebanho. O latim também. Toda aquela altissonância da língua morta. Embora nem seja católico e só entre num templo para casamentos ou batizados, lamento a secularização da igreja católica.

Aliás, os templos. Um templo precisa ser sagrado, e essa aparência sacra só lhe é conferida pela crueza da austeridade ou pela magnitude do luxo. Lembro um assim, em Florença, uma pequena igreja de pedra, engastada numa rua vicinal, esquecida pelos turistas, uma igrejinha pouco maior que um JK. É a igreja em que Dante Alighieri assistiu ao casamento da mulher da sua vida. Pobre Dante.

Desde menino, Dante foi apaixonado por uma moça chamada Beatriz Sensci. Por ela continuou apaixonado até morrer e por ela escreveu os versos mais arrebatados. Na Divina Comédia é Beatriz quem lhe serve de guia pelos caminhos do Céu. Só que no século 13 os casamentos aconteciam por arranjo financeiro entre as famílias, e Dante não estava nos planos dos Sensci. Desta forma, impávido porém atormentado, acabou tendo de ver a amada ser entregue a outro homem. Essa triste ocorrência se deu na igrejinha a que me refiro, uma peça retangular, fria, mal iluminada por velas de cera branca, sem afrescos no teto, sem vitrais, sem estatuaria alguma, mas com plena, intensa solenidade. A gravidade dos séculos está impregnada na pedra dura das paredes daquela igreja, em seus sólidos bancos de madeira, em seus rígidos genuflexórios. É lá que está inscrita pouco da dor que um dia torturou o grande poeta.

A solenidade se evola daquela igreja minúscula com tanta força quanto do suntuoso Duomo de Milão ou da gigantesca Basílica de São Pedro. A solenidade. Os Mistérios, compreende? O ser humano precisa dos Mistérios. Precisamos crer que existem lugares onde habite um Deus disposto a distribuir castigo aos ímpios e recompensa aos justos, um Deus invisível, imparcial, mas sempre pronto a dar consolo e esperança. Precisamos de sacerdotes que ajam como sacerdotes, sábios, ponderados, plácidos, instalados um degrau acima dos demais mortais. E como enxergar tudo isso em padres que tocam violão e vestem jeans, que dizem a missa de cima de palcos, sob holofotes, cantando e requebrando e vendendo CDs como se fossem o Mick Jaeger???

Não, da igreja pouco se me dá sua opinião a respeito do uso da camisinha. Da igreja só me importa se ela serve de conforto espiritual, de esteio para a alma. O que interessa é que eles, os sacerdotes, digam às pessoas: faça a coisa certa. E as pessoas vão olhar para dentro de si mesmas e saber o que é, afinal, a coisa certa.

Inspire-se no futebol. Você sabe por que o futebol é o esporte mais popular do mundo? Por causa da solenidade que os ingleses lhe conferem. É um esporte que existe há mais de cem anos e que mantém as mesmas 17 inalteráveis regras. Joga-se no Olímpico e no Beira-Rio da mesma forma que se jogava nos campos úmidos da Escócia em 1860. Os americanos queriam aumentar o tamanho da goleira, houve brasileiros a propor a diminuição do número de jogadores em campo. Os ingleses não aceitaram. Mantiveram-se sóbrios e sabiamente conservadores nas regras do esporte criado por eles, observando o resto do afoito mundo do alto de seus pincenês, bebericando chá com leite em impecáveis chávenas de porcelana.

Perfeito! Deveríamos aprender mais com os ingleses e sua sensata, inteligente, prática solenidade.
david.coimbra@zerohora.com.br

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Pan-Americano 2003
O primeiro ouro brasileiro



Hudson de Souza venceu a prova dos 5 mil metros rasos em 13min50s71 e coloca o país em sexto no quadro de medalhas do Pan (foto Evandro Teixeira, COB/ZH)


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Terça-feira, Agosto 05, 2003




Rotina de amor
Silvia Schmidt


Vejo-te passar na rua todo dia
Homem tristonho que não me conhece
Qual beija-flor que às minhas flores desce
Sem dar-se conta da minha alegria.

A minha espera hoje é uma rotina:
Fico a esperar-te perto da janela
Passo perfume, faço-me tão bela!
Olhos pregados no dobrar da esquina.

Quem sabe um dia tu me vês e falas
Dessa amargura que em teu peito calas
E que te põe (pressinto) em desatino?

Bem nessa hora eu hei de abrir-te os braços
E nunca mais arrastarás os passos
Nem sofrerás assim, doce menino.
Silvia Schmidt

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As Duas Portas

Autora:Silvia Schmidt

À minha frente a porta tão antiga,
Rangendo as dobradiças já marrons,
Perdeu nas cores puras os seus tons
E já não traz a tua presença amiga.

