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Sábado, Maio 01, 2004




Martha Medeiros
02/05/2004


A fila do gargarejo

Somos todos atores. Quando saímos de casa para ir ao teatro, nós sabemos de cor o nosso papel: precisamos nos comportar como espectadores civilizados

Tenho muitos amigos que fazem teatro. Já tive crônicas minhas adaptadas para teatro. Sou fã de teatro. Gosto de textos leves e densos, curtos e longos, nacionais e importados, desde que bons. Só não gosto de uma coisa: da tendência, em comédias, de os atores fazerem brincadeiras com o público, para "interagir". Tudo bem, eles ensaiam meses, ganham uma merreca, merecem se divertir também, e nada melhor do que fazer isso botando a platéia pra pagar mico. Mas quem recorre a esse expediente deveria deixar uma unidade do Ecco Salva de plantão na porta, pois o risco de ataque cardíaco entre os espectadores mais conservadores é alto. Espectadora conservadora - tá falando com ela mesma.

Quando o ator ou atriz desce do palco e começa a caminhar pelo corredor eu imediatamente localizo a saída de emergência. Lá se foi minha paz, meu momento de relaxamento e lazer - vira suplício. Geralmente os eleitos estão na primeira fila. Quem mandou querer ver tudo de pertinho? Por essas e outras, sento da fila F pra trás.

Ah, mas é tudo tão divertido, vai dizer que não? Claro, eu também morro de rir, quá, quá, quá, rio histericamente, de tanta felicidade por ter escapado do vexame.

Não é um vexame? Tá bom, não é um vexame. Mas é tenso. Uma vez assisti a uma peça em que a atriz principal desancava uma criatura sentada na primeira fila. Chamava ela, aos gritos, de vagabunda, sem-vergonha, ordinária. A criatura em questão estava "desempenhando" o papel de uma arquiinimiga da personagem - só que não foi avisada antes. Bom, a mulher era tão humilhada durante o espetáculo que, no final da peça, quando os atores voltavam ao palco para agradecer os aplausos, traziam flores pra coitada, como um gentil pedido de desculpas. Eu acho que ela merecia era ganhar um Molière por ter suportado aquela dissecação pública sem chorar.

Somos todos atores. Quando saímos de casa para ir ao teatro, a gente sabe de cor nosso papel. Qual seja: o de um ser civilizado que vai chegar antes de o espetáculo começar, não vai esfaquear o flanelinha como gostaria, vai sentar no local marcado, vai desligar o celular, vai rir quando for pra rir, não vai vaiar quando estiver odiando, vai aplaudir no final e, quiçá, aplaudir de pé, porque todo mundo costuma levantar ao seu redor e é chato ser o único a ficar sentado. Pois bem: quando o ator sai do palco e vem até nós, ele esculhamba com esta nossa marcação, nos obriga a improvisar. Não acho boa idéia. Um dia alguém da platéia também pode se sentir no direito de subir no palco de surpresa. Para interagir, ora.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
02/05/2004


Sinais e ruídos

Dizem que o homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Mas há outros sinais característicos

Confesso que tenho uma certa implicância com as pessoas que fazem aspas com os dedos. Você as conhece: quando querem mostrar que uma palavra da frase que estão dizendo deve ser entendida como sendo entre aspas, levantam as mãos e imitam o sinal gráfico com dois dedos de cada mão, um par de aspas gestuais em cada ponta da palavra dita, que paira, invisivelmente, a sua frente. Muitas vezes sacodem os dedos para enfatizar as aspas.

As que sacodem os dedos são as piores. Mas já me disseram que o hábito é uma apropriação de sinais escritos pela fala que pode ser a precursora de outras formas de integração das duas linguagens. Por exemplo: três estocadas do dedo indicador no ar no fim de uma frase, significando reticências, ou uma rápida meia-lua com o dedo, talvez acompanhada de um ruído qualquer, como "suish", para mostrar onde entrou uma vírgula. Estocada e "suish", ponto e vírgula.

Um golpe horizontal com a mão espalmada significaria travessão, o mesmo golpe mais curto significaria hífen e um decidido golpe de cima para baixo, na diagonal, acabaria com qualquer dúvida sobre se aquele "a" falado é com crase ou não. Além de gestos, as pessoas podem usar o tom de voz ou a postura do corpo para transmitir como seria a palavra se, em vez de dita, ela fosse escrita: um tom soturno denotaria uma palavra em negrito, uma inclinação do corpo indicaria que a palavra é em grifo, ou itálico. Etcetera, etcetera.

Dizem que o homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se vêem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa. O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem - ou, mais provavelmente, a mulher - sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

Sabe-se que a vida surgiu na Terra porque a combinação de condições - a nossa distância do Sol e a relação dos elementos na nossa sopa primeva - eram as ideais para haver vida. Isto foi um acaso que só aconteceu aqui e todo o resto do Universo é apenas um bonito cenário de fundo para a nossa excepcionalidade, ou o acaso se repetiu em várias galáxias? O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou como pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos. O que, de certa maneira, redime as aspas com os dedos, pois as aspas seriam anteriores à fala e não uma irritante novidade. A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro, e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite! Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltavam. No século 17, um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês e a serpente falava francês. Sempre a má-vontade com os franceses.

Na sua infância - a palavra "infância", por sinal, vem do latim "incapacidade de falar" - a humanidade não produzia palavras, mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum. Foi chamada de "teoria bow wow", e o nome já a desmentia, pois "bow wow" é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os lusobrasileiros fazem "au-au" e os japoneses, segundo os japoneses, "bau-bau".

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo, e o mundo, ou pelo menos a diplomacia, estaria em melhor estado se tivéssemos desenvolvido a capacidade de nos expressar com eles. Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão. Reuniões internacionais em que a comunicação se desse por meio dos nossos ruídos elementares certamente acabariam em entendimento e paz. E sem a necessidade de intérpretes.

Porque a verdade é que quando hoje se fala na linguagem humana como o que nos fez superiores aos animais e nos trouxe a civilização, esse "superior" e essa "civilização" são entre aspas.

Luis Fernando Verissimo está em férias.
O texto acima foi publicado na revista Donna ZH no dia 4 de maio de 2003.


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Moacyr Scliar
02/05/2004


De um diário californiano

Beverly Hills tem o seu jornal, mas recheado de notícias amenas. O único enfrentamento local parece envolver construtores e moradores

Beverly Hills é um bairro de Los Angeles tão famoso que chegou a dar nome a uma dieta (mais uma). Caminhar pelas largas ruas de Beverly Hills é conhecer um pouco do espírito de uma outra América, não a América de Nova York, ou da Costa Leste; a América emergente, que é, não raro, uma América arrogante, superficial e tola. Em Providence, onde passei um semestre como professor na Brown University, também caminhava por ruas de bairros de classe média.

As casas eram confortáveis, mas não luxuosas, todas feitas de madeira, e todas muito parecidas, dentro do espírito puritano dos primeiros colonizadores ingleses. Em Beverly Hills, não. As casas são diferentes umas das outras, mas o chamado estilo californiano não passa de uma mistura arquitetônica, não necessariamente de mau gosto, mas estranha, de qualquer jeito.

Não há grades, como no Brasil, mas em cada gramado está cravado um anúncio prometendo "resposta armada" a eventuais intrusos. Nas ruas, limpíssimas (a prefeitura cobra pesadas taxas, mas mostra serviço), nenhum transeunte, nenhum ônibus, nenhuma bicicleta, nenhuma moto: só carrões ou sofisticados utilitários que agora são a mania automobilística americana.

Beverly Hills tem o seu jornal. Só notícias amenas, naturalmente. O único conflito parece ser o que opõe os construtores de um novo hotel a moradores locais, enfurecidos porque o prédio terá uma agulha decorativa um pouco mais alta que o permitido na legislação. A favor do empreendimento está o grupo conhecido como Smart, esperto. Os americanos adoram acrônimos que formam palavras e este é um exemplo: as iniciais correspondem a Sensible Merchants And Residents Together (Comerciantes Sensatos e Residentes, Unidos). É o ideal da economia de mercado, mas será que isso existe na realidade?

A riqueza da região vem da indústria bélica e tecnológica, da agricultura (as famosas frutas) e, claro, do cinema. Embora os estúdios já não se concentrem em Hollywood, o nome continua sendo mágico. E é impossível não evocar cinema em Los Angeles.

Andando de carro, passamos pela casa de Shirley Temple, decorada com esculturas de personagens infantis; pelo hotel onde morou Marilyn Monroe e por outras mansões famosas. Diretores e atores famosos às vezes vão aos cinemas locais e depois da exibição dos filmes conversam com os espectadores. Podemos falar mal do cinema americano, mas temos de reconhecer: trata-se de uma cultura democrática. E não é a única forma de cultura: Los Angeles tem esplêndidos museus (o Getty é um assombro arquitetônico), concertos, peças teatrais, excelentes livrarias.

Mas a Feira do Livro, realizada no campus da UCLA, não foi o bicho. Barracas muitos elegantes, mas a maioria delas vendendo medíocres obras de auto-ajuda e de esoterismo - essas coisas que fizeram a fama da Califórnia. Havia mais tendas com comida do que com livros. Pode ser que a Califórnia seja o paraíso sobre a terra, mas em termos de Feira do Livro, fico com a nossa cinqüentenária.

A Feira do Livro, para onde fui levado por nossa Varig, é promovida pelo excelente Los Angeles Times, um dos principais jornais norte-americanos, e, como outros, um crítico feroz da política americana. Na edição de 21 de abril havia uma notícia particularmente amarga e irônica. Falava sobre um jovem jornalista iraquiano, Assad Khadim, que, diferentemente de muitos compatriotas, defendia a ocupação americana no Iraque como forma de introdução da democracia. Pois Khadim foi morto em seu carro. Guerrilheiros? Não. Balas americanas, num incidente confuso.

