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E N T R E L A Ç O S

Sábado, Outubro 25, 2003




S H E

(Charles Aznavour/Herbert Kretzmer)
Intérprete: Elvis Costello

She may be the face I can't forget
Ela pode ser o rosto que não consigo esquecer

A trace of pleasure or regret
Um traço de prazer ou arrependimento

May be my treasure or the price I have to pay
Pode seu meu tesouro ou o preço que tenho que pagar

She may be the song the summer sings
Ela pode ser a canção que o verão canta

May be the chill the autumn brings
Pode ser o frio que o outono traz

May be a hundred different things
Pode ser uma centena de coisas diferentes

Within the measure of the day
No espaço de um dia

She may be the beauty or the beast
Ela pode ser a bela ou a fera

May be the famine or the feast
Pode ser a fome ou o banquete

May turn each day into a heaven or a hell
Pode fazer de cada dia um paraíso ou um inferno

She may be the mirror of my dreams
Ela pode ser o espelho de meus sonhos

A smile reflected in a stream
Um sorriso refletido em um rio

She may not be what she may seem
Ela pode não ser do jeito que parece

Inside her shell
Dentro de sua concha

She who always seems so happy in a crowd
Ela, que parece tão alegre na multidão

Whose eyes can be so private and so proud
Cujos olhos podem ser tão secretos e tão orgulhosos

No one's allowed to see them when they cry
Ninguém tem permissão para vê-los quando choram

She may be the love that cannot hope to last
Ela pode ser o amor que não se espera que dure

May come to me from shadows of the past
Pode vir para mim de sombras do passado

That I'll remember till the day I die
Que lembrarei até o dia em que morrer

She may be the reason I survive
Ela pode ser a razão pela qual sobrevivo

The why and wherefore I'm alive
O motivo pelo qual estou vivo

The one I'll care for
A pessoa de quem eu cuidarei

Through the rough and ready years
Através dos bons e maus momentos

Me, I'll take her laughter and her tears
Eu, eu tomarei seu sorriso e suas lágrimas

And make them all my souvenirs
E farei deles minhas lembranças

For where she goes I've got to be
Pois onde ela for eu deverei estar

The meaning of my life is she
A razão de minha vida é ela

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"Silêncio!"


No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...

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David Coimbra
26/10/2003


O Kadão e o pastel

A vida sem fritura não vale a pena ser vivida. É dos meus ditados preferidos, desculpem-me os comedores de granola. Pensei nisso ao ver aquele pastel. Ainda sorrio, quando lembro dele. Era um pastel bem fornido, do tamanho de uma agenda, o ventre volumoso recheado de delicados nacos de ovo cozido e carne moída com critério. Mas o principal é que a massa fina vinha besuntada de óleo. Emocionei-me.

Havia muito que não encontrava um exemplar daqueles. Os pastéis atuais parecem feitos a máquina de indústria. São secos, quase crocantes. E não têm ovo! Aquele pastel, não. Aquele pastel fora concebido por meio de cálido banho em muito, muito azeite. Era um pastel de verdade, uma vez que a gordura é toda a alma de um pastel.

Olhei para ele repousando ao lado de um irmãozinho no balcão do bar da redação. Pensei: esse pastel será meu. Todo meu.

Nesse momento, o Kadão, editor de foto da Zero, estacou ao meu lado. Também admirava o pastel, logo vi.

Estremeci. Ali estava um homem que sabe apreciar os predicados de um autêntico pastel, que não se intimida com um pouco de óleo nas artérias. Os outros, em volta, esses não constituíam perigo algum - reles comedores de salada verde, de sopas de envelope, de borrachudas barras de cereais. O Kadão, de jeito algum. O Kadão é um gordo.

Alguém aí vai se escandalizar: mas como esse cara chama o outro de gordo desse jeito, em público? Como se gordo fosse xingamento. As pessoas estão assim, agora. Você quer deixar uma mulher feliz? Minta:

- Como você está magra...

O dia dela estará ganho. Para as mulheres: magra = bonita. Mas não é nada disso. Magra quer dizer, apenas, magra. Já uma pessoa gorda não é necessariamente feia. O Kadão, por exemplo, trata-se um gordo que, se deixar de ser gordo, perderá todo o charme. Talvez viesse a se transformar num daqueles magros tristes, eternamente revoltados com suas obrigações dietéticas. Mas felizmente o Kadão não corre tal risco. Assume-se como gordo e quem o conhece tem o prazer de conhecer um gordo alinhado, elegante, inteligente, feliz.

Era esse gordo que cobiçava o pastel, o meu pastel, no bar da redação. Havia motivos para temer, portanto. Mas, puxa, gosto do Kadão, ele é meu amigo, isso me fez hesitar. Valeria arriscar minha amizade com o Kadão por um pastel? Olhei para o Kadão. Olhei para o pastel. Era um lindo e gorduroso e apetitoso pastel. Suspirei. Teria de tomar uma atitude dura. Comecei:

- Lamento, Kadão, mas há momentos na vida em que...

Então, ele me interrompeu. Apontou para o pastel da direita. O irmãozinho.

- Fico com este. Tu com o outro. Feito?

As flores se abriram no canteiro do Arroio Dilúvio, o sol encontrou uma fenda no concreto armado do prédio e aqueceu meus ombros, os passarinhos cantaram nos fios de alta tensão da Avenida Ipiranga.

- Feito! - concordei, entusiasmado.

Daí, pedimos guaranás e passamos a comer nossos pastéis. O guisado caía, arteiro, pelas bordas, a massa estava tão molhada de óleo que se desmanchava, eu e o Kadão ríamos, felizes, enquanto nossos colegas ciosos de suas silhuetas torciam o nariz:

- Que nojo.

Comi tudo, foi tudo muito bem, o único senão ficou para uma gota de azeite que manchou minha camisa azul clarinha de que gosto tanto, sempre ganho um elogio quando visto aquela camisa azul clarinha, alguém aí sabe o que é bom para tirar mancha de óleo de pastel?

Enfim, sabotar as dietas saudáveis pode ser algo realmente divertido. As disciplinas rígidas, as regras, às vezes elas têm de ser quebradas.

Caso do Inter. Se o Inter tivesse sido um pouco mais leniente com o centroavante André, se esse jogador não fosse mandado embora, será que o time não estaria em outra colocação, bem lá em cima, na fresta aberta entre Santos e Cruzeiro? Creio que sim. Mas essas cogitações e minha taxa de colesterol, bem, não adianta pensar em nada disso, a esta altura da vida e do campeonato.


david.coimbra@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
26/10/2003


Para a Regina

No ¿Muvuca¿, fiz textos para Regina Casé. Num dos programas, ela era uma atriz que falava ¿dublado¿, um desencontro entre os movimentos da sua boca e as palavras que se ouviam

Do baú. O programa se chamava Muvuca, com a Regina Casé, e fiz alguns textos para ela. Num, a Regina era uma atriz americana sendo entrevistada no Brasil. Ela falava "dublado", com um completo desencontro entre os movimentos da sua boca e as palavras que se ouviam.

REPÓRTER - Miss Case, o que você está achando do Brasil?

REGINA (EM PORTUGUÊS PERFEITO, EMBORA SEUS LÁBIOS "FALEM" INGLÊS) - Bem, eu estou aqui para lançar o meu primeiro filme para a tela grande, mas sei que sou muito popular na televisão brasileira, apesar de falar com esta voz que eu não sei de quem é, mas não é a minha, pois não conheço uma palavra em português.

REPÓRTER - E qual é a sua impressão do Brasil?

REGINA - Você vai ter que me desculpar, querido, mas não tenho a mínima idéia do que você está dizendo. Para falar a verdade, não tenho a mínima idéia do que EU estou dizendo. Próxima pergunta.

REPÓRTER - A que você atribui sua popularidade no Brasil?

REGINA - Eu adoro a música brasileira, especialmente Paulo Coelho. (RISADAS) Bem, vejo que disse alguma coisa engraçada, pois todos estão rindo. Eu gostaria de saber o que foi. (REGINA ENUNCIA "SHIT" MAS OUVE-SE:) Droga!

REPÓRTER - É verdade que você pretende filmar com um diretor brasileiro?

REGINA - Oh, não. Eu e Brad Pitt temos apenas uma amizade antiga e ele está felizmente casado com uma boa amiga minha. Engraçado, acabo de ouvir o nome de Brad Pitt e acho que foi dos meus próprios lábios dessincronizados. Meu Deus, o que será que eu estou dizendo para esta gente nesta maldita língua, e com esta maldita voz?

REPÓRTER - Alguma mensagem para o público brasileiro, miss Case?

REGINA ("DIZENDO" SHIT, SHIT, SHIT) - Droga, droga, droga!

REGINA NO MEIO DA TORCIDA NUMA ARQUIBANCADA DE FUTEBOL, GRITANDO PARA UM JOGADOR EM CAMPO

REGINA - Vai, Betão! É tua! Ó Betão! Ó desgraçado! Tu qué me matá? Te coloca, Betão. Olha a bola alta, Betão! O Betão em bola alta... Eu não quero nem olhá ...(VIRA O ROSTO, DEPOIS ESPIA) Ele rebateu? Boa, Betão. Tem que dá chutão mesmo. (PARA AS PESSOAS EM VOLTA:) Esse daí eu conheço desde garoto. Filho da vizinha. Vi ele começar a... Olha o contra-ataque, Betão! Vai nela, animal! Ó Betão! Ó Betão! Sai do chão e vai jogá bola, ruindade! Tu tá enterrando o time! Outra coisa, inconsciente: vê se telefona pra tua mãe de vez em quando! Custa dar um telefonema, pô?

REGINA E OUTRA TORCEDORA SENTADAS NUMA ARQUIBANCADA. O JOGO JÁ ACABOU E É EVIDENTE QUE ACABOU MAL PARA O TIME DELAS. ELAS NÃO PODEM ACREDITAR NO QUE ACONTECEU

REGINA - Mas o que que é isso?

OUTRA - Quatro a zero!

REGINA - O time jogando direitinho, no ataque, e eles vão lá quatro vezes a fazem quatro...

OUTRA - Não dá pra acreditar...

REGINA - Alguma coisa não fechou. Só pode ser.

OUTRA (EXAMINANDO-SE) - Como, não fechou? Está tudo fechadinho. Mesma camiseta, mesma calça, mesma faixa...

REGINA - E os santos?

OUTRA (MOSTRANDO AS CORRENTES NO PESCOÇO, SOB A CAMISETA) - Está tudo aqui. São Jorge, São Judas Tadeu, São Benedito goleador... E você?

REGINA - Tudo fechado, minha filha. (ABRE UM SACO E MOSTRA) Cordão de Santa Efigênia com três nós, colar de 17 conchas, cruz de carvalho amarrada com linha preta... Mesma camiseta, mesma calça, mesma faixa, mesma calcinha...

OUTRA - Mesma calcinha?

AS DUAS FICAM SE OLHANDO POR UM TEMPO

REGINA - Você mudou a calcinha, Araci?

OUTRA - Mudei.

REGINA - Está explicado.

OUTRA - Eu ia ficar com a mesma calcinha, Jandira? Tem dó.

REGINA - Está aí. Mudou a calcinha - quatro a zero. Só podia ser.

OUTRA - Tinha que mudar a calcinha, não é, Jandira?

REGINA - Por quê? A higiene é mais importante do que o time, é? Precisava mudar de calcinha logo na boa fase? Olha aí, pessoal. Tá aqui a culpada. Levamo quatro por causa dela. Ela mudou a calcinha!

OUTRA - Ó Jandira!

REGINA - Culpa da dondoca aqui, ó.

REGINA COMEÇA A BATER NA OUTRA COM O CORDÃO DE SANTA EFIGÊNIA E O COLAR DE CONCHAS

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Martha Medeiros
26/10/2003



O jogo do empurra

Um adolescente diz que apertou o gatilho, mas não tem culpa. A sociedade é que o agrediu desde o primeiro dia da sua complicada vida

Se tem um jogo que a gente aprende cedo é o jogo do empurra. O garotinho diz que não teve culpa de o gato se afogar, que o gato é que estava muito perto da piscina, e a babá diz que também não teve culpa, ela deixou o garoto sozinho no jardim para abrir a porta (tudo ela, tudo ela!), e a mãe do garoto diz que também não tem culpa, tem que trabalhar, confiava na babá, e o pai do garoto, que trouxe o gato pra casa, pergunta como é que ele ia saber que o gato era suicida? Pobre do gato, vamos todos dormir, ninguém tem culpa.

Tenho escutado o mais recente disco de Jack Johnson, um americano ainda não muito conhecido mas que faz um som totalmente anti-stress, e tem uma música que fala justamente sobre isso, sobre esse jogo do "não tenho nada a ver com isso" que a gente joga quando discute a violência urbana. Um adolescente diz que apertou o gatilho, mas não tem culpa, a sociedade é que sempre o agrediu desde que nasceu.

E o pai do adolescente diz que também não tem culpa, não foi ele que ensinou o filho a usar uma arma, o garoto aprende essas coisas vendo televisão, e o dono da emissora de tevê diz que ele também não pode ser culpado, não foi ele que inventou a violência, ele apenas deixa as câmeras apontadas para o que o povo quer ver, e quem faz a trilha sonora deste programa diz que é tudo entretenimento, não vai deixar a coisa estourar em cima dele.

É uma letra que poderíamos nós mesmos continuar a compor. O povo não tem culpa porque é vítima. O governo não tem culpa porque a população sonega impostos e não há dinheiro em caixa para investir em segurança. Deus tampouco tem culpa, não está envolvido, é apenas um observador, a gente que vá se entender com o demônio que existe dentro de cada um, este sim tem contas a acertar.

A música do Jack Johnson termina dizendo que a culpa é minha e é sua, que não há inocente nesta história, que todas as nossas mãozinhas estão sujas de sangue. Muito fácil dizer "não fui eu, não me culpe". Alguma culpa a gente há de ter: ou por ter sido conivente com algo que estava errado, ou por ter negado ajuda a quem precisava, ou por não ter denunciado um crime, ou por ter usado a violência como mote de uma campanha publicitária, ou por ter dado um revólver de brinquedo a um filho, ou por ter incentivado alguém a revidar, ou simplesmente por ter se abstido: tô fora!

Temos todos alguma coisa a ver com isso. Alguma coisa a ver com o que nos acontece em volta. Está todo mundo dentro.


martha.medeiros@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
26/10/2003


Os que não gostam de livros

Nada de risos ou ironias. É o caso de se perguntar como o jovem leitor pode encontrar o caminho da emoção literária

Vocês imaginariam que uma publicação chamada The New York Times Book Review, que acontece ser o suplemente literário do influente jornal nova-iorquino, deveria defender o prestígio dos livros. Pois vocês imaginaram errado. Nem sempre essa é a regra. Num dos últimos números, uma articulista chamada Laura Miller dedica-se a nos provar que livro não é o bicho, ao contrário do que todo mundo pensa.

Acusa Laura: "O ato de ler tornou-se uma virtude em si própria, independente do livro lido". Com o que ela não concorda: "Deixar de fumar impedirá que você e as pessoas a seu redor adoeçam; perder peso melhora a suas chances de namorar; mas como, exatamente, a leitura beneficia uma pessoa?".

E continua: "Não vejo evidência de que ler nos faça bem. Alguns dos leitores mais vorazes que conheço são também as pessoas de pensamento mais rígido". E cita Ema Bovary, exemplo de como "a leitura desgasta o apetite pela vida". Poderia, entre parênteses, citar também Dom Quixote, cuja mente foi, segundo Cervantes, perturbada pela leitura dos livros de cavalaria. Ou ainda o Eclesiastes, que resmunga: "De muitos livros, não há fim".

Mas o que são Madame Bovary, Dom Quixote e a Bíblia - senão livros? Em outras palavras, Laura Miller só pôde falar mal dos livros porque ela própria leu livros. Mas não terminam aí as ironias. Na página seguinte à de seu artigo há um anúncio de uma livraria especializada em obras raras. Ali ficamos sabendo que uma segunda edição de Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, custa US$ 7 mil; uma coletânea autografada das obras de Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) vale US$ 16 mil. Ou seja: há pessoas querendo pagar fortunas por esse, em geral, modesto objeto chamado livro. Não sabemos se uma obra de Laura Miller, no futuro, alcançará tão altas cotações - mas, quem sabe?

Numa coisa Laura Miller tem razão. Citando o scholar Harold Bloom, ela nos diz que, ao fim e ao cabo, a principal razão para a leitura deveria ser o prazer. Sim, ler pode ser uma obrigação, sobretudo quando se trata de fazer um trabalho escolar.

Esses dias entrei, por acaso, num site chamado Sapo, especializado em acolher apelos patéticos de jovens que precisam entregar ditos trabalhos, porém mal sabem grafar nomes de autores e livros. Mayra precisa escrever sobre o Sargento de Milícias (sic), Vera quer informações sobre um tal Antero de Quintal (deve ser o quintal em que vive o Antero de Quental), Maísa quer saber mais sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas, acrescentando, "Ah, o autor é o Machado de Assis".

Não é o caso de rir, ou mesmo de sorrir, diante desta aflição. É, sim, o caso de se perguntar como o jovem leitor pode encontrar o caminho da emoção literária. E isto significa rever velhos conceitos e pensar na literatura como aquilo que ela realmente é: uma maneira de encantar, de dar prazer. Neste sentido, aliás, é admirável o trabalho que se faz em escolas do Estado, nas quais o componente prazeroso, lúdico até, da literatura é mobilizado - para alegria dos jovens leitores.

Não podemos ler tudo, não precisamos ler tudo. Francis Bacon, o grande ensaísta inglês do século 16, fazia uma analogia alimentar: "Alguns livros devem apenas ser provados; outros, engolidos de qualquer maneira; mas alguns são para ser saboreados". A vida nos ensina que livros se transformam em pratos preferidos. E, aqui vem o recado, muitos destes livros estarão na Feira que será aberta neste dia 31, tendo como patrono o Walter Galvani. Não tenhamos dúvida de que nossa feira será um banquete cultural com pratos para todos os gostos. É possível não gostar de livros nas páginas do New York Times. Duvido que o mesmo aconteça na Praça da Alfândega de 31 de outubro a 16 de novembro.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
26/10/2003


Um bom hotel

A rede Sheraton de hotéis fez pesquisa entre mil hóspedes norte-americanos sobre os motivos que os levam a voltar ou não a um hotel.

Nada menos que 78% dos entrevistados responderam que os motivos que os levam a preferir um hotel estão relacionados com a cama.

Trinta e três por cento apontaram os travesseiros como a maior atração de um hotel. Já 23% apontaram a qualidade dos travesseiros como a causa principal de sua preferência.

E 22% não tiveram dúvida em escolher os lençóis como o motivo por que retornam a um hotel ou nunca mais aparecem lá.

Não sei qual foi a resposta dos restantes 12%. Mas eu estaria incluído entre eles: o que mais me atrai num hotel não está localizado no leito e sim no banheiro.

O melhor hotel para mim não é o de lençóis alvíssimos, de tecidos macios e suaves, ou de travesseiros de pena de ganso. Nem o de colchão confortável.

Pode ser até de três estrelas o melhor hotel para mim, desde que seu banheiro disponha de dois serviços que considero fundamentais: deve possuir uma banheira onde eu possa estender meu corpo durante umas duas horas, num banho de imersão, enquanto leio e vou distendendo os músculos na condição propícia para ser acometido de sono e só depois disso saltar para a cama.

E o segundo requisito que imponho a um bom hotel é o de que sua ducha seja potente e derrube sobre meu corpo fortes e largas rajadas de água, quase massageantes.

Não foram raras as ocasiões em que, antes de me hospedar, lógico que nas cidades onde havia várias alternativas para minha escolha, pedi à portaria que me permitisse testar a força do jato d'água do chuveiro, depois de obviamente ficar sabendo da existência da banheira.

Depois dessas duas exigências fundamentais, existem outros pequenos detalhes do apartamento ou do serviço que me levam a avaliar o hotel.

O quebra-luz da cabeceira, por exemplo, tem de ter luz abundante e dirigida para que eu possa ler com facilidade.

E o bufê do café da manhã tem de incluir dois itens que considero imprescindíveis: salame italiano e bacon.