Mas bem ao lado vê-se nova porta,
Todinha aberta para novo rumo.
Eu me penteio, ajeito e me perfumo,
Vou percebendo a lâmina que corta ...

Lâmina essa tanto carreguei
Na indecisão de me cortar da vida
Que me levou a tudo que hoje sei ...

O que me assusta é ver-me dividida
Entre o que eu era e agora o que serei
Depois do adeus ... da amarga despedida ...

Silvia Schmidt
*Humancat*
No livro " Toques&Choques "


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José Simão
simao@uol.com.br


Pan Urgente! Queremos ouro! Chega de levar ferro!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E aí diz que o Lula falou pro Palófi: vai lá na Globo e diz que o novo subsídio da Sudene é fábrica de supositório. E o Palófi: 'Novo fubfídido da Fudene é fábrica de fupovitório'. E o Frank fez uma charge do Lula almoçando com a base aliada: 'Me passa a salada'. 'Depende. O que eu ganho com isso?' E tem mais uma: diz que o Lula não tá mais falando de improviso. Tá lendo de improviso.

E eu já sei o que o Bush pretende: matar o Saddam de solidão. Já pegaram os filhos, o braço direito, o guarda-costa! E nesta semana tivemos três falecimentos terríveis: Uday, Qusay e Foday. Vai ter suruba no inferno? Rarará! E o Clinton vai morar com a sogra. É verdade! Isso vai desestabilizar o cenário internacional. A vingança da Hillary. Crime e castigo: comeu a estagiária e agora vai aturar a sogra. Ou vai acabar comendo a sogra. Rarará!

PAN URGENTE! Avisa pros atletas que nós queremos ouro. Chega de levar ferro! E eu sempre acho que o Brasil vai levar ouro em esporte de rico: hipismo, iatismo e onanismo! Prata também não queremos. Nos últimos jogos o Brasil ganhou tanta prata que parecia a equipe do faqueiro Tramontina. Bronze também não queremos. Bronzeado a gente já é! Bronze a gente pega em Ipanema. E por falar em pegar, pegaram a Maurren Maggi no antidoping. Acho que foi caldo de galinha. A Maggi deve ter tomado muito caldo de galinha! Rarará!

E aquele ministro do Paraguai que chamou a gente de sem-vergonhas? Já tamos com sem-terra, sem-teto e agora sem-vergonha? E brasileiro, na realidade, é SPN, sem porra nenhuma! E diz que lá no acampamento dos sem-teto na Volks tá lotado de bandeira do Che Guevara. É verdade. E as ruas estão organizadas assim: che 75, che 142, che 218. É que na linguagem dos sem-teto, che quer dizer quadra. Quadra 75, quadra 142 e quadra 218. Pronto! E eles podiam abrir uma boate gay no acampamento: GAYVARA!

E a penúltima derradeira do Bestiário Tucanês. É que um amigo foi num show do Zezé di Camargo e Luciano em Porto Ferreira e tinha uns fortões com a camiseta escrita: 'Agente Disciplinador'. Tucanaram o leão-de-chácara. Socorro. Chama o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês!

E atenção. Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante: 'Caução': peça do vestuário masculino que a gente deixa na tesouraria do hospital quando se interna. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! O já famoso Estoura Brasil!

simao@uol.com.br

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Luís Augusto Fischer
05/08/2003


Estar no centro

Entre quinta e domingo passados, aconteceu a Festa Literária Internacional de Parati, cidade histórica do litoral do Rio de Janeiro. Parece que deu certo o evento: muita gente circulando nas estreitas ruas à beira-mar, todos em busca de ver escritores, pegar autógrafos deles, ouvir conferências deles ou sobre eles, tirar retrato ao lado deles. Juntou-se a fina flor da literatura brasileira, ou melhor, das letras brasileiras - "letras", como na Academia que recém acolheu Moacyr Scliar, é um conceito que alcança um Luis Fernando Verissimo mas também um Eduardo Bueno ou um Ruy Castro - com algumas cerejas-de-bolo internacionais, como o imenso historiador Eric Hobsbawm. Palmas para Parati.

O prezado leitor já não viu coisa parecida aqui pela volta? Viu sim: há uns sete ou oito de seus quase 50 anos, a Feira do Livro de Porto Alegre já faz isso - junta escritores daqui, brasileiros de várias partes, incluindo os da praça local, com alguns internacionais, em muitos debates, mesas-redondas e badalação. Da mesma forma, em Passo Fundo, acontece a cada dois anos o mesmo milagre de juntarem-se escritores de várias partes do país e mais alguns de fora, para alguns dias de conferências, conversas, autógrafos, tietagem. Este ano tem de novo, por sinal: é a 10ª Jornada Nacional de Literatura, organizada a partir da Universidade de Passo Fundo e da prefeitura local.

