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Sábado, Novembro 01, 2003
Posted
10:03 PM
by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
O Halloween brasileiro
"O Rio tem uma versão nacional do Halloween: o arrastão de praia. No Halloween, os moleques americanos assustam os adultos com fantasias de bruxa. No arrastão, os moleques brasileiros assustam com pistolas e estiletes. No lugar de doces, pedem carteiras"
Uns patriotas aqui do Rio de Janeiro querem acabar com o Halloween. Espalharam placas pela cidade condenando a festa. Eles acham que os brasileiros devem parar de macaquear os americanos. Devem cultivar apenas o que é genuinamente nacional. O Rio de Janeiro tem uma versão genuinamente nacional do Halloween: é o arrastão de praia. No Halloween, os moleques americanos assustam os adultos com fantasias de bruxa. No arrastão, os moleques brasileiros assustam os adultos com pistolas e estiletes. No lugar dos doces, pedem carteiras.
Os patriotas que se manifestam contra o Halloween pertencem a um grupo chamado MV-Brasil. O mesmo que protestou contra a réplica da Estátua da Liberdade num centro comercial da Barra da Tijuca. O mesmo que cobriu as placas de propaganda eleitoral de José Serra com o epíteto "Traidor da Pátria". Liguei para um representante do grupo, Wagner Vasconcelos.
Comentei que o nome Wagner é estrangeiro, de origem alemã. Ele respondeu que os membros do grupo combatem os Estados Unidos, não a Alemanha. Por isso, querem abolir o Halloween, mas poupam a Oktoberfest. Perguntei se Papai Noel também pode merecer uma campanha. Ele respondeu que o grupo ainda não deliberou sobre o assunto.
Para o MV-Brasil, o Halloween é muito mais do que uma inofensiva caipirice: é o instrumento usado por uma conspiração de mercadores apátridas para dominar o mundo, abolindo as nacionalidades e as religiões monoteístas. Esses mercadores apátridas cultuam o demônio, difundindo a mensagem satânica através de manifestações culturais como o Halloween ou Harry Potter.
Pedi o nome de alguns desses mercadores apátridas. Wagner Vasconcelos citou as famílias Bronfman e Rothschild. Perguntei se ele podia citar algum não-judeu. Ele pensou um pouco e respondeu "a família real britânica". Wagner Vasconcelos garante que seu movimento não tem simpatia pelos nazistas, inclusive porque os nazistas, segundo ele, "cometeram alguns exageros".
Os membros do MV-Brasil só usam produtos brasileiros. Como Policarpo Quaresma. O carro de Wagner Vasconcelos, por exemplo, é um Gurgel. Nas comemorações de 7 de setembro, o grupo estendeu a maior bandeira nacional de todos os tempos na fachada do Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste. A bandeira foi confeccionada com a ajuda logística dos militares e recebeu recursos da Poupex, uma instituição financeira ligada à Fundação Habitacional do Exército.
Wagner Vasconcelos assegura que o MV-Brasil conta com o apoio de muitos oficiais graduados, e que um de seus ideólogos é consultor da Escola Superior de Guerra. A participação dos militares é fundamental para o cumprimento dos planos do MV-Brasil. A meta é construir doze submarinos nucleares nos próximos cinco anos, para poder enfrentar os Estados Unidos de igual para igual em caso de conflito armado.
Comemoremos o arrastão, portanto. Ser assaltado na praia é um dever cívico, um exercício do mais alto patriotismo, uma resposta nacionalista à tentativa de dominação estrangeira através do Halloween. Quanto mais arrastões sofrermos, mais perto estaremos de explodir os Estados Unidos.
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10:00 PM
by Cassiano Leonel Drum
Especial
Você tem medo de quê?
É grande o número de pessoas que sofrem de fobias. A boa notícia é que os tratamentos estão cada vez mais eficientes
Anna Paula Buchalla
Ilustração Anderson Marçal com fotos de Raul Junior, Orípedes Ribeiro, Antonio Milena e Photodisc
O medo é um dos sentimentos que permitiram à espécie humana multiplicar-se e dominar a Terra. Graças a ele, nossos ancestrais escaparam de ataques de animais ferozes e de outras ameaças naturais. Mas, por motivos diversos, muitos dos quais ainda não totalmente esclarecidos pela ciência, algumas pessoas apresentam um medo patológico em relação a situações que estão longe de representar uma ameaça real.
Pode ser de avião, de altura, de elevador, de escuro, de um animal doméstico ou até mesmo de gente. Duas em cada dez pessoas estão predispostas a desenvolver um tipo de fobia ¿ esse é o nome do medo e da aversão doentios ¿ ao longo da vida. As fobias podem ser tratadas no divã do psicanalista, com terapias breves, medicamentos ou hipnose. Não raro, é preciso combinar duas ou mais dessas opções.
Tudo leva a crer que o tratamento que consegue os resultados mais rápidos é a terapia cognitiva comportamental. Ela tem sucesso em até 80% dos casos em cerca de apenas três meses. A jornalista que assina esta reportagem submeteu-se a essa terapia, com o psicólogo José Roberto Leite, professor da Universidade Federal de São Paulo. Seu medo de avião agora está sob controle.
A palavra fobia vem do grego phobos. Phobos era a divindade mitológica capaz de causar nos homens um medo incontrolável. Por esse motivo, os escudos dos soldados gregos muitas vezes traziam estampada a imagem de Phobos ¿ dessa maneira, acreditavam ser mais fácil apavorar seus inimigos. Os americanos criaram um ABC da fobia, que conta com cerca de 500 medos.
Dele constam desde fobias que são velhas conhecidas, como aracnofobia (medo de aranha) e claustrofobia (medo de espaços fechados), até quadros definidos como androfobia (medo de homem), decidofobia (medo de tomar decisões), gamofobia (medo de casamento), eclesiofobia (medo de igreja), afania (medo de perder a capacidade sexual) e por aí vai. É claro que, dependendo das circunstâncias, as pessoas podem exibir reações de medo mais intensas do que de costume.
Um cachorro pode parecer mais assustador do que outro. Uma viagem de avião mais turbulenta pode causar frio na barriga mesmo a um viajante experimentado. Mas isso não significa que se tenha adquirido uma fobia. Antes que você comece a achar que é fóbico, veja o que define exatamente essa patologia:
A fobia é sempre em relação a uma determinada situação, objeto ou bicho.
É irracional. Por exemplo, não faz o menor sentido ter medo de galinhas, já que galinhas não fazem mal a ninguém.
É um medo desproporcional. Quem tem fobia de avião leva mais em conta as insignificantes estatísticas de acidentes aéreos do que a altíssima taxa de sucesso dos vôos.
Interfere nas atividades do cotidiano. É comum que alguém com medo de altura se recuse a trabalhar num andar alto.
Uma fobia pode traduzir-se em reações físicas violentas. Ao deparar com o objeto do medo, o fóbico pode ter sudorese e ser acometido por tonteiras, tremedeiras, taquicardia e dificuldades de respiração. Muitos têm uma sensação de morte iminente.
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9:52 PM
by Cassiano Leonel Drum
COMPORTAMENTO 05/11/2003
Capa
A vez da loira
O mercado brasileiro de cerveja se expande com novas
marcas e soma 8,5 bilhões de litros produzidos por ano. Especialistas afirmam que a bebida traz benefícios à saúde,
mas o consumo precoce ainda precisa ser combatido
Malte de cevada, lúpulo e água. Seis mil anos atrás, ao sul da Mesopotâmia, esses três ingredientes já acompanhavam as refeições dos sumérios. O primeiro porre de cerveja deve ter quase a mesma idade. Se crianças e adolescentes podiam beber ou se a iguaria despertava especulações sobre os benefícios e os males à saúde, não se sabe.
De lá para cá, o hábito de se degustar uma loira gelada ¿ ou uma morena à temperatura ambiente, conforme a tradição ¿ correu o mundo. Hoje, somente a indústria brasileira coloca no mercado 8,5 bilhões de litros de cerveja por ano, o que faz do Brasil o quarto país no ranking mundial de produção, atrás apenas de China, Estados Unidos e Alemanha.
A cifra é louvável. Vale lembrar que a história da cerveja é recente por aqui, com menos de dois séculos: os primeiros barris foram trazidos da Europa pela família real portuguesa em 1808. Apenas em 1953, há exatamente 150 anos, foi inaugurada a primeira cervejaria nacional com produção em escala, a Bohemia.
Fundada em Petrópolis pelo alemão Henrique Kremer, a Bohemia caiu nas graças da corte. Em 1876, foi nomeada Imperial Fábrica de Cerveja Nacional por dom Pedro II e declarada bebida oficial do palácio. Até hoje, é uma das marcas mais apreciadas no País. Esta semana, para comemorar o aniversário, a marca lança a inédita Bohemia Weiss. A cerveja é feita com trigo e vem em uma garrafa especial, com um prático mecanismo de vedação no lugar da tradicional tampinha.
O lançamento coincide com a chegada ao mercado de diversas pequenas marcas, quase sempre preocupadas em oferecer produtos diferenciados a quem busca alternativas às tradicionais cervejas tipo pilsen (loiras claras), hegemônicas no País. Outra novidade foi a inauguração, duas semanas atrás, da Companhia Cervejaria Imperial, um bar em Moema, bairro de São Paulo, inspirado na antiga fábrica. ¿Trouxe de Petrópolis diversos móveis, ferramentas, geladeiras e prêmios recebidos pela Bohemia há mais de um século. O bar virou uma espécie de museu da cerveja¿, resume o proprietário Jorge Ferreira, dono de outros sete estabelecimentos em Brasília.
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9:30 PM
by Cassiano Leonel Drum
Nei Lisboa
Feiras invisíveis
Dizem ser de Marco Polo o relato apócrifo que descreve Porto Alegre como uma cidade de pequeninas casas com extensas janelas frontais e parapeitos abarrotados de livros de todos os gêneros, alinhadas no entorno e através de uma praça por onde os habitantes do lugar circulam incessantemente nas tardes de primavera. Sendo todos ávidos leitores, e muitos propensos ao ofício de escritor, carregam consigo personagens de contos e romances que por vezes lhes escapam pelas alamedas, criando vida própria e pendores pessoais para a literatura.
Ao longo de anos, a repetição desse ciclo inviabilizou a circulação entre as casas, com inusitados engarrafamentos de realidade e ficção. De um lado, descontados os dias de chuva e menor afluência, sequer se avistam os parapeitos e os livros por trás da multidão espremida no trajeto. De outro, já não se sabe mais quem é um habitante original à procura de um autor ou um personagem evadido em busca de um título específico.
O resumo da ópera, conforme sentencia o Marco, é que assim como está não vai dar pra ficar. Mas, digo eu, pelo menos ainda se pode tomar um chopinho com a Claudia Laitano no final de tarde e ouvir dela que a Feira do Livro deveria mudar-se para o cais do porto.
Alegre impasse, vive esta cidade. Se é a paixão de tantos pela literatura que criou um problema, então parece ser um ótimo problema. E com uma solução já bem aclamada, que também esteve o Roque Jacoby a dizer que precisamos caminhar para o porto, ora, pois então, ao porto vamos, pá!
Seria pouco mais que o óbvio honrar a vocação açoriana de mirar horizontes largos, e mais um grande passo para ocupar a alegria que aquele indecoroso muro da Mauá tenta manter invisível. Com o nome que tem, não vejo nada mais exato e poético do que esta cidade chegar ao porto, chegar a si próprio, pelo caminho das palavras. É o que o Marco Polo diria, como bom navegador.
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9:24 PM
by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
02/11/2003
Divagações sobre a morte
Quem nunca imaginou o seu próprio enterro? Quem iria, quem não iria, quem choraria de verdade as lágrimas dos verdadeiros amigos?
Hoje é dia de Finados, dia de ressuscitar um pouco aqueles que a gente tanto amou um dia. Quando levamos flores no cemitério ou mandamos rezar uma missa, estamos dando aos nossos mortos um pouco de vida através da nossa memória. Morto, mesmo, está quem não é lembrado.
Visitar cemitérios, em algumas cidades, é passeio turístico, dependendo da suntuosidade dos mausoléus e dos mortos ilustres ali enterrados. É o caso do cemitério de Père-Lachaise, em Paris, e o da Recoleta, em Buenos Aires. Não acho mórbido, mas também não vejo graça.
Aliás, não consigo nem mesmo me emocionar ao visitar as casas onde viveram grandes artistas. Não consigo glorificar o chão onde pisou Mozart ou as canetas que Freud usava para fazer anotações. Não me comove a cama onde dormiu Napoleão ou os vestidos usados pela princesa Diana, a despeito de toda informação histórica recebida. Há pouco tempo, passei em frente à casa onde viveu Hitchcock, em Londres.
Ele saía todo dia por aquela porta, caminhava pela mesma calçada em que eu estava. Mas não senti nem um arrepio, nada que se comparasse às sensações provocadas por seus filmes. Cultuo a obra, as idéias de uma pessoa, suas conquistas, mas não os seus talheres ou escrivaninhas. Diante da enormidade de uma herança emocional, intelectual ou artística, pouco me importam os móveis e utensílios, são curiosidades visitadas, material de estudo, mas não de reverência. Nessas horas é que eu vejo que a morte tem um adversário a altura: a vida. Esta me interessa imensamente, principalmente as que estão em plena vigência de contrato.
Quem nunca imaginou o próprio enterro? Quem iria, quem não iria, quem sentiria de verdade a nossa falta, quem estaria lá só por conveniência social, o que o padre diria, e se o caixão estaria aberto ou fechado. Entendo a necessidade de os parentes e amigos se despedirem, mas, convenhamos, nada pode ser mais invasivo do que nos espiarem quando já não existimos mais.
E que tipo de morte desejamos, se é que cabe aqui empregar o verbo desejar? Nisso somos todos iguais: que demore muito pra acontecer, mas que, chegada a hora, seja breve. Uma morte sem rodeios.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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9:20 PM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
02/11/2003
Figuras representativas
Poucos sabem que o grande William Shakespeare escreveu a primeira versão do clássico ¿Romeu e Julieta¿ como uma trova gauchesca
Do baú. Estive pesquisando as origens da música sertaneja e concluí que seu início remonta aos tempos medievais e renascentistas. Sim, no medievo, muitas das formas musicais hoje utilizadas no nosso meio rural já eram ouvidas. Num outro contexto, é verdade, mas com evidente precursoriedade.
O mesmo se pode dizer dos tempos elizabetanos. Poucos sabem, por exemplo, que William Shakespeare escreveu a primeira versão de Romeu e Julieta como uma trova gauchesca, o que é estranho pois na época elizabetana não havia gaúchos, salvo um ou outro turista, claro. Na conhecida cena do balcão, Julieta cantava: "Ó Romeu, ó Romeuzinho, sobe aqui devagarinho.
A roseira te agüenta mas cuidado com os espinho. O meu peito arrebenta, pensando no teu carinho. Nosso caso não é mol - eu sou a Lua e tu é o Sol". E o Romeu respondia: "Eu sou o Sol e tu é a Lua, minha paixão é igual à tua. Vou subir nesse balcão, o que que eu faço aqui na rua? Já vou tirando o calção e quero te ver toda nua. Eta nóis, que apocalipse: tu e eu fazendo eclipse!".
Durante minhas pesquisas, gravei interessantes depoimentos de figuras representativas do meio, como este de Argemira das Dores, também chamada Argemira dos Dois:
"Eu sou a mulher da dupla Pixuim e Xoque Xoque. Dos dois, sim senhor. É que ninguém sabe quem é o Pixuim e quem é o Xoque Xoque, entende? Nem eles sabem mais. Assim fica mais prático ser a mulher dos dois. Entendeu? Não tem problema eu ser casada com o Pixuim e o Xoque Xoque porque, como nem eles sabem quem é o Pixuim e quem é o Xoque Xoque, um não se sente traído quando eu estou com o outro, entendeu?
Porque ninguém sabe quem está sendo enganado. Agora se cada um tivesse uma mulher, aí sim ia ficar complicado, porque se o Pixuim não sabe qual dos dois ele é, como é que ele ia saber que a mulher do Xoque Xoque na verdade não era a dele, e vice-versa? Assim fica mais fácil. Mas as pessoas amaliciam muito."
Também entrevistei o Nababo, da dupla Nababo e Triliardário. Ele me recebeu na beira de uma piscina, que me apresentou.
