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E N T R E L A Ç O S

Sábado, Março 06, 2004




Martha Medeiros
07/03/2004


Um dia como os outros

Somos quase todas guerreiras, quase todas românticas, quase todas insuportáveis e maravilhosas

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher, e me sinto obrigada a escrever sobre nós mesmas, nós que não somos vítimas de nada, e sim donas do nosso destino, nós que nos embrutecemos diante da vida, às vezes até falando com voz grossa e fazendo gestos rudes, temendo que nossa feminilidade passe por fraqueza.

Nós que abrimos a boca mais do que devíamos, o que por um lado é bom, pois não trancafiamos nossas angústias, e que por outro lado é ruim, porque falamos demais não apenas sobre nós, mas sobre os outros também, expandindo a corrente da fofoca, tão sem utilidade.

Nós que nos preocupamos muito com nossos cabelos e com nossa pele, nós que gostamos de estar bonitas e de cultivar um estilo, mas que não somos apenas isso, manequins de vitrine. Colocaríamos todo nosso guarda-roupa no lixo em troca de saúde eterna para nossos filhos, nunca mais usaríamos maquiagem se isso assegurasse que eles fossem felizes para sempre, nós que conhecemos o amor gerado dentro e expelido pelo parto, a coisa mais intensa, instintiva e selvagem que há.

O que mais dizer sobre nós? Sofremos alterações hormonais que nos dão múltipla personalidade e enlouquecem os que convivem conosco, somos rápidas demais nas tomadas de decisões e meio lentas no trânsito. Somos quase todas guerreiras, quase todas românticas, quase todas insuportáveis e maravilhosas. E as que não são nada disso têm seus próprios defeitos e qualidades em seu catálogo particular. Somos quase todas excêntricas.

Eu, como boa parte das mulheres que conheço, não me comovo com o "nosso dia", não acho que basta nascer do sexo feminino para ser merecedora de rosas e descontos em restaurantes, uma mulher faz por merecer suas vitórias a cada 24 horas, e faz por merecer suas derrotas também. Por isso, me abstenho de reprisar a ladainha anual de que precisamos nos virar do avesso para dar conta de tudo, de que somos obrigadas a ser enérgicas e meigas ao mesmo tempo, e que tudo isso dá um trabalho danado. Dá, é verdade. Mas nada de colaborar para que amanhã seja o Dia Internacional das Lamúrias.

Amanhã é apenas mais uma segunda-feira onde encontrarei várias da minha espécie no supermercado, umas com pressa, outras com dor-de-cotovelo, umas com a agenda cheia, outras com a cabeça cheia, umas felizes, outras infelizes, umas pensando em pedir demissão, outras pensando no que fazer com o marido, algumas apaixonadas, outras solitárias, quase todas com a grana curta, quase todas com medo de que uma única vida não seja suficiente para fazer tudo o que elas ainda sonham, quase todas com as emoções em desordem, absolutamente todas malucas e divertidas e muito, muito ocupadas para dar atenção a datas que infelizmente não mudam nada.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Volume baixo

Músicas velhas, romances truncados, muitos diálogos tudo contribui para que a trilha sonora de Celebridade
não venda como deveria


Sérgio Martins

Fotos divulgação



Casal: Maria Clara e Fernando Tema: Ruby, de Ray Charles
Por que a música não emplacou: ela é antiga, e faltou química entre o par romântico

Um problema atormenta a direção de Celebridade, da Rede Globo: como ampliar as vendagens de sua trilha sonora. O CD da novela foi lançado em outubro. Até agora, 420.000 cópias dele saíram das lojas. É um número pálido se comparado ao de sua antecessora, Mulheres Apaixonadas (veja quadro). Até mesmo Malhação tem se mostrado mais eficiente na tarefa de criar sucessos musicais. Com ibope médio de 33 pontos, contra 45 de Celebridade, o seriado adolescente já promoveu a vendagem de 700.000 discos em sua atual temporada. Temas musicais mal escolhidos, romances truncados e a falta de cenas que explorem a emoção das canções são os motivos que explicam por que a trilha de Celebridade não decola.

A trilha de Celebridade vendeu até agora 420 000 CDs.

A trilha de sua antecessora no horário das 8, Mulheres Apaixonadas, vendeu 1,5 milhão de CDs

Frutos de uma parceria entre a Rede Globo e a gravadora Som Livre, as trilhas de novela têm no produtor musical Mariozinho Rocha o seu principal arquiteto. Mas os autores dão sugestões. Gilberto Braga, o roteirista de Celebridade, sempre teve bom tino para essa tarefa. A trilha de Dancin' Days (1978), por exemplo, lançou vários hinos da era das discotecas no Brasil. No caso de Celebridade, contudo, Braga insistiu em usar músicas antigas que não empolgaram. A trilha está cheia de canções do tempo do Onça e artistas do tempo do Onça, como Ray Charles e Rita Lee. Permitiu-se ainda que integrantes do elenco escolhessem seus próprios temas. Cláudia Abreu votou em Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, e Malu Mader sugeriu Enquanto Houver Sol, dos Titãs (banda de seu maridão, Tony Bellotto, mas deve ser apenas uma coincidência).



Casal: Darlene e Wladimir
Tema: Amor e Sexo, de Rita Lee
Por que a música não emplacou: o namoro entre os dois foi interrompido, e Darlene está descambando para o mal

Do ponto de vista dos músicos, uma novela é um gigantesco videoclipe. Tudo o que eles querem são longos beijos, flash-backs intermináveis e personagens que passeiam na praia para meditar, enquanto as suas canções tocam ao fundo. Falta esse tipo de cena em Celebridade. Os principais romances da história ou padecem de pouca química entre os seus protagonistas, ou foram abortados por Gilberto Braga, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Além disso, para quem trabalha com trilhas sonoras, um roteirista prolífico demais pode atrapalhar. As novelas de Manoel Carlos ou Benedito Ruy Barbosa costumam ter grandes seqüências só de imagens e música. Em 1996, uma canção de Zé Ramalho chegou a tocar inteira num capítulo de O Rei do Gado. Gilberto Braga, pelo contrário, não poupa diálogos e deixa pouco espaço para o fundo musical.

Celebridade deve sofrer mudanças que talvez ajudem a vender discos. A metamorfose mais importante será a de Maria Clara (Malu Mader). Ela vai mergulhar na pobreza e, para dar a volta por cima, se transformará numa espécie de Dona Jura (a pagodeira da novela O Clone) e abrirá uma gafieira no Andaraí. Isso não vai impulsionar a trilha sonora atual, mas o CD Celebridade Samba já está no forno. Chega ao mercado no mês que vem.

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Lições do Haiti

Uma delas alerta contra a moda dos "golpes legais"; outra desnuda o mito da revolução

No século XIX, os senhores do Brasil nem podiam ouvir falar no Haiti. Eles tremiam de medo de uma doença a que deram o nome de "haitianismo", sinônimo de desordem, caos e violência. Liderada por Toussaint-L'Ouverture, o "Espártaco Negro", houve, na colônia francesa que viria a se transformar no Haiti, uma rebelião de escravos que, iniciada no fim no século XVIII e inspirada na revolução que ocorria na metrópole, resultou na expulsão da pequena elite branca de donos de terra e, em 1804, na independência do país, conquistada no enfrentamento com os exércitos de ninguém menos do que Napoleão Bonaparte. "O 'haitianismo' era um espantalho poderoso num país que dependia da mão-de-obra escrava e em que dois terços da população eram mestiços", escreve o historiador José Murilo de Carvalho no livro Cidadania no Brasil.

O Haiti fora, durante o século XVIII, a mais rentável e próspera colônia da América Latina. Em 1789, dois terços dos investimentos franceses no exterior estavam ali concentrados. Açúcar, principalmente, mas também café, cacau e algodão eram produzidos em larga escala, em fazendas trabalhadas por escravos trazidos da África. Setecentos navios, a cada ano, mobilizando 800.000 marinheiros, cumpriam o leva-e-traz entre a França e a então jóia de seu império colonial. Contra esse pano de fundo de prosperidade econômica e cruel opressão de uma minoria de 30.000 colonos brancos contra uma maioria de 500.000 escravos, fez-se o que o manual da boa evolução histórica recomenda: uma revolução. E no entanto...

No entanto, de lá para cá, como se sabe, tudo deu errado. A história do Haiti é marcada por golpes, rebeliões, massacres e intervenções estrangeiras. O país é mundialmente reputado pelos ditadores grotescos, como François Duvalier, o "Papa Doc", e seu filho Jean-Claude, o "Baby Doc", e pelas milícias assassinas, como a dos "tontons macoutes". Os acontecimentos da semana passada, em que o presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto em meio a uma rebelião, é apenas um detalhe a mais, uma migalha, um grão de areia, numa longa e infindável tragédia.

No Haiti, dadas sua condição de o país mais pobre do continente e sua inclinação para a selvageria fratricida, reminiscente das lutas tribais africanas, as coisas sempre se apresentam de forma peculiar, mas os acontecimentos que ali se desenrolam apenas copiam uma tendência que tem assolado a América Latina. Da rica, apesar de tudo, e "européia" Argentina à pobre Bolívia de maioria indígena, vários países tiveram presidentes arrancados da cadeira, num modelo que foge ao clássico golpe de Estado, mas nem por isso espalha menor preocupação com relação ao respeito ao processo democrático.

Não há mais tanques na rua nem generais no poder. Sempre se dá um jeito de uma aparência de constitucionalidade. Mesmo no Haiti, onde a tradição democrática é nula, entregou-se a Presidência ao presidente da Suprema Corte. Com isso, rende-se homenagem ao repúdio internacional aos golpes clássicos e ao mau gosto que eles representam. Mas, ao mesmo tempo, conserva-se a tradição continental de depor presidentes. Descobriu-se que dá para continuar a fazê-lo. Basta acrescentar ao ato um vernizinho legal.

Das fotos e filmes sobre os acontecimentos no Haiti, as imagens mais chocantes não são as que mostram os tumultos, saques ou corpos na rua. São as que retratam o regozijo do povo com a deposição do presidente. Está rindo de quê, aquela gente? Aristide era um presidente impopular, que da promessa inicial de justiça e liberdade escorregou para o autoritarismo e a corrupção. Mas os rebeldes que contra ele se levantaram formam uma sociedade de esquadrões da morte com traficantes de drogas. Será que as pessoas que saíram às ruas para comemorar, numa efusão própria dos povos carnavalescos, não aprenderam que, no Haiti, o pior está sempre por vir?

O Brasil por muito tempo foi acometido de saudade pela revolução que não houve. As transformações mais marcantes, como a Independência e a República, foram obtidas de modo negociado. Isso, segundo raciocínio que permeou, e ainda permeia, embora com menor força, o pensamento de esquerda, teria impedido as verdadeiras mudanças, aquelas que mexem com as estruturas de um país.

Pois o Haiti teve, em seu nascimento, uma revolução para ninguém botar defeito, e sua história resultou no que se sabe. Com relação a outro mito brasileiro, o de que se o Brasil tivesse perdido uma guerra, ou sentido os efeitos de uma bomba atômica, como a Alemanha ou o Japão, poderia se ter aprumado em nova e mais promissora direção, o falecido Mario Henrique Simonsen dizia que a única certeza seriam os efeitos da bomba atômica.

Se, depois, conheceria prosperidade semelhante à de alemães e japoneses, sabe-se lá. No caso do mito da revolução como rito necessário a uma sociedade mais justa e decente, a única certeza é que, se ela tivesse ocorrido no Brasil, teria custado muito sangue. Quanto ao que se seguiria, o Haiti prova que podia ser o abismo.

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Diogo Mainardi
O meu panelaço

"A convicção simplória de que todos os políticos são enganadores precisa ser restaurada. Sem isso, a democracia brasileira continuará incompleta, viciada, sujeita a surtos de histeria sebastianista"

Continuo minha campanha pelo impeachment de Lula. Poucas adesões de peso até agora. Faço um panelaço solitário pelos aposentos da casa, apesar dos veementes protestos de meus familiares. Bato panela no quarto. Depois bato panela na sala. Depois bato panela no banheiro. O panelaço de uma panela só. Por mais surpreendente que possa parecer, ainda não consegui derrubar o governo. Cedo ou tarde, juro que consigo.

A burrice que nos acometeu desde a eleição de Lula terá de ser lembrada para sempre. Demos ao governo um crédito que nenhum governo pode ter. Por mais de um ano, ignoramos seu populismo ordinário, seus desvarios retóricos, seu empreguismo desavergonhado, seu fisiologismo ostentoso, seu descaramento ético, sua equipe indigente. Abdicamos estupidamente de nossa prerrogativa básica, que é vaiar e atirar ovos nos políticos. A convicção simplória de que todos os políticos são enganadores precisa ser restaurada urgentemente. Só ela pode estimular a criação de anticorpos na sociedade. Sem esses anticorpos, a democracia brasileira continuará incompleta, viciada, sujeita a surtos de histeria sebastianista igual à que acompanhou a vitória de Lula.

Nenhum político pode ter 96% de popularidade, como o presidente teve ao assumir o poder. Isso é devoção religiosa. Estatisticamente, havia mais gente acreditando em Lula do que em Deus. Nenhuma literatura dedicou tanta atenção ao estudo do caráter nacional quanto a nossa. E nenhuma literatura se equivocou tanto sobre o assunto. O único aspecto relevante de nossa personalidade é um exasperado servilismo. Nesse sentido, nada pode ser mais revelador do que a eleição de Lula, que desencadeou a maior onda de adesismo da história do Brasil. Por seu passado oposicionista, Lula conferiu uma aura de dignidade a todos aqueles que escolheram se sujeitar a ele, adulando-o com a esperança de obter favores. Alguns ganharam cargos. Outros ganharam aplausos. Anotei seus nomes num caderninho. Estão na minha lista de proscrição. Quem também está na minha lista de proscrição são as instituições encarregadas de vigiar o poder e que, melifluamente, se aliaram a ele: os sindicatos, os movimentos sociais, parte da imprensa, a universidade, os artistas, os intelectuais, a Igreja. Somos nós que financiamos essa turma. Se ela não serve para nos defender, devemos parar de sustentá-la. Lula mostrou que nossa democracia é pura fachada.

Muita gente teme os efeitos de uma crise política. Não há o que temer. Os políticos caem, mas o país fica. Ao contrário do que se pensa, o destino do Brasil não está atrelado a nenhum político. A desilusão provocada por Lula pode ser altamente benéfica, se compreendermos o perigo de abaixar a guarda contra os políticos. Os principais instrumentos de que dispomos para controlá-los são a descrença e a desconfiança. Quando dizem que o financiamento público aos partidos pode diminuir a roubalheira, por exemplo, estão mentindo. Para diminuir a roubalheira dos políticos, basta diminuir a quantidade de dinheiro que passa pelas mãos deles. E, agora, panelaço.

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Muito cuidado no Alçapão

Ainda sem o maestro Felipe, time rubro-negro, em quarto na tabela, vai se complicar na Taça Rio se tropeçar contra o Olaria
Mauro Leão

Mais uma vez desfalcado de Felipe, que somente voltará ao time no dia 14, contra o Botafogo, o Flamengo enfrentará o Olaria, hoje, às 16h, numa partida que definirá o seu futuro na Taça Rio. Se tropeçar no Alçapão da Rua Bariri, complicará muito a sua situação na competição, na qual, depois de dois compromissos, registra apenas dois pontos ganhos.

Apesar da evidente queda de produção da equipe que empatou em 1 a 1 com o Americano e com o Bangu, o técnico Abel Braga acredita na volta por cima. Temos um excelente elenco e jogamos de forma errada as duas partidas anteriores, reconheceu o treinador.

Para ele, os principais erros dos jogadores ocorreram no momento do último passe e no posicionamento. Errar a última bola é fatal. Quebra o nosso poder de fogo e acabamos sendo contra-atacados, alega o comandante rubro-negro.

Abel, porém, alerta para o perigo chamado Olaria, principalmente pelo fato de o jogo ser disputado na Rua Bariri, num campo considerado em péssimas condições e de dimensão reduzidas, um alçapão. Outra preocupação é com a colocação do adversário (é o vice-lanterna do Grupo A, com apenas 1 ponto ganho), lutando contra o rebaixamento. Eles precisam da vitória, e nós também. Será uma guerra, mas buscaremos os três pontos.

Os quatro pontos perdidos nos dois empates são lamentados por todos na Gávea. Mas é evidente a fé na recuperação da equipe e na conseqüente conquista da Taça Rio. Não podemos nos esquecer de que na Taça Guanabara tivemos uma derrota para o América e empatamos com o Friburguense. Mesmo assim, conquistamos o título, comentou o atacante Jean, prometendo deixar sua marca de artilheiro na partida de hoje.

O torcedor que for apoiar o Flamengo pensando que a equipe encontrará facilidades deve preparar o espírito. O Olaria venceu o último confronto, por 2 a 0, no Campeonato Estadual do ano passado, disputado dia 26 de fevereiro.

O curioso é que do time que disputou a partida, somente permaneceram na Gávea o goleiro Júlio César e o apoiador Felipe, que desfalca a equipe. Naquela ocasião o Flamengo jogou com Julio César, Alessandro, André Bahia, Fernando e Athirson; Fabiano Cabral, André Gomes, Fábio Baiano e Felipe; Fernando Baiano e Zé Carlos.