Hotel que no desjejum substitui o salame italiano pela mortadela ou por outro salame eu considero de nítida qualidade inferior.

E pela freqüência com que são renovados no bufê os estoques de salame italiano eu desconfio que esta minha preferência é igual em quase todos os hóspedes,

Ah, ia me esquecendo: estão totalmente defasados em seus serviços os hotéis que insistem em servir por seus garçons o café, o leite ou o chocolate com leite.

Os hotéis mais modernos e mais espertos resolveram esta questão prescindindo sabiamente dos garçons só para isso: o hóspede se levanta e se dirige aos enormes bules térmicos de café e de leite, permanentemente aquecidos, que estão à sua disposição.

Com isso, evita-se o maior tormento do café da manhã nos hotéis que ainda insistem nesse obsoletismo: a demora irritante dos garçons em vir servir ou repor nas xícaras o café e o leite e a conseqüência fatal de serem servidos desoladamente frios.

Fora isso, clamaria também para que os tabletes de manteiga não se mostrassem tão petrificados pelo congelamento.

Como esfregar aquele pedaço de rocha no pão?

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Porto Alegre sob mau tempo



Uma tormenta tropical, com ventos que chegaram a 93km/h, atingiu a Capital na madrugada de sábado, derrubando árvores, fios elétricos e placas. Na foto, o rastro de destruição na Avenida Cavalhada, na zona sul da cidade (foto Carlinhos Rodrigues/ZH)

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Ponto de vista: Stephen Kanitz
Estimulando a curiosidade

"O objetivo final de uma aula deveria ser formar futuros pesquisadores, e não decoradores da matéria"

Durante a estada de Richard Feynman no Brasil ¿ um dos poucos ganhadores do Prêmio Nobel que o Brasil pôde conhecer de perto ¿, os alunos pediram a ele que desse uma aula sobre nossos métodos de ensino na área da física. Feynman pegou cinco ou seis livros de física adotados pelo MEC naquela época e um mês depois disse que só daria aquela aula no último dia de sua permanência no país.

No dia fatídico, dezenas de professores de física se reuniram para ouvir sua palestra. Essa história é contada por ele no livro Deve Ser Brincadeira, Sr. Feynman.

Começou assim a palestra: "Triboluminescência, diz no livro de vocês, é a propriedade que certas substâncias possuem de emitir luz sob atrito". E mostrou como nossos livros apresentavam a matéria pronta, incentivavam a decoreba, eram essencialmente chatos e confusos. Isso foi escrito há trinta anos, mas, pelas queixas dos alunos, nossos livros de física não melhoraram tanto quanto deveriam.

Ilustração Ale Setti


Segundo Feynman, um livro americano abordaria a questão de forma um pouco diferente. "Pegue um torrão de açúcar e coloque-o no congelador. Acorde às 3 da manhã, vá até a cozinha e abra o congelador. Amasse o torrão de açúcar com um alicate e você verá um clarão azul. Isso se chama triboluminescência."

Não sei se ficou clara a diferença que Feynman tentava demonstrar, nem sei se os livros didáticos americanos continuam os mesmos, mas basicamente nossos métodos de ensino apresentam muita informação e teoria em vez de despertar a curiosidade.

Criamos alunos tão bem informados que no Brasil inteligência virou sinônimo de erudição. Inteligente é quem sabe muito, quem repete as teorias e conclusões dos outros. Um dia ele poderá até ter opinião própria, mas será difícil se ninguém estimular sua curiosidade.

Sem dúvida, toda sociedade precisa de pessoas eruditas, aquelas que sabem os caminhos que já foram percorridos. Erudição não mostra necessariamente inteligência, mas demonstra que a pessoa tem boa memória.

No mundo moderno, em constante mutação, inteligência quer dizer outra coisa. Significa enxergar o que os outros (ainda) não vêem. Isso é próprio de pessoas criativas, pesquisadoras, curiosas, exploradoras, que encontram soluções para os novos problemas que temos de enfrentar.

O método de ensino eficaz, segundo Feynman, deveria formar indivíduos curiosos. O objetivo final de uma aula teria de ser formar futuros pesquisadores, e não decoradores da matéria. O que mais o espantou é que nosso ensino de física e química é muito superior ao americano, algo que todo brasileiro já sabe. Mesmo assim, notou Feynman, o Brasil produz menos físicos e químicos que os Estados Unidos.

A hipótese que ele levanta é o método de ensino. Damos muita teoria e informação, mas ensinamos pouco como usar as informações aprendidas. Por sua vez, os americanos sabem e aprendem muito menos teoria, mas devotam mais tempo aprendendo como usar a informação apresentada, sob todos os ângulos.

Suspeito que essa seja a razão de nosso péssimo desempenho nos testes internacionais administrados pelo Programa Internacional de Avaliação Estudantil (Pisa), em que o Brasil aparece nas últimas colocações, inclusive em física. Os testes do Pisa enfatizam mais o uso da informação do que a lembrança da informação em si, algo em que o aluno brasileiro se destaca.

O certo seria, talvez, escrever livros "didáticos" menos didáticos e mais motivadores, que estimulassem a curiosidade e fossem mais relacionados com a vida futura de nossos alunos. Alguns dos livros que avaliei mal estimulam o aluno a virar a página para o próximo tópico, muito menos poderiam seduzi-lo a se dedicar ao assunto o resto da vida.

Vamos fazer um simples teste entre 1 000 alunos e descobrir quantos jogaram fora seus livros didáticos após a formatura e quantos os guardaram como o primeiro volume de uma grande biblioteca sobre o assunto. Isso nos diria quais os livros didáticos que de fato estimularam nossa curiosidade, o objetivo principal do ensino moderno.


Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)

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Diogo Mainardi
A boa surra americana

"O fato mais relevante para os iraquianos é o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor poderia ter acontecido a eles. Até a resistência contra os americanos é boa para o Iraque. É dali que surgirá sua nova classe dirigente"

Os iraquianos tiveram sorte. Só um presidente suicida como Bush poderia ter entrado numa guerra dessas. A guerra foi ruim para os americanos e boa para os iraquianos. Exatamente do mesmo jeito que a Guerra das Malvinas foi boa para os argentinos. Podem falar mal de Bush. Podem falar mal da Thatcher. Porcos imperialistas? Claro. Arrogantes? Certamente. Criminosos? E daí?

O que importa é que os Estados Unidos deram uma surra no Iraque, assim como a Inglaterra deu uma surra na Argentina. E, com a surra, Iraque e Argentina conseguiram enterrar suas sangrentas ditaduras militares. Ponto para Bush. Ponto para a Thatcher. Estátuas para eles. Estátuas em Bagdá e em Buenos Aires, não em Washington ou em Londres.

O argumento é um pouco simplista, concordo. Ignora o sofrimento de quem perdeu seus familiares. Ignora as mentiras de Bush. Ignora os interesses das companhias que financiaram sua campanha eleitoral. Considerando todos os fatores, porém, o fato mais relevante para os iraquianos é o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor poderia ter acontecido a eles. Até a resistência armada contra os americanos é boa para o Iraque. É dali que surgirá sua nova classe dirigente. Como na Argélia.

Cada recruta americano que morre sedimenta um pouco mais a nação. Espero que Bush seja reeleito e cumpra seu dever de reconstruir o que ajudou a destruir, ainda que isso aumente o buraco financeiro americano. O Partido Democrata é bastante ambíguo nesse ponto.

A maioria de seus deputados quer dar um calote no Iraque, embora quase todos tenham apoiado a guerra. Os eleitores não aceitam que o dinheiro de seus impostos seja aplicado em escolas e centrais elétricas de um país estrangeiro. Como assim? Destruíram? Agora reconstruam. Minha previsão é que Bush será reeleito no ano que vem e, por causa do elevado custo da aventura iraquiana, sairá da Casa Branca em 2008 como o presidente mais impopular da história.

É um mau momento para defender a agressão americana contra o Iraque. Fica cada dia mais fácil atacá-la. Don De Lillo é um bom exemplo disso. Ele é tido como um dos maiores escritores americanos da atualidade. Outro dia escreveu um artigo despretensioso em que recorda ter visto Ursula Andress numa rua de Roma, 25 anos atrás.

Lá pela metade do artigo, de passagem, como quem não quer nada, ele menciona a guerra do Iraque. Depois menciona outra vez. Depois menciona uma terceira vez. Não dá uma opinião sobre o assunto. Não estabelece um nexo direto entre os dois temas. Não é necessário. Basta mencionar a guerra do Iraque para seus leitores se sentirem plenamente recompensados.

É uma piscadela de olho para eles. É um truque, uma malandragem para mostrar que De Lillo respeita a seriedade de seus leitores, e que não esquece os grandes conflitos da humanidade mesmo quando trata de algo fútil como Ursula Andress. Pura demagogia literária. Se a guerra do Iraque se presta a esse tipo de recurso barato, é sinal de que Bush não tem mais a menor chance. Ele perdeu a guerra. Nada de estátua para ele. Nem em Bagdá, coitado.

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Caro leitor,
aqui estão os destaques de VEJA desta semana.
Boa leitura e bom fim de semana.
Kátia Perin - VEJA on-line (veja@abril.com.br)


Especial
As pessoas já protestaram contra a vacina, a fluoretação da água, a pasteurização do leite, o bebê de proveta, a pílula anticoncepcional, a globalização e agora é a vez dos transgênicos. Nos últimos seta anos, os grãos geneticamente modificados vêm sendo cultivados em mais de 15 países. O Brasil é um deles, embora ainda não tenha tomado uma decisão oficial sobre o assunto.

Brasil
Há um ano, Lula venceu a eleição com um estilo "paz e amor", mas, nos bastidores, uma equipe do PT trabalhou noite e dia desencavando denúncias, dossiês, e promovendo blefes e negociações sigilosas para enfraquecer seus adversários.

Entrevista
Magoado com acusações de conflito de interesses, o marqueteiro de Lula, Duda Mendonça, anuncia que não renovará seu contrato com o PT.

Inglaterra
Carta guardada por ex-mordomo da princesa revela que ela temia um complô para envolvê-la em um acidente de carro. O motivo seria abrir caminho para Charles casar-se com Camilla Parker-Bowles.

Economia
Mesmo com a inflação domada, a popularidade de Lula e sua equipe caem enquanto a economia não mostra sinais do tão esperado "espetáculo do crescimento".

Mulheres
A Finlândia é o país onde mais mulheres ocupam altos cargos na burocracia interna. Em geral, mulheres em funções de tamanha responsabilidade costumam ser exceção mesmo em países de Primeiro Mundo. Na Finlândia é quase uma regra.

Saúde
Chega ao Brasil uma droga contra a osteoporose capaz de reconstituir parcialmente o tecido ósseo. O remédio chamado Fórteo consegue triplicar a ação das células construtoras dos ossos.
No site: leia mais sobre osteoporose.

Aviação
Com as vendas em baixa, empresa americana lança avião com tecnologia semelhante à da concorrente européia. O novo avião da Boeing é parecido com um modelo lançado pela Airbus em 1998.
No site: outras imagens do avião.

Automóveis
Um símbolo de luxo no passado, a marca Cadillac reencontra sucesso com uma nova geração de carrões esportivos.
No site: galeria de fotos com os novos modelos.

Tabagismo
O governo francês aumentou o preço dos cigarros em 20%. O reajuste é o segundo do ano e faz parte de uma campanha antitabagista no país. No Brasil, Ministério da Saúde lança imagens mais impactantes nos maços de cigarro.
No site: leia mais em VEJA Saúde.
Turismo
Hotéis confortáveis e preços mais baixos aumentam a popularidade do ecoturismo. O número de viajantes que trocam a cidade por uma temporada em ambiente rústico cresce 15% a cada ano desde 1998, o dobro da média do turismo convencional.

Educação
Universidades americanas investem em conforto e lazer para seus alunos. Algumas estão mais parecidas com resorts do que com locais de ensino.

Arquitetura
Com assinatura do arquiteto Frank Gehry e um investimento de 274 milhões de dólares, o Walt Disney Concert Hall é a aposta mais ambiciosa de Los Angeles ¿ musical e urbanística.

Estilo
Costanza Pascolato lança livro com dicas para quem sonha em ser modelo. Segundo ela, bom-humor e bom caráter são fundamentais. Cirurgias plásticas e estrelismo podem pôr tudo a perder.

Livros
A irlandesa Marian Keyes faz sucesso com suas protagonistas tão desestruturadas quanto divertidas. No livro Férias!, a protagonista Raquel é viciada em álcool e drogas e um dia resovle deixar Nova York para voltar à casa dos pais na Irlanda.
No site: leia trechos do livro.

Cinema
Em As Invasões Bárbaras, que estréia sexta-feira no país, o diretor canadense Denys Arcand retoma com brilhantismo os personagens de O Declínio do Império Americano. Os atores são os mesmos de dezessete anos atrás.
No site: assista ao trailer do filme.

Televisão
Delicada, talentosa e bonita, Mariana Ximenes, de 22 anos, alavanca a audiência da novela das seis na Globo, Chocolate com Pimenta.
No site: galeria de fotos com outros personagens da atriz.

Veja São Paulo
O francês imbatível
Laurent Suaudeau reabre seu restaurante, ganha sete prêmios em um mês e consagra-se como grande chef da cidade.

Veja Rio
Um espetáculo!
As coreografias acrobáticas do grupo Momix no Teatro Municipal, a abertura da mostra de decoração Casa Cor e o TIM Festival agitam a semana no Rio.

O conteúdo integral das revistas estará disponível
na internet a partir de sábado pela manhã

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Mina dos manos
A apresentadora Diana Bouth veste a camisa do hip hop e produz festival do ritmo no verão
Clarissa Monteagudo



Estampa de números é mania dos adeptos do hip hop. A blusa decotada de Diana é da Thug 09 (R$ 35). Brincos da Shop 126 (R$ 72). Corrente Doc Dog (R$ 59) e cinto Tritton (R$ 25), na Index. A touca faz parte do guarda-roupa de Diana, que adora o acessório

Moradora do Leblon e apresentadora do canal por assinatura SporTV, Diana Bouth sabe que, se dependesse da certidão de nascimento, estaria mais para patricinha do que para perversa como são chamadas as mais apimentadas freqüentadoras da cena hip hop. Fui criada no iogurte. Não tenho idéia do que é passar fome ou perrengue. Como iria fazer rap?

Mas a adolescência em São Paulo e a amizade com Primo Preto ¿ meio-irmão de seu padrasto, o titã Branco Melo ¿ a levaram aos primeiros redutos do gênero na Rua Augusta, no Centro da capital. Foi hostess (recepcionista de boate) aos 13 anos, organizou prêmios dedicados ao hip hop paulista e, hoje, aos 23 anos, é sócia de Preto em uma produtora especializada no estilo, a RapSoulFunk.

No currículo, direção artística da festa Players, no Cais do Porto; produção do show de Marcelo D2 na Bunker e apresentações dos Racionais em Duque de Caxias e São Gonçalo. Quando o cara que contrata é boy (playboy) corro atrás de dinheiro, afinal o povo não vive de brisa. Mas se é na tangente (na camaradagem), digo pros mano: Cê cola lá na galera, faz uns grafite. Mas é nas quebrada (sem dinheiro). E o pessoal faz na boa, conta, incorporando gírias de rappers, grafiteiros, DJs e b-boys (dançarinos de break), que compõem a cultura hip hop e se apresentam juntos nos eventos do gênero.

Filha da atriz Ângela Figueiredo e ex-namorada do Falcão, do Rappa, Diana recusa o rótulo de executiva do hip hop: Sou da galera. Adoro dançar com os mano se divertindo em volta. E reconhece que seu jeitão gera desconfiança: Em São Paulo, sou a Dianinha, que cresceu no hip hop. Aqui, nêgo tem todo direito de pensar que sou a patricinha da Zona Sul metida a falar de rap.

Nos planos, produzir um festival com atrações internacionais no verão carioca. O hip hop tem história. Não vai ser só modismo, como axé. Diana, que hoje namora o DJ Saci, um dos expoentes do hip hop, admite que sofreu ao chegar ao Rio, em 1997. Vestia calça larga, corrente e boné. Já me apontaram em boate, diz ela, que encontrou sua turma na festa Zoeira, na Lapa, e nos bailes charm, em Marechal Hermes. Se produzisse dance, seria hipócrita. Faço o que me dá tesão, finaliza.

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Lya Luft
25/10/2003


Para não dizer adeus (inédito)

1. Salto sem rede

Tatear no escuro:
novelo de reflexos, indagação
que se responde
e desafia
num espelho baço.

Não é a mim que vejo:
é ao outro, misto de incerteza
e esperança de que não seja
mais um rosto virado,
uma boca cerrada
- mais um desgosto.

Desejo,
sonho e medo,
o amor é salto sem rede
entre a razão e a magia.

2. Pedágio

A esperança me chama
e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas,
opto pelo imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.

Seja como for eu vou,
pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida
ou quase afogada,
mas não desisto.

A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.

lya.luft@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
25/10/2003


Desarmando a pobreza

Não resta dúvida de que é também elitista o Estatuto do Desarmamento quando fixa em R$ 300 o preço da taxa de registro da arma e em R$ 600 a taxa para o porte de arma.

Deve ser por um ano este preço. Em lugar algum vi publicado o prazo de valor desta taxa e renovação das licenças.

Para um revólver que custe R$ 600, se cobrará o mesmo preço por um ano de licença para portá-lo.

É o mesmo absurdo que comprar-se um carro por R$ 30 mil e ter-se de pagar os mesmos R$ 30 mil de IPVA.

Ou seja, só se encorajarão em tentar tirar um porte de arma os ricos. Quem for pobre ou de classe média baixa não terá recursos para obter o porte.

O próprio preço da taxa de registro da arma já é exagerado, ainda mais que terá de ser renovado, ao que tudo indica.

Além disso, há uma série de exigências para quem queira apenas manter em casa uma arma para sua segurança, senão concreta, pelo menos psicológica: entre elas o solicitante do registro terá de comprovar habilidade no manuseio da arma.

Ou seja, terá de ter diploma de curso de manejo de arma, o que, se sabe, também é de custo alto.

Isso estimulará que as pessoas tenham em casa armas que não serão adquiridas legalmente, fazendo crescer o comércio clandestino e o contrabando.

Examinando bem o estatuto, ele é uma fábrica de criminosos, ele cria novos tipos de delinqüentes, desde os que vão ter em suas casas ou portar armas ilegais, passando pelos que terão de receptar armas para possuí-las, até os comerciantes clandestinos e contrabandistas de armas.

Mas como o estatuto, em tudo, leva à dificultação das pessoas em terem armas em casa ou as portarem, justificando a expressão "desarmamento", vários estudiosos da segurança pública têm se manifestado no sentido de que aos delinqüentes, de agora em diante, será reduzida a dúvida sobre se há ou não armas nos lares que eventualmente atacarão.

Os bandidos, pela lei das probabilidades, ficarão mais tendentes a atacar as casas, onde os moradores foram tolhidos pela nova lei a adquirirem armas.

A grande finalidade do estatuto é a diminuição dos crimes por armas de fogo. Deus queira que seja atingido esse objetivo, mas o que se nota é que pouca gente acredita nisso.

Hoje à tarde, jogam em Salvador Bahia x Fluminense. Aparentemente, o melhor escore para o Grêmio é o empate. Um deles ou os dois são inimigos figadais do Grêmio no páreo do despencar para o rebaixamento.

Torce-se todo dia, em todo lugar, por todos os times

Que aflição!

Ontem estive em Sebastião do Caí, hoje à tarde estarei na Feira do Livro de Campo Bom, autografando O Melhor de Mim e batendo um papo com o alegre pessoal de lá.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
A escola que voltou a sorrir



Colégio Padre Balduíno Rambo, onde uma mãe foi surrada por alunos há um mês, vive clima de paz (foto Ronaldo Bernardi/ZH)


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Sexta-feira, Outubro 24, 2003




A medicina cria tratamento eficaz contra a doença do mau humor, problema que afeta cerca de 180 milhões de pessoas no mundo

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Amorim diz que Brasil não está olhando apenas para o Mercosul

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Frutos de relacionamentos que começaram via internet, eles fazem cinco anos e provam que namoro
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Adolescentes só querem se divertir. Fato. Universitários fazem de tudo no campus, menos estudar. Fato. Festas regadas a drogas e alcool sempre rendem transas loucas e inconsequentes. Fato. Ter entre 18 e 23 anos em Hollywood é sempre festa, e filmes com este tipo de contexto invadem os cinemas periodicamente, e na maioria das vezes criativos e reflexivos como um copo dágua.

