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E N T R E L A Ç O S

Sábado, Abril 24, 2004




Preços da GM e da Volks sobem 2% em média a partir de 2ª feira

Cleide Carvalho - Globo On Line

SÃO PAULO - As vendas de carros caíram 23% na primeira quinzena de abril, na comparação com a primeira quinzena de março, mas as montadoras já iniciam uma nova rodada de aumento de preços. A partir de segunda-feira, os modelos da General Motors e da Volkswagen terão aumento de 2%, em média. A Ford deve anunciar o reajuste na semana que vem, para vigorar a partir de maio. A Fiat não informou sobre possíveis mudanças de tabela. Segundo as montadoras, o novo aumento é um repasse parcial de reajustes nos preços das matérias-primas, como aço, borracha e plástico.

A última alteração de preço para o consumidor ocorreu no dia 1º de março, quando as montadoras retiraram os descontos que eram concedidos com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Os valores ficaram, em média, 3% mais altos. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informou esta semana que um novo acordo de redução de IPI está sendo fechado com o governo, mas o consumidor não verá a tabela de preços diminuir novamente, pois a queda vai apenas compensar a alta de PIS e Cofins.

O aumento de preços deve servir ainda como instrumento de marketing para aumentar o movimento de clientes nos feirões de automóveis programados para este fim de semana. A Volks vai realizar sua promoção no pátio da fábrica Volkswagen Anchieta, em São Bernardo do Campo, das 9h às 18h. Será montado um planetário e instalações com brincadeiras que lembram aventuras espaciais.

O feirão da Ford é apenas para o modelo Ford Ka e será nas concessionárias da marca na Grande São Paulo. Além de condições especiais de financiamento, a montadora promete oferecer planos com seguro total de dois anos incluído no financiamento.

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Quanto custa o diploma

Tradição, renome dos professores e boa estrutura têm preço. Veja quanto se paga, do vestibular à conclusão do curso, em instituições particulares de prestígio no Rio de Janeiro e em São Paulo, da taxa do vestibular à última mensalidade. Além do que aparece na tabela, é preciso prever de 2% a 10% a mais de gastos com material didático.

Em alguns casos, como o da Santa Casa, encontram-se na biblioteca da escola os livros obrigatórios, mas isso não elimina a necessidade de comprar aqueles que são indispensáveis para o futuro profissional. A tabela não considera eventuais reajustes, geralmente anuais, nem possíveis bolsas parciais.


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Ponto de vista: Lya Luft
Uma afirmação dura

"Cada vez que um de nós consome uma droga qualquer, está botando no cano de uma arma a bala perdida ou não que vai matar uma criança, uma mãe de família, um trabalhador"

Porque somos imperfeitos podemos melhorar.

A perfeição seria o tédio, e desse, sim, eu poderia morrer. Bocejar até o final, contemplando a ordem celeste, os anjos rechonchudos naquela disciplina: ninguém dando um escorregão, ninguém botando a língua para São Pedro. Quando era criança, eu morria de medo dessa ordem impenetrável na qual não haveria lugar para mim.

Ilustração Ale Setti

Outro dia conheci um grupo de homens e mulheres dos mais variados níveis culturais e sociais, que fizeram da imperfeição a sua razão de vitória. Das pedras que tiveram de quebrar, construíram seu caminho, alguns até seu castelo. Gente que se livrou ou ainda luta para se libertar da dependência química.

Senti-me privilegiada por estar com eles, mais para aprender do que para falar. Percebi novamente quanto nós, que não vivemos esse drama, tendemos a nos portar como eternos adolescentes, facilmente preconceituosos, rápidos em nosso julgamento e superficiais na nossa compreensão. E quanto disfarçamos nossos próprios medos em lugar de enfrentá-los como o fazem esses anônimos guerreiros.

Fingimos ser superiores, batendo grandes papos sobre dinheiro, futebol, política. Não estamos nem aí. Botamos tapa-olhos para não enxergar o que se passa, vestimos máscaras para que a verdade não nos cuspa na cara e nos defendemos do rumor que nos ameaça botando fones de ouvido enquanto caminhamos na esteira para ficar em forma.

Mas, individualmente, temos medo e solidão. Como país, estamos acuados. A violência é generalizada, o narcotráfico nos deixa desprotegidos, mais pessoas foram assassinadas por aqui do que nas guerras ao redor do mundo nos últimos anos. Estão cada vez mais altos os muros do medo e do silêncio.

A gente se lamenta, dá palpites e entrevistas, organiza seminários. Resultado? Parece que nenhum. Talvez seja mesmo melhor não saber a quem a situação interessa, nem por que sugestões e explicações aparecem e desaparecem das páginas de jornal e telas de televisão.

Quando nada se pode fazer, só nos resta a resignação. Mas sou da tribo (não tão pequena) dos que não se conformam. Não acredito em revolução, a não ser pessoal. Em algumas coisas sou antipaticamente individualista. Não sou boazinha, e quem julga meus livros bonzinhos está lendo com os óculos da sua própria burrice. Mas acho que, quando o complicado não resolve, pode-se tentar o mais simples. Às vezes ser simples é ser original.

Cada vez que, seja por trágica dependência, seja por aquilo que minha mãe chamava "fazer-se de interessante", um de nós consome uma droga qualquer (mesmo o cigarrinho de maconha dividido com a turma), está botando no cano de uma arma a bala perdida ou não que vai matar uma criança, uma mãe de família, um trabalhador. É uma afirmação dura? É. A vida pode ser muito dura e, o que é pior, muitas vezes por responsabilidade nossa.

Num jantar, há muitos anos, um conhecido disse que costumava fazer-se de pai amigão, fumando maconha com os filhos adolescentes. Um dos meninos viria a sofrer gravíssimos problemas de dependência pelo resto da vida. O pai era culpado? Não creio. A vida não é tão simples, nem eu sou tão moralista. Mas talvez a gente brinque demais na beira do abismo.

Voltando ao começo deste artigo: aquelas pessoas que lutavam contra a dependência química renovaram minha convicção de que, no que se refere à questão da violência ligada ao narcotráfico, sermos os eternos queixosos que não fazem nada é outra forma de violência perigosa porque sutil. É colaborar com os que vão nos atingir no coração: diretamente com uma bala, ou com a morte praticamente anunciada de alguém que amamos.

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Diogo Mainardi
Sou culpado, confesso

"Eu supunha que minha única contribuição para o mundo do crime fosse entregar meu relógio e minha carteira à bandidagem. Mas não. Minha culpa é me eximir de meus deveres sociais. Os narcotraficantes atiram em mim porque não dou aulas de balé ou teatro na favela"

Acabo de matar de fome uma criancinha no interior do Acre. Não, não foi a primeira. Matei muitas outras no passado. E, confesso, continuarei a matar. Enquanto elas morrem, passeio de bicicleta com meu filho pela orla de Ipanema, indiferente a tudo. Como é que ainda não fui preso? Como é que ainda não fui linchado? Bem que eu mereceria.

Quem me acusou de matar criancinhas no interior do Acre foi a Fundação Getúlio Vargas. De acordo com seu mais recente Mapa da Fome, um terço da população brasileira vive num estado de miséria absoluta. Pelos cálculos da FGV, erradicar toda essa miséria é muito mais simples e barato do que parece. Basta que cada endinheirado como eu entregue a um miserável a quantia de 14 reais. Isso significa que aquela criancinha no interior do Acre só morreu de fome porque cometi a mesquinharia suprema de negar-lhe uns trocados. Juro que não foi de propósito.

Estou disposto a dar bem mais que 14 reais para expiar meus crimes sociais. A FGV só precisa explicar a quem devo dá-los. Ao mendigo no farol? Ao ministro Patrus Ananias? À Pastoral da Terra? Outra pergunta: posso descontar os 14 reais do imposto de renda? Porque eu sempre pensei, erroneamente, que os impostos servissem para isso: impedir que as criancinhas morressem de fome no interior do Acre. Aguardo esclarecimentos urgentes da FGV.

Além de matar criancinhas de fome, eu também sou culpado por boa parte dos assassinatos no Rio de Janeiro. É o que afirmam todas as pessoas de bem da cidade. Elas apontam o dedo para mim e me acusam de ser cúmplice do narcotráfico, com o argumento de que a responsabilidade pela violência não é só dos bandidos, mas da sociedade como um todo.

Até hoje eu supunha que minha única contribuição para o mundo do crime fosse entregar meu relógio e minha carteira à bandidagem. Mas não. Para influentes figuras da sociedade carioca, como Arnaldo Jabor e Gisela Amaral, todos nós temos uma parcela de culpa. Inclusive eu. Minha culpa é me eximir de meus deveres sociais. Os narcotraficantes atiram em mim porque não dou aulas de balé ou teatro na favela.

O movimento Viva Rio dá aulas de balé e teatro na favela. Na última quarta-feira, promoveu também o Dia do Carinho, em que centenas de voluntários subiram o morro da Rocinha para distribuir rosas a seus moradores. Não teria sido melhor a polícia subir o morro com algemas? Os moradores da Rocinha teriam agradecido. O logotipo do Dia do Carinho mostrava um negrinho sorridente com um gorro de assaltante na cabeça. A mensagem dos organizadores do evento era clara: se subirmos o morro com rosas, vocês param de descê-lo com suas metralhadoras?

Não vejo nada de errado em tentar melhorar a vida dos favelados. Pelo contrário. Mas sempre achei que era um erro atribuir a essas associações beneméritas um papel na luta contra a criminalidade. Imagino que os traficantes do Comando Vermelho tenham todos os discos do AfroReggae. Imagino também que suas filhas aprendam balé nos cursos oferecidos pelo Viva Rio. Como não quero que Arnaldo Jabor e Gisela Amaral me acusem de pactuar com a bandidagem, porém, telefonei ao Viva Rio e me cadastrei para o Dia do Carinho, oferecendo-me para levar uma rosa a um morador da Rocinha. Ainda bem que não me ligaram de volta.

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Arena do Mengão

Flamengo quer fazer do moderno estádio Raulino de Oliveira seu alçapão no Brasileiro. A começar pela partida de hoje (16h), contra a Ponte Preta
Marco Senna


Da Silva, sorridente, parte para combater Zinho, no coletivo de ontem

O tradicional foi trocado pelo moderno. Se durante muitos anos o Maracanã foi considerado a casa do Flamengo, o clube mudou de endereço e quer fazer do futurista Estádio Raulino de Oliveira sua nova arena (um alçapão de R$ 14,5 milhões, com capacidade para 21 mil torcedores). A começar de hoje, quando o time estréia no remodelado campo, contra a Ponte Preta, às 16h, em Volta Redonda, em jogo da segunda rodada do Campeonato Brasileiro.

Deixar o Maracanã, considerado pelos flamenguistas símbolo da sorte da equipe (palco de inúmeras conquistas rubro-negras) gera um ar de apreensão entre os jogadores, segundo admitiu o zagueiro Fabiano Eller. Dos 23 jogos que o Flamengo fez no Maracanã, no Brasileiro de 2003, ganhou 14, empatou cinco e perdeu apenas quatro.

Eu ia para o Maracanã certo de que o Flamengo venceria. Ganhamos a maioria das partidas em casa. Só não fizemos melhor campanha porque fomos mal fora do Rio. Espero que o Raulino de Oliveira nos traga sorte também. Temos de transformá-lo na nossa arena. Para tanto, é fundamental ganharmos o primeiro jogo no novo campo, comentou Eller. O Flamengo fará 16 partidas em Volta Redonda.

No treino de reconhecimento do campo, ontem, já se respirou um clima rubro-negro. A torcida compareceu em bom número e não se cansou de assediar os jogadores em busca de autógrafos. Já Abel elogiou as acomodações, mas reclamou do gramado e pediu que fossem tampados os buracos por onde saem os esguichos de irrigação.

Sem Felipe, que casou, Diogo fará dupla com Jean

Sem Felipe, liberado do jogo por ter se casado, ontem, Abel optou pela entrada de Diogo ao lado de Jean. O restante da equipe será a mesma que empatou com o Grêmio (0 a 0), em Porto Alegre, na estréia.

Apesar de esperar uma partida difícil, pelo fato de a Ponte Preta vir de vitória sobre o Corinthians, Abel demonstra quase que uma certeza na conquista de um resultado positivo, mesmo sem Felipe.

Fiquei mais preocupado nos dias que antecederam o jogo com o Grêmio, contou. Quanto à ausência do craque Felipe, o treinador disse que o Flamengo terá de superar na força do conjunto. Como poderia contar com o Felipe? Além da cerimônia de casamento, da recepção para 450 convidados, ele ainda teve de dar aquele velho atendimento na noite de núpcias. Deve estar exausto, brincou Abel.

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Só falta o marido

O DIA vai dar de presente a uma sortuda leitora um casamento completo, com direito a vestido, festa e até lua-de-mel
Alícia Uchoa


A modelo Lana Rodhes posa com o vestido de noiva que será dado à vencedora da promoção Casamento dos Meus Sonhos. O modelo é da Noi Due

Casamento pede tradição. Mas há quem consiga dar um toque de modernidade na cerimônia. Com efeitos especiais, filmagem gravada em DVD e brincadeiras que mais lembram festas infantis, casais encontram formas divertidas de casar, sem perder a pompa que a família adora. Mas uma coisa não muda: independentemente do estilo, é um dia inesquecível. Para a felicidade virar realidade, O DIA vai dar um casamento completo para a noiva que melhor contar por que merece ganhar a promoção Casamento dos Meus Sonhos (Para participar é necessário comprar o jornal impresso e verificar detalhes na página 2). A promoção inclui do vestido de noiva à lua-de-mel, sem esquecer da festa, com direito a bufê, decoração, som e até as lembrancinhas. Agora, só falta escolher o noivo.

Todo mundo gosta de festa, seja do tamanho que for, adora uma comemoração. Casamento é sonho e as pessoas nasceram para viver em par, mesmo sem dinheiro, aposta Mônica Freitas, diretora da Exponoivas, que acontece de 12 a 16 de maio no Riocentro. Moderno ou tradicional, o ideal é começar os preparativos com um ano de antecedência. Às vezes, o casal mais moderninho até distribui boás, óculos coloridos e bolinhas de sabão, mas não abre mão de lembranças tradicionais, conta a empresária Cláudia Barros. Nas festas, quem não é muito chegado a sachês e amêndoas pode optar por dar de lembrança ímãs de geladeira e até sandálias Havaianas. Quer coisa melhor? Todas as mulheres vão com aqueles saltos que a gente conhece.

As novas opções de apetrechos não são as únicas inovações para os festeiros. O casamento dos sonhos pode ter efeitos especiais que não ficam restritos às comédias românticas do cinema. Entre eles, chuva de papel, fogos indoor (que, sem pólvora, têm o mesmo efeito visual dos fogos de artifícios) e até show de laser. Antigamente produzíamos isso para shows e teatro, até que começamos a trazer para as festas. Os efeitos podem ser usados na igreja ou na casa de festas, garante o produtor Júnior, da JCJ Efeitos Especiais, que produz de casamentos a bodas de ouro.

Para guardar tanta coisa, um dos pedidos é filmagem em DVD. Além da qualidade da imagem ser melhor, dá para o casal selecionar direto o trecho que desejar ver, como cerimônia, cumprimentos e festa. Apesar de ainda trabalharmos com fita VHS, 50% dos clientes pedem o DVD, conta Cláudio Maia, do Studio Maias.

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Lya Luft
24/04/2004


O real escondido

Na primeira vez em que entrei na sala de um psicanalista, sentei-me no divã e fiz um comentário tão tolo que até hoje me envergonha:

- Imagino tudo o que foi dito aqui entre estas quatro paredes.

Ele me olhou como se eu fosse uma criança e disse:

- Mais importante do que se disse nesta sala foi tudo o que não se conseguiu revelar.

Nenhum olhar é tão fascinante quanto o que nos chama pela fenda dos olhos semicerrados. Nenhum rosto atrai tanto como por trás da máscara, nem quanto a pele debaixo dos vestidos. O superestímulo dos corpos agressivamente expostos nos deixa embotados, o tédio da superabundância nos invade, e logo precisaremos de ajuda para sair desse cansaço.

O efêmero estímulo das drogas desperta uma breve sensualidade, as anfetaminas estimulam o cérebro por algum tempo, finalmente outros artifícios convocam uma artificial pasmaceira, para que sobrevenha o sono.

Sou a favor de recorrer a medicação para ter qualidade de vida em todos os sentidos. Para combater enfermidades ou controlar o relógio biológico momentaneamente desregulado, para abrandar situações traumáticas, enfim, para viver melhor. Mas tenho medo, eu, pessoalmente, de tudo o que passasse a me ligar por hábito ao que devia ser natural: o mundo, a vida com seus ruídos, sensações, sentimentos, intuições. Não quero nem mesmo uma droga que me faça escrever melhor e ter imaginações além das que me povoam dentro, e me bastam.

Já estamos superestimulados, superinundados, superinvadidos. Tudo isso é bom, é positivo, mas será ainda melhor se a gente conseguir administrar, escapando aqui e ali para uma frestinha de silêncio. Apagar todos os motores, tirar a vida das mil tomadas, e deixar que voltem a existir as pedras, as árvores, a água, o vento, as vozes, os passos e os pássaros, a areia, o cascalho, a grama, as abelhas.

Eu mesma, nós mesmos.

Morar na beira da praia e dormir com a janela aberta escutando o mar, algumas vezes sentar de frente para a rua com pessoas e árvores e pedaços de céu, ou, para os mais privilegiados, horizonte, me pareceria o real. Mas até na praia a gente tende a lhe voltar as costas praticamente o tempo todo, virados para a televisão ou a mesa de carteado. É bom fazer isso também, embora eu seja da tribo dos debilóides que não distinguem naipes, coisa que minha mãe considerava a mais grave falha na minha cultura. Mas não sempre.

De modo que, depois de mais uma dessas ausências que se multiplicam entre o concreto de São Paulo e o mar do Rio, voltei para as árvores e o céu da Chácara das Pedras, contente por estar aqui a realidade mais real do meu refúgio.

lya.luft@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
24/04/2004


O efeito manada

Comigo se dá exatamente o que se denomina de efeito manada: pessoalmente, sou contra a pena de morte. Mas coletivamente somos todos a favor da pena de morte.

Por que, pessoalmente, sou contra a pena de morte? Porque, se fosse decidir eu sozinho sobre a pena de morte, vacilaria.

E vacilaria por causa da minha responsabilidade. Ou seja, eu decidindo sozinho claro que é diferente de uma decisão consensual - quando se apagam completamente as responsabilidades individuais.

Se por acaso eu decidisse sozinho, numa hipótese totalmente improvável, embora valiosa para o discernimento do assunto, eu tremeria em decretar a pena de morte, temeroso das conseqüências de meu ato.

Matar inocentes seria apenas um item dos vários riscos implícitos a minha decisão temerária.

Não sei se me entendem: as pessoas respondem em massa que são a favor da pena de morte porque sabem que essa sua opinião não decidirá nada. É o chamado efeito manada, o mesmo que ocorre com os tumultos de rua: quem saqueia ou depreda em grupo fica mais audacioso, porque sabe que a responsabilidade sobre o ato se dilui na multidão de saqueadores ou vândalos.

Sozinho, ninguém saqueia ou depreda à luz do dia, porque sabe que será responsabilizado por essa ação.

É exatamente o caso do presidente Lula, dá-se com ele o que se dá comigo quando concordo coletivamente com a pena de morte, medida a que pessoalmente sou contrário.

Quando não era presidente, Lula pregava salário mínimo de US$ 250 (do Dieese) e a criação de 10 milhões de empregos.