Mais um caso de fogo amigo, essta expressão que está se tornando um pesadelo em nossos tempos. No hotel em que fiquei, o jornal era colocado cada manhã em frente às portas dos quartos. Perguntei na portaria como poderia recebê-lo. A moça me disse que não havia jornal para todos e tudo o que eu tinha de fazer era surrupiar o jornal de alguém. Uma prática lição de imperialismo, que, para minha vergonha, não deixei de aproveitar.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
02/05/2004


Tapa com luva

Nunca antes se verificou entre nós o fenômeno que se dá agora: as vendas no comércio, nos shoppings, nos restaurantes, a demanda por ingressos nos cinemas e no futebol, enfim, todo tipo de aquisição e consumo cresce nos primeiros dias do mês.

E conforme vai se debilitando a capacidade aquisitiva da população à medida que se distancia o dia do pagamento dos salários, o consumo decresce espantosamente do meio para o fim do mês.

Até aí tudo bem, compra-se e vende-se mais no início do mês, quando as pessoas recebem o seu salário, vende-se e compra-se menos quando gradativamente a população já purga a escassez do dinheiro com o passar dos dias.

Só que os preços são os mesmos, tanto os do início do mês quanto os do meio e do fim do mês.

Com a gasolina, no entanto, em Porto Alegre, o mercado resolveu impor uma nova lei: o preço do produto aumenta no início do mês e depois do dia 10 começa a baixar em todos os postos.

Já há alguns postos de gasolina que estão avisando seus clientes de que os preços do produto aumentarão na segunda-feira.

Pode isso? Não vejo nenhum restaurante, por exemplo, aumentar seus preços no início do mês.

Os preços da entrada de cinema, do ingresso do futebol e do corte de cabelo são os mesmos no início do mês e no fim do mês.

Que estranha voltagem sazonal dos preços é essa que foi instituída no mercado dos combustíveis na Capital?

O que me parece sensato, talvez eu esteja errado nesse juízo, é que aumentem as vendas no início do mês, mas não aumentem os preços.

Os salários são pagos no início do mês. Mas isso não quer dizer absolutamente que as pessoas ganhem mais no início do mês.

O salário que se recebe no dia 5 ou no dia 10 é referente a todo o mês, logo não há justificativa plausível para essa flutuação do preço da gasolina, levando em conta a capacidade aquisitiva dos clientes.

Se não há aumento no preço da gasolina cobrado pelos distribuidores aos postos durante todo o mês, como podem os postos se arvorarem em juízes avaliadores da capacidade aquisitiva eventual dos clientes, castigando-os no início do mês e só vindo a aliviá-los dali a alguns dias?

A lei da oferta e da procura não se adapta neste caso, se se adaptasse, a alta dos preços no início do mês seria justificável.

A oferta e a procura de gasolina é igual no início, no meio e no fim do mês.

Que exótica lei de mercado é essa então, que decide aumentar o preço da gasolina no início do mês e só vir a baixá-lo no meio e no fim do mês?

Os postos de gasolina de Porto Alegre dariam um grande passo de confiabilidade junto a seus clientes se frustrassem essa expectativa (ou ameaça?) de que o preço da gasolina será aumentado na segunda-feira se mantivessem durante o início do mês os preços atuais.

Eu já escrevi aqui que um lucro sensato, civilizado, aceito pela sociedade, por parte dos postos de gasolina da Capital seria o auferido com o preço de R$ 2 a R$ 2,05.

É verdade que hoje os postos estão cobrando abaixo disso: a gasolina está entre R$ 1,94 e R$ 1,95.

Mas cobrar R$ 2,17 no início do mês e baixar depois para R$ 1,94 causa má impressão entre os consumidores.

Por que não tornar o preço da gasolina uniforme e fixo em todo o mês, sem essas variações amalucadas que se baseiam no estapafúrdio critério da data dos recebimentos dos salários?

Que belo tapa com luva os postos de gasolina dariam em todos nós, consumidores, se não aumentassem o preço nesta segunda-feira! Aí o aplauso da galera seria geral.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Diogo Mainardi
Os revoltados a favor

"Marcelo Coelho costuma atribuir-se o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo . Pobre Montaigne. Montaigne não tinha nada
do bom-mocismo conformista e pernóstico de Marcelo Coelho"

Participo de um programa de TV, Manhattan Connection. Entrei no lugar de Arnaldo Jabor. Um amigo meu chamou Arnaldo Jabor de "revoltado a favor". Antes ele era revoltado a favor de Fernando Henrique. Agora é revoltado a favor de Lula. Continua revoltado. Continua a favor.

Pior que Arnaldo Jabor é Marcelo Coelho. Apesar de viver num "mundo cultural com pouquíssimos pontos de contato com o da maioria da população", sendo avesso a "TV, música popular e futebol", Marcelo Coelho, logo depois das eleições, encantou-se com o "jeito maroto" de Lula, sua "figura antiépica", sua "espontaneidade bem no estilo de Rebolo e Pennacchi". Para Marcelo Coelho, Lula finalmente tinha livrado a política "das teorias, dos programas, das discussões partidárias". Um ano depois, ele se desiludiu. Lula passou a encarnar a "didática pequeno-burguesa, travestida de sabedoria popular, que se desmancha em lágrimas de pura parvoíce".

Lula mudou? Claro que não. Quem mudou foi Marcelo Coelho. Ele costuma atribuir-se o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo. Pobre Montaigne. Montaigne não tinha nada do bom-mocismo conformista e pernóstico de Marcelo Coelho. De hoje em diante, proíbo-o de citar Montaigne. Pode citar Habermas, se quiser.

A releitura do que se publicou na imprensa no período eleitoral deveria ser matéria obrigatória em todas as faculdades de jornalismo. Janio de Freitas saudou a eleição de Lula como um triunfo do humanismo sobre a tecnocracia, abrindo a esperança de um futuro melhor. Eliane Cantanhêde considerou a vitória de Lula "um marco de mudança, esperança, justiça, moralidade e igualdade".

O militante petista Luis Fernando Verissimo comemorou o fim do clientelismo e do fisiologismo dos tucanos, que se comportavam como "caddies miseráveis que adotam os hábitos dos ricos para os quais carregam o saco de golfe". Antonio Candido viu o começo de uma "fase redentora na vida nacional", em que a utopia se tornaria realidade. Essa gente acreditou mesmo no PT? Em todos esses anos de convívio eles nunca desconfiaram da inépcia e da falta de idéias dos dirigentes do partido? Era tão difícil assim perceber a impostura?

Quem também me espanta são esses retardatários que demoraram mais de um ano para descobrir que Lula é iletrado e não gosta de ópera. É pouco. É atenuar o problema. Falta de cultura virou um álibi para a palermice do governo. E o governo dá provas diárias de palermice. Na última semana, Lula prometeu diminuir a criminalidade alistando futuros traficantes nas Forças Armadas. Depois das cotas para negros nas universidades, ele quer esse outro tipo de cota nos quartéis. Como o recruta fará para demonstrar que é um traficante potencial? Basta um antepassado traficante ou ele próprio precisa ter passagens pela polícia?

Um dos poucos jornalistas que não se desiludiram com Lula foi o Ratinho. A recompensa por sua seriedade foi uma entrevista com o presidente. Eu sou menos sério que o Ratinho, mas também gostaria de entrevistar Lula. Vou ligar agora mesmo para seu assessor de imprensa, tentando marcar uma hora.

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O pano de fundo para o TOC é um medo, assim como ocorre no caso dos fóbicos. Só que os portadores de fobias têm um medo irreal em relação a um objeto real e evitam entrar em contato com o suposto perigo, para afastar uma crise. No caso dos obsessivo-compulsivos, é mais complicado. O que gera angústia é um pensamento que causa medo.

Para se livrarem dele, adotam comportamentos compulsivos. Um dos quadros mais comuns do distúrbio é o que envolve o medo obsessivo de contaminação um bom exemplo é o personagem de Jack Nicholson no filme Melhor É Impossível, que, entre outras manias, usava luvas quase o tempo todo, só comia com talheres descartáveis e não pisava nos rejuntes das calçadas. Alguns pacientes chegam a se lavar com produtos pesados de limpeza, como água sanitária e detergente, só porque encostaram em outra pessoa. Muitos não se contentam com um banho.

Só se tranqüilizam depois de vários e longos banhos. "A diferença entre a mania saudável e a patológica é muito mais quantitativa do que qualitativa", afirma o psiquiatra Márcio Versiani, coordenador do Programa de Ansiedade e Depressão da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A doença se manifesta, enfim, quando as manias incapacitam para as atividades cotidianas.

As vítimas de TOC são como Sísifo, personagem do clássico Odisséia, poema épico de Homero. Como castigo por ter enganado Zeus, o deus dos deuses, Sísifo foi condenado a levar uma pedra enorme até o topo de uma montanha para vê-la sempre rolar até o sopé e começar tudo de novo. Em O Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo, o escritor francês Albert Camus (1913-1960) escreve: "Se esse mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria a sua tortura se, a cada passo, a esperança de conseguir o ajudasse? Sísifo, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição.

É nela que pensa durante a sua descida". Os obsessivo-compulsivos têm consciência de que seus pensamentos e atitudes são completamente ilógicos. Ainda assim, como Sísifo, eles têm plena consciência de seu martírio, mas não conseguem se livrar da condenação imposta por suas mentes.

O impacto do TOC pode ser devastador. Depois de acompanhar cerca de 700 pacientes, médicos do Hospital Mount Sinai, em Nova York, concluíram que 70% deles tiveram suas relações familiares estraçalhadas pela mania patológica. Nove de cada dez obsessivo-compulsivos sofrem de baixa auto-estima. Não é de estranhar, portanto, que o transtorno freqüentemente se faça acompanhar de outros distúrbios psiquiátricos, sobretudo depressão, dependência do álcool e fobias específicas. Não bastasse a angústia provocada pela doença em si, o TOC faz com que o paciente carregue o peso da vergonha.