Nem sempre, ainda bem! Regras da Atração chega para detonar esse contexto ao mostrar jovens vazios e inexpressivos, que buscam o amor nas formas mais variadas e claro, só querem se divertir. O que difere este filme dos outros então? Hmmm... A embalagem pop e indie?

O cara-de-bonzinho-eterno-Dawson James Van Der Beek é Sean, o bonitão mais-que-desejado e traficante nas horas vagas que já transou com quase todas as meninas do campus mas nào consegue encontrar aquela ideal. Até começar a receber cartas de uma admiradora secreta e se apaixonar por Lauren (Shannyn Sossamon de Coração de Cavaleiro) imaginando ser ela a autora.

Lauren por sua vez é virgem e sonha se entregar ao cara que considera o mais bacana e sensível, Victor - que na verdade não passa de um mauricinho vazio que mal percebe sua presença. História de adolescente pra dar certo deve ter triângulo amoroso, certo? OK! Fechamos então com Paul, rapaz inteligente, lascivo, cínico e sensual, apaixonado por Sean. E tem a tal admiradora secreta, o professor sedutor, as orgias, festas que parecem nunca ter fim (imagine: há a festa da véspera da festa de sábado!). Todos buscam o amor, mas se entregam às pessoas erradas.

E neste processo se ferem e ferem os que o cercam. Tentando responder à pergunta lá em cima: De inicio, a ótima escolha do elenco seguido dos ótimos truqes de montagem. Para dar um clima mais que excêntrico, a fita é rebobinada lentamente, até que o diretor encaixe os personagens em situações em que possam ser iniciadas suas histórias, quando todos estão no mesmo ambiente. A trilha sonora é um show à parte e outro ponto forte são as cenas que, normalmente, não vimos em filmes comuns - como o mocinho sentado e se limpando na privada, se masturbando ou cutucando o nariz.

E sacadas bacanas recheiam a história com algumas deliciosas surpresinhas. Por exemplo: Num dado momento, quando tudo parece ter dado errado para um personagem, um floco de neve cai em seu rosto e começa a se derreter, simulando uma lágrima.

Noutro, a tela é dividida ao meio para mostrar, sob angulos diferentes, o encontro de dois personagens - a medida em que eles se aproximam a tela vai se abrindo e as imagens se fundem, ficando os dois frente a frente. e há ainda uma das melhores cenas do filme, onde uma viagem de algumas semanas é contada em alguns minutos, transformando a cena praticamente num curta dentro do longa - Fantástico!

Não, ainda não é este o filme que vai derrubar o primeiro lugar ocupado por Trainspotting, tratando-se de filmes pop que envolvem a receita jovens+sexo+festas+drogas, mas ocupa o segundo lugar, deixando para trás similares como Vamos nessa! e Corra Lola, Corra!

O melhor filme do ano, até agora.

Fabriccio Marcio

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Até que é bom ser enganado

Os Vigaristas passa a perna no espectador com classe e ótima interpretação de Nicolas Cage

André Gomes


Obsessivo-compulsivo, agorafóbico, fumante descontrolado e dependente de comprimidos para ter convívio social aceitável, Roy é um personagem perigoso. Pode cair na caricatura dependendo do intérprete. Nas mãos de Nicolas Cage, entretanto, é o que torna Os Vigaristas (Matchstick Men) entretenimento altamente recomendável. Oscar de melhor ator por Despedida em Las Vegas, Cage vinha mesmo merecendo novo tipo que explicitasse seu talento. Recebe-o através de Ridley Scott, que dirige o filme escrito por Ted e Nicholas Griffin. Não vale contar o fim, ok, mas dizer que é filme com surpresa no encerramento não faz mal.

O longa mais um a procurar espaço entre tantas outras histórias de trapaceiros começa mostrando ao espectador o cotidiano sórdido de Roy e Frank (o ótimo Sam Rockwell). Eles ¿vendem¿ sistemas de filtragem de água para pessoas inocentes que pagam 10 vezes o valor do produto graças à promessa de ganhar prêmios.

Entre um e outro negócio, Roy volta e meia sofre com sua mania de limpeza, em cenas que divertem apesar do caráter penoso da doença. Ridley Scott deita e rola ao mostrar com ângulos e cortes engenhosos como o mundo de Roy se distorce pela simples abertura de portas de varanda numa casa alheia. Faz com que a platéia partilhe do olhar apavorado de Roy quando o assunto é sujeira.

O cara vê seu cotidiano mudar quando descobre ter uma filha adolescente (Alison Lohman), garota de esperteza proporcional ao caráter duvidoso. Seguem-se cenas de cotidiano feliz entre pai e filha e o aconchego da vida familiar inédita faz de Roy um sujeito mais animado, capaz até de ensinar truques de picaretagem à tal filha sem, contudo, querer que ela veja em sua carreira um modelo a seguir. Mas o mundo do vigarista profissional será tomado por uma reviravolta que aborrecerá toda a audiência. No fim tem lição de moral, mas nem dá para fazer cara feia. Os Vigaristas passa a perna no espectador e não há mal nenhum nisso.

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Malucos desde o início

Depois de se despedir da TV, série Os Normais estréia no cinema mantendo o humor escrachado

Rubia Mazzini


Foram três temporadas, 71 episódios e uma infinidade de situações hilariantes protagonizadas pelos eternos noivos Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres). Com o fim da carreira televisiva de Os Normais, chegou a hora de os personagens criados por Fernanda Young e Alexandre Machado brilharem no cinema. Os Normais O Filme estréia hoje, trazendo o humor escrachado, picante e politicamente incorreto com o qual a série conquistou uma legião de fãs País afora.

Dirigido por José Alvarenga Jr., o mesmo do programa e de títulos como Os Heróis Trapalhões e Zoando na TV, o longa-metragem encerra o projeto, que já rendeu um livro, dois DVDs e até uma linha de lingerie, com graça competência.

Ainda que não apresente grandes novidades, a produção deve entreter o público, especialmente aquele que acompanhou a trajetória de Os Normais, ao mostrar como o casal se conheceu e se apaixonou em poucas horas. A trama inicia na manhã seguinte aos casamentos de Rui e Marta (Marisa Orth) e de Vani e Sérgio (Evandro Mesquita), na mesma igreja. A essa altura, os protagonistas já descobriram que seus respectivos parceiros não prestam e decidem anular seus matrimônios.

Começa então um miniflashback gigante¿ que levará a platéia de volta à noite anterior. Vani acaba de dizer sim ao malandro-otário Sérgio quando descobre que foi traída. Descontrolada, decide transar com o primeiro homem que encontrar. Está na rua, vestida de noiva, quando chegam os também recém-casados Rui e Marta, que moram no prédio em frente.

A empatia entre Rui e Vani é imediata, mas a tirânica Marta não acha graça quando vê sua casa servir de abrigo para a vizinha. O que acontece daí em diante é uma sucessão de piadas sobre tamanhos de pênis, menstruação e outras escatologias, que culmina com brigas e o inevitável final feliz, pelo menos para Rui e Vani, conhecido de antemão pelo público.

A produção foi rodada em janeiro, com orçamento em torno de R$ 2,2 milhões ¿ o diretor não revela o montante total, já que usou a infra-estrutura da TV Globo e, segundo ele, isso significaria custo zero. A maior parte das cenas foi fabricada nos estúdios da emissora, o que confere ao filme um ar de comédia romântica televisiva e ao mesmo tempo faz lembrar produções americanas antigas. No fim, Os Normais O Filme é diversão das boas, mas supernormal.

RIR É NORMAL

A diversão começa com a música-tema do filme, Crazy Xéven, cantada em inglês embromation por Abdullah. A seqüência que mostra Vani e Sérgio saindo da igreja de carruagem e enfrentando um engarrafamento em pleno centro da cidade rende boas gargalhadas. Rui tem seu primeiro bom momento quando estapeia uma convidada que não pára de chorar, em plena igreja.

Outra boa sacada é a projeção de fotos bem íntimas de Vani, que Sérgio projeta na parede da sala dos vizinhos só para constranger a mulher. Já na reta final da comédia, quando Rui vai em casa buscar um presente para Vani, a idéia de usar carrinhos de brinquedo para mostrar a correria do personagem dá charme extra à produção.

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Jaime Cimenti
24/10/2003


Onze histórias de suspense jurídico

Se, como dizem muitos, todo mundo odeia tanto os advogados, por que será que os livros sobre eles são tão vendidos e os filmes baseados em tais obras fazem tanto sucesso? Advogados tornaram-se assunto de piadas, coberturas jornalísticas e personagens de filmes de grande sucesso como O Cliente, por exemplo. Em Contos Legais, volume organizado pelo romancista William Bernhardt, figuram onze histórias de suspense jurídico, ou, em inglês, legal thrillers.

John Grisham, o papa na matéria, comparece com O Aniversário, um pequeno, mas denso conto de quatro páginas, em que revela qualidades literárias desconhecidas. Jay Brandon, Philip Friedman, Jeremiah Healy, Michael Kahn, Phillip Margolin, Steve Martini, Richard North Patterson, Lisa Scottoline e Grif Stockley são os outro nove coautores da antologia, que conta com um trabalho do organizador.

A leitura das histórias demonstra, através das tramas e das personagens, o mundo de relacionamentos complexos em que vivemos e como as disputas vão sendo dirimidas.

Antigamente as igrejas, as comunidades e as famílias mediavam boa parte dos conflitos. Hoje boa parte das pessoas quer mais é processar e, se possível, ganhar algum dinheiro. As histórias da antologia, como era de se esperar, não colocam a culpa só nos advogados, nos promotores ou nos juízes pelo que acontece por aí. Os casos judiciais nascem e se desenvolvem por múltiplas vontades e por causas diversas.

Dilemas morais, problemas psicológicos, dificuldades pessoais e financeiras e o dia-a-dia, notadamente das grandes cidades, dos escritórios de advogados, certamente fornecem e fornecerão material para muitos romances, contos e crônicas.
Que certamente os leitores gostarão de ler, quando forem bem escritos como os de Contos Legais, 340 páginas, Editora Rocco, fone 3223 7363.

DICA

Acabei de ler Budapeste, de Chico Buarque de Holanda. Já admirava o autor como rimador musical, mas realmente fui surpreendido por sua inventividade autoral, especialmente pelos detalhes que oferece sobre a capital húngara, sem ter conhecido a cidade.

Lançamentos

O Quieto Animal da Esquina, de João Gilberto Noll, é o chamado ¿romance de deformação¿. O protagonista-narrador é um pobre e anônimo poeta, um ¿animal calado¿ que escreve uns versos enquanto procura emprego e um lugar na vida e no mundo. Seu pai abandonou a família e ele vive com a mãe num prédio semi-abandonado do subúrbio de Porto Alegre. Mas aí acontece um crime, a prisão e a adoção por uma família de alemães. E muito mais. 96 páginas, W11 Editores, fone 11-3812-3812.

Palavra de Mulher apresenta entrevistas de Adélia Prado, Lya Luft, Ana Miranda, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Ana Maria Martins, Márcia Denser e outras, concedidas ao jornalista e poeta Álvaro Alves de Faria entre 1998 e 2002. Os depoimentos vão bem além da literatura. 270 páginas, R$ 35,00. Senac-São Paulo, fone 32111445.

A Jangada, de Júlio Verne, é a primeira edição completa e ilustrada do romance ambientado na Amazônia, que foi publicado originalmente em l881. Verne nunca esteve na Amazônia. A história trata da viagem de um próspero fazendeiro de Iquitos. Ele quer chegar em Belém para casar a filha Minha, mas há outras coisas envolvidas, como roubo de diamantes e tal. 372 páginas, Editora Planeta, fone 55-11-5095-7893.

O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, faz parte da Coleção Clássicos de Ouro e narra a conhecida e trágica história da paixão impossível do misterioso padre Cláudio Frollo e do sineiro corcunda Quasímodo pela cigana Esmeralda. Texto integral, sem adaptações. Tradução de Uliano Tevoniuk, 528 páginas, R$ 59,00. Ediouro, fone 3223 6622.

e palavras...

Feira dos Leitores

Em l969 eu estava na quarta série, no Julinho, tinha 15. Uma tarde, no recreio, ao invés do cachorro-quente e do refri, preferi a biblioteca. Peguei um livro, A trilha da caverna esquecida, comecei a ler. Literatura infanto-juvenil, tratava de jovens se aventurando. Me envolvi tanto com a história que, quando me dei conta, o recreio já tinha terminado há horas. Saí voando, os corredores estavam vazios. A professora perguntou sobre o atraso. Disse para ela que estava na biblioteca lendo um ótimo livro. Minha cara de satisfação fez ela apenas dizer que não deveria repetir a façanha.

Lembro dessa historinha quando começa mais uma Feira do Livro, que para mim, este ano e nos próximos, poderia se chamar Feira do Leitor ou Feira da Leitura. Livro sem leitor é tesouro enterrado no fundo do mar. Pode ser rico, bonito, brilhante, mas sem leitor é nada. Está perfeito o lema da Feira: o que seria dos livros sem você. Espero que nesta Feira as mídias impressa, eletrônica, radiofônica e televisada abram mais espaço para os leitores. São eles que compram, acariciam, lêem, comentam e divulgam os livros.

Escritores, editores, distribuidores, professores, jornalistas e livreiros devem figurar, claro, nas coberturas de imprensa da Feira, que, mais uma vez, deverão ser de dimensões oceânicas. Mas quero propor que neste ano a presença do leitor seja maior. Gostaria de saber o que os leitores acham de tudo, gostaria de ouvir histórias de leitura e também de saber o que eles mais apreciam e detestam. Fala leitor!! Parla!! Exercita teus direitos, ajuda a Feira a ser ainda maior, melhor e mais tua.

Como é ímpossível citar os milhões de leitores, quero aqui homenagear um dos maiores deles. Foi um dos fundadores da Feira do Livro e um leitor absolutamente especial: Maurício Rosenblatt. Um dia, na Feira, perguntei se ele era um Dom Quixote. Humilde, bem-humorado, disse que não, que estava mais para Sancho Pança. Grande Seu Maurício!!!

E-mail: jcimenti@zaz.com.br

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David Coimbra
24/10/2003


O vento norte

Quando sopra o vento norte, alguém vai se matar em Encantado. Ouvi algumas vezes essa frase, quando fui visitar aquela cidade do Vale do Taquari, dias atrás. Pudera. Fatos sinistros têm ocorrido em Encantado. Sobretudo no inverno.

Numa manhã fria porém clara do último inverno, por exemplo, uma agricultora de 55 anos, mãe de cinco filhos, entrou no galpão dos fundos de sua casa levando na mão uma pequena foice de cortar pasto. Mourejava de sol a sol, essa mulher, e na dura lide do campo, típica da pequena localidade rural onde vivia. Naquela manhã, estava sozinha.

Foi em solitário silêncio que cometeu um tipo incomum de suicídio: cortou a garganta de orelha a orelha, e o fez com tanta violência que chocou o médico chamado pela família logo depois. Tamanha a força empregada na própria degola que a cabeça lhe ficou pendente às costas, presa apenas por uma estreita tira de pele da nuca.

Foi o terceiro suicídio registrado no mesmo lugarejo, no mesmo inverno. A freqüência dos suicídios em Encantado preocupa o vice-prefeito Sérgio Goldoni, que também é médico. Ele vai sugerir à Secretaria da Saúde local que faça um estudo científico sobre o assunto.

Quem conhece Encantado custa a crer. As coisas estão todas bem-postas, naquele lugar. Ruas limpas e calmas, casario típico da colonização italiana, Encantado bordeja o bucólico. Ali na esquina há um café do qual a dona vez em quando se ausenta, a freguesia vai entrando, serve-se no balcão. Provei uma torta de avelã que se desmanchava ao contato com o céu da boca, penso nela e a nostalgia faz brotar-me água dos carrinhos.

Os 18 mil habitantes da cidade são netos e bisnetos de italianos, comprazem-se com queijos olorosos, massas tingidas de molho vermelho e vinhos encorpados. O desemprego remonta a quase nada e latrocínio é palavra desconhecida pelo revisor do jornal local.

Por que as pessoas se matam em Encantado? Não será talvez porque naquele pequeno paraíso de origem italiana a vida oferece poucos riscos? Os desafios da vida, seus perigos todos, são eles, afinal, que motivam o homem, não é? O fora da namorada, o emprego perdido, cada vicissitude diária, por dolorosa que seja, é o que movimenta a existência, é o que faz palpitar o coração. Mas, puxa, eu não acharia ruim descansar de toda essa emoção sentado pachorrentamente num café de Encantado, diante de um naco generoso e macio daquela saudosa torta de avelã.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
24/10/2003


Crime inventado

Não sou contra nem a favor do Estatuto do Desarmamento. Esta é uma daquelas chatas questões em que os dois lados têm razão.

Mas sou visceralmente contra o principal dispositivo do Estatuto do Desarmamento: o que torna inafiançável o porte de arma ilegal.

Pela simples questão de que uma pessoa anda armada por apenas dois motivos: 1) para praticar crime; 2) para defender-se de criminosos ou agressores.

Quem anda armado para praticar crime é criminoso em potencial. Quem anda armado para defender-se de crime ou de agressão é simplesmente uma pessoa que se aparelha para a eventualidade ou iminência de um acontecimento adverso.

Ao tornar o porte de arma ilegal um crime inafiançável (isto quer dizer que o acusado irá direto para a cadeia), o Estatuto do Desarmamento vai simplesmente igualar os dois tipos que andam armados, a mesma pena sofrerão a pessoa que se arma para cometer crime, presa antes de cometê-lo, e a outra que se arma para se defender.

Isto é uma brutal injustiça. E uma desgraçada desumanidade.

Milhões de brasileiros serão recolhidos imediatamente às celas da prisões, sem direito a fiança, simplesmente por portarem armas sem autorização.

Isto não é crime, isto foi e sempre será, em qualquer sociedade civilizada, um subdelito, o que nós chamamos de contravenção.

Como é então que vai se jogar no fundo da prisão uma pessoa pelo simples fato de que ela está armada?

A grande maioria das pessoas que se arma está tomando esta atitude porque se sente em perigo no seu meio social.

Tornar inafiançável o porte de arma ilegal é o mesmo absurdo que penalizar-se com o mesmo castigo usuários de drogas e traficantes.

Vai se criar um exagero curioso e desumano: aquele cidadão que não for criminoso e tiver sido apanhado com uma arma, sem porte legal, será imediatamente recolhido à cadeia.

Lá na cadeia ele se juntará imediatamente aos outros presos por assaltos e homicídios, exatamente aquele tipo de gente contra o qual pretendia defender-se ao andar armado.

Vai ser um massacre. O mesmo que entregar um gato a um grupo de pitbulls.

Quando a estupidez se torna oficial e estatal, estamos diante do caos intelectual de uma nação.

Além disso, é horripilante a facilidade com que os nossos deputados e senadores criam leis que tornam os crimes inafiançáveis, ou qualificados, ou hediondos.

Aprovam leis sobre leis, criando crimes ou agravando de penas os já existentes.

Em nenhum momento, os nossos legisladores se perguntam se haverá vagas nas cadeias para abrigar os que vão incorrer nos novos ou agravados tipos penais. É por isto exatamente que metade dos assaltantes presos está em liberdade provisória.

Isto é de uma dolorosa e gritante irresponsabilidade.

Nunca foi crime portar arma ilegalmente. Nunca foi. Isso é contravenção, com direito a fiança. Torná-la crime inafiançável é que é crime.

Que sofrimento! Mas no fim outra grande vitória do Grêmio. Já são 11 pontos ganhos em 15 disputados.

Se mantiver esta média, salva-se do rebaixamento.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Grêmio
Vitória na raça



Christian abriu o caminho da vitória de 2 a 1 sobre o Juventude, em Caxias, que aumenta a esperança da torcida gremista (foto Valdir Friolin/ZH)


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Quinta-feira, Outubro 23, 2003




Greve termina e Caixa retoma o atendimento

Funcionários garantem reajuste de 12,6%
As agências da Caixa Econômica Federal retomam hoje o atendimento à população, após nove dias de greve. O fim da paralisação foi decidido ontem à noite, em assembléias pelo País. A greve atingiu 22 capitais e causou prejuízo de pelo menos R$ 200 milhões à Caixa. São Paulo, o único estado a rejeitar a proposta, fará nova assembléia hoje.

