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Sábado, Setembro 06, 2003




Martha Medeiros
07/09/2003



Não gostar de quem se gosta

Reparei que nos últimos anos Woody Allen não vem mais fazendo filmes que me agradem 100%. Que saudades de Hannah e Suas Irmãs

Não que eu goste dos filmes do Woody Allen, eu sou maníaca por Woody Allen. Sabe fã número 1? Pois é. Desde sempre. Vi todos os filmes, tenho alguns em casa, coleciono biografias dele. Eu o vi, ao vivo, tocando clarinete num pub em Nova York. O lugar era péssimo, a comida intragável, a conta uma estupidez, mas ele tocava direitinho, ou eu é que não estava muito a fim de ser exigente. Tiete assumida. Daquelas que quase perde o senso crítico.

Quase. Reparei que nos últimos anos ele não vem mais fazendo filmes que me agradam 100% (que saudades de Hannah e Suas Irmãs, Zelig, Crimes e Pecados, Maridos e Esposas), mas nenhum problema. Antes um razoável Woody Allen do que um excelente As Panteras. Aí fui ver Dirigindo no Escuro, que está em cartaz. E achei infantil. O filme se salva pelo final, mas leva-se cerca de duas horas pra chegar ao final de um filme. Foi mais ou menos como assistir Sexto Sentido. I see dead people. Filmes com uma única sacada.

A conclusão a que chego é: como é difícil desapontar-se com quem a gente gosta. Porque gostar, seja do que for, é uma relação de fidelidade. Se adoro Chico Buarque, me custa desgostar de alguma música que ele tenha composto. Se acho Picasso um gênio, me sinto uma idiota se algo feito por ele não me comove. Se venero os Beatles - e venero - fico constrangida com alguns yeah yeah yeah do seu passado em Liverpool. É chato quando nosso gosto - e a gente sempre acha que tem bom gosto - não se realiza. Se Dirigindo no Escuro fosse o primeiro filme de Woody Allen, eu diria: tá, é legal. No máximo. Mas não pode ser apenas legal, é Woody Allen, é grife, é um degrau acima da humanidade. Como pode?

Guardadas todas as proporções, quando alguém me diz "puxa, eu adorava você, mas seu último texto me decepcionou", entendo perfeitamente o tamanho do desgosto que causei. Porque ninguém costuma entregar seu coração facilmente, a gente se dedica a amar um escritor, um músico, um cineasta, uma atriz, e de repente ele falha - ou não atinge nossa expectativa - e isso soa como traição. É muito mais fácil desgostar de quem nunca se gostou, de quem já implicávamos por antecipação. Mas se, ao contrário, havia amor, quanta decepção.

Posto isso, preciso admitir: estarei sentadinha na última fila - a minha preferida nas salas de cinema - em todos os filmes que Woody Allen fizer, até os seus 130 anos, que é o que eu espero que ele viva. Achei bobo Dirigindo no Escuro, mas ele vai ter que se esforçar muito mais pra me perder.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
07/09/2003


Quase loucura

Idéia para uma história. Homem e mulher se conhecem numa sala de espera de médico. Ela grávida, ele esperando a mulher, que consulta com o médico. Ele oferece a Caras que estava folhando:

- Quer dar uma olhada?

Ela:

- Acho que essa eu já vi. É nova?

Ele, depois de consultar a data da revista:

- Bom, é deste século...

Os dois riem. E se apaixonam.

Dessas coisas. Destino, química... Quem explica essas coisas? Se apaixonam, pronto. Mas não caem nos braços um do outro. Mesmo porque a barriga dela, de sete meses, não permitiria. Ficam apenas se olhando, atônitos com o que aconteceu. Pois junto com o amor súbito vem a certeza da sua impossibilidade. Como uma ferida fazendo casca em segundos. E como nenhum dos dois é um monstro de frivolidade, e como a vida não é uma comédia romântica, é uma coisa muito séria, e como eles não podem largar tudo e fugir, trocam informações rápidas, para pelo menos ter mais o que lembrar quando lembrarem aquele momento sem nenhum futuro, aquela quase loucura. Sim, é o primeiro filho dela. Menino. E a mulher dele? Está consultando o médico porque a gestação complicou, o parto talvez precise ser prematuro. Também é o primeiro filho deles. Filha. Menina. Que mais? Que mais? Não há tempo para biografias completas. Gostos, endereços, telefones, nada. A mulher dele sai do consultório. Ele tem que ir embora. Dá um jeito de voltar sozinho e perguntar:

- Como é seu nome?

Ela:

- Maria Alice. E o seu?

Ele:

- Rogério! Rogério!

E sai correndo, para nunca mais se encontrarem.

Mas se encontram. Três anos depois, na sala de espera de um pediatra. Ela chega com uma criança no colo. Ele está lendo uma revista. Talvez a mesma Caras. Os dois se reconhecem instantaneamente.

- Maria Alice!

- Rogério!

Ele pega a mãozinha da criança.

- E este é o...

- Carlos. Caquinho.

- Ele está com algum...

- Não, não. Consulta normal. Ele é saudável até demais. E a de vocês? O parto, afinal...

- Foi bem, foi bem. Ela está ótima. Se chama Gabriela. Só veio fazer um checape. Eu não posso ficar lá dentro porque fico nervoso.

Ele pega a mão dela. Pergunta:

- E você, como vai?

E antes que ela possa responder, declara que não houve dia em que não pensasse nela, e no que poderia ter sido se tivessem saído juntos daquele consultório, anos atrás, e seguido seus instintos, e feito aquela loucura. E ela confessa que ela também pensou muito nele e no que poderia ter sido. E ele está prestes a pedir um telefone, um endereço, um sobrenome para procurar no guia, quando a mulher sai do consultório com a filha deles no colo e ele precisa ir atrás, e só o que consegue é um olhar de despedida, um triste olhar de nunca mais.

Mas se encontram outra vez. Dois anos depois, na sala de espera de um pronto-socorro. Ele com a mulher, ela com o marido. Ele leva um susto ao vê-la.

- O que houve?

- É o Caquinho.

- O quê, meu Deus?

- O cretino conseguiu prender a língua numa lata de Coca.

Ele se emociona. A mulher dele não entende. De onde o marido conhece aquele Caquinho? E de onde aquela mulher conhece a Gabriela?

Ela está perguntando se aconteceu alguma coisa com a Gabriela. Rogério não consegue responder. Ficou arrasado com a notícia da língua presa do Caquinho. Ela responde por ele. Explica que não foi nada, que a Gabriela só bateu com a cabeça na borda da piscina e está levando alguns pontos.

E nem a mulher dele nem o marido dela entendem por que, ao chegar a notícia de que o Caquinho só ficará com a lingua um pouco inchada, os dois se abraçam daquela maneira, tão comovidos.

Depois, voltando para casa, a mulher quer saber por que ele se emocionara daquele jeito, se nem conhecia o tal de Caquinho.

E ele:

- Solidariedade humana, pô.

A idéia era essa, mas a história não precisa terminar aí. Rogério e Maria Alice podem continuar se encontrando, de tempos em tempos, em salas de espera (dentistas, traumatologistas, psicólogos especializados em problemas de adolescentes etc.), até um dia ela sair do quarto de hospital onde está o Caquinho, que teve um acidente de ultra-leve, e avistá-lo na sala de espera da maternidade, e perguntar:

- A Gabriela está tendo bebê?

E ele fazer que sim com a cabeça, com cara de "para onde foram as nossas vidas"?

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Moacyr Scliar
07/09/2003


Cenas do Brasil

Pensei no nosso país olhando um cartaz numa agência dos Correios perto de minha casa. Um cartaz que é também uma imagem brasileira

No último filme de Woody Allen, em cartaz em nossos cinemas, há uma menção ao Brasil. O personagem diz que sua ex-mulher casou com um brasileiro e que mora no Rio. Uma frase absolutamente casual e que é, por isso mesmo, significativa. Porque, nos filmes americanos, representa uma mudança.

Num passado já remoto, Brasil era a terra do samba, do Carnaval; Carmen Miranda, com seus balangandãs era a figura paradigmática. Era a época da II Guerra, e a aliança Brasil-Estados Unidos precisava ser estimulada, tanto que os estúdios Walt Disney chegaram a criar um personagem específico para isto: Zé Carioca, que aparecia como um grande amigo do Pato Donald (mas não do Tio Patinhas; estão aí os juros da dívida externa para comprová-lo).

Mais recentemente, o Brasil passou a ser mencionado num outro contexto. A cena típica mostrava dois gângsters conversando, um dizendo para o outro: "Pegamos o dinheiro, vamos para o Brasil..." . Ou seja: estavam falando do país da impunidade. O que, considerando os escândalos dos últimos anos, não estava tão longe da realidade, tanto que as nossas platéias riam, deliciadas.

Em suma: o Brasil era um paraíso tropical, pitoresco, onde a corrupção (e o sexo desenfreado) campeavam. E isto não era só no cinema. O público leitor (europeu, norte-americano) preferia os livros que falavam de um Brasil exótico - e, no caso dos leitores de esquerda, um Brasil rebelde, militante.

Pensei nisto outro dia, olhando um cartaz numa agência dos Correios perto de minha casa. Um cartaz que é também uma imagem brasileira. A foto mostra uma rua alagada. O que, em nossas cidades, não chega a ser novidade. Temporais costumam paralisar Rio e São Paulo, e às vezes Porto Alegre. Vivemos numa região de clima tropical ou subtropical, em que chove bastante, mas não é essa a razão das inundações. A razão é outra: o asfalto impede que a terra absorva a água, a rede de esgotos pluviais não dá vazão à enxurrada. Ou seja: o progresso chegou a nós de forma parcial. Temos asfalto, mas não temos esgoto. Temos indústria automobilística, mas não temos poder aquisitivo para comprar carros. E assim por diante.

Mas o cartaz não mostra só isso. Mostra um carteiro. Ali está ele, um homem magrinho, com as calças arregaçadas, a água chegando quase até os joelhos. O carteiro leva um menino nas costas. Um menino que ele está ajudando a atravessar a rua e que, por isso mesmo, sorri, divertido.

É claro que o pessoal dos Correios ficou orgulhoso com essa cena. A ECT é das coisas que mais funcionam em nosso país, e as cartas não deixam de ser entregues. Além disto, mostra a foto, o carteiro está indo além dos seus deveres. Está ajudando alguém da população.

Alguém poderia perguntar: mas a função do carteiro não é de entregar correspondência? É. E este carteiro está cumprindo sua função. Está entregando uma mensagem. Uma mensagem de solidariedade, uma mensagem de otimismo frente à adversidade, uma mensagem de confiança.

Este carteiro não é só um carteiro. Ele é o Brasil, ele é o que o nosso país tem de melhor. Ele é o 7 de setembro.

Na semana passada recebi a visita de uma prima que mora há muitos anos no Exterior. No Exterior casou, no Exterior teve filhos e agora netos. E, falando sobre sua vida, ela arrematou com uma frase:

- Apesar de tudo, nunca deixamos de ser brasileiros.

Uma mensagem que o carteiro do cartaz já nos entregou há muito tempo. Antes mesmo que Dom Pedro proclamasse a Independência.
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
07/09/2003


Um Rio Grande sem fronteiras
"Como a aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o 20 de Setembro
O precursor da liberdade.
Mostremos valor, constância,
Nesta ímpia e injusta guerra,
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra (bis)
Entre nós reviva Atenas
Para assombro dos tiranos,
Sejamos gregos na glória
E na virtude romanos.
Mas não basta pra ser livre
Ser forte aguerrido e bravo.
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo."

Estes versos são do Hino Rio-Grandense, autoria de Francisco Pinto da Fontoura (mais conhecido como Chiquinho da Vovó) com música do comendador e maestro Joaquim José de Mendanha.

É um hino belíssimo, tem uma entonação marcial, rememora a Revolução Farroupilha e sua letra e música são desconhecidas talvez de 95% dos gaúchos.

Por isso foi emocionante assistir sexta-feira pela televisão ao hino sendo executado pela Ospa na Expointer, com o presidente Lula da Silva ladeado pelo governador Germano Rigotto e pelo presidente do Uruguai, Jorge Batlle.

Rigotto cantava a letra inteira do hino. Lógico que Lula só escutava. Mas o que causou a surpresa de maior impacto aos que assistiam à cena foi que o presidente do Uruguai cantava com voz potente e grande entusiasmo toda a letra do Hino Rio-Grandense.

Foi emocionante para todos nós e deve ter sido ainda mais para o presidente Lula da Silva que um uruguaio cantasse com desenvoltura igual à do governador gaúcho o hino pampiano.

Isso comprova que a noção de pátria não é de todo ligada ao lugar em que se nasceu e em que se vive. A noção de pátria implica principalmente o lugar que amamos e que nos comove.

Eu já tinha ouvido pelo meio-dia de sexta-feira o presidente uruguaio dizer que se considerava gaúcho. Depois vim a saber que ele viveu no Rio Grande do Sul no período em que esteve exilado.

Mas vê-lo cantando o nosso hino acentua ainda mais em nós a noção pela inexistência entre brasileiros, uruguaios e argentinos de um sentimento de separação e rivalidade extremada.

Pelo contrário, este amor e esta reverência que sentimos pelo tango produz em nós todos uma sensação de unidade territorial e sentimental entre os três povos.

Nós gaúchos, somos brasileiros, mas somos muito mais aproximados do Uruguai e da Argentina do que de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Melhor hão de entender esse aparente absurdo que escrevi todas as pessoas que vivem em Artigas, em Livramento, em Uruguaiana, em Bagé, toda a fronteira gaúcha.

Parece a elas que há um só território a abrigar os três países, uma só língua, uma só mentalidade. Os fronteiriços desconhecem as suas diferenças políticas e se integram na mesma cultura, nos mesmos costumes, nas mesmas tradições, brasileiros casam com uruguaias, argentinas casam com brasileiros, há milhares entre eles que possuem dupla nacionalidade.

E foi lindo de ver o presidente uruguaio cantar com ardência cívica o nosso hino.

Imagino a surpresa do Lula. Ele deve ter tido ontem o melhor ensinamento de que o Mercosul é mais que um tratado, é um liame indestrutível que nos une aos castelhanos, os quais, apesar das incompreensões de esparsas e néscias turbas, são irmãos nossos, unidos a nós pelo valor incomensurável da vizinhança e da interpenetração cultural.

psantana.colunistas@zerohora.com.br


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Gente
Nasce a Nilmania



O atacante colorado Nilmar é o ídolo das tietes, atrai novas torcedoras para o Beira-Rio e ganhou até um fã-clube, o Nilmaravilha (foto José Doval/ZH)

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Mas que vidinha de Rei levam esses vira-latas hein! Bom fim de semana, que aqui no Portinho está uma primavera, mas bem mais para verão.

A doce vida de cachorro

Sorvete e chocolate para os amigos de quatro patas

Doces com o formato de ossos, sorvetes em copinho e até chocolates são guloseimas disponíveis para agradar ao paladar dos cães mais exigentes. Mas especialistas advertem que não se deve dar a eles doces de verdade e sugerem conferir os rótulos dos produtos especiais. "Opte por aqueles que tenham nutrientes na composição", diz o veterinário Dan Wroblewski. Confira ao lado algumas iguarias para seu cãozinho:

Barra de chocolate branco
Dog Milky Mini
Tem 3% de cacau (quantidade não nociva)
5 reais (30 gramas)

Ossos de chocolate
Dog's
Mistura de leite em pó desnatado com farelo e lecitina de soja
6 reais (50 gramas, cinco unidades)

Ovinhos de chocolate
Vipdog
Contêm fósforo, cálcio, proteína. O aspartame substitui o açúcar
4,50 reais (42 gramas, seis unidades)
Pastilhas de chocolate

Milk Choco Drops
Têm sabores de chocolate ao leite e chocolate branco. Contêm vitaminas
A, D e E
6 reais (75 gramas)

Sorvete
Dog Ice
Pode ser consumido gelado ou não.
A fórmula inclui leite integral em pó, peixe, vitaminas B1, B12 e B6 e um suplemento vitamínico e mineral
5,50 reais (cinco unidades, 40 ml cada)

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Milene na Vip: ensaio com pouca roupa, sem avisar Ronaldo

Mostrando o jogo

Paulo Rocha/Vip

Surpresa: fã incondicional das roupas esportivas e do rosto (quase) lavado, Milene Domingues, 24 anos, pôs maquiagem e salto alto e, em trajes mínimos, posou para a capa da edição de outubro da revista Vip. "Só fiquei mais relaxada nas últimas fotos da sessão", confessa Milene, que está no Brasil, treinando com a seleção de futebol feminino e negando boatos sobre o fim de seu casamento.