"Esta é a minha piscina. Lá para trás ficam as minhas canchas de tênis, depois o campo de futebol, depois o bosque que vai até aquela montanha, que também é minha. Isto aqui na cidade, porque na minha casa de campo tem muito mais coisa. Como você vê, a piscina tem o formato de uma viola. Tudo que eu tenho tem o formato de uma viola, porque eu devo tudo que tenho à viola.
Você já conheceu minha mulher? Vem cá, Vanusete! Viu só? Ela também tem formato de viola. Não é uma beleza? O mais difícil de encontrar foi o pescoço comprido. Minhas casas têm formato de viola, minha pick-ups, minhas amantes. Tudo que é meu tem formato de viola. Menos a minha viola, que tem formato de bumerangue".
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9:17 PM
by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
02/11/2003
Ah, sim, falando em Finados
Imortalidade não é eternidade. Esta é atributo divino. Deus não é imortal. Deus é o eterno. Para os crentes, Deus sempre existiu e sempre existirá
Guri metido a escritor, eu costumava terminar minhas redações sobre autores famosos com uma frase de estilo, algo como "Monteiro Lobato não morreu: viverá para sempre nas páginas de seus livros".
Péssima frase. E o pior é que eu acreditava piamente nela, em primeiro lugar porque é mais fácil acreditar na imortalidade quando se vive a infância, mas também porque eu estava partilhando um mito comum entre reverentes leitores, sobretudo no Brasil. O mito que inspirou a denominação de "imortais" para os membros da Academia Brasileira de Letras. A bem da verdade, a instituição criada por Machado de Assis não promete a sobrevivência perpétua; seu lema é "Ad Imortalitatem", "Para a imortalidade" ou "Rumo à imortalidade". Não é uma garantia; é, digamos assim, uma imagem-horizonte.
Uma promessa, o que lembra aquela historinha do judeu bíblico que disse, a propósito do anúncio de Moisés sobre a Terra Prometida: "Só prometida? Nada por escrito?". Mas a promessa, mesmo vaga, tem algum fundamento na realidade, fundamento esse representado pela incrível persistência da palavra escrita. Um exemplo é a Bíblia. O Antigo Testamento começou a ser escrito à época do rei Salomão, há cerca de 3 mil anos. No entanto, os textos bíblicos aí estão, impressionando e comovendo, ainda que de maneira diferente, leitores religiosos e leitores literários.
Durabilidade, contudo, não é imortalidade. Um texto imortal não é aquele que vence o teste do tempo, é aquele que simplesmente suprime o tempo. Essa é uma fantasia de muitos escritores. Edna St.Vincent Milay traduziu-a num verso famoso: "Read me, do not let me die", leia-me, não me deixe morrer. Esse verso foi e continua sendo muito lido, mas isso não impediu que a poeta, nascida em 1892, tivesse inexoravelmente morrido em 1950.
Imortalidade também não é eternidade. Esta é atributo divino. Deus não é imortal; Deus é o Eterno. Para os crentes, Deus sempre existiu e sempre existirá; não tem fim, como não teve começo. "Vida" e "morte" são duas palavras que nada têm a ver com eternidade. Imortalidade afasta a morte, mas não a vida. Portanto teoricamente não afasta coisas como dor de dentes, assaltos, juros altos no cartão. Em suma, a imortalidade leva de 10 a zero da eternidade, e isto deve ser mais uma lição de humildade, de saudável ceticismo.
Como lição é o Dia dos Finados: ao mesmo tempo em que lembramos aqueles que já partiram, nos damos conta de que o nosso tempo sobre a terra é limitado. Pensamento sombrio, mas estimulante. Disse o ensaísta inglês Samuel Johnson, a propósito de condenados à morte: nada melhor para concentrar o pensamento do que a lembrança do enforcamento na manhã seguinte.
O grande perigo da imortalidade é acreditar nela, é projetar a existência para um futuro tão glorioso quanto inatingível. Imortalidade como ilusão é ótimo, porque, abrigados pelo diáfano manto da fantasia, podemos suportar um pouco melhor o cruel frio da existência, que, nas noites de insônia, nos penetra até os ossos.
Mas imortalidade como método de vida é um desastre. Viver é viver o nosso tempo. É um truísmo ridículo, este, mas é com o ridículo que temos de conviver, porque o ridículo é um antídoto, ainda que rude, para a embriaguez das ilusões. Sobre as quais podemos lançar um olhar terno, bem-humorado e melancólico, como o olhar que o maduro Moacyr lança sobre o ombro do menino Moacyr absorvido na redação de frases pomposas. Se esse olhar não nos consola, pelo menos nos ensina alguma coisa.
scliar@zerohora.com.br
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9:13 PM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
02/11/2003
A diferença social
Entre os mais rudes tormentos humanos, estão o medo do rico de vir a ser pobre e a aflição do pobre que já foi rico.
Não são a mesma coisa. Um pobre que já foi rico é infinitamente mais atormentado que um pobre que sempre foi pobre.
E o rico que já foi pobre, por ter conhecido as agruras da pobreza, conhece o pesadelo permanente da visão da tragédia que seria voltar à sua origem.
O pobre que sempre foi pobre e um rico que sempre foi rico são pessoas absolutamente iguais, embora economicamente antípodas.
Nem o pobre que sempre foi pobre sente tão intensamente na carne o gigantesco desfavor da sua exclusão - nem o rico que sempre foi rico saboreia intensamente as delícias da fortuna.
O pobre que sempre foi pobre reage perante a vida como a pessoa que já nasceu cega: não conhece a outra face da vida, por isso não a inveja nem a ambiciona.
Já o rico que ficou pobre é como o cego que perdeu a visão depois de adulto: amassa-o a catástrofe de ter sido expulso do Éden. Só pode avaliar a ventura do paraíso quem já a perdeu. Quem nunca esteve no céu não acredita no céu, considera-o uma vaga abstração.
Por que a única atribulação do rico que já foi pobre ou menos rico é a de ficar cada vez mais rico?
É para ganhar mais dinheiro ou amealhar maiores riquezas? Não. É para correr cada vez menos risco de voltar à condição que tinha antes e o amedronta.
Só os sábios têm a coragem de começar tudo de novo.
E só os santos são capazes de se contentar com a pobreza ou de renunciar a todas as suas riquezas.
São inumeráveis os santos pobres da Igreja Católica. Mas o maior santo da cristandade é Francisco de Assis, exatamente por ter sido o homem que mais amou e dignificou a pobreza depois de ter renunciado à sua riqueza.
Largou seu pai, rico comerciante, deixou a família, livrou-se de uma vida suntuosa em que se espanejava no luxo e na ostentação e foi ser miserável junto dos miseráveis, não possuindo sequer qualquer objeto que não fossem suas sandálias e vestes esfarrapadas.
Com isso, nunca nenhum homem teve maior autoridade para pregar o evangelho e a humildade do que ele. Isso se chama legitimidade.
Despojou-se de tal forma dos bens terrenos, cultuando somente a natureza, como os animais, que conta a lenda que ele conversava com os bichos, as feras não o atacavam.
Tem nexo, as feras só atacam os homens porque sabem que eles são piores do que elas.
E o homem, esse bípede inextricável, confirma a colossal confusão que fez na solução para a sua vida quando idiotamente se dividiu em ricos e pobres.
Essa é a principal razão desse atoleiro.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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9:10 PM
by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
O Brasil sobre duas rodas
Nunca se vendeu tanta motocicleta no país: em 10 anos, passou de cerca de 68 mil para mais de 792 mil o número de unidades comercializadas por ano. Em 2003, na Capital, a procissão de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e dos motociclistas, reuniu cerca de 10 mil motos, um recorde desde a primeira edição do evento religioso, em 1974 (foto Adriana Franciosi, Banco de Dados/ZH)
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10:34 AM
by Cassiano Leonel Drum
Vou de Bike
Na temporada do ar livre,a bicicleta volta a ser a melhor companheira do carioca
Mariana Salim
Prática. Ana estuda perto de casa
Pedalar ou dar um rolé de bike. O jeito de falar não importa quando o assunto está sobre duas rodas. A bicicleta une uma galera, que está atrás de conveniência e mais tranqüilidade na grande cidade maravilhosa. São 100,7 quilômetros de ciclovia, a mais longa do País. O esporte ganha status de meio de transporte e já virou mania entre os cariocas. Fugir do trânsito, economizar dinheiro e gastar energia são os objetivos dos adeptos. A nossa cidade é perfeita para quem gosta de pedalar, afirma a estilista da loja Farm, Joana Saladini de 26 anos.
A menina, que tem a cara do Rio, é moradora de Ipanema, trabalha em Copacabana e curte um visual bacana. Ir para o trabalho com uma vista dessas é um privilégio, admite. O traje tem que ser bem confortável, de preferência calça, e nos pés tênis ou sandália. Só pego meu carro quando a chuva aperta, conta e ressalta: Indispensável mesmo é um walkman com uma boa música rolando e uma mochila.
A verdade é que nesses tempos modernos o uniforme mais careta de trabalho perde espaço e a roupa casual e descontraída é cada vez mais usada entre os profissionais de diversas áreas como Moda, Cinema, Publicidade e Design. A estudante de Moda Verena Isaac dribla a falta de carro se aventurando pelas ruas montada em sua bike. Faço qualquer coisa pedalando. Vou para a faculdade e para o trabalho. Já sou conhecida na rua como a garota da bicicleta orgulha-se. Muito vaidosa, Verena tem um estilo todo especial: um macacão jeans que permite que seja retirada a parte de baixo da perna da calça. Só retiro a parte que fica do lado da correia, é para não sujar de graxa, dá a dica.
Outro adepto às pedaladas é o empresário Renato Viana, dono da loja de beach wear By The Sea, em Búzios. É uma sensação de liberdade incrível, analisa. Renato, que vive no eixo Rio-Bali, aproveita os compromissos cariocas para curtir a cidade.
Já a estudante de Design, Ana Luisa Lopes, não larga sua bike por trabalhar e estudar perto de casa. Me sinto outra pessoa chegando nos lugares pedalando. Fico muito mais produtiva, acredita.
Zen. Com a bicicleta, o empresário Renato Viana faz de seus compromissos um prazer e ainda aproveita a vista. É uma sensação de liberdade incrível, diz
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10:27 AM
by Cassiano Leonel Drum
O Dia das Bruxas existe há mais de dois mil anos. A festa dos povos celtas comemorava o fim do verão, o início do Ano-Novo e as fartas colheitas. Sua comemoração original chamava-se Samhain, também conhecida como o Dia das Almas, na noite de 31 de outubro.
Segundo a lenda, os mortos no ano anterior regressam e se encarnam nos vivos, podendo cometer atrocidades, colocar mau olhado nas colheitas e ocasionar danos materiais. Outras pessoas garantem que os celtas acreditavam que as almas eram de membros superiores da Igreja Católica e eram inofensivas.
No mundo moderno, o Halloween surgiu no séc. XIX, quando irlandeses implantaram a festa nos Estados Unidos. A data virou uma tradicional festa infantil na qual crianças se fantasiam e pedem doces de casa em casa, dizendo tricks or treats - travessuras ou gostosuras. A animação é tanta que dia 31 de outubro é feriado nos Estados Unidos, e o comércio registra um alto volume de vendas.
Tradição deu origem às máscaras, abóboras, doces e bruxas
A tradição de pedir doces existe porque acreditava-se na cultura celta que para se apaziguar espíritos malignos era necessário deixar comida para eles. Esta prática foi transformada com o tempo, com os mendigos passando a pedir comida em troca de orações por quaisquer membros mortos da família. Uma espécie de chantagem, que daí deu origem ao "travessuras ou doces".
A lanterna feita com uma abóbora recortada em forma de "careta" veio da lenda de um homem notório chamado Jack, a quem foi negada a entrada no céu, por sua maldade, e no inferno, por pregar peças no diabo. Condenado a perambular pela terra como espirito até o dia do juízo final, Jack colocou uma brasa brilhante num grande nabo oco, para iluminar o seu caminho através da noite. Este talismã (que virou abóbora) simbolizava uma alma condenada.
As máscaras têm sido um meio de supersticiosamente afastar espíritos maus ou mudar a personalidade do usuário e também de comunicação com o mundo dos espíritos. Acreditava-se enganar e assustar os espíritos malignos, quando vestidos com máscaras.
Nas celebrações da "Vigília de Samhain" nos dias 31 de outubro, os druidas acreditavam poder ver boas coisas e mal agouros do futuro através do fogo. Nessas ocasiões, os druidas construíam grandes fogueiras com cestas de diversos formatos e queimavam vivos prisioneiros de guerra, criminosos e animais. Observando a posição dos corpos em chama, eles diziam ver o futuro.
As cores usadas no Halloween, o laranja e o preto, também têm sua origem no oculto. Elas estiveram ligadas a missas comemorativas em favor dos mortos, celebradas em novembro. As velas de cera de abelha tinham cor alaranjada, e os esquifes eram cobertos com tecidos pretos.
Acreditava-se que mulheres com poderes de feitiçaria podiam lançar aos seus vizinhos toda espécie de sorte maléficas, como morte de gado, perda de colheita, morte de filhos etc. Segundo a tradição, o poder mais pernicioso de tais bruxas era tornar os maridos cegos a respeito da má conduta de suas esposas e de fazer com que as chamadas feiticeiras gerassem filhos idiotas ou aleijados. A caracterização de bruxas era a de velhas megeras desdentadas com hábitos excêntricos e língua venenosa.
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10:16 AM
by Cassiano Leonel Drum
Artigo
Quem inventa é poeta
CARLOS URBIM/ Escritor e jornalista
Saiba como tudo foi inventado. Quem ensina é o livro que Ricardo Silvestrin lança nesta Feira. Primeira obra do autor publicada pela Ática, É Tudo Invenção leva Silvestrin para todo o Brasil.
Crianças do Rio Grande do Sul já se deliciam com as invenções do poeta, encontráveis, por exemplo, em Pequenas Observações sobre a Vida em Outros Planetas. Incluídos em antologias nacionais, os achados e o fino humor de sempre estarão também em livros de poesia que serão distribuídos nas escolas brasileiras pelo Ministério da Educação.
Leitores de outros Estados e os fãs de carteirinha há mais tempo vão se encantar com o novo livro de Silvestrin, que ganhou ilustrações de Luiz Maia, no mesmo tom de riso e brincadeiras gráficas. Se Observações é um Atlas hilário de um espaço sideral improvável, É Tudo Invenção é a Enciclopédia que mostra como a maioria das coisas foi criada. No caso da invenção da meia, a explicação vem nos mínimos detalhes: "Primeiro fizeram inteira. Quando viram que eram dois pés, dividiram: meia a meia".
Algumas invenções custam a surgir, leva um tempão para cair a ficha de quem inventa: "Mas foi quando juntou / o pé do sapo / e o do pato / que o inventor / chegou ao sapato". Outras nascem para se tornar utilidade pública e ser usadas a qualquer hora: "Assim pensava / o inventor / da piada. / Queria era ver / todo mundo sorrir. / Mais nada". E são muitos os exemplos de inventos que são creditados ao acaso: "Não dizia / nem sim, nem não. / Nessa tal vez, / nasceu o talvez".
Ricardo Silvestrin é para ser lido de alma leve. Tem que chamar as crianças para perto, mostrar os detalhes dos desenhos do Luiz Maia e declamar a alegria que salta de cada página. Quem lê É Tudo Invenção descobre que, quando duas pessoas conversam com sinceridade, está inventada a amizade. Ou que o abraço veio de um laço: "Foi um sucesso / virou moda / e hoje até na hora / do fracasso / se há braço / há abraço".
Fotos da Ticcia lá do Não Discuto
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10:06 AM
by Cassiano Leonel Drum
Meus amigos ontem já senti o gostinho da Feira, caminhando por entre as estandes abarrotadas de livros e sentindo aquele aroma de livro novo, voces sabem bem como é. Não havia muita gente e portanto valeu a pena dar uma xeretada.
Como hoje está chovendo torrencialmente nesta Porto Alegre, não sei como será o movimento, mas com certeza, valerá a pena dar uma olhada, pois que a chuva não será problema por lá. Ótimo fim de semana a todos nós.