O fim do movimento foi possível graças à nova proposta apresentada ontem pela instituição. O banco ofereceu 12,6% de reajuste sobre o salário-base, 10% para cargos técnicos e 5% para as funções gerenciais. Manteve o abono de R$ 1.500, pago em até 10 dias após o acordo, e tíquete-refeição de R$ 11,67 ¿ o mesmo valor dado aos colegas do setor privado. A cesta-alimentação aumentou de R$ 80 para R$ 100, e os empregados terão direito à Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de 80% sobre o salário, mais fixo de R$ 650.

Não é o acordo dos sonhos, mas a Caixa abriu espaço para a negociação de cláusulas específicas, como o plano de cargos, analisou Enilson Nascimento, diretor do Sindicato dos Bancários do Rio. A Caixa garantiu que não vai descontar os dias parados.

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Histórias para contar
Paralamas do Sucesso têm história de 21 anos de banda registrada em livro e preparam DVD com clipes
Eusébio Galvão



São 21 anos de banda completados anteontem e Os Paralamas do Sucesso estão aí. A turnê do álbum Longo Caminho já contabiliza 80 shows, eles preparam um DVD com os clipes da banda e ainda vai rolar um disco ao vivo cheio de convidados. Não bastasse, toda a trajetória virou livro: Os Paralamas do Sucesso: Vamo Batê Lata (Ed. 34, 352 págs., R$ 39, lançamento oficial dia 10 de novembro, no Cais do Oriente), do jornalista Jamari França.

Isto não estava no nosso alcance. No começo, o que a gente queria era tocar no Circo Voador e ter uma música independente no programa do Maurício Valladares, da Fluminense FM. Se ver vinte e poucos anos depois num livro é estranho, admite Herbert Vianna, guitarra e vocal. A gente não esperava nem gravar disco, emenda o baixista Bi Ribeiro.

De certa forma, o livro serve para o próprio trio lembrar de algumas coisas. Não adianta perguntar muito, a pessoa mais indicada para contar é mesmo o Jamari, diz o baterista João Barone. Dá para perceber pelos depoimentos deles ao jornalista, com versões diferentes para alguns casos. Provoca um sorriso malandro na banda o fato de que algumas histórias do passado tenham se tornado públicas, como o Carnaval em que Herbert, um tanto embriagado, pôs-se a correr pelado pelas ruas de Mendes, interior do Estado. Só não sei se as piadas internas terão graça para as pessoas, despista Barone.

Para quem não imaginava gravar um álbum, até que a coisa rendeu. Foram 13 deles e os Paralamas se tornaram uma das maiores bandas do país. Amanhã e depois, fazem, pela primeira vez, shows na Fundição Progresso, vizinha do tão querido Circo Voador. Ali sempre tem um clima bom, a Lapa é ótima, acredita Bi. É o berço do samba e do rock, acrescenta Barone.

No show, tudo chuchu beleza. Depois de quase um ano de estrada, a ficha da volta de Herbert aos palcos caiu de vez. A gente tinha certeza de que ele voltaria, mas realizar isso foi outra coisa, recorda Bi. O primeiro show, na terra do Herbert (João Pessoa, PB) foi especial. E no começo a gente ainda não sabia se ele ia esquecer coisas, admite Barone. Acho que a ansiedade que a gente tinha de ver o público de novo era de mão dupla. O entusiasmo, a intensidade de reação, diz Herbert.

E se havia dúvidas quanto às memórias do cara, essas foram dissipadas. Nos shows, o bis é meio roleta-russa, diz Bi. Geralmente o Herbert desencava umas coisas. Dia desses a gente tocou Vovó Ondina é Gente Fina e Química, continua. Haja memória para lembrar tanta música. A gente combina pelo menos o começo, para não errar. O resto é jazz, diverte-se Barone.

Enquanto planejam o novo ciclo de 20 anos, como diz Herbert, os Paralamas repassam o passado. Dia 14 gravam um show em São Paulo para virar CD e DVD em 2004, com participações de Djavan, Frejat, Gil, Edgar Scandurra, Dado Villa-Lobos, Andreas Kisser e Nando Reis. E o DVD de clipes está quase pronto. Só falta um clipe obscuro de Meu Erro que nós não temos. Pedimos até ajuda aos fãs. No site (http://www.osparalamasdosucesso.com.br) eles descobrem como ajudar, diz Bi.

Músicas novas agora, só a partir do meio do ano. É quando vamos parar. O Herbert tem várias músicas novas, mas ainda não ensaiamos, conta Barone. Não temos nada muito orgânico, diz Herbert. O caminho é longo e ainda continua.

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Luis Fernando Verissimo
23/10/2003


Uma modesta proposta

O Brasil já fez reforma agrária - dos outros. Muitos dos imigrantes que vieram no século 19 estavam, nos seus países, na mesma situação dos atuais sem-terra no Brasil. Eram os excedentes de uma estrutura fundiária perversa sem uma estrutura industrial que os absorvesse. Itália, Alemanha etc., fizeram a sua reforma com a nossa terra, mas não podemos esperar que nos devolvam o favor. Não existem outros brasis no mundo para receber os sem-terra, já que este está ocupado.

Se houvesse, poderíamos incluí-los na nossa pauta de exportações. Depois dos ciclos do café etc., o ciclo dos desesperados. Só teríamos que cuidar para que este ciclo não repetisse os outros.

Fomos os maiores produtores de açúcar do mundo. Não somos mais. O que sobrou do ciclo do açúcar foram usineiros vivendo até hoje de subsídios, mas não exportando açúcar. Já produzimos borracha como ninguém. Não produzimos mais. Depois veio o café. Abastecíamos o mundo inteiro de café, sem concorrência. Isso também acabou. Depois veio a bossa nova. Dominamos o mercado mundial até os bateristas americanos aprenderem a batida. Hoje não precisam mais de nós.

A lambada parecia que ia nos redimir. Os franceses a encamparam, depois a esqueceram. Hoje exportamos jogadores de futebol, modelos gaúchas e soja. Poderíamos exportar desesperados. A produção não pára de crescer. Mas como não há mercado para eles, deveria pensar-se numa alternativa mais radical.

Há uns 300 anos, o escritor Jonathan Swift sugeriu aos irlandeses que comessem seus bebês. Ajudaria a diminuir a fome e ao mesmo tempo resolveria o problema da superpopulação no país. No mesmo espírito, e já que a nossa estrutura fundiária não só não muda como partiu para o revide com cobertura da Justiça, no campo eles são supérfluos e na cidade eles não têm empregos e não há outra saída, os sem-terra deveriam ser convencidos a se suicidar. O suicídio coletivo seria um gesto patriótico que daria paz aos campos, sossego aos latifundiários e alívio ao governo. E, ainda por cima, um pedaço de terra para cada um.

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Luis Fernando Verissimo
23/10/2003


Uma modesta proposta

O Brasil já fez reforma agrária - dos outros. Muitos dos imigrantes que vieram no século 19 estavam, nos seus países, na mesma situação dos atuais sem-terra no Brasil. Eram os excedentes de uma estrutura fundiária perversa sem uma estrutura industrial que os absorvesse. Itália, Alemanha etc., fizeram a sua reforma com a nossa terra, mas não podemos esperar que nos devolvam o favor. Não existem outros brasis no mundo para receber os sem-terra, já que este está ocupado. Se houvesse, poderíamos incluí-los na nossa pauta de exportações. Depois dos ciclos do café etc., o ciclo dos desesperados. Só teríamos que cuidar para que este ciclo não repetisse os outros.

Fomos os maiores produtores de açúcar do mundo. Não somos mais. O que sobrou do ciclo do açúcar foram usineiros vivendo até hoje de subsídios, mas não exportando açúcar. Já produzimos borracha como ninguém. Não produzimos mais. Depois veio o café. Abastecíamos o mundo inteiro de café, sem concorrência. Isso também acabou. Depois veio a bossa nova. Dominamos o mercado mundial até os bateristas americanos aprenderem a batida. Hoje não precisam mais de nós. A lambada parecia que ia nos redimir. Os franceses a encamparam, depois a esqueceram. Hoje exportamos jogadores de futebol, modelos gaúchas e soja. Poderíamos exportar desesperados. A produção não pára de crescer. Mas como não há mercado para eles, deveria pensar-se numa alternativa mais radical.

Há uns 300 anos, o escritor Jonathan Swift sugeriu aos irlandeses que comessem seus bebês. Ajudaria a diminuir a fome e ao mesmo tempo resolveria o problema da superpopulação no país. No mesmo espírito, e já que a nossa estrutura fundiária não só não muda como partiu para o revide com cobertura da Justiça, no campo eles são supérfluos e na cidade eles não têm empregos e não há outra saída, os sem-terra deveriam ser convencidos a se suicidar. O suicídio coletivo seria um gesto patriótico que daria paz aos campos, sossego aos latifundiários e alívio ao governo. E, ainda por cima, um pedaço de terra para cada um.

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Nilson Souza
23/10/2003


A mãe do mágico

Um homem passou 44 dias dentro de uma caixa envidraçada, pendurado às margens do Rio Tâmisa, em Londres. A proeza foi realizada pelo ilusionista norte-americano David Blaine, que não se alimentou durante o tempo em que esteve exposto à curiosidade alheia e à cobertura permanente da mídia. Saiu de lá vivo, mas perdeu 20 quilos, ficou desidratado e com problemas de visão. Diante do inusitado fato, uma pergunta se impõe:

- Para quê?

Para aparecer, evidentemente. Blaine, que é hábil com um baralho nas mãos e já andou até levitando diante de uma câmera de televisão, gosta de protagonizar excentricidades. Outro dia passou não sei quantas horas de pé no alto de um poste, para provar sua capacidade de autocontrole. Também ficou 61 horas dentro de um bloco de gelo e uma semana num caixão. O mais curioso é que sempre tem público para vê-lo.

Somos atraídos por maluquices. O livro dos recordes mundiais documenta bem isso. Lá estão os registros de façanhas esportivas e conquistas profissionais que enaltecem o ser humano, mas também aberrações constrangedoras e absurdos, como o da tailandesa que passou 32 dias e 32 noites num cubículo com mais de 3 mil escorpiões. E ainda achamos que os bichos é que são esquisitos!

Tem gente que se destaca por suas virtudes - e nem faz muito esforço para isso. Essas pessoas acabam sendo reconhecidas naturalmente por seus semelhantes. Há também os indivíduos que têm consciência do próprio talento e fazem o possível para mostrá-lo. Esses também ganham aplausos, a não ser quando colocam a vaidade acima da inteligência. O problema é que muitas pessoas, mesmo desprovidas de qualquer dom, não se conformam em ser mais um na multidão. E aí se lançam a extravagâncias, algumas inclusive com riscos para a saúde, que acabam servindo de mau exemplo para os imitadores.

Ah, sim, pois da mesma forma como tem público para tudo, também tem sempre alguém para querer fazer o mesmo. Não duvido de que já tenha algum Blaine brasileiro pensando onde vai pendurar a sua caixa de vidro.

A propósito, li que o mágico norte-americano levou para dentro da sua gaiola envidraçada uma almofada, água e a fotografia da mãe. Talvez esteja aí a explicação psicológica para a ânsia do ser humano de provar que também pode ser alguém especial.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
23/10/2003


Cadeira de Setúbal

Moacyr Scliar não recebeu posse na Academia Brasileira de Letras ontem.

Recebeu uma coroação. O menininho judeu do bairro Bom Fim não fez outra coisa em sua existência senão dedicar-se à literatura.

As letras são seu hobby, seu estudo, seu trabalho e sua vida. Faz da linguagem e da comunicação a essência da sua existência.

Escreve tanto quanto lê, sempre que saiu de Porto Alegre nas incontáveis viagens que fez pelo Brasil e pelo mundo, o motivo era a literatura.

Foi tomado febrilmente pela sua vocação. Nada mais justo que ontem fosse consagrado na Academia.

E de modo estranho nós todos, gaúchos, tomamos para nós a homenagem, como se a merecêssemos tanto quanto ele, sabedores de que todo o seu mérito foi erguido em nosso meio sedento da cultura dos livros e da informação dos jornais.

A autenticidade da solenidade de posse está localizada principalmente no fato de que ontem a Academia diplomou e entregou a sua espada a um cara do ramo.

Tinha razão o Scliar para estar nervosíssimo durante a posse: a honra é imensa. E ele é inteiramente merecedor dela.

Está muito bem entregue a Scliar e a Carlos Nejar a representação gaúcha na Academia.

Fiquei agradavelmente surpreso ao saber na posse de Scliar que sua cadeira na Academia foi ocupada, em 1935, pelo escritor e poeta paulista Paulo Setúbal, um dos raros autores que preencheram minha adolescência.

Setúbal foi advogado e promotor público. Como grande parte dos literatos brasileiros dos dois séculos passados, atacou-se de tuberculose.

Teve inicialmente uma vida dissoluta, envolvido com mulheres e jogo. Mas depois converteu-se espetacularmente à fé católica.

Dono de um estilo simples e fluente, também jornalista como Scliar, foi o escritor mais lido no Brasil na primeira metade do século 20, seus livros tiveram tiragens excepcionais.

Deve ter morrido em 1937 (nasceu em 1893), quando restou inacabada sua maior obra, Confiteor, em que narrou a sua conversão.

Guardo ainda como uma jóia em minha memória uma magistral quintilha que mandou afixar em uma placa à entrada de seu sítio, tentando restabelecer-se da insidiosa moléstia:

Como um caboclo bem rude
Eu vivo aqui nesta paz
A recobrar a saúde
Que eu esbanjei quanto pude
Nas tonteiras de rapaz.

Em futebol precisa ter sorte também. O árbitro virtualmente inventou um pênalti e o Internacional acabou se vitoriando sobre o Cruzeiro, candidatando-se assim à vaga da Libertadores.

O Grêmio, por exemplo, deu azar na arbitragem sábado passado, assim como ontem quando o Fluminense incrivelmente venceu o Corinthians.

Como acontece em todas as rodadas, o Grêmio joga tudo hoje em Caxias.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Brasileirão
¿Foi uma vitória incrível¿



Presidente do Inter comemora o 1 a 0 sobre o líder do Brasileirão
Com gol em um pênalti polêmico, colorado bate o Cruzeiro, volta à luta pela Libertadores e reanima o campeonato (foto Fernando Gomes/ZH)


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Quarta-feira, Outubro 22, 2003




QUIETUDE

Foi vendo as coisas que eu vi, foi procurando entendê-las
foi contemplando as estrelas que eu aprendi a rezar.
Foi perguntando por Ti e se é verdade que existes,
que não nos queres ver tristes
que eu comecei a cantar.

Foi no balanço das ondas foi no murmúrio do mar.
Foi vendo o vento que vinha, voltar levando as nuvens consigo.
Foi onde as águas se encontram e os rios entram no mar.
Que eu aprendi novamente a rezar, e me tornei Teu amigo.

Foi quando as folhas farfalham numa algazarra sem par, foi quando as aves a tagarelar
vão procurar seu abrigo.
Foi quando a tarde se esconde
lá no outro lado do mar,
que eu comecei, de repente, a chorar,
e me tornei Teu amigo.

Foi vendo nuvens e rios e vento e chuva e luar.
Foi vendo o sol lá no céu a brilhar, iluminando os meus dias.
Foi vendo os grandes mistérios, que ninguém sabe explicar. Foi vendo a vida teimando em voltar,
que eu descobri que existias.

Pe. Zezinho, scj

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GUARDO ESTAS COISAS NO MEU CORAÇÃO

Como era eu antes de nascer?
Como serei depois que eu me for?
O que era eu? Um nada?
Ou sendo projeto de teu amor eu já era um dos teus sonhos infinitos?
O que serei?
Que planos tinhas para mim aqui e que planos tens para mim depois?
Se eu não for fiel será que eles se realizarão ou eu posso prejudicar teu projeto? Se eu jogar mal, tu perdes comigo o jogo da vida?
Preciso ganhar para que tu ganhes ou perca ou ganhe eu tu sempre vences no fim?

O que é criar o universo?
Continuas criando?
E tens um propósito para cada sol que explode e cada planeta que aparece?
Há vidas inteligentes em outros lugares?
Por lá existe também quem te ama e te desobedece?
Lá também existem assassinos? Ou somos uma exceção no meio de milhões de corpos siderais?
Por que nos criaste?
Somos o que querias ou estamos muito abaixo do teu projeto?
Por que nos desviamos?
Que chance temos de um dia a humanidade ser feliz e nunca mais ninguém roubar nem caluniar, nem matar nem possuir ninguém?

Por que deixas morrer um bebê e permites a um velho que sofra até os 102 anos quando ele pede a morte?
Por que chamas o jovem sadio e cheio de planos e deixa vivo seu irmão doente que pede a chance de ir embora daqui?
Por que o assassino vive e até nada em riquezas e sua vítima está morta e seus pais chorando todos os dias?
Não vais matar este sujeito?
Qual a tua mente Deus se ela não tem nada de parecido com a nossa?
Qual o teu conceito de justiça e misericórdia?
Viu só, Deus, como eu tenho milhões perguntas?
Vou saber as respostas algum dia?

Guardo essas coisas no meu coração.
Não Deus eu não sei o porque das coisas.
Devem ter sua razão de ser.
Eu apenas oro, espero e tento conviver com elas.
Teu amor me diz que mesmo assim eu ainda posso ser feliz.
E eu sou, Amém!

Pe. Zezinho, scj

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B A N D I D O

Fátima Irene Pinto

Se a luz é a outra face da treva,

Se a morte é a contrapartida da vida,

Se o ócio é o oposto da lida,

E triunfo, o outro lado da queda,

Se o riso é a outra face do choro,

Se a tormenta se opõe ao sereno,

Se o vazio é a outra face do pleno,

Se o castigo é a ausência do louro,

É assim que me queres, Bandido,

Na alegria mesclada de dor.

És meu Anjo ou mortal inimigo,

Pois o ódio é a outra face do amor!

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NOTAS ESPARSAS

Fátima Irene Pinto


- Aquilo que realmente é, salta aos olhos.
Não é preciso que se diga ou que se alardeie.

- Amigo é aquela pessoa para quem você conta seus sucessos sem sentir-se cabotino e seus fracassos sem sentir-se miserável.

- O melhor remédio para um ego inflado e soberbo ainda é a humilhação.

- Quando se pratica a oração e a gratidão com todas as forças da Alma, o Universo vibra!


- Não se pode esperar coerência e retidão de uma pessoa acuada.

- A ironia é quase sempre a resposta dos que não têm respostas.

- Filhos são as mais preciosas ferramentas de auto-aprimoramento que recebemos da vida.

- O silêncio é uma forma branda porém letal de tortura e violência.

- Para além do nosso livre arbítrio há um destino que se cumpre inexoravelmente.

- Bom temperamento não é sinônimo de bondade.Mau temperamento não é sinônimo de maldade.

- O pior inimigo não é o que pôe em risco a tua vida, nem o que esvazia o teu bolso, nem o que macula a tua reputação.
O pior inimigo é aquele que te faz desacreditar de Deus e aniquila a tua fé.

- A mais bela obra de arte, a mais comovente sinfonia, o mais perfeito poema, não são certidões do carater ilibado de seus autores.

- A melhor maneira de saber quem você é, é observar como são as pessoas que estão com você ha pelo menos 10 anos.

- Quem faz sucesso é a minoria que ousa sair da área de conforto.
Estudam mais, dedicam-se mais, arriscam-se mais e sobretudo, aprendem a suportar o peso do sucesso com humildade.

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Sem sair de casa

Filmes em DVD fazem sucesso em locadoras e lojas virtuais entre os que procuram conforto e praticidade
Alessandra Carneiro



Maurício Feliciano, da locadora virtual Longa Metragem: 3 mil clientes em pouco mais de um ano de atuação

A premissa é simples: se é um sábado chuvoso e você optou por ficar em casa assistindo a um DVD, não há lógica ter de sair para alugar o filme, certo? Afinal, seja por causa daquela gripe que o derrubou, da chuva que não anima para a balada ou por uma pura e simples preguiça, sair de casa por qualquer motivo que seja pode estragar seu programa.