Por isso, os doentes tendem a camuflar os sintomas e custam a procurar ajuda. "Entre o surgimento dos primeiros sinais e o diagnóstico de TOC, os pacientes levam, em média, dezessete anos", diz o psiquiatra Eurípedes Miguel, coordenador do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo, da Universidade de São Paulo. "O problema é que, quanto mais tempo um paciente passa sem tratamento, mais os sintomas se intensificam."

Sem ajuda, a doença é incontrolável. "É uma luta inglória, com derrota garantida", define Ana Beatriz Barbosa Silva, no livro Mentes e Manias. Os pensamentos repetitivos e as idéias fixas acabam congestionando o cérebro. Todos os rituais a que os pacientes se submetem como forma de afastar as obsessões estimulam ainda mais esses pensamentos. O contrário também dá na mesma: se eles tentam não executar as tarefas que se impõem, as obsessões ficam mais fortes. O círculo é vicioso: as obsessões deflagram compulsões que reforçam as obsessões. Não raro, os rituais compulsivos não guardam nenhuma relação lógica com a obsessão que os origina. É infernal.

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Pensamentos que atormentam e comportamentos que se repetem

As obsessões são pensamentos ou idéias recorrentes. As compulsões são ações ou atitudes repetitivas. Em 90% dos casos de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), as duas estão associadas. As vítimas de TOC são levadas a cumprir o que os médicos chamam de "rituais compulsivos". Na mente dos pacientes, eles servem para aliviar a angústia causada pelos pensamentos obsessivos. Os mais comuns são:

SIMETRIA
O que é:
Cuidado extremo com exatidão ou alinhamento de objetos. Às vezes, ao tocar algum objeto ou alguém sem querer com um dos braços, a pessoa sente que tem de fazer o mesmo com o outro braço
O relato de um caso:
"Quando via os CDs do meu quarto fora de ordem, ficava angustiado, com a sensação de que eu ou meus pais poderíamos sofrer um acidente"

MENTAL
O que é:
A pessoa tem certeza de que se não cumprir determinadas "tarefas mentais", como repetir inúmeras vezes uma mesma frase ou palavra, jamais ficará livre dos pensamentos ruins que a assombram
O relato de um caso:
"A estrela de cinco pontas é um símbolo místico: com a ponta virada para cima representa o Bem; com a ponta virada para baixo, o Mal. Adivinha em qual eu pensava? Toda vez que a estrela virada para baixo me vinha à cabeça, e isso acontecia toda hora, eu tinha de repetir mentalmente o nome de alguns anjos: Gabriel, Miguel, Rafael..."

CONTAMINAÇÃO
O que é:
Medo desmedido de se contagiar por vírus, bactérias ou substâncias tóxicas. Esse tipo de obsessão está associado a rituais de limpeza e lavagem
O relato de um caso:
"Fico desesperado quando encosto sem querer em alguém na rua. Imediatamente acho que a pessoa está doente e que eu posso ter pego aids. Só me tranqüilizo depois de passar horas no banho, me limpando"

SOMÁTICOS
O que é:
Preocupação excessiva com doenças, mesmo que a pessoa não apresente nenhum sintoma
O relato de um caso:
"Vivo achando que estou com câncer. Não sinto nada, sei que não tem nada a ver, mas essa idéia me atormenta o tempo inteiro"

DÚVIDAS
O que é:
Preocupação constante com o fato de não confiar em si mesmo. É quase impossível estar seguro de ter mesmo realizado determinada tarefa
O relato de um caso:
"Qualquer coisa que faço me deixa sempre com uma interrogação na cabeça: 'Será que fiz mesmo?' ou 'Será que eu fiz direito?' Não tenho segurança, nem paz. Minha vida é um inferno"

AGRESSÃO
O que é:
A sensação de que se está na iminência de ferir ou insultar alguém. Isso tende a levar a rituais de verificação
O relato de um caso:
"Depois que meu filho nasceu, minha mania de só fechar as gavetas de talheres quando eles estivessem arrumadinhos piorou bastante. Passei a pensar que, se fechasse a gaveta e alguma faca se deslocasse lá dentro, seria capaz de pegá-la e ferir meu filho (...) Como quando eu fechava a gaveta das facas não conseguia ter certeza de que, ao fechá-la, nenhuma faca tinha saído do lugar lá dentro, ficava abrindo e fechando a gaveta muitas vezes"

COLECIONISMO
O que é:
Idéia fixa em colecionar determinados objetos ou não se desfazer deles, por achar que tudo poderá ser útil no futuro
O relato de um caso:
"Comecei a juntar jornais há quinze anos. Tenho todos eles até hoje. Não consigo jogar nenhum exemplar fora com medo de que algum dia eu venha a precisar de alguma informação contida ali"

RELIGIOSO
O que é:
Pensamentos freqüentes de blasfêmias e pecado
O relato de um caso:
"Sempre que via a imagem de Jesus crucificado, com apenas um pano enrolado em seu corpo, me vinha à cabeça a imagem dele fazendo sexo com Maria. Eu não consigo evitar esses pensamentos e estou sempre à espera da punição"

SEXUAL
O que é:
A mente pode ser dominada por pensamentos obscenos e impulsos incestuosos, indesejados ou impróprios, que causam enorme sofrimento à vítima do TOC.
O relato de um caso:
"Evito sair de casa por medo de não conseguir tirar os olhos dos órgãos genitais de quem encontrar na rua ou de fazer propostas indecorosas a quem eu julgar atraente"

Fontes: Albina Rodrigues Torres, psiquiatra e professora do departamento de neurologia e psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu ­ Universidade Estadual Paulista, e Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra e autora do livro Mentes e Manias.

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Sem obsessão não há paixão

Divulgação

No século XVIII, o escritor francês Sébastien-Roch Nicolas Chamfort (1741-1794) escreveu: "Todas as paixões são exageradas e são paixões apenas porque exageram". Hoje, com a criação de máquinas capazes de flagrar o cérebro em pleno funcionamento e o avanço dos estudos sobre biologia evolucionária, a ciência vem comprovar que não havia nenhum exagero nas palavras de Chamfort. Os sintomas despertados pela paixão são arrebatadores.

A lógica, a concentração e a racionalidade dão lugar à imagem da pessoa desejada. A lembrança dela volta à cabeça constantemente, mesmo contra a vontade. A obsessão é um elemento intrínseco à paixão. "O apaixonado tende a ficar focado única e exclusivamente em seu parceiro", disse a VEJA o psiquiatra americano James Leckman, da Universidade Yale e um grande especialista no assunto.

Em Sex and the City, um dos seriados americanos de maior sucesso, Carrie, a personagem de Sarah Jessica Parker, amava Mr. Big, interpretado por Chris Noth (foto à dir.). Em dado momento, era tão apaixonada que só falava e pensava nele. Uma obsessão que fez com que Carrie levasse puxões de orelha das amigas Samantha, Charlotte e Miranda.

O pensamento obsessivo quanto ao ser amado é até certo ponto importante porque exclui a percepção dos defeitos do outro. Segundo os teóricos evolucionistas, essa característica facilita a perpetuação da espécie. Quem já se apaixonou sabe do que se fala aqui. No início do romance, nada nem ninguém é tão perfeito quanto o objeto da paixão. Em perfeita sintonia, os apaixonados só têm olhos um para o outro ¿ o que barra a interferência de terceiros no relacionamento.

A obsessão típica dos amantes faz com que as pessoas desenvolvam a capacidade de interpretar sinais dados pelos parceiros e, com isso, antecipar suas ações e seus desejos. E esse é o tipo de comportamento que só reforça os laços afetivos entre os apaixonados. Deliciosa é a cumplicidade implícita na troca de olhares dos enamorados ¿ obra da obsessão (saudável) de um pelo outro.

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Alô doçura

Década de 50 é a preferida de jovens estilistas, que vestem as cariocas com romantismo e ingenuidade

Marcia Disitzer


Amanda Haegler (E) e Maria do Rosário, da Q-Guai, e a coleção new vintage: a modelo usa saia de tweed (R$ 157) e blusa (R$ 82)

Saia rodada, decote tomara-que-caia, escarpim de bico fino, laços, poá e um quê de nostalgia e ingenuidade. As peças típicas do estilo da década de 50 voltam à cena e são reinterpretadas por jovens estilistas que só conhecem os anos dourados por filmes, musas e fotos.

Um pouco de escapismo ou apenas uma obsessão fashion, não se sabe. O que se sabe é que nas passarelas internacionais basta ver o desfile de verão da grife italiana Prada e nas coleções de outono-inverno das nossas meninas a década de 50 está com tudo. Katia Wille, 33 anos, da grife Zigfreda, acredita que o sufoco de agora é a razão deste eterno retorno. É uma tentativa de fazer as coisas ficarem mais floridas. A vida anda muito dura e a moda dos anos 50 mostra uma realidade positiva, afirma ela, que criou vestidos com saia godê e boleros bem curtinhos, todos à venda na badalada Clube Chocolate.


Amanda Mesquita (E) é dona da loja Mamãe Q Fez, com visual totalmente 50. Na modelo, saia de poá (R$ 62) e blusa (R$ 35)

Maria do Rosário Faria, 27 anos, e Amanda Haegler, 25, que assinam o estilo da marca Q-Guai, também embarcaram no túnel do tempo e pararam lá. Essa é a nossa segunda coleção. Na de verão fizemos peças mais casuais, mas na de outono que se chama new vintage preferimos investir no glamour e na festa, conta Maria. Para isso, usamos tecidos dos anos 50, como tweed e tule, com modelagem de agora, emenda a estilista, que garante que as clientes estão amando essa onda de feminilidade. No ateliê da dupla, além das roupas no clima 50, até a tábua de passar é forrada de poá. Mais retrô, impossível.

No caso de Amanda Mesquita, estilista e dona da Mamãe Q Fez, a paixão pela década de 50 vai além das tendências. Esse é o conceito da minha loja, explica. Acredito nas princesas urbanas, que aliam o romantismo com a praticidade dos dias de hoje. Vivemos num mundo sem lugar para fantasia e na moda isso é possível, analisa. Na loja, segundo Amanda, sempre tem saias de poá, com direito a anágua de tule, e blusas ingênuas.


