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E N T R E L A Ç O S

Sábado, Abril 10, 2004




Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
No supermercado, entre as gôndolas


Esta foto de Waldomiro Diniz ilustra o estado de espírito do ex-assessor e também o do governo como um todo

Um homem a empurrar seu carrinho, no cenário tão familiar do supermercado pode existir melhor imagem de serena rotina, de vida que segue? Certas imagens são o retrato perfeito e acabado de sua época. Quarenta ou cinqüenta anos atrás a cena correspondente seria a de uma mulher com uma cesta, num daqueles lugares a que se dava o nome de empório.

Hoje o homem, despido de boa parte da soberba machista, acomoda-se nela com tanta naturalidade quanto a mulher. A cesta, por sua vez, entrou em declínio, atropelada por esse engenho esquecido, quando se faz o rol dos meios de transporte, mas tão útil quanto o avião, que é o carrinho do supermercado.

E o empório (ou melhor seria dizer armazém?) foi substituído pelo aparato impressionante do supermercado, essa instituição que como poucas resume o nosso tempo, internamente montada em forma de labirintos cujo objetivo não é levar os incautos a se perder, como os labirintos primitivos, mas fazê-los se achar na felicidade do consumo, e cujas prateleiras são generosamente chamadas de gôndolas, como os barcos de Veneza.

A imagem de um homem entre as gôndolas, o carrinho nas mãos, remete a clássicos da rotina e do intimismo, na história da arte. É uma imagem que serviria à perfeição a um Norman Rockwell, o pintor e ilustrador americano que, com realismo e terna cumplicidade, retratou as cenas típicas da vida cotidiana em seu país os casais em casa, as travessuras das crianças, o jogo de beisebol na escola.

Se se quer trocar o pitoresco pelo sublime, então vamos a Vermeer, o pintor holandês do século XVII, autor de cenas em que os personagens, geralmente mulheres, são flagrados a ler uma carta, a verter leite numa tigela ou a praticar o alaúde, na solidão da casa. O que há de belo e tocante em tais cenas é a ausência de pompa dos personagens. Eles são apanhados no momento, tão verdadeiro, da distração e do despreparo.

Distraído vinha ele, o homem a propósito de quem se teceu a chorumela acima, a caminhar placidamente entre as gôndolas, o carrinho das compras já cheio para mais da metade, quando foi flagrado pelas últimas pessoas que gostaria de encontrar na vida, nas presentes circunstâncias. O homem em questão é Waldomiro Diniz, o pivô do escândalo que atazana o governo. As pessoas que não gostaria de encontrar são dois profissionais de imprensa, o fotógrafo Sérgio Lima e o repórter Iuri Dantas, da Folha de S.Paulo.

A foto de Waldomiro num supermercado de Brasília, por volta das 14h30 de quarta-feira, foi parar na primeira página da Folha do dia seguinte. A conversa com os jornalistas foi rápida. Waldomiro disse que confia na Justiça e que está levando "vida normal". Só. "Você acabou com minhas compras", queixou-se a Iuri Dantas. Ato contínuo, abandonou o carrinho e deu as costas. Pobre Waldomiro. Sua casa ficou tão desabastecida quanto antes.

A foto que sobrou do ocorrido pode ser explorada de diversos ângulos. Dá para tentar investigar, lupa em punho, as compras que ele fazia. Perfeitamente identificáveis são iogurtes e guardanapos de papel. Certos pacotes vermelhos parecem conter salsichas, ou salames, o que denotaria alguém sem disposição ou assistência para cozinhar de verdade. Não. Observando bem, há também produtos que parecem carnes. Então, é porque ou ele mesmo, ou alguém por ele, vem se aventurando, sim, nas panelas.

Caso alguém se disponha a exame mais minucioso e competente do conteúdo do carrinho, chegará a conclusões quanto aos hábitos alimentares e ao estilo de vida do ex-assessor do ministro Dirceu. Também dá para concluir, do aspecto algo jogado dos artigos no carrinho, os iogurtes meio tombados, que Waldomiro não é um espírito metódico. Será por isso que se deixou flagrar em conversa pecaminosa com um bicheiro?

O que a foto denota de mais significativo, no entanto, é a desesperada busca da normalidade. Claro que para Waldomiro não é "normal" entregar-se às compras às 14h30 de um dia de semana. "Vida normal", para ele, eram o agito dos gabinetes e o buchincho do Congresso. Mas que fazer? Perdida uma, resta ao ser humano procurar outra "normalidade". As mais disponíveis são as que se inserem no quadro aconchegante da rotina doméstica. Por exemplo, ir ao supermercado.

O que a foto flagra arrisquemos uma interpretação é uma tentativa de Waldomiro de provar a si mesmo que a vida segue. Mas a foto, rica de significados, diz mais. Assim como a de Waldomiro, também a vida do governo ficou de pernas para o ar. Não é só o ex-assessor que, desde então, busca uma normalidade em que se refugiar. O governo também.

Donde se conclui que a imagem do supermercado serve igualmente para o que vem fazendo o governo ele também envolvido em trabalhosa simulação de normalidade, ele também metaforicamente empurrando seu carrinho de supermercado, avançando entre as gôndolas, detendo-se aqui e ali para recolher alguma mercadoria, como se nada o abalasse, como se nada de mais estivesse acontecendo.

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Diogo Mainardi

Meus queridos leitores

"O capitão Ronaldo Santoro respondeu à minha tentativa de desqualificar o programa nuclear
brasileiro. Assim como o Washington Post, ele acredita que o Brasil sabe enriquecer urânio. Bobagem. A gente só sabe enriquecer político ladrão"

Vik Muniz é um dos mais bem-sucedidos artistas plásticos brasileiros. Tempos atrás, em cartinha a VEJA, ele comparou minha coluna à imagem da Virgem Maria e o menino Jesus. Agradeço muito. Eu só gostaria de notar, Vik, que cartesiano é com "s".

Outro correspondente que merece uma resposta, mesmo que atrasada, é o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (Abpam). Ele defendeu a coragem e o patriotismo do ministro Aldo Rebelo, que apresentou um projeto de lei determinando o acréscimo de amido de mandioca ao pão francês.

O presidente da Abpam garantiu que a mandioca é um "tubérculo de grande valor". E que o amido de mandioca é "um produto nobre, matéria-prima para a fabricação de papelão, tecidos e cosméticos". Peço desculpas aos associados da Abpam se eles se sentiram diminuídos. O propósito do meu artigo era apenas denunciar a jequice e a inaptidão dos mais altos representantes do governo Lula. Em nenhum momento pretendi sugerir que houvesse algo de errado em comer papelão, tecidos e cosméticos.

Adriano Diogo é secretário do Meio Ambiente de Marta Suplicy. Ele negou que a fonte do Ibirapuera, a principal obra da prefeitura petista, tenha sido instalada num lago cheio de coliformes fecais. Chamou-me de leviano. Assegurou que a balneabilidade do lago é "igual ou superior à de muitas praias do litoral brasileiro". E afirmou que a água do lago "não é potável apenas porque para isso seria necessário acrescentar cloro". Proponho o seguinte, Adriano Diogo: eu recolho um copo de água do lago, pingo duas gotinhas de cloro e você toma tudo num gole só.

Volnei Garrafa é o presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, indicado pelo ministro da Saúde, Humberto Costa. Ele não aprovou meu artigo sobre o aborto. Disse que "há tempo não se lia algo tão ruim sobre o assunto". Para ele, demonstrei "ignorância com relação ao tema".

E despejei "fogo amigo sobre aqueles que lutam pela descriminalização do aborto no país". Em primeiro lugar, professor Garrafa, não sou seu amigo. Em segundo lugar, não defendi a descriminalização do aborto, e sim a legalização. Em terceiro lugar, é "descriminalização", não "discriminalização". Qual a classificação da Universidade de Brasília no último Provão?

Olívio Dutra escreveu-me que, quando era governador do Rio Grande do Sul, deu todo o apoio à abertura de uma CPI do jogo do bicho. Agora que é ministro, mudou de idéia, sendo contrário à CPI do bingo. O que mais surpreende nos petistas é que eles ainda não perceberam que, independentemente da CPI, o governo Lula acabou. Em junho de 2003, previ que Lula seria desmascarado em dois anos.

Durou ainda menos. Na época, tracei um paralelo entre Lula e Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano. Para impedir investigações contra suas empresas, Berlusconi sempre acusa o Ministério Público de ter motivações políticas. E uma de suas principais bandeiras é intensificar o controle externo sobre a Justiça.

O capitão-de-mar-e-guerra Ronaldo Santoro respondeu à minha tentativa de desqualificar o programa nuclear brasileiro. Assim como o Washington Post, ele acredita que o Brasil sabe enriquecer urânio. Bobagem. A gente só sabe enriquecer político ladrão.

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Consumidor busca gasolina fora da Capital

Moradores de Porto Alegre se dirigem a Canoas para abastecer carros por causa da diferença de preços
ISABEL MARCHEZAN E THIAGO COPETTI/ Colaborou Dionara Melo

Às vésperas e durante o feriado de Páscoa, o preço do litro da gasolina comum nos postos de combustíveis de Canoas levou motoristas de Porto Alegre a abastecerem seus carros na cidade vizinha antes de viajar. O preço médio na Capital, segundo levantamento de Zero Hora feito na quarta-feira, está na faixa de R$ 2,14. Em Canoas, fica em R$ 1,94.

Na região do Vale do Sinos, onde segundo pesquisas de Agência Nacional do Petróleo era encontrado o litro de gasolina mais barato do Estado, atualmente é cobrado valor um pouco mais alto do que em Canoas (veja quadro).

O movimento surpreendeu os revendedores canoenses. No Posto Canoas, por exemplo, foi cerca de 30% acima do normal. De 11 veículos em atendimento ou aguardando na fila para abastecer, próximo das 16h de ontem, sete eram de Porto Alegre.

- Com certeza o aumento no número de carros aqui hoje é em razão do preço mais barato do que em Porto Alegre - afirmou o frentista Vagner Tietze, 24 anos.

O motorista Manoel dos Santos, 62 anos, foi um dos moradores de Porto Alegre que recorreu aos postos de Canoas para encher o tanque. E não foi a primeira vez:

- É a terceira vez que faço isso. Como sabia que passaria por Canoas, esperei para encher o tanque aqui antes de viajar. Colocando 30 litros, ganho uns R$ 10.

Foi se deslocando para Sapucaia que a professora Janete Peres, 51 anos, descobriu que poderia economizar abastecendo no município vizinho a Porto Alegre. Janete desconhecia a diferença de preços da gasolina entre Canoas e a Capital, mas descobriu isso logo que passou de uma cidade à outra.

- Cruzei a divisa dos dois municípios e vi, em seguida, que os preços eram inferiores em Canoas - contou a professora.

Estabelecimento precisou de carga extra

Antes de pegar a estrada rumo a Santa Maria, o advogado Dieter Potter, 42 anos, também entrou em um dos primeiros postos de Canoas para abastecer e economizar. Potter credita a variação de valores às diferenças de impostos cobrados em um município e outro.

César Daniel Graeff, caixa do posto Salim, contou que chegou a ficar desabastecido pela manhã, problema solucionado por uma carga extra perto do meio-dia. O posto vende o litro da gasolina comum a R$ 1,939 e, segundo Graeff, a rede proprietária do Salim adquire o combustível a R$ 1,73.

No posto Pampa, a venda diária de gasolina comum dobrou desde quinta-feira. Conforme Antonio Biasus, administrador do negócio, passou de 4 mil para 8 mil litros por dia, em razão do movimento de viajantes. No Pampa, a gasolina custa R$ 1,939 o litro.

- A referência são os postos da região. Se baixam o preço, baixamos também. Se passarem para R$ 1,95, eu subo - explicou.

Para o administrador, a margem de lucro atual, de R$ 0,20 por litro de gasolina, é apertada. O ideal, diz, seria cobrar entre R$ 2,03 e R$ 2,05. O gerente do Portolub, Diego Roque Invernisi, discorda:

- Dá para ganhar um bom dinheiro com esse preço.

No Portolub, o litro de gasolina comum sai por R$ 1,949. Conforme Invernisi, a margem de lucro é de 10%. Na quinta-feira santa, o gerente afirmou ter vendido 14 mil litros do combustível, ante média de 8 mil a 9 mil litros por dia.

Siceramente eu me pergunto: Se efetivamente, os postos de gasolina da capital preferem ganhar nada do que ganhar pouco?

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A vez da filha

Rafaela Fischer se prepara para estrear A Primeira Noite de um Homem, em que vai disputar com Vera o amor de um jovem
Rubia Mazzini

Dez anos depois de arriscar os primeiros passos na carreira artística, na peça juvenil Bailei na Curva, Rafaela Fischer está pronta para voltar ao palco. No fim de maio, ela estréia a peça A Primeira Noite de um Homem ao lado de ninguém menos do que a mãe, a diva Vera Fischer, com quem terá uma relação regada a disputas amorosas e altas doses de álcool. Aos 25 anos, satisfeita com a própria imagem depois de passar por várias dietas, ela diz que se livrou da loucura de querer ser muito magra , Rafaela está preparada também para enfrentar os críticos.

A cobrança já me fez sofrer muito. Chegou a hora de usar isso a meu favor, avisa a moça. Ela conta que encontrou o próprio equilíbrio quando foi morar em Nova Iorque, nos Estados Unidos, há três anos. Minha mãe sempre foi meu espelho, achava que tinha que ser igual a ela. Sozinha em Nova Iorque comecei a me conhecer, a saber quem era, lembra ela, que buscou forças no zen budismo e na meditação. Quando parei de me estressar, comecei a emagrecer. A boa forma Rafaela mede 1,76m e pesa em torno de 70 Kg, é mantida com natação e hidroginástica.

No palco do Teatro dos Quatro, sob direção de Miguel Falabella, Vera, Rafaela e o pai, Perry Salles, vão repetir os papéis da vida real na trama escrita por Terry Johnson. Falabella admite que a princípio rejeitou a idéia de transformar a montagem num projeto familiar. Não queria que virasse uma coisa Os Osbournes, mas me encantei pela Rafaela. Ela é um doce, dedicada, sensível. Estou cada dia mais impressionado, afirma o diretor, prometendo que a encenação vai explorar bastante a difícil relação da Sra. Robinson (Vera) com a filha Elaine (Rafaela). Um embate entre as duas, completamente bêbadas, deve ser um dos pontos altos.

Mas se na peça Vera e Rafaela disputam o amor do mesmo homem o rapazote Benjamim Braddock, que depois de ser seduzido pela quarentona Sra. Robinson se apaixona por Elaine no apartamento onde moram no Leblon a paz reina entre mãe e filha. E Vera faz a linha coruja ao falar da parceria com a cria. Sempre acreditei no talento da Rafaela. Estou na maior expectativa, mas tenho certeza de que ela vai se sair bem.

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Lya Luft
10/04/2004


Pequena ressurreição

Porque somos incompletos, podemos nos renovar. Porque não somos perfeitos, podemos ter alegria. A perfeição seria o tédio, e desse, sim, eu poderia morrer. Bocejar até o fim contemplando a ordem celestial, os anjos rechonchudos, as harpas, a disciplina: ninguém deu um escorregão, ninguém botou a língua pra São Pedro, nem o próprio soltou um palavrãozinho que fosse quando bateu com o pé em uma nuvem mais escura e o raio lhe chamuscou o calcanhar?

Eu, criança, morria de medo dessa ordem impenetrável na qual não haveria lugar para mim.

Em compensação, outro dia, dando uma palestra para um grupo muito especial, conheci uma fraternidade de irmãos na aflição e na luta pela dignidade. Estive com os que se despiram de toda a arrogância para se tornarem apenas humanos. Fui aceita por algumas horas num grupo de gente que não me tratou como alguém que por acasos da profissão acabou se destacando, mas como igual: me senti tão gratificada que quis ser um deles de verdade.

Compreendi o quanto nós, os comuns, sucumbimos na nossa debilidade mental, nos preconceitos, na leviandade, ignorantes de tudo fora da nossa individualidade assustada.

Quando atingirmos o despojamento real, não precisaremos mais ter medo. Temos muito medo disfarçado de hostilidade e arrogância. Buscamos desesperadamente parecer fortes e corajosos, importantes e superiores. Botamos aparelhos de som nos ouvidos quando caminhamos de manhã cedo; ligamos ao máximo a televisão da sala, o rádio do quarto e do banheiro, no carro, nem falar, porque esse está ligado sempre.

Todo mundo se acha o máximo, batendo grandes papos, falando de sacanagem, dinheiro, futebol, política, todo mundo sabendo de tudo, vivendo fácil, sem surpresa nem susto, ninguém levando porrada - como diria Fernando Pessoa. Estar algumas horas com gente de verdade, que arrancou as máscaras e se mostrou verdadeira, me ensinou mais do que anos de reflexão e leitura, observação e formação, vida de família e amizades.

Páscoa ou não, pode haver em todos nós a cada dia uma pequena ressurreição pessoal, fugindo da mediocridade e da mesmice - que são outra forma de violência. Não menos perigosa, porque mais sutil.

lya.luft@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
10/04/2004


A destruição do parque

Fora do bom humor, não há salvação. E a respeito do momento político nacional está circulando uma parábola engraçadíssima, que creio será encarada com muito bom humor até por quem se achar envolvido na questão. É uma parábola que tem tons visivelmente tucanos.

É o seguinte: um homem anda por uma estrada próxima a uma cidade, quando percebe, a pouca distância, um balão voando baixo.