O Lula tem hoje o poder de conceder o salário mínimo de US$ 250 e de instituir numa penada a criação de 5 milhões de empregos.

Ele pode fazer isso sem consultar o Congresso ou até mesmo seu ministério.

Mas então por que Lula não faz o que prometeu? Não cria nem 1 milhão de empregos e decretará um salário mínimo três vezes menor do aquele que pregava quando de suas primeiras candidaturas à Presidência?

Lula não faz o que pregava porque quando pregava se incorporava à opinião pública (efeito manada), que exigia um salário mínimo de US$ 250 e a criação de 10 milhões de empregos.

Ou seja, o que diferencia fundamentalmente a opinião pública (efeito manada) do governante é que a primeira é irresponsável e o segundo é responsável.

Se Lula decretasse, agora como presidente, o salário mínimo e o número de empregos que pregava como líder partidário e candidato, quebraria o país.

Bastava que Lula mandasse amanhã a Casa da Moeda imprimir R$ 150 bilhões e instituiria um salário mínimo três vezes maior que aquele que decretará nestes dias e criaria 5 milhões de empregos, isto é, aparentemente se tornaria no maior e melhor presidente da República de todos os tempos.

Não o faz porque levaria, pela inflação brutal e aniquiladora, o Brasil à ruína.

Então, tanto em pena de morte quanto em salário mínimo ou criação de empregos, há sempre que distinguir a demagogia da responsabilidade.

Quando Lula decide agora por um salário mínimo ridículo e pela não-criação de frentes de trabalho e outros investimentos que criariam 5 milhões de empregos, optou por pular fora da manada e resolveu dar em si próprio um choque de realidade.

Isso se chama responsabilidade. Que só tem quem decide.

Quem não decide opina e promete só da boca pra fora.

Psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Ricardo Silvestrin
24/04/2004


Inteligência artística

Um grande artista é movido no fundo por uma grande inteligência. Tem a criatividade, a sensibilidade, mas quem governa é a inteligência. Digo inteligência não como algo frio, enciclopédico, nerd. Mas como capacidade de avaliar, de escolher, de fazer o balanço do que serve e do que não serve, de tentar entender o que faz. Vi o Paulo Autran sendo entrevistado pela Ivete Brandalise na TVE. Quando perguntado sobre como ele criava a interpretação dos seus personagens, ele respondeu que não havia nada de muito especial. Apenas lia várias vezes o texto, entendia, via que função o personagem desempenhava na história e formulava para ele o significado racional do que deveria interpretar.

A interpretação teatral começa, para ele, na interpretação do texto. De posse disso, e só depois de estar de posse disso, começava a exercitar até acontecer o momento em que ele tinha o estalo criativo. Mais uma vez a inteligência: primeiro para entender, depois para esperar.

Método semelhante empregava o Sinatra. Antes de gravar ou cantar uma música em um show, passava alguns dias lendo a letra. Estudava, entendia a construção do texto, a função de cada palavra. Era, antes de um cantor, um leitor.

O ator francês Gérard Depardieu também disse que a sua interpretação teatral parte da leitura das nuanças do texto. Para ele, interpretar é encontrar uma maneira bonita de dizer o texto. É uma questão de achar as pausas. A busca de cada artista é desenvolver esse saber sobre o que faz. Um saber que muitas vezes se transforma com o tempo. Daí os artistas com fases diferentes, com reviravoltas. Mas tem os que buscam a vida inteira o mesmo caminho.

O poeta João Cabral de Melo Neto disse que sua poesia toda tem como princípio a descrição. Seus poemas vão descrevendo por vários ângulos diferentes um objeto, uma paisagem, uma pessoa, uma cidade, o mar, o canavial... E como as coisas são infinitas e as formas de ver também, sua poesia é sempre a mesma e sempre outra. Uma necessidade de pensamento mágico, infantil, faz das pessoas esperarem do artista que ele feche os olhos e do nada incorpore uma idéia, um personagem, uma canção, trezentas páginas. Tem até os que incorporam, mas esses quase sempre não são os grandes artistas.

ricardo.silvestrin@zerohora.com.br

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Oriente Médio
Fotos chocam os americanos



Imagens de caixões de militares mortos no Iraque expõem as baixas dos EUA e causam mal-estar ao governo Bush (foto AP/ZH)


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Sexta-feira, Abril 23, 2004




Nome: Juliana descobriu logo que teria uma menina e decidiu chamá-la de Gabriella

Gestação
João ou Maria

Teste sanguíneo permite descobrir mais cedo se a grávida está esperando menino ou menina

Juliane Zaché

Logo depois de se descobrir grávida, a maioria das mulheres fica ansiosa para saber o sexo do bebê. Geralmente, essa informação só é revelada a partir da 17ª semana de gravidez por meio de um exame de ultra-som. Mas no Hospital Sírio Libânes, de São Paulo, a curiosidade das mamães vem sendo saciada mais rápido. A instituição realiza um teste sanguíneo que permite detectar a partir da 11ª semana de gestação se a mulher terá um menino ou uma menina.

O exame tornou-se possível graças às pesquisas do biólogo José Eduardo Levi e do médico Silvano Wendel, do Banco de Sangue do hospital. Os dois colocaram em prática o que cientistas ingleses descobriram em 1997: o DNA (estrutura que carrega os dados biológicos do ser humano) do feto se mistura ao sangue da mãe. Ou seja, como nesse material está contida inclusive a informação do sexo do indivíduo, é possível investigar se a criança é menino ou menina com a avaliação do sangue materno.

É simples. A amostra contém as informações genéticas da mãe e do filho. Mas as mulheres apresentam cromossomos XX e os homens XY. Por isso, se no material colhido for detectada a presença do cromossomo Y, a criança é um menino. Afinal, o Y só pode ter vindo dela. Se ele não for encontrado, é uma menina.

Caso a gravidez seja de gêmeos idênticos, o resultado que aparecer no exame vale para os dois fetos. Quando a gestação for de gêmeos dizigóticos (podem ser mais de dois bebês, abrigados em placentas diferentes) e o teste apontar sexo feminino, significa que no útero estão pelo menos duas meninas. Se for detectada a presença do cromossomo Y, só será possível afirmar que ao menos uma das crianças é menino.

Em 1999, os pesquisadores começaram a trabalhar em cima da teoria. E passaram a testar o método criado por eles com voluntárias. Até setembro passado, 600 gestantes tinham feito o exame. A partir da 11ª semana, o teste tem 100% de acerto, afirma Levi. A executiva de vendas Juliana Censoni, 33 anos, de São Paulo, é uma das mulheres que participaram da fase experimental. Segundo ela, descobrir que teria uma menina logo no início da gravidez foi uma providencial ajuda. Assim que saiu o resultado, decidi qual seria o nome dela, lembra a mãe de Gabriella, hoje com um ano e dois meses.

Para fazer o teste, é preciso desembolsar R$ 300. Mas o método não é infalível. O resultado, que sai depois de três dias, em média, pode sofrer interferências causadas por situações que levem à presença de cromossomo masculino no plasma materno, como uma transfusão recente de sangue ou transplante de órgão retirado de um homem para a futura mãe.

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Drama
Duas vezes tragédia

Ex-ministro viu o filho mais velho atropelar operário e o mais novo se atirar do nono andar

Ana Carvalho

Em menos de uma década, o ex-ministro dos Transportes do governo Fernando Henrique Cardoso e atual secretário de Agricultura do Rio Grande do Sul, Odacir Klein, vive uma segunda tragédia familiar. Desta vez com o filho mais novo, Felipe, 20 anos. Na noite de sábado 17, o tatuador profissional pulou do nono andar do prédio no qual o pai morava no centro de Porto Alegre, após os dois travarem uma dura discussão.

Felipe perdeu a vida e Klein, segundo amigos e assessores próximos, a vontade de viver. Sob sedativos ao longo da semana, o ex-ministro estava decidido a afastar-se definitivamente do cargo que exerce no governo de Germano Rigotto (PMDB).

Esta mesma cena também é uma espécie de revival na vida do político gaúcho ligado ao PMDB. Em 1996, Klein, então ministro dos Transportes, estava num carro dirigido pelo filho mais velho, Fabrício, 18 anos. O jovem atropelou e matou o pedreiro Elias Barbosa de Oliveira Júnior em Brasília. Fabrício e Klein, que vinham de um churrasco, fugiram sem prestar socorro à vítima. Constrangido com a repercussão do incidente a placa de seu carro foi anotada por uma testemunha , ele entregou o cargo a FHC.

Foram também testemunhas que contaram à polícia que Felipe estava no parapeito do apartamento xingando uma pessoa quando se jogou. Fabrício, hoje com 25 anos, foi quem falou em nome da família durante o velório do irmão. As circunstâncias ainda estão meio confusas, mas Felipe se jogou mesmo. Meu pai está em estado de choque. Não se lembra de nada. A polícia, que encontrou o apartamento revirado e com dinheiro espalhado pelo chão, levou Klein, desorientado, para o hospital Dom Vicente Scherer. Ele não sabia dizer onde estava o filho, cujo corpo já se encontrava a 11 metros da fachada do prédio. Chegou a afirmar que Felipe estaria na casa da mãe, recém-separada, que mora na mesma rua do secretário. Klein foi submetido a exames, inclusive de teor alcoólico, que devem ser divulgados esta semana.

Felipe era uma espécie de antítese de Fabrício. Enquanto o jovem tatuador fazia parte de uma tribo, entre o gótico e o punk, que se veste de preto e transforma o corpo e a face com o uso de silicone e adorno de metais, o mais velho dos Klein está disposto a seguir os passos do pai: a carreira política. Ele vai disputar, pelo PMDB, uma cadeira na Câmara Municipal de Porto Alegre.

Pelo acidente, Fabrício foi condenado por homicídio culposo a pagar indenização de R$ 30 mil à família do pedreiro e doar uma cesta básica por mês durante dois anos a uma instituição de caridade. Felipe, apaixonado por piercings e tatuagens, morava com a mãe e se enquadrava no estereótipo da rebeldia. No entanto, segundo confidenciou um médico amigo da família, sofria de depressão.

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O filme quente de Tarantino
Tatiana Contreiras

Violento, acelerado e superpop, 'Kill Bill' tem matança e sangue para todos os lados



Estiloso filme sobre vingança, mistura de linguagens cinematográficas, puro entretenimento. O aguardado Kill Bill: Volume 1, quarto filme do pop e cultuado Quentin Tarantino, estréia hoje com tudo isso e mais um pouco. Há quem acuse o diretor de ser um plagiador barato. Bobagem. Dividido em duas partes, Kill Bill é, sim, um apanhado direto de todas as referências de Tarantino, fã de longas de kung-fu, faroestes, seriados antigos e filmes vagabundos dos anos 70, de forma geral.

Mas na tela, o que se vê do início ao fim é um filme de ação daqueles de se levantar da cadeira e vibrar a cada cena. Esqueça o ar blasé das lutas limpinhas, em que ninguém se machuca. Aqui, o negócio é sangue. E diversão.


No teto, Uma se esconde

Musa de Tarantino, Uma Thurman estava grávida quando as filmagens de Kill Bill iam começar. O diretor esperou pela atriz, indicada ao Oscar por Pulp Fiction Tempo de Violência. Ela vive a fria vingadora The Bride (A Noiva), ex-integrante de um grupo de matadoras, o Esquadrão Assassino Víboras Mortais, liderado por Bill (David Carradine, ídolo de Tarantino e estrela do seriado Kung Fu). Grávida, no dia de seu casamento, A Noiva ou Mamba Negra, seu codinome é vítima de uma chacina comandada pelo ex-chefe Bill (e ex-namorado) e pelas ex-parceiras. Todos os convidados da cerimônia morrem. Menos ela.



Uma vale por mil: a heroína enfrenta um exército

Quatro anos depois, A Noiva acorda do coma e decide se vingar de Bill e companhia. Começa sua lista com Vernita Green (Vivica A. Fox), agora uma pacífica mãe de família. Vai até Okinawa, no Japão, onde consegue sua espada de samurai e treina com o ex-mestre de Bill, Hattori Hanzo (no filme e na série Shadow Warriors vivido pelo veterano Sonny Chiba, que treinou o elenco do filme).



Uma e Lucy Liu lutam na neve: qual levará a melhor?

E é no Japão que o melhor embate deste volume um acontece. A Noiva enfrenta O-Ren Ishii (Lucy Liu) depois de uma luta de tirar o fôlego. Na seqüência da Casa das Folhas Azuis, em 20 minutos de filme a personagem de Uma detona a gangue da ex-colega e líder da máfia japonesa, os Crazy 88. Sim, 88 pessoas, numa luta com sangue jorrando e cabeças voando. Cada golpe parece um passo de dança a cena em que as luzes se apagam e A Noiva luta com um fundo azul é um videoclipe de tão pop.

O fim da primeira parte da vingança sanguinária da Noiva e do épico dos sonhos de Tarantino deixa no ar a expectativa pelo volume dois e a certeza de que Kill Bill, ainda que controverso, vale cada um dos 110 minutos no cinema.



De moto, ela percorre as ruas de Tóquio

Volume 2
Kill Bill: Volume 2 estreou nos Estados Unidos no dia 16 e chega ao Brasil em outubro. Se no Volume 1 Tarantino prioriza as imagens e joga sangue na tela, na segunda parte do filme ele dá mais espaço para seus tão comentados diálogos. A Noiva parte, então, em busca da ex-parceira Elle Driver assassina que usa tapa-olho e é conhecida como California Mountain Snake (todos os matadores do grupo têm como codinomes tipos de serpentes) , de Budd Sidewinder (Michael Madsen, de Cães de Aluguel) veterano do esquadrão comandado por Bill (Carradine) que volta à ativa , e, claro, de Bill.

O chefão, aliás, ganha mais espaço no Volume 2: ele mal aparece, mas sua voz pontua vários trechos da história. Se o Japão dá o tom da primeira parte de Kill Bill, a China domina na outra parte. Feito para ser uma coisa só, o filme foi dividido por sugestão da Miramax.

Com animação japonesa



A mãe de O-Ren Ishii (Lucy Liu) em versão desenho: morte violenta

Uma das melhores seqüências de Kill BIll: Volume 1 é a animação, dentro do filme, que mostra a morte da mãe e do pai gângster de O-Ren Ishii (Lucy Liu), a vingança da menina e sua transformação em assassina. Dirigidas por Tarantino, que também participou da produção dos storyboards, as cenas foram criadas pelo Production I.G, um dos grandes estúdios de animação japonesa.

Cada detalhe levou até seis horas para ser feito, e as cenas são praticamente outro filme dentro do filme. Com tema de Ennio Morricone, elas têm bangue-bangue à moda antiga. Além de o estilo ser referência para Tarantino, consta que o anime foi um jeito de mostrar de forma menos violenta os assassinatos e ainda poupar dinheiro. Que seja. Mas funciona, e bem.

A trilha
Músicas antigas, temas bizarros em geral e canções de velhos seriados dão o tom da trilha sonora de Kill Bil: Volume 1. Tarantino diz que só consegue ir adiante no roteiro se imaginar qual música casa com cada cena, e que o segredo de suas trilhas sonoras é o fato de elas serem extremamente pessoais.

Algumas músicas são conhecidas. Na cena em que A Noiva (Uma Thurman) luta com O-Ren (Lucy Liu) , por exemplo, veja lá se você não reconhece Dont Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, música dos anos 70 que já foi trilha sonora de novela por aqui. Além de ser referência na tela, o seriado Besouro Verde, com Bruce Lee, contribuiu com a música-tema. E abrindo o filme, Bang Bang (My Baby Shot Me Down), de Nancy Sinatra, é de arrepiar.



Tarantino nas videolocadoras


Cães de Aluguel, Pulp Fiction (com Uma, no centro) e Jackie Brown: os filmes anteriores de Tarantino


Violência, diálogos bem sacados e histórias que se abrem dentro de outras. Nada disso falta nos filmes de Quentin Tarantino, 41 anos, tratado como gênio inovador por uns e picareta plagiador por outros. Antes de Kill Bill, seu quarto filme (crédito que aparece em letras garrafais na abertura, num momento de ego elevado à toda prova), ele escreveu e dirigiu o que é hoje um dos mais cultuados filmes policiais: Pulp Fiction Tempo de Violência, de 1994. Antes, ele já havia feito Cães de Aluguel, sucesso em 1992. E em 1997, lançou o não tão bem recebido Jackie Brown, sobre uma aeromoça que turbina seu salário com serviços extras.


Em Cães de Aluguel, um grupo de gângsteres de terninho e gravata (estilo mais que copiado hoje em dia) assalta uma joalheria e é surpreendido pela polícia, dando a impressão de que há um delator entre o grupo, entre outras questões. Pulp Fiction, para quem não lembra, resgatou o galã John Travolta, como um assassino viciado, mostrou Uma Thurman como uma mulher fatal a dancinha dos dois em um concurso de twist virou moda na época e deu o Oscar de Melhor Roteiro Original ao diretor, em 95. Aclamado e adorado por público e crítica, ele só perdeu o bonde com Jackie Brown. Mas na bolsa de apostas, há quem diga que Kill Bill é sua volta aos velhos tempos.

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CNBB: padre fazer sexo não é o fim do mundo

Adauri Antunes Barbosa

INDAIATUBA (SP). Depois da divulgação da pesquisa mostrando que 41% dos padres brasileiros já tiveram experiência sexual com mulheres, Dom Anuar Battisti, bispo de Toledo (PR) e presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, disse que a revelação não é o fim do mundo nem escandaliza a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB):

É um dado preocupante, mas não podemos nos escandalizar. Não é o fim do mundo. Este não é o único lado a ser olhado do ser humano.

Ele disse que o envolvimento de padres com mulheres pode ser considerado um desvio e que cabe o arrependimento:

Esse desvio, que pode ser uma pisada na bola, é uma coisa da qual depois ele se arrepende. Não é falha de caráter, mas uma demonstração especial de amor por alguém.

A pesquisa foi feita pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), órgão ligado à CNBB, e divulgada anteontem na 42 Assembléia Geral da entidade. Os dados foram considerados preocupantes pela CNBB, que os discutiu na reunião anual em Itaici, no município de Indaiatuba, a 90 quilômetros de São Paulo.

Dom Anuar disse que o padre precisa ter relações de afetividade com pessoas próximas e que as mulheres não podem ser afastadas disso:

Como diz um poeta gaúcho, não pense que mulheres são crias de satanás.

Para Dom Anuar, mais importante é a revelação de que 94% dos padres estão satisfeitos com a sua opção vocacional.

Dom João Braz de Aviz, arcebispo de Brasília, disse que pode ter havido má interpretação da pesquisa:

A pesquisa fala em envolvimento afetivo com mulheres e não em envolvimento sexual afirmou, contrariando o diretor-executivo do Ceris, Luiz Antonio Gomez de Souza, coordenador do levantamento. Anteontem, ele disse que a pesquisa aponta que os padres falam em relações sexuais, não só afetivas.

Os dados foram manipulados inadequadamente disse Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Palmas (TO).

Para Dom Anuar, o celibato dos padres não foi ameaçado pelos resultados da pesquisa:

O celibato vai além da relação afetiva, é uma doação ao reino de Deus, que abriga todo serviço do presbítero.

A pedofilia, outra questão polêmica, está entre os temas discutidos pela CNBB, que deu orientações sobre como enfrentar o problema. A primeira atitude, segundo Dom Anuar, é o afastamento para tratamento especializado. Se se reabilitar, o padre retorna à sua atividade; se houver reincidência, é afastado definitivamente.