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Artigo
A vitória feminina
LUIZ KIGNEL/ Advogado

No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Desta feita, as comemorações no Brasil terão um gosto diferente, ao certo uma sensação de dever cumprido ou de vitória, como queiram as feministas, que não se encontrará em outra parte do planeta. Não fossem já suficientes as profundas alterações trazidas pelo novo Código Civil Brasileiro, igualando em definitivo os direitos do homem e da mulher, é dever registrar a promulgação da Lei nº 10.745, assinada pela Presidência da República em 9 de outubro de 2003 instituindo o ano de 2004 como o "Ano da Mulher".

A luta das feministas vem de longa data e ao certo é tão antiga como a história da civilização. No decorrer dos séculos, as mulheres foram sempre subjugadas por seu parceiro masculino, que lhes impôs pela força física uma situação de domínio e submissão. O que era regra geral em séculos passados, hoje apenas é encontrado em longínquos pontos do planeta, que ainda persistem em uma vida que não encontra respaldo cultural ou moral na sociedade moderna e que teimam em se manter pela força e opressão.

No Brasil do início do século passado, as mulheres já buscavam sua igualdade social, embora deva se admitir que limitadas a manifestações específicas e, no mais das vezes, apenas em círculos intelectuais. Foi na segunda metade do século 20 que, efetivamente, as mulheres passaram a reclamar com sucesso sua posição de destaque na vida brasileira. Ainda assim, viramos o século 21 com um Código Civil editado no ano de 1916 e que estipulava claramente que o marido era o chefe da sociedade conjugal, função que exercia com mera colaboração da esposa. Assim, a mulher saía da tutela do pai diretamente para a do marido, o que não se podia reconhecer como um grande avanço nos seus direitos civis.

O novo Código Civil trouxe, com atraso injustificável, o reconhecimento de igualdade que, na prática, já era aceito na maior parte dos lares brasileiros, não mais pela força física, mas sim pelo reconhecimento inequívoco e sem ressalva das igualdades sociais dentro de um casamento. Neste sentido, o atual Artigo 1.567 determina que "a direção da sociedade conjugal será exercida, em colaboração, pelo marido e pela mulher, sempre no interesse do casal e dos filhos".

Se a igualdade torna os cônjuges igualmente aptos para a condução do lar conjugal, é verdade que também lhes retira alguns benefícios. E com certeza o mais debatido se refere à preferência na guarda dos filhos, que no ordenamento jurídico anterior era presumida pela lei em favor materno e, na legislação atual, beneficiará aquele que revelar melhores condições para exercê-la.

Reconhecida a igualdade dos sexos e não se admitindo a criação de um Dia Internacional dos Homens ou um ano específico em sua homenagem, tal qual este será para as mulheres, seria de se cogitar da extinção dessas festividades que tornam, reconheçamos, desiguais homens e mulheres, ferindo o princípio da igualdade alcançada por estas últimas. Mas mesmo que absolutamente iguais na acepção jurídica, as desigualdades sempre existirão para deixar espaço ao cavalheirismo, que, diferente de machismo, nada mais é do que a confirmação da vitória feminina sobre o homem.


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Descer do trono

MARIA BERENICE DIAS/ Desembargadora do Tribunal de Justiça do RS, vice-pres. do Instituto Bras. de Direito de Família

Desde o nascimento, as mulheres são submetidas a um rigoroso treinamento para o desempenho da missão à qual foram predestinadas. As meninas são vestidas de "cor-de-rosa", furam suas orelhas e lhe colocam brincos, sendo adornadas com laços, rendas e fitas. Afinal, têm de ser belas e sedutoras e, além disso, meigas, castas e recatadas. Seus brinquedos são bonecas, panelinhas, casinhas, nada mais do que instrumentos que se destinam ao bom desempenho dos seus deveres.

O único e grande sonho de realização é encontrar o príncipe encantado, casar e ser feliz para sempre. Eis que chega o grande dia. Vestida de noiva com véu e grinalda, é entregue pelo pai ao marido, até que a morte os separe...

Aí começa o seu reinado. Seu cetro é a vassoura, sua coroa, quem sabe, uma lata d'água, e seu manto, montanhas de roupas para passar. Como lhe ensinaram, a ela cabe o papel de esposa e mãe, sendo responsável pelas tarefas domésticas. Isso inclui limpar, cozinhar, lavar, costurar, fazer compras, além, é claro, de cuidar da educação e do bom desenvolvimento dos filhos, sem descuidar do marido. Porém, essas lides caseiras não são reconhecidas, não gozam de nenhum prestígio social. Por não ser trabalho remunerado, não é contabilizado, não possui valor econômico. Assim, as donas de casa são trabalhadoras que não recebem salário, não fazem jus a descanso semanal, limite de jornada, feriados, licenças e nem à aposentadoria ou à previdência social.

A obrigação pelo exercício dessas atividades está ligada à equivocada noção de que elas decorrem da natural divisão do trabalho. Por terem as mulheres o monopólio da função reprodutiva e a capacidade de amamentação, a elas se atribui, com exclusividade, toda a responsabilidade pela criação dos filhos e organização do lar.

Todos olvidam que a mulher desempenha papel fundamental para a subsistência não só da família, mas do próprio Estado, pois é responsável pela procriação e criação dos cidadãos de amanhã. Seus filhos são a força de trabalho que irá garantir a continuidade da sociedade. Ainda assim, o trabalho que desempenham não é valorizado.

Quando, apesar de todos esses obstáculos e limitações que as atividades domésticas lhes impõem, elas conseguem se inserir no mercado de trabalho, passam a desempenhar dupla jornada de trabalho. Como não conseguem se livrar de seus encargos familiares, têm menos disponibilidade de viajar, freqüentar cursos, estudar, isto é, têm menos condições de se qualificar, o que limita salários e dificulta a ascensão profissional.

Não bastasse tudo isso - ou talvez em face de tudo isso -, a rainha do lar ocupa uma posição subordinada e de submissão, pois deve obediência ao marido, dono e senhor da casa.

É preciso que as mulheres tomem consciência de suas potencialidades, busquem a realização pessoal fora do circuito doméstico, desçam do trono e empunhem a bandeira da luta pela igualdade e respeito à sua dignidade humana.

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Jorge Furtado
06/03/2004


Minhas Férias

Talvez ninguém tenha reparado, mas faz tempo que eu não apareço por aqui. Juntou trabalho demais com férias de menos, mas agora eu voltei. Vou poupá-los de descrições detalhadas das praias mornas da Bahia, com suas areias brancas e palmeiras ondulantes, quindins e camarões gigantes, isso não se faz. Mas a volta das férias sugere uma certa recapitulação. Onde foi que eu parei? Ah, sim: feliz ano novo.

O primeiro quarto do governo Lula terminou FMI 1 x 0 nós. O bom humor do Palocci na boca do vestiário parece indicar que a gente vira o jogo ainda no primeiro tempo, vamos ver. Por enquanto, estamos perdendo e, pior, agora sem o Gabeira em campo. As novidades políticas reforçam minha indefensável tendência lombrosiana: só de olhar para a cara do Waldomiro Diniz suponho que ele mereça alguns anos de detenção e, de óculos escuros, sem direito a habeas corpus. Vai dizer que você também não tem vontade de mandar direto para a cadeia aquele Rocha Mattos, o juiz da operação Anaconda, com seus longos e esvoaçantes cabelos grisalhos? É evidente que "olha só o jeitão dele" não é uma boa norma jurídica. Carlinhos Cachoeira, por exemplo, parece ser boa gente. De qualquer maneira, é estranho ver um delegado de polícia dizendo, na televisão, que está investigando os crimes que Cachoeira "provavelmente cometeu". Pode isso? Bom, se pensarmos que vivemos sob uma Constituição que teve alguns artigos acrescentados na última hora sem que o Congresso soubesse, imagino que possa.

O Verissimo já disse em sua coluna tudo o que precisava ser dito sobre a hipocrisia com que tratamos a contravenção do jogo do bicho no país. Minha única experiência com bingos se deu em Tramandaí, há alguns anos. Entramos porque era o único lugar aberto na cidade onde se podia tomar uma cerveja. Me entregaram um cartão, tiraram meu dinheiro e eu sentei, esperando que surgisse uma senhora parecida com minha avó Etelvina, com um saquinho, e começasse a cantar os números: "A idade de Cristo, 33!". Em vez dela, vi monitores mostrando números numa velocidade frenética. O jogo acabou antes que eu sequer me acostumasse com a luz fluorescente e entendesse para qual vídeo deveria olhar. Já me disseram que há bingos que servem jantares e chás e que podem ser divertidos. A mim pareceu uma experiência bizarra e deprimente. E a cerveja estava quente.

O importante é que 2004 começou, finalmente vem aí o espetáculo do crescimento e, como eu não estava por aqui e perdi as listas de fim de ano, mando a minha retrospectiva de férias:

Livro: O Rosto de Cristo, de Armindo Trevisan

Livro velho: O Estrangeiro, de Albert Camus

Conto do Borges: Diálogo sobre um Diálogo

Livro para o avião: A Arte de Viajar, de Alain de Botton

Livro para a praia: Seabiscuit, de Laura Hillebrand

Livro estranho: Franny e Zooey, de J.D. Salinger

Filme brasileiro: Nelson Freire, de João Moreira Salles

Filme estrangeiro: Dogville, de Lars Von Trier

Disco brasileiro: Meu caminho É o Mar, de Jussara

Disco estrangeiro: Lost in Space, de Aimee Mann

Melhor música boa: Sexo e Amor, da Rita Lee

Melhor música ruim: Sorte Grande, da Ivete Sangalo ("Poeeeira!...")

Melhor banho de mar: Amaralina, Salvador

Melhor aeroporto: Galeão

Pior aeroporto: Congonhas

Pior trilha sonora: Costa do Sauípe

Melhor quindim: em Itaparica

Melhor tartaruga: A de pente, no projeto Tamar

Melhor sorvete: de Cupuaçu, na Cubana do Pelourinho, mas não tinha. O de coco também é ótimo

Melhor cama, banheiro, sala, trilha sonora, biblioteca, travesseiro e demais dependências: em casa

jorge.furtado@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
06/03/2004


Tiro ao alvo humano

Não sei por que me fixo no assassinato ocorrido no Rio de Janeiro quarta-feira última, quando a contadora da Petrobras Elisabete Duarte da Gama Silva, com 40 anos de idade, seqüestrada às 19h30min, foi morta uma hora depois em São Gonçalo, no outro lado da Ponte Rio-Niterói.

Enquanto eu me preocupava com os últimos acontecimentos policiais no Rio de Janeiro, ontem de manhã uma tentativa de assalto na Avenida Aparício Borges, aqui entre Partenon e Glória, deixou dois mortos e dois feridos.

É notável essa revolução no quadro social brasileiro em que paira sobre toda a sociedade a ameaça de crime. Desapareceu a poesia das ruas, ninguém mais passeia pelas cidades, aquele prazer de caminhar pelas calçadas e andar pelos logradouros acabou, as pessoas ou saem de casa para cumprir somente com suas obrigações ou encerram-se em seus lares, amedrontadas com o que possa estar ocorrendo lá fora.

A cultura de sair para dar uma volta e distrair-se desapareceu completamente da vida brasileira.

Mas não sai da minha calota craniana o assassinato da contadora da Petrobras. Foi um desses assaltos relâmpagos. Três assaltantes a renderam na Tijuca, aprisionando-a no porta-malas do carro dela.

Só que o carro de Elisabete era dotado de um sistema de rastreamento, mediante o qual se podia ouvir de uma central da empresa que ela contratou todas as conversas ocorridas no interior do veículo.

A partir do seqüestro até uma hora depois, quando os seus captores a mataram, tudo que eles disseram no carro podia ser ouvido na central telefônica, sendo repassado ao marido da vítima, que assim viveu 60 minutos de terror.

Terminou com ela sendo retirada do porta-malas, quando o marido foi cientificado da conversa, que se desenrolava em preparativos dos assaltantes para executá-la.

Fizeram-na descer do veículo e o marido ficou sabendo o que dizia um assaltante:

- Desce e agora corre.

Foram ouvidos dois disparos e ouviu-se a voz de um dos bandidos:

- Aê, Mané, pegou na cabeça!

Os assaltantes abandonaram o carro da assassinada e roubaram dela apenas um telefone celular.

Inexplicável seqüestro e assassinato. Uma violência sem nexo, um exercício de diversão e entretenimento de três assaltantes contra uma mulher indefesa, praticando tiro ao alvo humano na noite fluminense.

E tudo trágica e pateticamente sendo ouvido pelo marido da vítima, cujo filho de 10 anos está inconsolável e sob trauma com a morte da mãe.
Esta bárbara e irracional execução me martela a cabeça e me deixa apreensivo.

Porque os cariocas estão vivendo um jogo lotérico de probabilidades. Eu, por exemplo, já fui várias vezes ao Rio e nunca foi assaltado.

Mas o colega Clóvis Heberle, aqui de ZH, que vai uma vez por ano ao Rio, já foi assaltado três vezes, a última vez em julho, pela nova modalidade: dois rapazes de bicicleta o atacaram no Arpoador e arrancaram sua pochete.

Agora descobri por que fico angustiado com o horror carioca: tenho uma filha no Rio de Janeiro que todos os dias dirige seu carro por lá e leva meus dois netos ao colégio e a outros lugares.

É simplesmente desolador que de repente a vida das pessoas, de todos nós, dependa apenas da sorte, de uma trama de probabilidades que ordena ao destino que sejamos ou não assaltados.

Ninguém pode dormir tranqüilo quando está consciente de que todos os dias se disputa nas ruas uma autêntica roleta-russa.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
A agonia da seca



Milhares de tainhas e linguados morrem com a estiagem no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, em Tavares (foto Renato Grimm, especial/ZH)


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Sexta-feira, Março 05, 2004




O poder de salto alto

As mulheres se transformam em importantes formadoras de opinião e cada vez mais assumem posições de comando

Pesquisa: o que elas pensam sobre trabalho e dinheiro Perfil: o que gostam de ler Onde gastam mais tempo Fonte de felicidade: o que faz a vida delas (e deles) melhor

Dolores Orosco e Rita Moraes
Colaboraram: Carla Gullo, Chico Silva, Greice Rodrigues; Liana Melo (RJ) e Tales Faria (DF)

Pés nas nuvens, cabeça no chão
Assim vive a piloto Claudine Melnik Caldas Camargo, 34 anos, pioneira na profissão no País. Casada com piloto, mãe de Lucas, quatro anos, e Clara, um, a curitibana vive o dilema da maioria das mulheres: conciliar trabalho e família. Às vezes, fico uma semana sem ver meus filhos, mas sei de tudo o que acontece com eles e tenho voz ativa na educação, conta. No comando do Foker 100 da empresa, vez ou outra ela nota o olhar inseguro de alguns passageiros. O engraçado é que as mulheres têm mais medo de voar comigo.

A doce e submissa imagem da Amélia, eternizada na voz de Ataulfo Alves, sempre provocou arrepios nas feministas. Mas até ela, que não tinha a menor vaidade, mantinha seu poder de influência. As mulheres, mesmo no século XIX, quando passavam da tutela dos pais para a dos maridos, tinham sob suas asas a formação dos filhos e a administração da casa.

Se o poder constituído era dos homens, era ela quem fazia a transmissão de valores fossem eles patriarcais ou não, por conta da imposição da sociedade e decidia sobre a vida cotidiana. Aos homens cabia a supervisão geral e a administração dos bens. Por trás de um sim ao marido estavam escondidos muitos poréns. Hoje, essa voz de comando não precisa usar de subterfúgios e soa clara em gabinetes políticos, em bem-equipadas salas de executivos, em sisudos tribunais, à frente de batalhões de policiais e, é claro, no lar doce lar. Em grande parte das famílias, elas decidem desde o que vai à mesa até em que bens investir o dinheiro.

A entrada no mercado de trabalho, ocorrida no século XX, ampliou o poder feminino. A mulher começou a atuar na esfera pública, sem abrir mão do domínio no lar, que sempre foi seu, explica a historiadora Eni de Mesquita Samara, professora de história da Universidade de São Paulo e diretora do Museu Paulista. Hoje, ao comemorar na segunda-feira 8 o 94º Dia Internacional da Mulher, elas festejam a liberdade de mandar sem medo.

Dividimos as tarefas. Para que Lula pudesse se dedicar à vida política, cuidei do bem-estar dele e dos filhos e ainda participei de tudo o que foi possível. Nossa relação é nosso porto seguro

Ao comandar e invadir os domínios masculinos, as mulheres levaram para fora de casa suas impressões, crenças e valores e se tornaram formadoras de opinião. Tanto é assim que a Organização das Nações Unidas as incumbiu de ajudar a concretizar o maior sonho da humanidade: a paz mundial. Desde 2002, a organização colocou em curso em mais de 100 países o projeto Mulher Agente da Paz, baseado na iniciativa da brasileira

Elisa Malta Campos. Membro da BPW Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais de São Paulo , Elisa esteve em Nova York na semana passada participando do Encontro Mundial de Mulheres realizado pela ONU. A Business and Professional Women (BPW) é uma entidade internacional com 30 representações no Brasil. As mulheres têm um poder de influência que nem mesmo elas percebem. Queremos conscientizá-las disso. Trabalhamos para elevar sua auto-estima, para capacitá-las, criar renda e incentivar a sua atuação na comunidade.