O marido separa-não-separa, Ronaldo, nem sequer foi consultado sobre a inédita exposição, entre outras coisas, das tatuagens dela (o "rastro" de duas patinhas, logo acima da perna esquerda). "Acho que ele vai gostar", torce Milene.

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Diogo Mainardi
O novo coronelismo

"Ciro Gomes sabe que quem controla a água no sertão nordestino também controla todo o resto. Nenhuma barragem, cisterna ou obra de irrigação poderá ser feita no sertão sem o seu beneplácito. É o retrato do subdesenvolvimento nordestino"

O herdeiro de ACM é Ciro Gomes. Como ACM, Ciro Gomes percebeu que jamais terá uma dimensão nacional. Tratou de consolidar, então, sua hegemonia territorial, apossando-se do Ceará.

Antes de mais nada, Ciro Gomes negociou com Lula uma posição estratégica dentro do governo. Assumiu o Ministério da Integração Nacional. Apesar do nome, o ministério é muito pouco integrado nacionalmente: quase todos os cargos estão nas mãos de cearenses. Ou melhor, nas mãos de sobralenses. Como todos os chefes dinásticos nordestinos, Ciro Gomes prefere cercar-se de gente de sua terra. Em geral, familiares e subalternos.

O Ministério da Integração Nacional é responsável pelo combate à seca. Ciro Gomes sabe que quem controla a água no sertão nordestino também controla todo o resto. Colocou um de seus homens, Hypérides Macedo, na Secretaria da Infra-Estrutura Hídrica. O Departamento Nacional de Obras contra as Secas foi tomado pelo "clã de Sobral", segundo o presidente do sindicato dos funcionários. E a diretora financeira da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco é sua antiga colaboradora. Ou seja, nenhuma barragem, cisterna ou obra de irrigação poderá ser construída no sertão sem o beneplácito de Ciro Gomes. É o retrato do subdesenvolvimento nordestino, do qual nunca iremos nos livrar.

Ciro Gomes tem um partido só dele, o PPS do Ceará. Para lá confluíram muitos caciques locais, como o prefeito de Brejo Santo, Welington Landim, cuja filiação foi comemorada no ginásio esportivo Welingtão. Ao se filiar ao PPS, Welington Landim ganhou, de lambuja, uma diretoria da Funasa. O PPS se prepara para as eleições. O provável candidato do partido ao governo do Ceará é Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes e atual prefeito de Sobral. Cid Gomes deverá ser substituído na prefeitura de Sobral por seu irmão mais novo, Ivo. Para que tudo fique em família.

Dois dos maiores doadores de dinheiro da campanha presidencial de Ciro Gomes foram brindados com cargos no Ministério da Integração Nacional. O primeiro é Márcio Lacerda, dono da Construtel. O segundo é um representante do BicBanco, de propriedade da mais ilustre família de coronéis cearenses.

Outros grandes doadores da campanha de Ciro Gomes foram os grupos Gerdau, Grendene e Vicunha. Todos eles possuem fábricas no Ceará. Todos eles receberam recursos da Sudene. Ciro Gomes foi o maior defensor do retorno da Sudene, apesar da roubalheira que ela sempre estimulou. A nova Sudene, de acordo com Ciro Gomes, será blindada contra a corrupção. Difícil acreditar. Uma coisa, porém, é certa: ela será blindada contra qualquer um que não seja ligado a Ciro Gomes.

Um antigo assessor do ministro, Antônio Balhmann, ocupou-se de inventariá-la. E José Zenóbio Vasconcelos, indicado pelo PPS, foi encarregado de refundá-la. Como se não bastasse, Ciro Gomes também conseguiu enfiar alguns prepostos no Banco do Nordeste, que administra boa parte do dinheiro público investido na região.

Para quem acha que este artigo trata de política, não trata, não. É antropologia cultural: o novo coronelismo nordestino.

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E esta acima é a capa da Revista Veja que já está nas bancas. O link para você chegar la está ai na própria capa, já que ainda não recebi o newsletter da mesma.

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Esta ai acima é a capa da Revista Isto é deste fim de semana. Para você que se interessa por alguma matéria, é só clicar no link ai abaixo.

REPORTAGEM DE CAPA

Capa
O gordo mercado das dietas
Dispostos a perder peso a qualquer custo, milhares de brasileiros seguem as orientações de livros e se rendem aos regimes mais famosos

CAPA
Cheinhas...de charme
Elas estão de bem com a vida e não ligam para a ditadura da magreza

A SEMANA

Mais que um nu artístico
Leia outras notas
Datas ¿ Frases

ARTES & ESPETÁCULOS

Personagem
Peter Pan da madrugada
Com inteligência, muita informação e um jeito todo especial de lidar com a platéia adolescente, Serginho Groisman faz de Altas horas um programa imperdível

Televisão
Bonifácio bilhões
Num dos raros momentos, Boni fala da vida pessoal, diz que ainda sonha em comprar o SBT, mas está feliz coma estréia da sua tevê Vanguarda

Cinema
Receita de aventura
A liga extraordinária reúne
personagens bombásticos

Coluna Em Cartaz

BRASIL

Política
Com a mão no leme
Depois de muita negociação, Lula comemora aprovação da reforma tributária, diz que o País tem comando e antecipa entrega de ministérios ao PMDB, para consolidar maioria no Congresso

Propinoduto
As provas
CPI do Banestado investiga conduta de procurador que apura lavagem

Túnel do tempo
Pequenos Guevaras
Adolescentes idolatram Marx e Trotsky e ainda sonham com a revolução e o fim da burguesia Marketing
Uma vacina para manter a imagem
Jornalista ensina em livro como gerenciar graves crises

Segurança
A lógica ilógica
Juiz autoriza volta de Beira-Mar para o Rio, mas decisão é suspensa

Argentina Confiança de volta
Governador de Córdoba aposta na recuperação econômica e busca investimentos brasileiros

Coluna Fax Brasília

CARTAS

Cartas dos leitores

CIÊNCIA & TECNOLOGIA

Corrida especial
Novos aliados
Enquanto a hipótese de sabotagem ronda a tragédia de Alcântara, o Brasil estreita parceria com a Rússia e a Ucrânia Biotecnologia

Segredos da seda
Cientistas desvendam parte do mistério dos bichos-da-seda e abrem caminho para a produção artificial de fios, tendões
e coletes à prova de bala

Acidente
Homens ao mar
A caminho do desmonte, submarino nuclear russo afunda com nove de seus dez tripulantes

Coluna Século 21

COMPORTAMENTO

Sociedade
Vou de moto
Para fugir do trânsito, a turma da gravata e do salto alto apela para as duas rodas. E, aos 100 anos, a Harley-Davidson
continua a arrebatar fãs
Evento
Foco sobre a metrópole
Bienal de arquitetura, que começa
dia 14 em São Paulo, terá a cidade como tema e quer ficar mais próxima do público leigo

Luxo
Hospedagem com grife
Família Fasano inaugura hotel em São Paulo com a mesma sofisticação que marcou seus restaurantes

Personagem
Modelo de sangue azul
Herdeira dos Orleans e Bragança faz seu primeiro ensaio sensual

Noite
Década musical
O Bourbon Street Music Club, em São Paulo, faz dez anos e anuncia seu festival de jazz

Sociedade
E o palhaço o que é?
Filósofo analisa em livro a vida e a obra dos donos do riso

ECONOMIA & NEGÓCIOS

Automóveis
Você dirige, ele estaciona
O Prius 2004 da Toyota dispensa o motorista na hora de parar o carro
Na água
Digno de 007
Ao toque de um botão, carro vira lancha de 56 km/h

Investimentos
A bola vai rolar
Nos planos para o próximo ano de grandes e médias empresas, a ordem é investir para não recuar

EDITORIAL

O jogo da negociação

ENTREVISTA

Barbara Heliodora
A senhora terrível
Crítica teatral mais importante e temida do País completa 80 anos, carregando a mesma certeza de não ser condescendente com peças ruins

INTERNACIONAL

Chile
Trinta anos daquela noite
A atuação de diplomatas brasileiros no mais violento e ousado golpe militar da América Latina, o 11 de setembro de 1973

MEDICINA

Dependência química
Antidroga em casa
Chega ao País teste que detecta uso sem permissão do usuário Saúde

Ética nas pesquisas
O cientista Volnei Garrafa critica as propostas de flexibilização de critérios de estudos com seres
humanos na América Latina

Dependência química
E na Holanda...
Governo libera venda de maconha nas farmácias Sexo
Mais um contra a impotência
Estudo mostra poder do ginseng coreano

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Sábado, 6 de setembro de 2003.

Poder feminino

Marcas masculinas se rendem ao charme das mulheres e passam a criar roupas e acessórios sob medida para elas consumirem
Tatiana Contreiras

Não são poucas as mulheres que já olharam um armário masculino com inveja ou já tentaram adaptar ao seu corpo calças feitas para homens. Mas muitas marcas voltadas para eles se renderam ao público feminino, que sempre pediu mais espaço nas coleções. Nunca imaginei que venderia calcinhas, brinca Maxime Perelmulter, da British Colony, que está lançando sua primeira coleção só para mulheres. As pecinhas femininas e outras tantas dividem cada vez mais espaço nos cabides com calças e acessórios masculinos, não só na grife de Maxime como também em outras marcas da cidade.

Já tinha vontade de desenvolver uma coleção feminina, mas preferi focar para evoluir no masculino. Neste ano, a gente sentiu falta¿, conta Maxime, que tem na camisaria o carro-chefe. Estamos entrando em todos grupos: jeans, t-shirts silkadas, saias, vestidos... A coleção feminina conversa completamente com a masculina., tenta explicar. As mulheres estavam curtindo usar a marca e a roupa de homem e são consumidoras muito mais ativas, diz Maxime, que criou uma linha muito sexy.

Na Wöllner, o estilo esportivo e ecológico ganhou toques mais femininos, mas sem perder a identidade. Nunca quisemos ficar restritos a uma determinada tribo, conta Lauro Wöllner, proprietário da marca. Quando abrimos a primeira loja, viemos com uma coleção feminina muito tímida, e a mulher brasileira é sensual. Ficávamos restritos a quem faz rafting e ecoturismo, e a gente queria ampliar horizontes, conta Lauro, que se inspirou nas colônias de pescadores para a nova coleção. Fomos polindo esse lado feminino e botando cada vez mais peças contemporâneas e sensuais. Tem esse lado de viagem e ecoturismo, mas de um jeito carioca, com blusinhas, vestidos e transparências, completa.

Para Beto Neves, da Complexo B, a mulher é muito mais impulsiva. Elas vão pelo novo, pelo ineditismo. Querem se diferenciar das outras, e não serem uniformizadas, avalia. A incursão nos armários femininos não é de hoje: Em 1997, foi o estouro da calça de tecido. Elas começaram a se identificar com o conceito, não tinha para mulher e elas sempre questionavam, relembra Beto. A roupa de mulher da Complexo B não tem fru-fru, drapeadinho. Tem essa energia masculina, com coisas mais ousadas. Uma camiseta escrito Cabra Macho, por exemplo, completa.

Já a Mr. Cat, que sempre teve sua linha feminina, está há um mês com uma loja só para mulheres.Todas as lojas têm tudo, mas é uma forma de criar uma diferença, diz Ari Svartsnaider, que também é arquiteto e criou a marca há 22 anos. A loja com espaço exclusivamente feminino valoriza mais os produtos, conta. Além dos mocassins, sandálias multicoloridas invadiram o espaço. O que era muito tradicional deu uma modernizada, explica Ari. Sinal do poder feminino.

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A assessoria do Presidente não está acreditando nas previsões do tempo, ou não está cumprindo bem com o seu papel, já que pela segunda vez ele se equivoca no uso de roupas adequadas para vir ao Sul.

Surpresa com o calor

Ao perceber que o presidente (foto) suava, trajando um terno de lã sob uma temperatura de verão, o deputado federal Paulo Pimenta (PT) questionou se Lula não gostaria de tirar o casaco.

- Pô, Pimentinha, eu nunca acerto quando venho aqui. Estive na Fenadoce e quase morri de frio. Hoje, disse que dessa vez o frio não iria me pegar. Está esse calorão - respondeu Lula, referindo-se a sua presença na abertura da mais tradicional festa da Zona Sul do Estado, em Pelotas, em junho.

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

"Possivelmente eu tenha visitado em oito meses mais feiras de agronegóico do que muitos presidentes visitaram nos últimos anos no nosso país. E fiz isso porque durante muitos anos eu fazia questão de dizer que se enganavam aqueles que entendiam que agricultura não era mais um pilar do desenvolvimento nacional. Houve um tempo até em que se tentava criar uma certa inibição nos homens da agricultura porque não eram modernos."

"Nós vamos adequar o Brasil ao século 21, e não ficar discutindo apenas o que nós tínhamos há um século atrás. Não vamos permitir que privilégio seja tratado como direito, porque o privilégio atende a uma minoria muito pequena, e não a uma maioria que está marginalizada do processo de crescimento e de amadurecimento da sociedade brasileira."

"Comecei a minha vida política negociando. Foi nas derrotas e nas vitórias das negociações que fiz no meu movimento sindical que aprendi a ter paciência, a ceder quando temos de ceder e a ser duro. Mas aprendi, sobretudo, que a democracia não é a supremacia da minha vontade sobre a vontade da sociedade."

"Eu já disse dentro e fora do governo que eu não quero um debate ideológico sobre a questão dos transgênicos, eu quero um debate científico. Vamos discuti-lo com a seriedade que um país do tamanho do Brasil precisa ter. Vamos discuti-lo não pelo grito dos que são a favor e dos que são contra, mas pela capacidade da inteligência brasileira de dizer se nós vamos assumir a responsabilidade, e a partir daí nós vamos ter com base na orientação científica uma diretriz."

Germano Rigotto, governador

"Tenho certeza de que o país reedifica sua imagem, promove o saneamento de suas estruturas e faz a semeadura de uma colheita futura mais produtiva e mais abundante. As reformas melhorarão a genética de nossas instituições, nos posicionarão muito bem no cenário mundial."

"Isso nos leva à necessidade de não prescindirmos da biotecnologia. Tenho certeza de que o senhor levará isso em conta nos próximos dias."

Carlos Sperotto, presidente da Farsul

"Tenho certeza de que o país reedifica sua imagem, promove o saneamento de suas estruturas e faz a semeadura de uma colheita futura mais produtiva e mais abundante. As reformas melhorarão a genética de nossas instituições, nos posicionarão muito bem no cenário mundial."

"Isso nos leva à necessidade de não prescindirmos da biotecnologia. Tenho certeza de que o senhor levará isso em conta nos próximos dias."

"A produtividade não pode ser aferida pela quantidade de animais e sim pela qualidade do produto. O campo não se presta a estoque de mercadorias como para exibi-las em gôndolas de supermercados."

"Queremos um crescimento cuja base seja assentada num chão firme, capaz de nos dar estabilidade, calcado na ordem jurídica e no respeito ao direito de propriedade. Que se estimule a pesquisa. Que se diga sim à biotecnologia e suas conquistas, sem podar a competência da CTNBio. Pensar e agir diferente é estar na contramão da História."

"Nosso país, senhor presidente, necessita com urgência, de forma definitiva, o plantio comercial da soja transgênica. Vossa Excelência recentemente admitiu publicamente ter revisado a sua posição, antes contrária à transgenia. Admitiu que nosso produtor, pequeno, médio ou grande possa acessar esta tecnologia que tantos frutos têm rendido à economia do Estado e do país."

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Lya Luft
06/09/2003


Para não dizer adeus (inédito)
1. TÂNATOS

O coração explode

na dor acumulada e na fadiga:

o morto ensaia novos passos

ao ritmo de sua amante estranha.

Morrer foi mais do que uma escolha:

foi render-se enfim àquela melodia.

Baixa uma cunha de luz

sobre os que velam: enlaçado à sua amada,

o morto espreita atrás da cortina

enquanto se arma o cenário.

Na platéia , silêncio e surdez:

somos os não-iniciados.

Mas alguém conhece o roteiro,

alguém distribui os papéis, alguém

vai pronunciar nossos nomes.

Ninguém será esquecido

no palco que nos aguarda:

seremos vistos, seremos registrados,

também seremos chamados.


2. AQUÁRIO

O tempo não existe

nem dentro nem fora.