A Festa de Parati esteve nos principais jornais brasileiros, tanto os impressos quanto os eletrônicos. Ganhou materinhas descoladas no Jornal Nacional. Charme de um festival de estrelas. Quando a coisa é aqui, pergunta para a Tânia Rösing a força que ela tem que fazer para ganhar espaço na mídia nacional - mas é de registrar que agora, numa clara mudança de atitude na gestão da Academia, a mesma Tânia vem de ganhar um grande prêmio lá no Rio, como reconhecimento pelo trabalho na Jornada.

No frigir dos ovos, não adianta Passo Fundo vir fazendo isso há décadas, nem Porto Alegre idem há anos; para a mídia do centro do país, parece que foi Parati que inventou essa modalidade de popularização do livro, num agregado cultural que vai além da mera exposição dos livros em estandes e sessões de autógrafos. Esse é o preço que se paga por não estar no centro. A força que se faz é fatalmente maior, quanto mais nos afastamos do núcleo das coisas, do palco principal, onde estão as luzes e os patrocínios mais relevantes.

fischer@zerohora.com.br

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Liberato Vieira da Cunha
05/08/2003


Balada do homem só

O trânsito é um ritual de passagem que te surge na contramão do real. Não és tu que avanças: é a vida que cruza por ti, aqui prédios indistintos, ali um fugidio trecho de parque, adiante duas crianças que repartem segredos. A vida pára apenas nos sinais. Foi num deles que dei com o homem na calçada e nesse instante tive um impacto de perda. Nunca mais tornarei a ver este homem, pensei, e isso estranhamente doeu. Mas não se pensa muito nos sinais: uma irada buzina logo atrás já me convocava a arrancar.

Somente agora, devolvido a terra firme, sou intimado a refletir. O que me surpreendeu naquele homem? Sua solidão? É raro topar, em uma noite gélida, com alguém imune aos ventos, como se o mundo exterior o atingisse menos do que sua ausência de rumo e circunstância. Sua idade? Sei de outras pessoas que têm 80 anos ou mais, que carregam similares vincos na face e infinita neve nos cabelos e a descompanhia da aproximação da morte. Sua fragilidade?

Sua fragilidade.

Aquele era um homem só e velho e quebrantado. Aquele homem se perguntava: aonde foi quem fui? Em que dobra do tempo, de mim me ocultei? Onde anda o rapaz a quem o vinho presenteava a voz de um tenor nas madrugadas de boemia? Onde se esconde o moço seduzido por um par de olhos negros, e convidantes, e dissimulados? Onde se abriga o senhor que construiu a casa de pedra, sólida como as serranias, para guardar tão grande amor? Onde se exilam meus filhos e meus netos e os netos de meus filhos?

Aquele era um homem perplexo. Que esquina será esta de uma cidade imensa e hostil e desconhecida? Que caminho é este, que não atino aonde me leva? Por que esta enorme procissão de carros? Serão os carros de meu enterro? Por que se vão apressados, se o porto último não dista, desde sempre espera no fim da Rua Saldanha, para eu ouvir pela eternidade o vago rumor do rio, algum longínquo eco de batalhas nos campos ao sul, semeados de lanças e de espadas e de nunca-mais?

Aquele era um homem só e velho e quebrantado e perplexo.

Aquele homem me falou em sua tensa, anônima quietude: de mim me perdi; mas esta é também tua perda. Não mais me verás; e esta é uma pena que estranhamente doerá em ti. Pois somos todos compostos das mesmas células e de idênticos sentires e quem sabe de uma alma.

Mas não se pensa nada disso no trânsito. O trânsito é uma celebração da máquina que não somos. Vi aquele homem frágil e não me detive. Um outro homem, uma outra máquina, buzinava irado logo atrás, talvez movido pela impaciência de suas engrenagens, por um momento freadas no sinal vermelho.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Bom e Entrelaços tem orgulho em estar postando um imortal da ACADEMIA BRASILIERA DE LETRAS, pois quando isso aqui começou ele nem sonhava, um dia a chegar lá. Parabéns e acho que foi merecido.

Moacyr Scliar
05/08/2003


Obrigado, gente

A candidatura para a Academia Brasileira de Letras costuma ser um assunto basicamente pessoal. Qualquer brasileiro com um livro publicado pode pretender uma vaga; e uma vez inscrito faz, ou não, uma espécie de campanha junto aos acadêmicos. Ou seja: de maneira geral, estamos falando de algo que ocorre num círculo restrito de pessoas.