Algumas locadoras já faziam entregas em casa para quem preferisse fazer o pedido por telefone. Mas agora, com os filmes ao alcance do mouse, ficou tudo mais fácil. E com a popularização dos DVDs, parece que as locadoras on-line realmente chegaram para ficar. No Rio, já temos opções que entregam em diferentes partes da cidade. Algumas são lojas físicas que resolveram estender seus negócios abrindo uma filial on-line. Outras, no entanto, só existem na Internet e buscam nos micreiros o público ideal.

Esse é o caso da Longa Metragem, locadora que funciona apenas virtualmente desde junho do ano passado e já tem mais de 3 mil clientes cadastrados. A idéia surgiu através da paixão dos sócios (os irmãos Mário e Maurício Feliciano) por cinema. Decidimos montar uma locadora que oferecesse um diferencial em relação às demais. Foi quando tivemos a idéia de usar a Internet, explica Maurício.

Atuando no Centro do Rio, a Longa Metragem atende principalmente quem trabalha e tem pouco tempo livre. Sair de casa ou do trabalho para ir a uma locadora, escolher um filme e ainda ter de retornar para devolvê-lo tornou-se um transtorno, diz. Apesar de também alugar fitas de vídeo, o forte da empresa é o DVD. O aluguel de DVD corresponde a 80% de nossas locações, revela Feliciano.

O DVD Club Online foi uma das pioneiras na Web e apostou no DVD desde a sua inauguração, em 2000. Fiz uma pesquisa e vi o potencial do DVD e, com a idéia de ter um acervo diferenciado, investi somente neste produto, conta Rodrigo Deperon, seu fundador. Mas o negócio não pára por aí. Inauguramos uma loja física na Barra e até o final do ano abriremos outra na Zona Sul, diz Deperon, comprovando que o DVD veio pra ficar.

Escolha sua locadora on-line



Longa Metragem, Área 4 e DVD Club Online: três opções em aluguel de DVD com entregas em diferentes áreas. Confira outras locadoras on-line e seus preços abaixo

7ª arte (http://www.7arte.com.br): entrega na Barra, São Conrado, Itanhangá e Recreio. A locação custa R$ 7 pelo período de 24h para um filme; 48h para dois filmes; 72h para três filmes e assim por diante. Entrega grátis.

Área 4 (http://www.area4.com.br): Entrega na Tijuca, Andaraí, Maracanã, Usina e Vila Isabel, para pedidos feitos até às 20h entrega no mesmo dia; e no Centro, apenas em locais próximos às estações de metrô (Presidente Vargas, Uruguaiana, Carioca e Cinelândia), para pedidos feitos até às 16h para entregas no mesmo dia. A locação custa R$ 5 a diária e a taxa adicional de entrega custa R$ 2,50. Acima de dois filmes, não é cobrada nenhuma taxa.

DVD Club Online (http://www.dvdclubonline.com.br): Gávea, Leblon, Ipanema, Lagoa, Jardim Botânico, São Conrado, Botafogo, Copacabana, Humaitá, Flamengo, Laranjeiras, Catete, Gloria, Urca, Barra da Tijuca e Recreio (até o Shopping Recreio). A diária de filmes de área 4 custam R$ 6,50 para superlançamentos, R$ 6 para lançamentos e R$ 4 para filmes do acervo. Já os de área 1 custam R$ 7,50 para os superlançamentos, R$ 7 para lançamentos e R$ 4 para filmes do acervo. A taxa de entrega varia de R$ 0,40 a R$ 2, dependendo da área de entrega.

Espaço DVD (http://www.espacodvd.com.br): Barra da Tijuca, São Conrado e Recreio. O aluguel custa R$ 6 para todos os títulos. Como é uma locadora convencional, só entrega em domicílio nas sextas e segundas-feiras. A taxa de entrega ainda é salgada: R$ 5 para Barra e R$ 7 para São Conrado e Recreio.

Longa Metragem (http://www.longametragem.com.br): por enquanto, as entregas são feitas apenas no Grande Centro (inclusive Cidade Nova). Os lançamentos em DVD área 1 custam R$6,50, exceto na quartas-feiras, que está com preço promocional de R$ 4,50. Quaisquer outros DVDs que não se encaixam nesta categoria custam R$ 5,50. Não é cobrada taxa de entrega.

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Amor repleto de sotaque

Carolina Dieckmann e Lázaro Ramos gravam episódio do Cena Aberta no Rio Grande do Sul



Carolina faz mulher dividida

Carolina Dieckmann vai ficar dividida entre dois amores no episódio Negro Bonifácio, do programa Cena Aberta, previsto para estrear dia 18 e que vai misturar cenas de documentário e ficção em adaptações de contos clássicos da literatura. Negro Bonifácio está sendo gravado desde sábado em Canela, no Rio Grande do Sul.

Baseado no conto do autor gaúcho Simões Lopes Neto, Negro Bonifácio conta a história de um triângulo amoroso vivido por Tudinha, a personagem de Carolina ¿ que escureceu os cabelos para diferenciá-la de Edwiges, que viveu recentemente em >Mulheres Apaixonadas , Nadico, que será interpretado por um morador da região, e o próprio Negro Bonifácio, vivido pelo onipresente Lázaro Ramos, que também faz o humorístico Sexo Frágil.

A trama se passa no interior do Rio Grande do Sul, numa tradicional corrida de cavalos de cancha reta (o nome típico gaúcho dado ao local destinado a essas competições). Tudo começa quando Negro Bonifácio aposta um saco de balas para provar que é capaz de vencer qualquer cavalo escolhido por Tudinha. Ela escolhe o cavalo de Nadico, seu preferido. Bonifácio aceita o desafio e os dois disputam a corrida, porém, Nadico ganha. Numa festa, Bonifácio aparece para pagar a aposta e então começa uma grande briga entre ele e Nadico pelo amor de Tudinha.

O roteiro e a direção do Cena Aberta são de Jorge Furtado dos filmes O Homem que Copiava e Houve uma Vez Dois Verões e do diretor de núcleo Guel Arraes. O programa é uma co-produção da Globo com a Casa de Cinema de Porto Alegre, de Furtado, e será apresentado por Regina Casé. A princípio serão cinco episódios, exibidos uma vez por semana, depois do Casseta & Planeta, Urgente!. Além de Negro Bonifácio, o Cena Aberta ainda vai exibir adaptações de A Hora da Estrela, que já foi gravado, Três Palavras Divinas, de Leon Tolstói, Pigmaleão, de Bernard Shaw, e Folhetim, inspirado na Ópera do Sabão, de Marcos Rey, ainda em produção.

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simao@uol.com.br
21/10/2003


Racionamento! Proibido lavar calcinha no chuveiro!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E essa saiu na primeira página do UOL: Chaves vai escrever um livro erótico. O quê? O Chaves escreve livro erótico e a Madonna escreve livro infantil? Trocaram as bolas. Bolaram as trocas!

E a Bolívia? Adorei o nome do novo presidente da Bolívia: Mesa! Isso quer dizer que ele vai ser presidente até os índios resolverem VIRAR A MESA! E diz que o bom de um presidente se chamar Mesa é que ele tem os quatro pés no chão. Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

SUJÃO URGENTE! Amanhã, aqui em Sampa, começa o racionamento de água, o famoso SUJÃO! E aquela pilha de roupa suja? Manda pra lavar na casa do Alckmin! Rarará! E regra número um do racionamento: tá proibido lavar calcinha no chuveiro! E diz que um mineiro inventou uma máquina de lavar calcinha. Pra mulher não lavar calcinha no chuveiro. É verdade! Deve ser uma coqueteleira. Você pega a coqueteleira, bota a calcinha dentro, chacoalha, chacoalha e a água você ainda aproveita pra passar o café. Café com aroma de mulher, novela colombiana!

E você não toma mais banho de chuveiro, você passa pelo chuveiro. Por isso que aquela minha amiga já botou o cartaz no chuveiro: Favor só lavar o que for usar hoje. E um outro já reclamou: Com esse racionamento não dá mais nem pra bater uma no chuveiro. E como disse aquele outro: eu não sou porco, eu sou consciente. Rarará!

E um amigo meu tem dois aquários em casa. Pra não ter que ficar trocando água ele jogou fora os aquários e convidou os amigos para um sushi! O Sushi do Sujão! E diz que o caso Benedita vai ficar o Dito pelo não Dito! Rarará! E o Gabeira disse que sonhou o sonho errado. Maconha do Paraguai. Maconha transgênica!

Antitucanês, a Missão! Acabo de receber mais dois exemplos furiosos de antitucanês. Diretamente de Portugal. Portugal adere ao antitucanês. É que numa barbearia em Lisboa colocaram uma placa: Corto cabelo e pinto. Tenho até foto! E em Canas do Senhorim tem a funerária Cá Te Espero. Mais direto impossível! Viva o antitucanês! Morte ao tucanês! Viva Portugal!

E atenção! Cartilha do Lula! Mais dois verbetes pro óbvio lulante. Copom: copo pra conhaque. Remetente: companheiro dando a segunda bimbada. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E quem não tiver colírio alucinógeno pode usar Coca-Cola com Lexotan que dá no mesmo! UFA!

E-mail: simao@uol.com.br

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Martha Medeiros
22/10/2003


De costas pro futuro

Estive visitando a Casa Cor, que desta vez acontece nos armazéns do cais do porto. Vou pular a parte em que eu deveria falar do charme dos ambientes, vou direto ao que interessa: o absurdo de ainda estarmos de costas pro Guaíba.

Até o dia 2 de novembro, que é quando se encerra a exposição, você poderá ter uma idéia de como aqueles espaços poderiam ser aproveitados por restaurantes, cafés, galerias de arte, livrarias. O visual do rio, dos barcos e das ilhas em frente ao cais tem a capacidade de nos desenjaular, de nos remeter a uma cidade estrangeira, muito mais bonita e cosmopolita, e no entanto estamos aqui mesmo, em casa, proibidos de tal prazer.

Até os guindastes permanentes do cais criam uma atmosfera inusitada, parecem uma instalação - o que não é uma "instalação" hoje em dia? Obra de arte, dependendo do olhar caridoso do observador.

Nosso cais seria sem dúvida um dos mais atraentes pontos turísticos da cidade, gerando renda, empregos e acelerando a tal "revitalização do centro" . Porto Alegre teria mais um motivo para ser visitada e prestigiada, mas não, seguimos temerosos de que um dilúvio faça transbordar o rio, como aconteceu 62 anos atrás, e por conta disso e de mais algumas razões que desconheço, aqueles armazéns ficam lá inutilizados, ou utilizados para atividades invisíveis, contribuindo em nada para a evolução da cidade.

Museu é muito bom, mas sozinho não revitaliza coisa alguma. É preciso liberar os armazéns do cais (rápido, sem muita burocracia) para que o acesso ao lazer estimule o acesso à cultura, ajudando o centro da cidade a ganhar mais status, estilo, ferveção. Quem acha isso supérfluo parou no tempo.

E aproveito a oportunidade para falar sobre mais duas coisas que não me parecem tão difíceis de resolver. Uma delas é a sinalização das ruas. Uma cidade que pretende um dia entrar para o roteiro turístico precisa ter o nome das suas ruas identificadas em cada esquina. Parece lógico, mas o que a gente vê é uma centena de esquinas sem identificação, ou então com placas deterioradas, mal colocadas, sem nenhum projeto gráfico uniforme.

E a outra: onde está a fiscalização que não vê as carroças que circulam com excesso de peso, tumultuando o trânsito da cidade, sem falar na tortura que sofrem aqueles pobres cavalos? Cavalo é boa vontade minha. Pangarés.

Não é possível que seja tão difícil. Não quando se gosta mesmo da cidade onde se vive.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
22/10/2003


Emprego e desenvolvimento

Ouço várias pessoas quase todos os dias com a mesma opinião que tenho: não tem explicação que o Lula não aproveite esta sua vocação para impor novos ritmos ao governo para que expanda o jogo no Brasil.

Ainda agora, o Banco Interamericano de Desenvolvimento vem de publicar relatório em que se afirma que o desemprego na América Latina é o maior dos últimos 20 anos.

Para que Lula ponha fim a esse dramático crescimento do desemprego, é necessário que urgentemente sejam tomadas medidas para estimular os setores que mais empregam: serviços, turismo e construção civil.

Tanto eu quanto as pessoas responsáveis com que tenho conversado estamos convictos de que para um desses setores Lula teria uma solução ideal, que atenderia tanto à criação de empregos quanto à obtenção de recursos, através de novos impostos, para o sustento deste seu Bolsa-Famíla recentemente lançado: o setor de turismo.

Não é crível que o Brasil, com aquela que é a maior costa marítima aprazível do mundo, a maior parte dela com águas tépidas e limpas, não instale os cassinos em nosso litoral e nas outras estâncias turísticas.

Vejam o que fez o governo argentino: havia cassinos espalhados por todo o país, principalmente nas fronteiras.

Mas o governo não cedia a um princípio: a lei proibia cassinos em Buenos Aires, uma cidade turística por excelência.

Mas isso foi rompido e há um grande cassino a quatro minutos de táxi do centro de Buenos Aires hoje.

Da mesma forma, só havia cassinos estatais no Uruguai. Até que o governo permitiu a instalação do Conrad em Punta del Este e se anuncia para o mês que vem o segundo cassino com direção privada naquela cidade.

Os brasileiros, aos milhares, assim como outros latino-americanos, saem de seus países e vão gastar seus dólares anualmente em Buenos Aires e Punta del Este, atrás dos cassinos.

Mas por que não deixar os brasileiros apostarem aqui? E por que não atrair os turistas estrangeiros para nossas praias e para nossas estações de inverno, permitindo os cassinos no Brasil? Por quê? Se o jogo se espalha no Brasil por toda parte que se vá, com maquininhas e bingos encravados em todas as capitais, que prurido é este que impede que se criem centenas de milhares de empregos com os cassinos, crescendo a economia e obtendo o governo recursos para seus urgentes problemas sociais.

Não tem explicação perder divisas com os apostadores brasileiros no Exterior e não atrair os estrangeiros para o incremento milionário do turismo no Brasil. Se fosse uma questão de princípios ou religiosa, tudo bem. Mas nunca se jogou tanto no Brasil como atualmente, sem política de turismo, sem fiscalização e sem estímulo a impostos que seriam salvadores para o erário nesse instante de tanta falta de recursos.

Eu falei milhares de empregos. Mas se o turismo for incentivado pelos cassinos, serão milhões de empregos. O que é preciso é uma decisão de governo que ponha fim a esse gigantesco desperdício.

A violência dominante no Brasil e em muitas partes do mundo será o assunto central de um evento que se realizará de amanhã até sábado na Capital: o 2º Congresso Internacional de Saúde Mental e Lei.

Um grupo de psiquiatras, juristas, sociólogos, psicólogos, médicos e administradores públicos do Brasil, da Itália, da Argentina e do Canadá irá se debruçar sobre o tema da violência nestes três dias, tendo como local do encontro a Fundação Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre, à Rua Sarmento Leite, 245.

Os psiquiatras Luiz Carlos I. Coronel e Paulo Sérgio Rosa Guedes serão o presidente e o presidente de honra do conclave.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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David Coimbra
22/10/2003


O motorista traído
Antes de o táxi arrancar, o motorista ganiu:

- Minha mulher me corneou.

Isso dito assim, num rompante, causou-me dois sentimentos. O primeiro, compaixão. Sentado ali, a meu lado, estava um corno explícito. Mais: um corno grandiloqüente. Verdade que a altissonância, nesses casos, deriva da dor. O corno apregoa sua cornice para que o outro se solidarize. E confesse:

- Não liga, é normal. Também já fui corno. Muito corno.

Só que, não. Isso não acontece. O não-corno não é um solidário. Antes, ele se vale da cornice alheia para acentuar sua atual superioridade de fronte lisa. Embora no momento da revelação do corno novo ele até tente consolar a vítima, mais tarde, com os amigos, a galhofa e o desprezo vicejarão. Talvez envolvidos na casca vil da piedade:

- Coitado, é um corno.

Lamentei, portanto, a dor que consumia o taxista traído. Mas também tive algum receio. Embarcar em um táxi e ouvir tal confissão de um homem que você jamais viu, bem, isso certamente é grave. Já fui tomado de assalto por esses arroubos de motoristas - viagens com eles são sempre perigosas. Fiquei alerta, pois. E escolhi o saudável caminho da cautela:

- Tem certeza?

Foi um erro.

Ele me olhou, e seus olhos coruscavam:

- Se tenho certeza? Se tenho certeza??? Eu vi os dois vagabundos! Eu vi!

Estremeceu atrás da direção. Quase cruzou o sinal vermelho. Ponderei sobre o que dizer naquele momento delicado. Uma palavra em falso poderia resultar em abalroamento ou num inocente pedestre atropelado. Resolvi fazer uma consideração que julguei cordata e apropriada:

- Puxa.

Talvez tenha dado certo. Ele se acalmou um pouco.

- Com meu próprio sobrinho - prosseguiu, comovido, dois decibéis mais baixo. - Recebi um telefonema anônimo e fui conferir. Abri a porta e vi as peças de roupa espalhadas pela sala, pelo corredor, levando até o quarto, marcando o caminho do pecado.

Marcando o caminho do pecado. Tinha se tornado poético, e a poesia, de alguma forma, amaina a fúria. Como funcionou da primeira vez, repeti:

- Puxa.

Não obtive igual eficácia. Ele se lembrou de algo olhando pelo retrovisor. Voltou a esbravejar:

-Sem-vergonha! Cachorros, os dois. Queria matar, naquele dia. Devia matar!

Nessas situações em que o frágil equilíbrio da paz está sob ameaça, o ideal é se homiziar na segurança do lugar-comum. Suspirei um "é brabo...". Só depois arrisquei avançar um passo:

- Onde ela está agora?

Silenciou. Diminuiu a velocidade. Pensei que não ia falar mais. Porém, depois de alguma reflexão, sinalizou que ia entrar à esquerda e sussurrou:

- Está comigo.

Arregalei os olhos:

- Contigo???

Achei ter visto uma pincelada de constrangimento tingir-lhe as maçãs do rosto. Mas a recuperação foi rápida. Estufou o peito. Engatou com gana uma terceira.

- Sofri, mas acabei ficando com ela - sorriu, orgulhoso: - Ele pensou que ia roubar a mulher de mim, mas fui eu quem roubei a mulher dele. Eu que roubei!

Estacionou em frente ao prédio da Zero. Desci cogitando o que teria despertado as amargas recordações do taxista e, sobretudo, convencido que felicidade ou infelicidade, glória ou fracasso, tudo é mesmo uma questão de perspectiva. A torcida do Grêmio agora exulta com a idéia de o time chegar em vigésimo lugar no Campeonato. A do Inter se frustra porque o clube está em sétimo. Perspectiva. A dor ou o prazer, a vitória ou a derrota, cornear ou ser corno. Tudo, sim, senhor, depende do lugar de onde se está assistindo a vida passar.



Foto(s): Doug Mills, AP, Banco de Dados/ZH

A vida em linha reta
Os japoneses querem ser perfeitos, os ingleses querem ser perfeitos, a Uma Thurman é perfeita. Só que os japoneses não conseguem bater na bola de chapa. Foi o Dunga quem contou. Não conseguem, têm um problema lá no lado de dentro do pé de japonês deles, têm de aprender a bater de peito. Ou de três dedos, estilo no qual o próprio Dunga era perito, se é que você lembra aquele lançamento de 40 metros para o Bebeto na Copa de 94.

E os ingleses, me diga: você já provou a comida deles? Quem cozinha com molho de hortelã é tudo, menos perfeito.