O projeto 1000 Mulheres Prêmio Nobel da Paz 2005, lançado na quarta-feira 3, em São Paulo, é outra mostra de reconhecimento da ONU à importância da contribuição feminina. A proposta é selecionar em 225 países mil mulheres que lutam por uma sociedade mais igualitária. Ao Brasil caberá indicar 31 delas. Em 103 anos, o Nobel só chegou 11 vezes às mãos de uma mulher. Desta vez, será uma premiação coletiva que tirará do anonimato gente que dedica a vida a uma causa. Pode ser uma operária, camponesa ou cientista, explica Clara Charf, coordenadora-geral do projeto no Brasil.

Iniciativa: Elisa levou à ONU o projeto Mulher Agente da Paz

O quadro social das mulheres no País ainda mostra grandes carências. A dura realidade de pobreza e violência que persiste levou o presidente Lula a instituir 2004 como o Ano da Mulher, estabelecendo como meta a criação de políticas de proteção, prevenção e inclusão mais efetivas a serem adotadas até o final de seu governo. Mas, apesar disso, as estatísticas revelam que as mulheres vêm tomando o seu espaço com determinação.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, nas áreas urbanas, elas já têm em média um ano a mais de escolaridade que os homens e que de 1992 a 2002 o índice de mulheres chefiando a casa passou de 21,9% para 28,4%. O esforço de escolarização e capacitação e a necessidade de suprir a família promovem grande reflexo no mercado de trabalho. Elas ocupam cada vez mais cargos antes tidos como estritamente masculinos, sem receio de ter sob seu comando um exército de homens nem sempre à vontade de ver, de repente, um batom misturado com documentos na mesa. A mulher está cada vez mais preparada. E, apesar de ainda ganhar 10,12% a menos, multiplicou seu campo de atuação.

A área jurídica, por exemplo, que era muito masculina, conta hoje com 33,13% de mulheres, afirma Silvana Case, vice-presidente do Grupo Catho, de recolocação profissional. Uma pesquisa feita pelo grupo entre 60.211 empresas aponta que o número de mulheres no nível executivo dobrou em nove anos. Em 1994, elas ocupavam 8,10% dos cargos de presidência. Hoje isso corresponde a 15,87%. No nível de encarregados, representam 45,63%. Presidente de banco, motorista de táxi, advogada, comandante de avião, tenente-coronel, elas estão lá.

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A gincana do amor
Marcia Peltier

''De todos os sentimentos, um dos que mais me desgosta é a ingratidão. Fico perplexa. Me assusta ver pessoas que omitem fatos da vida para não precisar agradecer a quem lhes deu a mão'', desabafou Júlia, depois do último cafezinho, naquela tarde modorrenta de janeiro, com gaivotas pairando bem alto no céu.
''Nunca esperei ouvir isso de você'', explodiu Sandra, quase sem fala, diante da estocada da amiga. ''E por que não?'', desafiou Júlia, com olhos de puro tormento.

A história entre elas sempre fora complicada, mas, agora, tinha chegado a um ponto crucial. Júlia amava Roberto que gostava de Sandra, que fazia doce: ora dizia que sim; ora, que não. Para Júlia, tudo não passava de uma atitude imperdoável, cruel e vingativa.

As duas tinham estudado juntas e foram vizinhas desde pequenas. Os pais eram aqueles amigos para toda hora que viraram sócios e, aí, o caldo entornou. Foi um capítulo igual a tantos outros: a empresa faliu e os dois se diziam vítimas da situação, um colocando a culpa no outro. Não adiantou nem mesmo amigos em comum ponderarem que eles deveriam tentar se acertar sem brigas. O estrago já estava feito e a confiança, quebrada. Fato consumado, as famílias deixaram de se falar, mas as meninas continuaram a amizade, ou melhor, continuaram a se ver. As coisas caminharam assim até a entrada de Roberto.

''Interessante como um homem pode ser tão desagregador'', disse, logo metendo a colher, Rutinha. Recebeu uma enxurrada de contestações: ''Não é nada disso, foi ela que agiu de má fé e se insinuou entre nós''. Um discurso pobre e sem imaginação usado pelas duas sem trégua. A briga, que nelas havia parado, finalmente ganhara espaço naquela estranha geografia emocional. ''A estratégia masculina de dividir para governar vencera'', voltava a sentenciar Rutinha, que creditava ao homem todos os percalços na vida de uma mulher, incluindo a queda da Bolsa e até um buço mal tirado.

O que realmente movia Júlia e Sandra nessa gincana? Vaidade, forra? Disputas que corroem nossas entranhas fazem parte de um jogo perigoso em que todos perdem. Importa se desta vez será Roberto ou Rodrigo, Felipe ou Luciano? No fundo, eles são personagens sem rostos, que só trocam o nome na mesma trama. O que vale nesse teatro é o enredo. João ama Maria, que ama José, que gosta de Teresa, que não quer ninguém. E daí?

Parece que o mundo civilizado precisa nos aquartelar em campos opostos com a desculpa de que precisamos de competições acirradas para ganharmos a guerra. E isso vale tanto para a vida amorosa quanto para a profissional.

E Sandra e Júlia, onde entram nisso? Acho que na hora em que esquecemos quem somos e assumimos papéis que herdamos, começamos a trama. Seja de vítima, heroína, malvada ou fadinha. O jogo da negação é uma arma mortal. Começamos com um lance bobo até chegarmos ao topo da montanha de ressentimentos. Um vício que estabelece padrões de comportamento onde se alojam com intimidade o esquecimento e a ingratidão.

É incrível observar a capacidade humana de escamotear sentimentos e criar outros que são verdadeiros alienígenas em nossos corações. No fundo, tudo não passa de aritmética: um amor, dois amores, três amores; quem sabe qual será a conta de quem não está aqui para se dar e, sim, tomar?

''As pessoas só se movem por interesse'', diria Rutinha. Será?

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Justiça
Casal gay pode registrar união no Estado

Parecer inédito do Tribunal de Justiça permite que os tabelionatos gaúchos reconheçam relações homossexuais
LEANDRO RODRIGUES/ Especial/ZH


Em uma medida inédita, o Tribunal de Justiça (TJ) do Estado permitiu que pessoas do mesmo sexo registrem a relação em cartório, o que não era aceito pelos tabelionatos até então. Na prática, a decisão pode proporcionar quase os mesmos direitos de uma união heterossexual, prevista no novo Código Civil.

O parecer aprovado pelo corregedor-geral da Justiça, desembargador Aristides Pedroso de Albuquerque Neto, foi publicado no Diário da Justiça na quarta-feira. Trata-se de uma orientação que regulariza a emissão de documento que confirme a união entre casais gays nos cartórios gaúchos. Até então, o tabelião recusava-se a registrar o documento.

O principal motivo era o temor de violar a Constituição, artigo 226, que define a união estável como aquela entre homem e mulher. Segundo os cartórios, não havia previsão legal nem orientação que regulamentasse a prática. Outro argumento usado pelos tabeliões era a falta de jurisprudência.

Conforme o juiz-corregedor Clademir José Ceolin Missaggia, autor do parecer aprovado pelo corregedor-geral, o fato é que as relações homossexuais existem. Por razão de segurança jurídica, afirma, merecem ser disciplinadas, independentemente da posição que se tenha.

A norma teve origem em pedido de informações da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos, do Ministério Público Estadual. A promotora Christianne Pilla Caminha recebera um e-mail em agosto do ano passado, de Santa Maria.

- O e-mail era de um homossexual que não havia conseguido fazer esse documento. Fiz audiência com representantes dos tabelionatos, e descobrimos que não havia regulamentação para esta escritura - diz Christianne.

A advogada Marilene Guimarães aprova a medida da Justiça gaúcha. Com artigos e livro publicados sobre o tema, ela considera o fato como um exemplo para país, mais um passo para tirar da clandestinidade a união de pessoas do mesmo sexo.

- Isso vai permitir que se faça um contrato com praticamente todas as cláusulas de uma união estável. Agora, a vida patrimonial pode ser regulamentada da mesma forma que faz um casal heterossexual - afirma Marilene.

Apenas ação judicial pode invalidar medida

Com o que ela chama de contrato de convivência, em caso de morte de uma das partes do casal homossexual, a metade do patrimônio está garantida para a outra pessoa. A outra metade vai para os familiares, ou - em caso de eles não existirem - para o tesouro municipal. É nesse ponto que a advogada ainda julga necessário avançar. Em uma relação estável heterossexual, a parte também iria para o companheiro ou companheira.

Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça, como se trata de uma determinação administrativa, apenas uma ação judicial de alguém que se sinta atingido poderia invalidá-la.

A medida foi festejada por grupos ligados aos homossexuais. Para o coordenador da ONG Nuances, Célio Golin, "o registro é importante na luta para situações como a legalização de parceiros estrangeiros, adoção, questões trabalhistas e previdenciárias".

leandro.rodrigues@zerohora.com.br

Decisões pioneiras

O Rio Grande do Sul tem se notabilizado por medidas inéditas beneficiando homossexuais, como o reconhecimento e a proibição de discriminação de pessoas de diferentes orientações sexuais e o pagamento de pensões a parceiros de uniões do mesmo sexo.
Confira a seguir algumas dessas medidas:

- Decisão proferida em fevereiro de 1999 pela juíza estadual Judith dos Santos Monttecy, invocando a Lei 8.971/94 (da união estável) concedeu a um parceiro homossexual a totalidade da herança pertencente a seu companheiro, que não deixara ascendentes ou descendentes.

- Em 1999, no Rio Grande do Sul, a juíza federal Luciane Amaral Corrêa concedeu pensão por morte de companheiro homossexual.

- O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul fixou a competência para julgar direitos das uniões homossexuais às varas especializadas em Direito de Família.

- Em junho de 2000, o santa-mariense Cláudio Manoel de Medeiros Ribeiro recebeu primeira pensão do INSS pela comprovação de união homossexual estável.

- Em março de 2001, o desembargador José Carlos Teixeira Giorgis, integrante de uma das Câmaras especializadas em Direito de Família do Tribunal Estado, reconheceu direito à partilha de patrimônio em união homossexual declarando que o patrimônio obtido durante o relacionamento deve ser partilhado como na união estável.

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Bigode em alto estilo

Vasco goleia a Cabofriense por 5 a 1 e mantém a liderança da Taça Rio. O artilheiro Valdir voltou a ser o matador, com 3 gols
Carlos Monteiro

Tudo bem que a Cabofriense não era um adversário que oferecesse tanto perigo, mas o Vasco deu provas de que os salários atrasados não são um obstáculo para as pretensões de o time conquistar a Taça Rio. Jogando em São Januário, os cruzmaltinos golearam a equipe da Região dos Lagos por 5 a 1. Valdir, com três gols, voltou a ser um matador. O resultado, além de deixar os vascaínos na liderança isolada do Grupo A, com seis pontos, deu combustível extra para o clássico de domingo, contra o Fluminense.

Apesar da sua superioridade, o Vasco iniciou o jogo levando susto. Logo aos 7 minutos, a Cabofriense abriu o placar. Após cruzamento da direita, Bechara ajeitou de cabeça, a zaga se atrapalhou e Marmelo tocou no canto esquerdo de Fábio: 1 a 0. O gol, no entanto, serviu apenas para acordar os donos da casa.

O empate não demoraria a acontecer. Aos 19 minutos, Valdir, em velocidade pela direita, jogou na área, na cabeça de Cadu. O jovem atacante testou certeiro, no ângulo, sem chances para Flávio. A partir daí, o Vasco passou a administrar a partida, sabendo que chegaria ao segundo quando bem entendesse.

E ele veio aos 26 minutos. De maneira meio esquisita, é verdade, mas veio para dar mais tranqüilidade à equipe. Victor Boteta foi lançado na esquerda e, de primeira, tentou achar Valdir na área. O chute, no entanto, acabou pegando mal e enganando o goleiro Fávio: 2 a 1.

Faltava, ainda, o gol melhor, os gols do Bigode, que ultimamente vinha sendo perseguido pela torcida. Num lance de puro oportunismo, o atacante fuzilou uma bola rebatida erradamente de cabeça por Alexandre, após cruzamento de Róbson Luiz: 3 a 1.

No segundo tempo, o Vasco voltou com uma postura diferente. O técnico Geninho sacou Cadu para a entrada de apoiador Coutinho. Ainda assim, o time da Colina continuou absoluto no jogo. E Valdir, com fome de gol, transformou-se na melhor figura em campo contando com a coloboração de Flávio. Aos 18, o goleiro adversário falhou ao sair do gol, permitindo que o Bigode, livre, empurrasse para a rede. Aos 29, em nova falha de Flávio, Valdir voltou a marcar, isolando-se na artilharia do Estadual, com nove gols.

E que venha o Fluminense.

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Kelly e Mico se casam

Kelly Key chegou apenas 20 minutos atrasada à cerimônia de seu casamento com o angolano Mico Freitas, marcada para às 19h30 de ontem na tradicional Igreja da Candelária, Centro do Rio. Prontamente, o Jaguar preto com a cantora de 21 anos foi cercado por grande parte dos 150 fãs ávidos em ver a loura, que retribuiu o carinho com acenos. Uma equipe de 50 seguranças vigiava cada acesso à Candelária, toda decorada com orquídeas, lírios e rosas brancas.

Ainda dentro do carro, Kelly chorou e precisou retocar a maquiagem. Somente às 20h18, emocionada ao som de cornetas e da Marcha Nupcial, de Mendelsohn, ela entrou na Igreja, ao lado do pai, Porfírio Almeida. Com sono, a filha, Suzanna, de 3 anos, não acompanhou a mãe como dama de honra e foi direto para o altar. A troca de alianças teve direito a chuva de pétalas de rosas brancas. A atriz-mirim Debby, a dançarina Adriana Bombom (que homenageou o casal usando modelito afro), o estilista Ronaldo Ésper ¿ responsável pelo vestido de noiva da cantora ¿ e Vêronica Costa prestigiaram a cerimônia religiosa.

Depois, os convidados rumaram à Villa Riso, em São Conrado, para a festança de temática africana, já que Mico é de Angola. A banda Celebrare animou o agito, orçado em R$ 300 mil. A noite de núpcias foi no badalado Hotel Copacabana Palace. E amanhã, ela grava participação na novela Celebridade.



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Gabriel Moojen
05/03/2004


Amontoados

Pois bem, cá estou. Em um Internet-café na praia do Rosa. Restaram poucas pessoas depois do Carnaval. Eu fui um desses. Praia deserta, sol e algum vento. Nada parecido com as milhares de pessoas que se amontoavam no meio da praia.

Então eu estava sentado em uma roda de amigos bem mais perto das pedras que das pessoas. Não por ser metido a besta e mais por querer um pouco de privacidade e uma falta de curiosidade para ouvir a conversa alheia. Foi quando perguntei para os amigos por que as pessoas gostavam de se amontoar. Porque por mais cheia que a praia estivesse, havia lugar de sobra para todos.

Esse fenômeno acontece em cada praia do Brasil, em cada fila de bar lotado ao lado de um vazio. Por quê? Meu irmão arquiteto divagou sobre a necessidade do homem de se aglomerar, citando inclusive o nascimento das cidades. Outro amigo publicitário disse que era o efeito Big Brother: as pessoas têm necessidade de se mostrar para as outras.

De que vale pagar o aluguel de uma casa em Santa, gastar gasolina do carro comprado com o suor de anos de trabalho se isso não for de certo modo um status a ser exibido? De que adianta comprar um short de uma marca descolada e pagar 200 pratas por ele e ninguém notar?

A minha amiga jornalista foi mais radical e achou que eram todos trouxas. Não concordei. Não acho que seja tão simples assim. Até porque de passada avistei alguns outros amigos felizes na farofada, cercados de gatinhas com salto na areia, com brincos e biquínis que custaram a semana de trabalho. Mas afinal, era Carnaval e esse papo acabou ficando meio perdido no vento de areia de um grupo que veio não sei de onde e que resolveu acampar em cima da gente.

Coisas de verão disse eu, levantando e indo para o mar tomar meu banho. Passando protetor para não ficar queimado, mas bem que eu podia torrar um pouco mais, porque se eu chegar branco em Porto Alegre ninguém vai perguntar onde foi que eu estive na minha única semana de férias do verão. Abraços e me escreva. Fui!!

gabriel@rbstv.com.br

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Mauren Motta
05/03/2004


Infidelidade ou curtição?


Até que ponto devemos acreditar em fidelidade? Sempre fui daquelas gurias românticas. Se alguém me falava em infidelidade, eu saltava da cadeira e saía em defesa dos traídos. Condenava e achava um absurdo. Hoje não sei mais o que pensar. Acho que a vida está mudando com uma velocidade tão grande que fica difícil acompanhar se a gente não tem muita informação e uma cabeça pra lá de aberta.

O telefone toca: do outro da linha era uma amiga que mora na Califórnia. A Rafaela sempre foi, como diria minha mãe, triprafrentex. Moderna, conectada, viajada. Tipo ser-luz. Bonitona, depois de muito curtir a vida, acabou se casando com um cara talentoso e caretão. Coube a ela a transformação.