Comigo foi diferente. Bem diferente. Muita gente, mas muita gente mesmo, apoiou a candidatura. Instituições públicas e comunitárias, escolas e universidades - pessoas. Pessoas que assinaram listas, pessoas que me transmitiam sua confiança, pessoas que queriam ajudar de qualquer maneira. Algo que para mim representou uma grande gratificação - e uma grande dúvida: num processo eleitoral como é o da ABL, não seria fora de propósito tanto esforço?

Não era fora de propósito, como logo vim a descobrir. Essa verdadeira campanha desencadeada no Estado impressionou e comoveu o país, como se constatou pelo abundante noticiário a respeito. O Rio Grande do Sul é diferente, concluíam estas notícias. É claro que o trauma representado pela não-eleição de Mario Quintana desempenhou um papel importante. Mas não foi só isso. Foi também uma demonstração da energia e da determinação dos gaúchos. Que, por coincidência, ocorre num momento significativo. O mês de agosto tem para nós conotações simbólicas importantes.

Foi o mês do histórico movimento da Legalidade, que pela primeira vez na História do Brasil e talvez da América Latina conseguiu impedir que se consumasse um golpe contra a democracia. Estudante universitário, vivi cada momento daquela dramática situação. E o que mais me impressionou foi a adesão, espontânea e maciça, de nossa gente aos grupos que então se organizavam. A céticos observadores de outras partes do país parecia uma iniciativa quixotesca e fadada ao fracasso. Não foi. As ruas de Porto Alegre e de outras cidades gaúchas mostraram que o povo tem, sim, voz.

Somos, sim, diferentes. Somos diferentes em nossa história, somos diferentes em nossa tradição e somos diferentes quando se trata de eleger alguém para a ABL. Que, talvez por acaso, eu tenha sido o protagonista deste movimento me enche de orgulho e me enche de gratidão. A mesma gratidão que José e Sara Scliar, já falecidos, sentiam pelo Estado que os acolheu como imigrantes. Tudo que eu posso dizer é: obrigado, gente.

Ah, sim, a imortalidade. Contou-me a (grande) escritora Ana Maria Machado, recém-eleita para a ABL, que a nora dela ironizou: "Sogra já é dose. O que dizer de uma sogra imortal?"
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
05/08/2003


Sinais de fadiga

Há vários dias que estranho a facilidade de entrar na Avenida Ipiranga por quaisquer das suas transversais.

Antes era muito difícil ingressar na Ipiranga, tanto pelos engarrafamentos que se verificavam nas sinaleiras quanto até mesmo pelo intenso fluxo com sinaleira aberta.

Agora está uma barbada. Esse é um autêntico fenômeno do trânsito atual, comparado com o fluxo embaraçado dos anos anteriores.

Por vezes, durante uns 30 segundos, não se vê por exemplo qualquer automóvel trafegar na Avenida Ipiranga no sentido Guaíba-PUC, um interregno de fluxo que antes jamais acontecia nos horários de relativo pico (durante o dia).

Estou falando da Avenida Ipiranga por emblema. Mas esse flagrante se pode verificar em qualquer avenida da cidade: o trânsito difícil e intrincado na Avenida Nilo Peçanha, de repente, como por um milagre, ficou fácil e desenvolto.

Somei a esse fenômeno dois dados: os 270 mil carros encalhados nos pátios das montadoras e as queixas sentidas e profundas dos proprietários de postos de gasolina de Porto Alegre que me chegaram aos ouvidos e aos olhos, foi brutal a queda de venda de combustíveis nos últimos 60 dias.

Ninguém fez esta estatística, mas houve uma violenta queda no número de carros que saem para circular em nossa cidade nos últimos meses.

Evidentemente que esse não é um fenômeno porto-alegrense, trata-se de fato nacional. E fato econômico nacional: as pessoas estão espremidas pela falta de dinheiro e devem estar se desfazendo dos seus carros, sufocados pela inadimplência.

E paralelamente estão também deixando seus carros nas garagens, impossibilitadas de custearem seus gastos com os combustíveis.

Uma prova disso é que era simplesmente impossível estacionar em qualquer das ruas que cercam o polígono das imediações do Hospital Mãe de Deus. No entanto, como faço fisioterapia ali na clínica Reequilíbrio, na Rua Grão-Pará, três vezes por semana, já há 45 dias não tenho qualquer dificuldade para encontrar lugar para deixar o carro no meio-fio, invariavelmente.

E em garagens do Centro onde era difícil também estacionar o carro pelas próprias mãos (era-se obrigado a deixá-lo na entrada para o manobrista ir batalhar a vaga) de repente ficou tranqüilo para a gente mesmo ir até o lugar.