O balonista lhe acena desesperadamente, consegue fazer o balão baixar o máximo possível e grita:

- Ei, você poderia ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas da tarde, porém já são duas e meia e nem sei onde estou. Poderia me dizer onde me encontro?

O homem respondeu com muita cortesia:

- Mas claro que posso ajudá-lo. Você se encontra em um balão de ar quente, flutuando a uns 20 metros acima da estrada. Está a 40 graus de latitude norte e a 58 graus de longitude oeste.

O balonista escutou com muita atenção e depois perguntou ao informante:

- Amigo, você trabalha como assessor?

- Sim, senhor, ao seu dispor. Como conseguiu adivinhar?

E o balonista:

- Porque tudo que você me disse está perfeito e tecnicamente correto, porém esta informação me é totalmente inútil, pois continuo perdido. Será que você não tem uma resposta mais satisfatória?

O assessor fica calado por alguns segundos e finalmente pergunta ao balonista:

- E você por acaso não seria um petista?

- Sim, sou realmente filiado ao PT. Como descobriu?

- Ah! Foi muito fácil. Veja só: você não sabe onde está nem para onde vai. Fez uma promessa (a de se encontrar com um amigo) a qual não tem a mínima idéia de como irá cumprir. Ainda por cima espera que outra pessoa resolva o seu problema. Continua exatamente tão perdido quanto antes de me perguntar. Porém, agora, por um estranho motivo, deu um jeito para a culpa passar a ser minha.

Há 30 anos, quando como vereador intentei o cercamento do Parque Farroupilha, minha sugestão foi recebida com quase total discordância pela sociedade.

"Parque não é campo de concentração", afirmavam alguns. A idéia foi rechaçada com a mesma energia que hoje ainda se oculta nos espíritos reacionários, pronta para voltar a atacar quando chegar a hora da decisão.

No entanto, a semente de luz continua germinando, embora lentamente. As pessoas começam gradualmente a se convencer de que o Parque Farroupilha está condenado ao extermínio se não for colocado um paradeiro no vandalismo que diariamente (à noite) vai depredando-o, levando os cofres públicos à exaustão para tentar conservá-lo.

Nesses 30 anos, a prefeitura gastou fortunas para reparar os danos do vandalismo. A estatuária do parque e os monumentos foram inteira ou parcialmente demolidos ou furtados.

A aridez da paisagem e dos recantos, com as fontes, as placas, os bustos e outros símbolos históricos completamente desaparecidos pela fúria dos vândalos e dos ladrões, mostra um cenário geral desolador, que vai afastando gradualmente os amantes do parque.

Uma burrice secular impede o cercamento da Redenção e o fechamento dos portões à noite, o período em que ela é entregue indefesa à sanha dos seus destruidores.

Vai durar creio que mais um século esta estupidez histórica.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Ricardo Silvestrin
10/04/2004


Fala aí, bicho

Fomos ver Um Cão do Outro Mundo. É um filme para crianças. Um garoto recebe na sua casa um cão que veio do espaço. Descobre então que os cães eram todos alienígenas com a missão de dominar a Terra. Mas o que me chamou a atenção foi um tema recorrente tanto em filmes quanto em outras formas de narrativa. O garoto, excelente ator, acaba falando com os cães. Ele passa a entender e ser entendido por eles. O mesmo acontece, por exemplo, em outro filme para crianças, Os Thornberrys. Elisa, a filha do casal Thornberry, também falava com os animais.

Em ambos os filmes, em determinado momento, os personagens principais acabam perdendo esse poder em troca de que as coisas voltem ao normal, como num rito de passagem do mundo infantil, mágico, para o adolescente. As histórias para crianças, entre elas os desenhos animados, estão repletas de bichos que falam.

Acabei lembrando de algumas narrativas de sucesso que usaram bichos mudos. Flipper, um filme da idade da tevê lascada, trazia um golfinho que não falava nada, mas nós, as crianças do início dos anos 70, adorávamos Skip, um canguru, que passava o filme todo correndo e pulando. Também entrava quieto e saía calado. O que não o impediu de ser outro astro amado das nossas infâncias.

Benji, um cachorrinho. Aí eu já era adolescente, não via, mas soube também da sua existência. E todos esses eram bichos reais, não desenhos animados. Um caso raro era o Mr. Ed, um cavalo que falava. Seu texto era sempre muito educado. Reclamava de seu dono: "Oh, não, Wilbour, você vai subir nas minhas costas novamente!".

O Jorge Mautner tem uma canção muito curiosa que trata da comunicação entre homens e animais: "O homem antigamente falava / com a cobra, o jabuti e o leão / olha o macaco na selva (...)/ não é macaco, baby / é o meu irmão / porém, durou pouquíssimo tempo / essa incrível curtição / pois o homem, o rei do planeta / logo fez uma careta e começou a sua civilização / agora já é tarde / ninguém nunca volta jamais / o jeito é tomar esse foguete / é comer desse banquete para obter a paz / a velha paz / que a gente tinha quando falava com os animais".

O ser humano, fundado na linguagem, humaniza os animais dando a eles o poder da palavra. Como se fosse essa a única forma de saber qual é a deles. Em Um Cão do Outro Mundo, o garotinho acaba descobrindo que pode se comunicar com o cachorro apenas brincando com ele, sendo carinhoso, entrando na do cãozinho. Não precisa de palavra. Estávamos uma tarde no zoológico. Havia uma cerca, um pequeno lago e uma ilhazinha onde ficavam os macacos.

Um animal dos nossos atirou um cachorro-quente para os macacos, mesmo tendo a sua frente a placa orientando para não alimentar os bichos. O pacote caiu na água, perto de onde estavam os micos. Um macacão pegou uma varinha, um pedaço de galho, e puxou o cachorro-quente até ele. Desembrulhou o hot-dog e comeu. Só faltou dizer "obrigado". Ficamos sem palavras.

ricardo.silvestrin@zerohora.com.br

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Religião
Surpresas no Morro da Cruz



A chuva em época de seca caiu como uma bênção durante procissão na Capital, que terminou com o insólito pouso de uma pomba na coroa de Cristo (foto Adriana Franciosi/ZH)


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Sexta-feira, Abril 09, 2004




PF no paralelo

Polícia Federal usa doleiro de Brasília para trocar dinheiro ilegal, doado pela Embaixada dos Estados Unidos

Weiller Diniz

Polícia Federal abriu investigação sobre fundos secretos clandestinos dos EUA para a própria PF. Concluiu que dólares em espécie são entregues em guichês da repartição, o que é ilegal. O resultado da sindicância 003/2003 concluída em 5 de maio de 2003 é explosivo. São 46 páginas com 14 depoimentos reveladores feitos por tiras da elite e pelo doleiro George Fouad Kammoun. Ele diz que um setor da PF, a Coordenação de Operações de Inteligência Especializada (Coie), recebe milhares de dólares em malas da embaixada americana e que, por muito tempo, o dinheiro foi trocado em casas de câmbio da capital.

A investigação foi aberta após a denúncia de ISTOÉ, na reportagem A CIA continua no Brasil, sobre a atuação clandestina da inteligência americana em solo brasileiro, publicada em novembro de 2002. O delegado Rômulo Barredo, escalado para apurar o escândalo, pediu um inquérito para responsabilizar os culpados. Ele viu crimes contra o sistema financeiro e a Lei de Licitações: Um setor da PF se acha na mais completa insustentabilidade jurídica, o que ocasionaria a ilegalidade dos atos ali praticados, diz o relatório final. A sugestão do inquérito levada à consideração superior está embolorando há um ano nas gavetas da PF. Confrontado com os papéis da sindicância, à qual ISTOÉ teve acesso, Barredo esbravejou: Como você conseguiu isso?

Quem esclareceu a investigação foi a servidora Maria Celina Martins (da contabilidade da Coie). Ela explicou que o sistema de pagamento é feito de acordo com a despesa. A média de ressarcimento mensal é de R$ 160 a R$ 200 mil com recibos e notas fiscais. Feito o balancete, uma pessoa da embaixada vai à Coie e retira a prestação de contas. Já foram realizadas três ou quatro auditorias pelo governo americano, revelou. O zelo se explica. Pelos números apresentados, a bolada gira entre R$ 2 milhões e R$ 2,4 milhões por ano, um total de R$ 19 milhões nos últimos oito anos. Celina contou que a operação é feita com grana viva, ora dólares, ora reais.

O dinheiro do ressarcimento das despesas é sempre trazido ao setor em espécie, sendo guardado no cofre e distribuído conforme a necessidade. Antes de o delegado Rosseti (Disney Rosseti, atual chefe da Coie) assumir a chefia, a verba do setor era recebida da embaixada em dólares americanos (em espécie), os quais eram depositados em conta corrente do delegado Getúlio Bezerra (atual chefe da Diretoria de Combate ao Crime Organizado). Celina contou que a maior parte do dinheiro ficava mesmo invisível, sem passar por nenhum canal oficial: Esse trâmite do dinheiro em conta do Getúlio durou pouco mais de um ano. Antes disso, e desde que passei a integrar o setor (em 1996), os dólares recebidos da embaixada americana eram trocados com um doleiro, que era da confiança da embaixada e do Centro de Dados Operacionais (CDO), a antiga Coie.

Escolta O doleiro é Georges Kammoun, que confirmou: Desde 1998 era responsável pela troca de dólares. Quem estabeleceu contato comigo foi o delegado Edson Rezende. Kammoun diz que havia escolta oficial para fazer o câmbio no paralelo, acrescentando que o esquema das malas funcionou até 2000. Revelou também que já entregou dinheiro para as funcionárias Celina ou Marta na tesouraria do CDO. Não havia valores fixos, variavam de US$ 6 mil a US$ 170 mil por vez, relembrou no depoimento. Celina conta que nem a direção da PF ficava sabendo: Nunca houve um encaminhamento de qualquer prestação de contas ao DPF. Tal modalidade de entrega (em dólares) fere a qualquer padrão legal/formal capaz de dar um mínimo de credibilidade ao processo, reprova o delegado Barredo no relatório.

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Páscoa para pais e filhos

Encenações da Paixão de Cristo, recreações e concertos celebram a data religiosa
Flávia Motta



Em Vista Alegre a encenação da Paixão de Cristo reuniu 20 mil pessoas ano passado. Espetáculo começa numa praça e segue andando até a lona cultural

Coelhinho da Páscoa, o que trazes para mim? Um ovo, dois ovos, e dezenas de encenações da Paixão de Cristo, concertos e balé, poesia, malhação circense de Judas e até maracatu. A Semana Santa para o carioca tem programação para nenhum cristão colocar defeito, numa mistura de sagrado e profano, sempre respeitando as tradições, e com opções só para pais, filhos ou para a família inteira. No domingo, não queremos que ninguém deixe de ir à igreja, mas que venham ao Municipal depois, faz o politicamente correto convite Richard Craigon, diretor do corpo de balé do teatro, onde tem especial de dança a R$ 1.

A tradicional Paixão de Cristo se faz presente não só nas salas de cinema, mas em autos ao vivo, como o da Lapa e o concorrido da lona cultural de Vista Alegre, que ano passado reuniu 20 mil pessoas. Faltando um mês para a Semana Santa, a lona pára suas atividades e vira um barracão, todo mundo preparando a Paixão. Surpreendentemente, nosso público é de todas as idades, conta Ulisses Conti, coordenador da lona.

Mas também tem programação só para as crianças, como a série de atividades da Fazendinha Estação Natureza, em Vargem Grande, onde o foco são as crianças com idade entre seis meses e 9 anos. Tem fabriquinha de chocolate, onde eles fazem os próprios bombons, pintura de casca de ovo e a caça ao coelho, que os pequenos adoram, porque é a maior bagunça, diverte-se Leila Heidtmann, sócia do espaço.

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Os apressadinhos

Segundo o supervisor Isaías Tinoco, o time do Vasco estava com a cabeça no Flamengo, esquecendo o 15 de Novembro
Carlos Monteiro

Ninguém definiu melhor a vexatória derrota de 3 a 0 para o 15 de Novembro, de Campo Bom (RS), do que o supervisor do Vasco, Isaías Tinoco: ¿Os jogadores tinham antes que sair com a Zezé Macedo, mas não paravam de pensar no passeio que dariam com a Xuxa, no domingo¿, disse Tinoco, referindo-se ao jogo da Copa do Brasil e a decisão do Estadual, com o Flamengo, respectivamente.

A eliminação da Copa do Brasil, para o modesto time gaúcho, levou apreensão ontem ao Vasco-Barra. Primeiro, pela proximidade da final com o Rubro-Negro e, segundo, pela imaturidade demonstrada pelo time, que bastava não levar um gol, para seguir adiante na competição.

Um tanto irritado com a auto-suficiência do grupo, o técnico Geninho deu uma dura nos jogadores, ontem, no Vasco-Barra, que durou aproximadamente 45 minutos.

¿Faltou um pouco de maturidade. Tínhamos de rodar a bola. Não precisávamos partir para dentro deles. Se a partida permanecesse 0 a 0, eles é que teriam de sair para o jogo, uma vez que o resultado não os interessaria. Aí, poderíamos explorar os contra-ataques¿, reclamou Geninho.

Preocupado com a falta de maturidade da maioria de seus jogadores, o treinador vascaíno teve uma conversa em particular com Beto e Valdir, os mais experientes do grupo em condições de jogo, por uns 15 minutos. Eles serão muito importantes para dar um suporte à garotada, explicou o técnico.

Levado à condição de titular após a boa exibição contra o Fluminense, Coutinho revelou o teor da bronca de Geninho. Ele falou que só a conquista do título sobre o Flamengo é que nos colocará no topo novamente. Os dois jogos decisivos serão a nossa prova de fogo este ano, atestou o cabeça-de-área.

Assim como o goleiro Fábio, Victor Boleta acredita que faltou humildade ao Vasco. A gente só perde quando acha que não pode ser derrotado. Acreditávamos que faríamos o gol a qualquer hora, reconheceu.

Mais radical do que o treinador, Marcelinho detonou. Ainda sem condições de jogo, o Pé-de-Anjo foi categórico. Para ele, o Vasco jogou mal e, por isso, perdeu.

Não adianta arranjar desculpa, tapar o sol com a peneira, dizendo que o time é jovem. O time esteve mal e, por isso, acabou saindo da Copa do Brasil, reclamou Marcelinho, que, recuperado da lesão na panturrilha esquerda, está entregue à preparação física.

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Celebridade vira pitboy

Estrela da novela das oito, Marcelo Faria dá gravata e socos em fotógrafo que o flagrou com loura no Leblon
Celso Brito e Roberta Fortuna

O ator Marcelo Achcar Faria, 32 anos, encarnou, no fim da noite de ontem, o bombeiro Vladimir, personagem vivido por ele na novela Celebridade, da Rede Globo. A exemplo de cenas exibidas na TV, em que Vladimir se revolta com a presença de fotógrafos, o ator ontem agrediu e quebrou o equipamento de Wagner Santos, 31, da revista Contigo, da Editora Abril. A cena aconteceu na porta do bar Seu Martin, na Avenida General San Martin, Leblon. Marcelo estava com uma jovem loura não-identificada, que chegou a pedir para o ator não bater no fotógrafo.

Wagner passava no local com a repórter Cida Farias e, ao descobrir a presença da celebridade, ficou do outro lado da calçada, de onde flagrou Faria e a mulher deixando o bar. Depois, virou as costas, mas o ator começou a gritar. Revoltado, Faria partiu para cima do fotógrafo e iniciou as agressões, com uma gravata e socos. Em seguida, o ator tomou a câmera e quebrou o aparelho, avaliado em R$ 8 mil. A máquina foi jogada no chão e lançada várias vezes contra uma árvore. Embora tenha destruído o equipamento, o filme com as fotos feitas por Wagner não foi danificado. O fotógrafo foi socorrido pelo motorista da equipe de reportagem, identificado como Serginho, e por seguranças de bares próximos.

Ferido e com o equipamento quebrado, Wagner foi à 14ª DP (Leblon). Mais tarde, de roupa trocada, o ator também compareceu à delegacia. Ele, que já foi acusado de agredir fotógrafos em outra ocasião e detido por porte de maconha, teria afirmado que o profissional iniciou as agressões. O delegado Carlos Sodré autuou os dois por lesão corporal. O ator foi ainda autuado por danos, e Wagner responderá também por perturbação do trabalho ou sossego alheio.

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Mauren Motta
09/04/2004


Ninho roubado

Feriadão de Páscoa aqui no Sul tem cara de último banho de mar, de ida pra praia. O meu destino preferido sempre foi Santa Catarina. Na adolescência, era "cool" arrumar a mochila e embarcar em um ônibus para Garopaba. Como não tínhamos carro, o jeito era esperar o táxi do seu Avelino, que nos pegava às seis da manhã no trevo da estrada. Numa delas, eu e minha amiga Ângela fomos lépidas e faceiras curtir quatro dias de agito, festinhas e muuuito sol. A praia da Ferrugem era "o lugar". Surfistada, gente bonita e nada de ovinhos.

Tudo estava certinho até que fomos roubadas. Sempre fui organizada. Sabia tudo o que tinha levado. No segundo dia de feriado, percebi ao acordar que a porta da sacada estava arrombada. Como não vimos nada e parecia estar tudo ali, até meu walkman pink made in Paraguai, não demos bola. Apenas avisamos na portaria. Depois da praia, fomos nos produzir para ir até a sorveteria Gelomar, o pico da cidade. Aí é que foi o problema. Faltavam coisas: um brinco meu e um short da Ângela. Os furtos foram se repetindo dia após dia. Os gatunos andavam pelo parapeito do predinho e pulavam para nossa sacadinha. O engraçado é que não levavam tudo, só coisinhas de marca boa e peças escolhidas a dedo.