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São Paulo consegue vitória heróica no Morumbi

Esporte na Globo

SÃO PAULO - O São Paulo conseguiu uma vitória heróica na noite desta quinta-feira, no Morumbi, em sua estréia no Campeonato Brasileiro. Jogando com nove jogadores desde os 13 minutos do segundo tempo, após as expulsões de Marquinhos e Velber, o time de Cuca derrotou o Atlético-PR por 1 a 0, com um golaço de Gustavo Nery aos 43 minutos da etapa final. O público pagante foi de 5.038 pessoas. Os dois times voltam a jogar na rodada de domingo. O São Paulo enfrenta o Criciúma, às 18h, no Estádio heriberto Hulse. Já o Atlético-PR busca a recuperação diante do Figueirense, às 16h, na Arena da Baixada.

Logo aos dois minutos, Marquinhos lançou Luís Fabiano, em posição duvidosa, mas o atacante desperdiçou a ótima chance chutando em cima do goleiro Diego. A resposta paranaense veio na mesma moeda aos 19 minutos. Ilan recebeu na entrada da área, driblou o zagueiro Rodrigo e chutou à direita de Rogério Ceni, perdendo gol feito.

O gol motivou o rubro-negro, que teve outra chance clara quatro minutos depois com o mesmo Ilan. O atacante acertou a trave de Rogério Ceni após escorar cruzamento da direita de Alan Bahia. O Atlético-PR dominava inteiramente a partida e voltou a assustar aos 28. Ilan recebeu da intermediáriae chutou rasteiro à direita do gol são-paulino.

Gustavo Nery garante a vitória com bonito gol

O São Paulo finalmente respondeu aos 33 num chute de londe de Gustavo Nery, que desviou na defesa do Atlético-PR e quase enganou o goleiro Diego. Aos 41, Alan Bahia acertou uma bomba, mas Rogério Ceni salvou o São Paulo mais uma vez.

Preocupado com a fraca atuação do São Paulo, o técnico Cuca fez duas substituições na volta para o segundo tempo: tirou Cicinho e Fábio Santos e colocou Gabriel e Vélber. Aos dez, Marquinhos se irritou com a marcação do árbitro carioca Djalma José Beltrami Teixeira e levou o cartão vermelho. Três minutos depois, Vélber agrediu Ramalho e também foi expulso.

Em desvantagem numérica, o São Paulo apenas se defendia e tentava sair no contra-ataques. Aos 27, Cuca tirou Grafite e colocou Danilo para fortalecer a marcação. A torcida são-paulina até chegou a se empolgar, gritando e motivando o time. E, quando ninguém mais esperava, aos 43, Gustavo Nery arrancou da intermediária, driblou o zagueiro Marinho, passou por Igor e chutou no ângulo direito do goleiro Diego.

São Paulo 1 x 0 Atlético-PR

Local: Morumbi, em São Paulo

Público: 5.038 pessoas

Renda: R$ 63.854,00

Árbitro: Djalma José Beltrami Teixeira-RJ

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Gabriel Moojen
23/04/2004


As coisas mudam

Fui, vou fazer o Mochilão da MTV. Mas ainda não é a hora das despedidas porque tenho mais um mês aqui no Patrola. Por isso hoje escrevo sobre viajar. É certo como dois e dois são quatro que uma viagem muda a vida da gente. Talvez, não a vida toda, mas uma parte íntima do ser. Sei que o cara que fecha a porta não é o mesmo que vai abri-la na volta.

A coisa se dá como um vício, um vírus. Primeiro é a angústia da partida. Se as malas estão prontas, se vai faltar dinheiro, se as pessoas serão legais. Depois é a surpresa da chegada. Por mais que a gente leia e se informe sobre qualquer destino, os lugares têm cheiro, temperatura, som.

Por exemplo, se você vai para Londres. Um universo novo se apresenta. Tudo é sensacional, todos são os amigos mais legais do mundo, Você está no bairro mais legal do mundo, pega o metrô mais legal do mundo, vai ao show da banda mais legal do mundo. O mundo é essa surpresa do aprendizado diário.

Então chega a hora da despedida e vem uma dor. Uma dor que o cara acha não vai passar. Porque dar adeus a um amigo do peito que você conheceu nas últimas duas semanas e que mora na Polônia e, é quase certo, não verá jamais, dói. Mas é só entrar num trem que vem a segunda lição. Porque nesse momento acabou de sentar bem na sua frente uma sueca loira maravilhosa que vai passar as próximas 24 horas bem na sua frente contando histórias absurdas sobre raves e pássaros. A dor da despedida toma outra dimensão e vai se esvaziando. A paisagem da janela ganha mais cor, a vida volta a ser legal.

Quando o trem chega, a dor volta. Porque você também sabe que não mais verá aquela moça, a não ser que ela responda algum e-mail dizendo que está a 15 mil quilômetros de você.

No albergue você fica num quarto onde tem uns israelenses que acabaram de sair do exército e estão curtindo a vida em Paris. E você fica fazendo parte da turma. Se diverte, toma um trago com eles, ouve mais histórias absurdas, acha que a sua vida é tão calma... Até que chega a hora de ir para a próxima parte da viagem sozinho e que sua mochila está pesada demais. Que não precisou da metade das coisas que trouxe. Então você se dá conta de que aprendeu uma lição maior.

Que a vida é essa mudança. E que a mochila deve ser mais leve. Então deixa no hotel dois pares de sapatos, duas calças novas, quatro camisas, lençol, toalha... E sai caminhando melhor, sabendo um pouco mais sobre deixar as coisas para trás e escrever novas histórias. Aprende sobre o desapego. Sobre encarar desafios com a alma solta e o coração tranqüilo. Que, fora o motorista, tudo é passageiro. E descobre que, como o rio, estamos também de passagem. ME ESCREVAM logo.


gabriel@rbstv.com.br

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Mauren Motta
23/04/2004


Foto(s): Júlio Cordeiro/ZH
Trocando de canal

Começo a escrever a coluna de hoje minutos depois de me despedir do Gabriel. Ele acabou de sair da minha casa. Nosso encontro, mais uma vez, foi profissional. Na pauta de hoje, as fotos para a capa do caderno Patrola. Muitas vezes isso já aconteceu. Posamos sorridentes para editoriais, matérias e divulgação. Essa sessão foi diferente. O clima de encerramento e despedida tava no ar.

Talvez tenham sido nossas últimas fotos juntos. Como muita gente já sabe, o Gabriel tá saindo do Patrola. Sorte dele, azar o meu ou vice-versa. Não que eu ache que as pessoas são insubstituíveis. Com a experiência, aprendemos que não são. Mas uma parceria de cinco anos é difícil de romper, ainda mais com tanta história em comum.

Certa vez, numa loja, uma senhora se aproximou de mim e falou: "Adoro você e o seu marido, acho vocês maravilhosos!". Bastou para que eu caísse na gargalhada. Expliquei pra ela que eu e o Gabriel não éramos casados, que a gente simplesmente dividia um programa de televisão. Depois disso, comecei a pensar. Na verdade, nossa relação sempre foi como um casamento. Dias bons e ruins. TPM e deprê. Euforia e adrenalina. É claro que tudo isso com muito trabalho, e sem sexo. Olhando pra trás, vejo quanta coisa interessante aconteceu com a nossa união. Muitas conquistas, alegrias, emoções e milhares de brigas.

Não entendo nada de signos, só sei que somos os opostos: o Gabriel é de áries e eu sou de libra. Ele sempre fez a linha bicho-grilo, garoto de praia. Eu sempre fui moderninha e urbanóide. O Gabriel é da música, eu sou da moda. O Gabriel é magrão e altão. Eu sou gordinha e baixinha. E foi justamente nesses desencontros que a gente se encontrou. As diferenças eram tantas que parecia impossível que a gente desse certo. E deu! Nossa química rolou dentro e fora da pequena tela.

Com o passar dos anos, eu e o Gabriel fomos crescendo juntos e descobrindo muitas coisas em comum, aprendemos um com o outro. Até um parentesco distante pintou no pedaço. Dizem que somos primos. Mas isso não importa. O que vale é que somos parecidos na vontade de vencer, gostamos muito do que fazemos, adoramos viajar, gostamos de namorar, temos muitos amigos, somos conectados, amamos o jornalismo e o Caetano. O Gabriel carinhosamente me chama de "Carma" e eu o chamo de "Mala"! Vai deixar saudade. Tenho pensado em como vai ser e o que vai mudar.

O grande medo quando uma relação acaba é do que vem pela frente. Novos desafios sempre dão calafrios. E eu acho que é isso que sempre nos moveu. Um novo companheiro vai pintar na minha história. Um novo programa vai viver na história do Gabriel. Desejo sorte para nós, muito amor no coração e que ele vá com Deus.

Beijolas na parceria, Mau.

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David Coimbra
23/04/2004


As montanhas sagradas

Por volta de 1870, o general Custer informou que as Black Hills, as montanhas sagradas dos índios, estavam cheias de ouro "desde as raízes da grama". Nada mais eficaz para titilar a cobiça do homem branco. O governo dos Estados Unidos passou a insistir na compra do solo sacrossanto das nações vermelhas. Pressionados, os chefes se reuniram para estudar a proposta. De repente, em meio à reunião, um guerreiro montado num cavalo cinza, pintado para a guerra, com duas pistolas na cintura, irrompeu no local, aos gritos:

- Matarei o primeiro chefe que falar em vender as Black Hills!

Era o guerreiro sioux chamado Pequeno Grande Homem, que falava em nome de Cavalo Doido, líder maior da resistência indígena. Pequeno Grande Homem tornou-se célebre por essa ação de bravura. Sete anos depois, ele teve a sua segunda participação notável na história dos índios americanos: era de Pequeno Grande Homem a mão que segurava Cavalo Doido quando ele foi assassinado com um golpe de baioneta no ventre. As Black Hills, então, estavam à mercê dos garimpeiros brancos.

A traição de Pequeno Grande Homem demonstra bem como os Estados Unidos lidaram com seus índios. Tentavam cooptá-los e dividi-los. Quando não conseguiam, partiam para a simples e eficiente carnificina. Isso em meados do século 19. Agora, ao amanhecer do 21, índios brasileiros da Amazônia massacraram 26 garimpeiros exatamente pelos mesmos motivos que levaram os americanos a se apossar das montanhas sagradas.

Ou seja: até no extermínio dos silvícolas o Brasil está atrasado em mais de um século. Quando é que finalmente vamos chegar à fase da selvageria?

Já os índios gaúchos estão em outro nível. Vi a foto deles no jornal, reivindicando a posse de um antigo cemitério indígena no Morro do Osso. Índios de calção Adidas, cocar de espanador na cabeça, pintados para a guerra como Pequeno Grande Homem, com a diferença de que a tinta deles imagino seja têmpera.

Como os índios descobriram esse cemitério de seus ancestrais? Pela Internet. Juro por Deus. Consultaram algum site especializado em solos sagrados e descobriram o campo-santo perdido de seus antepassados. Nada de tacape, nada de borduna, nada de magia de pajés: Internet! Que inveja os índios gaúchos não despertariam no velho Cavalo Doido!

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
23/04/2004


As bestas caninas
Olhem o que diz a lei estadual lá em São Paulo sobre como devem ser conduzidos em espaços públicos os cães das raças pitbull, rottweiler, mastim napolitano e american terrier.

Segundo a lei, sancionada no mês passado pelo governador Geraldo Alckmin, essas feras só podem ser conduzidas nas ruas e parques por seus donos se forem tomados os seguintes cuidados: os cães ferozes têm de ser contidos por correntes (nem se fala em guias) de curta condução (no máximo dois metros de comprimento), coleira, focinheira e enforcador.

Mas eu pergunto: mesmo com focinheira, mesmo com corrente curta, mesmo com coleira, até mesmo com enforcador, quem enxergar um monstro desses na rua não ficará inteiramente tomado pelo terror?

Como acontece com quase todas as leis no Brasil, essa também não vem sendo respeitada em São Paulo, pouquíssimos proprietários tomam tais cautelas ao conduzir seus cães pelas ruas.

Aqui em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, a farra do passeio livre e desimpedido desses cães horrorizantes pelos parques e ruas é livre e sem qualquer vigilância.

Lá em São Paulo, só neste mês de abril, cinco pessoas foram atacadas violentamente por esses cães ferozes, quase todas elas crianças.

Como foi o caso, anteontem, em Ribeirão Preto, da menina Gabriele Souza, de apenas dois anos, que foi visitar seu pai, separado de sua mãe, e foi atacada por um pitbull, que cravou os potentes dentes em sua nuca, quase lhe arrancando o pescoço.

O menino Natanael Lima, 11 anos, dia 4 deste mês, foi atacado e quase mutilado por um rottweiler quando brincava na rua onde mora, em Taboão da Serra.

Em Limeira e em Paulínia, uma garota de sete anos e uma atleta de 14 anos foram mordidas na perna e na cabeça por um desses cães. E a notícia do jornal diz apenas que "sobreviveram".

Não foi o caso da estudante Luana Oliveira, com oito anos, que na frente da sua casa foi atacada por um pitbull, em Jundiaí.

O pitbull atracou-se no pescoço da pobre menina e não largava mais. Ela deu entrada no hospital em estado grave e morreu dias depois.

E, no início de março, o dentista Roberto Carvalho, 39 anos, em Casa Branca, brincava com uma bola no quintal de sua casa. A bola caiu no quintal do vizinho e o dentista foi lá buscá-la.

Imaginem seu azar: foi atacado por um pitbull, um rottweiler e um dog alemão, que literalmente o estraçalharam, matando-o em três minutos.

É tal a capacidade de destruição e de maldade de um cão desses que a lei exige que, além da focinheira e da corrente curta, o dono contenha-o com um enforcador.

Como é que permitem que passeie nos parques e nas ruas uma fera que tem de estar permanentemente contida por um enforcador?

Mas o que é isto? Sabendo-se que a maioria dos ataques desses monstros se verifica nos quintais ou nas calçadas das ruas em que moram seus donos, como é que se permite que existam e procriem esses seres horrendos?

E nenhuma autoridade se levanta contra este holocausto, vítimas morrendo a dentadas, sangue rolando no país há décadas, as bestas soltas nas casas, nos quintais e até nos parques.

É desanimadora a crise de autoridade brasileira.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
Gasolina da Capital tem preço padronizado



Levantamento feito pelo repórter de ZH Rodrigo Müzell em todos os 200 postos de Porto Alegre mostra que em 130 deles há um alinhamento no preço do litro da gasolina comum.


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Quinta-feira, Abril 22, 2004




Espírito de Cooperação no Trabalho ISBN 85-316-0114-2

Jack Canfield e Mark Victor Hansen
Editora Cultrix


Título original: Chicken Soup for the Soul at Work


O trabalho é parte importante de nossa vida, que lidemos diretamente com os clientes, que tenhamos o nosso próprio negócio ou cozinhemos para a nossa família. Sendo assim, todos temos histórias importantes para contar sobre o nosso trabalho. Dessa gama de experiências, um grupo de escritores, tendo à frente Jack Canfield e Mark Victor Hansen, reuniu uma coletânea especial de contos que dão testemunho da coragem, da compaixão e da criatividade que acontecem todos os dias nos locais de trabalho em todas as partes do mundo.

Espírito de Cooperação no Trabalho irá estimular sua criatividade com exemplos de conquistas inspiradoras, alimentar o seu espírito com relatos de líderes corajosos e ensiná-lo a enriquecer a si mesmo e a seus colaboradores com histórias que tocam profundamente o coração.

De insdescutível interesse, ele lhe oferece novas opções, novas maneiras de ser bem-sucedido; sobretudo, uma nova maneira de amar a si mesmo, ao seu trabalho e a todos que o cercam.

Compartilhe-o com seus colegas ou funcionários e desfrute uma alegria e um prazer renovados no seu dia-a-dia.

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Motivação: o que fazer?

Ivan F. Cesar

Muito se comenta sobre o tema MOTIVAÇÃO.

Todos sabemos que a MOTIVAÇÃO é uma das principais molas para impulsionar um negócio de sucesso, mas como implementá-la na prática?

A quem devemos motivar, como devemos motivar, em que situação, qual o ambiente ideal, quando devemos motivar ?????

MOTIVAÇÃO é motivar alguém para uma ação. É quebrar a inércia e desenvolver um movimento de crescimento e de auto-estima dentro de cada indivíduo.

Quem se sente motivado, se sente "capaz", se sente "feliz", se sente "fortalecido", se sente "seguro" e, principalmente, sabe onde quer chegar, ou seja, tem um ou mais ojetivos definidos.

A motivação deve começar de cima para baixo. Os empresários necessitam traçar suas metas e acreditar nelas!

Empresários se motivam em função da busca de seus sonhos e da persistência necessária para alcançá-los.

Estabelecida a meta, teremos mais motivação quanto mais tivermos:

conhecimento (capacidade); afinidade ao negócio (felicidade); parceiros e network (fortalecimento); e
capital de giro (segurança).

O empresário motivado já estará dando um grande passo para a motivação de seus colaboradores(*), ou seja, o EXEMPLO !!!

Partindo do exemplo que vem de cima, devemos estimular nos colaboradores as mesmas sensações de capacidade, felicidade, fortalecimento e segurança isso, de forma contínua, procurando fazer com que as metas da empresa também sejam as metas dos colaboradores.

Para tanto, algumas ações devem fazer parte da estratégia do negócio, quais sejam:

a "capacitação" dos colaboradores, na forma de cursos, treinamentos, palestras, seminários, feiras, etc - o colaborador precisa ser um "expert" naquilo que faz e entender perfeitamente o funcionamento da empresa.

um colaborador será "feliz" quando estiver fazendo aquilo que gosta em um ambiente de colaboração e amizade - coloque a pessoa certa no lugar certo, estimule a colaboração e não a competição, promova eventos sociais e recreativos, estimule a troca de idéias (brainstorm), elogie em público e repreenda particularmente.

um colaborador se sentirá "fortalecido" quando sentir a sua importância para a obtenção das metas da empresa tente mostrar a cada colaborador o quanto o seu trabalho é importante para a empresa e não apenas para a conclusão de suas tarefas (lembra da história do empresário americano que visitando uma grande empresa de software no Japão perguntou a um funcionário que varria o chão qual era a sua função. Ele respondeu: eu ajudo a desenvolver "software"!).

um colaborador se sentirá "seguro" quando o seu retorno financeiro permitir viver dentro de suas expectativas - remunere os seus colaboradores com salários justos, de acordo com as responsabilidades, produtividade e capacitação de cada cargo. Estabeleça premiações e bonus quando metas forem superadas ou para inovações que aumentem a produtividade.

Em resumo, MOTIVAÇÃO não se consegue apenas através de palestras de Consultores famosos.

Se consegue com muito suor, dedicação, senso de justiça, errando e acertando!

Lembremos, "para chegar a qualquer lugar é necessário dar o primeiro passo".

Prefiro utilizar o termo "colaboradores" e não "empregados".
Cada elemento que trabalha em nossa empresa deve se sentir "sócio" e naõ "assalariado", ou seja, ter a certeza que o sucesso do negócio também será o seu próprio sucesso.

Ivan F. Cesar é Empreendedor/Webmaster e Webdesigner, criador do grupo "Empreender para Todos". br.groups.yahoo.com/group/empreenderparatodos
E-Mail: ivanfcesar@yahoo.com.br

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Mergulho no trágico

Renata Sorrah e José Mayer reabrem o Teatro Dulcina com Medéia e ingressos a R$ 15
Rúbia Mazzini



Renata também é produtora e idealizadora do espetáculo, que estréia hoje somente pra convidados

Deitada no chão de terra batida, Renata Sorrah aguarda o momento em que José Mayer se jogará entre suas pernas para que os fotógrafos registrem a cena. Ainda de pé, o ator pára por alguns segundos, pergunta para a diretora Bia Lessa se deve mesmo fazer aquilo e vaticina: Vai ser a foto da capa. Para não desmentir o ator, aí em cima está a imagem, apenas uma entre as muitas, fortes, violentas e belas seqüências criadas por Bia para a montagem de Medéia, tragédia do grego Eurípedes que estréia no Teatro Dulcina hoje, para convidados, e amanhã para o público, com ingressos a R$ 15.