Esses peixes de opala

são nomes que nadam na memória:

são rostos são perdas são frutas

são as horas felizes.

O tempo não existe

pois continua aqui, e cresce

como se arredonda uma árvore

pesada de frutos impossíveis

que são peixes que são

nomes de nomes, que são rostos,

presenças caladas,

com máscaras.

O tempo não existe: sou sempre

agora.
lya.luft@zerohora.com.br

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Jorge Furtado
06/09/2003


Crescer e parar de crescer

A Jornada de Literatura de Passo Fundo é um daqueles acontecimentos, como um comício por eleições diretas, uma final de Libertadores ou um show dos Rolling Stones, que você tem que presenciar para saber do que se trata. Contando ninguém acredita. Imagine dezenas de cursos sobre literatura com milhares de estudantes. Imagine centenas de autores reunidos durante uma semana, trocando histórias. Imagine 10 mil pessoas, muitas delas crianças, no meio de uma coxilha gaúcha e sob frio cortante, reunidas pelo prazer da leitura. Imaginou? Não é assim, você precisa ir lá para ver.

A Jornada é um acontecimento tão extraordinário e cresceu tanto que talvez seja a hora de parar de crescer. Claro que ainda há muito para inventar, talvez a próxima jornada tenha também uma sessão de cine-literatura, com filmes e vídeos adaptados de textos e produzidos pelos estudantes, o que seria ótimo. Mas um evento com tamanha projeção, com tantos jornalistas e um público tão grande acaba atraindo pessoas que querem audiência, não importando o assunto.

Foi o caso da participação do senador Eduardo Suplicy, falando do programa de renda mínima num encontro sobre adaptações literárias para o cinema. Suplicy falou por uma hora, declamou letras de rap e explicou em detalhes o sistema de seguridade social do Alasca. O debate não aconteceu. O mico do senador é um detalhe quase sem importância no balanço geral da Jornada, mas pode servir de alerta para evitar a tendência que os grandes eventos têm de crescer demais ou crescer para o lado errado, se afastando do papel de geradores culturais.

Uma vítima do crescimento exagerado é o Festival de Cinema de Gramado, que se esforça em manter o posto de maior do gênero no país mas está se transformando num encontro simpático de estrelas e seus fãs, com pouco ou nenhum significado na carreira dos filmes, uma das funções dos festivais. Os cinco filmes brasileiros mais premiados em Gramado nos últimos anos foram Durval Discos, Memórias Póstumas, Quase Nada, Santo Forte e Amores. Todos tiveram menos de 100 mil espectadores nos cinemas. Espero que De Passagem, o vencedor deste ano, tenha melhor sorte.

Um exemplo claro de acromegalia é o comércio da Rua Padre Chagas, em Porto Alegre. A sucessão de cafés, restaurantes e lojas é um bom sinal e um bom pretexto para ir até lá e caminhar na calçada. Desde, é claro, que você consiga chegar até lá e que seja possível caminhar nas calçadas, inclusive em cadeiras de rodas ou com um carrinho de bebê. E desde que os moradores possam continuar morando e vivendo lá. O projeto de calçadão na Padre Chagas me parece um grave erro urbanístico, capaz de expulsar moradores e, a longo prazo, fregueses e visitantes, como aconteceu na Rua da Praia. Quando há como crescer sem perder energia e saúde, ótimo. Quando não há, o melhor a fazer é se fortalecer e parar de crescer.

jorge.furtado@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
06/09/2003


A pena de morte

A pena de morte, tão reclamada pela opinião pública brasileira, todos os dias tem na rotina policial exemplos demolidores contra si.

O garçom Sabino da Silva, 25 anos, passou 16 dias preso injustamente em Itu. São Paulo, acusado de ter matado o empresário José Nélson Schincariol, proprietário de uma fábrica famosa de cervejas, num assalto frustrado.

Uma testemunha ocular disse à polícia que o garçom Sabino havia participado do homicídio.

Em seguida, os policiais invadiram a casa de Sabino, colocaram uma arma na barriga de sua mãe, outra nas suas costas. Derrubaram e quebraram tudo. Os policiais gritavam para a mulher: "O seu filho é um bandido".

Depois de apanharem Sabino no quarto, ameaçaram sua mãe: "Você não abre a boca. Eu vou furar você e jogar na água".

Levaram Sabino num furgão.

Sabino ficou em poder dos policiais durante 16 dias. O juiz que decretou sua prisão temporária, José Fernando Minhoto, da 2ª Vara Criminal de Itu, justificou a decisão pelo fato de a testemunha ter reconhecido o acusado com segurança e convicção.

Nos 16 dias que ficou preso, Sabino foi torturado pelos policiais. Davam-lhe tapas nos ouvidos e coronhadas nas costas. Sua boca sangrava, enquanto a tática de pressão era diária e inclemente.

Levaram-no para o meio do mato e perguntaram a ele: "Vai abraçar a bronca sozinho?" Sabino não confessava, até mesmo porque não tinha cometido o crime, embora isso não interesse a quem quer a confissão ou a quem quer se livrar da tortura.

Há três dias, foram descobertos e presos os verdadeiros autores do assassinato do empresário. Sabino não os conhecia e nada tinha a ver com o fato.

O juiz que decretou a prisão temporária de Sabino, então, criticou a polícia. Segundo ele, os policiais foram imprudentes, prenderam o garçom ilegalmente, sem mandado judicial.

Só que, mesmo assim, em face do depoimento da testemunha, o mesmo juiz decretou a prisão temporária do garçom. Prisão temporária quer dizer preso entregue à polícia para interrogatório.

A testemunha assim se referiu à injustiça: "Eu errei. Cometi um engano junto com a polícia. Agora sou alvo da vítima".

Dois simples fatos podiam ter condenado a longos anos de prisão o garçom Sabino: bastava que ele tivesse cedido às torturas, confessado o crime e não aparecessem os verdadeiros assassinos.

É evidente que pela falha da justiça humana e pela precariedade policial brasileira, do que a tortura é apenas um dos reflexos, muita gente inocente é condenada no Brasil.

Assim como Sabino.

Como há inocentes que podem por essa forma típica de erro testemunhal, policial e judicial ser condenados à pena de prisão, é impossível aceitar-se que as penas têm de ser aumentadas até o limite da pena de morte.

A pena de morte não pode ser instituída exatamente porque não se pode exigir pena capital, a mais grave, para hipóteses que correm o risco de encerrarem grandes injustiças.

Ou seja, se há risco de injustiça, nem que seja em número mínimo, não se pode torná-la irrevogável pela eliminação física do sentenciado.

O juiz que decretou a prisão temporária do garçom Sabino aconselhou-o a processar o Estado, em busca de indenização.

É o certo. Mas quem vai apagar em Sabino o que ele sentiu na prisão? Como diz a letra do rap que Sabino canta: "Quem já sentiu o frio da cela sempre vai lembrar".
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Porto Alegre em Dança
Ritmo e leveza na Capital



Cerca de 3 mil bailarinos se encontram na PUC, até amanhã, para o Porto Alegre em Dança, que escolherá os melhores do país (foto Adriana Franciosi/ZH)


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Sexta-feira, Setembro 05, 2003




Se você quiser ouvir com o fundo musical é só clicar no link ai abaixo. Um fim de semana gostoso para você é o que desejo.

NÃO IMPORTA

Não me importa o que você faz
para sobreviver.

Quero saber; qual a sua dor
E se você tem coragem de encontrar
o que seu coração anseia.

Quero saber se você se arriscaria
parecer com um louco
por amor pelos seus sonhos e pela aventura de estar vivo

Não me importa saber quais planetas
estão quadrando sua lua.

Quero saber se você tocou o âmago de sua tristeza,
se as traições da vida lhe ensinaram,
ou se você; se omitiu por medo de sofrer.

Quero saber se você consegue sentar-se com as dores; minhas ou suas, sem se mexer para escondê-las, diluí-las ou fixá-las.

Quero saber se você pode conviver com a alegria,
Minha ou sua, se pode dançar com selvageria
e deixar o êxtase preenchê-lo até o limite,
sem lembrar de suas limitações de ser humano.

Não me importa se a estória que você me conta
é verdadeira.

Quero saber se você é capaz de desapontar o outro para ser verdadeiro para si mesmo,
Se pode suportar a acusação da traição
E não trair a sua própria alma.

Quero saber se você pode ser fiel
e conseqüentemente fidedigno

Quero saber se você pode enxergar a beleza
Mesmo que não sejam bonitos todos os dias,
e se pode perceber na sua vida a presença de Deus.

Quero saber se você pode viver com as falhas,
Suas e minhas, e ainda estar de pé na beira do lago
e gritar para o prateado da lua cheia.

Não me importa saber onde você mora
Ou quanto dinheiro tem.

Quero saber se você pode levantar
Depois de uma noite de pesar e desespero, exausto
E fazer o que tem de fazer para as crianças.

Não me importa saber quem você é,
ou como veio parar aqui

Quero saber se você estará ao meu lado
no centro do fogo, sem recuar

Não me importa saber onde o que, ou com quem
você estudou

Quero saber o que sustenta o seu interior
quando todo o resto desaba.

Quero saber se você pode estar só consigo mesmo
e se verdadeiramente gosta da companhia
que carrega em seus momentos vazios.

Mensagem do índio nativo americano, Oriah

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Veja outras mensagens do Edson clicando ai no link abaixo.

Já estamos quase no final do ano

E você continua aí, do mesmo jeito

andando pelas mesmas ruas,

girando as mesmas chaves

para abrir as mesmas portas?


Sentado nas mesmas cadeiras,

ao lado das mesmas mesas,

fazendo sempre as mesmas coisas?


Com os mesmos amigos,

os mesmos amores, a mesma visão do mundo?


Com os mesmos medos e preconceitos?


Beijando as mesmas bocas,

tocando os mesmos corpos

com o mesmo jeito

os mesmos toques, e o mesmo estilo?


A mesma instável estabilidade?


Repetindo a mesma angustiante rotina?


Onde está aquele projeto de Vida?

Onde está a coragem de mudar, a coragem de criar?


Onde está aquele entusiasmo

e aquela ousadia de outrora?


Onde aquela gostosura tão buscada?

Onde estão aqueles sonhos todos?


Reaja: a Vida é uma aventura extraordinária

e existem milhares de caminhos possíveis!

REAJA

Edson Marques

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Balanço é pra quem tem
O segredo das festas de hip hop que tomam conta da cidade é um só: a música que não deixa ninguém parado nas pistas de dança
Eusébio Galvão

A segunda edição da Players, the Hip Hop Festival, tem show do rapper Xis amanhã, no Pier Mauá

O que é o hip hop todo mundo já explicou. Não é só música, tem toda uma ideologia, coisa e tal. Mas filosofia não enche pista. Então, não serve para explicar o aumento em progressão geométrica do número de festas dedicadas ao gênero que pipocam pela cidade. Para quem gosta de dançar, é a dica. Tem hip hop por várias boates cariocas.

As mulheres começaram a gostar. E quando mulher gosta, vai dançar, vai à festa, aí vem todo mundo atrás, defende Plínio Profeta, produtor musical e um dos DJs da Superestéreo, que rola todas as sextas-feiras na Melt. A análise tem coro de outro DJ, Lulinha. O som tem muito suingue e sensualidade. E mulher dança mesmo, gosta de se exibir, diz ele, que toca amanhã na Six.

O que eu mais gosto é que tem ritmo, você não fica parado, é bom. Hip hop sempre me faz dançar, confirma a teoria a estudante de psicologia Camille Ferreira Soler, de 24 anos. E como disse o Profeta, onde tem mulher, está cheio de gente. Vai uma mulherada forte. E elas têm estilo e não são marrentas, comemora o operador de sistema Gilberto Natal da Silva, 22 anos. A aproximação tem que ser na manha. Vai mais na dança. Se ficar parado, não rola. Tem que chegar como quem não quer nada, dançar junto e emendar numa conversa, é assim que funciona, ensina Gilberto. Ele dá a dica: A festa de sexta-feira na Six é a melhor de todas.

A casa, aliás, tem festa dedicada ao gênero hoje e amanhã. No começo era só aos sábados, numa pista menor. Mas a coisa cresceu de tal maneira que hoje rola no fim de semana todo, diz o DJ Juan. Na Superéstereo, na Melt, Plínio Profeta e Lucas Santtana também atacam de black music e testam na pistas as produções que fazem no estúdio caseiro.

É a melhor coisa, porque você nota a reação das pessoas na hora, diz Plínio. Antigamente, o rap só tocava no começo das festas, era o couvert. Agora virou prato principal, comemora o DJ Saddam, que está na Six amanhã. Para alegria de gente como a arquiteta Luciana da Motta Lima, de 30 anos, que curte as batidas não é de hoje: Freqüentei muito a Zoeira, na Lapa, e até hoje saio pra dançar rap. É a melhor coisa.

As 5 mais

1 KHIA My Neck, My Back

2 50 CENT Da Club

3 SNOOP DOGG Beautiful

4 CAMRON Hey Ma

5 PANJABI MC Beware Of The Boys

Promoção: Os 10 primeiros que ligarem hoje, entre 10h e 10h15 para 0800-9021 ganham dois convites para a Six Grooves, hoje, na Six. Os 10 seguintes ganham entradas para a Tribus, amanhã.

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Rosane de Oliveira
05/09/2003


Demonstração de força

Foi uma vitória inquestionável do governo a aprovação do texto básico da reforma tributária na madrugada desta quinta-feira. Poucas horas antes da aprovação, só se ouviam vozes contrárias ao projeto. Os governadores ameaçavam recomendar a suas bancadas o voto contrário, o PSDB e o PFL tentavam impedir a votação na Justiça, os prefeitos vociferavam contra a emenda. No puxa-estica das negociações, o governo virou o jogo e conseguiu 378 votos - 70 além do mínimo necessário.

Como foi possível o milagre? A resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é negociação, coisa que ele aprendeu no sindicalismo. Regra básica: não se pode mostrar todas as cartas no início da conversa, nem apresentar uma proposta sem margem para o recuo. O Planalto deixou para a undécima hora a apresentação das suas concessões a prefeitos e governadores - algumas feitas às custas do contribuinte. Os deputados não tiveram tempo para analisar direito o conteúdo da emenda que alterou o texto aprovado na comissão especial, mas aprovaram assim mesmo. Eventuais correções serão tentadas na votação dos destaques. Ou no Senado, que não se conformará em simplesmente referendar o voto da Câmara.

A aprovação também foi possível porque parte da oposição dos governadores e prefeitos era retórica. O Planalto sabe que governadores e prefeitos estão com a corda no pescoço e precisam de receita extra. Ruim com a reforma tributária, pior sem ela. No mínimo, porque deve dificultar a sonegação de ICMS e a elisão fiscal, mas há outras vantagens para Estados e municípios.

No remanejamento de alíquotas será possível algum crescimento de receita sem o ônus de um projeto de lei aumentando impostos. A compensação pelas perdas com a isenção das exportações deixa de depender do humor do governo, a partilha dos recursos da Cide se transforma em obrigação constitucional e produtos hoje isentos passam a ser tributados - casos do IPVA sobre jatinhos e barcos de lazer. De lambuja, os prefeitos ganham a taxa de iluminação pública sem precisar aprovar projetos específicos nas Câmaras, incluem na Constituição a taxa de lixo calculada pelo valor do imóvel e 6,25% da Cide, coisa que não estava prevista no projeto original.

rosane.oliveira@zerohora.com.br

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David Coimbra
05/09/2003


A beleza da vaca

Meu avô gostava de me levar à Expointer. Aí eu chegava lá e via aquela vaca. Uma vaca de bom tamanho, pêlo lustroso.

¿ Olha que vaca bonita ¿ apontava meu avô. ¿ Premiada. Campeã.

Hm. Estranho. Mesmo com todos os seus lauréis, aquela vaca parecia igual às muitas outras que eu já conhecera. Pois, embora seja porto-alegrense e tenha vivido sempre sobre o árido asfalto da cidade, já vi inúmeras vacas, de variadas pelagens, e ouso dizer que entendo um pouco da psicologia delas: vacas e bois não são animais arrebatados. Não existe paixão na existência deles. Aquela vaca, inclusive, nem o título conquistado na feira era o suficiente para empolgá-la.

Continuávamos andando e logo adiante deparávamos com um porco. Um porco gordo, que mal se locomovia. Comia, apenas. Comia, comia. Bem pertinho, as ovelhas. Quietas, sem balir um mé. Meio distraídas sob a lã densa.