Irada, comecei a investigar. Nos apartamentos colados ao nosso, tinha uma família com três filhos. No primeiro quarto ficavam os pais, no segundo os filhos menores e no terceiro a filha adolescente com duas amigas. Fui até lá para perguntar se elas tinham visto alguém estranho. No meio do papo, na porta do quarto, reconheci meu brinco em cima da cama. Resultado: recuperamos tudinho com a ajuda do gerente do hotel. Vergonha! As meninas eram de uma família ótima e estudavam em uma escola particular de Porto Alegre. Abafa o caso. O gerente pediu pra gente deixar pra lá. De posse de nossas coisas, concordamos.

Na saída, quando fomos pagar a conta do hotel, faltava justamente o dinheiro que tínhamos guardado no mocó da carteira de nylon! Fiquei passada. A Ângela queria bater no gerente. Desconsoladas e duras, pegamos o "buzum" de volta. No segundo semestre, qual não foi a minha surpresa? A menina, digo, a cleptomaníaca, entrou para a minha escola. Fui falar com ela e pedi que trouxesse a grana roubada. Ela devolveu o equivalente a R$ 50 da época em notas de um. Soube mais tarde que ela costumava mudar de escola com freqüência por causa desse péssimo habito. Nunca mais vi a menina-gato. Espero que ela tenha se recuperado. Quanto a mim, nunca esqueci aquela Páscoa.


mauren@rbstv.com.br

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David Coimbra
09/04/2004


O bife de 1999

Comi um bife na Sexta-feira Santa de 1999. Eu mesmo o fiz. Esfreguei dois dentes de alho amassados na carne, pinguei um nada de azeite na frigideira. Sal, só depois de pronto, senão o bife fica duro. No meio da fritura, o detalhe especial: uma colherinha de açúcar. Para completar, refoguei uma cebola fatiada no molho que restou. Perfeito.

Mas, quando dei a primeira dentada, o que senti foi gosto de sangue. Sangue fresco, sangue humano e vivo escorrendo das comissuras da minha boca, como se eu fosse o próprio Nosferatu.

Violava o interdito da carne vermelha na Sexta-feira Santa, esse o problema. O respeito à Sexta-feira Santa está incrustado em minha mente tanto quanto a Fórmula de Baskara. Jamais esquecerei um e outro.

Naquele momento em que o prazer do bife me foi subtraído, pensei: quanta idiotice, por que essa bobagem ainda me impressiona? Mas bastou chegar a noite para mudar de idéia. Porque liguei a TV e não estava passando O Cálice Sagrado. Nem Quo Vadis?. Nem O Manto Sagrado. Fiquei revoltado. Como é que pode uma Páscoa sem O Manto Sagrado? Compreendi então que essa é uma época de destruição das liturgias. Mas elas têm um sentido! Servem para algo, afinal! Servem como representação material das idéias. E, quando não há respeito às liturgias, também não há respeito às idéias que representam. Ou seja: vou comer bacalhau, nessa Sexta-feira Santa. Mas será que passará O Cálice Sagrado?

Vi um sujeito no supermercado. Ele usava bermudas. Freou o carrinho diante de um funcionário que empilhava vidros de cebolinha em conserva.

- Tu trabalha aqui? - era uma acusação, não uma pergunta. O funcionário gaguejou que sim.

- Como é que vocês fazem um absurdo desses com a laranja-de-umbigo? - berrou, unindo o polegar ao indicador e tremulando-os no ar, feito um estandarte.

Prestei atenção. Sou apreciador de laranjas. Entendi que o homem de bermudas reclamava do lugar onde o preço da laranja-de-umbigo fora afixado. Algo assim. Ele continuou lá, espicaçando o funcionário e eu continuei empurrando carrinho. Em um minuto, estava diante delas - as laranjas de umbigo. Olhei-as. Redondas. Amarelas. Atraentes, de fato. Mas valeriam a fúria hortifrutigranjeira do cliente ou o constrangimento do funcionário? Quantas laranjas custam um insulto?

Às vezes, parece que há empenho em demasia na defesa dos direitos do consumidor.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
09/04/2004


A reação dos otários

O que não entra nas cabeças dos cerca de 40 leitores que me telefonaram ou passaram e-mails anteontem é como pode a gasolina estar sendo cobrada a R$ 1,92 em Canoas, enquanto aqui, coladinha, Porto Alegre está a cobrar desde o dia 6 de abril R$ 2,179.

Por quê? Por quê? Por quê?

Por que a gasolina é mais barata em Brasília do que em Porto Alegre? Por que é mais barata no Rio de Janeiro que em Porto Alegre. Por que é mais barata em Santa Catarina do que em Porto Alegre?

Por que, em Campo Mourão, interior do Paraná, grotão, a gasolina é mais barata em R$ 0,25 por litro do que em Porto Alegre. Por quê?

Em todo o Paraná, a gasolina custa entre R$ 1,85 e R$ 1,94. Como é então que desde terça-feira os postos de Porto Alegre elevaram o preço para R$ 2,179?

Podem me dizer por quê?

Como é que, em promoção, a gasolina baixou até R$ 1,74 durante o mês de março em Novo Hamburgo, subindo apenas dia 6 de abril para R$ 1,99 nuns postos, noutros a R$ 2,03? Ainda assim distantes dos R$ 2,179 de Porto Alegre.

Por que a gasolina aditivada custa em Novo Hamburgo R$ 0,16 por litro mais barato do que a gasolina comum em Porto Alegre?

Não vamos longe, por que um posto de gasolina de um bairro de Porto Alegre passou a cobrar, a título de promoção, para escapar do cartel, dia 6 de abril, mesmo dia do tarifaço daqui, R$ 1,98 pela gasolina comum, promoção com validade até dia 11 de abril? Por que, dentro de Porto Alegre, uma diferença de R$ 0,20 por litro com relação ao tarifaço da última terça-feira em nossa cidade?

Aqui na Capital ficou de um jeito que posto de gasolina que quiser cobrar mais barato pelo produto tem de alegar que está fazendo promoção, exatamente para fugir da pressão do cartel, que passa por cima de todos que querem baratear. Por quê?

E é evidente que quem vende assim mais barato a gasolina acaba por lucrar mais, em razão do grande volume de venda.

Só que é isto exatamente o que o cartel quer impedir e por isso pressiona os barateiros até que eles cedam e subam o preço até a tabela da "reunião". Isto! O preço da gasolina em Porto Alegre é aprovado e tabelado e fixado numa "reunião".

Em São Paulo, o litro da gasolina comum custa em média R$ 1,89. Em Belo Horizonte, o litro da gasolina comum custa R$ 1,84.

Então um tanque de 40 litros custa R$ 11 e R$ 13 a mais em Porto Alegre do que em São Paulo e Belo Horizonte, respectivamente?

Por que tudo é mais caro aqui no Rio Grande do Sul, desde a cesta básica a quase todos os outros itens de consumo.

Não será por causa da gasolina? Talvez...

Inúmeros leitores me solicitam que eu passe a fazer uma campanha para que os consumidores não abasteçam mais em Porto Alegre.

Ainda não é meu intento. Acho que devemos dar a última oportunidade aos postos da nossa cidade, da cidade que amamos e em que vivemos.

Mas se os abusos continuarem, a população vai se organizar, eu estou notando indícios disso.

Já tem muita gente indo abastecer em Canoas, e com a gasolina a R$ 1,92 lá a moda pode pegar, porque compensa gastar gasolina no trajeto, tal a diferença entre o preço da gasolina daqui e o de lá. Vejam a que ponto chegou o exagero do preço daqui.

O que essa gente tem na cabeça? Acho que nos julgam uns otários.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
O cinema transforma a Paixão de Cristo


Encenações da Sexta-feira Santa (acima) mudaram depois do polêmico filme de Mel Gibson sobre o sofrimento de Cristo (foto Tadeu Vilani/ZH)


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Quinta-feira, Abril 08, 2004




Em celebração da Páscoa, Lula pede ajuda de Deus para desempregados

15:23 08/04
Reuters


BRASÍLIA (Reuters) - Na véspera do feriado de Sexta-feira Santa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu a ajuda de Deus para os desempregados, depois de participar de um ato ecumênico no Palácio do Planalto.

"Que Deus possa ajudar o povo brasileiro, sobretudo aqueles que estão sofrendo, sobretudo aqueles que estão desempregados'', disse o presidente a jornalistas.

Lula chegou ao Salão Oeste do Planalto acompanhado da primeira-dama, dona Marisa, e participou de todas as orações durante a cerimônia, que foi celebrada pelo assessor especial da Presidência Frei Beto, pelo frei Vicente Bonhe e pelo pastor Cláudio Vilela.

"A Páscoa será melhor comemorada por uns do que por outros, mas o que vale na Páscoa não é a questão econômica, o que vale na Páscoa é a paixão que a gente tem dentro da gente e a disposição de nós servirmos ao nosso semelhante'', acrescentou Lula.

A taxa de desemprego subiu para 12 por cento em fevereiro, de acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Durante a cerimônia, Frei Beto afirmou que o maior escândalo do século 21 é a existência da fome, lembrando que ela mata mais que a Aids, as guerras e o terrorismo.
O assessor do presidente Lula aproveitou para defender o programa Fome Zero, pelo qual é um dos responsáveis.

"O Fome Zero nada mais é que a multiplicação dos pães e dos peixes realizada por Jesus'', disse, referindo-se a um episódio da vida de Jesus Cristo, conhecido como um de seus alegados milagres.

Após a cerimônia, Lula cumprimentou os membros do coral da Igreja Adventista de Brasília e se deixou fotografar com os participantes. Uma das coristas pediu "um solo'' do presidente, ao que ele respondeu, brincando: "Não sei cantar.''

Se o próprio Presidente está pedindo é porque está reconhecendo que a coisa está preta mesmo. Mas será que os assessores não podem dar uma ajudazinha, até porque na semana santa, como se sabe, Deus não está muito disponível, não é mesmo?

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Espanhóis são presos após ameaçarem explodir avião da Varig que partiu de SP

SÃO PAULO - Dois espanhóis foram presos na manhã desta quinta-feira após terem tentado explodir um avião da Varig que ia de São Paulo para Madri com 184 passageiros a bordo. Eles teriam agredido verbalmente a tripulação e passageiros da aeronave e se identificado como integrantes do ETA, grupo separatista basco. As informações são do Globo Online.

A empresa informou que os dois espanhóis incomodaram os passageiros durante o vôo. A tripulação se negou então a servir mais bebidas alcoólicas a eles. Com isso, a dupla ameaçou explodir o avião, um MD-11, e agrediu verbalmente uma das comissárias.

Após identificarem-se como membros do ETA, os espanhóis chegaram a pedir dinheiro para não explodir a aeronave. O comandante do vôo avisou a polícia espanhola, que os deteve no Aeroporto Internacional de Madri-Barajas.

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Todos os homens de Cida

Marido e namorado juram amor à vencedora do BBB, e Thiago diz que o tempo vai decidir. Já a ex-babá afirma que quer ficar sozinha
Alícia Uchôa

Thiago (E), que trocou carinhos com Cida e recebeu visita da vencedora no quarto ontem de madrugada, prefere fazer mistério sobre futuro da relação. Já Sebastião diz que aceita ficar com a amada mesmo sem dinheiro

Para quem entrou no Big Brother Brasil mais parecendo a Gata Borralheira, a ex-babá Cida, 21 anos, se transformou em Cinderela. Só falta escolher o príncipe encantado. No primeiro dia de liberdade depois de três meses confinada, a vencedora do programa viveu um dia de celebridade. Com R$ 500 mil no bolso, Cida virou musa de Mangaratiba e já tem uma cartela variada de pretendentes.

Enquanto Thiago e Cida trocavam abraços e carinhos, mesmo depois de decidir não colorir demais a amizade, na cidade da ex-babá duas pessoas ainda esperam por ela: Sebastião Meneses de Amorim, o Fifa, 46 anos, ex-marido, e Frederico da Silva Ceia, o Fred, 21, namorado. O primeiro, dono de lava-a-jato, e o segundo, desempregado. Apesar dos beijos de Cida e Thiago, Fifa e Fred garantem que sempre amaram a moça, na riqueza e na pobreza. Nenhum deles, no entanto, conseguiu chegar perto dela.

Quando foi sorteada, compramos champanhe para comemorar. Por mim, aceito ela de volta com ou sem dinheiro. O que aconteceu com o Thiago foi coisa de momento, diz Fifa, orgulhoso de dizer que objetos de Cida ainda estão na casa dele, sem medo dos comentários maliciosos dos vizinhos.

Apesar de recordar os bons momentos, não era de Fifa que a babá falava no programa, mas de Fred. Na verdade a gente nunca terminou. Até hoje gosto dela e se ela quiser ficar comigo, vou estar aqui, promete Fred, que recebeu um telefonema de Cida na madrugada de ontem. Ela queria saber se eu tinha ficado com alguém no Carnaval e por que eu não desci ao palco para comemorar, porque ela queria me beijar, conta, lembrando que o segurança da Globo fechou a grade da arquibancada.

Nas ruas de Mangaratiba, o comentário é que ele e Cida brigavam como cão e gato. Não me arrependo de nada. Sei que já fiz ela sofrer, mas também já sofri. Já corri atrás dela, ela me largou para ficar com outro, ressente-se. Todo mundo fala que eu quero os R$ 500 mil, mas o dinheiro é dela. Até pensei em não procurá-la mais para não pensarem que é por causa do dinheiro, diz Fred.

Thiago fica em cima do muro em relação à campeã

Mesmo com a relação muito bem discutida dentro da casa, Thiago faz suspense quando o assunto é Cida. Não sei se vai rolar aqui fora, só o tempo vai dizer, despista o auxiliar administrativo, que ganhou R$ 50 mil pelo vice e recebeu a visita da vencedora em seu quarto de hotel ontem de madrugada. Ele é muito tímido e não paquera. As meninas é que correm atrás. Quando foi sorteado, disse que queria a Antonela, entrega o amigo de Thiago Fábio Alfredo Soares, 27 anos. Eu brincava que ele dava uns beijos na Cida, mas não mostravam na TV, conta o padrasto do rapaz, Adalton Machado de Mello, 44.

Sem saber em que lado joga, Cida encerra a questão: O que eu sei é que não quero ninguém agora. Vou aproveitar o prêmio, ficar sozinha e curtir a vida. Curtir a vida significa viajar, comprar sua casa e só depois pensar no que vai fazer dali por diante, sem excluir a possibilidade de fazer lipoaspiração. Sem claro, renegar o passado. Thiago e Fred são meus amigos, e eu já tinha me separado do Fifa antes de entrar na casa. Mas se ele quis dizer que é meu marido.... (Colaborou Marcelle Carvalho)

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Daiane e Daniele, a chama do Brasil

Ginastas são convidadas para conduzir a tocha olímpica pelas ruas do Rio, dia 13 de junho. Gauchinha diz que seu ego está subindoResponsáveis por três medalhas do Brasil na etapa do Rio da Copa do Mundo de ginástica artística, no Riocentro, as ginastas Daiane dos Santos e Daniele Hypólito foram convidadas para conduzir a tocha olímpica dos Jogos de Atenas, pelas ruas do Rio, no dia 13 de junho. O convite foi feito pela empresa patrocinadora da equipe olímpica permanente feminina de ginástica artística, a Coca-Cola.

Daiane, que conquistou seu quinto ouro no solo na competição disputada no Rio, não escondeu a felicidade ao receber o convite. Nossa, meu ego ..., disse a gauchinha, assobiando, e completando em seguida: Só sobe.

Daniele Hypólito, ouro na trave e prata nas barras assimétricas no Riocentro, já participou em 2002 do revezamento da tocha dos Jogos Olímpicos de Inverno de Salt Lake City, nos Estados Unidos.

Dos 42 condutores da tocha que tem direito de indicar, a empresa de refrigerantes decidiu apontar seis integrantes das equipes olímpicas permanentes de judô, ginástica artística e triatlo. O nome do judoca Carlos Honorato já havia sido anunciado em novembro.

Os convidados do triatlo foram Virgílio de Castilho e Sandra Soldan. Para completar a lista, a empresa convidou a judoca Edinanci Silva, da categoria meio-pesado.

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VASCO X 15 DE NOVEMBRO
Que campeão é esse?

Ducha gelada antes da final. O desconhecido 15 de Novembro de Campo Bom (RS) humilha e elimina Vasco da Copa do Brasil
Carlos Monteiro

O Vasco teve um aperitivo indigesto para o primeiro jogo da decisão do Campeonato Estadual, contra o Flamengo, e foi eliminado ontem da Copa Brasil, com uma derrota de 3 a 0 para o 15 de Novembro, em São Januário. Para complicar a situação dos vascaínos, o técnico Geninho pode perder dois titulares para a partida de domingo, contra o Rubro-Negro: o zagueiro Henrique e o atacante Róbson Luiz, que deixaram o campo sentindo dores. Curiosamente, 15 de novembro é a data de aniversário de fundação do clube da Gávea.

Mas a torcida cruzmaltina teve outros motivos para ter saído apreensiva do jogo de ontem: o time mostrou fragilidade no sistema defensivo e desperdiçou várias chances de gol no primeiro tempo, quando pecou demais nas finalizações. Aos 22 minutos, por exemplo, Victor Boleta recebeu livre na área, mas chutou em cima de Marcelo Pitol.