Idealizadora do espetáculo, do qual também é produtora, Renata encarna a personagem-título, a mitológica feiticeira que mata os próprios filhos depois de ser abandonada pelo marido. Com cabelo e barba crescidos, Mayer interpreta Jasão, o ambicioso líder dos argonautas que troca Medéia pela filha do rei Creonte sem imaginar onde a fúria vingativa da mulher poderia chegar.



Mayer: chuva e um novo visual

Jasão, para mim, é o homem moderno, pragmático. Ele é o prenúncio desse homem esvaziado de valores éticos, que rompe compromissos, juramentos, na busca do sucesso e da ascensão, observa Mayer, que atendeu ao chamado de Renata para voltar ao teatro quatro anos depois da parceria em Mais Perto, drama contemporâneo de Patrick Marber. O convite era irrecusável por todas as razões, mas sobretudo pela raridade do acontecimento e pelo nível de dificuldade, diz o ator.

Achei bacana contracenar com alguém da mesma geração. E o Zé é perfeito para o papel, elogia Renata, fazendo questão ainda de destacar a excelência dos outros atores recrutados para a peça Cláudio Marzo, Emiliano Queiroz, Ivone Hoffmann, Christiana Guinle e Dalton Vigh , da diretora Bia Lessa Ela é terrível e maravilhosa e de toda a ficha técnica. Fazer um clássico desses é muito forte, só vale a pena assim, acredita a atriz, que admite: apesar de estar mergulhada no universo de Medéia há três meses, quando começaram os ensaios, só há poucos dias se deu conta de porquê quis encenar um texto escrito em 431 a.C.

Acho Medéia atualmente a cara do mundo. Estamos vivendo um momento muito dramático, de luta por ideais, e a peça fala sobre isso. Fala sobre o estrangeiro, o que não é igual a todo mundo e as pessoas rechaçam, sobre o civilizado e o não-civilizado, discorre Renata, traçando um paralelo entre a realidade da tragédia e do momento vivido pela Grécia quando Eurípedes imortalizou a lenda da feiticeira às vésperas da Guerra do Peloponeso com o atual panorama político do mundo, pós 11 de setembro e Guerra do Iraque. Medéia é uma exilada. E é considerada bárbara porque vai contra as leis estabelecidas. É quase uma terrorista, compara a atriz.

Divididos entre o amor e o ódio no palco, Renata e Zé Mayer devem continuar a viver emoções fortes também no retorno da dupla à tevê, na nova novela das oito da Globo, de Aguinaldo Silva. Mayer já acertou sua participação, no papel do jornalista Dirceu de Castro, casado com a protagonista, Maria do Carmo (Susana Vieira). Já Renata deve interpretar Nazaré, a vilã que rouba a filha de Carmo. Nazaré é má, muito má, adianta Renata. E eu vou estar no encalço dela, conta Mayer. Vem mais tragédia por aí.

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Está de bom tamanho

Flamengo começa bem no Brasileirão ao empatar em 0 a 0, com o Grêmio, no Olímpico.
Felipe foi o destaque rubro-negro

PORTO ALEGRE - Diz o manual do Campeonato Brasileiro que numa disputa de pontos corridos o importante é estar sempre pontuando. Foi o que o Flamengo fez, ontem, no Estádio Olímpico. Recém-campeão estadual, o Rubro-Negro arrancou um empate (0 a 0) na casa do Grêmio na rodada de abertura do Brasileirão.

Mesmo no campo do adversário, o Flamengo deu as cartas no primeiro tempo. O novo campeão do Rio esteve sempre mais perto de abrir o placar do que o Grêmio, que se limitou a marcar, saindo timidamente para o ataque.

Logo aos 11 minutos, o rubro-negro Douglas Silva cobrou bela falta, obrigando o goleiro Tavarelli fazer difícil defesa. O time gaúcho deu o troco aos 18, quando o atacante Christian acertou um chute no travessão de Júlio César. Sinal de reação do Grêmio? Não. Foi a única chance de gol que a equipe criou ao longo da fase inicial.

Sob o comando de Felipe, o Flamengo manteve o domínio da partida, a ponto de criar outras duas oportunidades claras de gol: aos 30, o próprio Felipe acertou a trave gremista, e pouco depois, aos 33, foi a vez de o jovem Íbson perder gol feito frente a frente com Tavarelli ¿ concluiu em cima do goleiro.

O empate parcial em 0 a 0 foi injusto para o Flamengo, que mereceu ter ido para o vestiário, no intervalo do clássico, em vantagem no marcador.

A história do segundo tempo foi oposta à do primeiro. O Grêmio acordou no jogo e passou a criar problemas para o Flamengo. Mas foi o time carioca que desperdiçou ótima chance de fazer gol, aos 22, com Jean, após Felipe driblar Tavarelli e deixá-lo com o gol vazio para marcar.

O clube gaúcho reagiu e, aos 26, Cláudio Pit Bull, que entrara no lugar de Marcelinho, acertou chute cruzado e obrigou Júlio César a mostrar serviço. Em seguida (aos 29), foi a vez de Christian jogar fora mais uma oportunidade para o Grêmio: cabeceou de forma errada cara a cara com o goleiro do Flamengo.

A partir daí, a equipe gaúcha aumentou a pressão, fazendo com que o time rubro-negro recuasse em demasia. Como o adversário chegava com extremo perigo, o técnico Abel Braga resolveu reforçar a marcação no meio-campo (colocou Jônatas no lugar de Íbson) para garantir o empate sem gols. Afinal, um pontinho fora de casa vale mais do que três voando. Mesmo no sufoco, o Flamengo conseguiu resistir bravamente, somando seu primeiro ponto na sua caminhada rumo ao título do Brasileiro.

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Nilson Souza
22/04/2004


Sermões e histórias
Ninguém gosta de discursos longos, a não ser Fidel Castro e Hugo Chávez. Tenho um amigo, assíduo freqüentador de missas, que elaborou uma opinião pouco edificante sobre os padres que se excedem na homilia:

- Os primeiros cinco minutos são para Deus. Os cinco minutos seguintes são para o próprio padre. A partir daí é tudo para o diabo.

Dez minutos, eis aí o tempo ideal para a mensagem e para o brilho pessoal. Um bom orador talvez nem precise de tanto tempo para encantar o público, enquanto os menos inspirados são capazes de falar durante 10 horas sem se fazer entender. Alguns políticos, por exemplo, falam, falam e ao final fica apenas o tédio da platéia.

Outro dia um menino norte-americano protagonizou uma versão moderna daquela fábula sobre a nudez do rei. Posicionado na linha de frente da claque num comício do presidente George Bush, o garoto foi flagrado pela televisão, entre um aplauso e outro, ora bocejando escancaradamente, ora olhando impacientemente para o relógio. Mas os oradores chatos jamais se flagram, pois só têm ouvidos para as palmas e para a própria voz.

Há exceções, evidentemente. Alguns tribunos ainda conseguem cativar platéias inteiras durante horas, especialmente aqueles que mesclam um discurso de bom conteúdo com recursos cênicos ou visuais. Difícil mesmo é segurar a atenção das crianças. Culpa da televisão, segundo uma teoria recente. Diz o estudo que as crianças submetidas cada vez mais precocemente à velocidade dos videoclipes já não conseguem se concentrar em nada. O professor fala cinco minutos, e os alunos, inquietos, já ficam procurando um imaginário controle remoto para mudar de canal.

Mas há uma exceção neste mundo de flashes e discursos vazios: o bom contador de histórias. A reconstrução oral de um episódio interessante cativa ouvintes de qualquer idade, especialmente quando o narrador sabe mexer com a imaginação e com as emoções. A história se contrapõe a esta realidade de recortes representada pela televisão e pela Internet. Estimula a criatividade e a comunicação. Desafia a inteligência, faz pensar, provoca sustos e risos, dá sonoridade e encanto à vida.

Meu amigo nem precisou gastar os seus 10 minutos de paciência para me contar o caso do padre que fala demais - razão pela qual ele passou a freqüentar outra igreja.

E rendeu esta história.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
22/04/2004


Ainda a reforma agrária

Recebo do ministro Miguel Rossetto, a respeito da venda de lotes por assentados, tema desta coluna há três dias: "Prezado Paulo Sant'Ana. Mesmo aqui em Brasília, continuo um atento leitor da tua coluna e me coloco à disposição para esclarecer aspectos de que trataste no último dia 19 com o título de 'Reforma agrária frustrada'. De fato, existe a venda de lotes em assentamentos. Trata-se de uma ação ilegal e que estamos combatendo. Os que cometem essa prática são excluídos do cadastro da reforma agrária, impedindo a reincidência. Entretanto, não há nenhum dado seguro sobre o total de lotes comercializados nos assentamentos. O que sabemos é a quantidade de lotes que se encontram vagos ou ocupados irregularmente - cerca de 13% do total. Desses, já recuperamos 5.982 lotes, o equivalente a 257 mil hectares. No RS, são 342 lotes recuperados.

A verdade é que, apesar da carência de políticas estruturantes, a maioria das famílias assentadas permanece na terra e sobrevive em melhores condições do que tinha anteriormente. Isso, apesar do passivo de infra-estrutura e da precariedade de uma série de serviços em áreas como saúde e educação. Das mais de 500 mil famílias assentadas entre 1995 e 2002, 90% não têm abastecimento de água, 80% não possuem energia elétrica e acesso a estradas e 53% não receberam assistência técnica.

Realidade essa que já estamos mudando. O governo do presidente Lula fará, de uma vez por todas, uma reforma agrária capaz de impulsionar um novo padrão de desenvolvimento rural. Este compromisso está expresso no novo Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), pelo qual estamos recuperando os mais de 5 mil assentamentos, vamos assentar 400 mil novas famílias e criar 2 milhões de postos de trabalho.

Além do acesso a terra, o PNRA prevê crédito, assistência técnica, apoio à comercialização, investimentos em infra-estrutura e na preservação ambiental. Rompemos assim com o paradigma de que a reforma agrária se limita à distribuição de terras. É desta forma que estamos transformando os assentamentos em espaços de produção e qualidade de vida, aprofundando a democracia e a justiça social no Brasil. (ass.) Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário".

Lori Sandri, técnico colorado, após a derrota de ontem para o Figueirense: "Não é só mandar bolas altas para a área adversária. O meio-campo tem de jogar, rolar a bola".

Após a vitória colorada no Gre-Nal, esta coluna lamentou que o Grêmio caísse numa esparrela surrada do Inter: jogar bolas altas sobre sua área.

Agora não sou só eu que classifico o expediente como varzeano, o treinador colorado também já não está gostando.

Não é bom que o Cruzeiro já tenha estreado com vitória sobre o Juventude e o São Caetano também houvesse ganho do Vitória.

São Caetano e Cruzeiro são os favoritos. Se eles dispararem, robustecem o perigo latente desta fórmula: o campeonato perde a graça desde o seu início.

Não foi um bom resultado do Grêmio contra o Flamengo, mas também não foi péssimo. Para que exorcizássemos os demônios do rebaixamento era fundamental uma vitória. Claudiomiro foi magistral. Teve uma falha aguda no primeiro tempo, mas depois mostrou 10 atos virtuosos exponenciais. Por cima e por baixo, Claudiomiro constituiu-se numa muralha. Cocito, outro grande destaque. O que consola é que o Flamengo surpreendeu pela aplicação de seus jogadores.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Brasileirão
Equilíbrio no Olímpico



Em um jogo de respeito entre as duas equipes, Grêmio de Christian (C) empatou em 0 a 0 com o Flamengo na estréia do Brasileirão (foto Fernando Gomes/ZH)


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Quarta-feira, Abril 21, 2004




Ranzinzamente correto
Por PAULO REBÊLO

O mundo ficou muito mais chato depois que inventaram o tal do politicamente correto. Que nada mais é do que uma expressão perfeitamente tucanada para os pseudo-moralistas de plantão levarem tudo a sério.

Não se pode mais contar piada de gays, virou preconceito. Brincar com o excesso de emotividade das mulheres agora é machismo. E conversar sobre mulheres boazudas e bundudas é sexismo.

Por mais que os termos "piada" ou "humor" apareçam, o zé mané politicamente correto sempre dá um jeito de ignorá-las e aproveita para exercer toda labuta intelectual que lhe convém. Em geral, funciona para esconder o próprio racismo, machismo, sexismo e outros ismos.

Para as mulheres, parece fácil conviver com toda a febre de gente politicamente correta. Para homem, é muito difícil.

A fórmula é simples. Se você quer medir o grau de amizade entre um homem e outro, calcule em vinte minutos quantas vezes eles vão se chamar de "frango safado", "viadinho", "fresco", "boiola", "queima-rosca" e outros elogios menos polidos. Quanto mais elogios desse calão você ouvir, maior o nível de amizade entre as duas figuras. E menor o grau de frescura desnecessária. E de bichisse.

Entretanto, na rua - e em muitos bares, sobretudo os da moda - a gente não pode mais chamar o amigo de infância de boiola. Não é politicamente correto, pois ali perto pode ter um boiola de verdade - melhor dizendo, uma pessoa de aptidão sexual diferente da sua.

Essa pessoa, cujo caneco não é só output, mas também input, não vai nem se importar com você, porque sabe diferenciar brincadeira de coisa séria. Mas, tenha certeza que do lado sempre tem um politicamente correto que vai fazer cara feia. Então, você vai virar um preconceituoso. Um retrógrado. E o politicamente correto volta para casa feliz da vida, achando que fez um bem para a humanidade.

Com a liberalização dos sexos nos últimos anos, muita gente parece esquecer que o fenômeno caminhou em mão dupla. Ao mesmo tempo em que os homossexuais passaram a ter uma maior segurança em sair do armário, imagina-se que sejam desenrolados o suficiente para diferenciar com naturalidade uma piada de um falso moralista.

Só os politicamente corretos não aprendem. Sempre precisam tucanar tudo. Em linhas gerais, sempre me pergunto se eles não fazem isso como mecanismo de defesa para esconder a própria vontade de sair do armário (homem) ou para reprimir frustrações emotivas (mulher).

Dizem que toda generalização é burra, mas já que "burro" parece não ter sido tucanado ainda, a gente pode continuar generalizando.

Convenhamos: se a gente não pode mais contar piada de negros, gays, mulheres, judeus, padres tarados, loiras burras, cegos, cotós, argentinos e portugueses, então a gente vai contar piada de quê? Não sobra mais nada. Só aquela piada dos dois tomates.

Das duas, uma: ou estamos ficando excessivamente tucano-americanizados ou então precisamos, urgentemente, inventar piadas bem pesadas (e politicamente incorretas) sobre os politicamente corretos de plantão.

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Filhos...

Para quem é pai/mãe e para aqueles que o serão...
Texto de Affonso Romano de Sant'Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.

Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal?

A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos,soltos.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, á estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros.Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas,das notícias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.

Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes". Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade.

E que a conquistem do modo mais completo possível. O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.

Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais depois que somos avós...

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Telerância Zero

Fui na loja comprar veneno de rato.
Tem veneno pra rato?
Tem!, Vai levar? -
Responde o indivíduo.
Não, vou trazer os ratos pra comer aqui!!!

Fui no banco pra trocar um cheque...
O caixa pergunta.
Vai levar em dinheiro???
E a resposta...
Não!!!!! Me dá em clips e borrachinha!!!

Casal abraçadinho, entrando no barzinho romântico.
A pergunta: Mesa para dois?
Não, mesa para quatro, duas são prá colocar os pés.

Cena: o sujeito apanhando o talão de cheques e uma caneta.
A pergunta: Vai pagar com cheque?
Não, vou fazer um poema nesta folhinha.

Sujeito no elevador de um prédio, no momento em que pára no
subsolo-garagem.
A pergunta: Sobe?
Não, esse elevador anda de lado.

Você fumando um cigarro.
A pergunta: Ora, ora! Mas você fuma?
Não eu gosto de bronzear os pulmões também.

Sujeito voltando do píer com um balde cheio de peixes.
A pergunta: Você pescou todos?
Não, estes são peixes suicidas e se atiraram no meu balde.

A cena: Homem com vara de pesca na mão, linha na água, sentado em um píer.
A pergunta: Aqui dá peixe?
Não, dá tatu, quati, camundongo, ......, Peixe costuma dar lá no mato...

Edifício pegando fogo, funcionários saindo correndo pela saída de
emergência.
A pergunta: É incêndio?
Não, é uma pegadinha do Malandro!!!!!!

Cena: Sujeito no caixa do cinema.
A pergunta: Quer uma entrada?
Não, é que eu vi essa fila imensa e queria saber onde ia chegar.

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A m o v o c ê s

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BOM MESMO É MORAR EM BRASÍLIA


Até Cebolinha e Mônica se apaixonaram pelo que viram. A convite do Correio, o pai dos dois personagens, Mauricio de Sousa, visitou Brasília e, encantado com a cidade, desenhou a capa do jornal de hoje.

A homenagem aos 44 anos da capital não pára por aí: Mauricio fez outro desenho, para o caderno 4+4, que mostra seus personagens passeando pela Esplanada. E, se quem vem de fora gosta do que vê, quem está aqui não quer sair.

Uma pesquisa da EM Data sobre qualidade de vida revela que 88% dos brasilienses têm orgulho de viver no Distrito Federal. Um caderno especial de 28 páginas conta a história das pessoas que amam esse lugar. Como a de Altino Brant, que aos sete anos entrevistou Oscar Niemeyer e até hoje lembra com gosto a infância vivida na 105 sul.

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Feliz aniversário, Brasília!
Zuleika de Souza


Neste 21 de abril de 2004, dia em que a capital do país comemora 44 anos, a equipe do CorreioWeb preparou um site especialmente para você. Nele, além de matérias sobre a Brasília atual, você também vai reviver momentos históricos - da construção à inauguração - por meio de reportagens publicadas na primeira edição do Correio Braziliense, que circulou no mesmo dia do nascimento da cidade. Com apoio do Centro de Documentação, nossa equipe selecionou e digitalizou 20 reportagens de 21 e 22 de abril de 1960.

A evolução da histórica também pode ser acompanhada pelas capas do Correio Braziliense. Todas as 44 edições do aniversário da cidade estão disponibilizadas na seção Brasília e o Correio De 1960 até hoje. Algumas delas, de tão antigas, trazem a cor amarelada em suas bordas, o que confere ainda mais charme ao material.

Histórias de personalidades como Hipólito José da Costa, Juscelino Kubitscheck, Israel Pinheiro, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Assis Chateaubriand, João Calmon, Edílson Cid Varela, Ari Cunha e muitos outros também são contadas pelas reportagens digitalizadas.

E o site não pára por aí. Galeria de fotos, vídeos, papéis de parede. Tudo isso para você, internauta, que não podia ficar de fora das comemorações. Por isso, abrimos os espaços Gosto de Brasília porque.... e Assim vejo Brasília. Através deles, você poderá enviar frases e fotos. Na semana que vem, as 44 melhores vão ganhar 44 pacotes discados de acesso à Internet, por quatro meses. Portanto, participe!