Katia Wille, da marca Zigfreda, usa vestido da sua coleção de outono com decote tomara-que-caia e estampa metalizada (R$ 980)

Layana Thomaz, 26 anos, lança na terça-feira a coleção de outono da sua marca Vista a Roupa Meu Bem!. O tema? Anos 50, sou retrô, justifica ela, mostrando o vestido de algodão estampado, bem rodado, com jeito de boa-moça. É a maneira que a moda tem de pedir suavidade nesses dias de bomba.

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Procura-se um garçom

Luizão quer alguém no Botafogo para lhe servir a bola, diz que não desaprendeu a fazer gol e espera desencantar hoje contra Criciúma
Marco Senna


Almir (E) e Luizão sabem que o Botafogo terá um adversário muito difícil pela frente, em Santa Catarina

A insatisfação em ver o Botafogo na lanterna do Campeonato Brasileiro não é só da torcida. Principal nome do Alvinegro, o atacante Luizão revelou seu descontentamento com o fraco rendimento do time. Ele se queixou após o treino de ontem, em General Severiano de estar muito isolado no ataque; de não receber bolas em condições de finalizar. O artilheiro só espera que o quadro mude na partida de hoje, contra o Criciúma, às 16h, no Estádio Heriberto Hulse, em Santa Catarina. O Botafogo soma apenas um ponto, em nove disputados, e tentará a façanha de vencer, e fora de casa.

O time não está criando nada. A bola só chega através de balão para a área. Preciso de municiadores para balançar a rede do adversário. Em dois jogos, tive apenas uma oportunidade de marcar (referiu-se ao jogo contra o Atlético-MG). A equipe não está bem e todos sabem disso. Não desaprendi a fazer gol depois de velho. Estou perto dos 30 anos, desabafou Luizão.

Perguntado sobre quando marcou seu último gol, o atacante teve de puxar pela memória para se lembrar: Acho que foi em novembro (de 2003), e de cabeça.

Luizão ainda não se arrependeu de trocar o Hertha Berlim, da Alemanha, pelo Botafogo. Mas deixou claro que só aceitou atuar no Alvinegro por causa do presidente Bebeto de Freitas. Apostei na palavra dele de que contrataria dois grandes jogadores. Estou esperando, disse. Quanto à aquisição de um novo técnico, Luizão mandou um recado para os candidatos: Quem vier, terá muito trabalho.

Com relação às críticas de que estaria gordo (fora de forma), Luizão reagiu com naturalidade. Se os gols não saírem, a torcida vai pegar no meu pé. Mas quem sabe não faço contra o Criciúma e que seja o gol da vitória?, minimizou.

Matter lança Túlio e Ruy e adota esquema cauteloso

Além da volta de Túlio, no lugar de Têti, o técnico Luiz Matter modificará a postura tática do time: jogará fechado na defesa, explorando os contra-ataques. O Goiás fez isso, no Caio Martins, e nos goleou, observou Matter, à espera de uma partida difícil. O Criciúma está invicto e ocupa a sexta posição. Mas se jogarmos com a determinação que nos fez reagir diante do Atlético-MG, podemos ganhar, acredita.

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Sorteio alterou a vida de desempregado

Graças à iniciativa de um comerciante de Santana do Livramento, lançada no 1º de Maio do ano passado, a rotina de desemprego de Adalberto Jorge Corrêa Flores, 47 anos, foi interrompida no segundo semestre de 2003. Ele foi premiado com uma vaga em uma das três lojas de hortigranjeiros de Carlos Davi Gauer e, durante três meses, recebeu salário de R$ 340. Foi uma mudança de vida. Depois de ficar sete anos vivendo apenas fazendo biscates, o emprego novo revigorou as esperanças. Mesmo tendo saído do estabelecimento de Gauer ao final do contrato de experiência, hoje Flores tem outra atividade. Trabalha como caixa em outra empresa da cidade.

- Sempre gostei de trabalhar e quero me aposentar. Com 47 anos não é fácil conseguir trabalho com carteira assinada - diz Flores.

A promoção lançada por Bauer em maio foi interrompida quatro meses depois, por sugestão do Ministério Público do Trabalho. Ele sorteava entre seus clientes três empregos por mês, um para cada loja. Para concorrer às vagas, os clientes que fizessem compras nos estabelecimentos preenchiam cupons e depositivam em uma urna. A iniciativa chegou a provocar um aumento de 40% no movimento em uma única semana. O MPT considerou a iniciativa uma infração aos princípios do trabalhador.

Logo depois da suspensão dos sorteios, as vendas e o faturamento caíram e os 12 contemplados foram dispensados ao final dos contratos de experiência.

- Quando tínhamos a promoção, o movimento era enorme. Não vamos conseguir repetir esse sucesso nunca mais. Valeu a pena. Tinha gente até de outras cidades da região colocando as cartelas nas urnas - disse Gauer.

Não é sempre assim, se estava dando certo e mais pessoas estavam tendo a primeira experiencia com carteira assinada e todos os direitos sociais percebidos, porque acabar coma iniciativa? Esta acredito seja uma das pseudo-éticas...


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Lya Luft
01/05/2004


Águas

Todos falam ao mesmo tempo, entendendo-se de alguma forma nessa confusão familiar. Na falsa posição honorária de uma ponta da mesa, ou a um canto dela, um velho come de cabeça baixa. Porque está surdo? Porque está desatualizado, incapaz de acompanhar? Ou porque ninguém se lembra de virar-se para ele e perguntar algo além de um apressado "Quer arroz, vovô?" "Mais carne, vovó?" "Mãe, quer dessa saladinha?"

Um adolescente agressivo reprime uma dor para a qual não vê solução. Seu comportamento, que perturba e preocupa, pode ser um pedido de socorro que não chega ao destino. Sem conseguir entender isso, os adultos se irritam: "A gente faz tudo por esse menino, e ele nunca parece contente!"

Alguém da família não se enquadra na moldura dos preconceitos, e mudam o tom de voz quando falam dele ou dela: "Será...?", decretando que está lançado às trevas exteriores. Uma solidão a mais foi instituída neste mundo.

Uma distração qualquer, e a mão que se estende chega tarde, o pulso já fora cortado; por um fio, por um minuto, o avião havia partido, o telefone estava fora do gancho. Foi egoísmo nosso, futilidade, aridez? Descartamos o que não faz parte do nosso mundo. Porque somos perversos? Talvez apenas porque somos assim.

O momento de lucidez dói como facas e ficamos cheios de boas intenções. Mas aí o telefone toca, o carro enguiça, a empregada não vem, o amor chama, a morte assusta, e tudo se dilui no torvelinho que nos arrasta.

Homens trancados nos quartos remoem traição e abandono. Sofreram grosserias, têm medo porque o dinheiro é pouco, perderam o emprego e não sabem como dizer isso à família. Homens retornam de viagens e no abraço da amada redescobrem ternuras, renovam-se para outros trabalhos, talvez novas frustrações.

Mulheres velam ao lado de doentes cuidando de cada respiração sua, procurando no rosto a luz do antigo riso, querendo daquela mão o gesto de bondade, compreensão nos olhos apagados. Assistem a essa inestancável devastação com a dor de quem prepara a mala de um filho que vai viajar para muito longe.

Toda essa realidade - que inclui nascimento e velhice, crianças doces e caras murchas, corpos sensuais ou mentes confusas - escorre como um mar incessante pelo qual passamos enquanto ele, estranho e belo, permanece - e nem sabe de nós.

lya.luft@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
01/05/2004


A volta da sinceridade

Apartir do salário mínimo de R$ 260, inaugura-se no Brasil uma nova fase política e eleitoral. O presidente Lula foi flagrado em deslize de demagogia irrecuperável: prometia nas eleições o Éden de um salário minimo que teria o dobro do seu valor real, no exercício da presidência não cumpre com a promessa e fixa o salário mínimo abaixo dos US$ 100.

Revela-se agora que como candidato Lula foi irresponsável e como presidente é responsável. Se concedesse o salário mínimo que prometera, estouraria com as contas da Previdência e arrebentaria com o o orçamento, o que jogaria o país no caos econômico.

Lula vive assim o ápice de seu inferno astral como presidente, nas suas aparições mostra a fisionomia carregada de quem foi apanhado em truque eleitoral.

Lula e o PT vivem o imenso desgaste da promessa não cumprida, restando "prestigiada" apenas no partido a figura do senador Paulo Paim, que incrivelmente tenta o malabarismo de sobreviver como petista, protestando contra o salário mínimo insatisfatório, o que é um outro truque eleitoral e político: não cabe em qualquer mínima compreensão ética que Lula e o PT sucumbam à frustração de não honrarem com sua promessa, enquanto o senador gaúcho do PT continue a faturar os dividendos políticos e eleitorais, no jogo de cena de revoltar-se contra a medida do governo do seu partido.

Se quiser mostrar-se coerente e impávido na sua luta por um salário mínimo maior e mais digno, o senador Paulo Paim terá de deixar o PT.

Se continuar no PT, soará como inaceitável que ele lucre sempre politicamente, quando os governos a que fazia oposição não davam o salário mínimo que pedia - e agora quando o governo que apóia e do seu partido também arroche o salário mínimo.

Não é sensato que todos do PT se desgastem com o salário mínimo insuficiente e o senador Paim, que sempre foi o arauto do salário mínimo digno e constitucional, saia fortalecido do episódio.

Seria uma mambembe e escarrada prestidigitação.

Mas volto à nova fase político-eleitoral que o país viverá a partir do desencanto definitivo entre o que os políticos prometem na oposição e o que depois praticam no governo.

Isso sempre foi assim, só que o PT era o último baluarte e esperança de que esse estratagema fosse desmascarado, com a quebra dessa tradicional cadeia de hipocrisia.

Todos votaram em Lula e no PT com a expectativa de que no governo Lula reinaugurasse a sinceridade na política. Era a última chance da ética na política.