Apresentou um mundo que ele não conhecia, da noite pro dia ele estava descoladíssimo. Começou a tocar guitarra, aprendeu a dançar e adquiriu gosto pela noite. E foi por isso mesmo que ela me ligou. Queria saber como andava a night por aqui? Se tava rolando de todo mundo ficar se beijando na pista de dança? Respondi que não sabia, que só tinha visto o normal: ficantes e casais. Ela explicou: disse que todo mundo se beija na boca e troca de par assim como muda a batida do som. Fiquei intrigada, como assim? Até quem tem namorado ou é casado? Ela disse que virou moda, que o amor sempre foi livre na Califórnia, e que mesmo ela ficava um pouco chocada.

O lance do beijo nas pistas californianas é normal. E pra gente, será que é traição ou curtição? É certo beijar na balada na frente do namorado? Outra amiga me contou uma pior. Disse que passou 10 dias em Morro de São Paulo com uma parceira, a Manuela, que namora há três anos uma cara gatérrimo no maior respeito. Os dois planejavam casamento e tudo mais até que...

Na volta do Morro, os pombinhos matavam a saudade na cama, eis que pinta uma camisinha na jogada: PÂNICO! O namorado curioso, perguntou de onde saíra aquilo, afinal de contas os dois não transavam com camisinha, pois tinham um pacto de fidelidade e coisa e tal. A moça, que é daquelas tricertinhas, tentou explicar: as férias tinham servido pra relaxar e fazer uma espécie de despedida da vida de solteira. Que não tinha significado nada pra ela, que foi só uma vez! Barraco armado, noivado desfeito.

O que posso pensar? Acho que as pessoas estão cada dia mais carentes. Que fidelidade fica em segundo plano e que todo mundo quer viver cada dia como se fosse o último. Que uma pulada de muro não tem problema. Que beijo na boca não quer dizer nada. Na verdade, nem sei o que pensar! Acho que a Rafaela está certa em questionar a modernidade, que a Manuela ama o namorado e estava só curtindo as férias. E você, caro leitor, pensa o quê?

Beijocas no coração!

mauren@rbstv.com.br

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David Coimbra
05/03/2004


Você está sendo traído

Recebi um imeil que avisava: "Você está sendo traído". Putz.

Fiquei olhando para aquela frase piscando na minha tela. Você está sendo traído, você está sendo traído, você está sendo traído. Devia abrir? Não, não. Era vírus, só podia ser vírus. Eu sendo traído. Imagina. Absurdo. Vírus, claro. Nada de abrir. Esse tipo de imeil é que nem aqueles do Aumente Seu Pênis. Todo mundo recebe imeils propondo: Aumente Seu Pênis. Muita gente não resiste. Abre. E se dá mal - é vírus.

A Bela Hammes mesmo. A Bela é editora de Economia. Sabe como são essas editoras de Economia. Usam taliê. Sapato de bico pontudo. São mulheres bem casadas. Mães dedicadas. A Bela é tudo isso. E também recebe imeils do Aumente Seu Pênis. Pois ontem mesmo ela confessou que sempre os abre. Tem consciência de que ali não há nenhuma técnica que faça um pênis em estado de repouso crescer cinco centímetros, como promete a mensagem. Tem consciência de que ali existe um vírus embutido. Mas não consegue se conter. Sua mão trêmula voeja lentamente até o mouse. Ela não quer, ela luta, mas seu indicador, como se tivesse vontade própria, dá dois cliques. Terrível erro - é vírus.

Uma sisuda editora de Economia acessando imeils que apregoam pênis gigantes, que coisa. Só que não há nada de sórdido nisso. Não mesmo. Acontece que esses inoculadores de vírus, eles espertamente se valem dos anseios recônditos das pessoas. As vontades e os temores inconfessáveis. E invencíveis.

Mandaram-me outro, semanas atrás: "Olha o que te espera". Cara, que vontade de olhar. De constatar o que me esperava. O meu futuro. Mas eu não podia. Não podia! Então compreendi o que esses imeils nos ensinam: eles falam da civilização. Que nada mais é do que a repressão de nossos desejos recônditos e até de alguns nem tão recônditos. A civilização que nos afasta dos quindins. A civilização que nos proíbe de lamber ombros dourados durante o trabalho. A civilização que nos diz não! Não ponha mais açúcar, não beba mais um chope, não jogue sem fazer alongamento, não lamba esse maldito ombro dourado! Certa feita, um perplexo Roberto Carlos perguntou: "Será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?" Será? É o que parece.

Ser civilizado é resistir às tentações. Mas, oh, como queria me submeter a elas... Será que não devia mesmo abrir aquele imeil que adverte que estou sendo traído?

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
05/03/2004


A grande suspeita

Os colegas Nílson Souza e Suzete Braun me alertam de que volta e meia chegam mensagens de leitores querendo saber quem escreve as minhas colunas.

Há muitos anos que esta dúvida perpassa o espírito de muitas pessoas, elas não acreditam que meus escritos se compatibilizem com meu tipo físico, com meu jeito de falar na televisão, com a minha origem despida de pecúnia e linhagem, não se conformam que possa ser eu o autor das colunas que há tantos anos são celebradas pela penúltima página deste jornal.

Atualmente, por exemplo, mandam-me dizer os e-mails que existem uma turma de uma universidade porto-alegrense e duas turmas de colégios secundários da Capital debruçando-se exatamente sobre este estudo e investigação: quem será o verdadeiro autor das colunas do Paulo Sant'Ana?

Em suma, para ser mais didático, consideram-me indigno do conjunto da obra.

Devo confessar a essas pessoas que suspeitam de que há por trás de mim um ghost-writer, um escritor-fantasma que cede seus textos para que eu os assine, que por vezes sou assaltado por esta mesma dúvida.

Claro que não em todas, mas quando releio algumas colunas que já escrevi neste espaço, exclamo: "Não pode ter sido eu que escrevi este clássico".

De onde tirei aquela frase? Como pude ser tão feliz ao formular aquela ironia? Mas que bela sacada aquela do meu encontro com Sócrates e Platão numa praça de Paris! E que diabo de inspiração ou de encarnação tomou conta de mim quando formulei aquela coluna em que dizia, a respeito daquela mulher que foi a uma CPI do Congresso denunciar com provas documentais seu ex-marido, que "se você não confia em sua mulher, não se separe dela: atual mulher é cargo de carreira, ex-mulher é cargo de confiança".

Não pode ter sido eu que escrevi aquilo, é impossível que um sujeito das minhas parcas circunstâncias e minha comprovada insignificância tenha tido aqueles lampejos de genialidade contidos em algumas colunas em que acertei na veia e são postas em quadros das salas dos leitores ou coladas nas paredes das cozinhas ou são até hoje conduzidas amarfanhadas nas carteiras que as pessoas portam ou trazem no porta-luvas dos seus carros.

Não pode ter sido eu que escrevi, concluo, tanto que se me fossem exigir neste momento que escrevesse algo aproximado, parecido ou análogo àquilo, não conseguiria nem chegar perto daquela rutilância.

Chegou a tal ponto esta fundada suspeita sobre a autenticidade da autoria de minhas colunas, que esta desconfiança dos círculos hipervígeis da minha coluna culminou com um fato que me irritou profundamente, embora tivesse me inundado ao mesmo tempo de resignado orgulho: circulou durante muito tempo e ainda circula na Internet aquela minha coluna em que tracei uma exegese dos meus amigos, constante dos dois livros de crônicas que publiquei.

Só que na Internet o autor daquele texto em que me embebi de uma ofuscante luz, não sei vinda donde, era e é dado como Vinicius de Moraes.

Os céticos das minhas possibilidades acabaram por atribuir ao célebre poetinha romântico uma póstuma apropriação indébita.

Mas quero transmitir aos meus suspeitadores, entre os quais me incluo, uma tranqüilidade que afinal me acalmou: não é possível que haja esta pessoa que escreve por mim estas colunas.

Pelo simples fato de que não poderia existir aqui, em Porto Alegre, no RS ou no Brasil, uma pessoa que fosse assim dominar a sua vaidade a ponto de, durante todos estes anos, escrevendo com uma altura e uma profundidade de Tolstoi, Goethe, Faulkner ou Lispector, conformar-se com seu humilhante anonimato.

Então vão ter que me engolir, inacreditavelmente até para mim eu sou eu mesmo.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
O Rio Grande pede chuva



Estiagem afeta o gado, reduz produção de lavouras e seca açudes, como o dos Schneider, no Vale do Taquari (foto Roberto Vinícius, especial/ZH)


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Quinta-feira, Março 04, 2004




Breve Silêncio
Silvia Schmidt

Quando tudo num repente se calar,
Quando sem som fizer-se a voz do mundo,
Quando o mar tornar-se mais profundo
Para o silêncio nele repousar ...

Quando pássaros pousarem sem trinados,
Quando o vento soprar sem nenhum som,
Quando notas musicais perderem tom
E os poetas fizerem-se calados ...

Escutarás, assim, por um instante
O som do abismo do silêncio humano ...
Breve momento ... sono repousante ...

Corpo aquecido sob leve pano ...
E uma voz rouca (a minha), doce amante,
Em teus ouvidos a dizer " te amo " ...

Humancat

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SINCERA ...

Foi uma palavra inventada pelos romanos.

SINCERO ...

Vem do velho, do velhíssimo latim.
Eis a poética viagem
que fez sincero de Roma até aqui:

Os romanos fabricavam certos vasos
de uma cera especial.
Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita
que os vasos se tornavam transparentes.
Em alguns casos, chegava-se
a se distinguir um objeto
- um colar, uma pulseira ou um dado -
que estivesse colocado no interior do vaso.
Para o vaso, assim fino e límpido,
dizia o romano vaidoso:

- Como é lindo!
parece até que não tem cera!
"Sine-cera" queria dizer: "sem cera"
uma qualidade de vaso perfeito,
finíssimo, delicado,
que deixava ver através de suas paredes;
e da antiga cerâmica romana,
o vocábulo passou a ter um significado
muito mais elevado.

Portanto, SINCERO é:

Aquele que é Franco, Leal,
Verdadeiro, Que Não Oculta,
Que Não Usa Disfarces,
Malícias ou Dissimulações.
O SINCERO, à semelhança do vaso,
deixa ver, através de suas palavras,
" OS NOBRES SENTIMENTOS
DO SEU CORAÇÃO ".

Malba Taham

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Qualidade de vida após os 60 anos

Expectativa de vida dos brasileiro subiu, porém ainda falta cuidados especiais com a saúde e qualidade de vida

Medidas como a manutenção de um alto nível de atividade intelectual e também de atividade física apresentam benefícios para evitar certas doenças

A média de expectativa de vida dos brasileiros subiu de 62,5 anos em 1980 para 71 em 2002, segundo dados de uma pesquisa divulgada em dezembro de 2003 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As brasileiras levam vantagem, chegando aos 74,9 anos, contra 67,3 anos dos brasileiros.

O Roberto Magalhães, médico geriatra do Hospital e Maternidade São Camilo-Ipiranga alerta, porém, que uma coisa é aumentar o número de anos a serem vividos e outra, completamente diferente, é dar qualidade a esses anos. Em outra pesquisa recente, realizada por pesquisadores da Unicamp, relata que, embora haja aumento da expectativa de vida, homens e mulheres vivem 50% desses anos com incapacidades importantes.

De acordo com o médico, entre as doenças incapacitantes estão a depressão (considerada pela Organização Mundial de Saúde como a principal causa de incapacidade em países desenvolvidos); o diabetes; as seqüelas de acidentes vasculares cerebrais (derrames); a insuficiência cardíaca; as doenças de Alzheimer e de Parkinson; as quedas e suas conseqüências, principalmente a fratura de colo do fêmur; as artroses, principalmente as dos joelhos; o enfisema e a bronquite crônica.

"É possível conviver com uma ou mais doenças crônicas, desde que se mantenha um alto nível de acompanhamento e seriedade com o tratamento", afirma o médico, acrescentando que a geriatria desempenha importante papel, na medida em que tenta detectar, primeiro a propensão para essas doenças e segundo, diagnosticá-las precocemente, para que o tratamento possa ser instituído prontamente.

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Charlie Brown toca amanhã em Mogi

Show da banda será num palco ao ar livre, montado no campo de futebol do Clube Náutico Mogiano; ainda há ingressos à venda

Charlie Brown Jr. apresenta o show "Acústico" na festa que ocorre amanhã

Chorão, Champignon, Marcão e Pelado, da banda Charlie Brown Jr. se apresentam amanhã em Mogi, no palco montado no campo de futebol do Clube Náutico Mogiano. Trata-se de uma festa com oito horas de duração e diversas atrações, marcada para às 23h, que contará com 30 mil watts de som, iluminação hi tech, tenda eletrônica com DJs, telões, espaço para tatuagens e piercings, bares, praça de alimentação. Ainda há ingressos antecipados ao preço de R$ 20, mas esse valor deverá aumentar amanhã.

A banda Charlie Brown tocará a partir da uma hora da manhã, músicas do novo trabalho, o Acústico MTV. O músico Abel e a banda Mr. Mostarda faz o show de abertura. Os ingressos antecipados podem ser adquiridos no balcão de informações do Mogi Shopping. Outras informações podem ser obtidas através do telefone 0800 19 4004. Segundo os organizadores da Branco Produções, a segurança foi reforçada com uma equipe de 150 homens, além do apoio da Polícia Militar.

A banda santista estreou em 1997, com o lançamento do CD "Transpiração Contínua Prolongada". No final do ano passado, Charlie Brown Jr. gravou o projeto Acústico MTV e saiu pelo Brasil em turnê. Com o reforço do produtor Tadeu Patola no violão, o grupo conserva a pegada skate-punk que o tornou famoso. A guitarra distorcida cede espaço para dois violões e as harmonias, simples, ressaltam as letras incisivas, imperfeitas ("Eu não sei fazer poesia, mas que se f...! - diz em "Não uso sapato") e que, mais importante, transmitem sinceridade e sintonia com as ruas e os adolescentes. A iluminação sombria e indireta, com feixes de luz vindos do teto do cenário, que estiliza uma catedral gótica, o vocal (uma mistura de rock e hip hop) e a movimentação frenética de Chorão completam a saudável subversão. É, provavelmente, o primeiro artista da história do Acústico MTV a não cantar sentado em momento algum do programa.

Equilibrando sucessos e canções pouco conhecidas no show, o Charlie Brown Jr. apresenta duas inéditas (a "romântica" Vícios e Virtudes" e a irada "Não Uso Sapato"), além de outras releituras, como "Não é Sério", "A Banda" e "Samba Makossa".

"Por sermos uma banda de rock que usa muita distorção, não conseguia imaginar como seria tocar de maneira diferente, se adaptar ao formato violão. Somos a primeira banda dos anos 90 a gravar o Acústico MTV. É importante mas, ao mesmo tempo, não tínhamos nem em quem mirar como exemplo de como ficou", explica Chorão.

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Faltou o Maestro

De novo sem Felipe, orquestra rubro-negra desafina no Maracanã e empata outra vez na Taça Rio. Desta vez, com o Bangu: 1 a 1
Janir Júnior

Desta vez, não dá para reclamar da arbitragem. O Flamengo tropeçou nas suas limitações e provou que sem Felipe não consegue sair do trivial. Sem poder de fogo, esbarrou na retranca adversária e empatou em 1 a 1 com o Bangu, ontem, no Maracanã, obtendo o segundo empate na Taça Rio, de novo seu seu ¿maestro¿. Na estréia, ficou no 1 a 1 com o Americano e chorou a anulação de dois gols legítimos.

O torcedor do Flamengo pode ser preparar para mais sofrimento. Felipe, com torção no tornozelo esquerdo, também desfalcará o time sábado, contra o Olaria. Ficou provado, de novo, que sem Felipe o Flamengo se nivela por baixo aos demais adversários. Para piorar a situação, o técnico Abel Braga insistiu na escalação de Andrezinho, que sente o peso da camisa 10 e não acerta.

Ontem, os poucos torcedores no Maracanã vaiaram os jogadores, no fim do primeiro tempo. Vaias justificadas, pois o time insistiu em embolar pelo miolo da área banguense e errou seguidamente no último passe.

Retrancado, o Bangu não ameaçou o gol de Júlio César no primeiro tempo. Mas, apesar do maior volume de jogo, o Flamengo não criou jogadas de perigo. Nas vezes em que tentou o gol, seus atacantes tentaram os chutes de fora da área. Jean, Zinho e Diogo tentaram sem sucesso.

No segundo tempo, Abel trocou Diogo por Flávio. Logo aos 2min, Roger recebeu de Andrezinho e na frente do goleiro chutou por cima, perdendo ótima chance. O Bangu deu o troco. Aos 3min, William driblou Henrique e soltou a bomba para uma difícil defesa de Júlio César, que apareceu bem em outros lances.

Aos 9min, o Bangu abriu o placar. China cruzou da direita e Welligton Monteiro tocou para a rede, sem marcação. Três minutos depois, porém, o Flamengo conseguiu o empate. Flávio Nunes trombou com um zagueiro e, de virada, fez o gol rubro-negro.

Perdido em campo, o Flamengo seguiu pressionado. O desespero ficou evidente quando o bandeirinha acertou ao não marcar impedimento de um ataque banguense. Revoltados, Zinho e Fabiano Eller cercaram o auxiliar para reclamar, sem razão. Nos contra-ataques, o Bangu desperdiçou duas chances, a seguir, e só no fim o Flamengo esboçou uma pressão, sem sucesso.

Hoje será definida a transferência dos jogos com Olaria e Portuguesa. O clube quer levar as partidas, da Rua Bariri e da Ilha do Governador, para o Maracanã.