Evento
A feira de todos os sonhos
Evento foi inaugurado ontem com a promessa de trazer o ministro da Cultura no ano que vem
LARISSA ROSO
Mesmo sem a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil, a abertura oficial da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre, ontem à tardinha, estava concorrida. Gil cancelou sua participação na véspera, durante visita à Bienal do Mercosul, mas deixou dito que estará presente para as comemorações do cinqüentenário da Feira, em 2004. Promessa.
Lembrada em vários dos discursos, a ausência do ministro não deixou o evento mais importante do calendário cultural do Rio Grande do Sul menos importante. Autoridades e personalidades do meio literário, todos compareceram. Bem mais breve do que em anos anteriores - talvez por causa da chuva que se anunciava -, a solenidade contou com a presença do governador Germano Rigotto, do ministro das Cidades, Olívio Dutra, e do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro Corrêa do Lago, representando o Ministério da Cultura (MinC), uma vez que Gil teve de estar presente a uma reunião em Brasília.
Também participaram da cerimônia Oswaldo Siciliano, presidente da Câmara Brasileira do Livro, e o ator Sérgio Mamberti, secretário de Apoio à Preservação da Identidade Cultural do MinC, de passagem pela Capital para uma audiência pública na Assembléia Legislativa.
- Talvez essa não seja a Feira dos nossos sonhos, mas é a Feira de todos os sonhos - ressaltou o presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Geraldo Huff.
Huff fez uma homenagem especial a Júlio La Porta, o famoso xerife da Feira, que nem estava perfilado ao lado das demais autoridades no palanque montado no centro da Praça. Ao identificar-se como destinatário das palavras elogiosas de Huff, La Porta deixou a platéia para também assumir o lugar de convidado especial.
No discurso de posse como patrono, o jornalista e escritor Walter Galvani, depois de receber as boas-vindas do antecessor, o jornalista Ruy Carlos Ostermann, levou à Praça da Alfândega outros 42 convidados ilustres. Citou nominalmente os 42 patronos da Feira do Livro, a partir de sua 11ª edição, em 1965, destacando as contribuições de cada um à literatura - do português Luís de Camões ao agora imortal Moacyr Scliar.
- E o Quintana, que de tanto sentar-se nessa praça, todos os dias e em todas as feiras, eternizou-se numa estátua que existirá enquanto houver civilização - disse Galvani, relembrando o falecido poeta Mario Quintana, patrono em 1985, na Feira do Livro de número 31.
O governador Rigotto discorreu longamente sobre livros, literatura, leitura. E até arriscou-se em trechos mais líricos.
- Aqui se encontram folhas de livros e folhas de árvores, palavras impressas e palavras ao vento - afirmou, saudando ainda o início da primavera e o florescer da cultura.
Antes do tradicional sinetaço e do passeio do xerife pelas barracas da praça, o músico Luiz Carlos Borges, acompanhado de Vinícius Brum e Maurício Marques, cantou o Hino Rio-Grandense. O mesmo hino que, na véspera, Gilberto Gil citou várias vezes em seu discurso de despedida, ao encerrar a breve visita a Porto Alegre. Mesmo sem ministro, começou a Feira.
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9:54 AM
by Cassiano Leonel Drum
Lya Luft
01/11/2003
Canção das mulheres
Que o outro saiba quando estou com medo e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos se precisar ficar um pouco quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele, não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim nem se aproveite disso.
Que, se eu faço uma bobagem, o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que, se estou apenas cansada, o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade, mas talvez por culpa ou acomodação.
Que, se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo de que é culpa dele, ou que não o amo mais.
Que, se estou numa fase ruim, o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo: "Olha que estou tendo muita paciência com você!"
Que, se me entusiasmo por alguma coisa, o outro não a despreze nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.
Que, quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que, quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: "Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!"
Que, se eu peço um segundo drinque no restaurante, o outro não comente logo: "Poxa, mais um?"
Que, se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que embora às vezes me esforce, não sou nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa, vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa: uma mulher.
lya.luft@zerohora.com.br
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9:52 AM
by Cassiano Leonel Drum
Cláudio Moreno
01/11/2003
Colo
Uma desenhista de jóias que gosta do nosso idioma leu em algum lugar que o colar se chama assim porque foi feito para usar no colo; intrigada, pergunta: "Como isso é possível? O colo não é o lugar onde ficam os bebês?". Minha cara desenhista de jóias, não vais enxergar a relação entre esses dois vocábulos se não souberes que colo serve para designar coisas bem diversas entre si (vou deixar fora da discussão o emprego específico que a Medicina e a Biologia fazem deste termo).
Bluteau, em seu dicionário de 1712, já registrava, com seu estilo peculiarmente retorcido: "Esta palavra de três maneiras se usa no Português. A mais comum é por regaço; a segunda, é pelo lugar que se dá a um menino nos braços, e parece que se chama assim porque o menino, posto nos braços, deixa o braço ao colo de quem o traz; a terceira é o pescoço". Vamos ver cada uma delas.
Regaço - Este malsoante vocábulo provém de regaçar (o mesmo que arregaçar) e designa aquela concavidade que o tecido da saia ou do capote forma entre as coxas de quem está sentado. Eça de Queirós fala de uma rapariga que fazia uma grinalda "com as flores que lhe enchiam o regaço". Machado descreve uma pensativa personagem que, "com os cotovelos no regaço, tinha os olhos encravados na parede".
Alencar mostra uma mulher que cardava "uma porção de algodão cujos flocos alvos e puros caíam sobre uma grande folha que tinha no regaço". Noto que poucos brasileiros deixariam de usar, nesses exemplos, o vocábulo colo - como os próprios escritores mencionados também fizeram, em outras passagens: o Teodorico de Eça encontra Miss Mary "lendo o seu Times, com um gato branco no colo", da mesma forma que Alencar descreve Iracema "sentada com o filho no colo".
Pescoço - é nesse sentido que colo produziu o colar e a coleira (ambos traduzidos, no Francês, por collier), além de colarinho, torcicolo e tiracolo. É assim que aparece nos Lusíadas, de Camões: "O forte escudo, ao colo pendurado", ou "O valeroso Afonso, que por cima / De todos leva o colo alevantado", ou, mais claro ainda, "Vê-lo cá vai cos filhos a entregar-se / A corda ao colo, nu de seda e pano".
No conto O Relógio de Ouro, Machado descreve assim o ímpeto homicida de Luís Negreiros, um Otelo tropical: "O infeliz marido lançou as mãos ao colo da esposa e rugiu: - Responde, demônio, ou morres". Na Pata da Gazela, de Alencar, a heroína tem "uma cintura de sílfide, um colo de cisne". Como podes ver, aqui só se falou de pescoço.
Nem um, nem outro - O terceiro significado é aquele lugar em que se carrega um bebê (que Bluteau, politicamente incorreto, chama de "menino", no masculino): em parte apoiado no peito, em parte na raiz do pescoço. É aí que fica o "colo ofegante" das heroínas de nossa literatura romântica; é este o colo que as damas mostram, com o decote do vestido, nos bailes da Corte. Machado nos dá um exemplo valiosíssimo, em seu A Mão e a Luva, que não deixa margem a dúvidas: "Todo o colo ia coberto até o pescoço".
Que tal? Este colo é definido pelo velho Morais como "o pescoço, a cabeça e os ombros, onde se carregam pesos". Este é o que as crianças pedem aos pais, quando estão cansadas de caminhar; não por acaso, é neste colo que Santo Antônio sustenta o Menino Jesus, nas imagens de igreja.
Não hesito em dizer que o primeiro e o terceiro são os dois sentidos mais presentes em nossa língua atual; o de pescoço é quase desconhecido para o leitor brasileiro, e não admira que não tenhas visto a relação com o colar. Isso acontece com muitos outros vocábulos; quem de nós ainda vê em afogar o sentido de "sufocar"? Quem não estranha quando Camilo diz que o marido "não era homem de afogar a mulher com o travesseiro"?
Os que conhecem a peça de Shakespeare certamente reclamariam se eu dissesse que "Otelo, no auge do ciúme, afogou Desdêmona", já que não havia nenhum líquido por perto; no entanto, todos aceitam que se fale em vestido afogado (por oposição a decotado), onde o antigo significado está bem manifesto. Como dizia Vieira, vemos, mas não enxergamos.
Convido o leitor para a sessão de lançamento, pela L&PM Editores, do meu Guia Prático do Português Correto, segunda-feira, dia 3, às 19 horas, no Pavilhão de Autógrafos da Feira do Livro.
claudio.moreno@zerohora.com.br
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9:42 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
01/11/2003
O massacre dos golfinhos
Eu vivo dizendo que a maldade humana não tem limites.
Outra não é a conclusão das imagens que trouxeram nesta semana os jornais mostrando em fotografias estarrecedoras uma série de barcos japoneses encurralando inúmeros cardumes de golfinhos numa enseada, matando-os impiedosamente, de tal sorte que toda a maré do oceano se tingiu do vermelho do sangue desses doces animaizinhos, que não têm outra atitude com o homem que não seja a ternura.
Golfinho que salva crianças e homens afogados nas praias é, no Japão, cortado em postas e vendido em latas de conserva nos supermercados.
As fotografias mostradas nos jornais, uma delas com os golfinhos sendo empilhados em um barco de pescadores, sangrando ainda pelas estocadas recebidas, o mar totalmente vermelho pelo sangue dos golfinhos trucidados, me faz pensar que o homem é mesmo a maior fera do universo.
Toda vez que um homem se encontra com um golfinho, recebe deste as maiores amabilidades. O golfinho faz graça para o homem se divertir. É com certeza o mais inteligente de todos os habitantes do mar.
Inofensivo, ele vai mais longe na sua simpatia: adapta-se gentilmente às brincadeiras e jogos dos humanos, parecendo querer conhecer a nossa raça e junto com ela comungar da alegria da vida.
Pois há 400 anos os japoneses matam os golfinhos, eliminação dolorosa para os animais, para comercializá-los como alimento.
Qualquer pessoa lúcida há de perguntar-nos: mas nós também não sacrificamos com a mesma crueldade o gado que comemos, servindo lautos churrascos de picanhas bovinas, costelas de ovelha e lombo de javali?
É verdade, mas nenhum desses animais nos enche tanto de meiguice, de carinho e até de amparo quanto o golfinho.
Além disso, a espécie dos golfinhos corre perigo de extinção, enquanto o gado se multiplica por criação e vai se renovando conforme a sua produção industrial e consumo.
Para nós, ocidentais, matar um golfinho é praticar o mesmo crime que se eliminar um cão poodle ou um papagaio.
Há espécies animais que se identificam tão afetiva e solidariamente com o homem que não imaginamos que vamos ter gosto em consumi-los como carne.
O golfinho é tão amigo do homem, como o cavalo, que por isso não admitimos comê-lo.
Entidades ambientalistas do mundo inteiro estão protestando junto ao governo japonês contra a carnificina.
Em treinamentos para shows, os golfinhos se revelam como animais de extraordinária inteligência. E o que é mais importante: possuem inteligência afetiva, interessam-se por aproximar-se dos homens e têm aguçada curiosidade sobre nossos costumes.
Tanto são animais sensorialmente superdotados que estes pérfidos caçadores japoneses usam de um estratagema para apanhá-los e massacrá-los: batem com as mãos em cima da superfície do mar, os golfinhos perdem o senso de orientação emitido dos seus radares corporais e se deixam encurralar pelos seus matadores em uma enseada, onde são dizimados.
Tudo menos matar golfinhos para enlatá-los. Tenho certeza de que os golfinhos esperavam muito mais da raça humana.
O homem não tem o direito de extinguir uma das melhores criações divinas. Além de afirmar por esse holocausto que a criatura humana não é, nem de longe, uma das melhores criações de Deus.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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9:39 AM
by Cassiano Leonel Drum
Crime
Expulsos pela violência
Pai da garota morta por gangue resolveu abandonar Novo Hamburgo e chora ao desmontar o quarto da filha (foto Miro de Souza/ZH)
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Sexta-feira, Outubro 31, 2003
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9:03 AM
by Cassiano Leonel Drum
FLUMINENSE
Um drible no Banco Central
Diretoria tricolor só desistiu de vender Carlos Alberto para o Kashiwa Reysol, do Japão, porque o dinheiro da transação seria bloqueado, devido às dívidas do clube
Marluci Martins
A venda dos direitos federativos (antigo passe) de Carlos Alberto para os empresários Paulo Barbosa e Marco Antônio da Purificação resolve dois problemas: a falta de dinheiro e a impossibilidade de uma eventual transação internacional ser feita sem a fiscalização do Banco Central, como queria o Fluminense, para fugir dos credores.
Foi por esse motivo que a negociação com o Kashiwa Reysol, do Japão, não foi fechada. O diretor-geral do clube japonês, Yukihiro Miyamoto, informou ao ATAQUE que Carlos Alberto só não jogará no Kashiwa porque a diretoria tricolor não encontrou um jeito de driblar o Banco Central o dinheiro que viria de fora do País poderia ser bloqueado.
Entre os clubes, já estava tudo certo: o Kashiwa pagaria US$ 3 milhões dos quais, US$ 450 mil seriam de Carlos Alberto e US$ 300 mil de seus procuradores (um deles, Richard Aldo). O jogador receberia US$ 520 mil por ano, além de uma casa para morar, um carro e seis passagens aéreas (classe executiva).
Segundo o dirigente japonês, a diretoria tricolor chegou a fazer-lhe uma proposta considerada indecente: para que a transação não passasse pelo Banco Central, a Hitachi do Brasil, filial da multinacional que patrocina o Kashiwa, serviria como uma espécie de laranja: a empresa receberia o dinheiro do clube japonês, repassando-o logo ao Fluminense.
Por dois motivos, o conselho consultivo da Hitachi vetou a proposta: 1) não teria como explicar por que uma empresa de ar-condicionados compraria um jogador de futebol; 2) uma ação contra o Fisco brasileiro pegaria muito mal para a imagem da empresa, no País desde 1954.
Carlos Alberto também chiou. Segundo Miyamoto, por não confiar no Fluminense, o jogador queria que os 15 por cento a que teria direito na negociação fossem pagos pelo Kashiwa.Após muita conversa, teria concordado com a transferência.
Yukihiro Miyamoto ficou 20 dias no Brasil. Voltou para o Japão certo de que só havia um impasse a travar a negociação: o medo do Fluminense em relação ao Banco Central. Dias depois, telefonou para o filho do presidente do clube, Marcelo Fischel, que lhe informou que o negócio andara para trás e que Carlos Alberto já tinha novo destino.
Num telefonema para o procurador Richard Aldo, o dirigente japonês soube que Marco Antônio da Purificação e Paulo Barbosa eram os novos donos do apoiador. Na quarta-feira, o Kashiwa teria a confirmação: o próprio Carlos Alberto informaria, por telefone, que sua decisão não tinha volta, pois já havia assinado contrato para a transferência.
Procurado pelo ATAQUE, o presidente do Fluminense, David Fischel, não foi encontrado. Ele é o único dirigente autorizado a falar sobre o assunto.
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8:53 AM
by Cassiano Leonel Drum
Horror em dose dupla
Freddy Krueger fala com exclusividade ao DIA sobre o confronto com Jason em filme que estréia hoje no Rio
André Gomes
A sexta-feira é 31, mas basta trocar os números de posição para se chegar ao 13. Há mais indícios macabros na data: é Dia das Bruxas e nos cinemas estréia Freddy x Jason, filme que reúne os dois maiores assassinos dos longas de terror dos anos 80 num aguardado confronto. Intérprete do temido Freddy Krueger, Robert Englund revela na entrevista ao lado o ator por baixo da maquiagem do monstro. São duas décadas na pele do matador de Elm Street. Quer entender como Jason foi parar lá? Calma, que é fácil explicar.
Começa o filme e logo o espectador fica sabendo que Freddy está preso no inferno há 10 anos. O mestre dos pesadelos não consegue invadir o sono dos habitantes de Springwood porque vítimas potenciais foram medicadas para serem impedidas de sonhar. Ele resolve ressuscitar Jason Voorhees (Ken Kirzinger), para que o psicopata de Sexta-Feira 13 espalhe o medo pela vizinhança. O temor ajudará Freddy a voltar triunfante aos sonhos alheios.
O plano do assassino de A Hora do Pesadelo é ameaçado quando ele percebe que Jason não está disposto a aposentar o facão para Freddy agir. Ponto de partida para Krueger se voltar contra Jason em duelos orquestrados pelo diretor Ronny Yu. Ele apresenta um filme escuro, sinistro e fiel às séries. As vítimas, claro, são adolescentes, e a heroína se chama Lori (Monica Keena). Horror em dose dupla, indicado a fãs do gênero.