Caiu por terra. Agora se sabe infelizmente que todos os partidos e todos os candidatos são iguais. E os eleitores terão de ser doravante céticos com todos eles.

Eu não tenho dúvidas de que nas eleições deste ano e de 2006 haverá o maior índice de votos em branco da história política brasileira.

Vai demorar muito tempo até que o eleitorado se recupere dessa imensa frustração.

Em compensação, vai ser muito difícil, quase impossível, que daqui por diante não sejam desprezados nas urnas os que insistirem com as falsas promessas e as genuínas demagogias.

Fica restaurada, tomara que para sempre, a sinceridade na política brasileira.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Diplomacia
Surge o megamercado europeu



Ampliação histórica da União Européia, com a adesão de mais 10 países, cria uma potência econômica que abrange 450 milhões de consumidores (foto François Lenoir, Reuters/ZH)


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Sexta-feira, Abril 30, 2004




Quero ser grande

Pesquisa inédita retrata o mapa da juventude brasileira. Apegada à família, conservadora e preocupada com a
violência e o desemprego, ainda luta por independência e valoriza a solidariedade


Camilo Vannuchi e Juliana Vilas colaboraram: Marina Caruso e Thiago Asmar

O vendedor Reinaldo Oliveira sonha com o emprego ideal: das oito da manhã às cinco da tarde, com remuneração justa e convênio médico

Eles temem a violência, correm contra o desemprego, são contra a descriminalização da maconha e a favor da diminuição da maioridade penal. Ouvem Zezé di Camargo e Luciano, admiram Ayrton Senna e preferem continuar na casa dos pais. Mas adoram a sensação de liberdade e acham que podem mudar o mundo. O mapa da juventude no Brasil surpreende por combinar traços de conservadorismo com pinceladas de maturidade.

Foi o que mostrou a mais abrangente pesquisa com jovens já feita no Brasil, divulgada na semana passada. Realizado pelo Instituto Cidadania ONG fundada por Lula há quase 15 anos e responsável por programas como o Fome Zero, o levantamento faz parte do Projeto Juventude, que tem como objetivo municiar os governos federal, estaduais e municipais com elementos úteis para a elaboração de políticas públicas direcionadas a essa faixa etária.

A turma de 15 a 24 anos tachada de geração Coca-Cola e, mais recentemente, de geração zapping (aquela que faz tudo ao mesmo tempo e não se concentra em nada) espelha idéias, temores, crenças e hábitos semelhantes aos de outras idades. Entre novembro e dezembro de 2003, foram aplicados 3.500 questionários domiciliares, cada um com 158 questões, em todos os Estados, distribuídos por região de moradia, gênero e idade, conforme padrões sugeridos pelo Censo.

Em Brasília, o Grupo Interministerial da Juventude, coordenado pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, acompanha os trabalhos e promete aproveitar os resultados da pesquisa na formulação de programas. As necessidades dos jovens sempre foram tratadas de forma fragmentada. Queremos criar políticas nacionais que integrem os ministérios, diz Luiz Dulci. Muitas vezes, as soluções mais criativas partem da sociedade civil. E o Projeto Juventude teve o ineditismo de ouvir os jovens para saber quais são suas demandas, elogia.

Mais do que um desejo, resolver a falta de oferta de trabalho é obsessão da grande maioria dos jovens. As duas maiores preocupações apontadas pela pesquisa são o desemprego e a violência, destaca um dos diretores do Instituto Cidadania, Pedro Paulo Branco. Entrar no ensino médio ou na universidade não é mais garantia de ingresso no mercado. Ao mesmo tempo, aumenta a situação de risco da população de 15 a 24 anos, maior vítima da criminalidade, diz.

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A carioca Luana Felippe tem medo de sair de casa à noite e de pegar ônibus: Moro perto de um morro e estou acostumada a ouvir tiroteios

Contrato A educação não é a principal atividade dos jovens. Há mais brasileiros de 15 a 24 anos no mundo do trabalho (76%) do que nas salas de aula (64%). Isso não significa que eles tenham contrato e carteira assinada, já que dos que realizam alguma atividade econômica, 65% estão no mercado informal e 86% ganham ou ganhavam menos de dois salários mínimos por mês em sua última atividade.

O número de jovens à procura de emprego (40%) é maior do que o número de empregados (36%). Há dois meses sem trabalho, o paulista Reinaldo Ferraz de Oliveira, 23 anos, sonha com o emprego ideal: das oito da manhã às cinco da tarde, perto de casa, com remuneração justa e convênio médico. O que era para ser regra virou objetivo de vida. Segundo a pesquisa, se pudessem criar uma cláusula, os jovens decretariam o direito a um emprego, mesmo sem experiência.

Reinaldo tem experiência como vendedor. Mas isso não significa muito. Quando comecei a trabalhar, aos 16 anos, a situação era melhor. Hoje, quem consegue emprego não está livre do terrorismo psicológico. Você é explorado e, se reclamar, ainda escuta o chefe dizer que existe um monte de gente para ocupar seu lugar, reclama. Ele mora em Embu, na Grande São Paulo, com a mulher, Edna, que também está desempregada e grávida de quatro meses. Sabendo que a família vai aumentar, Reinaldo distribui seu currículo por aí. Terei de sustentar três pessoas. Pelo menos agora, ninguém me chama de vagabundo. Quando se é desempregado e solteiro, a gente se sente ainda mais marginalizado, diz.

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A produtora cultural Maíra Castilho acredita que a família é o que dá segurança. Ela mora com a mãe, Nani Bernardo, e não pretende sair de casa tão cedo: Trocamos confidências e conselhos

Mais do que garantia de futuro, trabalhar é sinônimo de dignidade em um país que trata como heróis jovens que conseguem o primeiro emprego. A passagem para a vida adulta acontece quando a pessoa se torna capaz de produzir e reproduzir. Hoje, parte da problemática juvenil está no degrau entre esses dois momentos.

Mesmo capaz de reproduzir, o jovem ainda não conquistou sua capacidade produtora, sua independência, afirma a socióloga Helena Abramo, parceira do Projeto Juventude na avaliação dos dados. O sociólogo francês Pierre Bourdier diz que juventude é apenas uma palavra. Para os jovens, é um período que termina com a maturidade e a capacidade de cuidar de si mesmos. Mas suas preocupações são muito parecidas com as de seus pais. Basta verificar que violência e emprego são os assuntos mais recorrentes na pesquisa, diz Helena.

A falta de emprego é considerada o principal problema do Brasil, seguido pelo excesso de violência. Se pudessem, em um passe de mágica, mudar qualquer coisa em sua vida ou no mundo, 29% dos entrevistados acabariam com a violência, a resposta mais comum. Segundo estudo recente da Unesco, a faixa etária dos 15 aos 24 anos concentra a maior proporção de vítimas de homicídio no Brasil.

Em 2000, houve 27 homicídios a cada 100 mil habitantes. Essa taxa sobe para 57 quando considerados apenas os jovens. No mesmo ano, foram assassinadas 2.220 pessoas com exatos 20 anos, a idade mais crítica. Existem jovens ligados a pastorais, movimentos culturais e de ação comunitária e existem aqueles ligados ao tráfico de drogas e à criminalidade. Todos têm suas necessidades, alerta Jorge Werthein, diretor da Unesco no Brasil.

Pânico De todos os Estados do País, o Rio de Janeiro é o que apresenta o maior índice de homicídios de jovens. Dados como esse, aliados às frequentes notícias de conflitos entre traficantes, só aumentam o pânico dos moradores da capital. Eu moro perto de um morro e estou acostumada a ouvir tiroteios. O crime acaba prendendo a gente em casa. Penso duas vezes antes de sair à noite, diz a estudante carioca Luana Felippe.

Aos 18 anos e sem carteira de motorista, de tanto ouvir histórias, a moradora do Rio Comprido (bairro da zona norte cercado por favelas) não quer nem andar de ônibus. Muitos amigos meus já foram assaltados. Um dia, um ladrão tentou roubar meu amigo pela janela do ônibus, conta. Mesmo apaixonada pelo Rio, Luana está decidida a deixar a cidade assim que concluir o curso de ciências sociais. Quero me mudar para uma cidade onde possa andar sem medo de criminosos. Este não é o ambiente que desejo para meus filhos, lamenta.

Na maioria das vezes, o estreitamento da relação com a família serve de estratégia para driblar o medo das ruas e do futuro. Em um meio social hostil, com desemprego e violência, a família vira porto seguro, avalia o sociólogo Gustavo Venturi, diretor da Criterium, realizadora da pesquisa. Mesmo que o controle dos pais seja considerado, por muitos jovens, empecilho para o exercício da liberdade, é nítido o caso de amor entre essa geração e seus pais. Para 48% dos entrevistados, o apoio da família é o fator mais importante em suas vidas, à frente do esforço pessoal, preferido por 32% deles. Três quartos da amostra consideram a vida na família mais importante para o amadurecimento do que a vida na escola, na rua, no trabalho ou na Igreja.

Relações A produtora cultural paulista Maíra Castilho, 21 anos, acha que, antes de estabelecer novas relações, a família é o que dá segurança. Maíra mora e trabalha com a mãe, Nani Bernardo, e diz que a relação entre as duas é de muita amizade. Como ela é liberal, trocamos confidências e conselhos. As brigas são passageiras e a gente tem certeza do amor de uma pela outra, comenta ela, que não pretende sair de casa tão cedo.

Se pudessem decidir sem se preocupar com nenhum fator (lê-se dinheiro em primeiro lugar), apenas 17% dos jovens que moram com os pais sairiam de casa. Quase a metade nem sequer tem planos de morar sem eles. Mesmo entre os maiores de 21, apenas 22% sairiam já. Isso não significa que a juventude é acomodada. Ela é apenas mais longa do que há alguns anos, diz Venturi.