Puxa, eu adorava acompanhar meu avô onde quer que ele fosse, mas a espécie de animais à mostra na Expointer não me entusiasmava. Porque as vacas todas, o que elas fazem o dia inteiro? Pastam. Nunca encontrei uma vaca que não estivesse pastando ou se preparando para pastar. Vacas dormem? Vacas se comunicam umas com as outras? Só se for enquanto pastam. Então, a vida das vacas não chega a ser emocionante. Um programa da National Geographic sobre as vacas duraria 30 segundos. O locutor anunciaria, voz empostada: ¿E agora, a vaca, seus segredos e mistérios¿. Em seguida, apareceria uma malhada mastigando grama. O locutor informaria: ¿A vaca pasta¿. Fim. Anúncio do patrocinador.

E, ainda que o porco e a ovelha não sejam tão... bovinos, também não podem ser considerados, digamos, ativos. Não há ardor na vida dos bichos da Expointer.

Foi o que pensei durante esses anos todos. Até que, dias atrás, falava sobre o assunto e uma moça me disse, com sua voz suave como o afago da mulher amada:

¿ O cavalo é o único animal que é doce sem deixar de ser selvagem.

Parei. Pensei. O cavalo! De fato, há cavalos na Expointer. E essa é uma boa forma de descrevê-los, doces e selvagens ao mesmo tempo. Talvez seja uma boa forma de descrever também a moça que cunhou a frase. Todas as moças, até, pois que as mulheres são assim: às vezes, selvagemente doces; outras, docemente selvagens.

Passei a encarar os animais da Expointer de outra forma. A ovelha, sempre tão resignada, o porco, pura alienação, eles devem ter seu lado... bem... animalesco. E a vaca: pela primeira vez reparei na beleza da vaca. Ela apenas pasta, está certo. Pasta, pasta. Mas com volumosa elegância, com a soberana serenidade de um ser que compreende que a mínima função vital da existência é, enfim, a única realmente importante. Que revelação. Cristo, como passei tanto tempo sem notar como é bela a vaca?

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
05/09/2003


A derrama

É muito simples para os cidadãos calcularem se os impostos aumentaram ou não com a reforma tributária, que começou ontem a ser aprovada no Congresso.

Com esse poder de fogo demonstrado pelo governo federal no plenário da Câmara, conseguindo votos não só da sua base de apoio como entre a oposição, seria inimaginável que fossem diminuir os impostos federais.

Como se diz abertamente que o governo cedeu à pressão dos governadores, é evidente que foram aumentados os impostos estaduais.

E outra não deve ter sido a sorte dos impostos municipais, que são sócios dos impostos estaduais, caso do maior imposto (ICMS).

Se nenhuma das três esferas vai cobrar menos imposto, claramente elas vão cobrar mais imposto depois de ontem, é evidente que vai haver aumento da carga tributária, ou seja, os contribuintes vão pagar mais imposto.

Como é então que figuras respeitáveis da República vêm a público insistentemente declarar que não haverá aumento da carga tributária?

Eu assisti, acordado até a madrugada, aos debates que antecediam a votação da reforma. O relator Virgílio Guimarães (PT-MG) disse várias vezes da tribuna que a carga tributária sobre os mais pobres vai diminuir, baseando-se que para os produtos da cesta básica será cobrada agora alíquota mínima do ICMS, muito menor que a atual.

Mas diminuição da carga tributária sobre os que consomem a cesta básica não quer dizer diminuição da carga tributária.

A carga tributária é medida pela quantia de impostos que todos os brasileiros pagam.

E é claro, sabem todos muito bem, embora muitos finjam que não saibam, que vai aumentar a carga tributária depois da aprovação da reforma.

Logo, o discurso insistente do relator da matéria não passou de uma eufêmica e retórica manifestação em defesa da derrama.

Vão ter de mudar depressa o sentido da palavra reforma depois do que está acontecendo.

Reforma vai ter outros significados no dicionário: aumento de impostos, aumento de ganhos dos governos, diminuição dos direitos dos cidadãos.

E literalmente o que houve ontem na Câmara Federal não foi reforma, foi o farrancho dos políticos de todos os partidos e das três esferas em cima do aumento de arrecadação dos seus respectivos cofres tributários.

E isso tudo é feito incrivelmente em cima da convicção geral do país de que a carga tributária já é exagerada.

Aí se reúne todo o mundo político em Brasília e decide aumentá-la ainda mais.

Seria lícito esperar de uma reforma que ela diminuísse a carga tributária, a canga jogada sobre os contribuintes brasileiros.

Em vez de diminuí-la, aumentam-na, como estão a depor todos os tributaristas e técnicos entendidos da matéria.

Estranha democracia esta em que os eleitores dão seus votos a todos os partidos e estes, acumpliciados, se reúnem na madrugada e votam contra os eleitores.

Deve ter alguma coisa errada no funcionamento desse sistema que denominam democracia.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Expointer 2003
Uma espera de 18 anos



Operários trabalham no pavilhão onde o presidente Lula quebra hoje um jejum iniciado em 1985, quando Sarney visitou Esteio (foto Emílio Pedroso/ZH)


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Quinta-feira, Setembro 04, 2003




Amor ritual

Que haja sempre magia em nosso amor:
que nosso quarto seja sempre, e onde for,
um templo e nosso encontro um ritual.

Que nossos beijos sejam sempre apaixonados
e o calor do desejo em nossos corpos
tão sagrado quanto o fogo que alimenta nossas vidas fundidas na emoção.

Que o teu olhar reflita eternamente
a luz do meu olhar
e em meu coração ecoe para sempre
o teu pulsar.

Que sempre, depois de consumado o rito
e entrelaçados trocamos carinhos com calma, sejam os nossos braços aconchegante
ninho onde repousam, felizes,
as nossas almas.

"Para quem já está está amando.
Mas se você ainda não estiver, não se apresse nem se aflija na busca...
é o amor que nos encontra!"

Marisa Zanirato

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A M I Z A D E

Quanta amizade enganosa
há neste mundo mesquinho;
há mãos que chegam com rosa
p´ra disfarçar seu espinho.

A falsa flor do pecado
você decidiu colher;
voltou machucado,
pois tinha espinho e prazer.

Eis o mais terno carinho
e a versão pura do amor;
entrega-me o teu espinho
que eu te darei uma flor.

Pe. Héber S.de Lima
"A Valsa das Flores"

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Rosane de Oliveira
04/09/2003


Respeito à instituição

Diferenças políticas à parte, amanhã é dia de os gaúchos darem uma demonstração de civilidade na visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Expointer. Nada de virar as costas durante o discurso se algum ponto não agradar a este ou àquele setor. A presença de Lula na solenidade de abertura, depois de 18 anos sem um presidente na tribuna de honra, valoriza a maior feira agropecuária da América Latina.

Seria mais cômodo para Lula alegar problemas de agenda e não vir à Expointer, como fizeram todos os presidentes depois de José Sarney. Mas Lula decidiu vir, atendendo ao convite do governador Germano Rigotto, mesmo sabendo que pisa em terreno delicado. Vem porque reconhece a importância do agronegócio para o futuro do país. Sabe que deve ao campo o bom desempenho das exportações brasileiras neste ano e está empenhado em superar os conlitos.

O presidente tem um motivo adicional para desembarcar amanhã em Esteio: a Expointer não é apenas a vitrina dos grandes produtores. No Parque de Exposições Assis Brasil também há espaço para a agricultura familiar, uma das bandeiras do seu governo. Lula tem marcado presença nas principais feiras agropecuárias do país. Seria difícil explicar a ausência em um Estado que desde 1989 só lhe deu vitórias.

Do presidente da Farsul, Carlos Sperotto, o governador Rigotto e o deputado petista Adão Villaverde receberam garantias de que não haverá hostilidades por parte dos produtores. É certo que Lula frustrará os agricultores se chegar a Esteio sem uma solução para o problema do plantio de transgênicos na próxima safra, mas isso não deve ser pretexto para qualquer tipo de descortesia.

Os grandes produtores não gostam do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, mas só têm elogios para o da Agricultura, Roberto Rodrigues. O bom trânsito de Rodrigues abre caminho para uma recepção amistosa a Lula. Isso não quer dizer que o presidente esteja imune a vaias em sua visita ao Rio Grande do Sul. Servidores públicos indignados com a reforma da Previdência não perdem oportunidade para promover manifestações contra o governo, como fizeram na Fenadoce, em Pelotas, e em diferentes pontos do Brasil.

rosane.oliveira@zerohora.com.br

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Nilson Souza
04/09/2003


A caixa preta

Meu pai comprou-a em 1936, quando tinha apenas 13 anos de idade. Pelo que recorda, custou 21 mil réis à vista, na Casa Masson da Avenida Eduardo, que hoje se chama Presidente Roosevelt. Réis - explico para os mais jovens - era o plural de real, a moeda antiga que precedeu o cruzeiro.

Depois, como todos sabemos, vieram o cruzeiro novo, o cruzeiro novamente, o cruzado, o cruzado novo, o cruzeiro mais uma vez, o cruzeiro real e, finalmente, o real. Pois a máquina fotográfica tipo caixote, da marca alemã AGFA, testemunhou de um ângulo estritamente familiar todas essas mudanças na cara do país - e ainda me deixou de herança algumas imagens da infância, em negativos 6 x 9 arranhados pela saudade.

Lembro-me bem como ela operava. Era uma pequena caixa preta, com dois visores e uma minúscula chave para rodar o filme. O fotógrafo tinha que segurá-la com as duas mãos, na altura do umbigo, cravando o queixo no peito para poder localizar a imagem na parte superior do aparato. Não era fácil enquadrar o alvo.

Bastava desviar um pouquinho para o lado e a imagem sumia do visor, enigmaticamente sempre para o lado contrário do movimento da máquina. São, portanto, perfeitamente explicáveis os parentes mutilados no álbum de fotografias, muitos sem pés, alguns sem partes laterais do corpo e até um indivíduo não identificado com o sorriso congelado na meia cabeça.

Porém, graças ao fotojornalismo familiar, conservo a imagem do meu primeiro carro: um jipe de pedal. Na verdade, eu era um dos sócios na propriedade do veículo, pois na época tinha que compartilhá-lo com dois irmãos - todos nós com menos de sete anos. Eu era o menor dos três. Por isso raramente ganhava o direito de dirigir, já que o motorista tinha também que fazê-lo andar com a força das pernas - e as minhas eram demasiado curtas para a tarefa.

Ainda assim, com um dos pés tocando no chão e lomba abaixo, eu conseguia fazer o jipe rodar por alguns metros. No volante daquele patinete de quatro rodas, eu devia ser uma espécie de Fred Flintstone, mas me imaginava o próprio Catarino Andreatta, que era o nosso ídolo da velocidade na época.

Aquela caixa preta guardou lembranças tão valiosas, que nem todos os cruzeiros, cruzados, reais - e o que mais vier por aí - seriam suficientes para pagá-las.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
04/09/2003


A outra

Pior foi aquela nossa amiga (fictícia, claro) que, apavorada com a perspectiva de envelhecer e o marido trocá-la por uma mais moça, fez plástica atrás de plástica, tantas que hoje tem 50 anos mas um corpo de 20 e um rosto de 30, se você não olhar muito de perto. Alisou e realisou as rugas, tirou daqui, enxertou ali, levantou acolá - o acolá é sempre o primeiro a cair - e conseguiu: não envelheceu. Mas no outro dia nos contou que o marido a trocou por outra. Estava inconsolável, só não podia chorar para não desmanchar a maquiagem.

Tentamos consolá-la assim mesmo, chamando o marido de tudo. Inclusive de cego, pois quem procuraria outra mulher, tendo uma como ela - corpo de 20, rosto de 30 - em casa? Os homens não tinham jeito. Em muitos deles, amadurecer era uma forma de voltar à adolescência. Iam em busca dos hormônios perdidos e só encontravam o ridículo. - Não me façam chorar, não me façam chorar - pedia ela.

As outras mulheres começaram a desenvolver teses sobre o que leva homens mais velhos a procurar mulheres mais moças. Pânico sexual, antes de mais nada. Descontadas, claro, as falhas naturais do caráter masculino, que também se acentuam com a idade. Mas ela que esperasse. Cedo ou tarde, ele se cansaria da mulher mais moça, ou ela se cansaria dele, e...

- Ela não é mais moça - interrompeu a nossa amiga. - Ela é mais velha do que eu! Abriu-se uma clareira de espanto. O quê? Mais velha?! E ela contou que a outra nunca fizera plástica, que a outra nem pintava os cabelos. Era uma senhora grisalha, matronal, exatamente do tipo que ele esperara em vão que ela ficasse, segundo ele mesmo dissera. Sim, porque nossa amiga fora pedir satisfação, pronta, inclusive, a bater na outra. Não só não batera como acabara ouvindo conselhos da outra - num tom maternal! O que mais doera fora o tom maternal.

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Paulo Sant'ana
04/09/2003


Primavera sobre nós

O humor popular, consagrado nos pára-choques dos caminhões, é sempre o mais simples e sibilino: "Mulher é como moeda: quando não é cara, é coroa".

E nada definia melhor o destino daquele homem do que o ponto final da sua biografia: ele vive com sua ex-mulher.

Nunca uma primavera foi tão aguardada, tanto que começam já a ser saudados os seus dons e os seus lavores, antes mesmo que ela derrube suas maravilhas sobre nós.

Os sabiás ensaiam os seus primeiros cânticos alegres nas árvores por toda a cidade, os beija-flores se agitam à espera da grande farra dos polens que os aguarda, ipês e jacarandás já se apressaram em colorir os seus galhos de amarelo e roxo.

A temperatura começa a subir, arrastam-se as últimas feijoadas e os mocotós.

Multidões de adolescentes se reúnem em grupos nas esquinas dos arrabaldes, pressagiando jogos e brincadeiras. Vão desaparecendo como por um milagre as dores lombares e nas articulações.

As pessoas e os cães se preparam para os largos passeios pelos parques e pelas ruas, em tudo se pressente o espetáculo da natureza a amparar o homem na sua faina diária, encerram-se os tormentos de um inverno sólido e castigante, que encheu os hospitais e fez as pessoas se entocarem refugiadas nos cubículos domiciliares.

Há crise de emprego e de dinheiro, mas com a primavera fica muito mais fácil enfrentá-la.

Assiste-se já há mais de dois anos ao espetáculo de recusa do preso Fernandinho Beira-Mar pelos sistemas penitenciários de vários Estados brasileiros.

O Rio de Janeiro, por onde ele é condenado, não quer vê-lo nem vestido de santo, Brasília já o recusou várias vezes, Rio Grande do Sul e Alagoas, consultados sobre se o aceitavam, não quiseram nem conversa, São Paulo, que o abriga desde o início do ano, ameaçou anteontem devolvê-lo ao Rio, mas a decisão judicial sobre isso foi derrubada ontem, às pressas, pelo STJ e ele permaneceu em Presidente Bernardes, embora insistam em se livrar dele e protestem por terem de hospedá-lo.

É o preso mais indesejado da história penal brasileira.

Incrível que com ele se consagre um inédito paradoxo: o bandido é mais perigoso e dá mais trabalho quando está preso do que solto.

A Souza Cruz, maior fabricante brasileira de cigarros vem a público para pedir que os consumidores de seus produtos fumem com moderação, afirmando o perigo que o fumo encerra.

A campanha contra o fumo, geral e irrestrita, atinge agora até o fabricante dos cigarros.

Quando o fabricante de cigarros, no maior contra-senso do capitalismo, diz "não fume", não há realmente maior estupidez que continuar fumando.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Tradicionalismo
A cidade farroupilha



Atividades no acampamento tradicionalista montado no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho começam dia 10 (foto Júlio Cordeiro/ZH)


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Quarta-feira, Setembro 03, 2003




Frieza

Os teus olhos são frios como espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.

Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!

Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
"Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!..."

Florbela Espanca

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Bandido

Fátima Irene Pinto


Se a luz é a outra face da treva,

Se a morte é a contrapartida da vida,

Se o ócio é o oposto da lida,

E triunfo, o outro lado da queda,

Se o riso é a outra face do choro,

Se a tormenta se opõe ao sereno,

Se o vazio é a outra face do pleno,

Se o castigo é a ausência do louro,

É assim que me queres, Bandido,

Na alegria mesclada de dor.

És meu Anjo ou mortal inimigo,

Pois o ódio é a outra face do amor!