Mas não tem problema, a vida é mesmo assim. Todos nós temos nossas falhas, nossas misérias, todos sofremos nossos reveses. E é isso que torna a vida interessante: suas imperfeições. Alguém perfeito seria de fato alguém muito chato. A propósito disso o poderoso "Poema em Linha Reta", um dos meus favoritos do Fernando Pessoa. Num trecho, o desabafo:

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Aí está o poeta clamando pela redentora imperfeição humana. Pois são justamente tais imperfeições que fazem o encanto do futebol. Num único jogo há o épico e o drama, a suprema beatitude e a tristeza infinita, o herói e o vilão, a comédia e a tragédia. Tudo por conta dos erros e superações de cada um. Um campeonato tem de contemplar a mesma possibilidade dessa gama de emoções. E só um campeonato que permite jogos decisivos é um campeonato de verdade. Porque nos jogos decisivos a carga emocional é tão importante quanto a técnica fria. Porque nos jogos decisivos a imperfeição humana, que é a própria glória da humanidade, essa imperfeição humana é que faz a diferença. Triste o atual campeonato em que nenhum jogo vale coisa alguma, o campeonato da medíocre perfeição.

Ah, a Uma. Claro, ela é perfeita. Mas fiquei sabendo que ela dispensou o marido porque o flagrou com outra. O marido estava com outra! Será que nem a Uma é perfeita? Nem a Uma??? Não entendo porque o campeonato deveria ser.
david.coimbra@zerohora.com.br

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Segurança
Discussão adia decisão sobre armas



Falta de acordo entre parlamentares adiou votação do Estatuto do Desarmamento, mas manifestações contra armas continuam (foto Roosewelt Pinheiro, ABR/ZH)


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Terça-feira, Outubro 21, 2003




Para viver mais e melhor
Academias criam serviços para público preocupado com qualidade de vida


Silvana Caminiti

De olho na mudança de comportamento do público, que busca na prática de exercícios uma maneira de ter uma vida saudável e não somente o culto ao corpo, as academias cariocas estão se reciclando para atrair novos alunos. Qualidade de vida virou a nova filosofia do fitness, e isso é uma tendência mundial. Quem quiser vencer a concorrência tem que mudar seu foco e ampliar o leque de serviços, diz o consultor Luiz Cláudio Marchese.

Um bom exemplo dessa mudança é a academia Forum Exere, na Tijuca. Criada há dois anos, a empresa não só oferece os mais variados tipos de atividades (de lutas como Aikido à dança de salão, passando por hidroginástica, alongamento, musculação, body kombat e spinning), como também promove eventos externos e internos, envolvendo seus alunos.

O bem-estar gerado pela união de exercícios, boa alimentação e lazer é a grande preocupação atual do público. Por isso procuramos oferecer tudo isso aos alunos. Esse é um dos motivos do aumento, dia a dia, no número de nossos alunos, comenta o professor Leonardo Marandino.

Segundo ele, outra mudança observada é a presença de pessoas acima dos 40 anos nas academias. ¿Isso tem tudo a ver com a saúde. Antes, a única preocupação de quem praticava exercícios era estética. Por isso, a maioria dos que freqüentavam academias era jovem e isso está mudando. Na Forum Exere, temos aulas específicas para esse público¿, comenta Marandino.

Forum Exere: (21) 2268-7226

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Moacyr Scliar
21/10/2003

No palácio

Como a maioria dos brasileiros, eu nunca havia, sequer, me aproximado de um presidente da República. O mais perto que cheguei disso ocorreu quando estive a uns 200 metros de Getúlio Vargas, que, candidato à Presidência, viera a Porto Alegre fazer um comício no Parque Farroupilha. Para lá fui, levado por um tio, homem de esquerda. Motivo: no palanque estaria o líder comunista Luiz Carlos Prestes, que à ocasião apoiava Getúlio.

Deveria ser, para os esquerdistas, uma coisa constrangedora, porque Getúlio, como ditador, perseguira o Partido Comunista e deportara para a Alemanha nazista Olga Benário, mulher de Prestes. Mas em política o inimigo de ontem é o aliado de hoje, e assim todos, comunistas e não-comunistas, aplaudiam freneticamente a figura lendária de Getúlio (que foi eleito, para sua desgraça: suicidou-se antes do fim do mandato).

Os anos passaram e o destino fez, sim, com que eu fosse recebido por um presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Motivo: a posse na Academia Brasileira de Letras. Segundo uma centenária tradição, o novo membro da ABL deve convidar para esta cerimônia o presidente da República. Parecia missão impossível; mas tive a boa idéia de pedir socorro ao nosso ministro Miguel Rossetto e a audiência foi marcada.

Devo dizer que foi para mim uma ocasião emocionante. E, atrevo-me a acrescentar, uma ocasião simbólica. Ali estavam, no Palácio do Planalto, sede de um poder que no Brasil sempre foi elitista, o ex-operário Lula e o filho de imigrantes judeus-russos. Lula e Marisa receberam-me com uma gentileza que me impressionou e me comoveu. Perguntaram sobre a ABL, sobre a literatura gaúcha, sobre muitas coisas.

Uma conversa amistosa, sem nenhuma solenidade, sem nenhum protocolo. E que me deixou uma convicção: o presidente Lula e o cidadão Lula são a mesma pessoa. Mostra-o, aliás, a foto dele no palácio e nos ministérios. Ele está ao lado da bandeira do Brasil - mas sem a faixa presidencial. E sorri. O que, em fotos de presidentes, é raro.

Isto tudo diz alguma coisa acerca do Brasil. Alguma coisa que certamente nos dá esperança. Um dia a gente chega lá. Um dia, como mostrou Lula, a gente - gente simples - chega ao Palácio do Planalto. Para entregar um convite ou para governar o país, não importa: um dia a gente chega lá.

A eleição para a ABL me valeu um enorme número de homenagens - eu teria de passar o resto da imortalidade agradecendo e mesmo assim não teria tempo suficiente. Mas, graças a uma dessas homenagens, realizei um sonho da infância brasileira: em Santo Antônio da Patrulha, entrei na cidade no alto de um carro de bombeiros, com sirene soando e tudo. Fantástica experiência. Meu único receio era de que, naquele momento, ocorresse um incêndio. Coisa que intelectual não consegue apagar. Ainda bem que existem bombeiros, não é mesmo?

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
21/10/2003


Só há vagas no céu

Isso quer dizer que a partir de 1º de novembro, por decisão do juiz das Execuções Criminais de lá, estará interditado o presídio local, sendo proibido recolher-se qualquer preso dali em diante.

O presídio abriga hoje 411 detentos, quando a sua capacidade não pode exceder a 250.

Se a mesma medida for tomada no Presídio Central, onde se acotovela aqui na Capital o quádruplo de presos com relação à sua capacidade, imaginem o que será do sistema prisional gaúcho.

Se cada juiz gaúcho que for titular de comarca onde há presídio tomar a mesma medida do juiz de Santa Maria, não haverá mais para onde se recolher os presos. E olhem que é esta medida que tem de tomar mesmo um juiz consciente: a animalidade que se instala numa casa prisional com o quádruplo de sua capacidade é compatível com a miséria humana mais trágica que se possa imaginar.

E o que poucas pessoas entendem: quando os presídios descem os degraus mais profundos da degradação, fora, na ruas, a vida vai se tornando cada vez pior.

Escrevi no domingo que basta a quem quiser atentar para o nível da atual tragédia social brasileira que se fixe no seguinte detalhe: não há hospitais nem presídios para conter a demanda de seus clientes e hóspedes, simplesmente passaram-se várias gerações sem que todos os governos construíssem hospitais e presídios. Um dia tinha que estourar.

Na mesma Santa Maria que vê interditado o seu presídio, foi recusado, sábado passado à noite, o paciente psiquiátrico Cândido Zuqueto, 66 anos, no Hospital da Universidade Federal, modelo de estabelecimento, que tem tudo para ser o centro médico da região.

Mas não havia vaga para Zuqueto nem há para outros milhares de doentes.

Zuqueto havia sido levado a Santa Maria para ser tratado de problemas mentais por uma ambulância, que o trouxera de São Vicente do Sul, distante 60 quilômetros.

Na base do "chute", atividade principal a que foram relegados os coitados dos médicos e atendentes do SUS, Zuqueto foi mandado adiante: de Santa Maria para Rio Grande, distante mais 400 quilômetros.

E lá se veio o homem numa ambulância, acompanhado do filho, de um amigo e de um enfermeiro de São Vicente do Sul.

A ambulância caiu na noite escura em um barranco da rodovia Bagé-Pelotas, matando no acidente o paciente, o filho dele e o enfermeiro. restaram feridos um soldado da PM e o motorista.

Vejam que um enfermeiro e um PM atravessavam com um paciente o Estado à procura de um leito para um homem transtornado. Não há hospital em São Vicente, não há vaga no gigantesco hospital universitário de Santa Maria, mas três servidores públicos (o motorista da prefeitura também) continuavam de guardiães do infelicitado doente.

Certamente não haveria vaga também em Rio Grande para o pobre homem. Ele seria encaminhado para o Hospital Espírita de Porto Alegre, que está estrebuchando de pacientes e onde corria o sério risco de também ser recusado.

Um verdadeiro rali pelo Rio Grande à procura de uma vaga em hospital.

Onde está a comunicação? Como cinco pessoas tripulam uma ambulância que arranca com o paciente de uma cidade para transpor centenas de quilômetros, sem certeza de vaga, no rumo do desconhecido? Isto é o fim da picada.

Santa Maria, como se vê, é hoje uma cidade sitiada. Não há vagas no seu maior presídio nem no seu maior hospital. A lei nos presídios e nos hospitais copia a da gafieira: quem está fora não entra, quem está dentro não sai.

Os fatos estão aí cristalinos: quem tentar desmenti-los corre o risco do ridículo e da falsificação de dados.

Paciente do Interior pode tanto morrer por não ter vaga no hospital quanto pelo acidente de trânsito que esmaga a ambulância nas trevas da noite do abandono maratônico e transmigratório.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Cláudio Moreno
21/10/2003


O pássaro e a gaiola

É uma das cenas de maior erotismo em toda a mitologia. Destinada ao sacrifício, a princesa Andrômeda está acorrentada a um rochedo batido pelas ondas. Completamente nua, a não ser pelo colar que traz no pescoço, ela aguarda, ofegante, o ataque do monstro marinho que virá colher sua vida. Neste momento, risca o céu claro da manhã o heróico Perseu, que voa com as sandálias aladas que o deus Hermes lhe emprestou. Ao avistá-lo, lá em cima, Andrômeda não faz gesto algum para atraí-lo, nem grita por seu socorro; talvez retorça-se um pouco mais sob os grilhões, comprimindo a carne delicada contra o negro rochedo lambido pelo mar; talvez corrija um pouco a posição do corpo para que a luz do sol atinja as esmeraldas, que brilham agora sobre sua pele alva.

Uma leve brisa agita os seus cabelos, e os lindos olhos da princesa, inundados de lágrimas silenciosas, erguem-se para Perseu, fulminando-o em pleno vôo. Ele não resiste, como, aliás, ninguém resistiria; é uma imagem tão poderosa que, nos séculos que vão se seguir, dezenas de pintores e poetas (todos homens, é claro) vão tentar reproduzir o fascínio daquela cena.

Perseu desce e pergunta por que ela está ali. Andrômeda parece envergonhada, e taparia o rosto com as mãos, se não estivesse acorrentada. Perseu insiste, carinhoso, e ela, entre lágrimas, conta o seu triste destino ao nosso herói, que já está apaixonado. Todos, até o rochedo, pressentem o inevitável: ele vai enfrentar o monstro e desposar a bela Andrômeda, que também já gosta dele; ainda não sabem, mas vão formar um dos raros casais felizes de todos os mitos gregos.

E hoje, onde estarão os Perseus e as Andrômedas? Não há mais lugar para eles, pois muita coisa mudou entre o homem e a mulher. Ela agora também é sujeito da História, e defende o seu direito a uma vida própria e a uma profissão com o mesmo ardor com que recusa aquele ingênuo papel de vítima indefesa. Ele, coitado, ao ver crescer a seu lado essa destemida guerreira, perdeu sua pose de herói e foi murchando aos pouquinhos; acorrentou-se ao rochedo da dúvida e da hesitação e deixou o mar levar sua coragem e ousadia.

Pior para ele, diria a amiga leitora; pior para ambos, diz a voz da experiência, porque não são poucas as vezes em que ela gostaria de poder sentir-se frágil, de ser salva e protegida, de ser abraçada por um homem que lhe diga que tudo vai se resolver e que o monstro não é tão feio assim - porque, no fundo, embora queira ser livre como um pássaro, ela também quer uma gaiola, cuja porta fique sempre aberta para quando ela tiver vontade de entrar.


claudio.moreno@zerohora.com.br

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Ensino
Eleição de diretores na mão de pais e alunos


Campanhas eleitorais antecedem a escolha para novos dirigentes de 3.044 colégios estaduais gaúchos (foto Júlio Cordeiro/ZH)


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Segunda-feira, Outubro 20, 2003




SER MULHER

Ser mulher...
É viver mil vezes em apenas uma vida.

É lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora.

É estar antes do ontem e depois do amanhã.
É desconhecer a palavra recompensa apesar dos seus atos.

Ser mulher...
É caminhar na dúvida cheia de certezas.

É correr atrás das nuvens num dia de sol.
É alcançar o sol num dia de chuva.

Ser mulher...
É chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza.

É acreditar quando ninguém mais acredita.

É cancelar sonhos em prol de terceiros.
É esperar quando ninguém mais espera.

Ser mulher...
É identificar um sorriso triste e uma lágrima falsa.

É ser enganada, e sempre dar mais uma chance.
É cair no fundo do poço, e emergir sem ajuda.

Ser mulher...
É estar em mil lugares de uma só vez.

É fazer mil papeis ao mesmo tempo.

É ser forte e fingir que é frágil...
Pra ter um carinho.

Ser mulher...
É se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas.

É distribuir emoções que nem sempre são captadas.

Ser mulher...
É comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos, mas jamais dever.

É construir castelos na areia, ve-los desmoronados pelas águas.
E ainda assim amá-los.

Ser mulher...
É saber dar o perdão... É tentar recuperar o irrecuperável.

É entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.

Ser mulher...
É estender a mão a quem ainda não pediu.

É doar o que ainda não foi solicitado.

Ser mulher...
É não ter vergonha de chorar por amor.

É saber a hora certa do fim.
É esperar sempre por um recomeço.

Ser mulher...
É ter a arrogância de viver apesar dos dissabores,

Das desilusões, das traições e das decepções.

Ser mulher...
É ser mãe dos seus filhos... Dos filhos de outros.

É amá-los igualmente.

Ser mulher...
É ter confiança no amanhã e aceitação pelo ontem.

É desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos.
E fincar a bandeira da conquista.

Ser mulher...
É entender as fases da lua por ter suas próprias fases.

É ser "nova" quando o coração está à espera do amor.
Ser "crescente" quando o coração está se enchendo de amor.

Ser "cheia" quando ele já está transbordando de tanto amor.
E ser "minguante" quando esse amor vai embora.

Ser mulher...
É hospedar dentro de si o sentimento do perdão.

É voltar no tempo todos os dias e viver por poucos instantes.
Coisas que nunca ficarão esquecidas.

Ser mulher...
É cicatrizar feridas de outros e inúmeras vezes deixar

As suas próprias feridas sangrando.

Ser mulher...
É ser princesa aos 20... Rainha aos 30...

Imperatriz aos 40 e... "Especial" a vida toda.

Ser mulher...
É conseguir encontrar uma flor no deserto.

Água na seca... Labaredas no mar.

Ser mulher...
É chorar calada as dores do mundo e

Em apenas um segundo, já estar sorrindo.

Ser mulher...
É subir degraus e se os tiver que descer não precisar de ajuda.

É tropeçar, cair e voltar a andar.

Ser mulher...
É saber ser super-homem quando o sol nasce.

E virar cinderela quando a noite chega.

Ser mulher...
É ter sido escolhida por Deus para colocar no mundo os homens.

Ser mulher...
É acima de tudo um estado de espírito.

É uma dádiva... É ter dentro de si um tesouro escondido
E ainda assim dividí-lo com o mundo!

Silvana Duboc

Parabens a Você por Ser... Fêmea... Amante... Mãe... MULHER!!!

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E eu!

Que me guardei dentro do meu anoitecer,
Que só queria esquecer,

Que já havia secado, como um lago que altera a sua natureza,
Que já havia estagnado, como um rio que perde a correnteza.

Mas então você chegou
Me trazendo de volta o prazer de fazer amor,
Me tocando...
Roçando... Seduzindo... Se entregando
Me derretendo a cada olhar,
Me fazendo descongelar.

E eu!
Que menti tanto tempo a mim mesma
Que meu corpo só conseguiria viver na frieza
Do iceberg gelado que havia me aprisionado.

Descobri então um vulcão adormecido,
Quente, escondido, ardente e
Inflamei finalmente.

E meu sexo que andava doente
Amanheceu novamente.

Abri as comportas... Me lancei nessas águas.
Liberei a represa de uma vida amargurada
Quis nessa investida... Morrer afogada.

Virei corredeira com a pressa de uma vida inteira
Numa velocidade estonteante,
Desaguando,
Sorrindo e chorando, gritando,
Gemendo e sonhando.

Fui sedenta.
Fui terna e violenta, fui vendaval
Depois fui temporal.

Fui chuva de verão,
No inverno a inundação, na primavera gotejei,
No outono, num córrego me transformei.

E eu!
Que andei perdida na seca da minha vida,
No deserto do incerto,
Por certo não sabia, que em mim, uma mina existia,

Uma fonte, no final do horizonte.

Que muita água dela ainda brotaria,
Que em mares eu ainda navegaria e
Que em oceanos eu ainda nadaria.

E eu!
Me fiz cachoeira ao primeiro toque seu,
Me transformei em goteira, quando seu corpo foi meu.
Fui córrego sem destino
E naufraguei quando senti
Você partindo.

Me fiz a escrava de um lago insano
Volumoso e profano.

Me fiz a sereia de um mar agitado
Num instante nunca antes imaginado.

E eu!
Que achei que esse dia não mais aconteceria,
Transformei esse momento em ilusão e magia,
Em partida da minha agonia,
Em chegada da minha euforia.

E eu!
Louca, agitada,
Extasiei-me mil vezes nas suas chegadas,
Perdi-me em desejos,
Alucinei-me aos seus beijos.

E eu!
Que despi-me com medos,
Cheia de receios de experimentar pesadelos,
Acabei vivendo sonhos envoltos em molduras
De fogo, paixão e loucuras.

E fiz poesia de mim e
Aconteceu tudo assim
Tudo molhado... Encharcado... Alagado,
Deixando rastros por todos os lados.

E eu!
Que abri minhas torneiras que estiveram fechadas
Uma vida inteira,
Agora vivo do meu passado molhado, nesse rio que criou correntes,
Que procura sua nascente,
Não aceita mais congelar, e seu leito não consegue achar
Flutuo nele a espera de você voltar.

Preciso,
Quero, lhe espero,
Pra de novo desaguar.

Meu mar agora aberto está incerto
Não controla mais a altura das ondas
Não quer mais viver de marolas.

E eu!
Que há tempos vivia a secar,
Que não reconhecia mais o ruído do mar
Procuro o seu balanço novamente.

Eu!
Que agora já aprendi a nadar,
Quero outro maremoto enfrentar.

Silvana Duboc

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Nada melhor que uma segunda-feira para abordarmos este tipo de assunto. Ochalá ao longo da semana estas teorias todas possam ser praticadas e testadas. Uma ótima semana todos nós.

Etiqueta no Motel. Invista!

O ambiente é, quase sempre, um ilustre desconhecido. O formato da cama é diferente, espelhos cercam vocês dois, um quadro de mulher nua de gosto duvidoso está pendurado na parede.... tudo ali sugere o quê? Isso mesmo: sexo. O que não quer dizer só desejo e fantasia. Para transformar sua visita ao motel numa lembrança inesquecível, é preciso algum tato e muito cuidado.

Surpresas vão estar escondidas em todos os cantos: na banheira de hidromassagem, no painel de controle remoto, nos canais de vídeos eróticos, no colchão vibratório. Se você está indo ao motel com um parceiro conhecido, com quem não tem a maior intimidade, tome cuidado para não estragar tudo vivendo cenas de filme de pastelão. Se o parceiro é novo (motel se presta muito a esse tipo de situação), seja cuidadosa em dobro. Dependendo do que e de como tudo vai acontecer, o romance pode deslanchar ou cair na sarjeta, sem chances de levantar. Inês Castro autora do livro "Etiqueta da Beleza" (Panda Books), pesquisou sobre o assunto e sugere às leitoras do MULHER, dicas interessantes de como se comportar num encontro amoroso marcado no motel.