A mesma juventude que não quer sair de casa e considera a liberdade para curtir a vida sem compromissos a maior vantagem da idade não economiza elogios a valores como solidariedade e respeito às diferenças. Para Venturi, que viveu sua juventude nos tumultuados anos 70, isso demonstra uma evolução, pelo menos na teoria, em relação à sua geração. Em nossa época, lutávamos por justiça social, mas não tínhamos conceitos como o de respeito às diferenças e o de solidariedade. Aliás, nossa geração fazia um patrulhamento ideológico enorme, lembra ele.

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Corremos contra o relógio para conciliar estudo e trabalho. O esforço para garantir o emprego é tanto que não sobra tempo para nada, diz a estudante Camila Pires, que criou um blog na internet

No entanto, apesar do discurso solidário, ainda são poucos os que se mobilizam para pôr a mão na massa. Apenas 2% dos jovens já participaram de algum trabalho social ou têm algum empreendimento voltado para o benefício de sua comunidade. Dos demais, 68% nunca pensaram em fazer algo semelhante.

Também o engajamento em movimentos estudantis e de cunho político tem sido suplantado por um individualismo crescente, por mais justificado que seja. A minha geração corre contra o relógio para conciliar a faculdade com o trabalho. O esforço para garantir o emprego é tanto que não sobra tempo para nada, diz a estudante de hotelaria paulista Camila Pires, 20 anos. Já pensei em ser voluntária. Mas isso exige dedicação, tempo e disciplina. Meu estágio ficaria comprometido e eu tenho de ser contratada.

Quem vê de fora acha que é egoísmo, diz ela. Os termos egoísmo e individualismo, no entanto, foram substituídos por umbigocentrismo. É esse o nome do blog que Camila criou para difundir o movimento na internet. O umbigocentrista é aquele que tem momentos egocêntricos, explica. Como 95% das pessoas na sua faixa etária, Camila nunca se filiou a um partido político. Nem participou de um sindicato, como 99% dos jovens, ou do grêmio, como 89% deles. Aos 20 anos, nunca foi a uma manifestação de rua.

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Ao contrário do que se imagina, a maioria dos jovens prefere relações estáveis. O estudante Felipe
Abenza faz eco: Prefiro namorar a ficar. O sexo é mais gostoso quando há intimidade

Pode-se perceber que as instituições clássicas de participação e representatividade estão em crise. No entanto, há quem diga que movimentos culturais como o hip hop começam a desempenhar papel semelhante ao ajudar os jovens a costurar uma ideologia e a criar vínculos de solidariedade e cooperação. O coreógrafo e dançarino Ivaldo Bertazzo percebe isso no grupo de jovens da periferia de São Paulo que integram o projeto Dança Comunidade, coordenado por ele.

São mais de 50 jovens que trocaram um sentimento de abandono e de baixa auto-estima pela sensação de sucesso ao serem aplaudidos de pé. Projetos coletivos consistentes, tanto os elaborados a partir da dança e da música quanto do esporte, devem ser valorizados por seu poder de formação e de aglutinação. Ninguém sai da mesma forma que entrou, diz, satisfeito com a repercussão do espetáculo Samwaad: rua do Encontro, que seus aprendizes encenam de quarta-feira a domingo no Sesc Belenzinho, em São Paulo.

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Simpatizante do Partido Progressista e eleitor de Paulo Maluf, Fernando Farah polemiza: Não entendo quando querem defender os direitos humanos dos presos

Drogas Quem está acostumado a acompanhar pela imprensa pesquisas sobre jovens feitas em sua maioria apenas nas capitais e grandes cidades pode cometer a injustiça de generalizar a faixa etária como usuária de drogas e praticante do sexo sem compromisso. Aliás, já virou tradição considerar a juventude folgada e preguiçosa. Quando perguntamos aos jovens qual o maior problema de suas escolas, a maioria responde que o problema são eles, que fazem bagunça, não cuidam das salas de aula e desrespeitam o professor.

Estão tão acostumados a ser chamados de violentos, egoístas e irresponsáveis que adotaram uma visão supernegativa de si mesmos, diz a socióloga Miriam Abramovay, da PUC de Brasília. Um comportamento cada vez mais conservador acaba resultando desse policiamento. Com tanta pressão, os jovens preferem reproduzir os hábitos de seus pais a continuar ouvindo tantas críticas, diz ela.

Segundo o levantamento, apenas 10% dos jovens já usaram maconha e 3%, cocaína. Enquanto isso, 81% dos jovens são contra a descriminalização da maconha e 86% defendem a realização de exames antidoping nas escolas. No espectro político-ideológico, a maioria nutre mais simpatia pela direita do que pela esquerda. A esquerda sempre discorda de tudo e, quando ganha, não mostra resultados, justifica o estudante de direito.paulistano Fernando Farah, 21 anos. Simpatizante do Partido Progressista e eleitor convicto do ex-prefeito Paulo Maluf, chega a repetir o discurso de seu ídolo quando o assunto é segurança pública. Não entendo quando querem defender os direitos humanos dos presos. Os bandidos ficam na cadeia à custa do dinheiro do povo e saem em seguida. E quais são os direitos das vítimas?, questiona.

Religiosidade Como a maioria de seus contemporâneos, Fernando nunca fumou maconha, repudia a legalização do aborto e condena a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Casamento, só para heterossexuais. Hoje todo mundo se junta. Mas casar na Igreja é fundamental, defende. Outro aspecto marcante na nova geração é o resgate do sentimento religioso.

Perguntados sobre qual seria o valor mais importante em uma sociedade ideal, parte significativa dos jovens escolheu o Temor a Deus, a resposta mais frequente. Mas essa religiosidade não tem mais o significado de fuga ou alienação que tinha para a geração anterior. Ela é uma espécie de alicerce para pensar o futuro, diz a antropóloga Regina Novaes, presidente do Instituto Superior de Estudos da Religião do Rio de Janeiro. Crer não é mais coisa de velho. Faz parte do cotidiano da juventude, principalmente numa época em que a maioria escolhe a própria religião, diz.

No exercício da sexualidade, nota-se um apego a valores que pouco remetem à propagada liberdade sexual. Em uma época em que os beijos rolam soltos e o ficar supera o namorar, a maioria dos jovens continua tendo suas relações sexuais com parceiros estáveis. A última relação sexual de 63% dos jovens aconteceu com um parceiro estável e 36% deles definiram o relacionamento com a última pessoa com quem foram para a cama como eventual. Para o estudante de administração Felipe Abenza, 20 anos, os números fazem todo sentido. E não demonstram um comportamento careta. O sexo é mais gostoso quando há intimidade. Emendei quatro namoros seguidos.

O mais longo durou dois anos e meio. Em um casal, os dois já sabem do que o outro gosta, explica ele. Felipe faz parte da turma de 59% de jovens que disseram ter usado camisinha na última relação. Quase todos os que não usaram se disseram casados e/ou dispostos a ter filhos. Felipe só deixa de lado a camisinha quando o namoro é de longa data, se a garota tomar anticoncepcionais e tiver feito exame de HIV. Ele também integra a maioria de jovens que, em respeito à família, não leva a parceira para dormir em casa. Também evita passar a noite na casa de Fernanda, 21 anos, sua namorada há seis meses. Tanta prudência tem um lado bom. Mas não custa nada lembrar que essa é a hora de curtir a vida.

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Pouca grana, muita diversão
Na última sexta-feira do mês, o Show & Lazer mostra como sair de casa gastando pouco. Tem caipirinha, filme e show, cada um a apenas R$ 2.
Zean Bravo


Cauã Reymond: na Livraria da Travessa

Fim de mês é sempre igual: falta grana, mas ainda há disposição de sobra para sair. Para fazer muito com pouco, o Show & Lazer preparou um roteiro com programas para orçamentos apertados, seja qual for a sua: noitada, cinema, literatura, teatro ou show. Na Feira de São Cristóvão, por exemplo, diversão não é sinônimo de gastar muito. Na mão de Edmar Lopes, dono da barraca Capetão Show, vários drinques saem por R$ 2 (caipirinha de cachaça).

A de vodca custa R$ 3 e as caipifrutas são 60 tipos, incluindo as exóticas de sirigüela e tamarindo vão de R$ 2 a R$ 6, dependendo do tamanho. Os drinques fazem o maior sucesso, gaba-se Edmar, criador de bebidas como o Viagrinha (hortelã, xiboquinha, fogo paulista e leite condensado), de R$ 3. O freqüentador Glaicon Serafim, 36 anos, aprova a mistura da feira. Todo mundo se diverte com pouco dinheiro, diz.



Paulinho da Viola, Wagner Tiso e Velha Guarda da Portela

Outra pechincha imperdível é o show de Paulinho da Viola e Velha Guarda da Portela, que viverá encontro inédito amanhã com a Orquestra Petrobras Pró Música e Wagner Tiso, no Teatro Municipal. A apresentação os ingressos vão de R$ 2 a R$ 10 , é a primeira da série de concertos OPPmpb & Jazz. Já o Espaço Star One Rio Design, na Barra, oferece sessão gratuita do divertido Pantaleão E As Visitadoras, e a elogiada animação Bicicletas De Belleville por R$ 2. Hoje e amanhã, a Cobal de Botafogo abriga o Animação Drive-In na Cobal, que exibirá 35 desenhos num telão de 8x3 metros.

De graça. Outro programa que não custa nada é passar horas ouvindo discos e foleando livros na Livraria da Travessa. Quando pintar a grana, é só voltar para comprar. Os atendentes são legais e abrem CD para você ouvir, conta o ator Cauã Reymond, cliente também da Letras e Expressões, Argumento e Dantes. Adoro ver livros de fotografia. Sempre que vou trocar idéia com alguém marco um chá na Travessa.



Hip hop no viaduto de Madureira

Para os agitados, a boa é o Absolut Club, em São Gonçalo, com promoções em que se compra uma cerveja por R$ 3 e ganha-se outra. Em Madureira, sob o viaduto Negrão de Lima, rola todo sábado baile black com charm, hip hop e cerveja a R$ 1. É barato e tem gente bonita, elogia a cabelereira Ana Cláudia Moura, 26 anos. Quer melhor?