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Que feio, Darlene

Apesar de todas as armações, Darlene cai no gosto do público infantil. Educadores e psicólogos afirmam que a personagem pode influenciar as crianças



Jacqueline Joy e Darlene não poupam armações para atrair flashes

Gilberto Braga a define como uma grande brincadeira. Para Deborah Secco, sua espevitada Darlene beira o patético. Com visual de apresentadora de programa infantil e artimanhas nem um pouco ortodoxas, a aspirante ao estrelato divide opiniões em Celebridade. A um passo da tão sonhada capa da Fama, como viúva do famoso esportista Caio (Théo Backer) há quem se lembre de enredos muito parecidos na vida real , Darlene coleciona fãs principalmente entre as crianças. Mas também é vista como símbolo do que há de pior entre as meninas de sua geração.

É muito triste que uma personagem desse tipo faça sucesso com as crianças. Ela transa em troca de favores. O sexo está muito precoce, essa geração já dançou na boquinha da garrafa. É bizarro. Quais são os parâmetros para o público infantil?, questiona a universitária Aline Boueri, 20 anos.

Depois de arrastar Inácio (Bruno Gagliasso) para a cama e entregar provas contra o próprio pai nas mãos de Laura (Cláudia Abreu) na tentativa de um espaço na mídia, Darlene finalmente chamará a atenção dos jornalistas. A manicure vai anunciar a gravidez fruto de inseminação artificial caseira em pleno velório de Caio no capítulo que vai ao ar dia 10. Com direito a modelito preto e muita choradeira diante do caixão. Apesar das armações, a personagem mantém o carisma com adolescentes.

Acho a Darlene muito espontânea. Ela é legal, tenho até um pouco do jeitinho dela. Faço tudo antes de pensar. Sou igual a Darlene, afirma a estudante Andreza Silva, 17 anos, que não aprova totalmente as atitudes da personagem. Roubar sêmen do Caio e engravidar foi uma péssima idéia. Ela só pensou em se dar bem. Mas tem bom coração, defende Andreza.

Para psicólogos e educadores, cabe aos pais e não à TV ensinarem os filhos a julgar o que vêem na novela. Tudo que aparece na televisão tem impacto na formação infantil. Mas não adianta proibir porque a novela é assunto na escola. Fica mais misterioso e tentador quando todos falam num assunto e a criança não sabe, explica a psicanalista especializada em crianças e adolescentes, Sônia Oksenberg. Os pais devem mostrar que a personagem tem seu lado negativo. As crianças tem que aprender quais atitudes merecem punição. O papel da TV é refletir a realidade e esse comportamento existe, explica.

Apesar de caricata, a personagem faz muita gente lembrar as Darlenes da vida real. No meio em que trabalho, existem várias. Muita gente topa tudo para ter fama. A novela, nesse caso, só está mostrando um comportamento que existe, conclui o promoter Marquinhos Souza.

Se os adultos se divertem com a caricatura de figuras conhecidas, para as crianças o atrativo é ver o mulherão Deborah Secco com trejeitos de menininha. O misto de corpo de mulher com comportamento infantil atrai a atenção das crianças. É como ver um cavalo com cabeça de cachorro, explica a psicóloga Carla Cecarello, presidente da Associação Brasileira de Sexualidade. A criança vê uma mulher, como sua mãe, agindo como ela própria. Tudo que foge aos padrões atrai, finaliza.

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Leticia Wierzchowski
04/03/2004


Crime e castigo

Não, não é o livro do Dostoievski. É o livro do Zuenir Ventura. Chico Mendes, 15 anos depois. Se você lembra do assassinato do líder sindical, do ambientalista que foi um dos primeiros a gritar pela Amazônia (ou mesmo se você não lembra) vale ler o livro.

Zuenir Ventura mostra nestas páginas o melhor do jornalismo, num texto elegante, leve, simplíssimo, inquietante. Ele foi três vezes ao Acre, um lugar que desconhecia tanto quanto eu. Ele foi em 1989, logo que o fazendeiro Darci Alves da Silva mandou seu filho dar cabo da maior voz que a Amazônia já teve. Ele foi alguns anos depois, quando aconteceu o julgamento. E voltou em 2003 pra ver como é que tinham ficado as coisas por lá. Zuenir não só viu, como se envolveu de uma maneira tocante, trouxe consigo para o Rio de Janeiro a principal testemunha de condenação no caso, um adolescente calado e sofrido de nome Genésio, que se tivesse ficado em Xapuri, cidade onde Chico Mendes vivia, não teria sobrevivido para depôr no tribunal e condenar os assassinos num julgamento histórico.

Mais do que a narração de um assassinato, Crime e Castigo é um impressionante relato do Brasil dentro do Brasil. Tem alma ali. Tem um lugar misterioso, de pessoas que levam a mesma nacionalidade que nós, de gente que vive no meio da maior floresta do mundo, e que quer aprender a viver com ela, e dela. Tem mulher, ex-mulher, bigamia, corrupção e talento. Tem o legado de um homem que deu voz à Amazônia e aos seringueiros.

O livro é uma reportagem e um romance. Fala sobre o Acre, mas não é áspero, acerbo ou seco. É redondinho. A única coisa que não desce é essa tendência brasileira à desatenção, o final em que o mocinho acaba morrendo e todo mundo chora sobre o leite derramado (ou sobre a floresta devastada, no caso). É um livraço. Zuenir Ventura conseguiu a façanha de farejar, de recompor, de dar tintas a um homem genial, que aprendeu a ler já adulto, que encantou os gringos e que tinha passe livre nas mais altas rodas políticas e ambientalistas do mundo.

Um cara que morreu no caminho do banheiro, que ficava nos fundos de casa, exatamente no dia em que ia inaugurar uma toalha nova, presente de aniversário, logo ele, que não era ligado nessas coisas. Um cara que morreu de tocaia, mesmo tendo dois guarda-costas. Um cara de nome Chico Mendes, desses que fazem falta no Brasil.

leticia.wierz@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
04/03/2004


Uma doença impiedosa


Peço vênia aos leitores para publicar uma carta. É que sinto uma especial compaixão pelos pacientes dessa doença arrolada no texto. E não se surpreendam que o medicamento exigido seja o Viagra, Zero Hora e esta coluna já se ocuparam disso em cima de reportagem feita no Pavilhão Pereira Filho com pacientes a cargo da equipe de que fazem parte os doutores José Camargo e Bruno Pallombini. Tenho esperança de que alguém possa ajudar essa mulher.

Eis o relato patético: "Paulo Sant'Ana, estou escrevendo para pedir sua ajuda, tenho 32 anos e sou portadora de uma doença rara e fatal chamada HIPERTENSÃO PULMONAR PRIMÁRIA, não tem cura e alguns anos atrás não existia nem medicamento para amenizar os sintomas. Eu comecei a apresentar os sintomas em 1990, naquela época nem os médicos sabiam qual era a minha doença, deram-me poucos meses de vida, os sintomas são horríveis, meu corpo todo incha devido à retenção de líquido. Sinto dores nas costas e no peito, às vezes até pra respirar fica difícil, isso sem falar na falta de ar que sinto, não consigo me alimentar direito, pois é muito cansativo comer, a minha sorte é que consegui na prefeitura um concentrador de ar (oxigênio) e fico presa a uma máquina 19 horas por dia.

Mas com o passar do tempo o coração vai cansando e chega num determinado momento em que ele pára de bater, pode acontecer agora enquanto digito esse pedido de socorro. Sabe, é muito triste ver as pessoas que a gente ama tendo que deixar de fazer as coisas que gostam porque não se pode acompanhá-las. Tenho uma filha de 14 anos e não posso fazer muitas coisas que gostaríamos de fazer juntas, meu marido é o melhor do mundo, nunca reclamou de nada e olha que ele tem motivos de sobra pra reclamar, às vezes ele fala 'a gente podia dar uma voltinha né?', e a resposta quase sempre é negativa, pois não estou conseguindo caminhar muito. Mas vamos ao motivo de eu estar te escrevendo".


* * *

Continua: "Hoje em dia já existe medicamento para melhorar a sobrevida dos portadores dessa doença, um deles é o conhecido VIAGRA, porém ele é muito caro e eu preciso tomar seis comprimidos por dia, um comprimido de quatro em quatro horas, por mês são necessários em torno de R$ 4,5 mil.

O outro é importado, só existe na Argentina e na Europa, é chamado de ILOMEDINE, o valor dele é mais ou menos R$ 16 mil por mês, não tem como eu comprar. Não posso trabalhar por causa do oxigênio e meu marido foi demitido em novembro de 2003. Ele era porteiro. Em 2002 eu havia entrado com um processo na Defensoria Pública pedindo o VIAGRA: recebi o medicamento somente em maio de 2003 e depois em agosto, porém o Estado apelou e a causa foi julgada improcedente e desde então estou sem o medicamento.

Graças à ajuda de algumas pessoas, conseguia um pouco do VIAGRA, mas tinha que reduzir a dosagem, mesmo assim estava dando pra ter uma vida quase normal, porém agora estou sem nada de medicamento, pois quem conseguia pra mim não está conseguindo mais, a crise pegou todo mundo, a minha vida está se acabando aos poucos. Cada dia que eu acordo agradeço a Deus por ainda estar viva, por ter conseguido passar mais uma noite, meu marido tem até medo de me tocar, se eu ficar muito tempo sem me mexer enquanto durmo ele já se apavora e me acorda pra saber se estou bem, é cômico. Até pra tomar banho é difícil, pois sinto muita falta de ar e quando termino o banho fico roxa.

Para arrumar a cama é outra tortura, porque tenho que me cuidar, muitas vezes já desmaiei enquanto fazia isso. Preciso de sua ajuda para conseguir nem que seja um pouco do VIAGRA, não posso mais esperar pelo Estado, pois ele me abandonou à própria sorte, é muito triste, pois na hora de conseguirem votos os políticos sabem como nossa vida é importante, mas fora disso eles simplesmente nos ignoram e não estão nem aí se morremos ou vivemos. E ainda dizem que não há pena de morte no Brasil, eu fui condenada a ela, embora conste que remédio é um direito da população. Desculpe meu desabafo.

Desde já agradeço a sua atenção, e mais uma vez lhe peço desculpas por minhas palavras, sei que o senhor não precisa ouvir esse tipo de reclamação, mas muitas vezes já o vi defendendo pessoas como eu, que não têm mais a quem pedir ajuda. Obrigado, com muito carinho e admiração. Só o fato de tão estimado colunista ter pedido meu telefone para publicá-lo já me deixa feliz. (ass.) Sandra, telefone 3264-4337".

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Nilson Souza
04/03/2004


A maldição da imortalidade

Na onda do Oscar, recuperei outro dia o divertido Piratas do Caribe. Sou fascinado por histórias de bucaneiros e corsários desde que li os livros de Rafael Sabatini sobre as aventuras do Capitão Blood, interpretado no cinema pelo lendário Errol Flynn. O que impressiona no filme recente, além do show de interpretação de Johnny Depp, são os efeitos especiais bolados para caracterizar a maldição do Pérola Negra, o navio tripulado por mortos-vivos. Não vou contar para não estragar a surpresa de quem ainda não viu - e também porque o tema desta crônica é outro: a condenação à vida.

É curioso como a literatura e o cinema recorrem seguidamente a essa fantasia, retirada do inconformismo do ser humano com a brevidade da existência. Queremos viver para sempre, mas não temos a mínima idéia do que faríamos com a imortalidade. Todos os personagens contemplados com a vida eterna - de Fausto ao pirata Barbossa - são criaturas atormentadas, que acabam implorando pela possibilidade de morrer como um humano comum.

Na vida real, porém, ansiamos pela longevidade. Tem gente se congelando para despertar quando a ciência descobrir a cura para todos os males. A revista Veja desta semana está publicando uma reportagem curiosa sobre a extensão da vida a partir dos novos avanços da engenharia genética. De acordo com os cientistas, passar dos cem anos será rotineiro em breve. Na verdade, já é: só no Brasil, revela a matéria, existem cerca de 10 mil pessoas centenárias. E muitas crianças nascidas neste novo século estão condenadas a viver até 120 anos.

Muito além disso, advertem os cientistas, só na ficção, pois o corpo humano foi construído para durar apenas um século ou um pouco mais. Para ultrapassar esta barreira e suportar os desgastes da idade, teríamos que ser bem diferentes, de acordo com a projeção dos pesquisadores. Seríamos baixinhos e cabeçudos, teríamos orelhas enormes, andaríamos curvados e nos sustentaríamos sobre pernas grossas e musculosas. O desenho que simula a imagem do homem capaz de passar dos cem anos com saúde é uma verdadeira aberração para os nossos padrões de beleza. Será que aceitaríamos fazer este pacto com o Mefistófeles da Ciência?

De minha parte, confesso, prefiro manter a alma livre de compromissos e deixar o corpo seguir o seu destino mortal. Só não posso impedir que a imaginação navegue de vez em quando num navio pirata sob a luz mágica do luar do Caribe. Quem não viu o filme, corra para a locadora, pois nem todos vamos viver cem anos.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Copa do Brasil
Inter embala para o Gre-Nal



Oséas, Xavier e Diego comandaram a goleada de 4 a 1 no Confiança que mantém colorado na Copa do Brasil (foto Mauro Vieira/ZH)

Meu amigo Heitor, valeu a ida ao Beira Rio, hein? Nada melhor que ganhar confiança em cima do Confiança.


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Quarta-feira, Março 03, 2004




Casa Baby

Kelly Key e Mico se unem amanhã na Candelária com orçamento de R$ 300 mil, convite com estampa de leopardo e temática africana na festa
Ana Lúcia do Vale e Zean Bravo



Estou feliz e tranqüila porque sei que escolhi tudo certo, inclusive o Mico. Sempre foi meu sonho casar, Kelly Key

Hoje, Kelly Key faz 21 anos.Mas o presente de aniversário, a musa de Baba, Cachorrinho e Adoleta vai se dar amanhã: um casamento de R$ 300 mil, com dia de beleza e noite de núpcias no Copacabana Palace, vestidos de Ronaldo Ésper (R$ 20 mil no total), entrada triunfal às 19h30 na Igreja da Candelária, com a filha Susanna como dama de honra e recepção para 300 pessoas na tradicional Villa Riso, em São Conrado. Sempre foi meu sonho casar e ter um casamento perfeito. Quer igreja mais bonita do que a Candelária?, diz Kelly Key.



Convite de Kelly e Mico, na verdade, Jaime: inspiração africana

A pedido da noiva, tudo terá inspiração africana: do convite, com estampa de leopardo, à decoração. Kelly quer que se sintam em casa o futuro marido, o angolano Mico Freitas, 23 anos, e os mais de 150 convidados dele que vieram de Angola e de Portugal, num avião fretado por Mico. Dois negros tocando atabaque, com calças brancas e pinturas africanas, vão recepcionar os convidados na festa.

O cabeleireiro Toninho Alves veio de São Paulo. Ela quer que eu a acompanhe desde o início. Kelly virá com a frente do cabelo presa e a parte de trás solta, adianta o cabeleireiro. Semana passada deixamos tudo pronto. Ela está com os cabelos alongados e franja, num tom cor de mel, com luzes amendoadas, descreve. A maquiagem será em cor pastel, com boca bem natural.

Enquanto Mico estará de terno Armani azul marinho, o vestido de Kelly, de cetim branco, bordado no peito e com cauda de dois metros, feito por Ronaldo, será clássico.Tinha uma idéia explosiva da Kelly. Pensei que ela fosse querer uma coisa justa, sexy, num estilo sereia, admite o estilista, que assinou ainda o modelo decotado que ela usará na festa e o vestido de dama de honra.

Entre os convidados, os autores dos hits de Kelly, Gustavo Lins (Adoleta) e Andinho (Baba). Desejo ainda mais sucesso para ela no amor. A Kelly faz parte da minha carreira¿, destaca Gustavo. Já Andinho, ainda tenso por ter que ir todo embecado para a festa, não se surpreendeu com a escolha da Candelária. ¿Kelly gosta de impacto, quer a casa cheia, diz ele, que acredita que o ex dela, Latino, já tenha superado a separação. Mas o cantor não vai, nem quer falar sobre o assunto: ele ainda tenta provar na Justiça que teve uma união estável com Kelly.

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David Coimbra
03/03/2004


Foto(s): Léo Correa, divulgação, Banco de Dados/ZH

O drama de Eike

Entendo o Eike. Hoje, criticam-no. Hoje, chamam-no de infiel. Mas ninguém reflete sobre seu drama. Sobre tudo o que deve ter passado. Eike, creia, é um atormentado.

Em primeiro lugar, a história da coleira. Você lembra: em outros carnavais, Luma desfilou usando uma coleira onde estava gravado o nome de Eike. O Brasil ficou excitado com o gesto da morena. Porque as pessoas imaginavam: Luma assim encoleirada na Sapucaí está dizendo ao mundo que é a cachorrinha de Eike, que é submissa a Eike, que lhe faz todas as vontades, que lhe obedece em tudo. Tudo. Luma, uma gueixa. Uma cachorrinha. Lembro do Wianey comentando a respeito do assunto, repetindo, entre dentes:

- Cachorrrrriiiinha... Cachorrrrriiiinha...

Certo. Agora, nesse Carnaval, o que aconteceu? Para não desfilar, Luma alegou estar grávida. Mentira. Ela está tão grávida quanto o Cabral, viril lateral-direito do Canarinho nos anos 70. Então, por que Luma patrocinou tal farsa? Porque Eike pediu. Eike confrontou-a:

- O Carnaval ou o casamento.