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8:47 AM
by Cassiano Leonel Drum
Ueba! Lucianta não é transgênica, é antagênica!
Buemba! Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! O Robinho levou um Peru! Aliás, sabe por que o Santos perdeu do Peru? Porque eles tem um jogador chamado Caciete! Caciete do Peru. Tradução: o Santos levou um caciete do Peru. Rarará! E eles esperavam o quê? Que o Peru jogasse encolhido? E o meu São Paulo, lá na Bolívia, ganhou de quatro a um do "The Strongest". Que virou "De Quatro"!
Festival Lucianta Gimenez! A minha morenanta preferida. É que ela disse que não é burra, é espontânea. Espontânea com xis. É que ela estava apresentando o caso do vocalista do Twister, preso por porte de drogas, e num rasgo de espontaneidade chamou a 78º DP de sétima oitava. "Quero agradecer ao senhor Joaquim da Silva da sétima oitava delegacia." Tá vendo no que dá espontâneo querer falar difícil?
E aí ela estava entrevistando a Ângela Maria quando teve um outro ataque de espontaneidade: "Você era conhecida como a SAPÓTI brasileira". Sapoti virou sapóti? A sapóti da sétima oitava! Depois dizem que eu implico. E ela disse que quando criança fez um teste de QI. E deu QI de quatro? Ao contrário, diz que deu QI de gênio. Antagênico!
Ela não é transgênica, é antagênica!
Mas como disse um leitor: "Ela é anta, mas é gostosa". Corpo de sereia e QI de minhoca. Eu tô falando tudo isso porque ela comemorou aniversário no programa. E sabe o que ela ganhou do Alexandre Frota? Um filhote de pitbull. Socorro! Não falo mais nada!
A ciência caiu na gandaia! Essa deu na CNN: sexo oral diminui risco de câncer nas mulheres. O quê? Já falaram que pizza evitava câncer no estômago, cerveja fazia bem pros ossos e agora sexo oral evita câncer. O trio da alegria: Pizza, cerveja e chupeta! E mais esta agora: vinho evita infecção pulmonar. Sendo que já tinham anunciado que masturbação fazia bem para a próstata. Então ficamos assim: você come uma pizza, bate uma, bebe umas loiras geladas, pratica sexo oral e toma um garrafão de Sangue de Boi. Ou seja, HAJA SAÚDE!
Antitucanês, a Missão! Continuo na minha cruzada Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais dois exemplos irados de antitucanês. É que em Campinas tem um time de futebol da terceira idade chamado Real Matismo! E, em Itapema, Santa Catarina, tem aquela empresa A Pílula Falhou Confecção Infantil. Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Agregado": companheiro metido a grego. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!
simao@uol.com.br
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8:45 AM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
31/10/2003
O seio direito
Ele sempre começava pegando no seio direito dela. Sempre. Depois, fazia tudo igual, todas as vezes. A seqüência jamais variava: seio direito, beijo na boca, dois gemidos, sexo civilizado. Nos primeiros dias, ela até gostava. Não que fosse arrebatador, mas era agradável. Mais tarde, passou a se impacientar. Será que ele nunca faria nada diferente?
Não. Nunca fazia. Seio direito, beijo na boca, dois gemidos... Tudo igual. Um dia, ela se irritou:
- Vem cá, tu nunca vai fazer nada diferente?
- Ahn? - ele sempre respondia ahn.
- É sempre seio direito, seio direito, seio direito. E, depois, a mesma seqüência. Quero algo diferente!
Ele coçou a cabeça, constrangido. Prometeu mudar.
À noite, na cama, estava nervoso. Os dois deitados, ele se aproxima, e se aproxima com a mão esquerda espalmada na direção do seio... direito! Ela entesa, deitada de costas. Arregala os olhos. De novo??? Ele pára. A mão fica suspensa no ar. Estaria em dúvida? A mão treme. Com esforço, com comovente esforço, ele começa a deslocar a mão do território do seio direito, devagar, devagar... Ele está suando. Morde o lábio inferior. Geme baixinho. Ele sofre. A mão trêmula agora paira acima do seio esquerdo, feito um helicóptero. Enfim, ele a abaixa, abaixa lentamente, muito lentamente e... pega no seio esquerdo!
Ela tem a respiração presa. Não se move, expectante. A mão dele está paralisada naquele seio esquerdo. É com hesitação que os dedos finalmente se mexem, cobrinhas ansiosas, e ele passa a afagá-la de leve. O suor lhe despenca em bagas pelo rosto, seus olhos estão esbugalhados, ele fala, primeiro num sussurro:
- Que loucura!
Depois mais alto:
- Loucura! Loucura!
Enfim grita:
- Loucura! Loucura! Loucura!
O resto é igual a sempre. E nos dias seguintes tudo continua igual, com exceção da mão no seio esquerdo. Passadas algumas semanas, ela se impacienta outra vez:
- Seio esquerdo, seio esquerdo! Tu não muda nunca?
Ele se sobressalta:
- Pede pra eu fazer diferente e agora quer tudo igual de novo?!?
Ela, boquiaberta, não responde. Ele olha para o teto. Parece refletir. Sorri:
- Louca! Tu és uma louca! Loucaloucaloucalouca!
E pega no seio direito, repetindo:
- Louca! Louca!
Ela ia protestar, mas não. Olha para ele: alucinado. Ela sorri. E sente orgulho de toda a aventura que, afinal, é capaz de proporcionar.
david.coimbra@zerohora.com.br
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8:41 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
31/10/2003
A dor do apagão
Livrai-nos, Deus, aqui em Porto Alegre, de um apagão como este sofrido por Florianópolis.
Só quem perde de repente a energia elétrica é que pode avaliar o quanto de vital ela significa para a civilização moderna.
Em Florianópolis foi atingida a educação, com os colégios suspendendo suas atividades.
Foi atingida a saúde, com os hospitais transferindo as cirurgias eletivas e transtornando as consultas e até os atendimentos ambulatoriais.
Foi atingida a segurança pública, com as tropas policiais postas em alerta para evitar saques e assaltos, sem falar na mais completa balbúrdia do trânsito, pela ausência das sinaleiras.
E é atingido principalmente o abastecimento de água, o que culmina a catástrofe.
Tudo é atingido, tudo entra em colapso.
E só é colapso quando dura apenas um dia. Se durar mais que isso, vira tragédia. Porque o pânico se instala na população, que desabastecida pelo fechamento do comércio passa a saquear os supermercados em busca de alimentos e artigos de higiene, as farmácias para conseguir medicamentos.
Cinco dias sem energia elétrica em qualquer agrupamento de mais de 50 mil pessoas vira guerra civil.
Eu, por exemplo, moro no 12º andar, como milhares de pessoas em Florianópolis.
Quem mora em andares altos, num apagão, é obrigado a descer e subir as imensas escadarias diversas vezes por dia.
Além disso, tem de carregar o peso das latas d'água pelas escadas, além dos outros gêneros necessários à sobrevivência.
Fiquei pensando nas toneladas de peixes e frutos do mar que são consumidos em Florianópolis, aquele mercado público tem uma banca desses produtos que faz inveja a nós, distantes do oceano. Com as câmaras frigoríficas paralisadas pela falta de energia, a solução seria o gelo.
Mas para fabricar gelo também é preciso energia elétrica.
Que problema.
Nada funciona dentro de uma casa sem energia elétrica. Talvez só o fogão, mas como acioná-lo sem o complemento indispensável do refrigerador?
Mas entre as grandes perdas humanas no apagão há que se salientar a televisão: as pessoas ficam aturdidas sem televisão, estão de tal forma viciadas na telinha que a vida perde o sentido para elas.
E logo em seguida, o gás que alimenta o liquinho para a iluminação, que move o chuveiro e o fogão, começa a ter problemas de abastecimento.
É nessas horas que a gente é obrigado a concordar em que os tempos modernos são muito mais confortáveis e felizes do que os antigos, uma discussão que sempre estabelecemos quando confrontamos as épocas primitivas, o homem em contato íntimo com a natureza, com os dias de hoje, quando fomos confinados a esses cubículos estreitos denominados de apartamentos, no centro de uma selva de pedra e de violência.
Pois num apagão destes é que se pode avaliar o quanto a vida dos dias de hoje é bem melhor.
O apagão torna o ser humano um errante.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:38 AM
by Cassiano Leonel Drum
Visita
A arte de Gil na Bienal do Mercosul
Numa visita relâmpago à Capital, o ministro dançou com as voluntárias de uma performance no Cais do Porto (foto Adriana Franciosi/ZH)
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Quinta-feira, Outubro 30, 2003
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11:40 PM
by Cassiano Leonel Drum
MANHA DO AMOR IGNORADO
Ontem era a inconsciência,
O tumulto de emoções estranhas,
Uma sucessão de momentos mágicos,
Mil vezes revividos depois,
Nas horas solitárias
Então, simples intervalos que precediam
A deliciosa ansiedade da espera.
Ontem havia música em cada ruído banal
E uma vibração intensa de vida em tudo...
Ontem havia você.
Hoje há em mim um silêncio profundo,
Uma grande imobilidade
E a certeza amarga de que você passou.
Você é agora algo insólito, intangível,
No entanto, estranhamente real,
Como um sonho, uma estrela,
Uma nuvem que oculta o sol.
Agora o que fazer
Das palavras de amor que nunca lhe disse?
O que fazer dessas carícias,
Paralisadas em minhas mãos?
O que fazer de tanta ternura inútil,
Tão inútil quanto um jardim que floresceu
Quando ninguém mais morava por perto?...
Você agora é pouco mais que uma saudade...
E eu lamento que seja assim...
Mas o que eu lamento, na verdade,
Não é você ter passado...
O que lamento é não ter acordado
Antes que você passasse,
Antes que você fosse apenas
Pouco mais que uma saudade.
Virgínia Vendramini
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11:36 PM
by Cassiano Leonel Drum
ACALANTO INÚTIL PARA A TRISTEZA
Andei por aí de madrugada
Entre copos, risos, canções,
Brincando de ser contente,
Falando coisas banais.
Da mesa simples de um bar,
Fiz um berço
Pra este tédio impertinente,
Dormir ou me deixar.
E,
Pra acalentar a tristeza,
Cantei samba e fiz piada.
Mas,
Quando o dia chegou,
Fechando os olhos da noite,
Minha tristeza acordou
E me sorriu uma lágrima,
Dizendo:
Oi, amiga, bom dia!
"Que saudade de você"
Virgínia Vendramini
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8:31 AM
by Cassiano Leonel Drum
Lucianta adverte: fumar causa asfixia de neurônio!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E diz que a indústria cresceu 6%. Só se for a indústria da aviação, de tanto que os ministros andam viajando. E depois do ataque das galinhas no Romário, o Fluminense mudou o nome do Estádio das Laranjeiras pra Galinheiras. Estádio das Galinheiras. E agora direto do país da piada pronta: sabe como se chama o goleiro de futebol de areia do Rio? MÃO!
E o site Kibeloco está sugerindo imagens mais chocantes para os maços de cigarro. Em foto do Maradona fumando, Ministério da Saúde adverte: fumar causa argentinismo. E uma foto da Monica Chupinsky: fumar o charuto errado causa perda do estágio e obesidade. Rarará! E uma foto do Bob Marley fumando maconha: fumar causa... causa... causa o que, mesmo? E eu sugiro que coloquem uma foto da Lucianta Gimenez: fumar causa asfixia dos neurônios. Aliás, diz que perguntaram pra Lucianta: "Como é o nome do seu pai e o nome da sua mãe". "Uma pergunta por vez, por favor."
E o diálogo do Zé Dirceu com a Benedita. Zé Dirceu: "A senhora anda muito avoada". "Mas eu só avoei pra Argentina e pra levar as palavras do filho de Deus." E o Zé: "Não bota o meu filho no meio". E a Benê: "Estou pensando em fazer uma viagem para Veneza". "Chega! Basta, A senhora vai é pro inferno." "Buenos Aires de novo?" Rarará! E sabe como já estão chamando o espetáculo do crescimento? Vara Zero! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
Ataque das Loiras. É que no Debate Bola a Renata Fan disse que o São Paulo vai jogar na Bolívia contra o The Strongest, que quer dizer "o mais forte" no idioma local. Sendo que o idioma local da Bolívia é língua indígena. E não são indígenas norte-americanos. Longe disso! É mole? É mole, mas sobe!
Antitucanês, a Missão. Continuo na minha cruzada Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais dois furiosos exemplos de antitucanês. É que em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, tem um motel chamando "Ninguém é de Ninguém". E em Cabedelo, na Paraíba, tem um bar sem sanitário chamado Bar do Mijo. Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. "Antagonismo": agonia de uma anta. "Testosterona": texto pra macho. Rarará! O lulês é mais fácil do que o inglês!
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! No pingolim!
Pra ver se bate no teto!
UFA!
simao@uol.com.br
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8:29 AM
by Cassiano Leonel Drum
Nilson Souza
30/10/2003
Além da mesa
Era domingo, tinha sol, e as flores da primavera explodiam no arvoredo da rua.
Ninguém deveria ter pressa num dia assim, mas a moto surgiu de repente pela direita, saindo daquele ponto cego da lateral do carro que nenhum retrovisor sintoniza. Levei um susto, mas o piloto nem se deu conta. Seguiu célere e ruidoso, com a sua carga de quatro queijos e muzzarela, furando sinais e atravessando pedaços de calçada para chegar logo ao seu destino - e voltar ainda mais rapidamente para pegar outra encomenda.
Pensei: fast-food é isso. Comida rápida, vida rápida. Ou vida urgente, como sugere o meritório movimento dos Gonzagas, no seu quase quixotesco, mas maravilhoso, trabalho de conscientizar os jovens da noite.
Pois em contraposição ao fast-food apareceu na Europa o Slow Food, um movimento cultural que parte da idéia de comer devagar e envolve comportamento, filosofia de vida, posicionamento diante do mundo. A proposta é fascinante: comer e beber devagar, saboreando os alimentos e o convívio dos familiares e amigos, estendendo esta atitude para a atividade profissional. E não se trata de uma apologia à preguiça, nem do ócio criativo do sociólogo italiano aquele.
É muito mais uma decisão pela sensatez, baseada no questionamento da "pressa" e da "loucura" geradas pela globalização, pelo apelo à "quantidade do ter" em contraposição à qualidade de vida ou à "qualidade do ser".
O tema foi abordado pela edição européia da revista Business Week, com argumentos convincentes. Um deles é o de que os trabalhadores franceses, embora trabalhem por um período menor de tempo (35 horas por semana), são mais produtivos que americanos e ingleses. Também conta que os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer em 20%.
Em resumo, agir sem pressa não significa fazer menos, nem ser menos produtivo. Significa - de acordo com as informações que recebi sobre a Slow Food International Association - fazer bem as coisas, trabalhar com mais qualidade, dar atenção aos detalhes e reduzir o estresse. Significa, também, retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das coisas simples, do local em contraposição ao global. Significa ainda a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé.
Se aquele motoqueiro soubesse de tudo isso, aposto que desacelerava.
nilson.souza@zerohora.com.br
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8:27 AM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
30/10/2003
O futuro não é mais o que era
Se todas as previsões feitas no passado sobre como seria a vida no começo do século 21 dessem certo, cada um de nós teria um helicóptero - ou coisa parecida - na garagem, e para viagens mais longas só usaríamos aviões supersônicos. Os Volkswagens voadores não vieram, para não falar nas megalópoles superorganizadas com calçadas rolantes e no mundo em paz permanente e sem pragas, mas o Concorde parecia ser um sinal de que pelo menos parte da visão se cumpriria, mesmo com atraso. Era um protótipo que, com o tempo, se aperfeiçoaria e democratizaria. Seus defeitos eram desculpáveis, tratando-se de um protótipo.
Fora as críticas irrelevantes (sim, querida, o caviar é Béluga, mas com a granulação errada), o pior que se dizia de uma viagem no estreito Concorde, com suas poltronas apertadas, era parecido com o que aquele inglês disse do ato sexual: o prazer é fugaz e a posição é ridícula. Tudo isso seria corrigido com o tempo, inclusive o seu maior defeito, o preço das passagens, só acessível a quem distingue grão de caviar.