Seja chique e elegante
Uma amiga sempre dizia: "motel não passa doença venérea. Quem passa é a pessoa que leva você ou que você leva para o motel". Sábia essa moça. Será que é preciso aconselhá-la a usar camisinha?

Duas coisas você não vai fazer nem amarrada quando entrar no quarto do motel: tirar a roupa automaticamente ou sentar na cama feito uma freira. Se não sabe por onde começar, o que fazer, onde enfiar as mãos, olhe bem nos olhos dele e se atire para um beijo de novela. De preferência de olhos fechados para não perder a concentração.

Não importa se a cama é redonda, quadrada, em formato de pirâmide ou tatame japonês. O importante é que ela esteja limpinha, com os lençóis devidamente presos embaixo do colchão.

Está louca para se entregar por inteiro? Perfeito. Mas não vá atirando as peças de roupa pelo quarto afora. Já imaginou a cena patética que vem depois, ajoelhada no chão, tentando encontrar o sutiã perdido?

Vocês estão pegando fogo logo na porta de entrada? Tentar mexer no painel de luz para melhorar ainda mais o clima pode ser um balde de água fria na cabeça dos dois. Uma estroboscópia cafona pode começar a piscar freneticamente! Você vai cair na risada, ele pensará que o motivo da graça é ele... Melhor quebrar o gelo no escuro. Depois, mais íntimos, vocês exploram a iluminação.

O programa não ia acabar no motel, mas pintou um clima e é para lá que vocês estão indo. Só que você acabou de lembrar que suas pernas não estão depiladas. Mesmo que o cara faça o tipo amigão, nem pense em pedir um aparelho de barba na recepção para fazer o serviço, sozinha, no banheiro. Ele vai perceber. Em vez de ficar preocupada com a estética, parta logo para o ataque. Garanto que ele esquece os pêlo, mas não esquece sua performance na cama.

Você está menstruada? Se a resposta é positiva, não vou entrar em detalhes, mas vou lhe dar um conselho: escolha um dos outros 23 dias do mês para ir ao motel.

É hora do banho, que hora tão feliz... Banho em motel tem de ser a dois. Sozinha não tem a menor graça e ainda deixa a gente tensa, imaginando os milhares de fungos que estão sob nossos belos pés. Então, esqueça a "neura" e convide seu namorado para compartilhar o chuveiro com você.

Quando acabar o banho, apenas enrole-se no roupão, sem ficar esfregando a toalha pelo corpo todo. Acredite que motéis são locais que se preocupam com a higiene, mas tenha algumas dúvidas sobre como as toalhas são lavadas.

Vai tomar banho de banheira? Então pelo sim pelo não, não custa deixar a água escorrer um pouco antes de enchê-la.

Motel não é restaurante. Pelo amor do seu estômago, deixe o lanchinho para mais tarde e concentre-se no que você vai fazer lá.

Se você não pode, de jeito nenhum, sair do motel de cabelo molhado, use uma toalha seca para enrolar um turbante na cabeça durante o banho. Essas toucas de plástico não são confiáveis.

Se você é do tipo chique que não suporta luz negra na pista de dança, odeia cama redonda, não ouve Roberto Carlos nem sob tortura e abomina espelhos no teto, responda com sinceridade: o que é que está fazendo no motel? Se topou ir até lá, relaxe.

Tudo já aconteceu. Mas isso não quer dizer que agora você pode acender a luz, sintonizar a TV na novela, sair do banheiro penteado o cabelo e vestir a meia- calça na frente dele. Mantenha o clima, caso contrário não vai ter próxima vez. O jogo só acaba quando termina (e isso quer dizer quando você e ele tiverem ido cada um para sua casa)

Se ele é gordinho, baixinho, está ficando meio careca mas... a ama, respeite os sentimentos do rapaz. Mesmo que ele a obrigue a ser sempre sincera, você está proibida de fazer comentários sobre a barriguinha saliente. Cruzes os dedos e, deliberadamente, minta. Ele merece.

Vocês estão prestes a chegar lá e nem sinal de ele colocar a camisinha? Não tenha dúvidas: escorregue feito uma cobra até sua bolsa, pegue uma e coloque nele. O quê? Você também não levou a camisinha? Pare tudo e peça uma à recepção.

Ele é do tipo piloto de Fórmula 1. Você nem piscou e ele já está no pódio comemorando: "Foi bom, meu bem? "Se quer a minha opinião, não invista nem mais um segundo nessa criatura. Diga que foi maravilhoso, mas deixe claro que você está com dor de cabeça e quer ir para casa. No dia seguinte, sua primeira providência vai ser mudar o número do telefone e sumir do mapa.

Motel é bom. Pode ser ótimo. Mas o melhor de tudo é sua companhia.

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Mulher de amigo meu pra mim é homem!


O desejo sexual masculino existe em estado mais bruto do que o das mulheres e baseia-se fundamentalmente no apelo visual, na "sensação". Já o desejo da mulher é fundamentado mais no que ela sente do que no que ela vê. Se uma mulher tiver o tipo físico e o jeito que inspire certo homem, ele terá desejo por ela independentemente de quem ela seja - a professora do colégio, a chefe, a amiguinha da filha ou da namorada, a freira do convento ou até "mulher do amigo".

Assim, um homem que diz não sentir desejo algum porque ela é mulher de um amigo dele, em princípio está mentindo, a não ser que ela não corresponda às características de sedução que o inspiram. Dessa forma, se ele só gosta de gordinhas e a mulher do amigo é magérrima, então ele não terá desejo por ela, mas não porque ela é esposa do amigo, e sim porque é magra, não correspondendo às características que o seduzem.

Vamos deixar claro uma coisa: há uma grande distância entre "sentir desejo" e "concretizar" um ato sexual.

Pela minha experiência como psicólogo, posso afirmar que apenas 25 % dos homens chegam às vias de fato com a mulher do amigo. Os outros 75% ficam na imaginação, no simples desejo (parece que o entrevistado está entre esses 75%) .

Ele pode, eventualmente, até se masturbar pensando na mulher do amigo, transar com própria mulher pensando na mulher do amigo, convidar o casal amigo para sair constantemente apenas para ficar olhando o decote da comadre, mas daí a "concretizar" alguma coisa faz uma grande diferença. E neste ponto, o comportamento masculino se diferencia bastante de feminino, com vantagens para o homem, que acaba se mostrando muito mais respeitoso do que a mulher em relação à prosperidade alheia. Vejamos o porquê.

A mulher normalmente estabelece uma relação de competição com as outras no que se refere ao processo de sedução. Se uma "toma" o homem da outra, é como se estivesse derrotando-a, afirmando-se e se mostrando melhor e mais poderosa do que a outra. Isso significa mais grave quando a amiga comprometida é alvo de inveja (as mulheres têm a tendência de se invejarem bastante, principalmente no que diz respeito à beleza e à realização afetiva). A inveja feminina e a falta de limites são tão conhecidas, que as próprias mulheres são as primeiras a declarar que são uma classe desunida e que não se pode confiar em pessoas do sexo feminino.

Nenhuma mulher esperta arrisca deixar o seu marido a sós mesmo com a sua melhor amiga - femme fatale. Normalmente, muito mais por desconfiar do que a amiga pode fazer do que por não confiar no marido.

Já o comportamento masculino é diferente. O homem não estabelece esse tipo de competição. Assim, dará sempre prioridade a conquistar uma mulher que esteja disponível ou comprometida com alguém com quem ele não tenha relação próxima, do que tentar seduzir a mulher do amigo (mesmo que ele sinta desejo por ela). Vale ressaltar, porém, que o vizinho, o colega de trabalho ou um dos jogadores do time de futebol do fim de semana podem não ser necessariamente amigos - apenas conhecidos. E nesse caso, o homem não pensa duas vezes se tiver espaço e segurança por colocar mais uma no currículo.

Portanto, quando um homem diz "mulher de amigo meu para mim é homem", ele está mentindo, porque pode sim sentir atração por ela (ao contrário do que a frase indica). Mas ele está falando a verdade no sentido de que, na maior parte das vezes, ficará só na fantasia - nada acontece. Logo, a não ser que a mulher do amigo dele seja algo do gênero fêmea fatal, irresistível, destruidora de lares, não se preocupe demais.

A jornalista Tatiana Flores e psicólogo José Roberto Cabral são autores do livro "Nem Tudo São Flores... Quando o Assunto é Homem", da editora Celebris.

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Gente que ama o que faz

Valores, conhecimentos e comportamentos não são transmitidos, criados e recriados em todos os campos de atividades sem os professores. As gerações não se alfabetizam sem eles e nunca é demais afirmar que os professores têm papel estratégico no desenvolvimento de uma nação e, para isso, o magistério tem de ser exercido em condições dignas para desempenhar sua importante função social.

O Dia do Professor foi celebrado na última quarta-feira e o MULHER publica hoje uma história de amor e paixão pela profissão. Em homenagem a todos os mestres, entrevistei a professora Nilza Moretti Ariza, de 65 anos, sendo 43 deles dedicados à arte de ensinar em seus mais diferentes estágios. Há três anos ela aceitou um desafio: voltou à sala de aula para alfabetizar crianças e o resultado foi ótimo.

Fantástico também é ver roupas mogianas em horário nobre da Rede Globo. O estilista Zé Vitor Zerbinatto veste quatro personagens da novela "Celebridade", entre eles, a protagonista Maria Clara, vivida por Malu Mader. Em primeira mão, o MULHER publica alguns modelos da grife mogiana Madame X que estarão na novela.

E como o sol voltou a brilhar e para não deixar ninguém se esquecer que a partir de hoje estamos no Horário de Verão, o leitor confere as tendências da moda praia para esta temporada.

Marta Vicentin

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Luis Fernando Verissimo
20/10/2003


Pelo Grêmio

Insuspeito, posto que colorado, insisto que é um contra-senso clubes de grande torcida e tradição como o Grêmio caírem da divisão principal. Não vale dizer que é assim no mundo todo. Na Europa, o futebol profissional não padece de penúria de público como o futebol brasileiro, e os grande clubes têm a torcida garantida da sua cidade não importa para que divisão caiam. Num futebol que briga para motivar o público a gastar o dinheiro que não tem indo aos estádios, nenhum tipo de profissionalismo sobrevive a este absurdo: de uma hora para outra - ou de um campeonato para outro -, um grande clube e sua torcida são simplesmente subtraídos do mercado principal.

Deveríamos adotar o modelo americano, se não para sempre pelo menos nestes anos de emergência. Quem baba diante dos grandes espetáculos oferecidos pelo basquete e o futebol americanos imagine um daqueles times milionários sendo obrigado a renunciar à sua participação na melhores rendas só porque não fez pontos suficientes. Já que imitamos tantas coisas dos americanos, por que não fazer uma revolução capitalista no nosso futebol, inclusive para estancar a hemorragia de craques para a Europa? Precisamos de uma superdivisão com os vinte e poucos clubes mais rentáveis do país, com campeonatos bem organizados e bem promovidos e... Eu sei, eu sei. É uma tese sem futuro.

De qualquer maneira, Grêmio, se acontecer o pior e precisarem de mim na barricada, estarei lá. Em espírito, claro, para não ser visto.

Falando em Grêmio: o Túlio Macedo, que sabe tudo sobre o futebol do presente e do passado, me apresentou o embaixador Jorge Carlos Ribeiro, que em 1992 estava na embaixada brasileira em Montevidéu e promoveu um encontro do Ademir e do Zizinho, da Seleção de 50, com jogadores uruguaios que nos ganharam na decisão da Copa daquele ano. Maspoli, Miguez, Julio Perez, Schiaffino, Ghiggia...

O encontro incluiu um churrasco na casa do "Negro Jefe", o mítico Obdulio Varela, e, lembrou o embaixador, a conversa girou em torno da grande decisão de 50, como não poderia deixar de ser. E o próprio Ademir se encarregou de desmentir a história, uma das tantas lendas daquele jogo, de que Obdulio teria dado um tapa na cara do Bigode durante o jogo. O embaixador guardou um recorte de jornal que noticiou a reunião. Nele se lê que "Obdulio, fiel a su estilo, dejó de lado el discurso. Habló com su lenguaje diáfono pero profundo, porque tiene el don special que solo poseen los grandes: decir mucho en pocas palabras".

O diáfano mas profundo Obdulio não precisou dar tapa em ninguém naquela tarde. Nos intimidou com a largura do peito. Histórias do futebol.

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Paulo Sant'ana
20/10/2003


Calvário no rádio

Quando o Internacional perde e o treinador Muricy Ramalho começa a demorar no vestiário para vir dar a entrevista coletiva, eu tomo um Lexotan.

Já sei que o treinador virá sorumbático e lançará raios de mau humor sobre os repórteres e ouvintes.

Ontem, chegou ao auge a casmurrice do treinador colorado. Ele não ficou parado durante a entrevista, obrigando os repórteres a segui-lo pela sala, enquanto o entrevistado distribuía chineladas verbais nos entrevistadores.

Deve ter sido humilhante para os repórteres, para nós, ouvintes, foi um exercício de tortura e de tensão.

Isso vem se repetindo há meses. O Internacional já deve ter sido instado pelos jornalistas a tomar providências para que seu treinador seja mais cordial nas entrevistas coletivas após os jogos.

Como não há nada mais difícil que mexer no temperamento de uma pessoa, o Internacional deve ter desistido de tornar menos encrencadas as entrevistas coletivas do treinador.

Ontem, como aconteceu outras vezes, a entrevista coletiva de Muricy constituiu-se em um calvário para os repórteres e para o treinador.

Mas principalmente foi um calvário para os ouvintes, que deveriam ser poupados daquela obrigação massacrante de masoquismo, tendo de enfrentar pelo rádio as caudalosas ondas de mau humor do treinador.

Cada pergunta é sucedida por uma resposta agressiva e contrariada. Qualquer indagação é redargüida por uma bofetada verbal que tem origem na má vontade do treinador em conceder a entrevista, deixando no ar a imagem aborrecida e desoladora de que ele está sendo obrigado a falar quando o que mais gostaria é que lhe deixassem ir embora para casa sem importuná-lo com aquela chatice.

É um caso para a Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos resolver. Ela tem de deliberar que o treinador Muricy Ramalho não será mais entrevistado por qualquer repórter.

É uma forma de livrar o treinador do martírio que lhe impõem nas entrevistas coletivas. Se ele se mostra assim tão refratário a essa solenidade esportiva, consagrada em todas as competições futebolísticas, até mesmo na Copa do Mundo, mediante a qual após as partidas os treinadores são entrevistados pela imprensa para que os torcedores possam saber como ele viu aquela partida, então que se o libere desse sacrifício.

O que não pode é se repetir o constrangimento que houve ontem, que se vai tornando rotina.

Vários repórteres desistiram de entrevistar Muricy à medida que ele ia distribuindo maus-tratos aos que se atreviam a interrogá-lo. Um a um os repórteres foram tombando, destratados.

E não se aproveitou nada da entrevista. Além da sensação de medo, dominante entre os ouvintes, de que a discórdia dos diálogos vá redundar daqui a pouco em um desforço físico.

Medo. Esta é a sensação dos ouvintes. Medo pela espera do pior.

Nenhuma entrevista coletiva, até mesmo quando ela se torna obrigatória pela sucessão dos jogos, pode vir a se constituir em exercício penoso para os entrevistadores, para o entrevistado e para os ouvintes.

A finalidade do rádio não pode ser nunca a agonia, ainda mais quando ela se torna previsível.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Religião
A beatificação de Madre Teresa



João Paulo II beatificou a religiosa em uma cerimônia na Praça de São Pedro, na qual mostrou sinais de cansaço e dificuldade para falar (foto Gregorio Borgia, AP/ZH)


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Domingo, Outubro 19, 2003




Mais ação menos preconceito

Em vez de ignorar ou demitir, empresas adotam programas de prevenção e combate ao uso de drogas
Leila Souza Lima

Empresas brasileiras vêm mudando seu posicionamento em relação aos empregados usuários de drogas do álcool a substâncias pesadas. A postura de associar a dependência química à índole da pessoa tem sido substituída por políticas de prevenção, combate e assistência. Algumas companhias já contratam consultorias com essa finalidade. Órgãos públicos e organizações não-governamentais também estão intensificando as ações nessa área. Doze cidades brasileiras, entre as quais o Rio, vão ganhar minibibliotecas itinerantes com informações sobre prevenção ao uso de drogas.

Ao vencer o preconceito, muitas companhias conseguem reverter a incidência de casos de dependência química e melhorar a produtividade. Mas é preciso encarar o problema como doença ao invés de associá-lo à falha de caráter, o que ainda é muito comum. Algumas empresas chegam até a incluir no contrato de admissão de empregados cláusulas que prevêem teste clínico para verificar se eles são usuários de drogas.

Testes para acusar uso de drogas tendem a crescer

Mas isso só acontece em atividades que envolvem grande risco à segurança, como transportes e operação de máquinas complexas, explica Anísio Morgado, representante no Rio da consultoria Interfast Premedi Test, de origem mexicana, que desenvolve programas de prevenção e combate ao uso de drogas nas empresas.

Os principais fatores para que esses programas tenham sucesso dentro das empresas são a adesão dos funcionários, o sigilo e que tenham caráter de conscientização e assistência, e não punitivo. No caso da Interfast, chefes, diretores e donos não têm conhecimento de quem são os funcionários sob tratamento. Em geral, o departamento de recursos humanos designa algumas pessoas para acompanhar o monitoramento.

O teste que detecta presença de droga no organismo é feito mediante sorteio. Se o sorteado se negar, é convidado para consulta com o psicólogo da equipe. Normalmente, quando uma pessoa se nega a fazer o teste, é porque tem algum problema, mas a parceria com a empresa exige comprometimento em tratar o usuário. Não pode haver punição, explica o representante da Interfast, que foi fundada por um ex-usuário de drogas.

Coordenador do Programa Justiça Terepêutica e promotor da 2º Vara da Infância e da Juventude do Rio, Márcio Mothé afirma que a aplicação do teste é uma tendência nas empresas e que não há ilegalidade, desde que não seja usado para prejudicar o empregado. Só não pode ser aplicado em uma pessoa que esteja respondendo a processo criminal por uso de drogas, porque estaria produzindo uma prova contra ela, observa Mothé. Segundo ele, a legitimidade do exame depende de como os resultados serão usados.

A organização não-governamental Movimento Viva sem Drogas (MVSD) oferece serviço semelhante. Os programas, mantidos por associados, incluem tratamento, cursos gratuitos, produção e fornecimento de material educacional, webconferências e reinserção social tudo acessível a empresas, entidades e a quelquer pessoa, usuária ou não.

O que falta para que a prevenção às drogas dê certo é convergência na abordagem do problema. Cada um foca um ponto específico, quando deveria haver um só plano de ação. Outra questão é que a sociedade só aceita que um indivíduo precisa de ajuda, quando ele chega ao fundo posso. O problema deve ser atacado no começo, opina Augusto Monteiro, presidente do MVSD.

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Luis Fernando Verissimo
19/10/2003


A casa do remorso
Li no Estadão uma matéria, reproduzida do The Guardian, da Inglaterra, sobre Mikhail Kalashnikov, que criou o mais usado fuzil automático do mundo, o AK-14. Mikhail está com 83 anos, vive uma aposentadoria tranqüila nos Urais, cercado pelas filhas, e, fora a surdez, resultado dos anos testando armas, não ficou com qualquer seqüela do seu trabalho. Certamente nenhum remorso. Ele desenhou o AK-14 para as tropas soviéticas, que tinham resistindo às armas automáticas dos alemães durante a II Guerra Mundial com fuzis comuns, e se orgulha do que fez pela pátria.

Se depois o AK-14 (o produto mais exportado da União Soviética) foi usado em guerras sujas, massacres e assassinatos em todo o mundo, inclusive na Rússia, isto não é da conta de Mikhail. A simplicidade e a eficiência do AK-14 foram os responsáveis pela sua adoção universal depois do aparecimento do primeiro protótipo, em 1946. Não Mikhail, que só fez o seu trabalho. Nenhum fantasma shakespeariano vem perturbar o seu sono nos Urais, como os fantasmas que visitaram Ricardo III antes da sua batalha final para lhe dizer "Desespere e morra".