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Foi mesmo o mínimo: R$ 20

Governo Lula decide pelo menor valor entre os que estavam nas discussões sobre o reajuste do salário, que sobe para R$ 260



BRASÍLIA - Após três semanas e 22 horas de negociações, o Governo anunciou que o valor do salário mínimo será de R$ 260 a partir de amanhã. A informação foi dada pelo ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, após a quinta reunião sobre o tema no Palácio do Planalto. O reajuste representa um aumento de 8,3% em relação ao salário vigente, de R$ 240, e fica 1,73% acima da inflação. Com o novo valor, a hora trabalhada fica em R$ 1,08.

Além do aumento do mínimo, o Governo reajustou o salário-família, de R$ 13,48 para R$ 20. Só vão receber esse valor pais e mães de crianças até 14 anos que ganhem até um salário mínimo e meio (R$ 390). Para valores maiores o benefício atinge quem recebe até R$ 586 , o salário-família será de R$ 14,09.

Na queda-de-braço do mínimo, prevaleceu a posição da área econômica do Governo. Nas diversas reuniões que teve nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a defender que o valor deveria ser próximo a R$ 270. Durante a campanha eleitoral, ele prometeu dobrar o valor real (acima da inflação) do mínimo. A resistência a um aumento maior partiu do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que argumentava que um reajuste acima de R$ 260 causaria impacto negativo na Previdência e desequilibraria as contas das prefeituras.

Para definir o reajuste, Lula também enfrentou divergências com os partidos que sustentam seu Governo no Congresso e com as centrais sindicais. O valor de R$ 260, aliás, frustra as pretensões dos sindicalistas, que defendiam até R$ 300.

O ministro do Planejamento, Guido Mantega, informou que os reajustes terão impacto de R$ 650 milhões para a Previdência. O dinheiro virá do excesso de arrecadação. Ele reconheceu que o mínimo precisa de reajustes maiores, mas frisou que o aumento foi o possível para manter a disciplina fiscal. Não estou envergonhado, garantiu, ao ser questionado sobre o aumento de apenas R$ 20.

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Mauren Motta
30/04/2004



A pulga Madonna

No último sábado, fui para São Paulo. A viagem era para cobrir o maior evento de música eletrônica do país. A caminho do Anhembi, sentada na van junto com outros jornalistas forasteiros, relembrei a vez em que fui a São Paulo assistir ao show da Madonna. Sempre adorei a deusa do pop. Naquele tempo de grana curta, eu fazia tipo de fã acomodada.

Obviamente que, quando soube que ela viria para o Brasil, fiquei tentada a ir ver de perto. Indecisa, perdi o prazo para compra do ingresso. Quando faltava uma semana para o bendito show, um amigo apareceu com um ingresso sobrando. Resolvi encarar, parecia tudo perfeito. Era sorte demais, praticamente um sinal divino, e eu tinha de ir!

De mochila nas costas, rumei para a casa da Karina. Ela é minha amiga de infância e tinha se mudado para a capital paulistana para tentar a vida de atriz. E lá estava eu, felicíssima, acomodada na quitinete dela. Ela também iria ao show, o único problema é que os nossos ingressos eram com acessos diferentes. O portão dela era oposto ao meu.

Acabei indo com duas outras amigas. Encaramos dois ônibus de linha até chegar ao Estádio do Morumbi. O trânsito caótico de São Paulo fez com que a gente chegasse superatrasadas. Depois de ficar numa fila imensa, fomos barradas na boca da catraca. O porteiro avisava que tinham sido vendidos ingressos a mais, e que a lotação daquele portão estava ESGOTADA!

Como assim? Eu tava com o ingresso na mão e queria entrar! Ele gritava: "Ingressos verdes, acesso no próximo portão!". Saímos correndo, com o resto da fila, para o lado errado. Resultado: volta olímpica no estádio e 50 minutos de show perdidos. Desconsolada, jurei que nunca mais encararia tal empreitada. O meu lugar era horrível. Além de ter perdido Like a Virgin, a Madonna parecia uma pulga da onde eu estava. Em casa, encontrei a Karina com uma cara jururu, sentada no sofá. Com ela a história foi pior: um gatuno bateu sua bolsinha e levou o ingresso, ainda na fila, antes de o show começar. Ficamos traumatizadas.

Agora, a coisa foi diferente. O bom de ser repórter e ser convidada para shows em outras cidades é que a gente tem a maior mordomia. A produção te paga passagem, busca no aeroporto, te hospeda num hotel legal e te dá acesso livre. Você pode ver do palco as atrações, trocar uma idéia com os astros e circular pela área VIP. O Skol Beats deste ano foi maravilhoso. O único problema é que você trabalha tanto que a noite passa e você acaba curtindo pouco.

Eu e o Diógenes, meu cinegrafista, ficamos perambulando no meio de uma massa de 45 mil pessoas catando depoimentos para a nossa história. O resultado vocês conferem amanhã no Patrola. Quanto à Madonna, quem sabe eu ainda tenho a sorte de conhecê-la de perto?

Beijolas animadas.

mauren@rbstv.com.br

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David Coimbra
30/04/2004


Democracia envergonhada

Já contei do meu amigo que apanhava da mulher? Devo ter contado. Ele apanhava mesmo. De sair sangue e arroxear. Começou com um beliscão no braço, por algum motivo. Ele não se irritou. Ao contrário: chamou-a de tiutiuquinha, lambuzou-a de atenções, tudo para lhe aplacar a fúria. Na briga seguinte, o beliscão foi mais forte.

- Aaaaai - ganiu meu amigo, se encolhendo todo.

E foi lá acarinhá-la, perguntar o que tinha havido, pedir desculpa, amoreco. Na terceira discussão, ela lhe estourou uma bofetada no lado da orelha. Meu amigo se espantou. Saiu de casa tonto, o rosto latejando. Voltou com flores e jujubas, querendo saber se ela estava mais calma.

Assim por diante. Quanto mais ela batia, mais amoroso ele se tornava. Quer dizer: se a mulher quisesse ser bem tratada, bastava cobri-lo de porrada. Foi o que ela passou a fazer. Surrava-o sistematicamente, a socos e pontapés. Insultava-o aos berros, o edifício inteiro ouvia. Estão juntos há anos.

Alguém pode achar que meu amigo gosta de apanhar. Nada disso. Ele sofre. Quanto a ela, sofre também. Ela não queria bater nele, claro que não. Queria que ele se impusesse. Anseia por isso. Mas a fronteira do bom senso já está lá atrás.

É o que não se pode deixar acontecer. Pois em todas as relações humanas os limites são testados. A criança testa a mãe, o funcionário testa o chefe, um amigo testa o outro. A cada um cabe estabelecer o limite.

Meu amigo foi leniente demais, cândido demais. Como a democracia brasileira. O brasileiro crê que democracia é permissividade. Em que país do mundo alunos, professores, sem-terra, com terra, desempregados, empresários, em que país do mundo qualquer paspalho carregando um cartaz escrito a hidrocor fecha uma via pública quando bem entende? Nenhuma democracia autêntica permite tamanho desrespeito. Só uma democracia envergonhada, feito a brasileira.

Agora, todas essas pessoas que protestam levantando barricadas e trancando o trânsito, o que elas esperam que o poder público faça? Que as impeça! É tudo que elas querem. Um governo que demonstre com franqueza e racionalidade não aceitar protestos à margem da lei é um governo que, afinal, tem condições de resolver as questões pelas quais são feitos os protestos.

Mas não sei se o Estado brasileiro tem essa capacidade. Nunca teve. Nem na ditadura o poder público soube definir com clareza os limites da sua relação com o cidadão. Só que, naquela época, era um Estado acostumado a bater. Agora, acostumou-se a apanhar.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
30/04/2004


Os batedores de carteira

A barra anda tão pesada em todos os aspectos, que só pode não ter depressão quem for irresponsável.

Tempos gloriosos aqueles, até os anos 50, em que a maior preocupação da polícia e dos porto-alegrenses era, em matéria de segurança pública, os batedores de carteiras.

Não havia assaltos em Porto Alegre e apenas engatinhavam os arrombamentos de residências.

Homicídios eram raros, os que havia eram quase sempre passionais. Seqüestro era uma palavra desconhecida.

A supremacia dos batedores de carteiras nos atentados à propriedade era a prova insofismável de que o crime, naquele tempo, não enveredava pela violência.

O batedor de carteira não causava qualquer dano à integridade física das suas vítimas, ele apenas se insinuava nos bondes, principalmente, secundariamente em qualquer aglomeração, praticava a sua punga com extraordinária habilidade, entregava a carteira da vítima para um outro parceiro que se encarregava de fugir e de evitar o flagrante.

Quando as pessoas percebiam que tinham suas carteiras surripiadas, algumas vezes ainda estavam próximas do batedor de carteira, recordavam-se de que tinham sofrido um assédio corporal dele, prendiam-no ou solicitavam à polícia que o prendesse, mas a essa hora o cúmplice a quem havia sido entregue a carteira já estava longe.

No máximo o batedor de carteira era mantido preso por 24 ou 48 horas. Naquele tempo não havia como hoje a rigidez da polícia de não manter preso alguém sem ordem judicial.

Os batedores de carteira eram todos conhecidos, estampavam nos jornais as suas fotografias.

Quando eu era garoto, entrava num bonde lotado, onde ninguém podia se mexer, e freqüentemente notava que os batedores de carteira estavam agindo. Um pressionava a pessoa pela frente, outro lhe retirava a carteira do dinheiro do bolso de trás.

Eu nunca entendi por que, durante mais de um século, todos os homens guardavam suas cédulas de dinheiro em uma carteira - e sempre no bolso de trás. Desabotoar o bolso de trás da vítima e enfiar nele o dedo médio e o indicador, sugando-lhe com a torquês digital a carteira, era uma obra de engenho e arte que os batedores de carteira de Porto Alegre aprendiam nos presídios com os maiores batedores de carteiras do mundo, os chilenos.