Ela optou pelo casamento. E ainda assim não deu certo. Ainda assim, Eike se foi. Dizem que para outra mulher, outros filhos, outra família. Se é verdade, não sei, mas o fato é que as pessoas acreditaram. Estão criticando Eike. Crucificando-o. Por que ele quereria outra mulher, se tinha Luma?, questionam. E uma Luma submisssa, uma Luma de coleira.

Assim, acusam-no de traição. E o condenam.

Mas a pergunta que nenhum acusador faz, e que devia ser feita, é: por que os sacrifícios de Luma, a coleira, a abdicação ao Carnaval, por que nada disso foi suficiente para Eike?

Se você não sabe a razão, certamente nunca prestou atenção nas minissaias da Luma. Nos seus biquínis sumários. Nas minúsculas fantasias com as quais desfilava diante da mesmerizada bateria da Viradouro. Eike não agüentou, compreende? Não agüentou todos os homens desejando sua mulher. Não agüentou os boatos difamantes, tipo a Luma ter um caso com Chico Buarque, ou até mesmo com um bombeiro, algo de fato absurdo, embora todos aqui sejamos admiradores dos bravos soldados do fogo. Eike simplesmente não agüentou.

Nem com uma coleira pública lhe cingindo o pescoço Luma fornecia a Eike a segurança que um homem precisa ter. Imagino Eike sofrendo todos os dias a dor da desconfiança, a tortura da dúvida. Pobre Eike. Trata-se de uma vítima. Se realmente tem outra mulher, essa deve ser um belo tipo de camponesa, ou uma matrona que lhe prepara apetitosas guloseimas para o jantar. Provavelmente, a chama de mãe. Assistem juntos ao Faustão, sentados lado a lado no fofo sofá, mastigando nuguets:

- Corre, mãe, que vai começar as videocassetadas.

Às vezes, o homem troca o feitiço perturbador de uma bela mulher pela segurança da mediocridade.

É o que está acontecendo no caso Grêmio & Bruno. O Grêmio anseia tanto pela certeza de possuí-lo que está se atrapalhando, se confundindo, confundindo a todos. Aí está um Grêmio insano, aflito só com a possibilidade de ser traído. Não sabe, talvez, que esse é o caminho mais fácil para perdê-lo. O que, isso é certo, fará com que Bruno perca também. A Luma que o diga.

Foto(s): Jockel Finck, AP, Banco de Dados/ZH

Teste de fidelidade

Estão testando a minha fidelidade. Desde o Oscar, as pessoas me perguntam:

- Agora quem tu achas mais bonita: a Nicole Kidman ou a Charlize Theron?

Não adianta. Sou fiel. Charlize é linda, sim, estava dourada e estonteante na entrega do Oscar, concordo. Mas olhe para Nicole. Olhe: sua palidez superior. Seu porte de imperatriz. As lendas a respeito de Nicole dão conta de que ela se resguarda como poucas. Que mantém uma distância olímpica dos demais seres humanos. Pudera: Nicole está lá em cima; nós aqui. Charlize também, no mesmo andar. Distante, talvez. Inatingível, provavelmente. Mas no mesmo andar...

Foto(s): Patrick Gardin, AP, Banco de Dados/ZH

Nicole é como Ronaldo Nazário, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho. Os outros podem ser bons, mas eles são superiores. Ninguém, no Brasil, está no mesmo andar deles.

Pelezinho e Ariosto

Ontem mesmo, eu, o Amilton Cavalo, o Jorge Barnabé e meu irmão Régis chegamos a um consenso: o Pelezinho foi o maior jogador do IAPI de todos os tempos. Ponta-de-lança do Canarinho no tempo em que o ponta-de-lança era rei. Pequeno, magro, mas forte. Preto como os cabelos de Iracema. Chute certeiro como um tiro de Yancey Cravat. Passe infalível como um soco de Tex Willer. Pelezinho.

Uma vez, roubou a bola do adversário na sua meia-lua de defesa, que o Pelezinho até desarmar, desarmava. Pois desarmou. A bola meio saltou para um lado, Pelezinho ainda não estava bem equilibrado no lance, e um adversário veio de lá, bufando, um adversário grandão e brabo e babando para dividir aquela bola. Dividiu. Só que o Pelezinho trancou-a firme com sua chuteira número 37, ele pequeninho, o outro um gigante. E foi o gigante que voou para a marca do pênalti, todo desmontado que nem o Recruta Zero depois de apanhar do Sargento Tainha.

O Pelezinho seguiu com a peronha grudada no pé direito e com ela grudada se mandou, ziguezagueando na direção do gol. Foi e foi e foi sem parar, deixando o adversário em pânico e os companheiros do Canarinho sem fôlego. Ao driblar o goleiro, finalmente, o Pelezinho estacou. Olhou para o lado. Ali estava o Ariosto, um lateral-esquerdo brioso, mas com alguma deficiência técnica. Na verdade, o pior do time. O único que jamais havia feito um único gol. Pois o Pelezinho, depois de driblar todo mundo, se compadeceu do Ariosto. Tocou a bola para ele. Toma, Ariosto, faz o teu gol. O Ariosto sorriu, agradecido. Empurrou para dentro do gol. Saiu festejando.

Não muito.

O juiz marcou impedimento. O Pelezinho era craque, era generoso, mas pouco sabia da regra. Pena, Pelezinho.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Martha Medeiros
03/03/2004


Lápis, caderno e borracha

Aconteceu em dezembro passado: "O que você pediu para o Papai Noel?", perguntou o repórter a um menino que vivia num barraco e que usava um calçãozinho três números menor do que o seu corpo exigia. Suspirei fundo. Que repórter é esse que coloca uma câmera de televisão na frente de uma criança que provavelmente nunca teve um sonho atendido? "Material escolar", respondeu o menino.

O menino queria ganhar material escolar do Papai Noel. Iria pra escola em março, queria lápis, borracha e caderno, que o pai não podia comprar.

Corta para o repórter entrevistando o pai. Ficassem tranqüilos os telespectadores, o menino teria seus lápis, borracha e caderno na noite de Natal, seria seu primeiro presente em sete anos de vida, seu primeiro sonho atendido. Meu coração ficou do tamanho de meio amendoim.

Na hora não pensei que maravilhoso era ver um menino humilde ir para a escola. Pois a notícia era esta, um menino, ao vivo, em rede nacional, escapando da marginalidade, com chance de estudar e, caso os deuses seguissem abençoando sua família, assim seria nos próximos anos, e um futuro decente o aguardaria no final do arco-íris.

Bela história, e meu coração nem assim voltava ao tamanho normal, meus batimentos eu nem sentia. Material escolar de presente de Natal, dois meses antes do início das aulas, é um bofetão cuja dor não passa rapidinho, trocando de canal.

Semana passada entrei numa livraria com uma lista na mão e enchi o cestinho com canetas hidrocor, massa de modelar, papel celofane, tesoura, pincel, glitter, essas coisas que escolas exigem nos primeiros anos do Ensino Fundamental e que mais parecem brinquedos, e penso que o brinquedo que aquele garoto ganhou de Natal foi lápis, borracha e caderno, e não caminhãozinho, bola, skate. Só lápis, borracha e caderno. Que qualquer pai deveria poder comprar folgadamente com seu salário mensal, dias antes do início das aulas, como fazemos com nossos filhos, os maiores ainda adquirindo livros, arquivos, pastas e mochilas, tudo entregue a eles de mão beijada porque é nossa obrigação. Não é Natal.

Mas é Natal pra quem finalmente vai poder estudar, pra quem conseguiu ter seus lápis, borracha e caderno, pra quem é obrigado a trocar o lúdico pelo útil, pra quem precisa de datas especiais para conquistar o que deveria ser um direito.

Saí da livraria com duas sacolas cheias de cartolinas, giz de cera, réguas e estojos coloridos. Estamos no início de ano letivo, apenas isso. Mas para diversos meninos e meninas - haja coração - estudar é Natal.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
03/03/2004


Era uma vez três amigas

Quem quer ver o Brasil crescer a partir de 2004, quem sonha que este ano possa marcar a arrancada para a criação de milhões de empregos, olha de soslaio para a crise instalada com as acusações contra Waldomiro Diniz.

Não era a hora de o presidente Lula ver-se assim atrapalhado e constrangido com denúncias contra seu governo.

A hora seria de torcer para que Lula pudesse finalmente atirar-se às medidas que possam encaminhar o país para uma recuperação dessa estagnação que assusta a todos, principalmente pelo desemprego.

O desemprego é silencioso e surdo, suas vítimas não saem para as ruas para clamar contra a sua aflição por terem consciência de que não há solução para seu terrível impasse.

Os desempregados se resignam com seu destino, esgotaram suas forças ao tentar obsessivamente uma colocação de porta em porta, tangidos sempre pela recusa fria e inexplicável.

Os relatos que chegam até nós, da imprensa, são marcados pela dor ressentida e pelo desespero existencial.

Os que têm mais de 40 anos deixaram de culpar essa desvantagem para sua preterição nos postos de trabalho: viram que até os jovens são recusados, então para eles não há mesmo salvação.

Três jovens me enviam uma carta comovedora sobre suas dificuldades para tentar iniciar suas caminhadas pelo trabalho e pelo estudo.

Assinam junto o relato, talvez para se sentirem mais fortes assim enlaçadas na luta contra a adversidade do desemprego.

Eis o e-mail: "Caro Sant'Ana. Era uma vez três amigas... Maria Lúcia, 22 anos, professora primária, faculdade trancada (privada), atualmente desempregada; Luciane, 21 anos, técnica em contabilidade, desempregada, candidata, mais uma vez, a uma vaga da UFRGS; Aline, 20 anos, estudante de Ciência da Computação (privada), profissão: caixa operadora.

Três jovens amigas da periferia de Alvorada; vários objetivos em comum, entre eles, o principal: ingresso, permanência e conclusão do nível superior. Um dos desafios enfrentados por Maria Lúcia é a conclusão do curso superior na faculdade privada (Letras/licenciatura - trancada no quarto semestre), pois o mercado de trabalho na área não oferece condições mínimas para tal (salários, horários, estabilidade...). Recém formada, sem experiência, Luciane busca sua primeira oportunidade de trabalho (procurava antes mesmo do término do curso).

Porque é a única forma que vê para ingressar no ensino superior - privado, já que na UFRGS a concorrência é injusta e desleal ('Não é todo mundo que pode pagar um cursinho, que tem tempo para estudar, que estuda em escola particular') - esse objetivo acaba sendo adiado. No caso da Aline, que está empregada (não na área do curso), a dificuldade maior está na flexibilidade de horários e nas condições salariais. Para completar o valor das mensalidades de duas cadeiras (mínimo estipulado pela instituição), ela tem que trabalhar dois domingos extras para somar ao salário. Agora perguntamos: o que fazer? Será que ao que aspiramos é tão improvável ou impossível de se alcançar?

Ou será uma falta de oportunidade, de uma chance, de um voto de confiança? Apostar no potencial de um jovem, mesmo sem ou com pouca experiência, mas com muita vontade de crescer, não valeria a pena? Obrigado pela atenção. (ass.) Maria Lúcia Pinto Machado - professora primária, RG 4078860378, cel: (51) 91827966; Luciane Aparecida Pinto Machado - tec. contabilidade, RG 7079006099, fone: 4437287, e Aline Nunes Timmers - caixa operadora, RG 6059907491, fone: 4439390, Alvorada".

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Emergência em 22 municípios



Mesmo as espécies mais resistentes de soja são afetadas pela estiagem prolongada, principalmente no Noroeste (foto Paulo Vilani, especial/ZH)


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Terça-feira, Março 02, 2004




Liberato Vieira da Cunha
02/03/2004


Campo de batalha

Atravessava o que supunha ser um dos pontos mais tranqüilos do centro de Porto Alegre, quando percebi que na real ingressara num campo de batalha. Dois mangolões de uns 20 anos, cada um dos quais estimulado por torcidas de adolescentes e barbados, travavam o que me pareceu ser uma disputa de território. O primeiro, equipado de um porrete de grosso calibre, levava vantagem sobre o outro, que se defendia desarmado.

O combate equilibrou-se quando este último recorreu a uma barra de ferro até ali oculta sob uns arbustos. A contenda assumiu então uma ferocidade própria de trogloditas. Se um dos rivais acertasse a cabeça do oponente, ocorreria um sangrento nocaute. Mas pela altura do quinto round o portador da barra, em visível inferioridade, bateu em retirada e o vencedor foi alegremente aclamado.

Isso aconteceu em plena Praça Otávio Rocha. A pauleira durou pelo menos 10 minutos e nem ao longo desse tempo, nem depois, pintou qualquer vestígio de agentes da lei. A marginália que tão entusiasticamente incitara o vale-tudo permaneceu no local festejando o campeão e só aos poucos se dispersou.

Ora, a Praça Otávio Rocha é um espaço presumivelmente agradável. Nas vizinhanças situam-se seis hotéis estrelados e dois grandes magazines. Não longe ficam duas igrejas, o Instituto de Artes e a Rua da Praia. Seus jardins, escadarias, o terraço compõem um belo conjunto, característico de uma época inspirada de nossa evolução urbana e que felizmente escapou do modismo das tubulações e casamatas, que desfiguraram a Praça do Alto da Bronze, para não ir além de um exemplo.

Perguntei a um lojista se pegas como o que eu acabara de assistir eram comuns ali. Esse cavalheiro não apenas confirmou; contou que o pedaço é freqüentado por trombadinhas, rufiões e prostitutas e que na semana anterior um casal proporcionara aos transeuntes - a céu aberto e às 11 da manhã - um explícito espetáculo de sexo ao vivo.

A degradação de Porto Alegre e de um longo rol de metrópoles brasileiras deita raízes em complexas e profundas causas históricas, econômicas e sociais. Mas nem ante esse cenário desolador é aceitável que diferentes instâncias de poder se demitam de alguns deveres elementares. Já nem menciono os visitantes que se hospedam nos hotéis a que aludi. Aos cidadãos desta Capital cabe o direito de um mínimo de garantias de proteção contra a violência.

Sugiro às autoridades competentes que comecem por policiar intensa, ostensiva, ampla e permanentemente a Praça Otávio Rocha, convertida em uma arena de guerra e de desvergonha; a Praça da Alfândega, antro de meretrício e cafetinagem de altíssima rotação; e a Praça da Matriz, que, nas barbas do Palácio do Governo, da Assembléia Legislativa, do Tribunal de Justiça, da Catedral e do Memorial do Ministério Público, teve invadidos seus canteiros por escalões avançados da mais triste, miserável, deserdada escória do gênero humano.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
02/03/2004


A esquerda e a corrupção

Tomamos um táxi em Havana e a primeira coisa que o motorista perguntou foi se queríamos pagar pelo taxímetro ou combinando com ele. Perguntei qual a diferença.

- Pelo taxímetro - foi a resposta -, o dinheiro vai para o governo. Se combinarmos, vai para o meu bolso, mas custará menos.

Esse diálogo, é bom assinalar, ocorreu num país considerado comunista, onde os táxis não são propriedade privada; estão sob controle governamental. Remete-nos, assim, a um tema interessante, e agora atual: a esquerda e a corrupção. Coisa que aliás não interessava muito aos líderes e teóricos esquerdistas. Para Marx, o grande vilão era o capital; a corrupção seria, portanto, apenas um dos meios aos quais o capital recorreria para se multiplicar.

Uma sociedade sem capital, a sociedade comunista, seria teoricamente imune à corrupção, mesmo porque os ganhos dela resultantes não poderiam ser aplicados em nada que se caracterizasse como propriedade privada. Mas corrupção é uma coisa insidiosa, disseminada e surpreendente; como vírus de computador, aparece quando menos se espera, e progride por etapas.

A primeira etapa é a da mordomia. Na finada União Soviética, os membros da elite tinham privilégios especiais, um dos quais era clássico: a datcha, a casa de campo. Os cidadãos comuns comprimiam-se em apertados apartamentos, mas os líderes tinham um lugar especial para repouso e outras atividades. Depois das mordomias vem a grana propriamente dita; sempre se arranja um jeito de desviá-la. Não é de admirar que a Rússia pós-comunismo tenha se revelado um país especialmente corrupto; o know-how já existia, e estava só à espera do liberou geral.

Num país totalitário, só o governo pode combater a corrupção; se ele não a combate, ninguém tem como fazê-lo. Num país democrático, é diferente, mas esta diferença não resulta de boas intenções, e sim de uma contradição inerente ao capitalismo: não se pode permitir a livre difusão de dinheiro e de mercadorias sem permitir a livre difusão de informação, inclusive de informação sobre a corrupção. Se há sacanagem, todo mundo fica sabendo.

E aí é preciso fazer alguma coisa. Ao fim e ao cabo, a democracia ainda é a melhor forma de fazer justiça social, uma coisa que a esquerda está descobrindo (ou redescobrindo). É um aprendizado lento e doloroso, que implica em descobrir as próprias fraquezas da esquerda. Mas é um inegável progresso. Mostra que, apesar de tudo, o mundo em geral, e o Brasil em particular, estão melhorando.