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Procura-se um cão

É imprescindível que não tenha nenhum pedigree.
Preferência para focinhos pretos e pelagem de cor indefinida.
Pode ser magro, que de tanto, tenha o contorno do esqueleto exposto sob a pele.

Que seja capaz de encarar todas as pessoas com aquela inocente confiança de cão abandonado, que nunca distingue quem vai lhe dar um osso ou uma porrada... e mesmo assim, continua sendo capaz de olhar amorosamente tanto para os que o alimentam quanto para os que o escorraçam.

É preciso não ser muito preocupado com auto-estima. Vira-latas que se prezam costumam não ter nenhuma... porque são poços profundos de desinteressado amor.

Há que ter um olhar terno quase suplicante, ser capaz de olhar de soslaio e inclinar a cabeça choramingando, toda vez que não entender alguma coisa ou ficar desapontado por um pito que ele nem sabe se mereceu.

Deve ser ruidoso e estridente quando eu estacionar o carro na garagem, em manifestação inconteste de satisfação pela minha chegada e pela minha presença.

Há que saber brincar, esconder chinelos, arrastar tapetes e correr desvairado quando livre na campina ou na praia, por saber-me feliz e redobrar as peraltices, pelo simples fato de notar que eu o observo.

Há que ter senso comunitário e assim, estender a sua lealdade aos demais membros da casa e àqueles que ele sabe que me são caros.

Até hoje eu criei gatos - alguns de raça. Gatos são altivos, oportunistas,
auto-suficientes, apesar de sumamente belos e graciosos.
Tentei (em vão) aprender com eles a lição máxima da auto-estima...
gatos são exímios na arte de se vender caro.

Agora eu procuro um vira-latas - talvez nem tenha que procurar - não só como amigo, mas como instrutor. Quero assumir as virtudes que nele sobejam como a transparência, a ressonância, a espontaneidade e, acima de tudo, a capacidade de amar incondicionalmente, mesmo quando escorraçado.

Fátima Irene Pinto

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Martha Medeiros
03/09/2003


A nova tendência

A primeira crônica que escrevi para Zero Hora, em julho de 1994, era sobre uma reportagem com três jovens atrizes cujo título era: "A virgindade volta à moda". As atrizes anunciavam que pretendiam casar virgens - um direito delas -, mas me pareceu retrocesso divulgar isso como um modismo, como se virgindade fosse uma calça boca-de-sino, que num verão se usa e no seguinte não se usa mais.

Parece que agora há uma nova tendência no ar: o lesbianismo. Curtir mulheres está sendo propagado como algo fashion, assim como uma jaqueta bomber ou uma bolsa de couro metalizado.

Well, well, homossexualidade é assunto sério. Que bom que a sociedade está aprendendo a respeitar as diferenças. Mas uma coisa é possuir esta inclinação sexual, outra é ser maria-vai-com-as-outras. Uma adolescente, hoje, liga a tevê e assiste ao clipe da banda t.A.T.u., cujas vocalistas se acariciam calientemente. Vê Sônia Braga ter um caso com uma loira em Sex and the City. Vê diariamente duas mulheres formarem o par romântico mais sólido da novela das oito.

Vê Sharon Stone dar um amasso numa fã durante um leilão. Vê Madonna e Britney Spears trocarem um beijaço durante o MTV Awards. Vê Preta Gil declarar que já transou com mulher pra ver se incrementa seu currículo. Se a adolescente for meio abobada, pode aderir só por macaquice, pra se sentir moderna.

Quem acompanha meu trabalho sabe que sempre defendi o direito de as pessoas amarem quem quiser, seja de que sexo for. No entanto, este boom não me parece o simples reflexo de uma liberdade conquistada. O lesbianismo está sendo explorado como recurso de marketing. Há quem afirme que as meninas da banda t.A.T.u. não são namoradas coisa nenhuma.

Sex and the City estreou fase nova e precisava de um factóide. Sharon Stone não faz um filme que preste há anos, está se virando pra voltar a ser notícia. Madonna e Britney Spears são superstars cujas carreiras dependem de manter seu nome na mídia. Quanto às garotas da novela, acho um exemplo mais realista, e o autor trata do assunto com pertinência, sem apelação.

Temos conquistado várias vitórias em termos de comportamento, muitas delas ligadas ao mundo feminino e ao sexo. São conquistas, espero, irreversíveis. Mas que sejam consistentes e duradouras, e não "vendidas" como modismo, pois modismos estimulam apenas o consumo, e consumir atitudes nem sempre atende a nossas reais ansiedades, principalmente na adolescência. Ter experiências homossexuais não é a mesma coisa que experimentar a maquiagem da Jade ou usar os mesmos brincos da Edwiges. Ou é? Se for, perdoem esta dinossaura que vos fala.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
03/09/2003


A senda da perdição

Uma vez, estava em dúvida se contratava ou não um repórter. Aí calhou de termos um joguinho de futebol. O cara foi. Terminada a partida, havia me decidido: não queria um tipo daqueles trabalhando comigo. Não que fosse ruim de bola, até nem era. Mas pela forma como jogava. Aquele sujeito devia ter Fanta Uva correndo nas veias. Nenhuma solidariedade o movia, nenhum sentimento coletivo mexia com seus nervos. Ao contrário, procurava se esquivar de qualquer responsabilidade no jogo, a não ser que pudesse extrair dali algum deleite pessoal - o drible, o chute a gol, o tempo a mais com a bola nos pés.

Às vezes, uma partida de futebol revela traços de caráter que não aparecem numa entrevista ou num questionário de RH. Mas meia hora de conversa informal também pode ser bastante esclarecedora. Porque o camarada não está armado, não está esperando a curva que vem depois da pergunta.

Foi uma conversa dessas, breve mas reveladora, que tive com um dos jogadores do Grêmio, meses atrás. Um jogador habilidoso, de reconhecida capacidade técnica. Depois de alguns minutos de charla, entendi um pouco do que ele espera da vida. Vou contar aqui. Sem lhe revelar o nome, até porque faço um julgamento subjetivo, posso estar enganado. Mas acho que não.

Esse jogador, duvido que ele possa acrescentar algo de positivo em qualquer grupo de trabalho. Ficou claro, através de inúmeros sinais, que o tipo está interessado tão-somente em si mesmo, no que pode auferir daquilo que encara não como uma profissão, mas como um reles emprego. Ele é mais do que um individualista ou um egoísta; é um cínico que não acredita no que faz.

Tal indivíduo, engastado no vestiário, é um monumento ao cafajeste bem-sucedido. Mesmo que não boicote ninguém, ainda que não sabote trabalho algum, ele serve de exemplo permanente de que, na vida, vale mesmo é levar vantagem em tudo. Vale o célebre "primeiro o meu". Os jogadores jovens, os que têm pendências com o clube, os que por ventura se julguem injustiçados pela direção, olham para esse jogador e concluem: ele está certo.

Talvez esse jogador não seja o único de tal jaez no grupo do Grêmio. Talvez. Christian, num desabafo de fim de partida, usando a linguagem própria dos jogadores de bola, já alertou a respeito dos que dão "migué". Não entende quem não quer entender. Os dirigentes, porém, garantem que todos ficam até o final de seus contratos. É mais uma leniência de tantas que vêm sendo cometidas desde o começo do ano. Não é à toa que o Grêmio trilha há tanto tempo o caminho das trevas. Não é à toa que já fincou os calcanhares no que as avós chamariam de a senda da perdição.

No trepa-trepa
Daiane dos Santos foi descoberta no trepa-trepa. Contei isso no Bate Bola e o Pelaipe abriu um risinho malicioso. Só que é trepa-trepa mesmo, aquele brinquedo com barras de ferro. Até admito que o nome é meio impróprio, trepa-trepa permite conotações para aquém da nobreza do atletismo. Mas interessa o fato, enfim: ela foi descoberta enquanto se dependurava no trepa-trepa do Cete.

A Claudia Schiffer também foi descoberta. Estava meneando as melenas amarelas numa danceteria de Frankfurt, um agente de modelos a viu e pensou: ela será a número 1. Foi.

Quer dizer: dois talentos de exceção que surgiram por acaso, graças ao olho aguçado de um conhecedor.

Quantas pessoas estão por aí, em boates e trepa-trepas, passeando pelos shoppings e jogando bola nas calçadas, anônimas, inocentes, esperando ser descobertas? Por que não fui descoberto ainda? Por quê??? Estão faltando descobridores, nesse país.

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Paulo Sant'ana
03/09/2003


Foi ao ar, perdeu o lugar
O caso do cantor nativista Paulo Machado, 31 anos, publicado ontem em Zero Hora, causou estupefação.

Ele reside em Eldorado e sua mulher tinha que dar à luz um filho. Resolveu se transferir para a casa de parentes em Porto Alegre, mais próxima do atendimento obstétrico.
Levou móveis de sua casa, a ausência seria longa. A criança nasceu e duas semanas depois Machado retornou à sua casa, no centro de Alvorada.

Não pôde entrar em casa, as chaves de sua residência tinham sido trocadas. E na sua garagem já estavam estacionados um carro e uma motocicleta.

A casa tinha sido literalmente invadida. E só pode ser retomada com ação na Justiça.
Desde logo as pessoas que leram no jornal este caso configuraram a hipótese de que isso lhes acontecesse.

Vejam por exemplo o caso das moradias de veraneio nas praias e na Serra. Quer dizer então que qualquer pessoa que invada uma casa de veraneio só a entregará de volta se o verdadeiro dono entrar na Justiça?

É comum que pessoas esbulhadas em seus direitos ouçam isto por parte de quem as esbulhou: ¿Vá procurar seus direitos na Justiça¿.

Ocorre no entanto que toda sorte de dificuldades e embaraços burocráticos envolve muitas vezes as pessoas que têm de recorrer à Justiça.

E nesses casos inverte-se totalmente a ordem natural das coisas, quem tem direito líquido e certo é aquele exatamente a quem cabe o ônus, muitas vezes financeiro, de ter de recorrer à Justiça, enquanto o usurpador conta com a benesse da delonga do processo de retomada de sua propriedade para continuar afirmando o seu esbulho.

O caso foi muito comentado no meu círculo de relações. E todos tinham a mesma opinião: se fosse com eles, retirariam o invasor de sua casa à força.

Evidentemente que isso é dito assim meio que irresponsavelmente por quem está de fora da questão.

No entanto, há um dispositivo do Código Civil que ampara este entendimento: tem direito de usar a força quem tiver sua propriedade sendo esbulhada.

É claro que é mais sensato recorrer à Justiça, mas que se torna num desaforo colossal encontrar alguém dentro de sua própria casa, sem nenhum título, sem nenhum documento que o autorize a isso, recusando-se a sair depois que a invadiu indevidamente, disso ninguém tem dúvida.

Contam-me que em Santa Catarina, recentemente, aconteceu caso análogo: uma mulher, tendo de viajar, cedeu sua casa a uma conhecida, que passou a ocupá-la.

Quando voltou da viagem, a conhecida ou amiga recusou-se a entregar a casa à proprietária.
É análogo mas não é idêntico. Houve a transmissão da posse do imóvel pela proprietária. A nova ocupante tinha um título de confiança da proprietária, a entrega do imóvel.

Mas neste outro caso de Eldorado toda a aparência é de ilegalidade do invasor: quem ocupou a casa do cantor nativista diz que as prestações da aquisição do imóvel estavam atrasadas. O cantor nega veementemente isso.

Mas quer dizer então que basta que alguém atrase as prestações de um imóvel e não esteja eventualmente morando nele para que se proceda a uma invasão? E quem atrasou prestações de uma casa tem menos direito do que quem não pagou nenhuma prestação?

Na marcha que vão as coisas, quando alguém se dirigir a um shopping para fazer compras pode encontrar sua casa ocupada por outros.

Só quem passa por isso é que sabe o quanto de atribulações custa a uma pessoa para recorrer à Justiça.

Quem tinha de recorrer à Justiça era o invasor.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Expointer
A noite do Troféu Guri



Cerimônia homenageou ontem, na Expointer, 10 personalidades gaúchas que colaboram na divulgação da tradição e da cultura do Estado (foto Ricardo Duarte/ZH)


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Terça-feira, Setembro 02, 2003




Fanatismo

Minh alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim !...


Florbela Espanca

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Sozinho

Eu fico imaginando nós dois

Ás vezes no silêncio da noite
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes , o agora e o depois

Porque você me deixa tão solto ?
Porque você não cola em mim ?
Tô me sentindo muito sozinho
Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho ás vezes cai bem
Eu tenho meus segredos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Porque você me esquece e some ?
E se eu me interessar por alguém ?
E se ela de repente me ganha ?

Quando a gente gosta
Claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca prá fora
Ou você me engana
Ou não esta madura

Onde está você agora ?


Autor: Peninha
Intérprete: Caetano Veloso

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Canteiros

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento
Pode ser até manhã
Cedo claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem
me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza
E eu ainda sou tão moço
pra tanta tristeza ...
Eu só queria ter no mato
Um gosto de framboesa ...

Cecília Meireles

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Decorar bem para vender mais
Saber harmonizar as cores e os produtos na vitrine é uma arte que atrai os consumidores
Silvana Caminiti

A primavera se aproxima, ditando novas tendências em termos de moda. É hora de arrumar os novos modelos nas vitrines para atrair a atenção do consumidor e garantir as vendas. Tudo isso o lojista já sabe, o que poucos se lembram é que a vitrine é uma importante ferramenta de vendas. Por isso, é preciso planejá-la, já que a visualização do produto está diretamente relacionada às vendas.

Na rede de lojas de artigos para decoração e presentes Imaginarium, por exemplo, o conceito e o visual das vitrines são decididos pelos profissionais que cuidam do marketing, da criação de produtos e coordenação da marca, quatro meses antes da decoração ocorrer.

O visual das lojas sempre foi um ponto forte da Imaginarium. Com o trabalho conjunto entre as três áreas, o que fizemos foi aprimorar a comunicação interna e a forma como a empresa se comunica com seus clientes, explica Wander Cairo Levy, da agência que cuida da publicidade da empresa.

A cada ano, as lojas apresentam 17 vitrines diferentes, sendo que quase todas as decorações são usadas por três semanas apenas. A padronização da decoração nos 60 pontos-de-vendas da rede pelo País garante a identidade das lojas e captam a atenção do consumidor, como lembra a gerente da loja no Barra Shopping, Elizabeth Pereira Teixeira. A vitrine é um importante meio de chamar a atenção de quem passa no corredor e trazê-lo para dentro da loja, lembra a gerente.

A rede Imaginarium tem como principal diferencial a proposta de surpreender os consumidores com produtos práticos e bonitos, de desenho diferenciado. O foco da marca é o público que gosta de novidades.


Imaginarium: (21)2431-9496, http://www.imaginarium.com.br

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Gosto do Liberato por estas coisas que ele escreve e por estes sentimentos que ele trasnsmite:"Tanto que, ao despertar cada manhã, contemplo o brando espelho do rio, e as ilhas, e o desenho das nuvens. É quando toda uma claridade vai abrindo sem bater a sala de estar de minha alma". Uma ótima terça-feira a todos nós.

Liberato Vieira da Cunha
02/09/2003


O direito de maravilhar-se

Houve épocas em que o mundo era uma estréia permanente.

Quando fui apresentado ao mar, esse mar cor de iodo, desprovido de baías, penínsulas, corais, órfão de palmeiras ou de lobos, que é o que nos coube ao sul de Torres, imergi num poderoso, instantâneo encantamento. As vagas, o ar salgado, o horizonte além do qual começava a África fluíram em cada célula e pensamento e me surpreendi liberto em plenitude, voando feito os pássaros que não havia.

A primeira vez que vi uma mulher nua, aquela doce, secreta invasora de um oculto território, nos confins da Granja da Penha, meu coração bateu o recorde olímpico. Nenhuma outra a superou depois em esplendor e graça, ali tomando um sol, intrusa e repousada e bela. Eu era um guri de 12 anos. No enleio de mais olhá-la, dei um passo em falso, pisei nuns gravetos, tropeço que, num silente universo, soou como um trovão. A jovem, anônima visitante vestiu-se em meio segundo, examinando apreensiva e tímida os quatro pontos cardeais, e sumiu em direção ao aramado que era o último limite da chácara.

É uma longa, intensa, amável viagem de trem. Uma chuva fina principia a cair. Cruzo Mons, Quévy, Le Cateau, St. Quentin. Na noite fria, a paisagem vai ganhando lentamente um contorno de luzes. E então se forma, pouco a pouco, entre os pingos da janela, o branco perfil do Sacré-Coeur, no alto da colina a que chamam de Montmartre. Inauguravam-se ali semanas infinitas, em que me pegava volta e meia feliz pelo simples ato de estar vivo.