Mas o Concorde acabou antes de poder ficar viável. E o que se chora não é o fim de uma máquina muito cara e talvez desnecessária, mas de um sonho: o que a vida poderia ser se todas as possibilidades abertas pela ciência e a tecnologia depois da I Guerra Mundial tivessem dado em outro mundo. As idílicas previsões dos anos 20 e 30 pressupunham um progresso da mentalidade humana comparável ao da sua técnica.
Não aconteceu. Não por acaso a decisão final sobre a impossibilidade do Concorde coincide com uma desilusão terminal com o papel da ONU, que também frustrou expectativas antigas. No fim, do que a gente mais sente falta, do passado, é o seu futuro. O Concorde podia ser só uma extravagância feita para quem quisesse almoçar em Paris e almoçar de novo em Nova York. Mas morreu com a dignidade de um símbolo, no caso do fim prematuro de um século que só ficou na imaginação.
Mas, enfim, o futuro imaginado no passado não incluía uma palavra, uma pista, uma sugestão que fosse da grande revolução da informática que viria e ninguém previu. Quer dizer, já era um futuro obsoleto.
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8:25 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
30/10/2003
SEC arrasa diretora
Lembram-se daquela polêmica travada aqui na coluna sobre a autonomia que as direções de escolas públicas têm - ou não têm - para punir seus alunos?
Aos fartos arrazoados sobre a competência nítida das direções das escolas para advertir, suspender ou expulsar alunos, várias professoras e diretoras de escolas mandaram dizer que não era bem assim.
Alegavam que as decisões disciplinares das diretoras das escolas eram desautorizadas pela Secretaria Estadual da Educação, pelos conselhos tutelares e pelos Juizados da Infância e da Juventude.
Na ocasião, afirmou aqui por esta coluna o juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude, bel. Breno Beutler Junior, que "em nenhum ponto do Estatuto da Criança e do Adolescente há determinação de impedimento por parte das escolas de advertir, suspender ou até expulsar os seus alunos. O que deve haver, especialmente quanto à expulsão, é comedimento, por tratar-se de medida extrema. Essas providências contudo, são da competência das direções das escolas, nos casos disciplinares".
Pois bem, agora o mesmo magistrado, juiz Breno, manda correspondência a esta coluna dizendo que anteontem recebeu um telefonema de uma educadora dando conta de que a direção de sua escola havia suspenso um aluno por indisciplina. E que logo em seguida a diretora da escola foi convocada a comparecer à Secretaria Estadual da Educação, onde lhe foi determinado que voltasse atrás na suspensão e, mais ainda, que comunicasse a família do aluno, por telefone, da sua nova decisão. A fundamentação para a medida de volta às aulas do aluno foi simplesmente a "de que não pode o aluno ser suspenso ou expulso".
Escreve para a coluna o juiz: "Fiquei pasmo, por dois motivos. Pelas razões da reforma da decisão e pela humilhação a que foi submetida a diretora, encarregada de dar a notícia da revogação da medida aos interessados. Imagina esse rapaz retornando para a escola, hoje, chamado pela própria direção da escola. Estará esse rapaz investido de um incomensurável poder. Nem a autoridade administrativa e disciplinar máxima, ali, terá poderes sobre ele. Ele, ao contrário, estará acima dessa autoridade... Sem coerção, não há limites, sem limites não há educação. Sem educação, não há futuro, para ele e para os que o cercam, para a sociedade a que ele pertence".
Por isso é que é bom o debate. Muitas professoras e diretoras alegaram nesta coluna que suas decisões disciplinares eram revogadas pela SEC, pelos conselhos tutelares e pelos Juizados da Infância e Juventude. Com isso, elas se desmoralizavam quando puniam os alunos e ficavam impotentes para coibir a disciplina, virando o ambiente escolar um império da desordem.
O próprio juiz da Infância e Juventude que me escreveu ontem admitiu: "Quero te informar, ainda, que já revisei decisões de expulsões, por entender desproporcionais às infrações que lhes deram causa. E mantive outras, quando me afiguraram adequadas. Digo isso apenas para que percebas que não estou teorizando sobre este tema. Peço que me perdoes a extensão desta manifestação, mas não consigo calar frente a um quadro destes".
Como se vê, tinham razão as professoras que reclamavam de falta de autonomia para punir os alunos por indisciplina.
Admite-se até que os atos punitivos sejam revisados pela Justiça, é constitucional o exame jurisdicional de qualquer lesão a direito.
Mas se a SEC se investe também da autoridade de derrubar decisões disciplinares das escolas, certamente os conselhos tutelares vão no mesmo caminho.
E as pobres das professoras e diretoras que estão lá nas escolas lidando no cotidiano com os desordeiros e indisciplinados de toda ordem que se ralem e se desmoralizem.
Muito se entende melhor, agora, a insolência e atrevimento reinantes dos alunos violentos e desordeiros.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:23 AM
by Cassiano Leonel Drum
Energia
Florianópolis sofre seu maior blecaute
Luzes iluminam a parte continental da capital catarinense e metade da ponte Hercílio Luz depois que explosão danificou cabos e interrompeu energia da ilha (foto Ulisses Job, Agência RBS/ZH)
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Quarta-feira, Outubro 29, 2003
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8:19 PM
by Cassiano Leonel Drum
PARA ONDE VÃO OS VERSOS
Para onde é que vão os versos
que às vezes passam por mim
como pássaros libertos?.
Deixo-os passar sem captura,
vejo-os seguirem pelo ar
- um outro ai, de outros jardins...
Aonde irão? A que criaturas
se destinam, que os alcançam
para os possuir e amestrar?
De onde vêm? Quem os projeta
como translúcidas setas?
E eu, por que os deixo passar,
como alheias esperanças?
Cecilia Meireles
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8:15 PM
by Cassiano Leonel Drum
R E T R A T O
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecilia meireles
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8:00 PM
by Cassiano Leonel Drum
Destino
Pastora de nuvens, fui posta a serviço
Por uma campina desamparada
Que não principia e também não termina,
Onde nunca é noite e nunca madrugada.
(Pastores da terra, vós tendes sossego,
Que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)
Pastora de nuvens, por muito que espere,
Não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
Não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.
(Pastores da terra, que saltais abismos,
Nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)
Pastora de nuvens, cada luz colore
Meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
Os velos instáveis das reses dispersas.
(Pastores da terra, de certeiros olhos,
Como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o indício da sombra que foge...
Eu, não.)
Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
Do dono das reses, do dono do prado.
E às vezes parece que dizem meu nome,
Que me andam seguindo, não sei por que lado.
(Pastores da terra, que vedes pessoas
Sem serem apenas de imaginação,
Podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não)
Pastora de nuvens, com a face deserta,
Sigo atrás de formas com feitios falsos,
Queimando vigílias na planície eterna
Que gira debaixo dos meus pés descalços.
(Pastores da terra, tereis um salário,
E andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)
Cecília Meireles
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8:17 AM
by Cassiano Leonel Drum
Muita vontade de viver
Vítimas de acidentes, jogador de futebol que perdeu a perna esquerda e professora que ficou sem as duas mostram determinação e otimismo
Orlando(C) levou os filhos Orlando Neto e Letícia para visitar a mãe, Andrea: o reencontro após a tragédia
Os sonhos foram interrompidos, mas a vontade de viver não. Vítimas de acidentes que os deixaram mutilados, a professora Andrea Lisboa Salgado, 33 anos, e o jovem Leonardo Rodrigues da Silva, 19, dão exemplo de força e determinação e já fazem planos para o futuro.
A professora, que teve as pernas amputadas em conseqüência de um atropelamento de lancha, em Itacuruçá, sábado, disse ontem aos filhos, Orlando Neto, 7, e Letícia, 4, no primeiro encontro após a tragédia, que sua vida não iria mudar e que apenas ganharia novas pernas. O acidente com o barco deixou um morto, o estudante Gabriel Borges Soares Silva, 16.
Já Leonardo, atropelado há dez dias com outras cinco pessoas em Nova Iguaçu por um Tempra desgovernado, descobre que a perda de uma perna lhe roubou a chance de jogar futebol, mas não o convívio com a bola. Ele, agora, quer ser técnico.
O jovem teve a perna esquerda amputada às vésperas de fazer um teste para jogar no América. Eu ia conseguir. Sou bom jogador. Agora, quero ser técnico, diz Leonardo, que calçou as chuteiras pela última vez, no dia do acidente. Ele estava a 500 metros de casa quando o Tempra desgovernardo esmagou sua perna. O acidente provocou a morte de uma criança e mutilações em outras três vítimas. O motorista dirigia sem habilitação.
Andrea e Leonardo sabem que vão levar um tempo para voltar a ter uma rotina normal. Mas procuram não esmorecer. Ontem, ela já dizia ao filho, durante visita da família ao hospital em que está internada, em Jacarepaguá, que não deixaria de levá-lo à escola e nem à natação. Segundo o marido da professora, Orlando Costa Salgado Júnior, 36, ela falou para os parentes não ficarem preocupados.
Vocês estão se prendendo ao que eu perdi. Põe na tua cabeça o seguinte: eu ganhei uma vida nova e estou feliz por estar viva. Se você tiver dinheiro para comprar as próteses que o médico já conversou comigo, eu vou aprender a andar e a gente vai cuidar dos nossos filhos e da casa¿, disse ela ao marido.
Após revelar o diálogo com a mulher no programa da apresentadora Ana Maria Braga, na manhã de ontem, Orlando recebeu a solidariedade do empresário paulista Nelson Nolet, que ofereceu as próteses. Segundo o marido, Andrea ficou mais forte ao ver os filhos. Ela está feliz por ter ganho outra vida e sua força segura toda a família, contou, lembrando que o filho do casal ficou aliviado ao ver a mãe. Já a pequena Letícia, ainda não entende o que aconteceu. Andrea passa bem e está tendo recuperação surpreendente, segundo os médicos. Ela ditou uma carta agradecendo a todos que cuidaram dela e ao empresário que doou as próteses.
Carismático, o jovem Leonardo lembra das conquistas como jogador amador. Foi eleito artilheiro da VI Olimpíada da Baixada Fluminense, promovida este ano pelo DIA. Nunca vou esquecer aquele dia, acentua, sem esconder a saudade de um passado tão próximo. Mas segue em frente, e diz que agora só quer se recuperar e esquecer o trauma. Além de perder a perna esquerda, ele sofreu fraturas na direita.
O iatista e secretário Estadual de Juventude, Esporte e Lazer de São Paulo, Lars Grael, pretende visitar Andrea sexta-feira. Ele, que também teve a perna amputada após ser atropelado por um barco, quer prestar solidariedade. Quando me acidentei, recebi visitas e isso foi muito importante. É diferente ouvir o depoimento de quem passou pelo problema, acredita Lars. Ele aproveitou para enviar um recado a Leonardo. O próprio esporte pode ajudá-lo muito. O Brasil é muito forte no futebol de amputados e o paradesporto é gratificante.
Armelindo (detalhe) fez ontem a reconstituição do acidente. Ele acusa o cabo Marcos Manuel de ser o culpado
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8:00 AM
by Cassiano Leonel Drum
O Rio entra na dança
Momix e o 12º Panorama RioArte invadem os palcos cariocas com espetáculos contemporâneos a partir de R$ 2
Flávia Motta
Amanhã o Rio vai calçar sapatilhas e seguir os passos da dança contemporânea. A temporada de balé na cidade começa nesta quinta-feira, com a estréia do grupo americano Momix, no Municipal, seguido, na sexta, pelo 12º Panorama RioArte de Dança, que vai até o dia 9. No fim de semana, Niterói entra na festa, com apresentações de espetáculo sobre o músico Cole Porter, no Teatro Municipal da cidade.
Dirigido pelo coreógrafo e criador Moses Pendleton, o Momix apresenta no Municipal os balés Passion e Super Momix. Com música de Peter Gabriel, Passion trata da paixão de forma geral. Não só humana. É uma fusão do homem com objetos, natureza, animais, minerais, com o celestial. É como uma alucinação da história do mundo, conta ele sobre uma de suas peças favoritas, que tem música egípcia, barroca, oriental, rock e canção da brasileira Daúde no programa.
Já Super Momix é uma compilação do trabalho do grupo, já apresentada por aqui em 1998. Mas essa é uma nova versão, com quatro ou cinco peças que nunca foram vistas pelos brasileiros. O espetáculo é uma boa introdução ao Momix, diz Pendleton. Na oitava passagem da companhia pelo Brasil, o coreógrafo comemora a popularidade de seu trabalho: Nós temos uma boa conexão com o espírito do público brasileiro.
Mas nem só a dança americana invade palcos cariocas. O Panorama RioArte vai apresentar, entre obras de companhias cariocas, mineiras, francesas e de outras nacionalidades e naturalidades, mais de 20 espetáculos no Teatro Carlos Gomes, Espaço Cultural Sérgio Porto e Espaço Sesc.O Panorama é centrado na produção carioca, por isso a presença dos grupos estrangeiros é importante. Não só para o público, mas para que eles saibam que o Brasil produz arte contemporânea de qualidade, diz a curadora Lia Rodrigues.
Um dos destaques do Panorama é o trabalho da alemã Angie Hiesl. Ela vem com seu grupo de Colônia e não traz um espetáculo de dança, mas uma intervenção nos espaços públicos, adianta Alfons Hug, do Instituto Goethe, parceiro do evento. Entre as atrações cariocas, há espetáculos com coreografias de curta duração que serão apresentadas em duas noites no Sérgio Porto. Nesse grupo incluem-se Denise Stutz, Ivana Mena Barreto, Andréa Bergallo, Aluísio Flores, Verúsia Correia, Cláudio Lacerda, Gustavo Barros e Tanz Haus.
E a característica popular do Panorama fica registrada não só pelos ingressos a R$ 2 para qualquer espetáculo, mas também pela participação de grupos de hip hop. Sob curadoria do coreógrafo Bruno Beltrão, do Grupo de Rua de Niterói, eles vão apresentar, sábado, no palco do Carlos Gomes, um pouco da dança que marca o ritmo mais popular da noite carioca.
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7:56 AM
by Cassiano Leonel Drum
Buemba! Lula parece cabra, come tudo!
Buemba! Buemba! Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Direto do Planeta da Piada Pronta! E o novo prefeito de Bogotá é um Lula colombiano. Operário e sindicalista de esquerda. O Lula tá parecendo Os Gremlins, nunca vi se proliferar tanto. E sabe como é o nome do Lula colombiano? Garzón. Garzón? Perfeito pra Fome Zero. Garzón lança o Fome Zero. Quero ver a hora que ele apresentar a conta! Na Bolívia, já temos Vaca e Mesa e, na Colômbia, Garzón. É o Bandejão América Latrina!
E uma amiga minha quer saber se no Fome Zero tem vale-plástica. Porque pra ela cara feia é fome. E tem umas sapatas que pra comemorar o Halloween fizeram uma festa chamada Rala-o-Hímen! Rarará! E um amigo meu diz que vai mudar pra Bagdá: tem arrastão, tem falta dágua, mas não tem ICMS! E sabe porque tem árabe que vira homem-bomba? Porque não pode beber, não pode ver televisão, não pode ver a "Playboy" e ainda tem quatro sogras! BUM!
E eu não disse que o computador do Lula era a churrasqueira? É o MacTocha! Ah, e ontem foi aniversário do Lula! Na idade dele não é mais aniversário, é adversário! E vocês viram quando ele atacou o bolo? O Lula tá parecendo cabra: come tudo que aparece pela frente! Aliás, sabe qual o outro animal que come de tudo? Pobre! É verdade. O professor perguntou pro Chaves: "Qual o animal que come de tudo?". "POBRE!" Rarará! E o Lula ofereceu a primeira fatia do bolo pra Marta. Bolo de botox!
E pegaram no aeroporto um japonês com 440 sapatos só pro pé esquerdo. Então o saci era petista. E olha esta notícia que não é mais novidade: mulher tenta entrar em presídio com celular na vagina. E diz que aí o guarda perguntou: "A senhora está levando o celular na vagina?". "Não, o meu é anal-lógico." Rarará! E diz que a Yoko Ono ficou pelada pela paz mundial. Bomba de efeito imoral! É mole? É mole, mas sobe!