Um minuto depois, Ygor, tirando onda de lateral-direito, cruzou para Beto, que cabeceou por cima do gol. Aos 31, foi a vez de Beto cruzar para Valdir, mas o Bigode, livre na pequena área, desperdiçou outra boa chance. Temos de ter mais capricho nas finalizações e cuidado nos contra-ataques, alertou Geninho, no intervalo.

Mas a situação se complicou de vez no segundo tempo. Santiago entrou no lugar de Henrique, que sentiu dores no adutor da coxa esquerda. E Cadu substituiu Róbson Luiz, com dores no joelho esquerdo.

Aos 21 minutos, Fábio fez uma defesa milagrosa, salvando o Vasco. Mas o primeiro gol do 15 de Novembro acabou saindo aos 22 minutos, quando a zaga falhou e Dauri recebeu livre dentro da área, acertando o canto esquerdo de Fábio. Dois minutos depois, Victor Boleta fez pênalti em Bebeto. Canhoto cobrou e Fábio espalmou, mas Canhoto pegou o rebote e ampliou o placar: 2 a 0.

Aos 35 minutos, Dauri marcou novamente e decretou a vitória do 15 de Novembro, por 3 a 0. Revoltados, os vascaínos não economizaram nas vaias e passaram a gritar olé toda a vez em que os adversários tocavam a bola.

Ontem, Ygor, expulso no jogo contra o Flamengo, na última rodada da Taça Rio, foi absolvido pela Comissão Disciplinar da Federação de Futebol do Rio. Como já cumpriu a suspensão automática contra o Friburguense, está liberado para enfrentar o Flamengo, no domingo.

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Nilson Souza
08/04/2004


Vacina anticonsumo

Ganhei um livrinho infantil e já o estava repassando a um amigo quando ele me chamou a atenção para a dedicatória em letra manuscrita, caligrafia de professora. Tinha o meu nome e um agradecimento, por certa reportagem que fiz quando trabalhava para uma revista especializada em educação. A autora do livro, minha entrevistada na época, é uma conhecida ativista de movimentos de defesa do consumidor - a bióloga Maria de Lourdes Coelho. Com sua experiência de mais de uma década de militância, ela bolou uma historinha destinada a conscientizar crianças sobre os riscos do consumismo.

O livreto, com belas ilustrações de Sílvia Aroeira, merece ser lido também por adultos, pois ensina de forma didática a não comprar coisas inúteis apenas por modismo, mostra como evitar as armadilhas da propaganda enganosa, como batalhar pelo melhor preço de um produto ou serviço e como se prevenir para uma eventual reclamação.

Não me considero um consumista, mas sou um consumidor pra lá de relapso. Pego coisas nas prateleiras do supermercado sem olhar o preço, raramente confiro no caixa se o valor registrado é o mesmo, não faço pesquisas e nem costumo exigir nota fiscal. A única vacina que fez efeito comigo foi a antipropaganda. Mesmo antes de ver o Zeca Pagodinho mudar de rótulo como quem muda de partido político, desenvolvi uma eficiente resistência aos apelos publicitários.

Gostei do livrinho, especialmente porque ele é dirigido ao público infantil. As crianças são hoje determinantes no consumo familiar. Influem em tudo, da marca do iogurte ao local das férias. E são, por razões óbvias, muito influenciáveis pela publicidade, que cada vez mais aprimora as mensagens a elas dirigidas.

Pedro e Aninha são os personagens da história. O menino usa roupa de grife, tênis com luzinha, gasta os tubos em bobagens e, quando o dinheiro da mesada termina, choraminga no ouvido do pai, que lhe alcança mais. A menina é uma espécie de grilo-falante, passa o tempo todo dando conselhos sensatos e tentando fazer com que o companheiro consumista desembarque na realidade. Quando entrevistei a autora, há mais de 10 anos, fiquei com a impressão de que ela travava uma batalha quixotesca contra os moinhos de vento do capitalismo selvagem. Desde então, porém, muita coisa mudou em nosso país. Temos hoje um Código de Defesa do Consumidor e muita gente já se deu conta de que o consumo compulsivo é uma doença.

Agora, pelo jeito, chegou a hora de vacinar as crianças.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
08/04/2004


Doeu demais

O que dói é conhecer-se que o consumidor porto-alegrense de gasolina há muito tempo já sabia que os preços nos postos da Capital eram combinados.

Há muitos meses venho recebendo essa queixa dos consumidores, faltava apenas apanhar com a boca na botija os cartelistas.

O golpe de subir a gasolina antes dos feriadões é manjadíssimo entre os consumidores, foi assim no Carnaval e agora é assim na Semana Santa.

A montanha de e-mails que recebi ontem mostrava consumidores desconsolados com a falta de ação das autoridades para coibir a desavergonhada combinação dos preços nos postos, que chegou ao cúmulo de a grande maioria deles fixar anteontem para a gasolina comum o preço de R$ 2,179.

Ou seja, igualzinho até a terceira casa dos centavos! Pelo amor de Deus, isto é uma prova insofismável da combinação.

E da impunidade.

Os donos de postos de gasolina de Porto Alegre, depois desse episódio, até mesmo por terem entre seus integrantes pessoas idôneas, necessitam urgentemente organizar-se para criar uma relação ética com os consumidores: vou dar só um exemplo de que se pode chegar a um consenso.

Podem até todos os postos de gasolina da Capital colocarem o mesmo preço na gasolina comum.

Mas que não encurralem o consumidor para um preço excessivo como o cobrado a partir de anteontem: R$ 2,179.

É demais, o lucro assim fica em 22%. Só os bancos ganham isso aqui no Brasil. Ninguém mais tem esse lucro. 22% é ganho maior do que os impostos que a União e os Estados cobram, porque a União tem de repartir com os Estados e os Estados têm que repartir com os municípios.

Podem muito bem todos os postos cobrar R$ 2 pelo litro da gasolina comum. Como eles estão comprando o produto a R$ 1,77, lucrariam 13%. Um lucro razoável, convenhamos. Podiam até cobrar R$ 2,05, vá lá. Eles teriam um lucro capaz de pagar as suas despesas e fazer sobrar algo muito denso pelo seu investimento. Nós, consumidores, reconheceríamos que é merecida e compreensível essa margem. Se quiserem, eu patrocino esse acordo com a população de Porto Alegre.

Mas cobrar R$ 2,179 por litro de gasolina, lucrando 22% sobre o preço total pela operação singela e modesta de abastecimento é usurpação, é exploração, é inaceitável.

O lucro descomunal a que estão chegando desde anteontem os postos, em sua maioria, em Porto Alegre, que atinge o abuso de R$ 20, ou R$ 24, ou R$ 28 por cada tanque cheio de consumidor, dependendo da capacidade de cada veículo, é maior do que obtém a Petrobras para pesquisar, prospectar e vender o petróleo.

Chegou-se em Porto Alegre com esse lucro em torno de 22% a uma irresponsabilidade. Não é possível pagar R$ 24 de lucro dos postos por cada tanque cheio, em troca do simples serviço de encher um tanque no posto. Ninguém ganha isso no Brasil em qualquer atividade, os supermercados têm margem de lucro de menos da metade dos postos de gasolina!

Cresceu o olho dessa turma e subiu até o delírio a sua ganância.

A revolta dos consumidores em geral está espelhada na correspondência que esta coluna e Zero Hora estão recebendo desde ontem. O pior e o mais grave é que tudo foi combinado. E se pressiona e ameaça quem não obedecer à combinação.

Como passou anteontem do limite o cartel, a manchete de Zero Hora de ontem levou a Secretaria de Acompanhamento Econômico e a Coordenação Geral de Defesa da Concorrência, ambos órgãos do Ministério da Fazenda, a deflagrar providências contra o escândalo.

Passaram do limite. Reduzam depressa esse preço acintoso!

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Incêndio
Chamas iluminam o horizonte de Porto Alegre



Parte da área em Guaíba que era destinada à fábrica da Ford, às margens da BR-116, foi atingida ontem por um incêndio, que a BM suspeita seja criminoso (foto Henri Siegert Chazan, Fly Hermes, especial/ZH)


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Quarta-feira, Abril 07, 2004




Caindo no real

Rafael Sens - Diário de S.Paulo
Paulo Ricardo Moreira - O Globo


Na noite desta terça-feira, o Brasil conheceu o sortuda ,0que faturou o "Big Brother Brasil 4" e saiu da casa com meio milhão de reais a mais na conta bancária. Como não é todo dia que se embolsa tanta grana, não deve ser fácil administrar esta quantia sem sair por aí esbanjando. Mas será que é possível resistir à tentação de torrar tudo em poucos dias? Na tentativa de descobrir a resposta, o DIÁRIO saiu na cola de seis vencedores de reality shows para saber o que fizeram com a pequena fortuna e o que estão aprontando.

Ao que parece, de bobo Kléber Bambam não tem nada. O marombado faturou R$ 500 mil na primeira edição do "Big Brother", da Globo. Depois de protagonizar cenas constrangedoras com a boneca Maria Eugênia no programa, ele acabou levando a melhor. Com o dinheiro, comprou dois apartamentos no Rio e um em Santos (SP). Além de ter atuado no humorístico "Turma do Didi", viaja pelo país com seu grupo Bambam e as Pedritas. Engordando ainda mais seus rendimentos, o dançarino estrela comerciais de uma marca de refrigerante. Na propaganda, ele divide a cena com outro ganhador de reality show, o cantor Rafael Vanucci, que faturou a segunda edição da "Casa dos Artistas", no SBT. A primeira coisa que o filho de Vanusa fez foi comprar um presentinho para a mamãe.

- Ganhei R$ 520 mil. Depois de quatro meses, encontrei um apartamento do jeito que ela queria lembra.

Em seguida, Rafael preferiu aplicar a grana na carreira de can-tor.

- Investi em cursos, banda, escritório e figurino.

O moço, aliás, está se preparando para gravar seu segundo CD solo. Mesmo com tantos gastos, ele diz ainda ter "R$ 500 mil guardadinhos". Precavido, engordou seu pé-de-meia posandonu para uma revista.

Em cartaz na Capital com a peça "A Babá" - dirigida por Bibi Ferreira -, Bárbara Paz não foi com tanta sede ao pote depois de faturar R$ 300 mil na primeira "Casa dos Artistas". Única mu- lher até hoje a ganhar o primeiro lugar numa atração deste tipo, comprou um apartamento e ajudou a família. Nada de extravagâncias. A gaúcha diz que hoje é reconhecida e respeitada, mas não por conta de sua vitória no reality show.

- Eu tenho um trabalho a ser visto - afirma, assumindo:

- Claro que meu público aumentou. Faço uma peça atrás da outra.

De brinde

Além do reconhecimento e das cifras, Bárbara - que hoje está nomaior chamego com o ator Dalton Vigh - na época ganhou um namorado: o roqueiro Supla, também participante e finalista da "Casa".

Outro que só saiu ganhando foi o goiano Dhomini, vencedor da terceira edição do "BBB". No confinamento, ficou com a agora apresentadora do "Pânico na TV" Sabrina Sato. Após abocanhar meio milhão, comprou gado, três caminhões e quatro apartamentos. Seu pai toma conta dos animais, que ficam num pasto alugado em Goiânia. Seu irmão administra a minifrota de caminhões, fazendo frete para empresas. E os imóveis estão alugados.

Preferido do público do "Big Brother Brasil 2", o vaqueiro Rodrigo não poderia investir em outra coisa: pecuária. Ele cria gado e comercializa cavalos numa fazenda arrendada no interior de Goiás. Além disso, comprou um apartamento em Ribeirão Preto (SP), onde mora com a mãe.

Benemerência

Na terceira edição da "Casa dos Artistas" - que reunia astros eseus admiradores -, quem se deu bem foi o fã da apresentadora Solange Frazão. O triatleta paraibano Serginho Montenegro ganhou R$ 400 mil. Além de fazer doações para instituições de caridade de seu estado (ele afirma ter desembolsado R$ 40 mil), realizou um sonho antigo.

- A primeira coisa que fiz foi entrar em uma loja para comprar roupas de marca.

Passado o deslumbre, resolveu apostar tudo na carreira de ator.

- Comprei muitos livros sobre teatro e fiz cursos.

Na lista de aquisições, não poderiam faltar apartamentos. Comprou um para os pais, em João Pessoa (PB), e outro - de um quarto, na Zona Sul de São Paulo - para morar. Agora, prepara-se para estrear uma peça.

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Por um abraço tecnológico

Dia da Inclusão Digital se espalha por todo o País, mobilizando a população para a importância do tema
Mylène Neno

Na Cinelândia, o abraço homenageou a Dia da Inclusão Digital, simbolizando a conscientização da população sobre o tema. No local, também foi realizado um debate

No último sábado de março, a quinta edição do Dia da Inclusão Digital mobilizou 20 estados brasileiros e outros três países da América do Sul Argentina, Chile e Uruguai em prol da democratização da informática. No Rio, o palco foi a Cinelândia, que recebeu um abraço em homenagem à data, para simbolizar a conscientização popular sobre o tema.

Entre shows de grupos de dança e música de comunidades carentes, como Afrolata e Jongo da Serrinha, foi realizado um debate sobre a importância da Inclusão Digital para o desenvolvimento Social com representantes do terceiro setor, da área acadêmica e do empresariado. E há muito o que ser discutido mesmo. No Brasil, apenas 12,46% das residências brasileiras têm micro, sendo que menos domicílios ainda 8,31%, para sermos mais exatos têm acesso à Internet.

Nos últimos cinco anos sentimos boas mudanças, mas a partir de agora temos que dar um grande salto grande e passar do debate para a a ação sinérgica, em parceria com os três setores. Precisamos articular essas transformações de fato, criando infra-estrutura, dando acesso público à Web, além darmos capacitação tecnológica a população para o mercado de trabalho, afirma o fundador do Comitê para Democratização da Informática (CDI), Rodrigo Baggio.

Em parceria com o Instituto Ethos, o CDI lançou o manual O que as empresas podem fazer pela Inclusão Digital, uma coletânea de casos de sucesso que mostra os desafios e aponta um caminho em prol da democratização da informática.

De acordo com o comitê, são mais de 147 milhões de brasileiros excluídos digital e, por conseqüência, socialmente. Segundo o Mapa da Exclusão, estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), no ranking dos estados brasileiros mais incluídos digitalmente figuram, além do Distrito Federal, São paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraná. Por outro lado, Maranhão, Piauí, Tocantins, Acre e Alagoas são os estados mais excluídos.

Aos poucos as empresas vão dando importantes contribuições nesse sentido. O projeto Nossa Língua Digit@l, lançado pelo Instituto Pão de Açúcar, por exemplo, utiliza o ensino da informática e o uso da Internet para fazer com que adolescentes entre 13 e 18 anos aprendam a ler e a escrever com clareza, promovendo a reflexão sobre o exercício da cidadania.

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Muro das lamentações

Vice de futebol Celso Barros chora na despedida, enquanto Ramon e Andre Luís rejeitam a reserva
Mauro Leão


Ramon não gostou de ser opção no banco e quer a vaga no time titular

O Fluminense se transformou num verdadeiro muro das lamentações. Fora da decisão do Campeonato Estadual, o time que mais investiu para a competição se transformou numa choradeira só.

O mar de lágrimas inundou o clube. O emotivo Celso Barros, que entregou o cargo de vice-presidente de futebol, na noite de segunda-feira, foi às Laranjeiras se despedir dos jogadores. Numa breve reunião, Celso Barros, que na época das vitórias conciliava muito bem o cargo de vice de futebol com o de presidente da Unimed, alegou falta de tempo e se despediu dos jogadores.

Apesar da promessa de que a Unimed continuará pagando os milionários salários dos galáticos tricolores, as contas bancárias de Romário, Edmundo, Ramon e Roger choraram de apreensão.

Ramon, além da preocupação com os salários, chorou também por ter sido barrado contra o Vasco e ter entrado após Roger se machucar. Não gostei e não posso negar. Jamais ficarei satisfeito com o banco de reservas, admitiu Ramon. Ao ser perguntado se terá futuro no clube, respondeu irritado: Faltaram as vitórias e o título. O vice de futebol deixou o cargo. Vamos esperar para ver no que vai dar.

André Luís diz que foi mal aproveitado

Vestindo camisa e bermuda azul e calçando uma sandália havaiana branca, até André Luís botou a boca no trombone. Conhecido nas Laranjeiras como o presidente do clube dos chinelinhos do Fluminense, André Luís, reclamou. Só fui aproveitado duas vezes, em 45 minutos, contra o Vasco e Flamengo. Na verdade, fui muito mal aproveitado pelos treinadores, criticou.

O técnico Ricardo Gomes, que deseja um time forte para o Brasileirão, pois considera o atual elenco fraco, não gostou nada das declarações do jogador. Primeiro, ele tem que resolver as suas dúvidas. Caso contrário, não jogará em lugar nenhum.

André Luis, que gastou grande parte do tempo fora dos treinamentos, alegando dores no cóccix, discorda do treinador. Eu treinei mais do que todos os jogadores e fui jogado na fogueira.

Danrlei toma a vaga de Fernando Henrique

Ontem, ele conseguiu a sua liberação do Paris Saint-Germain, da França. Mas deverá ser rifado das Laranjeiras. Estou em forma para chegar em outro clube e provar o meu valor, apostou o lateral.

Quem está prestes a chorar de alegria é o goleiro Danrlei. Está cotado para estrear contra o seu ex-clube, o Grêmio. Fernando Henrique não foi bem contra o Vasco e vai perder a vaga. Roger, que irá operar a boca, amanhã, em São Paulo; Rodolfo, suspenso e Leonardo Moura, com estiramento na coxa esquerda, não enfrentarão o Grêmio, no dia 14.