Sem dúvida que houve um assombroso desaparecimento de grande parte da frota na circulação de veículos.

O preço dos combustíveis, os flanelinhas, o preço do estacionamento nas garagens e as multas acabaram por esfalfar a classe média.

Se por um lado essa minha constatação é saudável para o trânsito, com menos engarrafamentos e acidentes, por outro é arrasadora para a economia: como escrevi há dois dias, os carros trafegando freneticamente pelas ruas das cidades e pelas estradas são atestado cabal e distintivo da saúde econômica de um país.

A diminuição lenta e gradual dos ganhos das pessoas e o desemprego acabaram por atingir os automobilistas.

Podem examinar as planilhas das empresas de transporte coletivo e vão observar que está crescendo o número de passageiros.

Os carros foram espantados das ruas pela crise.

Mas quando é que o governo vai deflagrar afinal o anunciado espetáculo do crescimento?
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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África
Tropas de paz chegam à Libéria



Soldados nigerianos desembarcaram em Monróvia para ajudar a combater a guerra civil iniciada em 1989 (foto Ben Curtis, AP/ZH)


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Segunda-feira, Agosto 04, 2003




No ponto
Atrizes que surgiram ainda crianças crescem e aparecem em personagens e fotos sensuais
Zean Bravo



Fernanda Paes Leme, que surgiu em Sandy e Junior aos 15 anos (no detalhe), aos 20 faz ensaio sensual para a VIP deste mês



Tatyane Goulart aos 19 anos e ainda menina gordinha, em 1998

Atrizes desde meninas, Fernanda Paes Leme, Natália Lage, Fernanda Souza, Tatyane Goulart e Thaís Ferzosa, perceberam a mudança de intenção nos olhares masculinos nos últimos tempos. Não é para menos. Crias da TV, elas cresceram e apareceram agora em papéis mais maduros em novelas e filmes e até ousam em fotos sensuais. Caso de Fernanda Paes Leme, que está na capa e num picante ensaio fotográfico da revista VIP deste mês. Fiz o site Paparazzo, mas numa linha menina. Dessa vez, a produção era bem adulta. Só pedi para não usar biquíni com bota para não ficar vulgar¿, explica a atriz de 20 anos, atualmente na TV como a Karina de Agora É que São Elas ela começou aos 15 como Paty no seriado Sandy & Junior.

Nas fotos, Fernanda recheia roupas transparentes e corpete sexy. Não me acho sensual. Mas agora sou maior de idade e posso fazer esse tipo de trabalho. Se bem que estou mais para moleca, garante a atriz. Meu pai brinca que os amigos falam da revista e até os amiguinhos do meu irmão de 12 anos comentam, diverte-se. Ela só se assusta quando o assunto é posar nua: ¿Peralá¿.

Outra que ficou à vontade para fotografar foi a ex-Chiquitita Fernanda Souza, 19 anos, que apareceu com pouquíssima roupa na Playboy e na VIP, nas seções Mulheres que Amamos e O Espírito das Coisas. Meus amigos brincam: Fernandinha, que é isso?. Sei que foi uma exposição grande, mas as fotos me mostram da maneira que me vejo hoje, justifica Fernanda, que faz sucesso na TV desde os 13. Os olhares dos homens mudaram, atesta.

No ar como a Mercedita de Kubanacan, Tatyane Goulart, 19 anos, ficou fora da TV tempo suficiente para impressionar o próprio autor da novela, Carlos Lombardi, responsável por sua estréia aos 10 anos em Quatro Por Quatro. Ele me convidou para a novela sem saber como eu estava. Tomou um susto quando viu que não era mais aquela menina gordinha e teve que mudar completamente a personagem¿, diz ela, que percebeu um assédio diferente. Me falam gracinhas na rua. A maioria tem um choque quando me vê ao vivo. Na TV pareço ter 16 anos.



Natália Lage aos 24 anos e em 1997: ela cresceu diante das câmeras



Thaís Ferzosa estreou aos 12 (foto menor) e virou mulherão aos 19

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José Simão
simao@uol.com.br


Pan Urgente! Queremos ouro! Chega de levar ferro!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E aí diz que o Lula falou pro Palófi: vai lá na Globo e diz que o novo subsídio da Sudene é fábrica de supositório. E o Palófi: 'Novo fubfídido da Fudene é fábrica de fupovitório'. E o Frank fez uma charge do Lula almoçando com a base aliada: 'Me passa a salada'. 'Depende. O que eu ganho com isso?' E tem mais uma: diz que o Lula não tá mais falando de improviso. Tá lendo de improviso.