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De olho no futuro

Flamengo estréia no Brasileiro, contra o Grêmio, no Olímpico, tentando deixar no passado a conquista do título estadual
Marcelo Fefer

Os sorrisos ainda estão estampados nos rostos dos jogadores do Flamengo pela conquista do título estadual e pelo quinto triunfo consecutivo em decisões contra o arqui-rival Vasco. Mas comemoração é algo que já é passado para o Rubro-Negro, pois hoje o time estréia no Campeonato Brasileiro e com um compromisso complicado: a partir de 21h40, enfrenta o Grêmio, que costuma dificultar a vida do clube da Gávea, no Estádio Olímpico, em Porto Alegre (Rede Globo transmite).

Neste momento é difícil esquecer o Estadual. Tem 48 horas que ganhamos o título. O desempenho não vai ser o ideal. Passei a semana passada toda cobrando os jogadores, pedindo responsabilidade, e depois da final fui beber com eles, para festejar. É óbvio que não vai ser a mesma coisa. Mas aqui prima o profissionalismo e espero que o time jogue bem no Sul. O campo é ótimo, a temperatura mais agradável do que no Rio, mas o ideal seria ter ao menos uma semana entre o Estadual e o Brasileiro, disse ontem o técnico Abel Braga, que usará o mistério como arma no Brasileiro.

O treinador não quis confirmar qual será o time titular contra o Grêmio, alegando ter lido que Adílson Batista, técnico gremista, só iria definir se sua equipe jogaria com dois ou três zagueiros após saber qual seria a escalação do Flamengo.

O Brasileiro é o campeonato mais difícil do mundo. Onde tantos times têm chance de ser campeão? Por isso, não podemos dar armas ao inimigo. Quando saí daqui, segunda-feira à noite, fui para casa e fiquei lendo as notícias do Grêmio nos jornais gaúchos, pela Internet. Imprimi tudo o que o Adílson disse. Será que ele não fez o mesmo? Por isso, no Brasileiro, dificilmente darei o time que vou escalar. Eu já sei quem vai a campo. Mas só em Porto Alegre o Adílson vai saber se joga Da Silva, Diogo ou Rafael Gaúcho, afirmou Abel.

Mas pelo tom usado pelo treinador, ficou a impressão que ele optará pelo retorno de Da Silva no lugar de Róbson e que a hipótese de atuar com três atacantes (Felipe, Jean e mais um), que Abel levantou na segunda-feira, foi apenas uma tentativa de atrapalhar o planejamento do técnico do Grêmio.

No treino de ontem, Athirson machucou o pé direito e terá de adiar sua reestréia. Já o ex-júnior Nélio se reapresentou e fará parte do elenco no Brasileiro.

Zico parabeniza o elenco e provoca vascaínos

Zico, o ídolo maior do Flamengo, enviou mensagem do Japão ao diretor técnico Júnior, seu antigo companheiro, parabenizando pela conquista do Estadual e alfinetando sutilmente os rivais. Veja o texto: Léo, parabéns pela grande conquista. Leve meu abraço a todos que participaram dessa caminhada. Com os pés no chão e muita competência, vocês conseguiram chegar lá. A estrada é longa e que vocês consigam seguir adiante com esse belo trabalho. Coma uma bela bacalhoada, regada a um bom vinho verde, em meu nome. Saudações rubro-negras, Zico.

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Cultura tecnológica dá show

Badalado evento nacional de música, Abril Pro Rock contou pela primeira vez com debates sobre o arquivo MP3
Alessandra Carneiro e Mylène Neno


O público jovem, maioria no Abril Pro Rock, também foi o alvo dos organizadores do I Salão de Tecnologia: Mídia Digital, realizado paralelamente ao evento nesse fim de semana

Tecnologia e cultura marcaram a última edição do Abril Pro Rock, ocorrida no último fim de semana, em Recife (PE). Em meio a shows e encontros musicais dos mais variados estilos, o público pôde acompanhar o I Salão de Tecnologia: Mídia Digital, fruto de uma parceria entre a Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco, o Sebrae-PE e o Porto Digital. No Abril Pro Rock, levamos informações ao público jovem que já está familiarizado com produtos da união cultura-tecnologia, como jogos eletrônicos e arquivos MP3, explica o secretário de Ciência e Tecnologia de Pernambuco, Cláudio Marinho.

Apostando na aproximação gradual e contínua entre os setores cultural e tecnológico, o Salão de Tecnologia contou com a presença de empresas que atuam em diversas áreas da mídia digital, desde jogos eletrônicos, com a Jynx Playware (http://www.jynx.com.br), a selos e sites de música, como a Candeeiro Records (http://www.candeeiro.com.br) e o SaciDisc (http://www.sacidisc.com).

Em busca da interação com os jovens, a Jynx, por exemplo, desenvolveu um joguinho especialmente para a ocasião, atraindo a atenção do público, entre um show e outro.

Outra empresa que se destacou no evento foi a Saci Disc, que demonstrou os protótipos do seu software de MP3 e dos chamados Saci discs espécie de pacote com arquivos MP3, conteúdo interativo audiovisual e ferramentas para registro e participação na comunidade. Hoje em dia o principal problema com música na Web é como ganhar dinheiro com isso?. Procuramos com o Saci Disc oferecer uma ligação mais direta entre artista e consumidor. Isso gera um preço menor para o consumidor de música e um lucro maior para o artista, explica Saulo Dourado, sócio-fundador da Saci Disc.

E a empresa já conta com oito pacotes prontinhos para a comercialização, que deve acontecer em maio, com preços entre R$ 5 e R$ 8 (conjunto de cinco e dez faixas).

Segundo Dourado, a pirataria de rua estagnou-se, ao contrário da gravação de CDs em ambientes domésticos, que está crescendo consideravelmente, tornando-se cada vez mais comum entre familiares e amigos. Não é que vamos resolver o problema da pirataria, mas no momento em que oferecermos um pacote mais transparente, dando as ferramentas legais, acredito que esse público vai migrar para cá, considera.

E coloca mais lenha na fogueira: é bom ressaltar que artista não ganha dinheiro com CD, e sim, com os shows. Quem vai se dar melhor com o nosso projeto, com certeza, é o artista.


Antes e depois dos shows, dava para conferir as novidades digitais

Já Marinho revela que o evento paralelo ao Abril Pro Rock foi só o começo de uma grande dobradinha música-tecnologia.O primeiro passo foi colocar público, artistas e gravadoras em contato no Abril Pro Rock. No segundo semestre, vamos colocar essa turma para discutir quais serão os caminhos das mídias digitais. E no ano que vem queremos mobilizar as comunidades internacionais e trazê-las para a discussão aqui no Brasil, conclui.

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Martha Medeiros
21/04/2004


Reflexões

Em função da calamitosa situação em que se encontra o Rio, o assunto drogas voltou com força, estão todos tentando encontrar soluções para minimizar o problema. Digo minimizar porque, eliminá-lo, não há como. É ingenuidade acreditar numa sociedade sem drogas. Em todos os países do mundo o uso de entorpecentes faz parte do cotidiano, incluindo aí cigarro, álcool e anfetaminas. Pra resolver isso, o mundo teria que ser inventado de novo, e ainda assim o ser humano tentaria, de vez em quando, escapar da consciência plena. Poucos conseguem se manter lúcidos sem recorrer a uma muleta.

É um assunto delicado e só tenho a contribuir com minhas dúvidas. Quando ouço dizer que o ideal seria que ninguém mais usasse droga, acho o raciocínio lógico, perfeito, porém utópico. Como se todos consumissem por diversão e pudessem parar num estalar de dedos. Para se ter uma idéia, em Zurique, na Suíça, estão tentando implantar um projeto de distribuição gratuita de cocaína, sob supervisão médica, para pessoas integradas à sociedade que não conseguem abandonar o vício. Esta opção pelo fornecimento e vigilância não é para terminar com o problema, e sim para manter sobre ele algum controle.

Já a revista Veja desta semana condena a diferenciação entre usuário e traficante perante a lei. A reportagem dá a entender que o usuário também deveria ser incriminado. Não sei até onde isso inibiria o consumo. Acabaríamos colocando na cadeia estudantes e desatentos em geral, como Marcello Antony, que sabidamente não representam um perigo para a sociedade. E, mais uma vez, como ficaria quem depende emocionalmente da droga? Já não é condenação suficiente?

Por tudo isso, ando, pela primeira vez (atenção, não é apologia), aberta à discussão sobre legalização, mesmo consciente do quão radical é esta medida. Seria uma tentativa desesperada de reduzir nossos índices de violência. As pessoas teriam acesso à droga como têm à cerveja e ao cigarro: em locais credenciados, obedecendo às regras de comercialização e consumo.

Seria preciso proibir a venda para menores, não permitir propaganda, reprimir quem dirige ou trabalha sob efeito da droga, enfim, tentar direcionar o consumo para um uso moderado e responsável. Exatamente o que a gente tenta fazer em relação ao álcool, e consegue apenas parcialmente. Mas vitórias parciais são melhores do que derrotas completas, que é pra onde o Brasil está caminhando.

A saída talvez seja parar de sonhar com uma sociedade perfeita e tratar de conquistar uma sociedade sem idealismos e sem tabus. A legalização assusta, mas deve entrar na pauta dos debates - debater não é decidir, é apenas debater. Controlar as fronteiras de um país deste tamanho e com este histórico de corrupção é impossível. Talvez só nos reste experimentar a tolerância. E, com mais investimento em educação, em cultura e em planejamento familiar, quem sabe consigamos, um dia, ser levemente parecidos com a Suíça, onde esses problemas também existem e são sérios, mas bandido não dá ordens.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
21/04/2004


Onde é que fica a Rua Karl Iwers?
Vamos supor que agora eu dissesse o seguinte:

- Karl Iwers.

O que você acharia disso? Você daria risada, se eu dissesse Karl Iwers?

Evidente que não. Você não é nenhum abobado de rir só porque alguém disse Karl Iwers. O problema é que esses dias eu procurava por uma rua chamada justamente Karl Iwers. Estava dentro de um táxi, o papelzinho com o endereço na mão, rodando pelas imediações da Rua Karl Iwers, mas sem ter certeza da localização exata da Rua Karl Iwers. Decidi perguntar. Havia um grupo de moradores na calçada, em frente a uma casa de madeira. Uns dois homens adultos, outras duas mulheres também adultas, três ou quatro jovens, algumas crianças saltitando em volta. Pedi para o motorista encostar no meio-fio. Abri a janela. Dei boa noite. Perguntei:

- Por favor, vocês sabem onde fica a Rua Karl Iwers?

Todo mundo começou a rir. Os homens, as mulheres, os jovens, as crianças. Certo, não chegavam a ser gargalhadas; eram risos, tão-somente. Em alguns casos, meros sorrisos. Mas sério ninguém estava. Fiquei olhando para eles. O que é que tinha de tão engraçado eu perguntar onde ficava a Rua Karl Iwers? Eles continuavam rindo. De mim. Só podia ser de mim. Me senti um pouco humilhado. Parecia que eles comentavam entre si: olha só esse cara perguntando onde é que fica a Rua Karl Iwers. Eu ali, incomodado, esperando a resposta. Devia ir embora com o rabo entre as pernas? Lembrei do Pequeno Príncipe, que jamais admite uma pergunta sem resposta. Resolvi insistir. Repeti:

- E aí, alguém sabe afinal onde fica a Rua Karl Iwers?

Riram ainda mais. Sacudiam as cabeças como se não acreditassem que alguém podia perguntar onde ficava a Rua Karl Iwers.

- Não - respondeu, enfim, um dos homens. - Ninguém aqui sabe onde fica a Rua Karl Iwers.

O outro homem virou-se para ele e observou:

- Rua Karl Iwers!

E riram e riram.

Suspirei. Mandei o motorista seguir em frente e me levar para longe daqueles engraçadinhos. Logo adiante havia um casal. Paramos. Coloquei a cabeça para fora da janela:

- Com licença. Vocês sabem onde fica a Rua Karl Iwers?

E eles começaram a rir! Se bem que desta vez tive mais sorte. Com um sorriso sardônico lhe dançando no rosto, o rapaz informou onde ficava a Rua Karl Iwers - ali pertinho. Agradeci. Quando o carro arrancou, ainda o ouvi falando para a moça:

- Rua Karl Iwers...

Como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Por que ele ria? Por quê??? Basta um sorriso fora de lugar para irritar alguém até a raiz das amígdalas. Vi isso na decisão entre Flamengo e Vasco. Os jogadores do Flamengo não batiam nos do Vasco, não os xingavam. Apenas riam. E o time do Vasco enlouqueceu de fúria. Aquelas risadas, em vez de serem alegres, eram medonhamente, exasperadoras. Quatro vascaínos foram expulsos.

É essa súcia de cariocas debochados que o inexperiente time do Grêmio vai enfrentar hoje à noite. Um perigo. Já estou vendo os sorrisos arrevesados nos cantos da grande área. Só um riso, quem diria, o símbolo da alegria, da amizade, da camaradagem, só um riso, e é tão perigoso.

Eu mesmo cheguei à Rua Karl Iwers me sentindo uma besta. Paguei a corrida. Desembarquei. Ainda não havia fechado a porta, e ouvi o motorista balbuciar, balançando a cabeça, a ironia pendurada na comissura dos lábios:

- Rua Karl Iwers...

E engatou a primeira, me deixando a sapatear de raiva na calçada da Rua Karl Iwers.

Como as bielas batem
Lamento, taxistas: decidi guiar. Entrei na auto-escola e tudo. Sabe lá o que são seis aulas teóricas de quatro horas cada? Jogo duro. Mas estou lá, me esfalfando, aprendendo. Agora já sei o que fazer caso uma pessoa coloque o braço pra fora do carro e venha uma carreta na contramão e arranque o braço desta pessoa pela raiz e ela fique urrando de dor e sofrendo convulsões, o sangue se esvaindo em catadupas, essas coisas. Sei também algo acerca de injeções eletrônicas, carburadores, velas e bobinas. E, sobretudo, sei sobre infrações graves e gravíssimas, bem como a importância do espelhinho retrovisor. Agora, claro, não há como saber tudo. Ontem mesmo, meu colega Carlos confidenciou, algo desanimado:

- A embreagem pra mim é um mistério.

O que me levou a pensar nela, a embreagem. Realmente, há algo de dissimulado na embreagem. Porque o acelerador e o freio são francos e cristalinos. O acelerador acelera, o freio freia. Mas a embreagem... A embreagem é um mecanismo complexo, pleno de negaças. Não basta pressioná-la para que funcione. Sua utilização demanda do movimento coordenado de pé esquerdo, pé direito, mão esquerda, mão direita. O Carlos está certo: a embreagem é praticamente uma esfinge.

Por isso, de certa forma, entendo a pressa do Cleiton Xavier ao comprar uma carteira fria. Ele queria passar reto por essas questões mais profundas, como o exame de legislação e o uso adequado do pisca-alerta. Entendo-o, sim. Mas creio que não há como eximi-lo da responsabilidade pelo que fez ou da obrigação de, ele também, enfrentar os trâmites que eu e meu colega Carlos estamos enfrentando. Umas aulinhas serão boas para o Cleiton. Talvez ele acabe compreendendo até a embreagem, essa desconhecida.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
21/04/2004


Gasolina a preço sensato

Foi com júbilo que a população de Porto Alegre deparou ontem e anteontem com o preço de R$ 1,99 pela gasolina comum estampado nos postos da Capital.

Havia uma sensação geral ontem de que é possível haver na cidade uma certa harmonia entre postos de gasolina e consumidores. Os primeiros cobrando um preço justo pelo seu produto, os segundos sem o sentimento de que estão sendo explorados.

Esses R$ 1,99 que os postos cobravam ontem em Porto Alegre, se não me engano, são inéditos. Pelo menos de um largo tempo até hoje.

É um preço que numa coluna que escrevi aqui, logo após o tarifaço de R$ 2,17, se ajustava ao bom senso.

O que é preciso agora é que seja mantido, que nunca mais se chegue àqueles R$ 2,17 que arrancaram protestos de todos.

Quando dos R$ 2,17 famosos do início de abril, o que causou revolta foi menos o preço oferecido do que a impossibilidade de se abastecer por preço menor na cidade, o que configurava uma exigência coletiva dos postos para que todos os consumidores pagassem por preço elevado.

Se uns postos cobrassem R$ 2,17, outros R$ 1,99, tudo bem, o consumidor iria abastecer onde quisesse, teria a opção do preço menor.

Mas todos a R$ 2,17 soou como um abuso, ou seja, a combinação a um preço que era exorbitante.

Vamos torcer para que volte a imperar nessa relação comercial de nossa cidade a sensatez desses preços.

Moradores de Santa Maria estão reclamando do preço salgado da gasolina comum: em média R$ 2,22.

Enquanto em Cruz Alta a gasolina está por R$ 1,75. Isso chega a ser inacreditável.

E como é que se explica que a gasolina custe R$ 2,19 em Uruguaiana, a mais de 600 quilômetros da refinaria, enquanto em Bento Gonçalves atinja o preço de R$ 2,25?

O que não tinha explicação era que o preço da gasolina em Porto Alegre fosse cobrado em R$ 2,17, enquanto em Canoas descia a gasolina comum a R$ 1,94.

Chegou-se ao extremo de consumidores de Porto Alegre irem abastecer em Canoas, pois mesmo o que se gastava no percurso de ida e volta ainda compensava.

Não tinha explicação. Agora, com a gasolina sendo cobrada em média a R$ 2 em Porto Alegre, conforme levantamento publicado ontem em Zero Hora, não existe mais a vantagem dos motoristas da Capital ao abastecer em Canoas.

Canoas resistiu galhardamente no preço lá embaixo, o que influiu também para que os preços de Porto Alegre baixassem.

Se permanecerem nesse patamar os preços da gasolina em Porto Alegre, a população irá encarar os seus fornecedores com uma simpatia que tinha sido interrompida.

O ideal é que a relação entre quem vende e quem compra seja de cordialidade, nunca de confronto.

Aleluia, R$ 1,99!
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Miss Brasil
Desfile de beleza nas ruas da Capital



A gaúcha Fabiane Niclotti, Miss Brasil 2004, fez ontem de manhã o tradicional passeio em carro de bombeiros (foto Arivaldo Chaves/ZH)


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Terça-feira, Abril 20, 2004




S A U D A D E

Saudade é reviver cada momento,
sentir as mesmas emoções
sem cogitar que tudo se passou há tanto tempo.

Saudade é acordar de manhã
e ter para o ente amado, o primeiro pensamento
e os demais, que vão invadindo a mente
pelo resto do dia.

Saudade é envidar todos os esforços para esquecer
sem contudo perder a mania
de retomar os restos tangíveis que permaneceram,
com os olhos marejados
e descobrir que estes "restos tangíveis" estão vivos
e são ainda o nosso maior e melhor legado.

Saudade é ter a impressão de que nada aconteceu
que ele não partiu, não traiu ou morreu
e que, a qualquer momento,
não importa se aqui ou além
se nesta ou em outra vida,

Retomaremos o trajeto interrompido
pelo revés inesperado
e estaremos de novo
caminhando
lado a lado !


Fátima Irene Pinto

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Affonso Romano de Sant`anna

Big Brother: a síndrome

Big Brother Brasil não é apenas um programa, é uma síndrome. E síndrome, segundo o Houaiss, é um conjunto de sinais e sintomas observáveis em vários processos patológicos diferentes e sem causa específica. Essa definição remete para a idéia de doença. Mas a gente pode alargar o sentido e dizer que aquele programa revela uma série de conteúdos ideológicos de nossa cultura. É um programa sintomático e que merece análises (ou diagnósticos).