O quase Oscar Cidade de Deus não apenas consagra um filme, consagra um escritor: Paulo Lins, amigo cuja carreira acompanho há tempo. Negro, pobre, morador de favela, Paulo Lins deu a volta por cima: concluiu a universidade, tornou-se escritor e resumiu sua experiência num belo livro. Grande ser humano - e um símbolo para este país.
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
02/03/2004


Morar juntos

De todas as acusações que tenho visto partir da oposição contra José Dirceu, o ministro da Casa Civil, no caso da corrupção passiva do seu ex-assessor Waldomiro Diniz, a que noto ser a mais insistente é: "Morou com ele".

Ainda esses dias assisti a um debate na TVCOM em que, enquanto os deputados Estilac Xavier e Maria do Rosário, ambos do PT, faziam a defesa do ministro José Dirceu, argumentando que o chefe da Casa Civil não tinha qualquer envolvimento nos achaques do seu assessor na Loterj, do Rio, eram interrompidos pelo deputado Alceu Collares (PDT), que gritava repetidamente: "Morou com ele, morou com ele!"

Não são bem esclarecidas as circunstâncias em que o ministro José Dirceu morou com Waldomiro Diniz. Consta que foi numa república de solteiros, talvez um apartamento, talvez uma pensão.

Talvez fosse até o caso de o ministro José Dirceu explicar os detalhes desta pretérita convivência em pensionato com Waldomiro Diniz, pode ser que aí se derrubasse o maior argumento da oposição, tal a veemência com que os que querem a instalação da CPI esgrimem essa acusação de intimidade entre o ministro e seu ex-assessor.

Juridicamente, nem o casamento ou concubinato implicam necessariamente co-autoria dos cônjuges em delitos ou imoralidade.

Mas é firmado entre nós que duas pessoas que morem juntas, embora sem relação carnal alguma, caso de José Dirceu e Waldomiro Diniz, pensam e agem da mesma forma.

Morar junto, no juízo popular brasileiro, é uma relação tão estreita que redunda mais que em intimidade, chega até a cumplicidade.

Quando, na verdade, se foi numa república que José Dirceu morou com Waldomiro Diniz, então o ministro seria co-autor de qualquer deslize cometido por todos os outros integrantes da moradia coletiva? Certamente isso é um exagero.

Mas a oposição brande com tanta insistência essa acusação para frisar que, além de ter nomeado Waldomiro Diniz como seu importante assessor, o ministro mantinha com ele compartilhamento estreito de privacidade, confiando-lhe até o consórcio doméstico, o que denunciaria um contubérnio incondicional em todas as outras relações.

Insisto: era preciso que o ministro José Dirceu viesse a público e detalhasse todo o convívio que teve com seu ex-assessor, mesmo que fosse o mais aproximado possível, ressaltando depois que tinha sido traído em sua confiança por um amigo, nada tendo a ver no entanto com seus desvios de conduta. Isso tinha que ser feito com abrangência e veemência.

O silêncio ou laconismo do ministro deixa transitar no imaginário da oposição e até da opinião pública que ele não abjura a amizade que teve com seu ex-assessor e que se mostra ainda solidário pelo menos com a memória da amizade antiga.

E robustece e encoraja a única, frágil, graciosa e simplória acusação que pesa contra o chefe da Casa Civil até agora: a do co-inquilinato.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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América Latina
Marines tomam posição no Haiti



Fuzileiros navais desembarcaram ontem em Porto Príncipe, no dia em que os rebeldes armados chegaram à capital (foto Ricardo Mazalan, AP/ZH)

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CD E DVD DE CAETANO ESTÃO NA BOCA DO FORNO

A Foreign Sound, disco em que Caetano Veloso (foto) recria canções americanas, sairá simultaneamente no Brasil, EUA, Japão e Europa. Com repertórios levemente diferentes, CD (gravado em estúdio desde maio) e DVD (gravado em show no bar Baretto, em São Paulo) trazem recriações de músicas como Summertime (com acento percussivo), Stardust (em falsete), The Carioca (tema do filme Flying Down to Rio, de 1933), Love me Tender e Sophisticated Lady. Come as You Are, da lavra do Nirvana, ganhou sotaque camerístico.

O guitarrista Pedro Sá e o baterista Domenico Lancelotti estão entre os músicos recrutados por Caetano para suas releituras de standards americanos como Body and Soul, Cry me a River, So in Love, Nature Boy, Diana e I Only Have Eyes for You.

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Aqui como na Terra Média

Fãs da saga de J.R.R. Tolkien comemoram Oscar de O Senhor dos Anéis e não sofrem por Cidade de Deus
Tatiana Contreiras



Legolas (Orlando Bloom) e Aragorn (Viggo Mortensen) lutam para destruir o Um Anel e proteger a Terra Média das forças do mal, lideradas por Sauron

Onze Oscars depois melhor filme, diretor, roteiro adaptado, direção de arte, canção, montagem, figurino, trilha sonora, som, efeitos visuais e maquiagem , os adeptos da Sociedade do Anel criada por J. R. R. Tolkien e levada às telas por Peter Jackson ainda estão em êxtase. Por aqui, a vitória esmagadora de O Senhor dos Anéis O Retorno do Rei na cerimônia do Oscar, domingo, provocou até um atentado à pátria: não faltou torcida contra Cidade de Deus. Na festa do Odeon BR, entre gritos contra Jackson, houve quem tenha mandado um cala a boca!, pela honra da Terra Média, claro. Os Tolkienmaníacos são muitos, e não estão sós.



Fábio (E) é fã. Seu amigo Richard Macgrath também não perdeu um filme

Estava com o coração dividido e virei casaca em vários momentos, confessa o publicitário Fábio Campos, 24 anos. No geral, torci para o Brasil. Mas a cada quesito lembrava que O Senhor dos Anéis era melhor. Não sofri em nenhuma vez que CDD perdeu, completa Fábio. Existem dois tipos de fãs dos filmes: os que leram os livros e gostam de qualquer maneira e os que gostam de um bom filme. Mas estes eu duvido que tenham entendido o drama élfico, esnoba.

E não teve para ninguém mesmo. Depois de levar o Oscar de melhor filme estrangeiro por Invasões Bárbaras, a produtora Denise Robert chegou a agradecer por O Senhor dos Anéis não concorrer naquela categoria. Fiquei admirado do filme ter recebido todos os 11 prêmios para os quais foi indicado. Li pela primeira vez na escola, há oito ou nove anos, diz o advogado Pierre Gaudioso, 24 anos. Fizeram isso para o filme entrar para a história e igualar o recorde de Titanic e Ben-Hur. Acho que poderia ter sobrado unzinho para o nosso nacional, completa. Mas até Fernando Meirelles, diretor de CDD, já havia dito que esperava a consagração da aventura dos hobbits. Em e-mail divulgado ontem, ele afirmou que venceu o que era lógico e razoável.

Pode ser. Afinal, há quem considere a trilogia, escrita em 1954, quase uma religião. É um mundo encantador, apesar de perigoso. É tudo que a gente quer ser mas não pode, uma coisa mágica. E a magia sempre chama atenção, porque a vida real é ruim, justifica sua adoração o universitário Diego Gabrig, 23 anos. Ele é tão fã que, ao lado do amigo Alexandre Nix, 25, criou a Montagem do Anel I, que narra a aventura do primeiro filme da saga em batidão e vocabulário funkeiro. Entre os versos, coisas como Frodo vai pra pista, puxa o bonde do anel: Funcionou e muita gente baixa na Internet, conta o moço. Na Terra Média, Peter Jackson hoje é o rei.

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A mentira de umbigo de fora

Musas da Avenida se dividem na defesa de Luma e dizem que o amor nem sempre justifica tudo
Zean Bravo

Vale tudo por amor? Luma de Oliveira mentiu e usou o nobre sentimento para se justificar. No fim, garantiu que o amor à escola foi soberano, e abriu o coração dizendo que não poderia manter a versão de que não desfilou por causa da gravidez depois de ver os ritmistas da Mocidade com seu nome no pescoço. Todas nós amamos verdadeiramente nossas escolas. Esse ano fui chamada para ser musa do Salgueiro e nenhum namorado me impediria de sair, explica Karen Motta, assistente do palco do Caldeirão do Huck. A morena não condena Luma. Ela não desfilou por causa de um casamento. Não dá para comparar meu sentimento com o dela.

Madrinha da bateria da Unidos da Tijuca, Fábia Borges confessa que negocia com o marido para desfilar no Carnaval. Ele não gosta, mas todo homem sabe que não há nada melhor que mulher satisfeita em casa. Também faço coisas que não gosto por causa dele, como acompanhá-lo em viagens a Hong Kong, destaca Fábia, que ataca a atitude de Luma. As pessoas ficam tão loucas de satisfazer a mídia e criam situações. Não tem necessidade de mentir para o público.

Nana Gouvêa, madrinha de bateria da Caprichosos de Pilares, é outra que não aceita amor como justificativa de mentira. Isso pegou muito mal. Era óbvio que ela não estava grávida. Ninguém é imbecil de acreditar nisso. Também não acho que ela deixou de desfilar por amor ao marido, polemiza Nana. Para ela, ideal de musa do Carnaval é Luiza Brunet. Ela não precisa botar nada de fora, nem cavar notícia. É elegante, séria, linda e bem casada.



Nana Gouvêa - Madrinha de bateria da Caprichosos de Pilares, Nana Gouvêa desaprova completamente a atitude de Luma. Mentir é feio. O que ela fez foi vergonhoso, critica a modelo, de 28 anos. Ela jura dedicar nove meses do seu ano ao Carnaval. Desfilar é uma gestação e exige dedicação total. Convivo com a bateria da minha escola mais do que com minhas filhas, garante Nana, que diz ter feito inúmeras loucuras por amor. Aos 16 anos queria casar e meu pai não deixava, então engravidei.



Fábia Borges - Casada há oito anos, a madrinha da Unidos da Tijuca admite que seu marido é muito ciumento. Mas se ele quiser ter uma mulher feliz em casa tem que abrir mão. Tivemos momentos sérios por causa do Carnaval, mas quando o amor é verdadeiro se chega a um acordo, acredita a morena, de 25 anos. Tenho uma relação de amor com o Carnaval, mas é preciso dosar as coisas, destaca. Sobre Luma, ela é direta: Não se sabe se foi amor pelo marido, pela escola ou pela mídia.



Karen Motta - Assistente de palco do Cadeirão do Huck, Karen Motta, 20 anos, foi uma das musas do Salgueiro. Graças a Deus meu namorado não é ciumento e ficou lá torcendo feito louco por mim, destaca a moça, que sai em defesa de Luma. Entendo o lado dela. Quando se ama muito uma pessoa você faz loucuras. Mas o marido sempre pareceu apoiar tudo o que a Luma fazia, avalia Karen, que confessa o ato mais extremo que cometeu por amor. Pulava o muro de casa para namorar o vizinho.



Rita Guedes - A atriz, que brilhou em sua estréia no Salgueiro, é enfática: Nunca me anularia. Luma é uma mulher forte, que parece não abrir mão do que lhe é essencial. E ela disse que ama acima de tudo os filhos e o Carnaval. Mas a mentira de Luma vale? A gente faz burradas mas se perdoa quando é por amor, releva Rita.

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Samba da verdade

Gravidez falsa da musa Luma de Oliveira se transforma no enredo mais confuso do Carnaval
Flávia Motta e Zean Bravo




Luma e o marido, Eike, iam juntos à quadra. Segundo o carnavalesco Chico Spinosa, uma semana antes de anunciar gravidez, casal visitou o barracão

Falta um mês para primeiro de abril, mas vai ser difícil contar mentira melhor que a da musa Luma de Oliveira. A madrinha de bateria (ou ex, nunca se sabe) da Mocidade Independente admitiu anteontem que não está grávida e ainda disse que foi obrigada a inventar a gestação, uma vez que o marido (ou ex), o empresário Eike Batista, a teria feito optar entre o desfile ou o casamento.


Luma me usou. Até as baianas ficaram preocupadas com a gravidez, Chico Spinosa

A notícia é apenas mais um da série de micos que Luma e Eike vêm protagonizando desde o início do mês passado. Primeiro, a musa desistiu de desfilar, usando a suposta gravidez como defesa. Depois, anunciou um divórcio cercado rumores, como os de que Eike teria outra família e de que o filho não seria do empresário. Até o advogado da modelo, Michel Assef, entrou na dança. Ela só me revelou na sexta-feira que não está grávida, numa situação extremamente desconfortável, já que tinham começado a especular sobre a paternidade do filho, contou ele, ressaltando que a mentira não tem relevância no processo de separação litigiosa do casal.

Apesar dos papéis em andamento, o irmão de Luma, Mem de Oliveira, não descarta a possibilidade de reconciliação. Qualquer casal que briga pode voltar. Isso pode acontecer daqui a um ano ou mais. Só que é um assunto dos dois, corta a conversa. Sobre os alegados ciúmes do cunhado, Mem prefere não falar. Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.

Na Mocidade, o clima ontem era de solidariedade. Se tinha gravidez ou não, não interessa. A escola já sabia do problema emocional dela. Do jeito que estava abalada, poderia nos prejudicar. E ela ter dito que ficou triste, vendo de casa a homenagem dos ritmistas (que usavam coleiras com o nome de Luma, como ela havia feito com Eike em 1991), é prova de amor, defendeu Paulo Padilha, presidente de honra da escola, garantindo que a musa permanece no posto.

Já o carnavalesco Chico Spinosa, idealizador da homenagem, ficou desapontado. Uma semana antes de anunciar a gravidez, Luma e Eike estiveram no barracão e ele se interessou em ajudar a escola porque o dinheiro do patrocínio não tinha saído. Espinosa contou ainda que, na véspera do Natal, Luma foi à quadra com presentes para as crianças da escola. Quando desisitiu de desfilar, me deu todo o material da fantasia dela, que usei para uma passista da comunidade. Até então, era a pessoa mais generosa que tinha conhecido no Carnaval. Luma me usou.

O ritmista Alfredo Oliveira, 35 anos, contou que, até o início do desfile, boa parte da bateria acreditava que Luma pudesse aparecer. Só não entendo como o marido criou problemas se sempre deixou ela desfilar pela Viradouro, argumentou. Na escola de Niterói, que dispensou Luma em 2002, o diretor de Carnaval, Dejair dos Santos, disse que ela nunca usou o casamento como desculpa pelas faltas aos ensaios: Ela só comentava que tinha que dar atenção aos filhos.

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Sebos com novo conceito

Lojas de livros usados renovam o mercado como espaços culturais
Silvana Caminiti

Eles estão de volta. Bem mais charmosos, com um mix de produtos mais variado e uma proposta de servirem como espaço cultural, os antigos sebos retornaram ao mercado. No Rio, nos últimos seis meses, quatro estabelecimentos foram abertos em pontos nobres (e caros) da cidade. Dois deles são A Cena Muda, em Ipanema, e Al Fãrãbi (nome em homenagem ao precursor dos sebos, o filósofo árabe Al Fãrãbi), no Centro.

O sebo ocupa um casarão antigo de três andares, construído em 1865, e chama a atenção pela decoração: tijolos de demolição nas paredes e assoalho original na entrada e em algumas partes do segundo andar, onde estão balcões de ferro recuperado da estrutura original. Quem entra no local surpreende-se com a coleção Brasiliana e outros títulos raros, que ficam expostos em uma vitrine fechada.

Os donos do Al Fãrãbi são Lilian Dias e Carlos Alves, que sempre atuaram no setor de livros. Uma coleção de Monteiro Lobato guardada no quartinho da casa de uma tia foi que me despertou a paixão pelos livros, conta Lilian, que é tradutora e formada em Filosofia e Ciências Sociais.

Alves diz que outro importante diferencial da casa é o café com mesas expositoras, onde vários volumes estão expostos para clientes que querem comer algo enquanto estão lendo. Nosso acervo conta com títulos de literatura estrangeira e nacional, além de livros técnicos e de Direito, conta o empresário, ressaltando que o terceiro andar do casarão foi transformado em espaço para exposições e concertos musicais.

Al Fãrãbi: 2233-0879
A Cena Muda: 2287-8072


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Segunda-feira, Março 01, 2004




M O M E N T O S

Há momentos na vida que temos que abrir mão de tudo que fazia sentido, das nossas verdades e do que reputávamos como sendo os nossos valores. Constatamos que eles se tornaram inúteis ao nosso crescimento, já fazem parte do passado e a vida, não se detém olhando para trás, antes, caminha para a frente, em busca de novos acontecimentos.

Há momentos na vida que todas as vigas mestras que asseguravam a nossa sustentação vêm abaixo e a casa cai, independente da nossa tácita recusa ou inaceitação.

Há momentos na vida que ficamos sem saber para onde ir, que nada consegue nos alegrar, motivar ou seduzir e, em compasso de espera, vamos assistindo a fragmentação das nossas estruturas, agora transformadas em quimeras.

Nestes momentos ( que têm o peso de uma eternidade), nada nem ninguém pode fazer nada por nós ... estamos definitivamente vazios e sós, porque até a Natureza se cala e Deus perde a fala, indiferente ao nosso torpor.

Em meio à dor, esmiuçamos o que sobrou de nós, remexemos entre os escombros e descobrimos que algo ainda não morreu.

Tênue e frágil, lá está uma pequena centelha de esperança, aguardando uma virada do destino, que certamente nos surpreenderá com novas alegrias ... e com tantos outros desatinos.

Momentos ...