O que há de inquietante na idade madura é essa perda do direito de maravilhar-se. Os três momentos agora reinventariados não foram os únicos que botaram norte e sentido em minha vida. Disponho de regular coleção de outros.

Sucede que as visões, os desejos, os sonhos que hoje me procuram extraviaram a imensidão de antes.

Mas sou um cara teimoso. Insisto em me habitar de esperança.

Tanto que, ao despertar cada manhã, contemplo o brando espelho do rio, e as ilhas, e o desenho das nuvens. É quando toda uma claridade vai abrindo sem bater a sala de estar de minha alma.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
02/09/2003


Duzentos fogos andando

Uns dez anos atrás, eu almoçava em Porto Alegre com um professor da USP, um urbanista dedicado à história da cidade no Brasil. Era um restaurante de onde se descortina a Borges de Medeiros, diante do parque Marinha do Brasil. E era setembro, Semana Farroupilha - o que significa dizer, na história recentíssima da comemoração máxima da identidade gaúcha, que contávamos já com o acampamento montado no parque da Harmonia, com aquelas centenas de gentes por ali.

Eis que passa um piquete de cavalarianos pela rua, todos pilchados e, como convém, armados, com uma faca de razoável tamanho atravessada na cintura e, talvez, com algum revólver pendurado. O urbanista paulista olha para aquilo e, com total sinceridade, me pergunta: "Vocês não têm medo disso?". O prezado leitor, se for gaúcho, deve compartilhar minha surpresa ao ouvir a pergunta. Como assim, ter medo de gente andando à gaúcha? Claro que não, digo pra ele. E digo mais: imagino que ao contrário, as pessoas tendem a gostar ativamente daquelas figuras.

Ao mesmo tempo entendo sua pergunta: são centenas e milhares no conjunto, quase todos homens, adultos, a cavalo - e armados. Para um paulista morador da megacidade, deve mesmo ser uma visão da guerra. (O temor de meu interlocutor tinha um tempero político: "Eles não podem ser um braço armado do conservadorismo?", ele queria saber. Eu disse que achava que não. E o senhor?)

A cena me voltou à memória dias atrás, quando aqui mesmo, na Zero Hora, uma chamada na contracapa dizia que de um fogo aceso no sítio que uma vez pertenceu a Barbosa Lessa saíram fogos que seriam levados, com garbo e a cavalo, em mais de 200 cavalgadas pelo Estado, numa preparação à Semana Farroupilha deste ano. Cálculo rápido: um mínimo de 10 pessoas por comitiva resulta em 2 mil pessoas; mudemos para 50 em média, e teremos nada menos que 10 mil cavaleiros e cavaleiras, andando por aí, cruzando a geografia local, com fogo remotamente derivado, em símbolo, da fonte que era Barbosa Lessa, um dos formuladores da atual voga gauchesca, recente de 50 anos.

Não tenho absolutamente nada contra os 200 e tantos grupos, nem temo que sejam milhares prontos para uma guerra reacionária. O que me faz ficar pensando é o inusitado da coisa. Afrontando frios e sóis, pilchados, vão esses milhares pela estrada, numa espécie de aventura, mais ou menos controlada. Atrás de algo? À frente de algo? Ou o mero regozijo da companhia e a vivência do simbolismo já é tudo, como uma procissão religiosa cujo fim se esgota em acontecer?

fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
02/09/2003


CPMF: a culpa é minha

O Destino (mas podem incluir aí também espírito aventureiro, além de uma juvenil disposição para a militância política) me fez presenciar alguns dos momentos mais dramáticos da história recente do país. Menino ainda, eu estava no centro de Porto Alegre quando dos distúrbios que se seguiram ao suicídio de Vargas; estava próximo ao Palácio Piratini quando, no auge do Movimento da Legalidade, anunciou-se que os tanques iriam bombardeá-lo; e estava nas ruas quase desertas de Porto Alegre na manhã do golpe militar. Ah, sim; posso dizer também que assisti, ao menos em parte, ao nascimento da CPMF.

Aconteceu em Porto Alegre, durante uma visita do então ministro da Saúde, Adib Jatene. Notável cirurgião cardiovascular, homem decidido, Jatene desesperava-se com a crônica falta de verbas para a saúde. Contou então, a um grupo de médicos de saúde pública, entre os quais eu me encontrava, que uma fonte de financiamento específica estava sendo procurada para este fim; cogitava-se, por exemplo, de um imposto sobre refrigerantes.

Teríamos, então, de estimular a população a tomar Coca-Cola para assim arranjarmos dinheiro para vacinas e medicamentos? Foi o que eu pensei, mas não disse nada, porque no fundo estava meio cético em relação àquelas ponderações. Não deu outra: o imposto foi criado, mas não sobre refrigerantes, e sim sobre o cheque (afinal, é nos cheques que está o dinheiro). E a grana arrecadada não foi para a saúde: caiu na vala comum do Tesouro. Estas mudanças de rumo não são novidade na política econômica brasileira, feita à base de pacotes e medidas provisórias. Provisória era para ser a CPMF, como diz o P da sigla; depois ficou definitiva (dizem que pode terminar em 2007, mas será que terminará mesmo? O futuro a Deus pertence).

E se a idéia do imposto sobre refrigerante tivesse triunfado? Hoje, esses líquidos seriam muito mais caros (o que, do ponto de vista de saúde pública, não me parece de todo mau), mas a taxa não apareceria nas nossas contas bancárias. Será que eu não deveria ter defendido entusiasticamente a proposta? Será que não era aquele um desses momentos críticos da História em que uma opinião, mesmo insignificante, poderia ter sido decisiva?

Não sei, e agora é tarde para descobrir. O certo é que me omiti. Reconheço esta culpa. Uma a mais, entre tantas outras.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
02/09/2003


Única saída heróica

Começa com o debate a ser lançada luz sobre o mistério da desastrada campanha do Grêmio em toda a temporada de 2003.

Ontem, o jogador Gilberto prestou extensas declarações ao repórter Luís Henrique Benfica, de ZH, assim como a outros integrantes da imprensa.

E delas eu extraio o seguinte ponto, o essencial: "Não é o meu caso, mas é muito duro para um jogador estar se preparando para concentrar-se e receber um telefonema cobrando que o seu aluguel está atrasado ou que não pagou a prestação do apartamento que adquiriu".

Mais tarde, o jogador admite que não só o Grêmio está em atraso financeiro, há também outros clubes, mas faz uma ressalva preciosa e definitiva: "No entanto, os times que estão chegando lá na frente não estão com os salários atrasados".

Eu nunca vi nada mais esclarecedor. Reparem numa coisa: o Grêmio quebrou, entrou em default no ano passado. Isto é, deterioraram-se completamente suas finanças no ano da véspera do seu centenário.

E a direção atual do Grêmio pensou que podia enfrentar o ano do centenário com suas obrigações salariais em atraso. Como se nota pela tragédia da campanha em todo o ano, foi exatamente aí que ocorreu a catástrofe.

Agora examinem bem e teçam a teia lógica: no ano passado, quando o Grêmio começou a atrasar os salários, sabem o que aconteceu? Simplesmente o seguinte: com o Tite, que tinha o grupo na mão, o Grêmio perdeu todos os campeonatos que disputou: perdeu o Gauchão, perdeu a Libertadores e perdeu o campeonato brasileiro etc. Isto é, com os salários atrasados no primeiro ano, o Grêmio não ganhou nada.

Imaginem o que aconteceria neste ano, 2003, o segundo ano de salários atrasados, com a maioria do plantel já tendo sofrido isto no ano passado? É lógico que esta catástrofe que está ocorrendo: nunca na história do futebol mundial, em clubes profissionais ou varzeanos, jamais em todo o planeta um clube conseguiu perder 17 jogos num só campeonato. Pois é o que está acontecendo no Grêmio.

É mais do que claro que está desenrolado o nó górdio da questão: são os salários atrasados, mal administrados pela direção no relacionamento com os jogadores, que arremessam o Grêmio para o abismo.

Sabem por que nós, jornalistas, afetamos não entender a causa do desabamento gremista? Não entendemos porque percebemos os nossos salários em dia. Se vivêssemos dois anos de salários atrasados em nossas empresas jornalísticas, nós entenderíamos perfeitamente o que está acontecendo no Grêmio.

Agora é o seguinte: é possível que seja tarde para qualquer providência. Mas eu afirmo que só existe uma chance de o Grêmio não cair para a segunda divisão. É a única tábua de salvação, a única: o presidente Flávio Obino tem de aproveitar estas duas semanas de folga e tomar a seguinte providência: sair do seu gabinete e assumir a direção de futebol. Descer para o vestiário, o Saul Berdichevski vai entender que é uma medida heróica.

No vestiário, o presidente Flávio Obino tem de se entender com os jogadores. Ou paga os salários atrasados ou paga parte dos salários. E o que não puder pagar, tem de garantir aos jogadores que pagará em seguida.

Tem de olhar nos olhos dos jogadores e fazer com que eles acreditem no presidente. Tem de ser o presidente, como diretor de futebol. Para essa solução heróica não adianta mandar um vice-presidente ou um diretor. Os jogadores não acreditam mais em ninguém. No presidente, se ele for persuasivo, acreditarão.

Podem ficar certos de que, se ainda existe solução, esta é a única solução.

Caiu finalmente o mistério do mais completo aniquilamento gremista. E eu não escrevi ontem aqui que só os jogadores poderiam decifrar esse mistério?

Só o presidente descendo ao vestiário e realizando uma sincera terapia de grupo com os jogadores é que pode haver salvação. Resta saber se o presidente terá esta lucidez e este desprendimento.

Se não os tiver, cai para a terceira divisão no ano que vem.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Expointer
Sala de aula no parque dos animais



Com planilhas e cadernos repletos de perguntas, estudantes invadiram a exposição em passeios organizados pelas escolas (foto Ricardo Duarte/ZH)


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Segunda-feira, Setembro 01, 2003




Hora "H"

O Despertar na Nova Era,
Se realidade ou quimera,
Muito pouco importa Agora:

Todo dia é Dia Primeiro,
Seja Dezembro ou Janeiro.

Outras coisas são de fora !

Importa o que somos dentro
do corpo,
que é o Nosso Centro.

Só Vale a Presente Hora !

Silvia Schmidt
Dedicado ao momento presente

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= Declaração dos Direitos do Amor =
Silvia Schmidt


Considerando ser o Amor
o maior de todos os agentes de Utilidade Pública,

PROCLAMA-SE O QUE SEGUE:
Artigo 1º
O amor pode apropriar-se de todo e qualquer coração,
com ou sem anuência do dono.

Artigo 2º
Em presença de sentimentos inferiores, tais como a raiva,
o ódio e o ressentimento, ao Amor é permitido julgá-los e
extraditá-los sem direito a reconsideração da pena.

Artigo 3º
O Amor deve ser respeitado em todas as suas formas,
sejam elas dirigidas a pessoas, coisas, vegetais ou animais.

Artigo 4º
Ao Amor é sempre permitida a companhia do perdão,
pois que sem este Ele está falsificado.

Artigo 5º
O Amor tem o direito de ficar cego, surdo e mudo
quando em presença de maledicências
e pode apresentar-se como agente de paz
diante de desarmonias e atos prejudiciais
a todos os seres do Planeta.

Artigo 6º
O Amor tem licença plena para manifestar-se livremente,
independente de raça, credo ou religião.
Ele é incondicionalmente livre
para viver em seu habitat natural: o coração.

Artigo 7º
O Amor é bússola que aponta o caminho para a Felicidade
e assim deve ser indiscutivelmente reconhecido.

Artigo 8º
A todo aquele que banir o Amor do seu coração
será imputada a pena de solidão,
isolamento e sofrimento perpétuos.

Artigo 9º
O Amor nunca deverá ser responsabilizado por dores,
perdas ou danos e tem amplos poderes para neutralizar
todas as batalhas, sejam elas emocionais, familiares ou sociais.

Artigo 10
Ao Amor não se aplicam Leis Trabalhistas:
Ele pode exercer suas funções 24hrs por dia
durante TODOS os dias do ano.

Artigo 11
Quando o Amor entra em corações, deve ser bem recebido,
bem tratado, bem nutrido e absolutamente livre para agir
em prol de todos os envolvidos por Ele.

Artigo 12
Em nenhuma hipótese o Amor deverá ser álibi
para atitudes de más intenções, tais como usá-Lo
como desculpa para enganar, iludir ou controlar corações.
Também nunca poderá ser instrumento de brincadeira
com o sentimento do homem ou da mulher.

Artigo 13
Toda e qualquer tentativa de matar o Amor será tratada
pelo Universo como crime contra a vida do próprio mandante.

Artigo 14
O Amor é partidário da Lei de Causa e Efeito:
Ele pode partir em definitivo da Vida daqueles
que optam pelo sofrimento diante das adversidades,
e também daqueles que se deixam cair em abandono.

Artigo 15
Ao Amor nada deve ser acrescentado
e Dele também nada retirado,
posto ser o mais perfeito de todos os sentimentos
e manifestação absoluta de Deus.

Parágrafo Único:
Os Direitos do Amor sempre protegerão os legítimos
Direitos de Todos os Seres.


= REVOGUEM-SE TODAS AS DISPOSIÇÕES EM CONTRÁRIO =

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CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 1O DE SETEMBRO DE 2003
Bancários aceleram campanha

Domingo foi dia de campanha salarial para o Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região, que distribuiu carta aberta, no Brique da Redenção, alertando para as altas taxas de juros e tarifas cobradas pelos bancos. Eles reivindicam reajuste de 21,58% e participação nos lucros e resultados. Hoje, em São Paulo, será realizada a quarta rodada de negociações com a Fenaban e também o 'Dia do respeito ao cliente'.

Em Porto Alegre, os bancários percorrerão agências para orientar sobre o cumprimento da lei municipal das filas. A categoria pede ainda a ampliação do horário de atendimento ao público, entre 9h e 17h, com a volta de dois turnos de trabalho. Segundo o sindicato, a readequação pode gerar 150 mil novos empregos.

Para a comunidade a concretude dessa idéia seria fantástica, pois com certeza as filas estariam reduzidas, haveria mais tempo para a população ir aos bancos e, para um salário médio de mais ou menos tres salários mínimos, para lucros estratosféricos como os que os bancos estão tendo, nada mais justo.

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CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 1O DE SETEMBRO DE 2003

CEF cadastra interessado em operar no Caixa Aqui


A Caixa Econômica Federal (CEF) inicia hoje o cadastramento de estabelecimentos comerciais interessados em atuar como correspondentes bancários do Caixa Aqui. O objetivo é de que até o final do ano mais 2.250 estabelecimentos comerciais de todo o país estejam realizando operações bancárias em tempo real. As inscrições ocorrem até dia 18 pelo site www.caixa.gov.br ou em qualquer agência. As contratações começam a partir de 3 de outubro.

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Nudez histórica
Edição com 28 anos de fotos sensuais monta panorama das melhores mulheres de cada época
Zean Bravo



Lucinha Lins, quem diria, já desbancou Luma de Oliveira. Isso, só mesmo o mais atento dos colecionadores é capaz de lembrar. Dezessete anos antes de surgir como Deusa da Luxúria, em sua quarta capa da Playboy (maio de 2001), Luma já havia tido destaque na edição de agosto de 84 com a seguinte chamada: A nudez total de Luma, irmã de Ísis de Oliveira. A estrela maior desse número, acredite, era Lucinha, presente do 9º aniversário da revista, que agora, aos 28 anos, lança um exemplar histórico com todas as 337 capas publicadas até hoje. A revista faz parte da vida do homem brasileiro. Todos recordam da primeira e daquela que guardou. Fazer livro seria pretensioso, por isso chamamos esse especial de álbum, explica a diretora de redação da revista Cynthia de Almeida.


O álbum, com 98 páginas, está nas bancas e só traz as capas, sem as fotos do recheio. Os atrativos são curiosas capas como a de Cláudia Raia em março de 84 ela era apresentada como Maria Cláudia, a Estrela Sensação de Chorus Line. O feito da revista nos anos 80 foi desnudar estrelas da TV, destaca Cynthia. Ela cita como histórica a edição de fevereiro de 87, com Maitê Proença. As fotos vinham num caderno separado. Bacana é mostrar a mudança estética dos padrões femininos. A Maitê que posou depois (em agosto de 96) é outra, compara a diretora, lembrando que a onda de repeteco não é privilégio só das S(c)heilas, Carla Perez, Luma e Feiticeira.