Antitucanês, a Missão! Acabo de receber mais dois exemplos furiosos de antitucanês. É quem em Ribeirão Preto tem o açougue Ex-Touro. E lá em Belém tem uma perfumaria chamada Buraco Cheiroso. Perfumaria Buraco Cheiroso! Viva o antitucanês. Morte ao tucanês. Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. "Incertos": pequenos animais que avoa e pica nóis! Rarará! "Sandices": fã-clube da Sandy! O que não deixa de ser verdade. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. O já famoso Estoura Brasil.
simao@uol.com.br
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7:53 AM
by Cassiano Leonel Drum
Diana Corso
29/10/2003
Homens na cozinha
Homem na cozinha é chef ou gourmet, mulher é cozinheira. Certo? Errado. Quem pensa assim não conheceu minha vó. Ela passava o dia domando uma carne para transformar um músculo em algo que derretia na boca. Tarefa concluída, ficava à mesa totalmente enlevada, alheia a outros acontecimentos que não a trajetória dos talheres e o movimento das travessas para os pratos. O que eles descobriram foi essa forma de prazer: produzir uma satisfação oral nos outros.
No livro Histórias de Cama & Mesa (L&PM), o Anonymus Gourmet (pseudônimo de J. A. Pinheiro Machado) descreve duas formas de desprezo pelo que se ingere: a anorexia e o fast food. Abster-se da comida ou enfiá-la para dentro como um carro que abastece (boa metáfora do autor) são formas infantis de comer, assim como a voracidade e o regurgito dos bebês. São uma espécie de diálogo amoroso com a nutridora, já que todo alimento será visto como extensão dos seios.
Já o preparo demorado e criativo de um prato, que será consumido por pessoas cuja satisfação nos interessa, está na contramão desse funcionamento primitivo. Gourmets raramente são obesos, comer muito é um ato de desespero, não um prazer, é o processo de colocar compulsivamente grandes quantidades para dentro na tentativa de fazer valer o vínculo primordial.
Os homens na cozinha são aqueles que não a tomam como tabu do corpo materno, misteriosa, desejada e proibida a ponto de ser tratada com desprezo e distância, são os que se arriscam pelos territórios femininos. Associa-se a atividade ao masculino e a passividade ao feminino, mas à mesa sempre foi ao contrário, por isso a tradição de fisgar um homem pelo estômago. Relativo à alimentação, as posições tradicionalmente se invertem, ficando as mulheres com ativa e os homens com a passiva. Cozinhar é fazer ativamente o que sofríamos passivamente, quando tínhamos que ficar abrindo a boca para a colher "aviãozinho" que estava sempre querendo pousar.
Ao mesmo tempo, as mulheres também viraram a própria mesa, recusando-se à relação servil com as panelas. Os homens cozinheiros são muitas vezes companheiros de mulheres que abandonaram essa atividade em prol de territórios desafiantes. Elas também foram experimentar a reserva de mercado deles, ousando rivalizar com o próprio pai no trabalho e no estudo. É um festival de identificações cruzadas, em que as mulheres vencem no mundo e os homens, no lar. Depois disso, nada será como antes. Ainda bem.
diana.corso@zerohora.com.br
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7:49 AM
by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
29/10/2003
O salva-vidas
De vez em quando aparece no noticiário algum sortudo que teve sua vida salva por um objeto: uma caneta no bolso, uma moeda, uma calculadora, algo que impediu que um tiro de revólver lhe perfurasse o coração. Pois aconteceu de novo: sábado passado, em Cuiabá, um professor de 52 anos reagiu a um assalto e teve sua vida salva porque, na hora do disparo, a bala acertou o que ele trazia em mãos: um livro. Um livro bem grosso, imagino. Um tijolaço.
Em plena semana em que se inicia a nossa Feira, não posso perder esta chance de fazer uma analogia. Terei coragem de apelar e dizer que os livros salvam a vida de milhares de pessoas todos os dias? Bom, agora já disse.
Piegas ou não, forçado ou não, eu acho mesmo que os livros nos "salvam", de alguma maneira. Salvam a gente de levar uma vida besta, doutrinada pela tevê. Salvam a gente de ficar olhando só pra fora, só para o que acontece na vida dos outros, sem dedicar-se a alguns momentos de introspecção. Salvam a gente de ser preconceituoso. Salvam a gente do desconhecimento, do embrutecimento, do mau humor, da solidão, salvam a gente de escrever errado. Se existe salvador da pátria, não conheço outro.
Quando me refiro a alguém que lê, estou me referindo a alguém que lê bastante, que lê com paixão, que lê compulsivamente. Porque ler dois ou três livros por ano, apesar de estar dentro da média brasileira, está longe de ser aplausível. Vira um programinha excêntrico: "Vou aproveitar que hoje está nevando e ler um livro". Nada disso. Livro salva quem nele se vicia. Salva quem não consegue se saciar. Quem quer saber mais, conhecer mais, se aprofundar mais. É imersão. Mergulho. Salva a gente da secura da vida.
A Feira começa depois de amanhã e estará cheia de livros, inclusive os volumosos. Viver para Contar, a biografia do García Márquez, tem 474 páginas. Os 100 Melhores Contos do Século tem 618. A Montanha Mágica, de Thomas Mann, 986. Se não salvarem espiritualmente ninguém, darão ao menos um bom escudo.
Comentei sobre o cais do porto quarta-feira passada e obtive boas notícias dos diretores da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH). Avisam que a partir de meados do ano que vem os armazéns do Cais Mauá estarão disponíveis para intervenções urbanísticas voltadas para o lazer e a cultura. Me belisquem!
Por fim, vai aqui um alô para as equipes "Chatuba" e "+ na fé do que na sorte" que participam da gincana comemorativa dos 57 anos do Colégio São Judas Tadeu.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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7:45 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
29/10/2003
Uma idéia genial
Não sei se estou sendo precipitado, mas considero luminosa esta idéia do governo federal de implantar crédito bancário para os trabalhadores.
Eu sempre gostei de idéias. Acho que o mundo pode ser salvo somente pelas idéias.
E esta é uma idéia que eu gostaria de ter tido: os trabalhadores de empresas privadas ou públicas terem acesso a empréstimos bancários a juros civilizados (perto dos extorsivos que são cobrados pelo mercado).
Os descontos das mensalidades dos empréstimos sendo feitos na folha de pagamento.
Basta o trabalhador inscrever-se no banco que escolher, mediante o pagamento de uma taxa que vai de R$ 10 a R$ 20.
O banco faz contato com a empresa que emprega o trabalhador, que concede o seu aval para o desconto na folha. E está feito o negócio.
O valor do empréstimo será de R$ 100 a R$ 40 mil. E o prazo do empréstimo fica entre seis e 36 meses.
Atualmente, os bancos estão emprestando dinheiro a taxas que vão até a 8% ao mês.
Pois nesses empréstimos aos assalariados, devido à garantia de que os débitos serão pagos com desconto na folha de pagamento, desaparecendo praticamente o risco de inadimplência, os bancos ficaram atraídos por este novo mercado e consentiram em baixar a taxa para entre 2% e 3,3% ao mês para quem não é filiado à CUT e entre 1,75% e 2,6% para quem for filiado.
A impressão que eu tenho é de que isto vai vender como pão quente.
Só aqui no Rio Grande do Sul, calcula-se, este tipo de empréstimo poderá atingir 2 milhões de trabalhadores.
No Brasil, então, o mercado de empréstimos deverá atingir um número de tomadores inédito, imenso e antes não imaginável para esse tipo de transação.
Eu acho estupenda a idéia porque um dos direitos do cidadão no regime capitalista é o crédito.
Penso até que uma pessoa que não tenha direito ao crédito é um subcidadão, um marginalizado.
Quando é que um trabalhador ia imaginar que poderia entrar num banco e solicitar um empréstimo a um gerente?
Nestes tempos duros de recessão e falta de dinheiro, a quem não atrairá esse empréstimo popular? As pessoas às vezes precisam vitalmente de R$ 600, R$ 1.000, R$ 2 mil para saírem de apertos financeiros.
Trabalhadores de baixos salários poderão obter essas quantias por essa via.
E os que precisam de um dinheiro maior, muitas vezes para construir sua casa ou fazer um puxado na já existente, até mesmo para comprar um carro popular, poderão recorrer a esse empréstimo para solucionarem seu problema.
O aval da empresa a quem serve o trabalhador é a pedra de toque deste sistema. Os bancos com isso deixarão de se intimidar e emprestarão o dinheiro para pessoas que antes nem sonhavam em ter esse crédito por não poderem oferecer garantia.
Por essa razão é que fiquei entusiasmado com essa idéia. Ela deverá contaminar o mercado de crédito brasileiro, obrigando os bancos a diminuírem suas taxas de juros para os empréstimos de outras categorias.
Ou seja, uma idéia que é posta em prática com êxito (os primeiros empréstimos já serão detonados nesses próximos dias) poderá alterar para melhor o mercado financeiro do país.
Tanto que se estima que os bancos vão destinar cerca de R$ 31 bilhões para esses empréstimos.
Não será um sacalão na economia?
Que idéia! O Lula e o PT já perceberam que se trata de um grande achado político, tanto que é o próprio Antonio Palocci que está comandando a ação.
Como o Brasil anda precisando de idéias.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:43 AM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
29/10/2003
A moedinha
A ordem do bruxo foi a seguinte:
- Joga essa moedinha na área do adversário do Grêmio no segundo tempo, que o Grêmio vai ganhar.
O bruxo era ninguém menos do que o Homem dos Cachos, celebérrimo por suas façanhas sobrenaturais na Porto Alegre dos anos 30 e 40. Foi o Homem dos Cachos quem vaticinou a vitória do Grêmio no Campeonato Farroupilha de 1935, vitória arrancada de um Gre-Nal histórico, o maior da carreira do grande Foguinho, o último da vida do insuperável Lara.
O Homem dos Cachos seguiu fazendo trabalhos intermitentes para Grêmio e Inter, até essa partida decisiva de um campeonato dos anos 40, quando foi procurado por gremistas desesperados e lhes passou a moedinha de cruzeiro com a recomendação:
- Joga na área no segundo tempo.
Na hora do jogo, jogo duro, jogo de cara feia e trava afiada. Zero a zero no primeiro tempo. Em meio ao intervalo, um agente do Grêmio se aproxima da grande área, mão no bolso, assobiando. Tira uma mão do bolso e nela está a moedinha enfeitiçada. Prende-a no indicador e, catapultando-a com o polegar, arroja-a nas imediações da marca do pênalti. Recomeça a partida. Lá pelo final, escanteio para o Grêmio. A bola vem alta, ricocheteia na zaga e sobra para um atacante, que, sem vacilar, CABUMBA!, manda um pataço para o gol: 1 a 0. O Grêmio vence a partida.
Horas depois, o Salim Nigri, que foi quem me contou a história, encontrou o atacante e foi cumprimentá-lo pelo gol. O atacante confessou:
- Pois tu sabes que quase não marco aquele gol?!
- Por quê? - quis saber o Salim.
-Na cobrança do escanteio, percebi um brilho na grama, agachei-me para ver o que era e achei uma moedinha. Essa aqui - e mostrou o cruzeiro encantado. - Quando levantei a cabeça, a bola veio na minha direção e aí chutei sem nem pensar. Que coisa.
Que coisa.
Tinha muito poder, o Homem dos Cachos. Será que ainda vive? Será que tem descendentes? Será que um desses não poderia preparar uma moedinha de um real para brilhar na área do Paraná, sábado que vem?
A hora do casamento-empresa
O Professor Juninho, que é um homem da informática e das novas tecnologias, que usa palmtop e fala upgrade, que tem em casa um acendedor elétrico de carvão de churrasco, o Professor Juninho diagnosticou: o problema do casamento está na sua estrutura amadora, apartada da era da globalização. Porque estatísticas provam - o casamento não funciona. A maioria deles estiola à passagem de dois pares de anos. Por várias razões, mas sobretudo por erros de gestão. Falta profissionalismo.
A solução seria implantar o casamento-empresa, modalidade que vem alcançando resultados positivos no Japão e em alguns países nórdicos. Pois o casamento já é uma associação, uma entidade juridicamente composta, firmada em contrato, respaldada por testemunhas. Só que não há organização. Não há método.
Em primeiríssimo lugar, o casamento-empresa extingue em definitivo o amadorismo. Administrações de casais feitas com base na paixão tendem a produzir avaliações incorretas, superestimam expectativas, subestimam contingências de mercado. Agora, se houver racionalidade, os riscos são mínimos. O par deve ser formado mediante análises técnicas da personalidade e das exigências de cada um. Depois, durante a atividade propriamente dita, as obrigações dos parceiros devem ser especificadas: quantidade e intensidade de afagos, número de horas semanais de convívio, duração de cada sessão de sexo. Essas coisas.
Só o casamento-empresa salva o matrimônio. O Professor Juninho está para a relação marido-mulher como o ministro Pelé está para o futebol. Em breve, só os clubes com nome de banco ou de fábrica de salsicha vão existir. Ou siglas: "Hoje, grande decisão entre NBPZ-Celusp-Ambrapa versus Lingüiças Tripão". Serão clubes saudavelmente fundamentados no lucro impessoal, nos números frios dos balancetes, na isenta técnica contábil.
Nada desse amadorismo de torcedores-dirigentes, de clubes vinculados a bairros ou a comunidades, de times favorecidos financeiramente pelos arroubos de algum simpatizante poderoso. Não! A paixão há de ser profissionalizada. A paixão do futebol, a paixão de um homem por uma mulher, qualquer paixão. Os tempos são outros. Abaixo o amadorismo! Viva o ministro Pelé. Viva o Professor Juninho!
david.coimbra@zerohora.com.br
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7:39 AM
by Cassiano Leonel Drum
49º Feira do Livro
Uma madrinha para a Praça da Alfândega
A Feira do Livro de Porto Alegre é a solução temporária para problemas permanentes da área, como sujeira, falta de segurança e infra-estrutura. Mas uma ONG está sendo criada para adotar e manter o charme do local (foto Ricardo Chaves/ZH).
Bom e trabalhar ali ao lado e passar todos os dias por dentro da feira é um privilégio que tenho e que agrego ao meu ganho mensal de novembro de cada ano.
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Terça-feira, Outubro 28, 2003
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10:26 PM
by Cassiano Leonel Drum
E eu!
Que me guardei dentro do meu anoitecer,
Que só queria esquecer,
Que já havia secado, como um lago que altera a sua natureza,
Que já havia estagnado, como um rio que perde a correnteza.
Mas então você chegou
Me trazendo de volta o prazer de fazer amor,
Me tocando...
Roçando... Seduzindo... Se entregando
Me derretendo a cada olhar,
Me fazendo descongelar.
E eu!
Que menti tanto tempo a mim mesma
Que meu corpo só conseguiria viver na frieza
Do iceberg gelado que havia me aprisionado.
Descobri então um vulcão adormecido,
Quente, escondido, ardente e
Inflamei finalmente.
E meu sexo que andava doente
Amanheceu novamente.
Abri as comportas... Me lancei nessas águas.
Liberei a represa de uma vida amargurada
Quis nessa investida... Morrer afogada.
Virei corredeira com a pressa de uma vida inteira
Numa velocidade estonteante,
Desaguando,
Sorrindo e chorando, gritando,
Gemendo e sonhando.
Fui sedenta.
Fui terna e violenta, fui vendaval
Depois fui temporal.
Fui chuva de verão,
No inverno inundação, na primavera gotejei,
No outono num córrego me transformei.
E eu!
Que andei perdida na seca da minha vida,
No deserto do incerto,
Por certo não sabia, que em mim, uma mina existia,
Uma fonte, no final do horizonte.
Que muita água dela ainda brotaria,
Que em mares eu ainda navegaria e
Que em oceanos eu ainda nadaria.
E eu!
Me fiz cachoeira ao primeiro toque seu,
Me transformei em goteira, quando seu corpo foi meu.
Fui córrego sem destino
E naufraguei quando senti
Você partindo.
Me fiz a escrava de um lago insano
Volumoso e profano.
Me fiz a sereia de um mar agitado
Num instante nunca antes imaginado.
E eu!
Que achei que esse dia não mais aconteceria,
Transformei esse momento em ilusão e magia,
Em partida da minha agonia,
Em chegada da minha euforia.
E eu!
Louca, agitada,
Extasiei-me mil vezes nas suas chegadas,
Perdi-me em desejos,
Alucinei-me aos seus beijos.
E eu!
Que despi-me com medos,
Cheia de receios de experimentar pesadelos,
Acabei vivendo sonhos envoltos em molduras
De fogo, paixão e loucuras.