Fátima Irene Pinto

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Desatinada

Fátima Irene Pinto

Sinto falta das proezas da juventude,

Época de esplendor, viço e mocidade,

Quando a gente não sopesava atitudes,

E se dava prazer- sem conflitos- à vontade.

Dos lábios bem vermelhos de batom,

Vestidos curtos e decotes insinuantes,

Corpo esbelto bronzeado no verão,

Cabelos longos e olhares provocantes.

Ausência de responsabilidades,

Namorados que se tinha pra escolher,

Sem nem cogitar se havia maldade,

Gostar de dois ou tres de uma vez.

Dos bailes, das festanças, cantorias,

Serestas que só findavam ao amanhecer,

Sem que soubéssemos que tais alegrias,

A seu tempo, iriam todas fenecer.

Sim, grande é a saudade que sinto,

O tempo infelizmente não volta atrás.

Mas hoje, o que mais lastimo, não minto,

É ser desatinada de menos

E ter juízo demais.

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Rio de presente

No aniversário dos 439 anos de fundação da cidade, o leitor ganha um passeio aéreo
Marita Boos



Rio de Janeiro, de Fevereiro, de Março... Tanto faz. Rio no verão, no outono, no inverno, na primavera. Quem se importa? Tem violência, miséria, sujeira, poluição. Há também corrupção, filas em hospitais, desemprego, subemprego. É difícil sobreviver nesta Cidade Maravilhosa, não restam dúvidas. Mas, 439 anos depois de ter sido fundada por Estácio de Sá, ainda há muitos motivos para orgulho. Desculpem se não é possível ser original: o Rio de Janeiro, simplesmente, continua lindo.


O retrato da beleza está aí para todos os cariocas por natureza ou adoção, para os vizinhos e turistas apreciarem. Custa pouco. Apenas a vontade de olhar, de esquecer por instantes que sejam os problemas da vida. O nascer ou o pôr-do-sol, a topografia refinada, o ir e vir incansável das ondas do mar. E lá em cima, mais alto do que a maioria de nós pode ir, o esplendor do Morro do Corcovado, que tem a honra de abrigar o Cristo Redentor. Misturados ao que não precisou do homem para ser construído, monumentos, prédios, pontes, elevados, parques e estádios completam esse cartão-postal de si mesmo.

Os contornos já são não mais os mesmos da época da fundação. Morros vieram abaixo, o mar foi afastado... Nem todos, ao longo dos séculos, gostaram ¿ muitas vezes com razão. Mas quem pode reclamar das formas da Lagoa Rodrigo de Freitas, das praias de Copacabana, Ipanema e Leblon? Retas e curvas construídas são o lucro da parte boa da inevitável urbanização. A circunferência e colorido do Maracanã e do Gonzagão e a imponência do Sambódromo e da Ponte Rio-Niterói são as provas de que concreto armado tem o seu valor.

Numa cidade tão cheia de atrativos, poucas dores, físicas ou emocionais, são capazes de resistir a um mergulho no mar de nossas praias, ao passeio nos calçadões, ao entardecer em qualquer lugar. Que mau humor suporta manter-se já no bondinho, a caminho dos morros do Pão de Açúcar? O que é sensacional no Rio é que ele é capaz de ensinar, silenciosamente, que vale a pena viver.

O encanto que, certamente, não está só nas paisagens deslumbrantes ofusca os olhos de quem aqui chega pela primeira vez. Aqueles que já viram o olhar do turista para a geografia privilegiada ou para arquitetura caprichada entende o que falo. Há horas em que não existem palavras suficientes para formar um sinônimo à altura de um olhar extasiado. Não é de se estranhar que esse olhar, com freqüência, seja flagrado nos filhos naturais e adotivos desta terra tão democrática (na maioria das vezes). Democrática, porque permite a todos acesso a tudo descrito aí em cima, retratado nestas páginas. É verdade que nem todos têm o prazer de sobrevoar o Rio a bordo de um dirigível. Por isso, para dividir a viagem com os leitores, o DIA aceitou o convite da Goodyear e se aventurou pelos ares.

Por fim, mas nem de longe menos importante, o charme deste lugar abençoado por Deus e bonito por natureza está também no povo de caráter, receptivo, alegre, bem-humorado, apesar de tudo e de todos. Um povo contagiado por esse Rio de Janeiro, de Fevereiro, de Março e de presente para vocês. (fotos Marcelo Regua)

Parabéns, Cidade Maravilhosa!



Não há quem não reconheça a beleza do Maracanã, principal titular das mais vibrantes decisões do futebol



A imponência dos edifícios do Centro se mistura, na visão aérea, à desordem da arquitetura das favelas



A antiga Rua Marquês de Sapucaí acabou em samba. Há 20 anos, o Sambódromo é o palco do Carnaval do Rio



Píer da obra do Emissário Submarino invade a Praia da Barra. Atrás, um pouco do complexo lagunar do bairro



As cores do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, o Gonzagão, se destacam no cinza de São Cristóvão



O forte de Copacabana encerra as curvas da praia que recebeu um título de nobreza: a Princesinha do Mar



No ângulo pouco visto da Pedra do Arpoador, a visão resumida das praias de Ipanema e de Copacabana



Do alto, Ipanema encontra a Lagoa Rodrigo de Freitas. Duas das atrações que não custa nada aproveitar



No mar de Ipanema, longe dos olhos dos banhistas, grupo de golfinhos se diverte enquanto procura comida

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Casa própria com juro a partir de 3%

Caixa prepara oferta de imóveis que desde 1997 não acontece no estado
Cristiane Campos

A Caixa Econômica Federal prepara megafeirão de imóveis no Rio. A data da oferta pública de unidades a preços abaixo dos de mercado é mantida em sigilo. Mas o DIA apurou que acontecerá até junho. Os juros ficarão entre 3% e 13,7% ao ano, mais Taxa Referencial (TR). O prazo de pagamento será de até 20 anos. Uma das vantagens é que o crédito terá aprovação em, no máximo, 24 horas. O banco montará uma superagência, que permitirá o acesso imediato ao crédito.

Os interessados poderão optar por unidades na planta, novas ou usadas, além de imóveis residenciais e comercias. No caso de unidades em construção, o financiamento pode chegar a 100%. O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) poderá ser utilizado. Para realizar o feirão, a Caixa estuda parcerias com o Governo do estado, prefeituras, Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio, imobiliárias e Associação dos Notários e Registradores do Estado do Rio de Janeiro. Essa última vai permitir a assinatura de escrituras durante o evento, que será de cinco dias.

Segundo o superintendente da Caixa no Rio, José Domingos Vargas, a idéia é repetir o sucesso do feirão de 1997, que aconteceu no Riocentro. Na ocasião, 5 mil negócios foram fechados.

Vamos ter imóveis para todas as classes sociais. Quero reunir a maioria dos lançamentos da cidade em um só lugar, adianta Vargas. Outra opção de imóveis são os retomados pelo banco, que estarão disponíveis no evento. Atualmente, são 1.109 entre ocupados e desocupados. Essas unidades chegam a custar 20% menos, mas o melhor negócio é comprar os que estão vazios.

Os interessados não podem ter restrições cadastrais e quem pretende usar o FGTS não pode ter imóvel próprio. Quem optar em adquirir uma unidade usada contará com engenheiros da Caixa na agência móvel. Eles vão ao imóvel escolhido para avaliar o preço. Em seguida, será feita a análise da documentação. Tudo será feito durante o evento. O negócio será fechado em no máximo cinco dias, explica Vargas.

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Nei Lisboa
01/03/2004


Feliz 2004

Finalmente um calendário em que o ano começa no dia 1º. De março, é verdade, mas isso não chega a ser totalmente relevante. Por enquanto o que importa é o simbolismo de entrar o primeiro mês que conta trabalhando a pleno vapor desde o primeiro dia - sem nenhuma folguinha! Agora, antes que a bagunça retorne já em 2005, precisamos tratar de fixar as datas, ou seja, convencionar que o Carnaval caia sempre na última semana de fevereiro e o 1º de março sempre numa segunda-feira.

Sei que isso implica suprimir um ou dois dias do ano e também desvincular o Carnaval da Quaresma. Mas convenhamos, nada que o Júlio César e o Papa Gregório já não tenham feito. E a Igreja deve agradecer de se livrar dessa conexão com o Joãosinho Trinta. Então, tomando por base o calendário de 2004, pode-se eliminar a sexta-feira 13 de agosto, por exemplo, que se tornaria sexta 14, mesmo correndo o risco de contrariar alguns aniversariantes e lobisomens. Depois é só extinguir por decreto os anos bissextos que a conta fecha, a partir de 2005 teríamos o primeiro dia de março sempre nas segundas. E aí, sim, seria a hora de consagrar a data como o início oficial do ano.

Não se trata, veja bem, de mexer com o cronograma geral de como as coisas se dão no país ou de transferir as férias de quem quer que seja. Seria apenas uma operação contábil, organizando o que na prática já está estabelecido. Janeiro e fevereiro passariam a pertencer ao ano velho no calendário civil sem deixarem de ser a extensão do réveillon que sempre foram, ao contrário, seria um prolongamento totalmente assumido, com o Carnaval encerrando a festa da virada de forma apoteótica. E a entrega do Oscar acontecendo junto, se não é pedir demais, também fica interessante.

Fato é que com isso se desfaria a impressão de que o país comemora, a cada início de ano, o que de bom não tem a mínima idéia de que vá acontecer até o final. E seria mais sincero. Simpatizo com a franqueza, com as coisas às claras. Por exemplo, o nome que o Carlos Cachoeira escolheu para a sua empresa: Capital Construtora e Limpeza Ltda. Simples e direto.

Categórico. Ou o daquela escola de samba de Rio Grande, a Unidos do Mé. Não levou o título, este ano, decerto prejudicada no quesito evolução, mas ninguém pode acusá-la de esconder o jogo. Festa é festa. Trabalho é trabalho e começa agora, daqui pra frente sempre nesse dia, o primeirão do novo calendário. Se bem que, agora pensei, se a idéia chega a vingar, evidentemente vão decretar que hoje é feriado.

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Luis Fernando Verissimo
01/03/2004


Carnavalizemo-nos


Não só fui beijado pela Luana Piovani - como ela não beijou o Zuenir! Que estava perto e era até mais acessível do que eu, porque os dois são da mesma altura. Está certo, beijos de filha, nada escandaloso, mas uma vitória moral assim mesmo. Depois de desfiles em que a Império Serrano do Zuenir trucidou a minha Salgueiro, os beijos da Luana ficaram como a minha melhor lembrança do camarote da Brahma neste ano (já que a Gisele Bündchen passou por nós um pouco como a baleia Moby Dick, cuja presença na água só era detectada por um torvelinho na superfície e uma auréola de gaivotas, com a multidão ao seu redor fazendo o papel de torvelinho e os fotógrafos o de gaivotas).

Outras boas lembranças do Carnaval: a Unidos da Tijuca, com sua comissão de frente das baianas-robôs, sua bela ala de baianas com saias devassadas e suas criativas alegorias coreografadas; a magnífica Mangueira e, vá lá, a magnífica Império Serrano. E a linha de frente da Portela, com o Lan, o Zeca Pagodinho, o Paulinho da Viola e a Marisa Monte, que quase tornava o resto do desfile - um dos melhores da primeira noite - supérfluo.

Na verdade, só os beijos da Luana e o sortilégio das escolas me impediram de sucumbir à amargura, nestes dias de desencanto e azia moral. Acabei de ler que está para sair um livro com denúncias ao Guide Michelin, que, há anos, com suas estrelas concedidas e subtraídas e seus rigorosos critérios, estabelece a hierarquia indiscutível dos restaurantes franceses.

Aparentemente, segundo o autor do livro, um ex-inspetor do guia, as estrelas e os critérios não estão livres de influência, lóbis e, em bom francês, maracutaiás. Como se não bastasse o PT, nem no Guide Michelin se pode confiar mais. Que tempos. Acho que vou dar só mais uma chance ao Salgueiro e depois desistir da humanidade.

Tentar metaforizar o espetáculo das grandes escolas é um velho hábito de sociólogos amadores, mas não posso resistir à impressão de que nele se desenrola, todos os anos, uma grande alegoria sobre a lógica de se legalizar o jogo.

Olhe os desfiles como exemplos de dinheiro esbanjado que poderia estar ajudando o país todo a ser tão bonito e organizado como as escolas, e a relação do jogo do bicho carioca com o Carnaval como metáfora de uma relação ideal do jogo em geral com o Estado, e você não precisa de outro argumento para que se trate o vício do jogo como o vício do fumo. O cigarro, comprovadamente, mata. A venda de cigarro não é proibida porque os impostos pagos pela indústria do fumo são responsáveis por um naco gigantesco do orçamento estatal e o vício que mata sustenta boa parte das atividades do governo - além de garantir a renda de milhares de pessoas e a economia de regiões inteiras.

O vício do jogo não mata, descontada a saúde afetada pelo convívio em ambientes fechados e pelo eventual tiro no ouvido do perdedor arruinado. Mas combate-se o jogo como não se combate o cigarro assassino. E como as objeções ao jogo não podem ser morais - o fumo tolerado é muito mais imoral - só podem ser práticas: o negócio é tornar o jogo um vício tão socialmente útil como o do cigarro. Já que o vício é inevitável, relaxar e aproveitar, que no caso significa legalizar. E nos carnavalizarmos no melhor sentido.


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Paulo Sant'ana
01/03/2004


Volta ao futuro

Eu estava lá e vi com os meus olhos o desfile da Império Serrano este ano na Sapucaí.

A escola se aproveitou da concessão do regulamento que permitia a repetição de enredos e sambas do Carnaval passado e atacou de Aquarela Brasileira, o samba-enredo do maior compositor para desfiles de todos os tempos, Silas de Oliveira: "Vejam esta maravilha de cenário/ é um episódio relicário/ que o artista num sonho genial/ escolheu para este Carnaval".

Em qualquer roda de samba que se forme no Rio de Janeiro, este é sempre o samba mais cantado.

Por isso é que toda a Sapucaí, com exceção dos turistas estrangeiros, cantou com entusiasmo a jóia musical de Silas de Oliveira. O Cláudio Britto, o Matias Flach e o Renatinho Dornelles, que estavam do meu lado na cabina da Rádio Gaúcha, reviveram com êxtase aquele remake da Império Serrano.

Era uma saudada volta ao passado, uma reminiscência encantadora, o enredo da Império Serrano de 1964 era revivido perante os olhos e os ouvidos de todos com tal energia que se pensou até que a escola pudesse arrebatar o primeiro lugar no desfile.

A Império não ganhou, mas chamou a atenção que um samba de 40 anos atrás tivesse assim empolgado de forma tão obsedante os espectadores.

Ontem, repetiu-se no Estádio Olímpico para mim o desfile da Império Serrano.

Cedo da tarde preparei-me para assistir ao jogo Grêmio x São Gabriel, eu e mais 7.358 espectadores, todos espantados com um Gauchão em que a mais esdrúxula das fórmulas foi elaborada, primeiro porque ninguém entende a dita fórmula, segundo porque o único conteúdo compreensível dela é que nesta fase de classificação os gremistas têm de torcer pelo Internacional e os colorados pelo Grêmio.

Só da mente do diabo pode ter aflorado a idéia de fazer com que gremista torça pelo Internacional, colorado pelo Grêmio, quando a enfeitiçante idéia nuclear da rivalidade consiste exatamente no contrário.

Mas por que diante dos meus olhos era revivido o desfile da Império Serrano deste ano?

É que alguns anos depois da sua fuga ou rapto espetacular, Ronaldinho Gaúcho voltou ontem ao time do Grêmio, encarnado na figura do jovem Bruno.

Ao ver Bruno ontem protagonizar instantes de indizível talento e beleza futebolísticos, ao lado de outras duas rutilantes e jovens revelações, Marcelinho e Ratinho, eu e os outros 7.358 gremistas que estávamos no Olímpico mergulhamos numa reminiscência ao mesmo tempo sublime e atroz, reeditava-se perante os nossos olhos o esplendoroso cenário de orgulho e esperança dos tempos efêmeros em que Ronaldinho jogou no Grêmio.

Ali estava de novo o Ronaldinho a compor e reger o nosso time, ressuscitado nos pés de Bruno, voltava aos nossos espíritos aquela alegria insuperável de viver consistente em possuir-se no time por que a gente torce um jogador extraordinário.

Como no desfile e no samba da Império Serrano, voltávamos ao passado. E cruelmente logo deparávamos com uma volta ao futuro, porque exatamente como aconteceu com Ronaldinho Gaúcho, dentro de seis meses, por força da maldita e famigerada Lei Pelé e de outro cochilo histórico dos dirigentes gremistas, Bruno terá passe livre e será, igualzinho a Ronaldinho Gaúcho, levado para a Europa por qualquer corsário pirata e rapinante, ficando a torcida tricolor outra vez órfã de mais um Messias.

Estupenda volta ao passado no jogo de ontem, seguida imediatamente de sinistra volta ao futuro.

Ainda bem que no setor de camarotes do Olímpico ontem, pela primeira vez na história, eram por todos saboreados deliciosos bolinhos de batata.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
E o Oscar não vai para o Brasil



A sul-africana Charlize Theron foi a melhor atriz na festa que frustrou a torcida brasileira por Cidade de Deus. O Senhor dos Anéis igualou Ben-Hur e Titanic no recorde de Oscar, com 11 estatuetas (foto Joe Cavaretta, AP/ZH)


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