Maiores interessados nas fotos das peladas, os leitores destacam seus números inesquecíveis. Vera Fischer, Feiticeira e Cida Marques fazem parte do meu estoque, empolga-se o apresentador da MTV Marco Bianchi, 31 anos, que lista ainda as edições memoráveis por outras razões. A da Cláudia Ohana era uma homenagem à preservação das florestas (ela posou em 85 com o título Beleza Selvagem). E essa recente da Helô Pinheiro com a filha foi meio bizarra, reclama.



Entre as preferidas de Anderson Leonardo, do Molejo, estão as atrizes Christiane Torloni, Angela Vieira, a ex-jurada do SBT Sônia Lima, e a modelo Vanusa Spindler. Tenho 31 anos, mas sempre fui tarado. E como estou solteiro, compro até hoje. Já o publicitário Marcello Mendes, 33, dispara: O homem que disse que nunca comprou uma Playboy está mentindo.

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Luis Fernando Verissimo
01/09/2003


Cristo e Cook

Uma vez, numa reunião de escritores em Sydney, ouvi um poeta aborígene começar a contar um evento ocorrido na sua tribo numa certa data "BC"... e interromper-se para explicar aos estrangeiros que para os aborígenes "BC" não queria dizer "Before Christ", antes de Cristo, mas "Before Cook", ou antes do capitão James Cook, que ao tomar posse da Austrália em nome do rei Jorge III da Inglaterra, em 1770, mudou a vida deles para sempre. Era uma brincadeira, mas com uma verdade embutida: a cronologia de povos nativos não coincide com a cronologia imposta pelos seus colonizadores. O Novo Mundo, por exemplo, só era novo para os europeus do século 61. Já havia gente e velhas civilizações por aqui "AC": não Antes de Cristo mas Antes de Colombo, Cabral ou Cortez.

Várias categorias humanas têm o equivalente à dicotomia Cristo e Cook do poeta, ou divisões diferentes da sua história de acordo com suas peculiaridades, tradições e pontos de vista. Sem falar, claro, nas religiões cujos mitos inaugurais têm outros nomes, como Maomé ou Abraão. Assim tanto a psicologia quanto o capitalismo têm suas eras AF e DF (Antes e Depois de Freud, Antes e Depois de Ford), no mundo da eletrônica AC e DC querem dizer Antes e Depois do Chip e todos os anos da nossa atualidade recente deveriam ser seguidos das letras AD, significando não "Anno Domini", mas "Ano Digital".

Pois a chegada do código binário certamente modificou a vida de todo o mundo tanto quanto a chegada do Capitão Cook modificou a vida dos aborígenes da Austrália.

Outro exemplo: a história do cinema moderno, PS (Pós Som), se subdivide em AJLG e DJLG, ou Antes de Jean-Luc Godard e Depois de Jean-Luc Godard. Com um só filme, Acossado (À Bout de Souffle), de 1960, Godard acabou com todas as convenções da montagem cinematográfica e mudou a gramática do cinema para sempre. Tanto que, hoje, novidade é alguém usar os recursos que Godard desprezou. "Dissolves", "fade outs" e "fade ins" para sinalizar a passagem de tempo, aquelas coisas. (Porque, com o tempo, nada fica tão revolucionário quanto o acadêmico). Enquanto reinventava o cinema, Godard aproveitou e inaugurou os anos 60. De certa maneira, toda a história cultural do nosso tempo pode ser dividida em AJLG e DJLG.

Que outra figura foi o Cristo ou o Cook de qual forma de arte? Na música, Antes e Depois de Beethoven ou Antes e Depois de Stravinski? Na filosofia, Antes e Depois de Nietzsche? E na política brasileira, essa arte de tão poucos talentos? Antes e Depois de Getúlio Vargas, certo. Ninguém como ele mudou os rumos da República tão drasticamente. No futuro se falará num Brasil AL e DL? Difícil dizer. Por enquanto, Lula não parece disposto a ser o mito inaugural de nada muito diferente.

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Paulo Sant'ana
01/09/2003


Grêmio no precipício

Na rua, as pessoas me perguntam aflitas: "O que se tem de fazer para o Grêmio não cair para a segunda divisão?"

Eu respondo a todas que nada mais há que fazer. Há muito tempo nada mais há que fazer.

Alguém decidiu que o Grêmio estava proibido de obter vitórias e a decisão se arrasta silenciosa, sem que qualquer diagnóstico sobre essa renúncia à vitória tenha sido alcançado pelos responsáveis pelo time.

Evidentemente que por trás disso há um segredo. Há um fator compulsivo para a derrota no vestiário do Grêmio.

No jogo de sábado contra o Fluminense, foi demais. Não foi só gols que o Grêmio não fez: o Grêmio também não conseguiu atacar o Fluminense uma única vez, nenhuma bola foi chutada pelos jogadores do Grêmio contra o gol do Fluminense em 90 minutos.

Mesmo que a ruindade explique, ela só explica a parte menor. A parte maior é a determinação do time, a vontade dos jogadores. E não se vê qualquer vontade de mudar a tendência de derrotas. O time cumpre apenas a tabela, resignando-se à derrota como se ela já estivesse estabelecida.

Nada mais há que fazer. Foram mudados os treinadores, foram mudados os dirigentes, não existe isso de querer a renúncia do presidente.

A renúncia é um ato unilateral de vontade, só a pessoa que detém o cargo é que pode decidir sobre sua renúncia.

E adiantaria uma renúncia do presidente? Ao que tudo indica, de nada adiantaria. Há muitos meses que o Grêmio marcha inexoravelmente para o rebaixamento, depois de cumprir a campanha mais vergonhosa de sua história, o triste é que exatamente no ano de comemoração do seu centenário.

Domina o espírito do time e o espírito do vestiário uma inclinação para a derrota que nenhum dirigente e nenhum treinador consegue derrubar.

A chave desse mistério se poderia encontrar numa manifestação dos jogadores. Mas as suas declarações são formais e evasivas, ninguém até agora revelou onde está o nó górdio da questão.

Apenas o centroavante Christian esses dias pisou no tomate verbal. Depois que a torcida encheu-o de vaias após uma derrota, desabafou no microfone: "Esta torcida tem de levar um 'migué' mesmo".

Depois Christian desculpou-se, mas "migué" quer dizer "corpo mole". Ficou a impressão de que o desabafo de Christian levava a uma pista.

E lá se vai o Grêmio na direção da segunda divisão, com ninguém compreendendo como pode, a cada jogo que passa, depois de tantas palavras de esperança numa reviravolta, o time lá dentro de campo ser uma massa desanimada e amorfa.

É a isto que não podiam ter deixado que chegasse o impasse gremista: a torcida e o clube à mercê dos jogadores.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Ginástica
Lágrimas douradas de Daiane



A gaúcha Daiane dos Santos, campeã do mundo em ginástica solo, teve recepção de celebridade na Capital (foto Júlio Cordeiro/ZH)


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Domingo, Agosto 31, 2003




Táticas para despir uma mulher


No mundo há diversos tipos de mulher. Mas uma coisa é certa: todas estão nuas em algum lugar. E você sabe disso e pensa nisso antes mesmo de trocar duas palavras com uma moça atraente. Despir com os olhos é tática número um de todo homem de boa imaginação.

Cá entre nós, existem mulheres bem mal despidas. Afinal, o negócio não se resume em simplesmente tirar a roupa. Isso qualquer um pode fazer, de qualquer jeito, sem contar as vezes que eles não tiram tudo por livre e espontânea cara de pau.

Saber despir uma mulher é também a sabedoria de saber deixar uma peça que, de repente, vai fazer toda diferença. Ou de saber um body de um espartilho na prática. Ou ainda coisas importantíssimas como jamais "en la vie", num lapso de deselegância, aparecer pelado de meias em frente a qualquer mulher que não seja sua mãe.

Com os olhos:
Tática bastante aplicada. Boa, pois pode ser aplicada em qualquer ocasião, com qualquer mulher e em todos os lugares, públicos ou não. Com limites, claro. Não vale forçar a barra ou babar.

Com palavras:
Evite grosserias do tipo: "Gostaria de ser o seu tampax" (célebre frase do não menos broxante Príncipe Charles). Prefira algo como: "vou fazer você delirar, vou fazer você suar...", e cumpra a bendita promessa.

Com sabedoria:
Mostre o quanto admira a inteligência dela. Balbucie frases que não deprezem tal virtude, ou seja, papos cabíveis: "Você tem as pernas lindas", é melhor do que "nunca vi pernas mais fantásticas em minha vida". Afinal, mentira tem perna curta.

Com uma ordem:
Diga incisivamente, olhos fixos nos dela, com segurança e tranqüilidade arrasadoras: "Tire a roupa!". Muitas vezes funciona. Muitas.

Com uma massagem:
Isso mesmo. Reúna toda a sua boa vontade e algumas noções básicas de shiatsu e proponha uma massagem relaxante. Difícil ela dizer não. Se ela disser "fica pra outro dia"... esqueça.

Com o teclado:
Hoje em dia, o que não falta é peladona na net. Mas claro, você gostaria que sua participação fosse um pouco mais ativa, assim, com alguma interatividade. Entre num destes chats onde mulher procura homem, encontre um par que você julgue ser uma mulher (nunca se sabe) e comece a teclar. Depois é só pedir o ICQ e ativar os comandos: tira, tira tudo".

Com um acidente:
Use essa tática com muito critério, pois pode trazer, mais problemas do que soluções. Jamais derrame vinho tinto (que mancha) na blusa de seda da moça. Prefira água ou destilados; depois, tente oferecer sua secadora para secar a blusa.

Tettê acha que tirar a roupa é relativamente fácil. Difícil mesmo é despir as armaduras que criamos para nos proteger dos outros.

Tettê Schimitd é jornalista; escreveu em parceria com Ulisses Tavares, o livro "Guia do Homem - Que Toda Mulher Deve Ler", da Geração Editorial.

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Você olha e não vê?

"A felicidade só se encontra no exato momento em que se escolhe para ser feliz". Forte, enigmática, reflexiva e enfática essa frase dita no palco por uma atriz do Teatro da Universidade de Mogi das Cruzes (Tumc), no espetáculo "O Dragão de Sete Cabeças - Parte 1", encenado pelo Teatro da Universidade de Mogi das Cruzes (Tumc). Mas que momento exato pode ser esse? É agora? Daqui a pouco? É possível escolher um momento para ser feliz? Não é nada disso, a reflexão é mais profunda.

Entender o conceito da felicidade é uma questão difícil, vem com a maturidade, com a experiência de vida - boa ou ruim, com o discernimento, com o fazer o bem, com uma convivência banida de sentimentos negativos, enfim, não importa.

Acho que estamos exigindo demais de nós mesmos e do outro e, com isso, continuamos em busca dessa tal felicidade sem ao menos saber o que ela significa. Ela está aí, e muita gente não vê. Percebemos a vida passar tão depressa e não nos damos conta de que é preciso voltar nossos olhos e nossos sentidos para dentro da gente. Ao desviarmos os olhos do nosso próprio umbigo, é possível observar com mais atenção as pessoas que vivem à nossa volta e perceber o quanto são queridas e como a presença delas é importante; sào fundamentais.Perceba o prazer que você sente ao fazer o que gosta, viva em paz consigo mesmo.

Às vezes é preciso que alguém nos mostre isso. Descubra-se uma pessoa mais feliz. Você vai se surpreender!

Marta Vicentin

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O melhor dos dois mundos
Médicos e terapeutas naturais unem esforços para pôr ordem no mercado da medicina complementar e evitar o charlatanismo

Mônica Tarantino

Os brasileiros se rendem cada vez mais a terapias como acupuntura e shiatsu

Os nomes variam. Alguns ainda chamam de medicina alternativa, outros, mais modernos, de medicina complementar. E há quem batize terapias como acupuntura, ioga, fitoterapia e aromaterapia de práticas heterodoxas. Mas todos a descrevem como um conjunto de técnicas, sistemas e produtos usados na atenção ao corpo que foge aos padrões da medicina convencional.

Seja lá que nome tiverem, esses tratamentos conquistam a cada dia um público maior, de usuários a profissionais de saúde. Basta conferir o crescimento no número de médicos estudiosos e praticantes da acupuntura, por exemplo.

Em três anos, o total de médicos que estudaram acupuntura no Brasil passou de dois mil para cinco mil. Neste caso específico, um dos grandes estímulos para o aumento foi o reconhecimento da acupuntura como especialidade pelo Conselho Federal de Medicina, em 1996. Mas há outros indicadores do fôlego do setor.

Uma estimativa do Sindicato Nacional dos Terapeutas Naturistas (Sinaten) esses não possuem diploma médico indica que há no Brasil cerca de 70 mil terapeutas atuando nas cinco áreas mais populares da medicina natural. São elas o toque (massoterapia), as terapias holísticas (mescla de várias práticas), a medicina chinesa, os florais e a fitoterapia (uso de medicamentos à base de plantas).

Os remédios à base de plantas como chicória e camomila faturam US$ 1 milhão por ano.

A força das terapias alternativas é um fenômeno mundial. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que nos Estados Unidos, por exemplo, há cerca de 50 milhões de adeptos. As pessoas têm procurado cada vez mais massagens, ginásticas diferenciadas, acupuntura e outras técnicas para combater problemas que vão de dor nas costas à depressão, stress ou simplesmente cuidar de seu bem-estar. E até que se mostre que certas terapias não funcionam, a quantidade de usuários continuará se multiplicando.

Uma das explicações é a sensação de acolhimento e respeito pelas emoções que a maioria dos indivíduos experimenta ao passar pelos cuidados de um terapeuta complementar. Muito diferente do que ocorre grande parte das vezes em que se procura um médico convencional. Diante do aumento, as autoridades de saúde americanas decidiram colocar alguma ordem na casa e criaram o Centro Nacional de Medicina Complementar.

Trata-se de um órgão destinado à investigação científica das práticas de cura e bem-estar de acordo com os métodos mais rigorosos da ciência. O serviço também informa os profissionais da saúde e a população sobre os resultados de estudos recentes e revisões da literatura científica associada a cada prática. Ele serve de orientador sobre o uso mais adequado das terapias e os casos em que não devem ser aplicadas, diz o médico e acupunturista Chin Lin, da Universidade de São Paulo (USP).

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Diogo Mainardi
O nacional-foguetismo

"Os lulistas insistem que o Brasil precisa dominar a tecnologia espacial. Antes de dominar a tecnologia espacial, seria melhor dominar a tecnologia de combate à esquistossomose".

Quando Lula foi eleito, o jornal americano de ultradireita Washington Times advertiu que o Brasil poderia fabricar foguetes com capacidade para atingir os Estados Unidos e matar um monte de gente. Bobagem. Os foguetes brasileiros só matam brasileiros.

Os lulistas continuam a insistir que o Brasil precisa dominar a tecnologia espacial. Antes de dominar a tecnologia espacial, seria melhor dominar a tecnologia de combate à esquistossomose.

O Brasil, nos últimos anos, investiu mais de 1,5 bilhão de reais em seu programa espacial. Os parlamentares lulistas sempre acharam pouco. Queriam que Fernando Henrique Cardoso liberasse mais verbas para o foguete nacional, o VLS. Aldo Rebelo disse que o VLS era a "mais importante vitória tecnológica do século". Waldir Pires anunciou que o VLS nos colocaria "no rol das nações com tecnologia para o setor". Socorro Gomes declarou que o VLS romperia a "hegemonia da Nasa". Marcelo Barbieri denunciou o "boicote" americano ao VLS. Embora se preocupassem com os programas espaciais, os parlamentares lulistas também souberam se ater a questões mais terrenas, aproveitando a eleição de Lula para ocupar postos importantes na administração pública. Aldo Rebelo tornou-se líder do governo. Waldir Pires foi agraciado com a Controladoria-Geral da União. Socorro Gomes foi nomeada delegada regional do trabalho, em detrimento de um funcionário de carreira. Marcelo Barbieri, anel de ligação entre o quercismo e o lulismo, virou assessor especial de José Dirceu.