Os que inventaram sua fórmula estão ricos. Tiveram a genialidade de captar os sinais e propiciar a encenação de alguns dos sintomas de nossas sociedades. Li que existe um programa desses até no Oriente Médio. Dizem que lá o show foi interrompido, porque um dos candidatos pediu logo em casamento uma das participantes, o que não era permitido. Em cada país, portanto, tal apresentação tem regras próprias e adapta-se aos costumes locais e, como síndrome, revela aspectos latentes da ideologia da comunidade.

Por isto imagino que nas universidades estejam fazendo teses comparando os programas de vários países ou estudando cada um isoladamente. Se os mestrandos ou doutorandos, nos departamentos de sociologia, antropologia e psicologia não atentaram para isto, estão perdendo uma oportunidade rara de contribuir para se entender essa coisa estranha e perversa chamada pós-modernidade.

Claro que tem intelectual que diz que não vê televisão. Pois deveria. A tevê é onde se encena hoje mais obviamente o inconsciente coletivo. Obras artísticas, como Édipo de Sófocles ou Hamlet de Shakespeare, dramatizam a intemporal perplexidade humana, mas os programas de tevê reprocessam a cultura. Como um liquidificador reelaboram tudo, ou melhor, a telinha devolve ao público o espelho em que ele quer se ver. É o teatro da contemporaneidade. Em tempos de interatividade, quando o contato entre o emissor e o receptor se dá em tempo real, as estações de televisão medem, segundo a segundo, seu ibope.

Elas vivem de audiência, vivem de anúncios. Portanto, dirigem seu espelho para o público, que por sua vez ali se espelha, resultando daí um ilusório e concreto jogo de imagens, onde não se sabe mais quem é o sujeito, quem é o objeto, quem reflete e quem é refletido. Acabam, o emissor e o receptor por se constituírem em um conjunto sintomático de algumas constantes (outros diriam, doenças) de nosso tempo.

Não preciso demorar sobre o traço mais evidente da sociedade do espetáculo e da cultura da pós-modernidade que é a superposição entre o público e o privado. O Big Brother baseia-se nisto: nossa cultura voyeurista rejubila-se de devassar a intimidade alheia. Criou-se o teatro da falsa intimidade e até da falsa nudez. Transforma as pessoas em coisa, os sujeitos em objetos. E numa sociedade onde todos são objetos e ninguém é sujeito há uma cumplicidade na alienação progressiva e no consumo desvairado.

Mais que isto, porém, uma síndrome a que estou tentando me referir desde o princípio é esta: o programa revela que os mais preparados, os que têm mais atributos físicos, intelectuais e sociais, são sempre derrotados pelos menos preparados. Como explicar esse paradoxo, se o programa parece ser uma disputa, onde todos entram em igualdade de condições, e onde seria de se esperar que os mais alfabetizados, os que têm mais qualificações profissionais e os mais sedutores levassem vantagem?

Analisem os quatro programas anteriores e vejam se não é verdade, que os menos qualificados intelectual e socialmente derrotaram os demais concorrentes. Neste último, formaram se até dois grupos social e intelectualmente opostos. E assistiu-se ao espetáculo dos mais fracos irem comendo pelas beiradas os mais fortes.

Como isto é possível?

Como os mais fortes, mais preparados, mais sedutores não conseguiram reagir? Será que estavam arrogantemente tão senhores de si, que achavam que os piores por serem mais medíocres não teriam qualquer chance?

E daí pode-se ampliar essa pergunta: Não estaríamos vivendo socialmente, aqui no Brasil, um período em que os melhores e mais competentes estão soçobrando e sendo engolidos pelos seus contrários?

Claro que é possível entender que o público foi escolhendo os menos favorecidos, vendo-se neles, porque são o próprio espelho em que se miram. Mas isto contraria outras práticas da própria tevê. Há estudos feitos para que, nas novelas, os pobres sejam sempre apresentados um ponto acima do que são, sempre vivendo melhores do que vivem, porque de acordo com pesquisas o público tende a se identificar com algo que está acima dele. Se assim é, por que no Big Brother Brasil este princípio não vigora e os menos preparados levam a melhor?

Poder-se-ia, ainda, argumentar que o povo exerce nessas escolhas algo assistencialista, realiza uma justiça social momentânea pensando: vamos eleger o mais pobre e o menos escolarizado porque, coitadinho, ele merece. É uma visão piedosa, que tem lá o seu significado, até mesmo para entender a pieguice ou o assistencialismo ideológico. Nisto o nosso Big Brother contrasta com programas de outros países, como, nos Estados Unidos, onde o milionário Donald Trump apresenta um show de grande sucesso no qual em cada rodada ele demite uma pessoa. Dentro da violência e do sadismo da sociedade norte-americana, dentro da cultura do mais forte, as pessoas ficam ali no vídeo para gozarem ao ver quem vai ser fulminado quando o milionário disser para seu empregado fired ! (rua!).

O que estou dizendo não tem nada de elitista, não tem nada de preconceituoso. É a simbologia do que está sendo encenado. E se a gente analisar isto poderá entender melhor o país de hoje, essa cultura de massa, a sociedade do espetáculo que transforma todos em objetos, essa confusão entre centro e periferia, essa superposição entre marginalidade e poder e, enfim, a cultura pós-moderna que questionou coisas que têm que ser questionadas, mas que não soube colocar nada em seu lugar, a não ser dizer ah! a vida é assim mesmo, deixa prá lá.

Deste modo comportam-se como quem está a bordo do Titanic. E diante do iceberg que se aproxima, ao invés de alertarem o capitão do navio para desviar a rota, apenas trocam de lugar no convés e aguardam o naufrágio.

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Arnaldo Jabor

O crime no Rio vive do nariz dos otários

Não adianta mais dizer que horror!. Enquanto procurarmos uma solução para o crime no Rio, não haverá solução. Não haverá solução enquanto não entendermos que somos parte do problema nós, a polícia, a burocracia, a lei, as Forças Armadas, governos central e estadual. Solução é um conceito antigo e obsessivo; só um processo amplo, multidisciplinar, um processo lento, caro, difícil poderá ir melhorando a coisa toda.

São 650 favelas, com mais de 30 mil armas pesadas (calcula-se), aumentando o número cada dia, chegando de barco pela Baía, de aviãozinho, de caminhão. Algum sucesso, algum avanço, só virá se desistirmos de defender a normalidade de nosso sistema, pois não há mais normalidade alguma; precisamos é de uma urgente autocrítica de nossa ineficiência. Já escrevi várias vezes sobre isso e aqui repito frases de outros artigos. Nada avançou nos últimos anos.

A nossa secular irresponsabilidade está em questão. Nós é que temos de nos reformar, subverter nossas cabeças, nossas polícias, nossos poderes. A defesa pública está engarrafada numa rede de burocracia corrupta, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência leve e imaginosa dos bandidos.

Nós ainda falamos dos criminosos como se fossem desviantes de nossa moral, como gente que se perdeu da virtude e caiu no pecado, no mundo do mal. Não se trata mais de crime contra a virtude. O que surgiu foi uma nova sociedade periférica, feita de fome e funk, de rancor e desejo de consumo. E são estranhas anomalias do desenvolvimento torto. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, como um monstro Alien que se esconde nas brechas da cidade. Não há mais a idéia de proletários ou de infelizes ou de explorados. Estamos perplexos com o mistério da miséria. Não basta denunciarmos contradições e injustiças. Estamos diante de uma espécie de Pós-Miséria. Isso.

A pós-miséria está gerando uma nova cultura, se é que esta palavra se aplica à vida esmagada tentando existir. Hoje não adianta mais o papo de luta de classes, de conscientização, cidadania. Os miseráveis se conscientizaram sozinhos, em outra direção. E quem disse que eles ainda querem que nós os salvemos? Parte da miséria está armada. Eles ainda têm muito a tirar de nosso mundo: granas, assaltos, vinganças. Mas, mesmo assim, continuamos sonhando com um mundinho limpo, com uma utopia de Ipanema. Dançou, gente boa.

A verdade é que o Brasil sempre teve a cultura do desrespeito à lei. Nossa sociedade foi montada na transgressão à ordem, no horror à coisa pública, aos direitos da maioria; somos uma sociedade de contraventores, de sonegadores, de pequenos psicopatas light , uma sociedade de malandros cariocas. Agora é tarde. Isso que está acontecendo é a realidade previsível, não é uma anomalia.

A verdade é que a única coisa que aumentou a renda dos morros foi a cocaína. Como disse o policial Hélio Luz, com desalento: O pó é uma companhia multinacional que diminui o desemprego dos miseráveis... Fazer o quê? Ganhar 200 reais para ser limpador de privada de branco? Ora... Os criminosos cariocas têm a mesma vantagem dos terroristas não têm rosto e ninguém sabe de onde vêm. Eles são microempresas privadas, filiais da grande multinacional do pó. Nós somos o Estado incapaz. Eles agilizam métodos de gestão. Eles são rápidos e criativos. Nós somos lentos e burocráticos.

Eles lutam em terreno próprio. Nós, em terra estranha. Eles não temem a morte. Nós morremos de medo. Eles estão no ataque. Nós, na defesa. Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós. Nós os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaços. A droga e as armas vêm de fora. Eles são globais. Nós somos regionais.

A luta contra o trafico, é obvio, começa lá longe, nas fronteiras. Por lá entram as armas e o pó. Não adianta subir e descer de morros. Temos de fechar fronteiras. Mas não temos nem guarda-costeira.

A luta contra o crime não é mais uma luta policial; não é mais a Lei contra o Pecado. Não. O crime cresceu tanto que se tornou um problema de estado-maior. Sim. Trata-se de uma luta política e, mais que isso, uma luta policial-militar. Acho que tem de haver, sim, uma séria articulação das Forças Armadas com as polícias. Tem de haver generais estudando estratégias e logísticas de cercos e ataques. Meses de estudo, planos secretos, dinheiro, muito dinheiro, e milhares de homens com armas modernas. E tudo isso coordenado com campanhas de esclarecimento e de proteção às comunidades que eles protegem. Ahh... alguns vão gritar o Exército não foi treinado para isso! Pois, que seja treinado. Trata-se de uma guerra. Ou não? Não combateram a guerrilha urbana, com implacável ferocidade e competência?

Aposto que outros dirão: O Exército não é para crimes comuns; é para guerras maiores... Para quê? A invasão da Argentina? Não podemos enfrentar o crime do século XXI com uma polícia do seculo XIX.

No fundo, muitos não admitem a ação das Forças Armadas, porque desejam ocultar a derrota de um sistema legal e policial. A guerra é reconhecimento do fracasso da política. Pois que seja. Nosso fracasso tem de ser assumido.

Crime hediondo é que o combate ao crime e a miséria não seja uma prioridade nacional, crime é que não haja alocação de bilhões de reais para se fazer uma guerra política e social, e não meras operações policiais inócuas. A tragédia das periferias brasileiras me lembra um terremoto ignorado, para o qual ninguém enviou patrulhas de salvamento. Já houve um terremoto e todos nós tentamos esquecê-lo, subindo grades em nossas casas, com os socialites cheirando o pó malhado de otários, perpetuando esta miséria.

O crime começa e acaba no nariz das classes dominantes.

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Quanto vale o show?

A big sister Juliana provoca leilão entre revistas que querem exibir suas formas generosas
Zean Bravo

Juliana acredita muito em seu potencial pós-Big Brother. Ao contrário da maioria das ex-participantes do reality show, que tiraram a roupa em revistas masculinas antes de caírem no esquecimento, a brasiliense de 23 anos quer mais que 15 minutos de fama. Não vou aproveitar tudo rápido. Isso é só o começo, avisa. Disputada pela Playboy e Sexy para ser a estrela da capa de uma ou de outra em junho, Juliana ainda não chegou a um acordo sobre o cachê. Não fico à vontade de fazer, isso é tabu para mim. Para uma exposição dessa valer à pena, o acordo financeiro tem que encher os olhos, confessa.

Mesmo sem bater o martelo e tirar toda a roupa, Juliana enche os olhos da marmanjada. Ela está no ar desde domingo no site Paparazzo, vestindo quase nada, em fotos num clima de cabaré. A moça também surgirá sensual na capa da Vip de maio ela foi clicada no Hotel Glória. Ficou bem ploc, define Ju, para logo explicar: É estilo puxado para o rosa, mas bem colorido.

Os homens perguntam quando vou sair na revista e matar a curiosidade deles, Juliana, sobre o interesse do público em suas fotos nua

À vontade dentro de minúsculos biquínis durante o confinamento do BBB, Juliana jura estranhar tamanho interesse por sua nudez. Não tinha a menor noção de que isso aconteceria, nem vejo todo esse sex appeal em mim. Mas os homens na rua perguntam quando vou sair na revista e matar a curiosidade deles. Morro de vergonha.

Envergonhada e desejada. É a garota do momento. Está acontecendo um leilão, conta o diretor de redação da Sexy, Edson Aran, que cogita Marcela que declinou o primeiro convite ou Solange como suas segundas opções. Juliana é nossa prioridade. Estamos disputando com a concorrente. A Playboy garante estar no páreo. Temos muito interesse nela, mas ainda estamos negociando, diz o representante da revista no Rio, Jackson Bezerra. Sei que uma tem mais prestígio, mas temos que chegar a uma quantia legal, completa a ex-BBB.

Quando deixei o BBB saiu que eu queria posar nua. Seria uma coisa muito oferecida, Solange, negando ter dito que queria fotografar sem roupa

Juliana diz que não entrou no BBB para virar a pelada da vez e, sim, deslanchar uma carreira de atriz. Fiz curso em Brasília, propaga. Ela jura que os 500 mil reais de prêmio eram apenas uma conseqüência e que viu no programa passaporte para iniciar na ribalta. Não entrei pelo dinheiro. Tenho meu carro e minha mãe comprou o apartamente onde moro no Rio, diz ela, que não teme o rótulo de eterna ex-BBB. Agora é comigo, avisa. Isso mesmo, Juliana, mostra pra eles.

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Cosméticos tipo exportação

Empresas brasileiras que participaram da feira Cosmoprof, na Itália, já aumentaram suas vendas externas em 80%
Silvana Caminiti

As empresas brasileiras foram destaque na Cosmoprof maior feira de cosméticos do mundo, realizada na cidade italiana de Bolonha, no início do mês. Comprovando que a indústria nacional está apta a concorrer em qualquer tipo de mercado, as empresas brasileiras entre elas a Embelezze e a Aroma do Campo, ambas com sede em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense conseguiram atrair a atenção de novos clientes e boas expectativas de negócios.

Essa foi a quarta vez que indústrias brasileiras de produtos para higiene pessoal, perfumaria e cosméticos estiveram na feira, e, segundo empresários da área, as exportações do setor cresceram 80% desde que o Brasil começou a participar do evento.

A Embelezze, que há dois anos tem como foco da exportação de seus produtos países europeus e os Estados Unidos, aproveitou a participação na Cosmoprof para fazer novas parcerias com empresas estrangeiras. Essas parcerias resultam em um intercâmbio comercial, trazemos produtos deles para vender aqui e enviamos os nossos, para que nossos parceiros os comercializem lá.

Durante a feira, fizemos 30 importantes contatos, a maioria com empresários do Oriente Médio, conta Jomar Beltrame, gestor executivo da Embelezze. Ele lembra que, durante o evento, também iniciou contatos para parcerias de distribuição de produtos da marca para países da Europa em que a fábrica ainda não atua, como Espanha, Suíça e Itália.

Beltrame explica que a Embelezze tem interesse em vender ao exterior principalmente produtos voltados para uso em salões de cabeleireiros, como xampus, tinturas, alisantes, condicionadores e cremes.

Embelezze: 0800-212667
www.embelezze.com

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O principal troféu

Pedro Henrique, de 2 anos, é a maior conquista do artilheiro Jean, um herói de carne e osso e que quase foi dispensado da Gávea no início do ano passado
Janir Júnior

Os bastidores da conquista do Flamengo revelam um herói de carne e osso e uma história recheada de curiosidades. Jean, autor dos três gols sobre o Vasco, é daqueles de comer bife com fritas, odeia bacalhau, mora de aluguel e tem o filho Pedro Henrique, 2 anos, como seu principal troféu. Momentos antes da decisão, o atacante escreveu um bilhete para seu companheiro de quarto, o goleiro Júlio César. Na mensagem, a promessa de fazer um gol. Ele fez três, mas poderia não ter feito nenhum, caso tivesse deixado o clube.

No início do ano passado, Jean encabeçava uma lista de dispensas. O técnico Evaristo de Macedo mal conhecia o jogador, mas decidiu mantê-lo no elenco. Pouco mais de 12 meses se passaram e o atacante, aos 22 anos, gravou seu nome em um lugar muito mais significativo do que em uma relação da barca. Quase fui dispensado e hoje estou vivendo o momento mais feliz da minha vida. A ficha ainda não caiu. Gravar meu nome na história do Flamengo tão jovem é a coisa mais linda do mundo, derreteu-se o atacante.

O passo-a-passo do jogador até o terceiro gol, aos 32 minutos do segundo tempo, revelam detalhes interessantes. Escrevi um bilhete para o Júlio César prometendo um gol a ele, revela Jean. Ainda na concentração, ele decidiu até a forma de comemorar. O Rafael é meio maluco e combinamos algo diferente do hip hop. Foi quando surgiu a idéia de deitar e ficar paradão. Lembrei de um jogador louro que fez isso na Copa de 98, contra o Brasil, recordou, se referindo a Brian Laudrup, autor de um dos gols na derrota da Dinamarca para o Brasil, por 3 a 2.

Herói dispensou o chope e odeia comer bacalhau

Jean deixou o gramado em êxtase, tomou um banho rápido e foi para a comemoração do título. Deixou a festa por volta de 1h e rumou para Niterói. A noite foi tão longa quanto seria o seu dia de herói. Fui dormir às 5h e acordei às 11h. Foi muita adrenalina, confessou. Jean dispensou o macarrão com camarão preparado pela mulher, Thaís, e foi se encontrar com o seu procurador, Léo Rabello, na Barra. O atacante recusou um chope e um bacalhau, oferecidos em tom de provocação. Não bebo e odeio bacalhau, justificou.

Da Barra ele seguiu para a Gávea. A recordação dos três gols ainda fervilhava em sua cabeça. A camisa que usou na conquista do título estadual será emoldurada. Vou colocar num quadro e guardar, revelou o atacante. Na parede de Jean e na memória dos torcedores para sempre ficará a lembrança do herói de carne e osso.

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Cleiton Xavier é preso
DIOGO OLIVIER

Na véspera da viagem para Florianópolis, onde estréia contra o Figueirense no Campeonato Brasileiro amanhã, às 16h, o Inter passou a noite na delegacia. O meia Cleiton Xavier, 21 anos, foi preso ontem em flagrante pela delegada Sandra Lousada quando estacionava o carro na frente de casa, perto do Beira-Rio, suspeito de portar carteira de motorista falsa.

Até as 2h de hoje, os advogados do Inter tentavam obter um habeas corpus para soltar o atleta - o temor era que ele fosse conduzido ao Presídio Central. Cleiton prestou depoimento por mais de sete horas e a realizou exame de corpo de delito, no Instituto Médico Legal (IML).

- O Cleiton é a vítima nesse caso. Ele estava freqüentando auto-escola e foi iludido por um vivaldino, especialista em fraudes, que garantiu poder agilizar os trâmites junto ao Detran. - disse o ouvidor do Inter e promotor de Justiça Carlos Trein. - Trata-se de um menino pobre, sem cultura, e que foi enganado. Não houve intenção do Cleiton em cometer qualquer fraude.

A pena para este tipo de crime é de dois a seis anos de cadeia. A notícia pegou os dirigentes desprevenidos. Souberam da prisão pelas emissoras de rádio. Cleiton teria comprado a carteira de motorista por R$ 600. Assim que perceberam a gravidade do episódio, os dirigentes se mobilizaram. Para o Palácio da Polícia se deslocaram o vice de futebol, Vitório Píffero, e os integrantes do departamento jurídico do clube Luiz Antônio Lopes e Carlos Pellegrini.