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Babá fatura bolada do Big Brother



Cida, que entrou por sorteio, é a primeira mulher a vencer o Big Brother

Gecilda da Silva dos Santos, a Cida, se transformou ontem na primeira mulher a ganhar uma edição do Big Brother Brasil. A moradora de Mangaratiba teve 69% dos 11 milhões de votos, contra 31% do são-gonçalense Tiago. Eufórica diante do prêmio de R$ 500 mil, Cida gritava Obrigada, Brasil e Obrigada, Big Brother e, para o apresentador Pedro Bial, ela resumiu: É muita emoção.

Cida disse que vai comprar uma casa e doar uma parte do dinheiro. O programa foi marcado pela emoção de Cida e Tiago, que choraram ao ver as famílias e assistiram a várias edições com as intrigas, romances e diversões no programa. Os ex-participantes também foram ao auditório assistir ao programa.

A Globo instalou um telão no centro de Mangaratiba em que as faixas chamavam o lugar de Mangaracida e outro perto da casa de Tiago, em São Gonçalo onde se reuniram mais de duas mil pessoas.

A final com Cida e Thiago também serviu para fazer propaganda da revista do Big Brother, já que os dois entraram por sorteio. Logo que chegou ao programa, Cida era um peixe fora dágua e ficava isolada. Thiago sempre foi seu fiel escudeiro. Com o passar das semanas, começou se mostrar espirituosa.

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David Coimbra
07/04/2004


Histórias Extraordinárias

Aconteceu uma coisa horrível com o Medanha. Tudo por causa de um seio com silicone.

E é só do que se fala no clube, aconteceu uma coisa horrível com o Medanha, aconteceu uma coisa horrível com o Medanha. Agora, o Medanha está fora da final do campeonato lá da vila. Justo ele, o melhor do time. Esse o perigo dos seios transgênicos.

Que toda a gente conheça a triste história do meia Medanha para poder se prevenir.

Sucedeu que uma noite o Medanha se repoltreava com certa dama de pernas longas e seios ubérrimos. Seios irresistíveis. Tanto que ele não resistiu: deu uma dentada em um dos seios, parece que o esquerdo. Nada grave, uma mordiscada de paixão. A moça apenas fez:

- Umc!

E se deixou mordiscar. O Medanha continuou mordiscando, nham, nham, até sentir aquele gosto estranho na boca.

- Era amarguento - definiria o Medanha mais tarde, enquanto o levavam para o Pronto Socorro.

O Medanha ficou confuso. Estava ali, com o seio devidamente abocanhado, a moça fazendo umc, umc, e ele sentindo um gosto amarguento no fundo da língua. O Medanha achou que talvez pudesse ser leite. Porque não sabia que abocanhava um transgênico. Sabia apenas que era aquele seio que queria ter entre os dentes. Sempre desejara morder aquele seio. Sempre. Não iria, pois, abdicar dele devido a um liquidozinho oleoso, por acre que fosse. Prosseguiu na mordiscação. Prosseguiu a sorver o líquido, que, agora ele firmara a certeza, não era leite. Leite não tinha gosto amarguento. Que outro produto as mulheres eram capazes de fornecer? As mulheres eram mesmo surpreendentes. E o Medanha estava realmente confuso.

Então sentiu a dor. Uma dor lacerante. Como se suas entranhas estivessem empedrando. O Medanha continuou firme. Não ia largar assim, no más, um seio pelo qual tanto havia batalhado e com o qual tanto havia sonhado. Chegou, porém, um momento que ele não agüentou mais. Muita dor. Afastou o seio como quem afasta uma teia de aranha ou um pensamento ruim. Apalpou o ventre - o dele, não o dela. E sentiu que algo lhe cristalizara no intestino. Pior: aquilo estava crescendo. Crescendo. Começou como um caroço do tamanho de um ovo de codorna. Em um minuto, virou ovo de avestruz. De repente, o Medanha sentia como se houvesse engolido uma bola de futsal. Fitou a moça e, para seu imenso horror, viu: o seio antes abocanhado, provavelmente o esquerdo, murchara. Estava vazando!

- Meu Deus! - começou a gritar o Medanha, em pânico absoluto. - Meu Deus!

Em 15 minutos, dava entrada no Pronto Socorro. Domingo, não poderá jogar a final. Por causa de um único seio biônico. Que todos conheçam a dolorosa história do Medanha. Que todos se previnam contra os perigos da vida no Século 21.

A paixão de Miranda
Faz uns quatro anos que o ex-presidente do Inter Fernando Miranda carrega no bolso o recorte amarfanhado e desbotado de uma crônica minha. Nessa crônica, eu fazia uma brincadeira a respeito de o Miranda só se preocupar com a situação financeira do clube e se contentar com um time mediano. Dizia que às vezes era preciso um pouco de irresponsabilidade. Saudava sobretudo a irresponsabilidade do Flamengo, que contratava Romários e Edmundos por atacado sem nem saber como pagar. Finalmente, imaginava a torcida do Inter vibrando com as conquistas financeiras da sua diretoria, a cantar feliz na arquibancada:

- Dá-lhe, dá-lhe balanceeeete, com muita honestidaaaade e precisãããão!

Ou:

- Uh, superávit! Uh, superávit!

Uma blague, claro. Mas o Miranda ficou ultrajado a ponto de, desde então, levar a crônica a todo lugar onde vai. Nos últimos anos, o Miranda já falou comigo pelo menos meia dúzia de vezes acerca desse texto. Tipo dizendo:

- Viu como eu estava certo? Viu???

Todas essas vezes expliquei que apreciava a gestão dele, só achava que era necessária uma dosezinha maior de ousadia e também estava mais era brincando e patati e patatá. Pois bem. Hoje, Fernando Carvalho faz uma gestão que vai entrar para a história do Inter. Fernando Carvalho está organizando e modernizando o Inter, transformando-o num clube realmente grande.

E isso só está sendo possível devido ao outro Fernando, o Miranda.

Tendo de enfrentar todas as vicissitudes de um trabalho saneador, inclusive a vicissitude das críticas, Miranda não recuou e, embora às vezes fosse turrão em demasia, fez o que tinha de fazer. Imolou-se em nome do futuro do Inter. Saiu do clube lanhado de inimizades. Mas com a certeza de que a História lhe daria razão. Acho que, hoje, Miranda pode colocar aquele recorte no lixo, afinal.

O que falta ao Inter
Falta um ingrediente para o Inter se transformar num time de exceção e conquistar os títulos que há tanto tempo não conquista. Um único ingrediente: o Grande Jogador. E o Grande Jogador é mais do que o craque; ele é a alma do time.

O Grande Jogador do Inter dos anos 70 não foi Falcão, Carpegiani ou Valdomiro. Foi Figueroa. A chegada de Figueroa é que deu nova dimensão ao Inter. Com ele, todos os outros cresceram. Aí, Falcão se transformou no Grande Jogador do Roma e Carpegiani no Grande Jogador do Flamengo. Mas, antes, Figueroa precisou mostrar como era ser grande.

O pilar
O Inter de hoje está cimentando seu pilar técnico no ponto certo: na base do meio-de-campo. Marabá e Wellington deram estabilidade ao time. Graças a eles, os colegas estão jogando tudo o que podem e até um pouco a mais. Com esses dois e mais o Grande Jogador, tudo o que vier será acréscimo.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Martha Medeiros

07/04/2004

Garotos-propaganda

Na minha opinião, a melhor propaganda de cerveja que está no ar é aquela que mostra um cara aqui do Sul contando para os amigos que esteve no Rio, conheceu quatro gatas formidáveis e disponíveis, sentou com elas num bar e pediu uma Polar pra cada uma. Os amigos se retiram indignados chamando o cara de "baita trovador": imagina encontrar quatro Polar no Rio!

Idéia simples e divertida, que reforça o conceito de que a Polar é uma cerveja nossa. Mas não é da Polar que se tem falado. Segue o bate-boca entre Schin e Brahma, por conta da polêmica envolvendo a quebra de contrato do Zeca Pagodinho. Ética x malandragem. Enquanto rola o barraco, as vendas tanto de uma marca quanto de outra só fazem aumentar.

Se existe uma coisa que funciona em propaganda é colocar gente famosa em anúncio. Os chamados "testemunhais" quase sempre dão o retorno esperado, supondo, claro, que a celebridade escolhida tenha algo a ver com o produto e com o público-alvo, senão é um tiro n'água.

Danuza Leão vendendo Charm e Pedrinho Aguinaga vendendo Chanceler, o fino que satisfaz, foram golaços numa época em que era elegante fumar. Poucos anos atrás, Luma de Oliveira foi a estrela de um comercial de sandálias, em que ela, de minissaia, procurava sua numeração numa prateleira rente ao chão, mal orientada por um funcionário com terceiras intenções. E quem melhor para anunciar adoçante do que Silvia Pfeifer e Carolina Ferraz, que juntas não pesam o que eu peso?

Claro que há aqueles comerciais em que a celebridade mereceria um adicional pelo vexame. Quem não lembra da Glória Pires divulgando em rede nacional que o marido tinha caspa? Me expliquem o que faz Milton Nascimento travestido de porteiro de hotel para falar bem da sua Minas Gerais. E o supra-sumo da canastrice: Britney Spears, Pink e Beyoncé numa arena de gladiadores vendendo refrigerante. Com o orçamento desse comercial patético, Woody Allen faria dois longas-metragens.

Voltemos ao Zeca Pagodinho, que é perfeito para vender cerveja e mais perfeito ainda trocando de marca no meio da campanha - malandro que é malandro não lê contrato, como ele mesmo admitiu em recente entrevista. Mas me perdoem os que são mais condescendentes do que eu: correto não foi. Queria ver se a Gisele Bündchen fosse pra tevê fazer campanha para outra loja de departamentos, alegando que a anterior foi uma aventura. Credibilidade não se vende.

Zeca Pagodinho deu uma de Gerson, que 30 anos atrás dizia num comercial de cigarro que o importante era levar vantagem em tudo, certo? Certo para alguns. É só dar uma olhada no país que a gente vive.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
07/04/2004


Flagrante no cartel
Os leitores desta coluna ficam sabendo, com exclusividade, a partir de hoje, como se desfecham os aumentos no preço da gasolina em Porto Alegre. A data do e-mail que publico a seguir é 3 de abril. Não o publiquei ontem porque era a data marcada para o aumento. Mostrei-o ao diretor de Redação de ZH e outras testemunhas. Se o tivesse publicado, não teria havido o aumento, que se verificou em massa, na grande maioria dos postos da cidade (18 entre 25 postos pesquisados), ontem à tarde, exatamente na data que o dono de posto que me escreveu previu com três dias de antecedência.

A informação é preciosa porque parte de dentro do cartel. Com o aumento verificado ontem, por cada tanque de gasolina cheio a maioria dos postos está lucrando entre R$ 20 e R$ 24. É demais. Em média, o litro da comum subiu ontem de R$ 2,04 para R$ 2,17. Ou melhor, quase todos os postos subiram ontem para R$ 2,17, o que escarra o cartel. Uma paulada. Mas agora, em definitivo, se confirmam os preços totalmente combinados, conforme levantamento feito ontem nos postos da cidade pela editoria de Economia de ZH. Não adianta modificar os preços hoje, depois desta coluna.

Eis o e-mail que chegou às minhas mãos: "POA, 3 de abril de 2004. Caro Sant'Ana. Leio tua coluna todos os dias e recordo-me de que em inúmeras delas trataste do problema do aumento da gasolina em nossa cidade.

Resolvi escrever porque em diversas oportunidades pude constatar a lisura, a honestidade e a seriedade com que abordaste todos os assuntos a ti encaminhados.

Obviamente solicito sigilo absoluto quanto a minha identidade, por motivos óbvios que a seguir compreenderás.

Tenho um posto de gasolina na zona norte da Capital, e nesta semana começou uma grande batalha de preços, com alguns baixando o valor do litro do combustível cobrado ao consumidor.

No momento que um ou outro posto começa a baixar o preço, os outros seguem, muito a contragosto, para não perder volume.

Ocorre que quem baixa o preço começa a sofrer pressão dos outros para subir - CARTEL - até mesmo com ameaças, pois alegam que as margens não podem baixar. Ora, com a gasolina sendo vendida por R$ 2,129 (ontem foi a R$ 2,17) a margem pode chegar a mais de R$ 0,40 por litro, o que dá e sobra para pagar as despesas de um posto e levar a subsistência para casa.

Deves perguntar por que resolvi falar? Falo porque preciso pagar as contas e com o preço da gasolina no patamar que querem deixar não há condições para tal. Preço alto é igual a vendas baixas. Não adianta vender pouco com lucro muito alto, quando podemos vender mais, e muito mais, com um lucro um pouco menor.

Falo ainda porque ninguém faz nada, fica todo mundo inerte com esses abusos praticados.

Já tem programação para a gasolina aumentar na próxima terça-feira (ontem). Será que o consumidor não se deu conta de que os donos de postos estão brincando com eles, aumentando a gasolina na primeira quinzena do mês, quando se tem um pouco de dinheiro e baixando no final do mês, quando a grana já está bem mais curta?

Está na hora de alguém botar a boca no trombone e a pessoa capaz e com credibilidade para tal és tu. Deixo contigo meu telefone e nome. Às vezes cai na caixa postal, mas em seguida retorno, caso queiras algum contato, mas peço, encarecidamente, o mais absoluto sigilo, pois além das represálias que posso sofrer dos outros donos de postos, existem as sanções das próprias distribuidoras de combustíveis, que ficam com a maior parte do lucro.

Não podemos deixar a gasolina subir na próxima terça-feira (ontem). Vamos berrar, e tem que começar por alguém que tem um canal de comunicação como a RBS. Abraços. (Estava assinado, com endereço e telefone o e-mail.)"

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Seca faz surgir ilhas no Guaíba



Estiagem fez águas chegarem ao nível mais baixo desde 1997, fazendo surgir novos pedaços de terra (foto Ronaldo Bernardi/ZH)


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Terça-feira, Abril 06, 2004




SE TOQUE

A ordem é fazer amor!

VALÉRIA WALFRIDO é terapeuta corporal e sexual, além de autora dos livros Toque Sensual, Toque Sedutor e Toques Quentes

Fazer amor, sexo ou, simplesmente, transar é uma das atividades físicas humanas mais prazerosas existente na face da terra. A relação sexual é um remédio natural sem efeitos colaterais. Transar é uma necessidade natural do nosso corpo, alivia o estresse diário e nos acalma agindo como antidepressivo. Serve também como revitalizante corporal, além de ser uma ótima atividade física que traz beneficios a toda musculatura.

Em determinadas posições que você permanece para proporcionar prazer a sua parceira(o), como, indiretamente se apoiado pelos cotovelos estará fortalecendo, além dos braços, o abdôme, sem deixar de citar as pernas que, caso estejam estendidas, tonificará também o bumbum e, para você minha querida leitora, determinadas posições favorecem sua elasticidade e revigoram a musculatura incluindo aquela entre as coxas, lembrando que se você é uma mestra em pompoar, seu parceiro irá delirar com sua mordida íntima.

Uma vida sexual satisfatória é tudo de bom e pode ser um aditivo emocional eficaz ao relacionamento do casal. A pratica sexual regular leva a um melhor eqüílibrio hormonal amenizando inclusive os efeitos da TPM (tensão pré-menstrual). Uma boa transa melhora a pele, dá um tom saudável a face feminina e masculina. A prática de um amor gostoso eleva a auto-estima, minimiza os problemas diários fazendo-nos adaptar melhor a essas situações cotidianas.

A transa nos transforma fisica e psicologicamente. Toda química corporal liberada durante o ato sexual, vale desde o sarro até o depois do gozo. Indo da rápidinha até aquela tântrica "bastannnnte" prolongada onde se tem tempo suficiente para explorar o território corporal do nosso ser desejado. Desta forma proporcionaremos a nós e ao nosso par uma incrível sensação de bem estar e relaxamento. Não deixe de fazer amor e não deixe de amara-se. LIBERE-SE. Você merece!

Beijo delicado na face interna dos braços.

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autor@paulocoelho.com.br

Da importância do diploma

O meu antigo moinho, na pequena aldeia dos Pirineus, tem uma fileira de árvores que o separa da fazenda ao lado. Outro dia, o vizinho apareceu: devia ter aproximadamente 70 anos. Volta e meia eu o via trabalhando com sua mulher na lavoura, e pensava que já era hora de descansarem.

O vizinho, embora muito simpático, diz que as folhas secas de minhas árvores caíam em seu telhado, e que eu precisava cortá-las.

Fiquei muito chocado: como é que uma pessoa que passou sua vida inteira em contacto com a natureza, quer que eu destrua algo que custou tanto para crescer, simplesmente porque, em dez anos, isso pode causar um problema nas telhas?

Convido-o para um café. Digo que me responsabilizo, que se algum dia estas folhas secas (que serão varridas pelo vento e pelo verão) provocarem qualquer dano, eu me encarrego de mandar construir um novo teto. O vizinho diz que isso não interessa: ele quer que corte as árvores. Eu me irrito um pouco: digo que prefiro comprar a fazenda dele.

Minha terra não está à venda responde.

Mas com esse dinheiro você poderia comprar uma excelente casa na cidade, viver ali pelo resto de seus dias com sua mulher, sem enfrentar invernos rigorosos e colheitas perdidas.

A fazenda não está à venda. Nasci, cresci aqui, e estou muito velho para mudar.

Ele sugere que um perito da cidade venha, avalie o caso, e decida assim nenhum de nós precisa se irritar com o outro. Afinal, de contas, somos vizinhos.