E fiz poesia de mim e
Aconteceu tudo assim
Tudo molhado... Encharcado... Alagado,
Deixando rastros por todos os lados.
E eu!
Que abri minhas torneiras que estiveram fechadas
Uma vida inteira,
Agora vivo do meu passado molhado, nesse rio que criou correntes,
Que procura sua nascente,
Não aceita mais congelar, e seu leito não consegue achar
Flutuo nele a espera de você voltar.
Preciso,
Quero, lhe espero,
Pra de novo desaguar.
Meu mar agora aberto está incerto
Não controla mais a altura das ondas
Não quer mais viver de marolas.
E eu!
Que há tempos vivia a secar,
Que não reconhecia mais o ruído do mar
Procuro o seu balanço novamente.
Eu!
Que agora já aprendi a nadar,
Quero outro maremoto enfrentar.
Silvana Duboc
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10:18 PM
by Cassiano Leonel Drum
Restos de nós dois
Hoje.
Abri aquela caixinha onde guardo nossos segredos.
Fazia tempo que não a visitava...
Por puro medo.
Encontrei lá dentro, restos de nós dois.
Reli suas cartas, aquelas que falavam do seu amor,
Onde você descrevia a sua paixão por mim,
E incendiei por dentro por um momento.
Depois encontrei aquele guardanapo
Que num bar certa vez você
Desenhou um coração
E então...
O coração que bate dentro do meu peito,
Bateu insatisfeito.
Remexi ainda mais na caixinha e achei uma flor.
Aquela rosa
Que você me deu no dia que me disse pela primeira vez,
"Eu te amo"
E descobri que ela secou... Por pura falta de amor.
Depois bem lá no fundo encontrei perdido,
Aquele coração partido que andava pendurado no meu pescoço,
Pensei então na outra metade.
Onde andaria?
Será que ela ainda existia?
Achei também um bilhetinho amassadinho
Que dizia que a vida era ruim sem mim,
Que nada valia a pena no dia que você não me via,
Aí lembrei do seu sorriso quando você me encontrava.
Eu lhe amava!
Revirei-a mais um pouco
E cheia de desgosto achei então aquela oração
Que você fez pra mim naquele nosso momento ruim
E chorei baixinho de tanta dor.
Também achei um bilhetinho pedindo perdão
Por um momento de tensão.
E lembrei que
Lhe dei esse perdão com a maior emoção.
Em seguida achei um papel dobradinho
Com aquela poesia que você fez pra mim
No dia seguinte que nos amamos pela primeira vez.
Aí delirei de prazer por você.
Também estava lá a letra daquela música
Que quando ouvimos um certo dia
Você me disse então que seria a nossa canção.
E eu a cantarolei baixinho por um breve minutinho.
E aí...
Depois de já estar com o rosto inchado de tanto chorar,
Com o coração estraçalhado
Achei aquele e-mail que você me mandou
Falando do fim do nosso amor.
Que tinha acabado.
Que estava tudo terminado.
Poucas linhas... Rápidas palavras.
Como se a nossa história tivesse sido transitória.
Ardi de dor.
Me enterrei na saudade.
Depois tranquei a caixinha e parti pra minha realidade,
Fingindo à todos não viver na agonia.
Mas na verdade, o que eu queria
Era morar dentro daquela caixinha,
Junto com o meu coração que já vive lá.
Afinal
Desde que você me deixou,
Foi o único lugar que ele encontrou pra
Continuar a pulsar.
Silvana Duboc
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8:27 AM
by Cassiano Leonel Drum
Personagem que ajuda a vender mais
Empresas fidelizam o público infantil usando animais ou crianças para criar identificação
Silvana Caminiti
A criação de um personagem para ajudar na divulgação de um produto pode ser fundamental para que a comercialização alcance os índices desejados. Os personagens infantis, em geral representados por crianças ou animais, são os que mais ajudam a alavancar a venda, pois esse tipo de público acaba se identificando com o personagem, com sua estória.
Um bom exemplo disso é o Boti, um simpático boto da Amazônia que empresta o nome à linha de produtos infantis da rede de lojas Boticário, não só chama a atenção do público mirim, como também agrada aos adultos, por representar todo um conceito ligado à preservação da natureza.
A linha infantil existe há 10 anos. Porém, agora a rede resolveu revitalizar e relançar a marca. As embalagens estão mais modernas, coloridas e lúdicas. Foram criados ainda um novo logotipo e novas ilustrações, com cores mais vibrantes. Já o Boti, ganhou uma aparência mais infantil. Os olhos alertas deixam o personagem com um aspecto mais vivo, bem-humorado e simpático, uma figura que vai encantar a garotada de três a sete anos, conta Vera Cristina Moitinho, promotora de vendas da Boticário do Shopping Rio Sul.
Ela explica que outra novidade é que os animais amigos do Boti agora aparecem nas embalagens entrelaçados com ele, numa associação de formas que se complementam e sugerem a unidade do ecossistema e a necessidade da preservação de todos para o equilíbrio da natureza.
Dentro do projeto de relançamento, a rede criou o Clube dos Amigos do Boti, que será formado pelas crianças que usam os produtos. Para participar do Clube, é preciso apenas enviar uma cartinha para o SAC, com os dados pessoais e uma embalagem de qualquer produto da linha Botisonagem, completa Dulce.
Boticário: 0800-413011, http://www.boticario.com.br
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8:24 AM
by Cassiano Leonel Drum
Buemba! Benedita devolve o Pitanga!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E a companheirada tá viajando tanto que o PT mudou de nome pra PTA, Partido dos Trabalhadores Aéreos. E como me disse aquele leitor: se Deus é brasileiro, por que a Benedita foi rezar na Argentina? E parem de implicar com a Benedita: ela vai ter que devolver as passagens, vai ter que devolver o terreno, daqui a pouco vai acabar tendo que devolver o Pitanga. Rarará. Que sacanagem!
E diz que a única novidade na novela "Celebridade" é que o Marcos Palmeira NÃO faz papel de pescador. E sabe como se chama aquele bispo que tá brigando com o Chávez da Venezuela? Baltazar Porras. Bispo Porras. E vamos parar com essa briga, porras! Rarará. É mole? É mole, mas sobe!
Bombando em Bagdá! Saddam vira DJ e bomba Bagdá. Como estão as noites em Bagdá? Bombando! E sabe por que o Bush tem mania de guerra? Porque ele levou bomba na escola. E o Hotel Rachid depois das bombas virou hotel Rachado! E eu sei onde está o Saddam: raspou o bigode, cortou o quibe fora e está dando aula de dança do ventre em Paris. Cortou o quibe fora e soltou a esfirra!
E essa notícia que saiu na capa do UOL: "Brinquedo que solta pum causa alerta de segurança em aeroporto dos EUA!". É que um menino ia viajar com um novo brinquedo: cachorro de pelúcia que solta pum. Altamente explosivo. É uma nova arma química: PUM DE PELÚCIA! E já imaginou se o Brasil lança um novo brinquedo: boneca Eliana que solta pum! Pum de porcelana. E arma química é Fanta Uva com quibe e depois soltar pum no elevador. E como disse o outro: arma química é a minha sogra depois que comeu repolho com batata doce!
E o Rumsfeld disse que os Estados Unidos precisam lançar um "ataque ideológico" ao terror. Ideológico? Fácil. Lança o BAGDONALDS! E mais 30 Cinemax e o seriado "Friends". Que em árabe vai se chamar "Brimos"!
Antitucanês, a Missão! Acabo de receber mais dois exemplos irados de antitucanês. É que na rodovia Dom Pedro Campinas-Mogi Mirim tem o Motel Anonimato. E em Pirajuí tem a Padaria do Padeiro. Esse mais direto impossível. E tem um outro antitucanês: Rio libera o nudismo na praia de Abricó! Rarará. Viva o antitucanês. Morte ao tucanês. Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio. "Estado de coma": companheiro preparado pra atacar o churrasco da Granja do Torto. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. UFA!
simao@uol.com.br
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8:22 AM
by Cassiano Leonel Drum
Luís Augusto Fischer
28/10/2003
Júlio de Castilhos e a vanguarda
Nestes dias, enquanto um seminário de alto nível discute a herança de Júlio de Castilhos, o principal líder da implantação da República entre nós, iniciativas de porte variado recolocam em cena temas de vanguarda. Estão aí o debate proposto por Donaldo Schüler, a partir de um manifesto chamado "Transverso", e a magnífica Bienal do Mercosul, atestando em proporções distintas a vigência da inquietação criadora. Também entra em circulação uma nova e interessante tradução de Baudelaire, feita por Juremir Machado da Silva (editora Sulina), com o expresso propósito de "reescandalizar" o poeta francês.
Se dependesse de mim, a arte de vanguarda morreria de fome, e não por preconceito, mas por uma combinação de grande incapacidade para tratar de coisas muito subidas e maior ainda inapetência para com gritaria, qualquer que seja. O caso pessoal não seria relevante para nada, de acordo; mas acontece que o Estado todo nunca foi muito pródigo em acolhimento às atitudes de vanguarda. Nem o Modernismo heróico floresceu muito aqui, nem o Concretismo; o grupo Quixote, na virada dos anos 40 para os 50, cheio de boas intenções e dispondo de algumas das melhores inteligências da geração, não alcançou vida mais significativa. Por quê?
A resposta cabe num paradoxo: Júlio de Castilhos foi vanguardista no plano da política brasileira (a implementação de um sistema público de ensino bastante efetivo, por exemplo), mas foi conservador em tudo o mais. Também na política o Rio Grande produziu, na esteira do mesmo Júlio, um político como Getúlio Vargas, conservador e mesmo autoritário, mas capaz de implementar um projeto republicano certamente modernizador, senão mesmo vanguardista, em certa proporção. Getúlio era o que de mais significativo o Rio Grande podia oferecer como projeto de conjunto para o Brasil: uma idéia de Estado, de organização política.
Quando Getúlio foi deposto, em 45, o principal da arte produzida entre nós não apenas fugiu aos encantos da vanguarda como se deixou levar por uma inflexão de certa forma regressiva, que se voltou para o passado e para o local, como se naquele momento fosse necessário reperguntar pelas origens, para avaliar tudo. Desse movimento saem o Tradicionalismo (começo em 1947) e O Tempo e o Vento (primeiro volume em 1949); nesse movimento ainda estamos encantados.
fischer@zerohora.com.br
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8:21 AM
by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
28/10/2003
Minha luta com a espada
O ritual de entrada na Academia Brasileira de Letras é complexo e inclui a entrega (simbólica) de uma espada ao novo membro. O que espada tem exatamente a ver com letras não está bem claro, mas segundo dona Carmen, secretária da ABL, em pelo menos uma ocasião a arma revelou-se útil. Aconteceu com o acadêmico Antônio da Silva Melo, que aliás era médico famoso e escritor. Ele teve sua casa invadida por um assaltante; com a espada, que por coincidência estava com ele, pôs o homem a correr. Na hora da posse não havia nenhum assaltante por perto, de modo que, quando recebi a espada, criou-se um pequeno problema: o que eu deveria fazer com ela?
O presidente da ABL apontou para uma pequena alça que havia no fardão e que até aquele momento me intrigara; descobri então que servia exatamente para isso, para ali enfiar a espada, aliás muito bonita. Feito o que, eu deveria sentar, mas aí nova dificuldade: a espada atrapalhava. Para caminhar, também. Ou seja: como espadachim, me revelei um fracasso. Mas tenho uma esperança: no novo filme do Quentin Tarantino, Kill Bill, a bela Uma Thurman liquida dezenas de bandidos a golpes de espada. Quem sabe ela me dá umas aulas particulares?
A propósito de livros: o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, está anunciando um projeto original, a Arca das Letras, cujo objetivo é levar a leitura a pessoas que a ela não têm acesso habitual: assentados da reforma agrária, remanescentes de quilombos, agricultores em geral. O instrumento desse programa é a arca, uma caixa com livros que, mediante engenhoso desenho, se transforma em estante. Agora, observem o detalhe: a matéria-prima para isso é a madeira apreendida pelo Ibama, madeira essa que não é pouca, num país em que a derrubada clandestina de árvores é a regra.
Quem trabalha a madeira para fabricar as caixas são presidiários. Ou seja: a transgressão resulta em utilidade. A arca fica aos cuidados de um agente de leitura, um voluntário que organiza e empresta as obras do acervo, mantido em sua casa ou num espaço comunitário.
Na Arca de Noé, diz a Bíblia, as criaturas vivas salvaram-se daquela gigantesca catástrofe que foi o dilúvio universal. A Arca da Leitura é mais modesta. Mas nem por isso menos importante.
scliar@zerohora.com.br
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8:18 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
28/10/2003
Verão de quatro meses
Já é um bom começo que as escolas privadas tenham conscienciosamente atendido ao apelo dos prefeitos do Litoral e estendido as férias dos alunos até 25 de fevereiro.
Teremos assim um período maior de férias. O que estava acontecendo era um despropósito: algumas escolas mostravam já a perigosa tendência de antecipar as aulas para o início de fevereiro, com o que atividades do veraneio já estavam sendo reduzidas para apenas 30 dias.
Um absurdo, quando se sabe da importância da economia dos municípios litorâneos, agredida vitalmente por essa imprevisão, além de infernizar a vida de todo mundo, até mesmo dos adultos que não estudam e eram obrigados a tirar férias somente em janeiro, o que se sabe não ser possível nem nas empresas privadas nem no serviço público.
Não é possível toda a sociedade entrar em férias num mês só. E era essa encrenca monumental que estava se criando entre nós.
Eu sempre preguei - e um dia ainda verei este sonho realizado - que haja um acordo entre o Ministério da Educação, a SEC e as escolas privadas, mediante o qual haveria um revezamento das férias nos estabelecimentos de ensino.
Uns dariam férias em dezembro e janeiro, outros em fevereiro e março. Teríamos assim um período efervescente de veraneio que compreenderia quatro meses.
Com as praias lotadas, os empregos temporários se tornando menos temporários, o comércio e os serviços dos municípios litorâneos em plena e intensa atividade.
É que não adianta a gente reagir, mas o que comanda a freqüência dos veranistas ao Litoral - e à Serra - são as aulas.
Se é assim, quanto mais largo for o período de férias, melhor para todos, tanto veranistas quanto as milhares de pessoas que dependem economicamente deles nas cidades com praias.
É de uma burrice colossal o desaproveitamento dos meses de dezembro e de março nas nossas praias, com as pessoas que são proprietárias das casas de veraneio - ou que as alugam - impedidas de se dirigirem para as praias por força das aulas de seus filhos ou familiares.
Dezembro e março são os melhores meses de veraneio. Exatamente por não compreenderem a estação das chuvas: janeiro e fevereiro.
Não tem explicação que exatamente os dois meses de sol mais intenso sejam assim desperdiçados pela insânia de não se concederem férias aos alunos em dezembro e março.
Se as escolas se revezassem nos meses de férias, umas concedendo férias aos alunos em dezembro e janeiro, outras em fevereiro e março, já imaginaram a revolução econômica e social que haveria entre nós?
Teríamos o verão inteiramente aproveitado pelos veranistas, sem aquela ameaça que sempre paira sobre a cabeça deles: de que em janeiro ou em fevereiro a temporada seja estragada pelo mau tempo.
E veríamos a economia dos municípios do Litoral crescer extraordinariamente pelo alargamento do veraneio para quatro meses, com milhares de empregos sendo criados com a extensa temporada.