Uma vizinha viu o momento exato em que o Astra sedan do meia do Inter foi fechado pelas viaturas policiais e comunicou ao jogador Geílson, que correu para repassar a informação.

- Azedou o frango do Cleiton! - gritou Geílson para Laírton Cardoso Moraes, amigo do grupo.

Os agentes da polícia chegaram ao jogador a partir da Operação Titã, que entre outras ações, resultou na prisão de uma quadrilha de falsários, na semana passada (ver quadro). O grupo teria confeccionado a carteira de habilitação irregular que estava em poder do jogador. A delegada Sandra Lousada, do Departamento de Polícia do Interior, decidiu por autuar Cleiton em flagrante por porte de documento público ilegal.

- Muitas pessoas podem estar ligadas ao caso, jogadores ou não, de uma forma ou de outra. Mas se outros jogadores estivessem envolvidos, creio que já estariam presos. Esta investigação já tem mais de sete meses. Não é algo surgido agora - explicou o diretor do Departamento do Interior, Pedro Carlos Rodrigues.

Investigação levou sete meses
- A Operação Titã teve a participação de 20 agentes da Polícia Civil e as investigações duraram sete meses e passaram por cidades da Região Metropolitana e do Vale do Rio Pardo
- Dez envolvidos no crime foram presos sexta-feira em Cachoeirinha, Porto Alegre, Barros Cassal e Sobradinho
- No quartel-general do bando, em um sítio em Cachoeirinha, foram apreendidos computadores, espelhos para falsificação de documentos, matrizes, celulares e carros
- No sábado, mais material (dessa vez espelhos para confecção de identidades dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) foi apreendido
- Um foragido da Justiça, acusado de matar o irmão do governador Germano Rigotto, Lindomar Rigotto, em 1999, em Atlântida, fazia parte da quadrilha

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Liberato Vieira da Cunha
20/04/2004


O padre e a cotovia

Contam que na antiga cidade de Timissoara havia um padre cujas virtudes eram por todos reconhecidas e proclamadas. A cada manhã elevava preces aos céus, dando graças pelo nascer do sol, pedindo pelo sucesso das colheitas, exaltando o esplendor da Criação.

Era a encarnação da bondade: levava alento e conforto aos doentes, consolava os aflitos, repartia o pão com os deserdados. Seus sermões atraíam devotos de regiões distantes, tocados pelo vigor de sua fé, sua pregação da esperança, a magnífica eloqüência com que chamava de volta ao aprisco as ovelhas desgarradas.

Ora, sucedeu que esse exemplo de predicados cristãos começou a despertar às quatro da madrugada - muito antes do que requeria seu corpo cansado e ainda longe do momento da leitura das matinas ou da celebração da missa - pelo canto de uma cotovia.

O que a princípio lhe pareceu um simples transtorno, com o correr dos tempos converteu-se num suplício. Emagreceu a ponto de virar pele e ossos, acometia-o um torpor invencível, prostrava-o uma dor torturante nos músculos, precisava convocar cada íntima reserva de férrea vontade para não adormecer durante um batizado, a recitação do Credo, o instante da Consagração.

Rezou a Deus e a legiões de santos para que não lhe encurtassem as noites. Dirigiu por fim seus apelos à cotovia:

- Avezinha, sagrado fruto da incomensurável obra do Altíssimo - pediu - não interrompas mais meu descanso com as notas maviosas de tuas harmonias.

Não adiantaram quer esses rogos, quer os duros castigos que se impôs, maltratando-se com o cilício, ajoelhando-se sobre pedras ásperas, privando-se de alimento e água.

De tal modo definhava, que ordenou o bispo que se recolhesse a um mosteiro numa serrania inóspita, inteiramente desabitada de cotovias. Mas o padre continuou acordando em sobressalto às quatro da madrugada, agora à espera do canto que não mais escutava. Aconteceu que no mosteiro vivia um velho e sábio frade que, depois de confessá-lo, prescreveu-lhe a penitência de empreender uma jornada até um castelo que ficava a duas léguas.

Obediente, o padre para lá se dirigiu e foi recebido por uma jovem, belíssima, solitária dama que o acolheu, hospitaleira. Foi além: depositou-o em sua cama e o fez adormecer com as árias que retirava de uma cítara. O pio vigário só abriu os olhos ao anoitecer, quando sua anfitriã o banhou com bálsamos e essências, serviu-lhe um jantar digno de um rei, oferecendo-lhe confeitos, vertendo-lhe no cálice vinhos capitosos. De sobremesa surgiu-lhe nua e sua e entregaram-se ambos a infinitos jogos de amor.

O pároco nunca regressou ao mosteiro, nem a Timissoara.

E quando perguntavam ao velho frade a que penitência enfim o obrigara, o sábio confessor respondia, como quem recitasse o fecho de uma parábola:

- Em verdade, em verdade vos digo: mais vale a envolvente caridade da paixão do que a música profana das cotovias.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
20/04/2004


Design, quer dizer, dzain

Nos velhíssimos anos 70, a crítica social e cultural mais interessante começou a falar na "obsolescência programada", a velhice programada das mercadorias, que em determinado prazo começam a pifar, a enguiçar, a complicar. Dizia-se, e eu continuo acreditando, que os produtos industriais poderiam ser feitos para durarem muito mais tempo, porque já se conhecem as técnicas para tal e tanto; mas a indústria moderna estipula um prazo de validade para o produto e, em função disso, piora, por assim dizer, a qualidade daquilo que fabrica.

Por que "piora"? Para obrigar-nos a comprar outro, naturalmente, porque esta é a lógica (perversa) do mundo da mercadoria. Não importa que a sua geladeira, pelo critério da saúde dos materiais e das técnicas que a compõem, pudesse viver mais 15 anos; ela vai estragar mais ou menos ao final de oito ou 10 anos, o que vai obrigá-lo a uma reposição (no mínimo a uma reforma, o que em geral é mais transtorno do que solução, como sabemos). Nem em toda a parte é assim: nos países centrais, parece que os produtos são em média de maior qualidade; e quanto mais para a periferia do sistema e mais para baixo na escala social, maior a perversidade da imposição da obsolescência.

O que acontece no estágio atual é de certa forma uma perversidade complementar. Agora, o design, o dzain é que envelhece mais rápido. O produto ainda está lá, firme e forte, mas o padrão estético muda: a sua geladeira (que duraria mais cinco anos, se depender da máquina) ficou horrivelmente feia de uma hora para outra, sem que nada tenha acontecido com ela, em si. Está na hora de desembolsar uma nova grana. A ditadura do dzain. Gente simples de alma como eu, que se afeiçoa a tudo com que convive, incluindo a geladeira, não fica à vontade neste mundo.

Tudo isso está me atormentando agora por causa da ditadura do bico quadrado no sapato masculino. Faz já uns meses que eu estou sinceramente disposto a renovar minhas acanhadas propriedades neste particular, percorro empenhadamente vitrines e lojas (sempre com o mesmo acanhamento na hora de pedir para ver os produtos - ou a cara dos atendentes é que é hostil mesmo?) e absoluta, total, definitivamente só há sapatos de bico quadrado, que me parecem feios, simplesmente feios. Acho que vou ter que esperar a próxima moda, que talvez restaure a validade dos bicos arrendondados. Isso se os meus velhos sapatos atuais resistirem ao tranco.

fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
20/04/2004


Onde estão os cravos de outrora?

O José Diogo Cyrillo da Silva manda um e-mail chamando a atenção para numerosos acontecimentos ocorridos no Brasil em anos com final 4. Alguns destes, sombrios: em 1904 (há exatos cem anos, portanto) ocorria a Revolta da Vacina, que fez do Rio o cenário de uma verdadeira guerra civil; em 1954 Getúlio Vargas se suicidou; em 1964 ocorreu o golpe.

Há outros aniversários, mais animadores (o começo das operações da Petrobrás, em 1954, o Comício das Diretas, em 1984), mas é claro que tudo isto pode ser apenas coincidência. De qualquer modo há um outro evento, cujo 30º aniversário será lembrado no próximo dia 25: a Revolução dos Cravos, de Portugal.

Como a revolução russa de 1917, a revolução portuguesa foi precipitada por uma guerra: a desastrosa campanha colonial na África, que estava sacrificando vidas, exaurindo recursos e desmoralizando o país, que suportara 40 anos da ditadura de Salazar. Surgiu então o Movimento das Forças Armadas (MFA), iniciativa de capitães inicialmente preocupados com questões salariais.

Mas o movimento logo ganhou proporções e, a 25 de abril de 1974, as tropas comandadas pelo MFA tomaram a capital. Operação incruenta: numa famosa cena de documentário vê-se uma coluna de carros blindados, parada, esperando abrir um sinal vermelho. Ou seja, revolução sim, infração de trânsito não. Uma mulher tomou a iniciativa de enfiar cravos vermelhos nos canos das armas dos soldados, no que foi imitada pela população: daí o nome do movimento.

Que, no Brasil da ditadura, teve ampla repercussão, expressa na canção de Chico Buarque: "Sei que estás em festa, pá/ estou contente/ e enquanto estou ausente/ guarda um cravo para mim." Mas de imediato surgiram divergências entre os vitoriosos. Os comunistas queriam transformações radicais; os socialistas preconizavam reformas mais moderadas. Um ano e meio depois do 25 de abril, militares antiesquerdistas assumiram o controle da situação. Portugal tornou-se um país democrático - e continuou capitalista.

Como na França de 1789 e na Rússia de 1917 (nesta última, depois de 70 anos), a revolução acabou representando a transição (sangrenta, no caso de França e Rússia) de regimes semifeudais para regimes burgueses. Chico teve então de mudar a letra: "Foi bonita a festa, pá/ fiquei contente/ e ainda guardo renitente/ um velho cravo para mim". Esquerdistas portugueses falam ainda no "abril traído".

Foi traído? Depende do que se esperava, depende do que cada um considera o regime ideal - uma discussão que, neste momento, estamos tendo no Brasil. Portugal tomou um rumo inesperado, com a entrada no Mercado Comum, que globalizou o país e mudou-o radicalmente. Os cravos continuam presentes. Vendidos em lojas de flores, naturalmente.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
20/04/2004


A culpa é nossa
Eu às vezes cogito de que grande parte dos pedidos que fazemos a Deus não são atendidos porque sob certo aspecto essas providências não pertencem à competência divina e sim a nós mesmos.

Eu estava pensando nisso a respeito da seca que assola o Rio Grande do Sul e foi atenuada com a chuva dos últimos dias: só o Rio dos Sinos teve alta em 10% do seu nível com essa água que caiu dos céus no fim de semana.

Um diretor do Dmae declarou ontem que, com essa pequena porém considerável precipitação, a população de Porto Alegre terá uma dádiva: vai mudar o gosto da água para melhor.

Mas a quem compete afinal o equilíbrio da natureza, que sempre fez com que chovesse no verão e no início de outono e este ano está nos esfolando com este estio que ameaça e agride as lavouras, o abastecimento de água e até o fornecimento de energia elétrica?

Os entendidos bradam, sem que ninguém os conteste, que esta falta de chuvas no verão e no outono, assim como o furacão que recentemente devastou a costa catarinense e Torres se deve às agressões ambientais que o homem está causando no planeta ou até mesmo em nosso meio.

Não têm dúvidas os estudiosos de que o desmatamento e a poluição são as causas principais desses desajustes meteorológicos que estão se verificando entre nós.

Tivemos vários dias de abril com a temperatura em 35°C aqui em Porto Alegre e no Interior.

Uma das melhores benesses em viver-se no Rio Grande do Sul é que aqui as estações do ano são bem definidas, são amenas as temperaturas no outono e primavera, faz calor forte no verão e frio intenso no inverno.

Se por um lado sofremos desvantagem, com relação ao nordeste e ao norte do Brasil, de termos que nos agasalhar no inverno, o que custa caro, enquanto por lá eles podem até viver o ano inteiro de calção e chinelo de dedos, no entanto, segundo os nordestinos que moram aqui no Sul, é um deleite poder-se fugir aqui do calor sufocante, durante nove meses do ano.

E os nortistas e nordestinos que moram aqui dizem que durante três meses podem entre nós desfrutar do seu clima original de verão, sendo essa oscilação anual de temperatura excelente para o apetite pelas cambiantes gastronômicas e etílicas, a cerveja gelada no verão, o vinho tinto com temperatura ambiente no inverno.

Só que estes primeiros meses do ano pegaram todo mundo de surpresa e derrubaram a todos: os que não gostam do verão foram surpreendidos com um março sem chuvas e com um abril sufocante, um verão interminável.

Os dias foram lindos, mas a temperatura restou opressora, quem não pode usar ar-condicionado por preservação da saúde ou não o possui acabou passando as noites embebido em suor pelo calor abrasador, de nada adiantaram as janelas abertas, não corria nem uma leve brisa para aliviar os dormentes.

E sair às ruas para trabalhar ou por qualquer forma circular foi um exercício desagradável, houve um confronto com um clima abrasador e inóspito.

Então não adianta ficar pedindo a Deus por orações que o outono volte a ser outono e as chuvas caiam pelos campos e encham as barragens e os reservatórios. Se somos nós mesmos que levamos a natureza a esse revide de estio, se desafiamos a Deus agredindo o meio ambiente, incorremos no equívoco de implorar a Deus por algo que nós próprios poderíamos resolver.

Ainda bem que vai chover quinta e sexta-feira, se não falhar a previsão meteorológica.

E não seria nada mau que depois da chuva viesse um friozinho, que já estamos aflitamente saudosos dele.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Questão Agrária
Índios no Piratini



Grupo de caingangues esteve ontem na Assembléia e no Palácio Piratini (acima) para reivindicar a posse do Parque do Morro do Osso, em Porto Alegre. Em Brasília, cerca de cem indígenas levaram solicitações ao Congresso (Mário Brasil/ZH)


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Segunda-feira, Abril 19, 2004




A felicidade é aqui

Cecilia Costa

Diante da realidade espantosamente brutal, violenta, diante da infância perdida entre a falta de ética e a dureza dos corações adultos obrigados a usarem uma carapaça no peito para se protegerem dos tiros e dardos inimigos, reais ou metafóricos, mas sempre letais onde se proteger? Nos livros. Nos livros.

Que janela de beleza abrir, onde ainda cantem rouxinóis, beija-flores, bem-te-vis? Onde estão os jardins secretos, nos quais dançam gnomos e fadas, e as borboletas colorem o azul com suas asas de nácar? Nos livros, sempre nos livros. Crianças, correi para os livros. Neles há prados e vales onde podeis brincar livremente, há unicórnios com estrelas na testa que os levam à lua, para visitar o homem da lua e comer doces de nuvens preparados por mulheres brancas como cristais de neve.

Crianças, buscai os livros. Neles há páginas gordinhas como almofadas, e histórias de fazer sonhar, de fazer rir, ou de fazer chorar ternamente pelo próximo. Histórias de fazer meninos e meninas dormirem um sono tranquilo no meio das guerras vãs, dos loucos tiroteios, das tolas competições por poder e dinheiro.

Crianças, abri vossos livros. Lá estão o conhecimento e a beleza. Lá está a felicidade. Sim, a felicidade é aqui, nas páginas dos livros. Que podem ser descobertos na Bienal de São Paulo, ou em quaisquer bienais. Na livraria da esquina ou biblioteca municipal. Crianças, buscai vossa biblioteca municipal. E se vossa cidade não tiver uma, fazei passeata na porta da prefeitura. Já imaginastes encontrar lá dentro um Patinho Feio de Andersen, o maior contador de histórias da História Ocidental, o sapateiro que no ano que vem completaria 200 anos se estivesse vivo?.

Ah, se estivesse vivo que nada. Andersen esta vivo. Seu Patinho Feio foi lido por milhares de crianças de todo o mundo e sempre será lido. Que feio não quer um dia se descobrir belíssimo? Um cisne elegante e branco?

E sabeis, crianças, foi este o livro que inaugurou todos os livros infantis no Brasil, a cores. Quando em 1915 os irmãos Weiszflog, imigrantes hamburgueses e futuros donos da Companhia Melhoramentos de São Paulo começaram a publicar livros no Brasil, quem escolheram para editar? Andersen. E foi assim que o comovente Patinho feio abriu caminho para a produção de livros infantis no Brasil, antes composta apenas por importados. Em 2004, a Melhoramentos, comemorando seus 104 anos, resolveu reeditá-lo em seu formato original.

Que delicadeza!. Pena que nem todos poderão ter acesso a este pequena jóia literária. Livrarias parecem não gostar de vender obsoletos fac-símiles. Mas outros Patinhos feios estarão nas estantes, com a imaculada brancura dos cisnes. E também os novos Soldadinho de Chumbo, O sapo, O criador de Porcos...

E há muito mais felicidade a ser catada como pérola ou conchas do mar nas livrarias. Obras de mágicos escritores brasileiros e estrangeiros, que nos fazem voar na vassoura da imaginação. Olhai para os lados. E isso é só uma pequena mostra. Outras preciosidades estão para chegar. A Estação Liberdade, por exemplo, está preparando para vós, gurizada, um bálsamo para o olhar: Fábulas de La Fontaine ilustradas por Chagall. Ah, que felicidade!!!

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Publicado em 18 de abril de 2004 Versão impressa

Paulo Coelho

autor@paulocoelho.com.br

Quem está fazendo a diferença II

Na semana passada, comentei sobre heróis anônimos, que conheci durante os encontros da Fundação Schwab. Fui convidado por Klaus e Hilde Schwab para ser um dos fundadores, e desde 2000 não deixo de me surpreender com pessoas cheias de entusiasmo, idéias novas, revolucionárias, e com responsabilidade social.

A seguir, mais alguns destes trabalhos:

Transformando excremento em energia

Trabalho literalmente com m... disse Joe Madiath em nosso primeiro encontro. Ao visitar, junto com um grupo de estudantes, uma área da Índia devastada por um ciclone, Joe deu-se conta que poderia utilizar o excremento de vacas para fornecer calor e energia biodegradável. Hoje em dia, já tem mais de 55 mil usinas funcionando na província de Orissa (www.gravikas.org).

O jogo da alfabetização

Javier González detestava e detesta escolas. Entretanto, é uma pessoa comprometida com o bem-estar do seu país natal, a Colômbia. Passeando pelas ruas de Bogotá, reparou que muitos de seus habitantes passavam horas seguidas inteiramente concentrados, jogando dominó. Por que não utilizar isso para alfabetizar meu povo? pensou.

E inventou um sistema que utiliza as peças de dominó para criar palavras e sentenças inteiras. O ABCDEspanol, como se chama o processo, é tão fácil e tão divertido, que eu tive a oportunidade de ser alfabetizado em quéchua em apenas duas horas (www.abcdespanol.com).

Quando os direitos são deveres

Halidou Ouedraogo trabalhou durante muitos anos como advogado em Burkina Faso, até entender que a justiça estava servindo apenas para proteger a impunidade dos ricos. Consciente disso, criou a União Interafricana dos Direitos do Homem: mas entendendo que não bastava apenas uma outra organização de defesa dos direitos humanos, tratou em seguida de estender seus laços com diversas entidades européias.

Seu próximo passo foi filiar-se a outras entidades de direitos humanos africanas, e desta maneira diluir uma eventual pressão que pudesse ser exercida pelas autoridades locais. Em virtude da seriedade do seu trabalho, conseguiu iniciar um sistema de arrecadação de fundos, que hoje já reúne mais de 50 mil doadores. Até a data que escrevo esta coluna, mais de mil africanos, antes detidos sob os mais diversos e arbitrários pretextos, já foram libertados (www.hri.ca/partners/uidh).