Quando sai, minha primeira reação é culpá-lo de insensibilidade e desrespeito com a Mãe Terra. Depois, fico intrigado: por que não aceitou vender a terra? E antes que o dia termine, entendo que sua vida tem apenas uma história, e meu vizinho não quer mudá-la. Ir para a cidade significa também mergulhar em um mundo desconhecido, com outros valores, que talvez se julgue muito velho para aprender.

Acontece apenas com meu vizinho? Não. Acho que acontece com todo mundo às vezes estamos tão apegados à nossa maneira de vida, que recusamos uma grande oportunidade porque não sabemos como utilizá-la. No caso dele, sua fazenda e sua aldeia são os únicos lugares que conhece, e não vale a pena arriscar. No caso das pessoas que vivem na cidade, elas acreditam que é preciso ter um diploma de universidade, casar, ter filhos, fazer com que seu filho tenha também um diploma, e daí por diante. Ninguém se pergunta: será que posso fazer algo diferente?

Lembro-me que meu barbeiro trabalhava dia e noite para que sua filha pudesse acabar o curso de sociologia. Ela conseguiu terminar a faculdade, e depois de bater em muitas portas, conseguiu trabalhar como secretária em uma firma de cimento. Mesmo assim, meu barbeiro dizia, orgulhoso: minha filha tem um diploma.

A maioria de meus amigos, e dos filhos dos meus amigos, também tem um diploma. Isso não significa que conseguiram trabalhar no que desejavam muito pelo contrário, entraram e saíram de uma universidade porque alguém, em uma época em que as universidades eram importantes, dizia que uma pessoa para subir na vida precisava ter um diploma. E assim o mundo deixou de ter excelentes jardineiros, padeiros, antiquários, escultores, escritores. Talvez seja a hora de rever um pouco isso: médicos, engenheiros, cientistas, advogados, precisam fazer um curso superior.

Mas será que todo mundo precisa? Deixo que os versos de Robert Frost dêem a resposta:
Diante de mim havia duas estradas Eu escolhi a estrada menos percorrida E isso fez toda a diferença.
P.S. para terminar a história do vizinho: o perito veio e, para minha surpresa, mostrou uma lei francesa que obriga qualquer árvore a estar a um mínimo de três metros da propriedade alheia. As minhas estavam a dois metros, e terei que cortá-las.

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Affonso Romano de Sant'anna
santanna@novanet.com.br


Narrar contra o dilúvio

Não tem muita gente vendo esse filme de Atom Egoyam. É pena, porque é um bom filme e, em certas cenas, além de mostrar a insanável estupidez humana, nos dá lições não só da História recente, mas de afetos e ternura humana. Estou falando de Ararat, dirigido por um armênio, com personagens armênios, sobre episódios da história armênia. Tem até um armênio ultraconhecido Charles Aznavour que não canta, mas conta também a história de seu povo.

Quantos filme armênios já vimos?

Menos que iranianos, sul-coreanos e búlgaros.

O filme tem várias histórias dentro dele e uma delas é a história de um filme sobre o genocídio ocorrido em 1915, quando os turcos mataram, naquele conturbado país, cerca de um milhão de homens, mulheres e crianças. Isto foi ontem, e nos faz entender o Afeganistão, o Iraque, as guerras em Israel e Palestina, o terror nazista, stalinista, maoísta, o genocídio no Camboja e confirmar que o século XX foi o mais violento e dizimador de quantos existiram, desde a extinção dos dinossauros por misteriosos asteróides.

No meio do filme, um dos personagens diz que, para incentivar a dizimação dos judeus, Hitler afirmava que ninguém ligaria muito para aquilo, iam acabar esquecendo, porque a Humanidade tem memória fraca. Com isto, ironizava: Quem se lembra do massacre dos armênios?

Já no final do filme aparece um texto dizendo que os turcos continuam afirmando que esse genocídio jamais existiu. Daí a necessidade de os armênios contarem e recontarem sua história para que ela não se apague neles e nos outros.

Os humanos têm necessidade de guardar, criar, recriar e até mesmo de inventar sua própria história. É isto, entre outras coisas, que sensibiliza-me nesse filme. Nesse ou no esplêndido Narradores de Javé, dessa competente Eliane Caffé, ou em A encantadora de baleias, daquela diretora neozelandeza. Em Narradores de Javé, toda uma comunidade recorre à memória e à narração para salvar-se do naufrágio no tempo, quando a represa expandisse suas águas sobre suas casas. Cada um se sente protagonista e dá a sua versão pessoal e subjetiva dos acontecimentos.

Em A encantadora de baleias, é a magia de uma lenda beira-mar, como num conto de fadas, mobilizando uma comunidade através da menina que, à revelia do machismo imperante, assume seus poderes de líder dialogando magicamente com a baleia, enquanto totem da tribo, recuperando surpreendentemente o passado e modernizando a tradição.

Os três filmes são muito diferentes, e, no entanto, têm esse traço comum: a narrativa reagrupando a comunidade e dando sentido às vidas diante do dilúvio do esquecimento. O ser humano carece de embarcar no ato de narrar e ancorar sua memória num possível Ararat. E já que Noé atracou sua barca naquele monte, os armênios se consideram o berço da nova cultura humana depois do dilúvio. Ararat significa Grande Mãe e foi ali que, segundo a Bíblia, Deus estabeleceu a nova aliança com suas criaturas, ali foi onde Noé ergueu um altar e onde tudo recomeçou.

Já se falou que o homem é um animal simbólico; outros dizem que é um ser lúdico; outros o definem como homo faber ou homo economicus, enquanto outros afirmam que é um ser que pensa. Mas pode-se dizer também que o que nos caracteriza universalmente é que somos seres que narram sua própria história. Assim como na natureza há os roedores e os herbívoros, os humanos pertencem à espécie dos narradores. Narram oralmente, narram por escrito, narram pelo teatro, narram pelo cinema, narram por cores e volumes, narram pela dança, narram conversando na esquina, narram pelos jornais, narram fofocando por telefone e até por e-mail não fazem senão narrar.

Pois nesse filme uma das personagens é uma professora/ pesquisadora de arte que se dedica a fazer conferências sobre a vida e obra de Arshile Gorki, pintor armênio que ainda menino teria assistido ao massacre dos seus, antes de conseguir, com uns poucos sobreviventes, chegar aos Estados Unidos.

Gorki viria a fazer parte de um famoso grupo de pintores da Escola de Nova York, da qual participavam Pollock, Rothko, Motherwell, De Kooning, Reinhardt e outros. Herói trágico, como Pollock e Rothko, ele também se mataria. Não pôde carregar sua própria narrativa. Olhava a velha fotografia em que estava ao lado de sua mãe antes da fuga e do massacre mas não conseguia libertar-se dela. Tentava pintá-la, reelaborá-la através de seus quadros, mas não superava o trauma. Havia algo inacabado nele e nas mãos da mãe que não conseguia terminar de pintar. É que há certas vidas de tal forma envenenadas em sua origem que só na inevitável e ansiada morte encontram o alívio para sua narrativa.

Nem sempre se pode suportar a própria história.

Mas, nesse filme Ararat que remete simbolicamente para o monte onde a mítica barca de Noé teria ancorado outros personagens procuram escapar ao dilúvio da história e da desmemória. O filho da professora de história da arte, por exemplo, volta à Armênia para filmar sozinho cenas e lugares que poderiam eventualmente ser utilizadas no filme que está sendo rodado. É a geração mais jovem querendo reachar suas origens e refazer o périplo de seus antepassados.

Narrar é preciso.

Narrar é resistir.

Narrar é ancorar-se.

Narrando o mundo se recria. A gente diz era uma vez e abre-se uma possibilidade infinita.

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Bob Dylan vende roupas íntimas em comercial ao lado da brasileira Adriana Lima

Agências Internacionais

NOVA YORK - Ninguém entendeu nada, mas Bob Dylan não apenas cedeu sua música "Love sick"" como aparece ao lado da modelo brasileira Adriana Lima no anúncio da nova linha de roupas íntimas "Angel" da grife Victoria's Secret. Adriana aparece de calcinha, sutiã e asas de anjo em cenas intercaladas com a cara amassada de Dylan, com Veneza como pano de fundo. É a primeira vez em 40 anos de carreira que o grande poeta da contracultura dos anos 60 participa de um comercial. Ele cedeu uma canção sua para comerciais uma vez só antes, para o Banco Montreal em 1996. E cedeu uma imagem sua para a campanha Think diffrent, da Apple Computers.

A atitude dele mereceu todo tipo de gozação na imprensa americana, tipo "Hey mr. Langerie man play a song for me", parafraseando o primeiro verso do sucesso "Mr. tambourine man!". Um deles até descobriu que numa entrevista de 1965, Dylan respondeu que só cederia suas músicas para comerciais de roupas íntimas.

- Nós convidamos e ele aceitou. Não quero especular sobre seus motivos, mas diria que não foi por dinheiro - afirmou o presidente da Victoria's secret.

Em sites de debates na internet houve respostas de fãs que aprovaram a junção de Dylan com uma bela mulher como Adriana e outras que disseram que a cara velha e feia de Dylan não era estímulo para mulher alguma comprar sutiãs e calcinhas. O anúncio estreou nos Estados Unidos no final da semana passada em versões de 15, 30 e 60 segundos. Resta ver o resultado de vendas para saber se as mulheres aceitaram o endosso de Dylan.

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Rumo às cidades do interior

É cada vez maior o número de redes de franquias que querem abrir unidades em municípios do Estado do Rio
Silvana Caminiti

A falta de espaço em centros comerciais e shoppings centers das grandes cidades está fazendo com que grandes redes de franquias e mesmo empresas de médio porte voltem seus olhos para o mercado formado pelas cidades do Interior.

É cada vez maior o número de empresas interessadas em abrir unidades seja em municípios próximos da capital, ou não. No Estado do Rio, prova desse interesse por parte de empresas dos mais diversos segmentos (alimentação, confecção, perfumaria e calçados) é a taxa de 100% de aproveitamento de área locada do São Gonçalo Shopping, aberto recentemente.

Entre as franquias que instalaram uma unidade no centro de vendas o quarto maior do estado está a rede de lanchonetes Giraffas. Essa é a 21ª loja da marca no estado e a estimativa da empresa é de que a loja atenda a 21 mil pessoas por mês e sirva algo em torno de 10 mil pratos mensais.

A próxima franquia da rede no estado será aberta na cidade de Volta Redonda. A instalação da unidade está em fase de negociação e o local escolhido é o Sider Shopping, com previsão de inauguração para junho. A marca, que surgiu em Brasília e hoje se encontra em diversos pontos do País, tem também interesse em outras cidades do Interior do Rio de Janeiro, como Macaé, Campos, Angra dos Reis, Cabo Frio, Teresópolis e Petrópolis.

A franqueada Carla Melo lembra que, para continuar crescendo e atrair o público, a rede adotou uma série de estratégias, entre elas a reestruturação em sua linha infantil, que agora dá direito a brindes educativos e interativos. Também foi criada a GiraTurma, com personagens preocupadas com a preservação do meio ambiente, além de lançar novos pratos, lembra Carla.


Giraffas: 0800-6006161
www.giraffas.com.br

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Susto e mistério: Fla em ritmo de decisão

Felipe sofre entorse no tornozelo esquerdo, mas médicos garantem que não é problema. E o técnico Abel admite: vai mexer no time
Janir Júnior

Pela manhã, em treino no CFZ, Felipe prendeu seu pé esquerdo no gramado, e teve de sair amparado

Susto. Estratégias e mudanças no time. Mistério. A semana que antecede a decisão contra o Vasco, domingo, às 16h, no Maracanã, começou quente no Flamengo. Ontem pela manhã, Felipe torceu o tornozelo esquerdo, foi poupado do treino da tarde, mas, segundo o departamento médico, a lesão não preocupa. Abel Braga anunciou que pretende fazer alterações na equipe, deu algumas dicas, mas somente revelará os 11 titulares momentos antes do jogo. Definitivamente, o clima da final já contagia o Rubro-Negro.

Um incidente logo pela manhã, no CFZ, centro de treinamento de Zico, no Recreio, serviu para ligar o sinal de alerta. Felipe dominou uma bola e seu pé esquerdo ficou preso ao gramado. O jogador colocou todo o peso do corpo para o mesmo lado, sofreu uma entorse no tornozelo e deixou o campo amparado pelo massagista Russo, em uma cena parecida com a que aconteceu há pouco mais de um mês. Durante um coletivo na Gávea, ele sofreu uma torção na mesma região e ficou afastado dos três primeiros jogos da Taça Rio.

Foi uma entorse bem mais leve, mas o que preocupou foi o fato de ter sido no tornozelo esquerdo, o mesmo da outra vez. Sorte que eu estava com uma bandagem. Mas treinarei normalmente e vou para o jogo, antecipou Felipe que, durante a tarde, ficou entregue a fisioterapia. O médico Álvaro Chaves não demonstrou preocupação, hoje fará uma reavaliação, mas garantiu a presença do craque na decisão.

Para a final, Abel dará ainda mais liberdade ao seu camisa 10. Quero ele perto do gol, atuando como um atacante. O Felipe está doido para disputar esta final. Isso é ainda melhor destacou o técnico.

A satisfação com o bom momento da estrela da companhia contrasta com a preocupação de Abel diante do poder de marcação do meio-campo vascaíno aliado a rapidez com que a equipe de Geninho rouba a bola e parte para o ataque. Quando o Vasco é atacado, sempre tem um homem a mais, destacou o técnico rubro-negro, antecipando que fará mudanças no time.

Para reforçar a marcação, Douglas Silva deverá ser lançado ao lado de Da Silva, com Íbson e Zinho completando o meio-campo. Felipe atuaria na frente ao lado de Jean ou Diogo. Henrique volta a zaga. Durante a semana, vamos testar as formações, afirmou Abel, que só pretende anunciar a escalação momentos antes do jogo decisivo.

Com o reforço no meio, o técnico pretende pedir que os laterais apóiem ainda mais. Em todos os jogos que tropeçamos, o time adversário congestionou o meio, analisou Abel.

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Liberato Vieira da Cunha
06/04/2004


Revisitação da infância

Esses dias revisitei minha infância. Percorri cada recanto do belíssimo palacete que fica na esquina da João Manoel com a Duque e que, segundo li em ZH, vai ser restaurado. Se há algum prédio em Porto Alegre que mereça o nome de palacete e o superlativo belíssimo é aquele. Sou vizinho dele há séculos, mas só tinha transposto seu portal uma única vez.

Num domingo de Páscoa dos Anos Dourados, meu pai convidou-me a acompanhá-lo em um exercício de breve cortesia. Tratava-se de cumprimentar pela data, como era uso, pessoas por este ou aquele motivo credoras de admiração e respeito. A eleita no caso foi dona Marieta Chaves Barcellos, conhecida por ajudar legiões de deserdados, e que vinha a ser a dona da mansão.

Creio que lhe ofertamos a pequena lembrança de preceito. A retribuição daquela senhora de cabelos nevados foi imediata, prazenteira e múltipla. Fui agraciado com ovos do Coelho linda e artesanalmente preparados, mais o convite, extensivo a minhas irmãs, para que nos tornássemos freqüentadores habituais de balanços, gangorras, escorregadores dispostos numa das áreas do parque. Eu já era então um tipo bisbilhoteiro, pois enquanto meu pai conversava com a anfitriã inspecionei aquela sucessão de ambientes de todas as espécies e tamanhos.

Havia o salão principal, ornado de um mobiliário clássico, a sala de música, dotada de um piano de cauda, a biblioteca, o oratório, uma enorme coleção de espaços atapetados, decorados com invariável bom gosto, alguns zelosamente vigiados pelos retratos de antepassados centenários.

Mencionei antes o parque. Acho que nenhuma outra morada da cidade dispunha de algo remotamente parecido, com seus jardins, alamedas, o pavimento em pedra portuguesa, a gruta, a grande fonte de azulejos, uma segunda praça interna sob cujas sombras meu irmão mais moço adquiriu suas noções inaugurais de cores e contrastes.

É claro que nada disso sobrevive do mesmo modo. O tempo e os cupins, como agora constatei, operaram estragos monumentais. Mas há móveis de madeiras nobres valentemente intactos, os gigantescos flamboyants ainda vestem o céu de rubro, resiste a parte superior do parque.

Só me resta esperar que os arquitetos encarregados do resgate da esplêndida villa reinventem ali cuidadosa, amorosamente, cada instante do passado, como se o presente ainda fosse habitado por uma terna senhora que encantou, num domingo de Páscoa, o garoto que teima habitar em mim.
liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
06/04/2004

Carroceiro, engraxate, maloqueiro

Um amigo contou esses dias que, quando começou a fazer a barba atividade que envolve, para o homem, todo um conjunto de valores transcendentais, foi a um barbeiro. Era talvez uma pose, mas valia a pena. O velho profissional fez seu trabalho e diagnosticou: Tu tens uma pele de doutor mas uma barba de carroceiro. Queria significar que a coisa não ira ser fácil nesta matéria.

Mas o que ressalta na frase do barbeiro é a categoria usada, o carroceiro. Na frase, o termo é menos um designativo de ocupação do que nome de uma classe de gente. Carroceiro, um tipo que trabalha fazendo força ao ar livre, tem a pele grossa, a barba de fios rudes; um sujeito que deve ter pouquíssimas letras e vai viver na dureza até o fim dos tempos. Nada de extraordinário nos termos da vida real brasileira, em que há ainda carroceiros reais em profusão, para desespero dos motoristas.