Este fato incrível de imprevisão governamental que reduz o veraneio para dois meses - e estava estupidamente reduzindo para um só - é um exemplo de que, antes da falta de cultura, o Brasil deixa de ser desenvolvido pela falta de inteligência.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:16 AM
by Cassiano Leonel Drum
Estados Unidos
Fogo devasta sul da Califórnia
Incêndios que castigam o Estado americano desde a semana passada já destruíram cerca de 800 casas e mataram pelo menos 13 pessoas (foto Lenny Ignelzi, AP/ZH)
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Segunda-feira, Outubro 27, 2003
Posted
5:42 PM
by Cassiano Leonel Drum
VIVA FOREVER
Spice Girls
Do you still remember
Você ainda se lembra
How we used to be
Como costumávamos ser
Feelin' together
Nos sentindo juntos
Believin' whatever
Acreditando em qualquer coisa
My love has said to me
Que o meu amor dizia para mim
Both of us were dreamers
Nós dois éramos sonhadores
Young love in the sun
Amor jovem ao sol
Felt like my saviour
Você parecia ser o meu salvador
My spirit I gave you
Eu te dei meu espírito
We'd only just begun
Nós apenas tínhamos começado
Hasta mañana, always be mine
Até amanhã, seja sempre meu
Viva forever
Viva pra sempre
I'll be waiting
Estarei esperando
Everlasting, like the sun
Para sempre, como o sol
Live forever
Viva pra sempre
For the moment
Até o momento
Ever searching
Sempre buscando
For the one
Por aquele alguém
Yes I still remember
Sim, ainda me lembro
Every whispered word
Cada palavra sussurrada
The toch of your skin
O toque de sua pele
Givin' life from within
Oferecendo a vida lá dentro
Like a love song
Como uma canção de amor
Never heard
Nunca ouvida
Slipping through
Escorrendo por entre
Our fingers
Nossos dedos
Like the sands of time
Como as areias do tempo
Promises made,
Promessas feitas,
Every memory saved
Cada memória guardada
As reflections in my mind
Como reflexos na minha mente
Hasta mañana, always be mine
Até amanhã, seja sempre meu
Viva forever
Viva pra sempre
I'll be waiting
Estarei esperando
Everlasting, like the sun
Para sempre, como o sol
Live forever
Viva pra sempre
For the moment
Até o momento
Ever searching
Sempre buscando
For the one
Por aquele alguém
Back where I belong now
De volta ao meu lugar agora
Was it just a dream
Será que foi só um sonho?
Feelings unfold
Sentimentos escondidos
They will never be sold
Nunca serão revelados
And the secret's safe with me
E o segredo estará a salvo comigo
Hasta mañana, always be mine
Até amanhã, seja sempre meu
Viva forever
Viva pra sempre
I'll be waiting
Estarei esperando
Everlasting, like the sun
Para sempre, como o sol
Live forever
Viva pra sempre
For the moment
Até o momento
Ever searching
Sempre buscando
For the one
Por aquele alguém...
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8:10 AM
by Cassiano Leonel Drum
Buemba! Lula lança Coca-Cola Família!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional! Direto da República da Língua Plesa! E diz que depois do Bolsa-Família só falta o Lula relançar a Coca-Cola Família! Diz que foi idéia do Itamar: relança a Coca-Cola Família! E sabe qual é o novo apelido do secretário de segurança nacional, que nomeou a mulher e a ex-mulher? Seu Flor e suas duas mulheres. Rarará!
E vamos apelar para Portugal. Olha o anúncio de uma prostituta portuguesa: não sou bela como a Cindy, não sou boa como a Sharon, não tenho o charme da Barbie, mas a lamber sou melhor que a Lassie!
E todo mundo sabe que fila em Portugal se chama bicha, pois não é que um bufê por quilo botou a placa: "Põe-te na bicha". E diz que o Rio continua colorido: o mar é azul, a governadora é rosinha, o comando é vermelho e a situação tá preta. E diz que carioca nem liga mais pra bala perdida, entra por um ouvido e sai pelo outro! É mole? É mole, mas sobe!
E a Mostra Internacional de Cinema continua exibindo filme do Sri Lanka falado em bengali e com legenda em curdo. Só falta aparecer o Lula com legenda em churrasquês! Aliás, diz que o Lula agora tá passando e-mail pela churrasqueira! E o ruim da Mostra é que você tem que assistir ao filme pensando no que vai falar depois na saída. Pra não passar por burro! E você sabe que a crise tá braba quando sai da Mostra e pergunta pro pipoqueiro: "Como é que tá o movimento da pipoca?". A PIPOCA TÁ PARADA! Nem a pipoca pula mais! E o pipoqueiro tá pedindo pro Lula lançar o Saco-Família. Pra esperar o espetáculo do crescimento!
Terror News! Agora apareceu mais um vídeo do terror. Só que com o primo do Bin Laden, de Pelotas: o MIN RABEN! E olha essa notícia: países árabes fazem suas primeiras doações ao Iraque. Deve ser tudo a brestação! E eu sei onde tá o Bin Laden: embaixo de uma pedra, dentro de uma gruta, ao sul de Candahar, no terceiro desfiladeiro à esquerda.
Antitucanês, a Missão! Acabo de receber mais dois exemplos furiosos de antitucanês. É que lá na Bahia abriram um clube pra aposentados chamado Clube da Espada Preguiçosa. E em Belo Horizonte tem um açougue chamado Um Boi a Menos! Mais direto impossível! Viva o antitucanês! Morte ao tucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. "Cretino": companheiro que nasceu em Creta. "Açaí": grito de guerra do churrasco da Granja do Torto, AÇAÍ! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. O já famoso Estoura Brasil!
simao@uol.com.br
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8:04 AM
by Cassiano Leonel Drum
Quero ser formal
Experiência de trabalho nas empresas muda a vida dos jovens de baixa renda
Leila Souza Lima
Basta ouvir os jovens para saber o efeito positivo que o trabalho formal provoca em suas vidas. Independentemente do tempo que a experiência dure, as transformações são visíveis. Mudam as expectativas de vida, a relação com a família e o mundo. Tudo isso é relatado no livro Adolescência e Trabalho (Summus Editorial), do professor João César de Freitas Fonseca, mestre em Psicologia Social e pró-reitor adjunto de Recursos Humanos da Universidade Federal de Minas Gerais. A pesquisa, que levou sete anos, tomou como base o programa Ação Jovem da UFMG, que promove inserção de adolescentes em situação de risco social, e que vai completar 30 anos.
Resolvi ouvi-los para saber o que eles apreenderam dessas experiências e legitimar esses depoimentos como elemento importante no programa¿, explica Fonseca. A abordagem fez do livro, que é bem científico, leitura útil a empresas e instituições que idealizam projetos de formação profissional. Estimuladas pela filosofia do programa Primeiro Emprego do Governo, companhias resolveram apostar na inclusão e abrir os quadros a adolescentes. Mas, para se obter resultado, é necessário avaliar os impactos que o ambiente formal de trabalho exerce na vida das pessoas, para então definir a metodologia.
Jovens buscam identidade, projeto futuro e conforto
Fonseca é defensor de que, pelo menos uma vez na vida, o trabalhador passe por uma empresa e saiba como as relações se dão internamente. Há muitos projetos que visam a inclusão, como os de empreendedorismo. Mas o ingresso no mercado é importante para a formação da identidade, principalmente quando há a presença da universidade, afirma o acadêmico.
Com o cuidado de preservar os nomes, Fonseca verificou as transformações psicossociais. Muitos meninos chegam às empresas parceiras do programa sem planos para o futuro. Com a continuidade, formulam um projeto de vida e passam a se reconhecer como cidadãos. Muda tudo. A concepção em relação à violência é uma dos aspectos. Se começam a conviver com regras e instruções normativas, eles passam a compreender seus direitos e deveres e que não precisam recorrer à violência como forma de expressão. E isso só se dá através do trabalho, destaca Fonseca.
Outro ponto inevitável é que o adolescente tende a substituir figuras familiares por alguém que ele elege no trabalho. É natural, todo mundo faz isso, ressalta o professor. A transferência é mais evidente em casos de jovens com o núcleo familiar desestruturado. Ele destaca que é melhor respeitar e admirar um colega de trabalho do que o dono da boca de fumo da comunidade. Mas é preciso condução nesse processo, ressalta Fonseca: Não pode paternalizar. O jovem deve saber que está sendo preparado para um mundo de desemprego.
Antonia Teixeira, 17 anos, atendida pelo projeto Espaço Social Gente Feliz da Sociedade Brasileira de Educação (SBE), em Botafogo, confirma essa tese. Aqui na instituição, sinto como se estivesse em casa. Jovem é complicado, todo mundo fala isso. Mas os professores são atenciosos. É como se fosse uma família, descreve a jovem.
O projeto da SBE segue o método comum a quase todos os programas: além de oferecer cursos e atividades culturais, a instituição encaminha jovens às empresas para que eles convivam no ambiente formal de trabalho. Quase todos são de comunidades vizinhas e, invariavelmente, pobres. Muitos acabam contratados.
É o caso de Bruno Pereira Benevolo, 17, que vai voltar para a papelaria em que estagiou. Após passar pelo Ponto Frio, Rafael Correia Pesqueira, 20, decidiu que vai ser arquiteto ou administrador. Mas só poderei fazer a faculdade, se conseguir um emprego. É isso aí, diz sorrindo o rapaz.
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8:01 AM
by Cassiano Leonel Drum
José Pedro Goulart
27/10/2003
A surra que Dóris levou
Novela quando acaba é assunto velho. Mesmo assim, diante da relevância do tema, recupero algo que vi no último capítulo de Mulheres Apaixonadas. E o que vi? Eu vi o pai da Dóris enchendo a Dóris de porrada e depois exibindo a Dóris em público, toda marcada, lanhada, rasgada e chorando, num saguão de hotel. Declarou o pai da Dóris, bem alto para que todos que olhavam para ele e para a Dóris ouvissem com clareza, que ela (a Dóris) "era fruto de uma criação equivocada". Ou seja, a sova era procedimento tardio mas agora vinha resolver o assunto.
Disse-me, quem assistiu à novela, que a Dóris mereceu. Que ela não valia uma fralda usada. Que ela passou todo tempo maltratando os avós velhinhos e sendo ruim. Ainda assim, o pai só tomou a drástica atitude quando suspeitou que a filha havia se transformado em uma garota de programa, o que, aliás, ajuda a explicar a gênese moral da novela. Depois da surra, a Dóris apareceu com os vovozinhos muito querida, muito simpática, sugerindo que a pancadaria já não era sem tempo.
Isso foi o que vi. Eu e mais 70 milhões de brasileiros. Muitos desses brasileiros só têm a televisão como instrumento de informação. Ou porque são pobres ou incultos ou preguiçosos ou tudo isso. O fato é que diante dessas pessoas pareceu ficar comprovada a tese de que cachorro comedor de ovelha só matando. Ou, mais vale uma cinta grossa do que qualquer conversa mole. Ou, pau que nasce torto só morre torto se não for desentortado a pau.
Tantos são os capítulos de uma novela que a raiva acumulada contra um personagem mau é imensa. A punição, quando vem nos últimos momentos (os finais de novela são sempre moralistas), procura compensar esse ódio que o espectador foi alimentando com o tempo. De modo que a cena da surra, levada ao cabo de muita expectativa, provocou um sentimento grande de alívio. Mas junto desse alívio também veio algo de euforia, de vingança. Tudo isso torna a questão ainda mais delicada. Ao sugerir a pancada como o único corretivo possível do caráter maldoso de Dóris (por sua vez, fruto de uma "criação frouxa" ), a novela abriu uma perigosa fresta para que se imagine a violência como recurso pedagógico.
Amanhã, a partir das 19h, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country, estarei autografando um livro que é resultado das crônicas publicadas nesse espaço: Confissões de um Comedor de Xis. Apareça.
jose.pedro@zerohora.com.br
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7:57 AM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
27/10/2003
Marx tinha razão
Fico cada vez mais marxista. Acho que há uma frase do Groucho Marx adaptável a qualquer situação. Lula fez mal em não lembrar a mais famosa delas, ao tomar posse. Groucho disse que se recusava a ser sócio de um clube que aceitava gente como ele. Lula deveria ter desconfiado do fato do clube aceitar sua eleição: ou o clube pretendia mudar ou esperava que ele mudasse. Lula mudou para poder freqüentar o clube, o clube ainda não mudou muito. Tudo porque Lula não leu o seu Marx adequadamente. O fato de não ter sido barrado já deveria tê-lo alertado de que o clube não era para gente como ele.
Outra frase de Groucho se adapta à situação econômica. Groucho como médico, olhando seu relógio e tirando o pulso de um paciente: "Ou este homem está morto, ou o meu relógio parou". O grande debate sobre economias em subdesenvolvimento na América Latina, 20 anos depois que a doutrina de segurança continental dos generais neopaleolíticos foi substituída pela doutrina neoliberal dos economistas neoclássicos, é mais ou menos o mesmo:
foi a doutrina que não funcionou no continente, onde em 20 anos a desigualdade só aumentou, ou foi o continente que decepcionou uma doutrina perfeitamente aceitável, tanto que, no Brasil, ela continua em vigor? Aqui, o clube resolveu o debate de maneira original ao manter o modelo liberal: reconheceram que o paciente está morrendo e, para reanimá-lo, dão corda no relógio.
Também há marxismos para a atualidade internacional. Groucho como general, cercado por generais, diante de um mapa de campanha: "Uma criança de três anos entenderia isto". E depois de uma pausa: "Chamem uma criança de três anos, rápido". Uma criança de três anos teria dito ao Bush que a invasão do Iraque daria nesse atoladouro.
Faltou uma criança de três anos entre os seus conselheiros neoconservadores e neofalcões. O secretário de Defesa Rumsfeld finalmente entendeu isto e o seu memorando interno para o Pentágono é, em resumo, um apelo tardio pela criança de três anos. Tudo porque as pessoas não lêem Marx, ou lêem o Marx errado.
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7:55 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
27/10/2003
Inflação maquiada
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, gabou-se no sábado: "Vencemos a inflação".
Já para a população brasileira não há motivos para tal júbilo: os últimos 12 meses até setembro revelaram um aumento de 20,19% nas tarifas de água, luz, telefone, gás etc, enquanto a inflação no mesmo período foi de 15,14%.
Parece que não é nada, mas o trabalhador brasileiro gasta com essas tarifas, acrescidas do transporte, 30% dos seus ganhos.
Enquanto isso, para a inflação deste ano, até outubro, medida pelo IPCA em 8,05%, os preços dos remédios mais vendidos subiram em alguns casos até mais de 30%.
O Melhoral, por exemplo, subiu 34,4% nos últimos 10 meses, enquanto a Aspirina teve um aumento de 33,7%.
Ou seja, alguns medicamentos subiram até quatro vezes mais que a inflação.
Isto é injustificável e se constitui num saque, num assalto à economia popular.
Então estes índices de inflação que se publicam, dos quais o governo se gaba, nada têm a ver com o impacto dos preços nos bolsos dos usuários e consumidores.
Cada vez que o preço da água e do esgoto sobe em 30% ao ano, decai miseravelmente o poder de compra da população.
E todas as tarifas públicas compulsórias sobem acima da inflação, roendo destemidamente o orçamento das pessoas e miserabilizando os trabalhadores e funcionários públicos.
Para mal dos pecados, a renda do trabalhador brasileiro diminuiu em 14,6% no último ano.
Pressionadas pelos custos, as empresas demitem funcionários, quando os readmitem o fazem por salários inferiores ou contratam serviços terceirizados.
Ou os salários desaparecem pelo desemprego ou se vêem diminuídos no reemprego.
Por trás desse garbo do ministro da Fazenda ao anunciar que a inflação foi domada, há a dura realidade do aumento de preços nas tarifas e até mesmo nos supermercados.
Por um lado haverá uma comemoração de que a inflação em 2003 ficará contida em 9%, mas tão logo dobre o ano, doerá fundo no bolso dos consumidores o aumento das tarifas de água, gás, luz, telefone e transporte reajustadas em níveis muito superiores a essa taxa de inflação, o que ao cabo de cinco, seis anos, empobrece completamente as pessoas assalariadas e os aposentados.
A dura realidade é de que estamos virando outra Argentina: cada vez mais aumenta o desemprego. Só este ano 1 milhão de pessoas vão ter perdido seus empregos no Brasil, o que aumenta a exigência para o governo: se prometeu criar 10 milhões de empregos, a partir de janeiro terão de ser 11 milhões. Alguém acredita nisso?
Pode ter pior notícia?
Que tristeza, foi interrompida a série de cinco jogos invictos do Grêmio com a derrota lastimável para o Flamengo no Maracanã.
Agora o Grêmio fica com a obrigação de ganhar todos os seus quatro jogos no Olímpico, se quiser escapar do rebaixamento.
Não termina nunca esta aflição.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:52 AM
by Cassiano Leonel Drum
ZH Comunidade
Solidariedade internacional
Programas de intercâmbio têm trazido ao Estado jovens estrangeiros como a antropóloga inglesa Jane Reichardt (com uma criança na Vila dos Papeleiros, na Capital) para praticar ações voluntárias (foto Genaro Joner/ZH
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