Os pobres pagam as dívidas, os ricos dão calote

Um dos diretores da Schwab Foundation é do paquistanês Mohammad Yunus, fundador do Grameen Bank. Yunus teve uma idéia simples e genial: ao invés de dar esmola, fazia empréstimos mínimos, em torno de 10 ou 20 dólares (chamados microcréditos) às pessoas que lhe pediam dinheiro na rua. Embora não pedisse qualquer garantia, as pessoas usavam este dinheiro para criar algo, e logo pagavam o empréstimo, com juros pequenos.

Roshaneh Zafar utilizou a inspiração do Grameen Bank (hoje em dia uma instituição enorme, mas que ainda se mantém fiel aos seus princípios), e oferece em média 75 dólares para aqueles que precisam abrir um novo negócio. Como o pobre sempre é honesto e paga o que deve, a Fundação Kashf já tem aproximadamente 45.400 clientes originários de áreas pobres do Paquistão; apenas uma minoria insignificante deixou de honrar seus compromissos (www.kashf.org.pk).

Em uma futura coluna, ainda este ano, falarei dos brasileiros que, com suas idéias novas, estão provocando uma revolução silenciosa neste mundo.

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Gente
Sepultado filho do secretário da Agricultura
HUMBERTO TREZZI E MARCELO FLEURY

Foi sepultado no final da tarde de ontem, no Cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, o jovem Felipe Klein, filho do secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, Odacir Klein. Felipe, 20 anos, morreu no sábado à noite ao cair do 9º andar de um edifício no centro da Capital.

As circunstâncias da morte ainda não foram esclarecidas pela Polícia Civil, mas a hipótese mais provável é de suicídio. Um médico amigo da família contou que o jovem sofria de depressão.

Felipe era tatuador profissional e fazia parte de uma tribo de jovens que se vestem de preto e transformam o corpo e a face com o uso de silicone e metais. Era apaixonado por piercings e tatuagens. O jovem, que morava com a mãe, tinha ido visitar o pai em seu apartamento na Rua Duque de Caxias. Depois da chegada da Brigada Militar, Odacir, desorientado, foi levado para o Hospital Dom Vicente Scherer, do Complexo da Santa Casa, onde se submeteu a exames e passou a noite sedado.

À tarde, o secretário compareceu ao velório, sob efeito de tranqüilizantes e, depois do sepultamento, foi internado em uma clínica da Capital. No cemitério, o irmão de Felipe, Fabrício, foi quem falou em nome da família.

- As circunstâncias ainda estão meio confusas, mas o Felipe se jogou mesmo. Meu pai está em estado de choque. Não se lembra de nada - disse.

O governador Germano Rigotto chegou ao velório por volta das 16h. Também compareceram secretários de Estado, deputados federais, estaduais e o senador Pedro Simon (PMDB).

Exames feitos pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP) constataram que o corpo de Felipe ficou a uma distância de 11 metros da parede do prédio, indicando que teria tomado um impulso antes da queda. A morte do rapaz teria ocorrido por volta das 19h.

Os policiais tentam localizar uma testemunha que, desde um outro prédio, teria visto Felipe se pendurar no parapeito da janela e gritar, ameaçando se atirar. O delegado Cleber Ferreira, diretor do Departamento de Polícia Distrital, encontrou o apartamento revirado e com dinheiro espalhado pelo chão. O caso será investigado pelo delegado Luis Fernando Oliveira, da Delegacia de Roubos, que atuava como plantão do Departamento Estadual de Investigações Criminais.

Essa foi a segunda tragédia na vida de Odacir Klein em menos de uma década. Em 10 de agosto de 1996, quando era ministro dos Transportes, Odacir estava no carro dirigido pelo filho Fabrício, que atropelou e matou um operário, em Brasília. Eles não pararam para prestar socorro. Fabrício foi condenado por homicídio culposo (não intencional) e recebeu uma pena alternativa.

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Universitários podem renegociar contratos do Creduc

Patrícia Alencar
Do CorreioWeb

19/04/2004

A Caixa Econômica Federal (CEF) já está recebendo os pedidos de renegociação dos contratos do antigo Programa de Crédito Educativo (Creduc), firmados até 27 maio de 1999. Até essa data, a CEF havia adquirido parte dos créditos do programa. A intenção é permitir a liquidação de todos os contratos de financiamento pendentes. Os descontos podem chegar a 80% para os inadimplentes e 90% para os adimplentes, segundo a Caixa. O restante da dívida será negociado pela CEF.

Para informar os interessados pelo desconto o banco criou uma cartilha Renegociação das Dívidas do Creducpara tirar as dúvidas dos estudantes. No material, os alunos podem entender a dívida total, os reais descontos oferecidos, os tipos de renegociação que são aceitos e as garantias do acordo.

Segundo a assessoria da Caixa, cerca de 165 mil estudantes estão inadimplentes. O incentivo oferecido visa quitar o saldo devedor, de maneira que os descontos sejam aplicados sobre o total da dívida vencida ou não desses contratos. Do total do saldo devedor, 62,41% dos contratos estão na faixa de R$ 10 mil sendo 23,35% com pendência de até R$ 1 mil, e os restantes 14,24% estão com as prestações em dia.

O pagamento pode ser feito à vista ou em até 12 parcelas. Nesse caso, os descontos são variáveis conforme o prazo de amortização escolhido pelo próprio estudante. Para renegociar o contrato, os interessados devem comparecer a uma agência da Caixa com os documentos pessoais RG e CPF e comprovante de residência. O banco não exige comprovante de residência.

Crédito

O Programa de Crédito Educativo foi criado pelo Governo Federal, em 1975, institucionalizado pela Lei 8.436, de 25 de junho de 1992, com a finalidade de atender o estudante carente no custeio do primeiro curso de graduação em Instituição de Ensino Superior particular. Cursos mais financiados pelo programa foram: Direito, Pedagogia, Ciências Contábeis, Letras e Administração.

Em 1997 foram suspensas as contratações do Creduc e, por meio da Medida Provisória 1.827, foi criado o Fundo de Financiamento ao Estudante de Ensino Superior - FIES, com o mesmo objetivo, contemplando, porém, condições de contratação e formas de pagamento diferenciadas.

A iniciativa dos descontos foi possível graças à Medida Provisória nº141, assinada pelo governo federal e publicada em dezembro de 2003. Ela autoriza o banco a renegociar as dívidas do programa com mais flexibilidade e em iguais condições para os contratos adquiridos pela própria Caixa (84% do total) e aqueles que ainda estavam em poder do MEC (16%). Importante lembrar que a MP não inclui os contratos assinados a partir de 1999, pelo Fies.

Mais informações pelo site da Caixa Econômica

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Lembram-se de mim

Macauley Culkin, o moleque fofo de Esqueceram de mim vira drag queen em Party Monster, que estréia em maio
Tatiana Contreiras


Michael Jackson: fascinado por Macauley em filme

Macauley Culkin ainda era lourinho e bonitinho como o mundo conheceu em Esqueceram de Mim quando o tresloucado produtor de festas Michael Alig agitava a cena clubber em Nova Iorque. A estrelinha mirim cresceu, apareceu, criou polêmica das brigas com os pais ao casamento precoce, aos 17 anos, passando pela amizade com Michael Jackson e herdou do produtor, preso por assassinato, os saltos plataformas, o estilo drag queen, as roupas escandalosas e o glitter. Protagonista de Party Monster, filme com estréia prevista para o mês que vem no Rio, Macauley interpreta Alig, gastando purpurina e maquiagem na volta à cena no maior estilo quem te viu, quem te vêdepois de quase dez anos longe das telas seu último filme foi Riquinho, em 1994.



O Alig da vida real matou o namorado traficante e ainda está preso

O longa é dirigido por Fenton Bailey e Randy Barbato e conta a história de Alig, que ao lado de James St. James (vivido por Seth Green na ficção e autor do livro Disco Bloodbath, que inspirou o filme) aloprou as noites dos anos 80 e 90 com muito sexo, drogas e música eletrônica no Limelight Club. Aos 22 anos, ele já estampava páginas e capas de revistas.

A farra chegou ao fim quando o produtor contou em uma entrevista na TV que tinha matado com um martelo e uma injeção de drogas Angel Melendez, seu amigo e traficante. Depois de esquartejar o corpo, Alig jogou Angel no Rio Hudson. Preso em 1997, ele ainda esperava sair da prisão no ano passado.

É estranho quando as pessoas dizem Oh, você fez isso para fugir do trabalho que fez antes. Bem, isso implica no fato de que estou tentando sair dessa espécie de caixa em que fui colocado, disse Macauley, em entrevista à BBC. Hoje com 23 anos, ele vai estrelar um seriado, na rede de televisão NBC, e depois de Party Monster já fez mais um filme, Saved!. Antes, eu estava fazendo coisas que realmente não queria e tinha perdido a alegria, porque isso virou algo como uma máquina, disse.

Máquina de fazer filmes e dinheiro, pode-se dizer. Em 1996, Culkin solicitou à justiça americana permissão para dispor de seu patrimônio, avaliado na época em US$ 17 milhões e disputado quase a tapa por seus pais. Enquanto ficou afastado dos holofotes, o mocinho foi para a faculdade, fez festas, casou e descasou e disse que tomou o controle de sua vida novamente. Foi divertido e eu espero que todos tenham conseguido seu dinheiro, porque não havia mais dinheiro a ser ganho, declarou em outra entrevista.

Para viver Alig, Macauley cortou o cabelo como o produtor e foi encontrá-lo na prisão, onde o esperou por mais de duas horas. Usou shortinho, testou sapatos e gravou cenas vestindo quase nada, como conta um dos diretores no site do filme. Depois de radicalizar, Culkin quer papéis nessa linha. Eu não estava procurando um papel de um gay viciado promotor de festas. Acho o que é interessante e diferente, e vou daí, disse.

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Uma profissão com saldo positivo

Só no Estado do Rio, existem 43 mil contabilistas, mas o mercado pode absorver muito mais. Os salários são atraentes: vão de R$ 800 até R$ 50 mil, nos cargos de diretoria
Marcella Franco

Monteiro, presidente do Conselho, diz que a informática abriu novos campos de trabalho. Muniz sabe disso e não perdeu a oportunidade

Domingo será comemorado o Dia do Contabilista. Mas a maioria desses profissionais vai passar a data trabalhando. E muito. Isso porque abril é o mês de maior movimento nos escritórios de contabilidade, procurados por quem precisa de ajuda na declaração do Imposto de Renda. Ou seja: comemoração e descanso, só mesmo depois do dia 30, quando se encerra o prazo para entrega à Receita Federal. Até lá, os 43 mil contabilistas do Estado do Rio devem colocar em prática tudo aquilo que 10 mil estudantes buscam todos os anos ao se matricularem nos cursos de Nível Superior e Técnico.

Pesquisa do Conselho Regional de Contabilidade do Rio (CRC-RJ) mostra que o mercado é bastante atraente para os interessados na profissão. Recebendo anualmente 2,5 mil diplomados, a contabilidade desenha-se como uma ocupação que sempre terá seu lugar, mesmo com as facilidades que a Internet e da modernização dos sistemas de eletrônica oferecem aos leigos.

O contador é uma figura permanente, confirma Nelson Monteiro, 44 anos, presidente do CRC-RJ. O advento da informática praticamente acabou com os serviços manuais, o que fez diminuir o volume de trabalho. Mas fez com que se abrissem novas perspectivas e campos.

Monteiro refere-se a possibilidades como as criadas em áreas como contabilidade ambiental, contabilidade social ou para o terceiro setor, novas tecnologias (com especializações em petróleo, gás e telecomunicações), entre outras.

Um exemplo da estabilidade da profissão é o do contador Vicente de Paulo Muniz, 79 anos. Há 52 anos no mercado, ele começou como auxiliar em departamentos de contabilidade de várias empresas e, desde 1978, comanda seu próprio escritório, trabalhando 12 horas por dia.

Na época da fundação da firma, os instrumentos mais usados por Muniz e sua equipe eram a calculadora manual, lápis e papel. Hoje ele domina com segurança todos os programas de computador necessários à sua profissão. Fico imaginando como consegui viver tanto tempo sem um computador, conta.

A imagem do profissional também mudou bastante. Foram abolidos a viseira, que ajudava a não ofuscar os olhos pela luz refletida sobre os documentos, e os elásticos na camisa, que seguravam as mangas dobradas. Agora o figurino é mais social, chegando até ao terno e gravata. Os profissionais podem ganhar até R$ 50 mil, em cargos de diretoria.

Os recém-formados têm média salarial de R$ 800, dependendo da área de atuação, em empresas privadas ou na administração pública. Por uma declaração simples de IR de uma pessoa física, um contador recebe R$ 100. Já as mais complexas rendem até R$ 500.

Mesmo com a facilidade de declarar pela Internet, as pessoas continuam contratando contadores¿, avalia Monteiro. ¿Entendem que um profissional pode previnir problemas surgidos pela complexidade da legislação, observa.

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Do inferno ao paraíso

Depois de passar por dias difíceis, até ameaçado de barração, Jean dá o 28º título estadual ao Flamengo
Janir Júnior e Mauro Leão



Herói da decisão de ontem contra o Vasco, Jean disputa a bola com o volante Ygor. Atacante fez três gols e enlouqueceu os adversários

Jean, um nome de duas sílabas e um único significado: gol. O atacante saiu do inferno, deu uma passada no purgatório e, ontem, ao marcar os três gols da vitória do Flamengo sobre o Vasco, subiu aos céus. E, lá de cima, agradeceu a quem ele acredita ser o responsável pelo seu dom divino: Deus.

Jean atingiu a marca de oito gols no Campeonato Estadual. Antes disso, porém, o atacante foi muito questionado quando ficou um mês e meio sem balançar as redes. No jogo válido pela Copa do Brasil, contra o Tupi-MG, em Édson Passos, ele sofreu a ameaça de barração. Já na concentração, Abel Braga conversou com o jogador e deu a ele o último voto de confiança. O técnico não deve ter se arrependido. Jean marcou dois gols na vitória de 4 a 0 e ganhou um fôlego extra. Na primeira partida da decisão, ele não marcou, mas fez uma belíssima atuação e deixou de vez o seu inferno astral.

Os boatos de separação da mulher Thaís com quem é casado há três anos foram superados. Enfim, a verdadeira explicação para a má fase do atacante veio à tona: os problemas financeiros impediam o jogador de quitar as parcelas do seu apartamento em São Gonçalo.

Jean e o lateral-esquerdo Roger erguem o troféu de campeão estadual oferecido pelo jornal O DIA e pela rádio FM O DIA

Mas não há dinheiro no mundo que pague o valor de ser campeão estadual pelo Flamengo. Estou tonto, zureta. Agradeço a Deus, o todo-poderoso, por essa conquista. Mas dedico os gols à minha mulher, Thaís, ao meu filho, Pedro Henrique, e a toda torcida do Flamengo. Eles são os responsáveis por esse momento maravilhoso, afirmou Jean, ainda no gramado do Maracanã.

A mulher do atacante desceu ao gramado para beijar Jean. O filho, no entanto, teve de assistir ao jogo em casa, em São Gonçalo. O Jean ficou preocupado e não deixou ele vir, revelou Thaís.

O jogador fez questão de roubar a taça do jornal O DIA e dar a volta olímpica. Quando passou em frente à torcida vascaína não perdoou. É, o chope deles vai descer a seco. O Eurico fala demais, alfinetou o atacante Jean, o homem de duas sílabas e um único significado: o gol.

Foram três gols maravilhosos. Um, dois, três. É demais, desabafou o jogador. Ele prometeu fazer um gol para mim e fez muito mais do que o prometido, vibrou a mulher Thaís.

Realmente, Jean fez muito mais. E o que ele fez se resume em uma sílaba: gol. E o gol é o significado do futebol.



Fabiano Eler: Onde o Eurico vai enfiar os 30 mil litros de chope?

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Paulo Sant'ana
19/04/2004


Reforma agrária frustrada

O número é contristador: 40% dos lotes destinados à reforma agrária e já distribuídos aos assentados são transferidos de forma irregular no Brasil.

Ou seja, 40% das pessoas que tiveram seus lotes de terra bancados pelo poder público, que os assentou nas glebas, já venderam suas terras para terceiros.

Isso não é permitido, mas é o que acontece, segundo levantamento feito pelo engenheiro agrônomo Francisco Graziano, ex-secretário da Agricultura de São Paulo e pesquisador agrário, conforme publicou ontem O Estado de S. Paulo.

Ora, se 40% dos colonos assentados pelos governos Fernando Henrique e Lula da Silva já venderam seus lotes, bastará sucederem-se alguns governos e praticamente todos os lotes serão vendidos, é só decorrer mais algum tempo.

Este dado é desolador. Ele quer dizer claramente que esses milhares de agricultores sem-terra que estão invadindo fazendas ou entregues a outras manifestações, inclusive a obstrução de estradas, quando chegar a sua hora de serem assentados, logo em seguida, meses ou anos depois, venderão seus lotes a outras pessoas.

O pesquisador que levantou esses dados lembra que no Pontal, em São Paulo, foi constatado, entre tantos casos, o de um ex-prefeito que detém sete lotes no assentamento 15 de Novembro, do Itesp.

Ou seja, lotes que foram comprados pelo governo para serem distribuídos individualmente aos assentados já começam a ser adquiridos pluralmente por negociantes agrários.

Os lotes agrícolas ou que se tornaram urbanos pela intensa povoação são vendidos por preços que variam de R$ 50 mil a R$ 150 mil, depois de avaliadas as benfeitorias que foram realizadas pelos assentados.

Quem é que garante assim que, depois de vender seu lote e ir tentar a vida em outro lugar com o dinheiro arrecadado, o ex-assentado não fracassará e virá novamente ingressar na fileira dos sem-terra?

Parece até o caso daquele Programa de Demissão Voluntária (PDV), em que os funcionários públicos venderam para os Estados ou municípios os seus cargos, fracassaram nas pequenas empresas que constituíram - e foram pedir aos governos para retornar ao serviço público.

Em Mato Grosso do Sul, inúmeros assentados estão vendendo os lotes que receberam do Incra.

Nos 109 assentamentos do Estado, houve 15.674 famílias de sem-terra instaladas oficialmente até 2003.

Desse total, um número significativo de famílias negociou seus imóveis.

Em vistoria feita pelo Incra em 4.582 lotes de Mato Grosso do Sul, cerca de apenas um terço do total das terras distribuídas, foi verificado que 974 lotes já estão ocupados por terceiros. Cada um deles pagou entre R$ 15 mil e R$ 50 mil pela posse da área.

O triste nessa realidade é que, afinal, embora essas transações sejam ilegais, como depois o governo irá retirar desses lotes negociados pessoas que pagaram por eles?

E o mais inconsolavelmente trágico é que a reforma agrária no Brasil, em face deste levantamento, está sendo assim definitivamente frustrada: o governo gasta uma fortuna colossal, em última análise, não para assentar sem-terra, mas para transferir para terceiros bem dotados financeiramente os lotes, quando o espírito dos assentamentos era distribuir terras para pessoas gravemente pobres.

Inequivocamente, essas legiões de sem-terra que se atiram à busca de lotes em assentamentos, em grande maioria, não permanecerão neles.

Apenas se valerão deles para vendê-los e suavizar temporariamente as suas dificuldades.

Aterrador.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Chuva prenuncia o frio



Poças d¿água na prefeitura da Capital refletem a chegada da frente fria tão esperada pelos gaúchos (Fernando Gomes/ZH)


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