O diretor da Agência Espacial Brasileira, o engenheiro Luiz Bevilacqua, usou a tragédia na base de Alcântara para pedir mais dinheiro ao governo. Ele afirmou que, com mais dinheiro, a tragédia não teria ocorrido, porque teria sido possível contratar pessoal mais qualificado. Ou seja, enquanto as famílias das vítimas choravam suas mortes e buscavam uma radiografia das arcadas dentárias para identificar seus corpos, o engenheiro Bevilacqua insinuava que os técnicos só haviam morrido porque eram incompetentes. Como é que o engenheiro Bevilacqua pode falar uma coisa dessas? Como é que ele ainda não foi mandado embora?

Os parlamentares lulistas recusaram o acordo com os Estados Unidos para o arrendamento da base de Alcântara com o argumento de que feria a soberania nacional. Um dos pontos do acordo era que o dinheiro pago pelos americanos não poderia ser aplicado no desenvolvimento do VLS. Invertendo a equação do engenheiro Bevilacqua: se não tivéssemos investido um único tostão no VLS, ninguém teria morrido.

Antes de chegar ao poder, os parlamentares lulistas criticavam a participação brasileira na Estação Espacial Internacional. Agora mudaram de idéia. Uma das metas do programa é mandar um astronauta brasileiro para o espaço. Considerando a sofreguidão com que a nova classe dirigente ocupa todos os cargos disponíveis, é bem provável que o astronauta brasileiro seja lulista. Lulista ou não, acho uma temeridade mandar um brasileiro para o espaço. Quem assistiu a Planeta dos Macacos sabe do que estou falando. Imagine um planeta inteiro dominado por gente como nós.

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Martha Medeiros
31/08/2003



De novo

Anos atrás escrevi uma crônica dizendo que era perda de tempo ler, já que para ser alguma coisa na vida bastava comer gafanhoto vivo. Estávamos vivendo o auge do programa No Limite, mas muita gente não entendeu a ironia: me escreveram pedindo que eu não deixasse de incentivar a leitura.

O pior é que erro e não aprendo. Semana retrasada publiquei outro texto irônico, falando sobre a necessidade descabida que temos de consumir qualquer coisa que surja com o rótulo de novidade. Na última frase, deixei claro que estava cansada de invencionices. Mas ficou claro coisíssima nenhuma. A maioria dos e-mails que recebi era de pessoas dizendo "é isso aí, concordo com você, temos que fazer coisas novas, viver cada dia de um jeito". Outro tiro pela culatra.

Então, hoje, sem dar uma de engraçadinha e sem correr o risco de ser incompreendida, volto ao assunto pra citar alguns exemplos de novidades que demonstram que está mesmo valendo qualquer coisa pra ser diferente. Um é o flash mob, que virou moda em Nova York meses atrás e já chegou no Brasil.

São aglomerações com local e hora pré-determinados, onde um grupo se encontra, faz alguma performance rápida e depois se dispersa. Em São Paulo, o primeiro flash mob deu-se assim: um grupo encontrou-se na Avenida Paulista, aí todos tiraram um pé do sapato e bateram com ele no chão. Depois o calçaram e foram embora, cada um para um lado. Mas a proposta pode ser uma gritaria coletiva, pular 10 metros como um saci... Performances.

Tem também leilões em que não são oferecidos lances por quadros, jóias ou tapetes, e sim pela companhia de uma celebridade para jantar ou até mesmo por um beijo cinematográfico. Foi o que Sharon Stone ofereceu - e deu - para uma fã americana que desembolsou o equivalente a R$ 160 mil por 45 segundos de amasso explícito, com direito a todos os músculos bucais envolvidos.

Mais um exemplo? O novo acessório fashion que surgiu em alguns desfiles na Europa: o uso decorativo do band-aid. Simplesmente colocar um band-aid no corpo sem ter nenhum machucado, apenas como bossa.

No que isso prejudica o mundo? Em coisa alguma. Ao contrário, distrai. É a celebração do nonsense. Em vez de desabarmos para dentro, caindo no próprio vazio, externamos nosso vazio na tentativa de dar-lhe alguma utilidade, nem que essa utilidade seja nenhuma.

Preencher vazios não é tarefa para amadores. É preciso mais do que piruetas no meio da rua, ter uma rápida intimidade com um artista ou usar band-aid feito tatuagem. O preenchimento do nosso vazio se dá através de maneiras ainda muito tradicionais: através da arte, da emoção, do pensamento, do esporte e da solidariedade. O resto é festa, é diversão ocasional, o que, aliás, é ótimo, não mata nem engorda. Mas o vazio segue vazio. E o novo, quando não tem nenhum propósito, continua nascendo com cara de velho.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
31/08/2003



O café como estilo de vida

A cafeteria de outros tempos chamava-se simplesmente café. Os lugares onde as pessoas tomavam café eram totalmente diferentes

Vocês já notaram quantas cafeterias novas estão surgindo em Porto Alegre? Só na Listel figuram cerca de 50 estabelecimentos: Café do Porto, Consulado do Café, Companhia do Café... São lugares elegantes, sofisticados, nos quais o café (em geral expresso, e sob numerosas variedades) é servido com vários acompanhamentos e vira pretexto para horas de conversa amena, aquela conversa da qual o Liberato é fã. A cafeteria antes chamava-se simplesmente café. Não é apenas uma mudança de nome, é uma mudança de estilo. Porque os lugares em que se tomava café eram muito diferentes.

Eram, antes de mais nada, um símbolo da modernidade européia. Como o próprio café, aliás. Substância estimulante, capaz de manter as pessoas despertas, ativas, o café era a beberagem ideal para uma época competitiva, uma época de desafios e de conquistas. Mais: era considerado benéfico para a saúde, capaz de purificar o sangue, curar a hidropisia, fortalecer o fígado. Finalmente, era um antídoto contra a bebedeira, contra a ociosidade e a inércia associadas ao álcool.

Não por outra razão, os puritanos ingleses (aqueles mesmos que depois colonizariam a América do Norte) celebravam o café, inclusive em versos: "Quando o sedutor veneno da traiçoeira vinha/ afoga a nossa razão e nossas almas/ quando a nebulosa cerveja, no rastro de lamacentos vapores/sitia nossos cérebros/ o café chega, este sério e íntegro extrato/ que cura o estômago, torna a mente ágil/ desperta a memória/ estimula o triste."

Estimular o triste era outro objetivo prioritário. Tristeza é um problema numa conjuntura em que as pessoas precisam de entusiasmo para sobreviver. E para conviver: na Europa, as casas de café eram lugares de reunião em que se discutia política e negócios. Em fins do século 17 funcionavam em Londres cerca de 3 mil desses estabelecimentos, um para cada 200 habitantes. E eram cafés "especializados". No Lloyd's, por exemplo, reuniam-se pessoas ligadas a empreendimentos navais. Homens, naturalmente: aquele não era lugar para mulheres.

Não deve causar surpresa, portanto, o título de um panfleto que circulou na cidade em 1764: Petição das mulheres contra o café, trazendo à consideração do público as grandes inconveniências para o sexo feminino do uso excessivo dessa bebida enfraquecedora e esgotante. Enfraquecedora para a prática sexual, mas alentadora para a prática comercial.

Porto Alegre teve vários e famosos cafés. O Central, por exemplo, na Rua dos Andradas. E o lendário Bar e Café Bom Fim, na esquina da Oswaldo Aranha com a Felipe Camarão, que era mais conhecido por Fedor. Ali não apenas se tomava café como se jogava sinuca. Os mictórios não eram fechados, de modo que, sem maiores delongas, o jogador poderia deixar de lado o taco e urinar. E o cheiro da urina deu à casa seu apelido.

No Fedor reunia-se uma variada clientela: comerciantes, profissionais liberais, políticos, receptadores. Suas portas jamais se fechavam, o que, em 24 de agosto de 1954, causou um sério incidente. No dia em que Getúlio se suicidou, grupos de manifestantes percorriam as ruas, exigindo que os estabelecimentos comerciais fechassem as portas. Por alguma razão (as dobradiças estavam emperradas, suponho), isto não aconteceu no Fedor. O resultado foi um tumulto que acabou em mortes.

As novas cafeterias são bem diferentes. E mostram que, apesar de tudo, as coisas estão mudando. Sabemos conservar as tradições - o chimarrão está aí para prová-lo - mas sabemos também experimentar novas maneiras de convivências. Isto se chama pluralismo. E é algo tão bom e estimulante quanto uma gostosa xícara de café.
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
31/08/2003


A dor do desemprego

Eu vivo um tempo de atribulações para as pessoas. E se me fixo nisso é que não posso fugir do meu tempo.

Recebo inúmeras mensagens de desempregados que cortam o coração. Impossível me debruçar sobre todas, mas uma especialmente me comoveu, a desta senhora ou senhorita que corre desesperada atrás de uma colocação há meses. É dramático o seu relato:

"Aprecio muito teu trabalho e a maneira como abraças as causas contra as injustiças, por isso resolvi escrever.

Hoje participei da oitava entrevista de emprego. Em sete meses, oito entrevistas, todos aqueles testes, entrevista com psicólogos, gerentes de RH, diretores. Em todas elas, fui elogiada pelo meu desempenho nos testes e pelo excelente currículo que apresento. Em todas elas escutei que entrariam em contato para dar o resultado, se positivo ou negativo. Em sete não recebi nenhum contato.

A entrevista de hoje foi diferente. Recebi o retorno na hora. O diretor que estava me entrevistando novamente me elogiou, elogiou meu currículo, minha atenção, minha postura, e a maneira impressionante como eu me destaquei das demais nos testes. O meu foi o melhor, mas... aí ele abriu o jogo: estou com o nome sujo na praça. SPS e Serasa. Por isso, e somente por isso, a vaga não é minha.

Te pergunto: É justo? Eu pedi para estar desempregada? Há um mês fui despejada. Tenho dívida com a imobiliária. Tranquei a faculdade por falta de pagamento. Tenho dívida com a faculdade. Perdi telefone, internet, e tenho dívida com todos esses meios. Ainda tenho o celular a cartão, que em breve também perderei por não ter dinheiro para inserir créditos. Estou morando de favor, comendo de favor, dormindo no chão da sala da amiga que me acolheu e está me dando um teto e um prato de comida (e me empresta o computador para eu poder continuar enviando meus currículos).

Sei que tem gente em situação infinitamente pior do que a minha, mas eu sei a dimensão do meu sofrimento. Saí da entrevista de hoje humilhada, fragilizada, diminuída, por saber que, mesmo que eu seja uma excelente profissional, não conseguirei uma recolocação no mercado de trabalho enquanto não limpar meu nome. E como limparei meu nome e pagarei minhas dívidas sem estar trabalhando? Dá pra entender?

Hoje gastei os últimos R$ 5 que eu tinha para ir na entrevista de emprego. A partir de agora, terei que pedir emprestado para a mesma amiga que está me acolhendo. E minha dignidade vai cada vez mais para baixo.

Gostaria de te pedir uma gentileza. Faça um apelo, em nome de todos os desempregados que se encontram na mesma situação que eu, para que as empresas lhes dêem oportunidade. Dizem que não há profissionais qualificados, mas não dão chance para os qualificados, por causa da maldita restrição de crédito.

Desculpa, mas não consigo mais escrever. Vou tomar um banho quente e tentar dormir. Amanhã é outro dia.

Obrigada pela sua atenção e me desculpa pelo desabafo. Eu só precisava colocar isso para fora. Oculte minha identidade. Um forte abraço".

Eu não posso entender como se barra uma pessoa assim tão qualificada por estar fichada no SPC e na Serasa.

É evidente que com esse brutal desemprego as pessoas afundam em dívidas. E vão atrás do emprego justamente para quitá-las, para melhorar de vida.

Ter dívida num tempo escuro como o que vivemos não pode de maneira nenhuma ser um estigma.

Que falta de compreensão e de compaixão. Que desumanidade! Passou com láurea em todos os testes, rodou no SPC! Pobre mulher. Deus ou algum bom coração que a acuda. Vou ficar aqui com seu endereço.

Maldita maldade humana.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
31/08/2003


Nossa missão

Você e eu estamos na Terra para nos reproduzirmos. Tudo o mais que fazemos, tudo a mais que nos acontece, ou é decorrência ou é passatempo. Nossa missão é transmitir os nossos genes, multiplicar a nossa espécie e dar o fora. A Natureza só se interessa pelos nossos anos férteis. O que vem antes e depois é preparação e epílogo, ou entra no pacote como brinde.

Se a Natureza quisesse otimizar seus métodos, como um empresário moderno, já nasceríamos púberes e morreríamos assim que nossos filhos, que também nasceriam púberes, pudessem criar seus filhos (púberes) sem a ajuda dos avós. Daria, no total, uns 35, 40 anos de vida, e adeus. O que resolveria a questão demográfica do planeta e, claro, os problemas da Previdência. Mas a Natureza nos dá o resto da vida, a infância e a velhice e todos os prazeres extra-reprodutivos do mundo, inclusive os sexuais, como um chaveiro. Pela missão cumprida.

A laranjeira não existe para dar laranja, existe para produzir e espalhar sua própria semente. A fruta não é o objetivo da planta frutífera, é o que ela usa para carregar suas sementes, é o seu estratagema. Agradecer á laranjeira pela laranja é não entendê-la. Ela não sabe do que nós estamos falando. Suco? Doçura? Vitamina C? Eu?! Você e eu ficamos aí especulando sobre o que a vida quer de nós, e só o que a vida quer é continuar. Seja em nós e na nossa prole, seja na minhoca e na sua descendência. Nossa missão, nossa explicação, é a mesma do rinoceronte e da anêmona.

Estamos aqui para fazer outros iguais a nós. Isto que chamamos, carinhosamente, de "eu", com suas peculiaridades e sua biografia única, não é mais do que uma laranja personalizada. Um estratagema da Natureza, a polpa com que a Natureza protege a nossa semente e, assim, assegura a continuação da vida. Enfim, um grande mal-entendido. E os que passam pelo mundo sem se reproduzir? São caronas. Ganham o brinde mesmo sem merecer o pacote. A Natureza não discrimina.

Quando Marte esteve perto assim da Terra pela última vez, há 60 mil anos, o que havia de mais parecido com gente era o homem de Neandertal. Há pouco, ficamos sabendo que nem parente nosso ele era, mas já devia existir no mundo, então, leitor, em algum pre-chimpanzé, o seu DNA. O meu não porque meus ancestrais não descendem de um casal de macacos, como os de todo o mundo: foram adotados.

O inglês Richard Dawkins usou uma imagem poética da Bíblia, "E saía um rio do Eden para regar o jardim, e dali se dividia e se tornava em quatro braços" (Gênesis, 2:10), como epígrafe do seu livro "River out of Eden" no qual ele fala da evolução como um rio de genes que brota da nascente da humanidade e corre através do tempo, bifurcando-se, quadrifurcando-se etc, trazendo o código vital de todos os seres que existem. E todos os seres vivos, hoje, têm em comum genes vencedores, ou que encontraram portadores bem sucedidos e não enveredaram por braços mortos do rio. Todos os nossos ancestrais, sem exceção, viveram pelo menos até a puberdade e encontraram pelo menos um parceiro heterosexual com o qual tiveram pelo menos uma relação sexual. Somos todos descendentes de sobreviventes férteis. Só o que a Natureza nos pede é que não os decepcionemos.

Marte voltará a se aproximar da Terra daqui a 284 anos. Provavelmente não estarei mais aqui, o que não me impede de especular sobre que tipo de gente estará. A evolução humana já acabou e nenhum aperfeiçoamento da espécie é possível ou desejável depois da Patrícia Pillar ou a humanidade terá mudado em 2287? Nossas alterações físicas têm acontecido lentamente. Certamente não haverá tempo para a correção das distrações mais evidentes da evolução, como a permanência dos mamilos nos homens e das unhas nos pés. Mas daqui a 284 anos nasceremos, por exemplo, com celulares colados no ouvido? Uma modificação fascinante é possível.

Os primeiros homens tinham a pele negra para protegê-los do Sol. Só depois da diáspora africana e da ocupação do Hemisfério Norte é que a nossa pele começou a clarear. Com o aquecimento progressivo da Terra não é demais especular que em 2287 seremos todos, de novo, negros. Até os noruegueses. Isso se ainda sobrar gente na Terra, e observadores de Marte não concluírem que os sinais de civilização eram enganosos e nunca houve realmente vida inteligente no planeta azul.

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Expointer 2003
Feira abre com chuva e fogos



A Expointer inaugurada neste sábado sob chuva fina pelo governador Germano Rigotto e o ministro da Agricultura Roberto Rodrigues (ao centro) teve um clima de harmonia, com queima de fogos de artifício (foto Antônio Pacheco/ZH


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