"Carroceiro", apesar de ainda designar uma função sobrevivente, rima com "maloqueiro" em matéria de designar tipo social antigo. Não sei se ainda se usa, parece que não, mas algum tempo atrás era assim que se chamavam os pobres, especificamente os pobres mal-educados.

Mães de classe média e baixa xingavam seus filhos assim, quando queriam enfatizar a falta de compostura, de maneiras, de modos ("Modos, guri! Parece um maloqueiro!"). Pelo que consigo ouvir, transitamos para a palavra favela, abandonando a antiga maloca, o que quer dizer que o Rio de Janeiro estendeu também isso, a palavra, para o Brasil. E com a palavra o conceito, naturalmente.

Semana passada, por ocasião do aniversário do golpe, apareceu matéria aqui no jornal sobre um antigo engraxate, que foi apadrinhado por Brizola e salvou-se da pobreza. Comovente, a história repôs em circulação, por breves momentos, uma palavra e uma era: "engraxate" não designava apenas o menino que andava com uma caixinha às costas, para ganhar uns trocos pelo serviço de lustrar sapatos; era um termo geral que alcançava o que hoje se chama "menino de rua". Dizia-se, por exemplo, que na esquina tinha "uns engraxates", significando uns meninos, porque as meninas estavam fora disso.

Não se lustram os sapatos tanto quanto antes; os favelados sucederam os maloqueiros; os carroceiros são recicladores de papel. Tempo que passa, palavras que mudam, pobreza que permanece.

E a cada quatro anos, lá vamos nós eleger nossos governantes na esperança vã de que algo mude...Uma ótima terça-feira my brother.

fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
06/04/2004


Adeus, Baltimore

Durante algum tempo foi como um filme de suspense: o que vai acontecer com o cinema Baltimore? Havia uma discussão a respeito, envolvendo empreendedores e a prefeitura. Agora a resposta está ali, no vasto vazio criado na Avenida Osvaldo Aranha; o cinema não, foi demolido. Com ele desaparece uma parte da história de nossa cidade.

Cinema de bairro, o Baltimore era uma instituição; para ali convergia a população do Bom Fim nas noites de sábado e nos domingos à tarde. O público infanto-juvenil deliciava-se com as sessões duplas, ou triplas, de filmes de faroeste, ou então com os chamados seriados completos, em que Flash Gordon descobria o misterioso planeta Mongo ou Nyoka enfrentava seus perigos.

De vez em quando havia uma sessão especial, para a comunidade judaica: velhos filmes produzidos nos Estados Unidos, ainda falados em iídiche, aquele peculiar idioma hoje em extinção. Um deles era particularmente apreciado: o lacrimogêneo Uma Carta da Mamãe. Os espectadores gostavam tanto que ficavam para a sessão seguinte: queriam chorar mais um pouco, pagando um único ingresso.

Nos altos do Baltimore funcionava o Círculo Social Israelita, cuja atração maior eram os bailes. Muitos casamentos nasceram ali, no amplo salão em cujas mesas sentavam as mocinhas casadoiras, devidamente escoltadas pelas superprotetoras mães judias e pelos sonolentos pais. Das galerias, lá em cima, os rapazes estudavam as possibilidades e de vez em quando desciam para dançar uma marca, que podia ser um foxtrote ou um bolero, um sambinha de breque ou mesmo um atrevido tango. Isso sem falar nos espetáculos teatrais: no acanhado palco, Procópio Ferreira, pai da Bibi, encantava a platéia com seu personagem predileto, o Fanha.

Enfim, o prédio todo era uma usina de sonhos, alguns dos quais se transformaram em realidade, outros não. Mas não devemos chorar pelo Baltimore; cidades são dinâmicas, cidades crescem e mudam, prédios são demolidos e construídos. O Bom Fim já não é um bairro de imigrantes judeus; aliás, nunca foi só isso.

Ali sempre conviveram famílias de diferentes origens. E convivência continuará havendo, só que em outros moldes. Foi-se o Baltimore. Ele agora fica situado no planeta Mongo, onde será visitado por Flash Gordon, por Nyoka e por Procópio. Lá, o carteiro entregará a alguém uma carta da mamãe. Carta que será lida com lágrimas correndo por muitas enrugadas faces.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
06/04/2004


Desemprego e crime
Em todos os comentários que fiz sobre o aumento da criminalidade, ressaltei sempre que ele estava umbilicalmente ligado às dificuldades econômicas das pessoas, em suma, ao desemprego.

Esta tese foi até agora rebatida no Brasil, mas a revista Época desta semana divulga uma pesquisa em que se mostra que vários tipos de delitos têm crescimento igual ou parecido com o aumento da taxa de desemprego, entre eles os pequenos furtos e os assaltos.

Os que rejeitavam a teoria de que o crime cresce com o desemprego esgrimiam com um argumento romântico: o de que a maioria das pessoas pobres ou desempregadas é honesta, mesmo que sofra na carne as agruras da pobreza e do desemprego, não adere ao crime.

Isso é uma verdade que esconde uma mentira: evidentemente que não são todas as pessoas desempregadas que saem à rua para roubar, a maioria resiste, por princípios ou por medo - ou até por falta de habilidade ou jeito para furtar, roubar ou assaltar.

Só que os que defendem a honestidade dos pobres e dos desempregados se fixam na maioria dos que estão em dificuldade e não se atiram à criminalidade, mas se esquecem da minoria que não resiste à tentação de roubar para obter ganhos.

E esta minoria que se atira primeiro aos pequenos furtos e depois aos assaltos é numerosa, constitui-se em uma multidão incalculável que faz imediatamente crescer os índices de criminalidade.

De 2001 a 2003, mostra a pesquisa, o ganho médio dos paulistanos caiu 18,8% e a oferta de trabalho declinou em 22%, enquanto nas ruas os furtos e roubos a transeuntes aumentaram quase na mesma proporção, 23%.

Além disso, nas grandes cidades, os que perdem em renda ou se desempregam, continuam no entanto a conviver com as vastas ofertas de prazer, de conforto ou até mesmo de sobrevivência nos shoppings, nos supermercados e nos restaurantes, constituindo-se muitas vezes em tentação obter ganhos através do crime, outras vezes em absoluta necessidade.

Essas são observações que faço à margem da pesquisa.

Mas a pesquisa mostra que desde 1996 sobem sem declínios intervalares as taxas de desemprego.

E que há nove anos um desempregado levava em torno de quatro meses para conseguir uma vaga.

Hoje, o tempo médio que um desempregado leva para conseguir nova vaga passou para um ano e sete dias.

Ou seja, a paciência e a resignação têm um prazo mais largo para resistir ao crime, a grande minoria acaba por ceder aos apelos dos furtos pequenos e depois para os assaltos, levada a essa modificação impactante na sua conduta pela desesperança e pela urgência em sobreviver.

Desde 1996 que crescem as taxas de desemprego. Não conheço a estatística, mas não tenho medo de errar: podem olhar e verificarão que é justamente neste espaço de nove anos que cresceu assustadoramente a população carcerária, abarrotando os presídios.

E 90% dos detentos brasileiros estão lá presos por furtos e roubos (assaltos).

Felizmente o país pelo menos acordou para isso: o crime é, antes que um dado social, uma conseqüência econômica.

Porque só há três caminhos para quem se desemprega, a miserabilização, o suicídio e o crime. Para muitos, embora minoritários, o terceiro caminho é o menos inviável.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Greve no Magistério
Alunos de Cruz Alta pedem aulas



Depois de uma semana parados, estudantes resolveram sair às ruas para pedir o retorno das atividades escolares (foto Marcos Giesteira/ZH).
Infelizmente é esta a prioridade que se dá a edeucação neste País. Como os estudantes não invadem propriedades particulares, deixa estar para ver como fica.


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Segunda-feira, Abril 05, 2004




Você quer o que deseja?

A sociedade globalizada, paradoxalmente, conduziu o homem a ser o único responsável por si mesmo. A solidão ronda, e as escolhas, sob o impacto da publicidade e das informações em tempo integral, na busca sôfrega de sucesso, pesam cada vez mais nas costas de cada um. A frustração com o que se alcança faz permanente a insatisfação e revela o sentimento da incapacidade de se apontar diretrizes para a própria vida. Em estilo claro e gostoso de ler, este é o drama que Jorge Forbes desnuda e apresenta em Você Quer o Que Deseja?, para a reflexão de muitos e o desespero de alguns.

Miguel Reale Júnior

Cuidado com o que desejas, pois poderás ser atendido, diz o provérbio judaico. Lacan propõe que devemos ser gratos a quem não nos deu o que pedimos. E Jorge Forbes revisita o desejo humano, suas ciladas e angústias, contemplando-nos com agudas reflexões numa prosa ao mesmo tempo refinada e coloquial.

Maria Adelaide Amaral

A psicanálise é uma das grandes experiências culturais do século XX e conserva esse papel no XXI. Nos últimos anos evidenciou-se que não podemos reduzir seu papel à relação de consultório com um analista. Se ela tem algo a nos dizer, precisa ir além da ação clínica. Por isso, alguns psicanalistas têm tratado de falar à sociedade (isto é, pela mídia) sobre a sociedade (isto é, sobre nós mesmos).

A pergunta de Jorge Forbes é: o que Freud, revisto por Lacan, pode dizer que seja um ganho para as pessoas, mesmo às que nunca passaram nem passarão pelo divã? Como poderemos conhecer melhor a nós mesmos e ao mundo, aprimorando a qualidade de nossa ação, de nossas escolhas?

Isso não quer dizer que Freud, Lacan ou mesmo Forbes vá, como diz a velha frase, explicar. Nosso mundo está em constante mudança. É uma ilusão querer decifrá-lo e gerar paz com isso. Esse é o erro dos que vendem respostas prontas que só adiam e agravam a angústia, cada vez mais escondida dentro de nós.

O que se deve fazer é outra coisa. É melhorar a qualidade da dúvida. Não é responder definitivamente às perguntas, mas aprender a vivê-las melhor. É conviver com as mudanças. Como propõe Forbes ao analisar o filme Matrix, temos hoje novas relações sociais e humanas. Elas podem até nos irritar, mas precisamos entender o que está acontecendo. Essa é a maior riqueza deste livro: que o leitor saia dele mais rico do que entrou, mas também com mais perguntas.

E mais disposto a conviver com suas dúvidas e a suportá-las.

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Ponto de vista: Lya Luft
Os imutáveis sentimentos

"Quantas vezes podemos amar na vida?
Sempre que nos sentirmos demais sozinhos e a vida nos oferecer esse milagre, e nós tivermos as condições e a coragem de concretizá-lo"

A palestra seria para uns 300 empresários, homens e mulheres. Depois viriam as perguntas e, finalmente, o almoço.

Chegando lá, vi que estava enganada: eu falaria enquanto eles almoçavam. Escritores habituaram-se a falar em público ¿ é uma espécie de moda a gente ser convocado para entrevistas ou palestras sobre os temas mais variados: psicologia, sexo, política, religião e por aí vai. Mas me incomodou a idéia de pessoas manejando talheres e copos, mastigando e quem sabe conversando enquanto eu falasse. Não havia como voltar atrás: a culpa era da minha desatenção, de não haver entendido direito o convite.

Ilustração Ale Setti


Todos sentados, feitas as apresentações, dados os avisos, comecei a fala achando que todos percebiam meu desconforto. O tema da palestra era "Transgressões positivas". Eu não podia cometer a primeira, levantar da cadeira e ir embora? Não, não podia. Ninguém tinha culpa da minha trapalhada. Agora era cumprir meu dever, e fazer isso com a mesma simpatia com que aquelas pessoas me olhavam.

Transgressão positiva, comecei então, podia ser, por exemplo, vencer o espírito de manada e a coerção da superficialidade que nos esmagam neste nosso mundo. Um pouco de frivolidade é necessária: que os deuses nos livrem de sermos solenes. Mas de vez em quando, acrescentei, pode-se usar a superfície da vida como trampolim para algum mergulho de reflexão, de reavaliação e quem sabe de reinvenção da nossa vida.

O problema inicial é que estamos acorrentados a muitos deveres, sobretudo empresários cheios de responsabilidades com funcionários, operários, acionistas e toda uma complexa engrenagem da qual eu, escritora, confessava ter apenas uma idéia difusa. O que era certo era a morte estar empoleirada em nosso ombro, espiando com seu inquietante olho de coruja: o que é que a gente podia fazer com tal inquilina?

Talvez a primeira boa transgressão, continuei, seria aproveitar o susto para pensar. Falamos muito em ética, mas, com mais freqüência do que o confessável, escutamos a conversa de nossa mulher ou marido na extensão do telefone. Falamos em justiça social, mas eventualmente pagamos o menor salário possível à nossa empregada e lhe servimos um prato feito. Segui por esse caminho, num trote pouco amigável em voz mansa.

De repente me dei conta de que alguns pararam de comer, mas não se mostravam ofendidos com minhas alusões. Ao contrário, pareciam compreender que eu me incluía em tudo aquilo. Entre nós circulava aquela cumplicidade de iguais a que eu me habituara com leitores, mas não esperava de homens de negócios.

Terminei a palestra ainda vagamente intrigada, mas as palmas foram cálidas. Um empresário venerando pediu a palavra. "Esse vai me trucidar", pensei. Ele me olhou direto nos olhos e indagou no silêncio atento que se abria:

"Quantas vezes a senhora acha que a gente pode amar na vida?"

Respondi, surpresa:

"Sempre que nos sentirmos demais sozinhos e a vida nos oferecer esse milagre, e nós tivermos as condições e a coragem de concretizá-lo".

Senti que, naquele momento, as palmas foram não para mim, mas para ele. Para a vida que ali se expressava com tal dignidade.

Saí dessa experiência com mais um dos meus preconceitos destruídos. Numa dessas contradições animadoras, o que começou mal acabou bem principalmente porque um homem se postou diante de todos com a tranqüilidade dos sábios, sem receio de enfrentar seus pares, de se mostrar vulnerável, de assumir sua real grandeza: a de ser uma pessoa como qualquer outra.

Vi confirmada, mais uma vez, minha suspeita de que no fundo o que prevalece em todos nós, centro de nosso desejo e raiz de nossos temores, nossa glória e possibilidade de nossa danação, são os velhos e imutáveis sentimentos humanos.

Lya Luft é escritora

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Diogo Mainardi
O plano B de bom

"Eu sei que os brasileiros se orgulham de suas estatais. Cinqüenta anos de propaganda massacrante produziram esse resultado. O brasileiro é um tipo pitoresco: acha que todo político é safado, mas insiste em entregar suas maiores empresas a eles"

Eu tenho um Plano B para a economia. Os paloccianos afirmam que a mera existência de um Plano B pode prejudicar o Brasil. Bobagem. O que prejudica o Brasil é a falta de um bom Plano B. Em primeiro lugar, devemos diminuir a dívida pública vendendo tudo o que der para vender, dos imóveis às empresas estatais. Só a venda de Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil pode abater cerca de 10% de nossa dívida interna. Eu sei que os brasileiros se orgulham de suas estatais. Cinqüenta anos de propaganda massacrante produziram esse resultado. O brasileiro é um tipo pitoresco: acha que todo político é safado, mas insiste em entregar suas maiores empresas a eles.

A Petrobras, por exemplo, é cara demais para nós. Veja o caso das plataformas petrolíferas P-51 e P-52. Durante a campanha eleitoral, Lula prometeu que elas seriam construídas no Brasil. Quando fez a promessa, no fim de 2002, cada plataforma estava orçada em cerca de 500 milhões de dólares. Quase um ano e meio depois, a P-52 foi encomendada a um estaleiro de Cingapura, por 775 milhões. E a P-51 ficou a cargo da subsidiária brasileira do mesmo estaleiro de Cingapura, por 800 milhões.

A esse valor, porém, é necessário acrescentar os 150 milhões de isenções fiscais concedidos pelo Estado do Rio de Janeiro. E os 360.000 barris diários de petróleo que deixamos de produzir entre uma licitação e outra. O BNDES vai financiar a obra em 600 milhões de dólares. Apesar de todo esse dinheiro, serão criados menos de 5 000 empregos diretos no Brasil, metade dos quais na Nuclep, uma estatal que deu 35 milhões de prejuízo anual nos últimos dez anos e que já deveria estar fechada há muito tempo. Difícil calcular quanto a bravata nacionalista de Lula pode ter custado ao país. Alguém aí me ajude a fazer a soma, por favor.

Um bom Plano B para a economia também deve dobrar o superávit primário. O de Palocci foi insuficiente. Tivemos mais de 4% de déficit nominal no ano passado. Significa que faltou uma montanha de dinheiro para pagar os juros. O governo Lula nunca será capaz de zerar a conta. Por mais que ele aumente os impostos, o gasto público sempre irá crescer mais rápido. Em 2003, o Estado empregou 50 000 funcionários a mais. Só no Palácio do Planalto, o aumento de pessoal superou os 17%. O único a ser demitido foi Waldomiro Diniz, sem o qual o governo se embananou todo.

Descobriu-se que era ele o verdadeiro manobrador por trás de José Dirceu, azeitando toda a barganha política no Congresso Nacional. O secretário executivo do Ministério do Planejamento, Elvio Gaspar, afirmou que o governo pretende contratar muito mais servidores até o fim do mandato. Elvio Gaspar foi secretário de Planejamento do Rio de Janeiro no governo Benedita da Silva, que deixou um rombo nas finanças do Estado e teve suas contas rejeitadas pela Justiça. Estamos, portanto, em boas mãos.

Cortar gastos é o melhor Plano B que existe. E é o melhor instrumento de moralidade política que o Brasil pode ter. Pena que ninguém tenha votado em mim na última campanha presidencial.