E eu já sei o que o Bush pretende: matar o Saddam de solidão. Já pegaram os filhos, o braço direito, o guarda-costa! E nesta semana tivemos três falecimentos terríveis: Uday, Qusay e Foday. Vai ter suruba no inferno? Rarará! E o Clinton vai morar com a sogra. É verdade! Isso vai desestabilizar o cenário internacional. A vingança da Hillary. Crime e castigo: comeu a estagiária e agora vai aturar a sogra. Ou vai acabar comendo a sogra. Rarará!

PAN URGENTE! Avisa pros atletas que nós queremos ouro. Chega de levar ferro! E eu sempre acho que o Brasil vai levar ouro em esporte de rico: hipismo, iatismo e onanismo! Prata também não queremos. Nos últimos jogos o Brasil ganhou tanta prata que parecia a equipe do faqueiro Tramontina. Bronze também não queremos. Bronzeado a gente já é! Bronze a gente pega em Ipanema. E por falar em pegar, pegaram a Maurren Maggi no antidoping. Acho que foi caldo de galinha. A Maggi deve ter tomado muito caldo de galinha! Rarará!

E aquele ministro do Paraguai que chamou a gente de sem-vergonhas? Já tamos com sem-terra, sem-teto e agora sem-vergonha?

E brasileiro, na realidade, é SPN, sem porra nenhuma! E diz que lá no acampamento dos sem-teto na Volks tá lotado de bandeira do Che Guevara. É verdade. E as ruas estão organizadas assim: che 75, che 142, che 218. É que na linguagem dos sem-teto, che quer dizer quadra. Quadra 75, quadra 142 e quadra 218. Pronto! E eles podiam abrir uma boate gay no acampamento: GAYVARA!

E a penúltima derradeira do Bestiário Tucanês. É que um amigo foi num show do Zezé di Camargo e Luciano em Porto Ferreira e tinha uns fortões com a camiseta escrita: 'Agente Disciplinador'. Tucanaram o leão-de-chácara. Socorro. Chama o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês!

E atenção. Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante: 'Caução': peça do vestuário masculino que a gente deixa na tesouraria do hospital quando se interna. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! O já famoso Estoura Brasil!

simao@uol.com.br

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Conjuntura
A fidelidade dos gaúchos à poupança
Enquanto o saldo na captação da caderneta no Brasil caiu 2,02%, a queda registrada no Estado foi de 0,66%
MARÇAL ALVES LEITE

Os aplicadores do Rio Grande do Sul se mostram mais fiéis à caderneta de poupança do que os demais brasileiros. De acordo com dados consolidados pelo Banco Central (BC), o saldo na captação (depósitos mais rendimentos menos saques) em todo o país caiu 2,02% em maio deste ano em comparação com dezembro de 2002. No Estado, a queda foi de apenas 0,66%.

Essa diferença é maior na comparação do desempenho da captação da poupança no país em junho, conforme apuração ainda em elaboração no BC. O levantamento é realizado com base nos resultados obtidos pela Caixa Econômica Federal e pelo Banrisul no Estado, que respondem por cerca de dois terços do total dos depósitos gaúchos.

O saldo da caderneta no Brasil baixou de R$ 141,721 bilhões no final de 2002 para R$ 136,723 bilhões em junho, queda de 3,53%. A Caixa teve crescimento de 3,42% na captação de recursos no Estado no mesmo período, quando o aumento ficou em 1,06% em todo o país. Nos primeiros seis meses do ano, o Banrisul teve desempenho negativo de 3,12% na captação total das três modalidades de poupança (tradicional, integrada e vinculada), mas revelou elevação de 5,24% no saldo da captação da caderneta tradicional.

- Depositei na poupança o valor do Fundo de Garantia que recebi na demissão de um emprego há três meses, porque considero a aplicação segura e sem complicação - diz a recepcionista Débora da Rocha Vieira.

Moradora de Viamão, Débora afirma que optou pela abertura de uma caderneta de poupança sem pensar muito, porque não conhece outras alternativas de investimentos. Seu namorado, o técnico em radiologia Jonas Carvalho, de 28 anos, sabe da existência dos fundos, que na maioria das vezes pagam rendimentos mais atraentes, mas diz que não sobra dinheiro para fazer a aplicação mínima exigida.

Durante o Plano Collor, em 1990, quando os recursos depositados no sistema bancário ficaram bloqueados para saques, o aposentado Delcio Duarte Calegari, de 76 anos, lembra que levou um susto, mas jamais abandonou a poupança, da qual admite ser um aplicador crônico. Na época, mantinha quatro contas em diferentes bancos, que acabou transformando em apenas uma. Apesar da pequena remuneração, ele considera a caderneta a opção com maior garantia do mercado e de fácil entendimento e manejo para qualquer pessoa.