J. Robert Oppenheimer foi visitado por fantasmas aos milhares. Depois do triunfo do programa do qual ele era o diretor científico, com as explosões atômicas bem-sucedidas em Hiroshima e Nagasaki, que ele festejou alegremente com sua equipe, Oppenheimer teve uma crise de consciência e uma transformação. Ele e a equipe não tinham apenas feito seu trabalho, e uma arma eficientíssima, com brilhantismo. Tinham dado à luz um monstro inédito no mundo e provocado a mais radical intervenção da ciência na vida humana desde que esta existia. Isto e os mortos assombraram o resto da vida de Oppenheimer.

Ele se opôs à construção da bomba de hidrogênio e foi considerado um pouco penitente e filosófico demais para continuar à frente do programa nuclear americano, sendo substituído pelo mais pragmático Edward Teller. "Let me sit heavy in thy soul", que eu pese na sua alma, diziam os fantasmas vingativos de Ricardo. O maior feito da ciência na História pesou na alma de Oppenheimer até o fim.

Não houve muitas expressões de contrição no julgamento dos criminosos de guerra nazistas, em Nuremberg. Muitos disseram que estavam apenas cumprindo ordens (o adágio do século). Apenas fazendo seu trabalho. Uma espécie de remorso institucionalizado ocupou a Alemanha depois da II Guerra, dispensando a nação de grandes mergulhos na sua própria consciência, e é recente o aparecimento de uma literatura histórica, auto-reflexiva ou revisionista, no país.

O neonazismo é uma coisa de jovens, com novos rancores e nenhuma culpa herdada, ou reconhecida. Os japoneses também se beneficiaram desta amnésia induzida, e suas atrocidades cometidas durante a guerra não eram assunto em nenhum nível, intelectual ou oficial, no Japão, até há bem pouco tempo. Nos dois casos os fantasmas foram mantidos a distância enquanto deu.

Sarah Winchester conseguiu driblar os fantasmas. Ela era a viúva de William Winchester, filho do fabricante do fuzil Winchester, "o rifle que conquistou o Oeste". Além de usado para eliminar coiotes, índios e outros entraves à ocupação do Oeste bravio, o Winchester - uma arma tão revolucionária, na sua época, quanto a máquina de matar de Kalashnikov - chegou ao mercado pouco antes de começar a Guerra da Secessão americana, que fez a fortuna da família.

Sarah e William casaram-se em plena Guerra Civil e prepararam-se para uma vida de luxo e conforto com os milhões produzidos pelo fuzil de repetição. Tiveram uma filha, Annie. Que morreu ainda bebê, começando o que Sarah identificou como uma danação sobre a sua família. Pouco depois, William também morreu, de tuberculose, confirmando para Sarah que o nome Winchester vinha carregado de pragas e maus presságios. Com a morte do marido, ela herdou 20 milhões de dólares e metade da fábrica Winchester, o que lhe rendia mil dólares por dia em royalties, mas isto não foi consolo.

Aconselhada por uma amiga, procurou uma médium que lhe disse que os espíritos de todos os mortos pelos rifles Winchester eram os culpados pela maldição. Eles tinham levado sua filhinha e seu marido como retribuição, e a única maneira de Sarah fugir dos espiritos seria comprar uma casa e aumentá-la continuamente. Construir novas peças, puxados, andares, anexos, terraços, alas - sem parar. No dia em que parasse a construção, segundo a médium, Sarah também morreria.

Os espíritos chegariam a ela e também a levariam. Sarah comprou uma casa em San Jose, na Califórnia, e pôs-se a aumentá-la. As obras duraram, sem interrupção, até o dia da sua morte, e a casa - que ainda existe, e hoje é uma atração turística em San Jose - chegou a ter sete andares, antes de ser parcialmente demolida por um terremoto, que Sarah atribuiu aos espiritos enraivecidos. Sarah era sua própria arquiteta. Construiu corredores que levam a lugar nenhum, escadas para o nada, portas que dão no espaço, e dezenas de quartos. Dormia num quarto diferente a cada noite, para enganar os espíritos.

Pode-se imaginar uma horda variada de fantasmas dos abatidos pelo Winchester - soldados, bandidos, índios, mexicanos, tantos quanto os fantasmas de Hiroshima e Nagasaki - perdida no casarão, atrás de Sarah. Que conseguiu ludibriá-los até os 85 anos, quando morreu. E foi sepultada junto com Annie e William.

Na sua casa de campo de poucos cômodos nos Urais, ao lado de um lago de águas cristalinas como a sua consciência, Mikhail Kalashnikov não teme os fantasmas. Se por acaso for interpelado por um, pode referi-lo aos seus superiores, ou à Rússia, ou aos tempos em que viveu. Nada pesa em sua alma.

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E os destaques da Revista Isto É estão abaixo para você conferir:

A medicina cria tratamento eficaz contra a doença do mau humor, problema que afeta cerca de 180 milhões de pessoas no mundo

BRASIL

LINHA DURA
Dirceu, Palocci, Gushiken e Dulci saem a campo para enquadrar o PT e apertar as rédeas do governo

JOGO DE CINTURA
Pacto entre Lula e Kirchner é contraponto a modelo neoliberal

CPI CONTRA A OMISSÃO
Parlamentares fecham o cerco para apurar exterminadores de PE

MUITO BARULHO POR NADA
Amorim diz que Brasil não está olhando apenas para o Mercosul

Qual é a foto mais importante das últimas décadas? Vote aqui

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

A CHINA VAI AO ESPAÇO
Missão espacial que deu voltas
na Terra é a primeira tripulada
da história do país

O PODER DA MENTE
Brasileiro desenvolve próteses acionadas pelo pensamento

LIVROS

HISTÓRIA EM IMAGENS
Sai coleção com os maiores nomes da fotografia brasileira

ECONOMIA

ENDIVIDADOS, UNI-VOS!
Nada de juros ou índices. Devoção a Santa Edwiges vira termômetro eficiente da situação econômica

ADEUS HOLANDÊS
Escândalo força Royal Ahold a vender suas lojas no Nordeste

MUNDO

O FURACÃO JÁ PASSOU
No grito, bolivianos conseguem
a renúncia do presidente

SELVA URBANA
Acidente revela que americanos criam animais selvagens em casa

EDUCAÇÃO

NOTA VERMELHA
Estudo do MEC aponta as
mazelas da rede de ensino


OS MAIS ACESSADOS

O QUE VESTIR?
Saiba como escolher roupas de trabalho sem erro
HOMEM MULHER

GUIA DE POSIÇÕES SEXUAIS:
Bonecos mostram o que fazer

GRAFOLOGIA: Confira se a sua letra revela mesmo seu perfil

GUIA DOS ALIMENTOS: o que comer para prevenir doenças

COMO SERÁ SEU BEBÊ: Ele puxará pelo pai ou pela mãe?

REFLEXOLOGIA: Avalie sua saúde massageando os pés

COMPORTAMENTO

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Caro leitor,
aqui estão os destaques de VEJA desta semana.
Boa leitura e bom fim de semana.
Kátia Perin - VEJA on-line (veja@abril.com.br)

Especial
A China, que na semana passada se tornou o terceiro país do mundo a colocar um homem em órbita, vem nas duas últimas décadas impressionando o ocidente pela maneira obstinada e bem-sucedida com que busca o crescimento econômico e um lugar entre as grandes potências mundiais.
No site: leia mais na seção Em Profundidade

Brasil
Com idéias que parecem saídas de um catálogo de antigüidades, Samuel Pinheiro Guimarães, o segundo homem do Itamaraty, é radicalmente contra a Alca e o último brasileiro a fazer bilhetes usando papel-caborno.

Partidos
PT tenta manter sua aparente pureza partidária na cúpula, mas escancara as comportas na base. Aí, o partido está virando uma máquina enorme. Nos primeiros dez meses de governo, o número de militantes aumentou 30%.

Entrevista
Há 37 anos convivendo com o personagem de Jornada na Estrelas, o ator Leonard Nimoy acha que o vulcano Sr. Spock lhe trouxe um misto de bênção e castigo. "Para muita gente eu sou o Spock. Até porque ninguém mais é."

Internacional
Nas últimas semanas, numa explosão popular contra a exportação de gás, a Bolívia viveu dias de fúria, com greves, bloqueios de estradas e confrontos entre civis e tropas do governo.

Arquitetura
As igrejas se tornaram vitrines para que os arquitetos mais badalados do mundo demonstrem seu talento com novas formas, cores, volumes, texturas, materiais e técnicas de construção com alta tecnologia.

Turismo
Da falta de vôos a descabidos maus tratos, sobram motivos para os estrangeiros evitarem as viagens ao país. Mesmo assim, há os que persistem.

Ciência
A tagatose foi descoberta nos anos 80, mas só há dois anos recebeu aprovação da FDA, órgão que fiscaliza remédios e alimentos nos EUA. É um tipo de açúcar extraído do soro do leite, tem um terço das calorias do açúcar comum e não causa cáries.

Medicina
Substâncias responsáveis pela sensação de fome e de saciedade podem ser a chave para a criação de novos remédios contra a obesidade.

Cidades
Atraídos pelo petróleo, os estrangeiros já somam 10% da população de Macaé, no Rio de Janeiro. De acordo com o Ministério do Trabalho, esta é a maior concentração de estrangeiros residentes no país.
Realeza
Rania, a rainha da Jordânia, é bonita, simpática, chique e ainda defende as causas "femininas" e politicamente corretas, como campanhas contra o abuso infantil.

Justiça
A prisão de segurança máxima de Presidente Bernardes, no interior de São Paulo, usa câmeras e psicologia para controlar os presos mais perigosos do Estado, às vezes do país.

Trabalho
Governo francês quer ampliar a jornada semanal de 35 horas dos franceses, a mais curta do mundo. A justificativa é que a redução não está cumprindo os objetivos pelos quais foi criada - combater o desemprego e estimular a produção.

Livro
No livro Quem Matou Daniel Pearl, o filósofo francês Bernard-Henri Lévy responsabiliza o serviço secreto do Paquistão pelo assassinato do jornalista americano.
No site: leia trechos do livro.

Cinema
O novo filme de Ridley Scott, Os Vigaristas, traz Nicolas Cage no papel de um trapaceiro que tem a vida transformada pelo aparecimento de uma adolescente que pode ser sua filha.
No site: trailer e fotos do filme.

Música
A cantora Maria Bethânia se bandeou para uma gravadora independente chamada Biscoito Fino e tem se mostrado novamente um grande sucesso de vendas.
No site: ouça música do CD Brasileirinho.

Perfil
Selton Mello é hoje um dos atores mais populares do país e pode se dar ao luxo de recusar papéis na TV para apostar naquilo que considera prioritário: cinema.
No site: outras fotos do ator.

Veja São Paulo
A vida nova no centro
O que se está fazendo e o que falta fazer para recuperar o coração da cidade.

Veja Rio
Caçadores de celebridades
As histórias dos fotógrafos que perseguem os famosos da cidade.

O conteúdo integral das revistas estará disponível
na internet a partir de sábado pela manhã

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Martha Medeiros
19/10/2003



Perfeição digital

Estamos vivendo a era Lara Croft. Nos jogos de computador, nas revistas, no cinema, o ser humano está sendo constantemente retocado

Escolha qualquer mulher que esteja numa capa de revista. Ela estará nada menos do que linda. Nenhuma mancha no rosto, nenhuma estria na barriga, celulite nem pensar. Um desaforo. Aí a gente se olha no espelho e diz: alguma coisa está errada. Está. Mas não é com a gente, relaxe. Ser imperfeita tem um certo charme, e vai ter cada vez mais, aposte nisso como tendência.

Estamos vivendo a era Lara Croft. Nos jogos de computador, nas revistas, no cinema: o ser humano está sendo constantemente retocado. Manipulações fotográficas compõem um novo lábio, uma nova cintura, um novo queixo. A palavra manipulação parece pejorativa, mas neste caso não é. É trabalho. Exigência de mercado. Qualquer estúdio fotográfico sabe do que estamos falando aqui: da transformação da realidade em mera fantasia. Gente desenhada. A busca da harmonia onde ela não existe, ou não existia, antes de passar pelo computador. Obras-primas criadas com o mouse.

A fotografia sempre serviu à ilusão. Mas estamos hoje tão seduzidos por esse patamar estético irreal que tornou-se inevitável que uma certa angústia se instale. Por mais que nos esforcemos, nunca seremos impecáveis, nunca atingiremos o mesmo ideal de beleza alcançado pelos criadores de imagens. Se quisermos nos espelhar no que temos visto, não bastará um maquiador e um cabeleireiro, precisaremos contratar um diretor de arte.

Isso está tão assimilado que a cantora e apresentadora de tevê Babi, em recente passagem pelo Rio Grande do Sul, fez questão de dizer, em entrevistas, que as fotos que fez pra Playboy não tiveram a ajuda do photoshop (poderoso software que redesenha tudo). Ela só autorizou que retirassem suas olheiras, já que fotografou muito cedo de manhã. Que espetáculo, sem olheiras! Sonho com o dia em que seja autorizado o uso do photoshop para fotos 3 x 4, carteira de identidade e passaporte.

Autenticidade, hoje, só na natureza. Ninguém reclama da cor do mar, ninguém acha que o sol está gordinho ou que a chuva está fora dos padrões. No reino animal, o mesmo respeito. Ninguém ri do pescoço da girafa, e o sapo é um desastre estético, mas ninguém lhe sugere uma lipo ou um lifting. Iguanas, hipopótamos, chimpanzés: todos são aceitos exatamente como são, e suas imperfeições são os detalhes que os tornam diferentes uns dos outros.

Conosco não tem esta condescendência. Se temos um nariz torto, é deste nariz torto que sairão todas as piadas a nosso respeito. Foi-se o tempo em que as imperfeições eram o atributo humano indispensável para sermos considerados exatamente isso: humanos.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
19/10/2003


Surpreenda-me

A surpresa, o inesperado, o insólito se tornaram um ideal de vida. O surpreendente
é o Abre-te, Sésamo do nosso tempo

Bob Hope, recentemente falecido, pode não ter sido um grande comediante, mas sua derradeira tirada foi genial. Perguntado se queria ser cremado ou sepultado, respondeu: "Surpreendam-me".

Com o que, claro, surpreendeu os interlocutores e, sem querer, ressaltou um traço de nossa cultura atual: todo mundo quer ser surpreendido. A surpresa, o inesperado, o insólito, passaram a ser um ideal de vida. Surpreenda-me, diz a namorada ao namorado, a esposa ao esposo, o aluno ao professor (e vice-versa). Surpreenda-me, diz o eleitor ao político, o comprador ao vendedor, o torcedor ao jogador de futebol. Surpresa é a grande fórmula para acabar com a rotina do sexo, o que explica as enormes tiragens de livros sugerindo novas posições na relação sexual.

"Surpreenda-me" passou a ser o "Abre-te, Sésamo" de nosso tempo. Querem uma prova? Entrem na Internet e digitem "Surprise me": vocês encontrarão nada menos do que 6,6 milhões de referências. Há revistas com esse nome, CDs, textos, o que vocês quiserem. "Surpreenda-me", em português, dará um resultado mais modesto: pouco mais de cem referências, a maioria em blogs, que é a nova forma de difusão dos inéditos.

O desejo de surpresa é inato no ser humano. Rimos quando alguém nos faz cócegas, mas isto não acontece quando nós próprios tentamos fazer a mesma coisa: cócegas devem acontecer como coisa inesperada. E o inesperado é, paradoxalmente, algo pelo qual esperamos desde a infância. Cedo cansamos do familiar, do rotineiro, da mesmice; cedo queremos algo que seja novo, mesmo que nos assuste. Daí o sucesso daquele antigo brinquedo: uma caixa da qual, quando aberta, saltava um polichinelo. Era um susto, mas um susto engraçado. A expressão "segredo de polichinelo" remete a isso, a um segredo que, para os adultos, é previamente conhecido; e, porque conhecido, sem graça.

Existem as surpresas desagradáveis. O médico olha a radiografia, franze a testa: pronto, sabemos que as notícias não serão boas. Radiografias, exames, laudos de biópsia, tudo isso funciona para nós como uma caixa de Pandora, aquela que, quando aberta, libera uma infernal sucessão de males. E isto coloca uma pergunta: devemos temer as surpresas? Um estudo feito há muito tempo mostrou que, ao contrário do que se pensa, oitenta por cento dos telegramas trazem boas notícias; não precisamos, pois, abri-los com mãos trêmulas.

Surpresas são parte da vida: uma afirmativa que, tenho certeza, não surpreenderá ninguém. Surpreenda-me, pede o leitor a quem escreve. E quem escreve sente-se então na obrigação de ser original. Uma obrigação que, vamos confessar, nem sempre é fácil de ser cumprida. O mundo em que vivemos projeta-se sempre para a frente, para o futuro, para a inovação. Mas não consegue escapar da fórmula "mais da mesma coisa". Nem nós. Mas aí vem Bob Hope e, morrendo, surpreende-nos com uma frase que é o ponto de partida para uma crônica. Grande Bob Hope. Bendita seja sua memória.


scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
19/10/2003


Empurrando com a barriga

Notícias procedentes de Brasília dão conta de que somam às centenas as autorizações anuais do Ministério da Educação para instalação de novas faculdades no país.

Eu fico a imaginar o imenso desperdício de diplomas em que a sociedade brasileira está submergindo.

Formam-se milhares de jovens brasileiros anualmente, sem qualquer conseqüência prática, submetendo-se os diplomados à dor irreparável de se verem capacitados para exercerem suas profissões, sem que lhes seja dado no entanto o acesso ao trabalho.

Chega a ser desumano que os universitários freqüentem os bancos escolares aturdidos pelo pesadelo da consciência plena de que mal estejam formados e baterão nos rochedos duros da falta de aproveitamento.

Não há pior mal que o tolhimento da ilusão.

Já se podem contar nos dedos os anos rudes de recessão brasileira. Irresponsavelmente, os governos sucessivos não movem uma palha para proporcionar postos de trabalho às multidões diplomadas nos cursos superiores, desperdiçando fortunas de poupança pessoal no ensino e vendendo assim oficialmente falsas ilusões aos diplomados.

Enquanto isso, uma total estagnação na construção de hospitais e presídios.

E vá nascer gente, sem qualquer controle populacional. Quem escapar da fome e da miséria será ali adiante diplomado em curso superior para aumentar dramaticamente a legião dos desempregados.

Quando é que se governará no Brasil com projeto para o futuro? Desculpem a dureza do termo, mas é urgentemente necessário que se impeça, por uma política governamental severa e profunda, que os brasileiros nasçam irresponsavelmente.

Pertence ao governo e à sociedade a responsabilidade de não permitir o excesso populacional que vai redundar logicamente na brutal exclusão do meio civilizado das multidões de miseráveis e desempregados.

A produção idiotamente industrial das nossas maternidades e universidades vai fatalmente redundar num rolo institucional.

Às pessoas a quem é concedido assim de forma culposa o direito de nascer, de viver e até de diplomar-se em nível universitário, fatalmente no futuro terá de ser também concedido o direito de rebelar-se contra esta mais completa ausência de perspectiva para o cidadão, para quem o Estado tem o dever descumprido de alimentar, prestar saúde e proporcionar trabalho.

Não quero ser catastrofista, mas é lógico e racional que essas massas humanas, sem horizonte de vida e de progresso, em futuro bem próximo vão cobrar do país a sua exclusão e explodir numa insurgência de sombras e de desordens.

Não é um colunista de província que está a prever isso isoladamente. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho, do alto de seus 42 anos de magistratura trabalhista, também se rendeu a esta previsão de catástrofe na semana passada, abismado com o volume de demissões que assombra o país.

Estão brincando no Brasil de erigir uma sociedade organizada. Estão empurrando com a barriga o desfecho do caos.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Saúde
Remédios contra a ambulancioterapia



O Interior busca soluções para tratar seus doentes sem recorrer aos hospitais de Porto Alegre. Em Morro Reuter, as kombis que transportavam pacientes para a Capital agora levam médicos para atendimento a domicílio (foto Miro de Souza/ZH)


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