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O poder da linguagem corporal

Ela pode aumentar ou diminuir a sua capacidade de influenciar pessoas. Tudo vai depender da empatia que você exercer
Dr. Lair Ribeiro*

A linguagem corporal representa mais da metade do seu poder de influência. Ela pode aumentar ou diminuir a sua capacidade de influenciar pessoas, de acordo com o nível de empatia que você conseguir estabelecer. E a empatia, por sua vez, está diretamente ligada ao quão confiável você aparenta ser para a outra pessoa. Conseguimos estabelecer empatia com uma pessoa quando permitimos que ela sinta que somos iguais a ela.

Se quiser que uma pessoa sinta confiança em você, seja um espelho para ela. Enquanto conversarem, coloque-se em uma posição física semelhante à da pessoa, pois, assim, o comprimento das ondas do seu cérebro se torna semelhante ao comprimento das ondas do cérebro dela, e a comunicação entre vocês flui bem.

Se você cumpre bem a função para a qual foi contratado, não está fazendo nada além do esperado. Por exemplo, segurança, gentileza e pontualidade são atributos que você espera encontrar em uma companhia aérea. Enquanto faz apenas o esperado, tanto você quanto a companhia aérea se igualam a tantos outros profissionais nas respectivas categorias. O esperado está sempre implícito; já o inesperado, a surpresa, constitui o detalhe que faz muitos profissionais subirem rapidamente os degraus do sucesso.

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A falta que ele faz

Dez anos após sua morte, Kurt Cobain é homenageado e fãs dizem que líder do Nirvana não tem sucessor
Eusébio Galvão

O grunge acabou com um tiro de espingarda, dentro de uma estufa. Hoje faz 10 anos. Foi quando Kurt Cobain, guitarrista e vocalista do Nirvana, se matou. A banda tinha quatro CDs, sucesso, dinheiro. No dia 5 de abril de 1994, Kurt Donald Cobain, 27 anos, desistiu disso. Deixou viúva, a roqueira Courtney Love, e uma filha, Frances Bean. Deixou também vago o trono de maior astro de rock do mundo. O lugar está vazio até hoje.

O corpo só foi encontrado três dias depois. De certa forma, era uma tragédia anunciada. Desde que meteu o pé na porta do mundo da música e trouxe o rock de volta ao topo, Kurt era figura fácil em notícias sobre confusão. Fosse pelo conturbado casamento com Courtney então líder da banda Hole , fosse pelo envolvimento com drogas, que lhe rendeu algumas overdoses e internações. No fundo, todo mundo sabia que Kurt poderia não estar na área em breve.

Não fiquei surpreso. Algumas semanas antes a notícia era que ele havia entrado em coma depois de misturar tranqüilizantes com álcool, diz o web designer Daniel Develly, fã confesso do grupo. Ele tinha 13 anos quando Cobain se matou.

O baterista dos Raimundos, Fred, é outro que não se cansa da banda. Não enjoei ainda. Não dá para negar o talento dele, defende. Para quem concorda, a festa Back to the 90s tem edição especial quarta-feira, a partir das 23h, na Casa da Matriz, em Botafogo, com músicas do Nirvana a noite toda.

De fato, Kurt virou a figura emblemática de uma cena surgida na cidade fria de Seattle e que tomou o mundo de assalto com suas camisas de flanela. Nirvana, Mudhoney, Alice in Chains, Soundgarden e Pearl Jam foram batizados de grunge e tudo que veio de rock depois deles tem ecos do som que produziram.

Mas o Nirvana até pela morte estúpida do líder é o ícone. A ponto de Caetano Veloso regravar Come As You Are no CD A Foreign Sound. Nevermind é um dos discos mais lindos que já foram feitos, diz Caetano. É apenas mais um que pensa assim. Os quatro discos da banda (Bleach, Nevermind, Incesticide e In Utero) mostram a razão.

Para quem quer saber mais sobre Kurt, o livro Mais Pesado que o Céu, de Charles R. Cross, é leitura obrigatória. Ele leu os diários de Cobain e entrevistou amigos para traçar um perfil às vezes indigesto do roqueiro. E há material inédito do Nirvana e a vontade do baixista Krist Novoselic e do baterista Dave Grohl é lançar uma caixa. Mas uma briga judicial com a viúva e herdeira impede isso. Não há previsão de que saia algum dia.

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A união fez a força e a festa

Vasco se beneficia do conjunto, derrota um Fluminense de estrelas e vai decidir o título do Estadual com o rival Flamengo
Janir Júnior



Valdir (C), artilheiro absoluto do Campeonato Estadual, com 13 gols, carrega, orgulhoso, o troféu conquistado ontem, após a vitória sobre o Fluminense. O Bigode, mais uma vez, foi o grande destaque do time vascaíno

A força do conjunto venceu o poder dos valores individuais. O Vasco derrotou o Fluminense por 2 a 1, ontem, no Maracanã, conquistou o título da Taça Rio e disputará com o Flamengo as finais do Campeonato Estadual, nos dias 11 e 18. Valdir e Beto fizeram os gols. Já nos acréscimos, Romário, de pênalti, descontou. Mas era tarde, o apito final soava, a noite caía, e o céu Tricolor, além de cinzento, provou que é pequeno para tantas estrelas (de)cadentes.

Na entrada em campo, o primeiro sinal de que a união venceria o individualismo. Enquanto os jogadores do Vasco, de mãos dadas, saudavam a torcida, Ramon, irritado por ter sido barrado, se recusou a posar para a tradicional foto do título e ficou no banco de reservas.

E foi do banco de reservas que a vitória vascaína começou a se desenhar. Não pelos pés de um jogador candidato a herói, mas sim pela inteligência tática de Geninho, um dos responsáveis direto pela conquista.

Antes de a bola rolar, a união veio das arquibancadas. Ambas as torcidas gritavam Ah, é Edmundo. O atacante fez questão de agradecer aos dois lados. Depois de 20 minutos, os tricolores passaram a vaiar o Animal e a gritar o nome de Marcelo. Os vascaínos continuavam ovacionando o jogador a cada erro seu na partida.

Bem distribuído em campo, o time do Vasco dominou o jogo desde os primeiros minutos. Na primeira boa chance, aos 22, Valdir que no último confronto com o Tricolor (4 a 0) balançou a rede três vezes , recebeu na entrada da área, girou na frente de Leonardo Moura, e acertou um chute preciso, no canto direito de Fernando Henrique: 1 a 0.

Pelo lado do Fluminense, a bola não chegava a Romário, Edmundo se enrolava com as próprias pernas e Roger não acertava um passe. Em compensação, ele foi acertado por Coutinho com um chute no rosto, em um lance casual. Zonzo como o time, Roger deu lugar a Ramon.

Aos 40, Beto cobrou falta e Valdir, de cabeça, quase amplia. Veio o segundo tempo, Marcelo entrou no lugar de Edmundo, mas nada mudou. Logo aos quatro minutos, Beto soltou uma bomba, mas Fernando Henrique defendeu. Pouco depois, Ramon deu o troco e Fábio fez uma defesa espetacular.

O Vasco continuou superior e, aos 25, ampliou. Valdir rolou para o meio da área, Róbson Luiz trombou com os zagueiros e serviu Beto. O camisa 10 acertou o canto direito do goleiro e fez 2 a 0. Festa da torcida vascaína que, unida como o time, provocava o Flamengo com gritos de Vice é o c..., talvez se esquecendo que o Estadual não terminou. Aos 47, Claudemir fez pênalti em Marcelo. Romário bateu e diminuiu. Mas de nada adiantou. A união fez do time também fez a festa.

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Bola Dividida

Mário Marcos de Souza
05/04/2004




Foto(s): Fernando Gomes/ZH

Um olhar de outro ângulo
Foi um Gre-Nal com algumas imagens típicas de jogos no Interior. Torcedores rivais convivendo lado a lado, em paz, ruas enfeitadas de vermelho e azul, moradores orgulhosos por verem sua cidade recebendo o principal jogo do futebol gaúcho. Não apenas isso. Como o Parque dos Vinhedos estava com quase todos os espaços ocupados, muitas pessoas usaram árvores e telhados de casas próximas ao estádio para não perderem os lances do jogo. Foi também uma forma de driblar o alto preço dos ingressos (o mínimo era R$ 25) sem deixar de assistir ao Gre-Nal. Em Porto Alegre, no Olímpico ou no Beira-Rio, cena como esta não seria possível.

A festa agradou tanto que é bem provável que algum dos próximos clássicos sejam levados para lá. É justo por todo o apoio que Grêmio e Inter recebem nas comunidades do Interior.

Treinadores
Desta vez, o torcedor da dupla Gre-Nal tem motivos para ficar satisfeito com seus treinadores. Mesmo o do Grêmio, que voltou para casa sofrendo com outra derrota. Adilson e Lori Sandri fizeram tudo o que era possível no jogo de ontem, em Bento Gonçalves, para chegar à vitória. Você deve ter percebido como foi. Adilson, por exemplo, ao ficar sem Élton, optou por Guilherme, para surpresa de muitos - e o reserva cumpriu bem a função. Teve de deixar Marcelinho para o segundo tempo, enfrentou inúmeras dificuldades e, mesmo assim, equilibrou o clássico. Lori insistiu com Alexandre Lopes, e ele foi um dos melhores. Depois de ver o time com dificuldades no primeiro tempo, pediu que seus jogadores usassem as cruzadas. O gol da vitória saiu assim.

Madrugada
De Lori Sandri, ao comentar sobre a diarréia que atingiu 13 integrantes da delegação do Inter na véspera do Gre-Nal:

- Foi uma madrugada de muitas caminhadas.

Perguntinha
Será que alguns dirigentes aprenderam a lição da semana passada e se manterão calados, sem provocações, antes dos próximos clássicos?

Liderança
O Sul do país mantém o domínio sobre o vôlei masculino brasileiro. Ao se classificarem para a final da Superliga, Ulbra, de Canoas, e Unisul, de Florianópolis, vão para a quarta decisão em um ano. Os gaúchos ganharam a Superliga e a Copa Bento, os catarinenses levaram a Supercopa e o Grand Prix. Este confronto é um tira-teima - e, principalmente, mostra o sucesso de projetos de duas universidades. É assim que os grandes países viram potências esportivas.

Dupla vitoriosa
Eles formam a dupla mais vitoriosa do esporte brasileiro. Daiane ganhou ontem sua quinta medalha de ouro na ginástica, ao esbanjar força e talento na prova de solo, fez o público do país curtir um esporte reservado antes a platéias menores, cantar o hino com orgulho e firmar a convicção de que a medalha de ouro olímpica é possível. O ucraniano Oleg Ostapenko (ao fundo) formou uma equipe campeã e treinou a gauchinha Daiane para que assumisse o posto de número 1. Daiane e Oleg vão continuar juntos. O técnico acertou a renovação até os Jogos de 2008. É uma grande notícia.

Tudo igual
De 54 pontos possíveis, a Ferrari ganhou 51. As três corridas do ano foram vencidas pelo mesmo piloto, Michael Schumacher. A F-1 está virando um espetáculo repetitivo.

Diferente
Do líder do Mundial de F-1 sobre o uso de refresco de romã e água de rosas no pódio de Bahrein, em lugar de champanhe:

- Cheira muito bem. Todos nós temos um belo cheiro após a corrida.

Página
Quer um bom exemplo de página de clube bem feita? Acesse www.rsfutebol.com.br e confira o que faz o time-empresa fundado por Paulo Cézar Carpegiani, em Alvorada. As informações estão em dois idiomas (português e inglês).

A estréia aos 14 anos
Desde sábado, o norte-americano Freddy Adu tornou-se o jogador mais jovem do futebol profissional mundial. Aos 14 anos, estreou no ataque do DC United, pelo Campeonato Norte-Americano, contra o San Jose. Adu jogou alguns minutos, mas sozinho fez mais do que qualquer outro: para vê-lo, 24.603 torcedores lotaram o estádio. É um fenômeno. Ganhou US$ 500 mil por um contrato exclusivo com a Liga e promoveu o campeonato deste ano em anúncios feitos ao lado de Pelé, o Rei.

"Em Curitiba, muitos taxistas já estão discutindo o duplo twist corpado"
Daiane dos Santos, ouro no solo, que treina em Curitiba, ao comentar o interesse despertado no país pela ginástica
mario.souza@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
05/04/2004


Reversão

Não se está dando a devida importância ao inédito furacão que atingiu a costa sul do país no penúltimo fim de semana. Pode ter sido um sinal. Como é um fenômeno natural do Hemisfério Norte nunca visto por aqui, se não foi uma aberração, foi um anúncio. Algo pode ter mudado na inclinação do eixo da Terra ou no alinhamento magnético dos sei lá o que, com o resultado de que começaram a acontecer coisas no Brasil que nunca tinham acontecido. Coisas estranhas e antinaturais como furacões do Caribe em Santa Catarina.

A mudança já teria se manifestado em estranhezas menores, que nós apenas não tínhamos notado. Foi preciso um cataclismo climático, ventos de 150 quilômetros por hora, para nos darmos conta da reversão. Ninguém me convence de que o Zeca Pagodinho trocar a Brahma pela Nova Schin e depois voltar para a Brahma daquele jeito foi um procedimento normal, motivado apenas por dinheiro ou capricho. Forças muito mais poderosas do que o seu caráter, até agora inexplicadas, estariam em ação. E o PT no governo?

Falam que o Lula mudou, que era um na campanha e é outro na Presidência, que o PT virou PSDB e corre atrás do FMI para pagar mais do que o FMI pede etc., e ninguém desconfia de que a simples inconstância humana não pode ser a responsável por isto? Que explicar o comportamento do PT no governo pelo acaso ou a falta de convicção é o mesmo que acreditar que o furacão deu em Santa Catarina porque perdeu o caminho?

E o estranho silêncio do ACM? E o misterioso declínio do Guga? E você acredita, sinceramente, que alguém do tamanho da Daiane consegue pular daquela altura e ainda dar 17 cambalhotas no ar só com a força das próprias pernas, sem ajuda de uma reconjunção magnética ou coisa parecida? E a conduta desconcertante da Luma de Oliveira? Saberemos se tudo é coincidência ou se houve mesmo um deslocamento do eixo terrestre e um realinhamento dos meridianos se começar a nevar em Belém do Pará.

Você eu não sei, mas eu não vou ficar para saber. Vou fugir deste hemisfério, pelo menos temporariamente, até que tudo se esclareça e o país volte à normalidade, ou à sua anormalidade costumeira, que aprendemos a amar. Estou saindo de férias. Volto em maio, se vocês ainda estiverem aqui.

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Paulo Sant'ana
05/04/2004


Um truque surrado

Já estão causando náusea e cansaço os Gre-Nais sucessivos em que o Grêmio cai na esparrela de ver jogadores do Internacional lançar bolas aéreas sobre sua área e lá dentro outros vermelhos cabecearem sozinhos para o gol, sem qualquer reação da defesa gremista.

Basta marcar um Gre-Nal para se saber qual é o desfecho, sempre o Grêmio jogando melhor, sempre o Internacional ganhando com gols de cabeça.

Tenham a santa paciência, isto é de uma ingenuidade de pasmar.

A decadência técnica do nosso futebol e dos nossos times é tão grande, que os Gre-Nais vêm sendo decididos com essas jogadas aéreas típicas da várzea.

No futebol amador dos arrabaldes, ainda assim antigamente, é que os jogos se decidiam desta forma: bolas lançadas pelo alto para a área e os atacantes cabeceando.

Agora vão se empilhando os Gre-Nais uns sobre os outros com a defesa do Grêmio paralisando nas bolas pelo alto.

É só jogar bola pelo alto na área do Grêmio que lá vai se verificar uma greve da Infraero da defesa gremista.

Evidentemente que isto depõe contra a qualidade dos zagueiros gremistas.

Mas o treinador Adílson tem grande responsabilidade nessas derrotas. Ainda mais por ter sido zagueiro central, é que ele deveria ensinar aos seus zagueiros como se comportar nesses lances.

É do ABC do futebol neutralizar essa prosaica jogada. Tanto pelos zagueiros quanto pelo goleiro Tavareli, que incrivelmente fica parado lá na linha do gol quando essas bolas são lançadas nas costas dos zagueiros gremistas.

Perder Gre-Nal com esse truque insistente do time colorado, com esse estratagema surrado e gasto, que não se via há muito tempo ser reeditado, é muito duro de suportar.

É tão grande a paralisia da defesa gremista nesses lances de bolas paradas lançadas sobre a área, que agora virou moda em todos os Gre-Nais: todos têm a impressão, tal a ausência total de jogadores gremistas para cobrir o lance, que os gols colorados são feitos de impedimento, tantos os jogadores colorados que vão aproveitar aquela "boquinha", tal o deserto de gremistas para cabecear.

E os Gre-Nais vão se sucedendo sem o Adílson treinar seus jogadores para essa trivial estratégia colorada e sem o Tavareli sair do gol.

Não há torcida que agüente essa tonteira.

A impressão que nos fica desses lances continuados e contumazes é de que somos uns trouxas, basta se marcar qualquer Gre-Nal para que o jogo se decida por esse expediente.

E o melhor trabalho do time gremista nos Gre-Nais cai por terra nessas jogadas cafonas, ultrapassadas, obsoletas.

Nunca tinha visto tantos gols iguais do Internacional em tantos Gre-Nais sucessivos.

Nós, gremistas, estamos com cara de bobos.

Que saudade do Oberdan!

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Gre-Nal
Inter vence pelo alto



Com dois gols de cabeça, de Nilmar e Edinho, colorado vence de virada o Gre-Nal de Bento (foto José Doval/ZH)


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