- Poder retirar o dinheiro na hora que quiser, isso que chamam de liquidez, é outra vantagem mesmo que se perca algum valor em razão do saque ser feito fora do vencimento - reforça Calegari.

A desempregada Cíntia Silva, de 23 anos, tem uma conta de poupança integrada (em conjunto com a conta corrente) no Bradesco, onde mantém os recursos obtidos com o seguro-desemprego. Além disso, fez em nome de sua filha Júlia, de seis anos, um plano de capitalização na Caixa (X-Cap), no qual deposita uma pequena quantia mensalmente.

- Tenho uma caderneta há dois anos e meio, desde o antigo trabalho. Agora, essa poupança funciona como uma reserva para momentos de dificuldade - conta a investidora.

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Luis Fernando Verissimo
04/08/2003


Violências

A gente nasce, cresce, começa a ficar cabeludo, chega a uma determinada altura e depois começa a encolher, o cabelo cai, os dedos entortam, a pele enruga... É um processo lento que acompanhamos nos outros ou no espelho e se chama viver. Agora imagine a mesma coisa acontecendo não no decorrer de anos, mas em poucos minutos.

Imagine o pavor de ver um recém-nascido se transformar em múmia na frente dos seus olhos. E são os mesmos processos, apenas com durações distintas. O tempo nos permite conviver com o devir da existência sem atinar para a sua estranheza e horror. É o tempo, e só o tempo, a diferença entre o que nos parece natural e o que nos apavora. Entre o corriqueiro e o monstruoso.

Acontece a mesma coisa com a violência, que assusta quando explode, mas acostuma quando é cotidiana, crônica, incorporada aos nossos hábitos e expectativas. Não falo na presunção de violência que acompanha qualquer um numa cidade moderna, e especialmente numa sociedade degradada como a nossa, mas na violência irreconhecida, disfarçada pela banalização e atenuada pelo conformismo, de quem nasce na miséria sem saída.

Esse sofre a violência da privação e do abandono desde o momento em que acorda até o momento em que dorme, ou consegue drogar a consciência da sua sina. A atual preocupação com a violência crescente do crime, da revolta e da reivindicação radical, da violência na sua forma concentrada e monstruosa, é em proporção direta à nossa desatenção histórica à violência diluída pelo tempo, a violência normal, parte da paisagem, que sofre a maioria brasileira.

Não se vive na sociedade mais desigual do mundo sem um dia desconfiar de que uma assimetria prolongada assim não é uma fatalidade, ou uma fase, ou uma distração de quem está por cima, mas um ataque permanente. Ao qual a maioria só pode responder com resignação ou contra-ataque. Parece que acabou a resignação.

A eleição do Lula foi parte desta nova reação ao fatalismo. Resta saber se Lula, o PT, seus aliados e seus projetos terão tempo e credibilidade para começar a mudar isto em relativa ordem ou se também serão engolfados pelo contra-ataque que pensavam estar liderando. Seja como for, condene-se a violência, mas todas as violências.

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José Pedro Goulart
04/08/2003


Estúpidos homens brancos

Michael Moore está agindo por ele e por nós. É dele o documentário que denuncia que a Nike, empresa americana de calçados esportivos, utiliza mão-de-obra quase escrava de países asiáticos como forma de baratear os custos de produção e com isso burla os direitos conquistados pelos trabalhadores americanos. É dele o ganhador do Oscar Tiros em Columbine, em que a grave questão dos crimes cometidos por adolescentes, que espoucam aqui e ali, em universidades e colégios americanos.

Serve como mote para uma contundente denúncia sobre a permissividade da legislação dos Estados Unidos quanto à posse de armas - um banco premia com um rifle o sujeito que abrir uma conta na instituição, por exemplo - e, principalmente, procura mostrar a responsabilidade da mídia e do poder no culto da paranóia, do medo, do renitente racismo, enfim, tudo isso que continua grudado nos pilares das instituições americanas.

Mas se a lente da câmera de Michael Moore é crua, suas palavras são explosivas. No livro Stupid White Men (Estúpidos Homens Brancos), Moore investe feito um touro furibundo contra uma sociedade neurótica, intolerante, belicosa, auto-indulgente, corrompida: a sociedade dos "branquelas" e suas manobras para se perpetuar no poder.

O livro de Michael Moore é demolidor. Assim como seu filme. Vez por outra, alguém resolve furar o espesso caldo do conformismo, cortar as teias invísíveis do adesismo ou afrouxar o apertado nó da hipocrisia. Vaiado ao receber o Oscar por escolher falar "do fictício presidente americano e sua fictícia guerra" em vez de usar seus segundos de exposição global para agradecer à família, a Deus ou aos seus agentes, Moore se escalou como dissidente (em primeira ordem) de um mundo apatetado, impotente diante da brutal arrogância que motivou uma invasão genocida.

Os ventos da contracultura que sopraram nos anos 60 suavizaram e tornaram-se brisa amena nas décadas seguintes. O resultado disso é alarmante. O mundo rico anabolizou ainda mais sua força e, cego pela cobiça, trata a fome e a miséria com indiferença e não se cansa de atentar contra as reservas ecológicas do planeta, depredando aquilo que a natureza levou milhares de anos para organizar. É por isso que Michael Moore age por ele e por nós. Com seu exemplo de dissonância e desobediência, ele provoca desordem no pensamento ordinário que nos governa. É a teoria do caos: o suave bater de asas de uma borboleta no Equador pode fazer nascer um furacão nas Filipinas.

jose.pedro@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
04/08/2003


Guerra ao prazer

Finalmente, o cigarro deixou de ser o único vilão entre os produtos comercializados que causam dano à saúde.

O Ministério Público de São Paulo protocolou na Justiça há 10 dias um processo inédito contra vários refrigerantes, responsáveis por 66% do mercado brasileiro.

A ação pede que as indústrias de refrigerantes incluam em suas embalagens advertências sobre o risco de consumo excessivo dessas bebidas, que podem levar à obesidade, com todas as doenças decorrentes.

Da mesma forma, a prefeitura do Rio de Janeiro determinou que os alimentos fabricados e vendidos na cidade deverão ter no rótulo a especificação da quantidade de gorduras trans contida em cada porção comercializada.

E também baixou um decreto pelo qual, dentro de três meses, as redes de fast-food deverão afixar tabelas visíveis ao público com a quantidade de calorias e de nutrientes em seus lanches, ao lado dos valores recomendados pelos critérios médicos.

Já no Rio de Janeiro, as medidas restritivas tinham começado no ano passado, quando foram proibidas nas escolas municipais a propaganda e a venda de balas, chicletes, salgadinhos e refrigerantes. Em Florianópolis, os mesmos produtos foram vetados em 2001, alcançando a proibição também as pipocas.

O Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, há quatro anos que, alarmado com o aumento de peso dos alunos, baniu de seus bares doces, chocolates, salgadinhos e refrigerantes, colocando em seu lugar potes de frutas, sucos naturais e salgados assados.

Dessa forma, a guerra ao prazer, que antes era exclusivamente travada contra o cigarro, começa agora a se alastrar contra os refrigerantes, os doces, os chocolates, os lanches com gordura e os salgadinhos.

Não se surpreendam se em breve determinados produtos dessas espécies venham a estampar em suas embalagens os mesmos alertas aterrorizantes que já apresentam os maços de cigarro, inclusive com caveiras amedrontadoras dos fumantes.

Ainda ontem, por diversas vezes assisti a vários comerciais de um famoso guaraná estrelado pelo Guga.

Em breve, os atletas serão constrangidos a não mais fazer propaganda de refrigerantes e de lanches com gordura e doces.

O Ministério Público de São Paulo pretende a proibição de publicidade dos produtos que contêm gordura e açúcar durante os horários da programação infantil da televisão e em publicações dirigidas às crianças.

Fecha-se o mesmo cerco que há 20 anos foi travado contra o cigarro.

Aqui na sala em que trabalho em ZH, assim como em toda a ampla Redação, há vários maníacos sanitários, comandados pelo Nílson Souza, que não sossegaram enquanto a RBS não baixasse uma ordem de total proibição do uso do cigarro em suas dependências.

Mesmo depois que a proibição do cigarro foi baixada, comigo e outros infelizes fumantes tendo sido expulsos para imundos e incômodos guetos para onde fomos designados a exercitar nosso imundo vício, notei no entanto que permaneciam as mesmas caras agressivas e severas contra mim, não me apercebendo da causa.

Só agora descobri que os maníacos sanitários não toleram que todos os dias eu saboreie aqui na sala em que trabalho o meu hambúrguer do McDonald's e a minha guaraná Kuat, que já também são considerados malditos pelos hipocondríacos alimentares.

Se já não se pode mais comer e beber o que é gostoso, para que continuar a viver?

Vejam como é grave a situação do Grêmio: mesmo com aquela alentadora, entusiasmante e espetacular vitória sobre o Santos sábado, ainda assim o time não saiu da zona de rebaixamento.

Oxalá outras vitórias iguais à de sábado se sucedam.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Violência
Dor em Soledade



Terezinha Rosa chora depois de sair do hospital para onde foi levado um corpo que pode ser de seu filho Cassiano, desaparecido em março (foto Tadeu Vilani/ZH)


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