A suprema façanha de um punguista era surripiar a carteira da vítima do bolso interno do paletó. Quem conseguia isso num bonde ou na fila do cinema era venerado como mestre pelos seus cúmplices.

Para chegar a tal destreza, os punguistas gastavam 15 anos de experimentos.

As delegacias de polícia tinham trabalho com furto de galinhas, brigas de vizinhos, estelionatos (contos do pacote), frivolidades.

As janelas das casas ficavam escancaradas no verão e na primavera, cadeiras preguiçosas nas calçadas, um furto de automóvel por ano.

Tempos gloriosos aqueles da não-violência. Será possível que um dia eles possam voltar?

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Futebol
Os Menudos do Grêmio



Marcelinho, Leanderson e Bruno (acima), que foram destaques da goleada sobre o Corinthians, ganharam o apelido do centroavante Christian, fazendo alusão ao grupo musical porto-riquenho que fez sucesso a partir do final dos anos 70 (foto Paulo Franken/ZH)


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Quinta-feira, Abril 29, 2004




Termômetro do amor

(Por Michel Cutait)

Será que é possível medir o amor? Descobrir sua intensidade, sua amplitude e seus limites? Quem não gostaria de saber e tomar consciência de quanto amor temos a oferecer, de quanto temos a receber e de quanto estamos dispostos a aceitar? Não são perguntas fáceis de responder, principalmente porque o amor não é um fenômeno físico, matemático ou quântico, mas temos alguns meios para descobrirmos aquilo que parece ser incomensurável.

Quando nos relacionamos com alguém, investimos nossos sentimentos, nossos sonhos e nossas expectativas na pessoa que amamos, mas também oferecemos nosso comprometimento, nossa dedicação e nossa atenção que, salpicados de muitas outras atitudes, retribuições e cessões, fazem nascer em nossos corações aquilo que imaginamos que seja o amor.

Mas para sabermos da medida do amor, não nos valerá a tentativa de utilizarmos o próprio amor como medida de si mesmo, porque ele é volátil, abstrato e imponderável.

A medida que poderemos nos valer para descobrirmos isso é a tolerância.

A tolerância não é a simples aptidão de aceitar ou de transigir. A tolerância é a expressão física e psicológica dos nossos limites mais íntimos, é a amplitude daquilo que somos capazes de fazer, de deixar fazer ou de ultrapassar. A tolerância é o cume, o ápice da nossa personalidade.

Ninguém ultrapassa seus próprios limites, mas isso só é possível saber quando a tolerância seja vencida pela intolerância.

Então, o que é tolerável? A traição é tolerável? A deslealdade é tolerável? A ofensa é tolerável? A violência é tolerável? O desrespeito é tolerável? Depende. A tolerância varia de pessoa a pessoa, segundo uma série de valores, de sentimentos, de códigos de conduta e de comportamentos. O que é tolerável a mim pode não ser ao outro e vice-versa.

Mas, o que o amor tem com isso? A tolerância pode ser o termômetro do amor porque quem ama tolera, quem ama aceita, quem ama transige, quem ama cede, quem ama doa, quem ama perdoa, quem ama é capaz de ultrapassar até mesmo aquela série de barreiras morais e sociais que nos são apresentadas como invencíveis.

O amor tem a medida da tolerância. Sabemos de quanto amor sentimos enquanto toleramos.

Quando a tolerância passa a ser intolerância, é sinal de que o amor chegou ao fim. Não o fim do sentimento em si, mas sim o fim da quantidade que dele usufruímos e sentimos.

Livres e conscientes somos capazes de afirmar que não aceitamos a traição. Às vezes é verdade, mas muitas vezes temos um amor tão grande, tão intenso e tão forte pela outra pessoa que somos capazes de sublimar e abstrair a traição porque nosso amor ainda é o suficiente para tolerar aquilo.

Quando perdoamos alguém estamos manifestando nossa tolerância e, muitas vezes sem saber, estamos atestando nosso amor.

Amamos até o ponto que toleramos. Esse limite é físico e psicológico. Ninguém faz aquilo que seu corpo, verdadeiramente, não suporta fazer. Claro que estamos considerando à exceção, aquelas situações de constrangimentos físico e moral insuperáveis, porque essas não são representativas da nossa vontade. Mas, ao contrário da exceção, nosso corpo, nossas reações e nossas atitudes são as melhores, senão as únicas demonstrações daquilo que somos capazes de tolerar em nome do amor ou até mesmo em nome de outros sentimentos.

Entre um casal tantas são as experiências possíveis, mas vamos imaginar que um dos parceiros, após uma séria discussão, perdeu a razão e partiu para a violência física contra o outro. Será que um amor é capaz de tolerar uma violência? Para a maioria de nós não, mas para aqueles que amam, talvez. E isso só será possível saber se observarmos a reação e a atitude concreta daquele que sofreu a violência. Quer dizer, se ele continuar ao lado do outro ainda que sob o peso da angústia, do medo e da sujeição, mas ainda assim, manter o relacionamento, então podemos saber que a tolerância dessa pessoa ainda não alcançou o seu limite e portanto o amor ainda é capaz, pasmem, de aceitar até mesmo aquela situação de violência.

Mas não é só a violência que submete o amor aos testes da tolerância, todas as outras situações e atitudes que contrariem aquilo que consideramos como razoável e aceitável segundo os critérios morais, sociais e culturais de cada um, todas elas podem servir de exemplo.

E qual a vantagem de saber sobre o quanto de amor nós sentimos ou recebemos? A vantagem é que assim podemos ficar conscientes sobre os nossos sentimentos, podemos compreender nossas atitudes, podemos aceitar nossas decisões e podemos ficar em paz com nossa vida e com as pessoas com quem nos relacionamos, porque, enfim, conheceremos a medida do nosso amor e o que ele é capaz de realizar.

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Quinta, 29 de abril de 2004, 11h29
Prazo termina amanhã. Não deixe para a última hora

O prazo para a entrega do Imposto de Renda Pessoa Física 2004, ano-base 2003, termina amanhã às 20 horas e cerca de 3 milhões de pessoas ainda não prestaram as contas com o Leão. Se você encontra-se nessa situação, a recomendação é correr e não deixar para a última hora.

O supervisor nacional do programa do Imposto de Renda, Joaquim Adir Fiqueiredo, alerta que a partir das 20 horas de amanhã o sistema não recebe mais nenhum documento. "É melhor não deixar para últimas hora, pois o sistema trava e o contribuinte pode não conseguir concluir o envio da declaração", destacou.

Desta forma, para quem ainda não fez a prestação anual de contas, a dica é fazer o mais rápido possível e evitar começar o processo perto das 20h de amanhã.

A expectativa da Receita é completar até as 20h desta sexta-feira o recebimento de 18 milhões de declarações. De acordo com Joaquim Adir, a Receita está recebendo cerca de 100 mil declarações por hora, o que sinaliza que entre hoje a amanhã devem ser encaminhados as 3 milhões de declarações que faltam.

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Quinta, 29 de abril de 2004, 14h09
Brasileira dá 'aula de sedução' para inglesas

Em uma réplica de um motel, em plena Oxford Street, em Londres, os clientes da loja de departamentos Selfridges terão a oportunidade de conhecer os "segredos" da sensualidade da mulher brasileira.

Esse será o estande, no evento Brasil 40º, da Madame V, codinome para Vanessa Senem, uma mineira que está ganhando fama com sua coleção de lingeries de mesmo nome - seus produtos já são vendidos na Inglaterra, Espanha, e, em breve, Itália e Rússia.

Mas a Madame V não vai apenas vender calcinhas e sutiãs sexys no evento londrino. Vanessa e sua equipe de nove Madames V (todas brasileiras, é claro) darão aulas de sedução.

"Vamos falar sobre como usar o corpo para se comunicar, desde o andar da garota de Ipanema, usando os quadris, até os olhares e trejeitos", conta Vanessa. "Esse é o charme: conseguir as coisas sem ter que pedir."

Cenário
Vanessa diz que a réplica do motel foi "uma forma engraçada de representar a sensualidade brasileira".

"O conceito brasileiro de motel não existe em qualquer lugar do mundo", afirma.

A idéia é ensinar o que as brasileiras fazem para cultivar sua beleza, como manicure e pedicure, cuidados com a pele, receitas de cremes, máscaras e esfoliantes, usando produtos como o mamão papaya, mel e arnica.

As aulas de sensualidade ainda terão dicas de massagem, aromaterapia, culinária com ingredientes afrodisíacos e jogos eróticos. Tudo para "manipular o seu relacionamento com maior teor de feminilidade".

A Madame V diz que o seu conceito de sedução é que as pessoas se tornam sedutoras porque elas têm algo a oferecer.

"Você se apaixona por um homem porque ele é inteligente ou tem um corpo maravilhoso ou tem status ou dinheiro. Então minha primeira lição é tentar descobrir o que você tem de bom para oferecer ao outro", afirma a mineira.

"A Madame V é uma revolução feminina, para a liberação do feminino. Nós damos poder para que ela possa investir nela mesma e no seu relacionamento", diz.

As aulas são gratuitas e nenhum produto é comercializado, garante Vanessa. "É um trabalho de caridade", ressalta.

"Essa é a parte que dá prazer, que é trabalhar com a mulher e todo mundo chora, ri, aprende e quebra os tabus".

Experiência
Mas algumas estrangeiras, que participaram de aulas da Madame V, não se mostraram tão impressionadas.

A repórter do jornal britânico Independent, Hermione Eyre, que escreveu uma matéria sobre a Madame V, se mostrou um pouco cética quanto à lição de que as mulheres podem conseguir "tudo em sua vida" usando os quadris.

"Ela diz isso com tanta convicção que eu quase acredito. Mas, daí, me lembro que estamos lidando com homens britânicos", escreve.

Vanessa, no entanto, diz que isso não é problema. Ela conta que já está planejando dar aulas ao público masculino na Inglaterra. "Vamos começar com círculos fechados, nada aberto ao público", conta. Mas a empresária não dá mais detalhes sobre o que vai ensinar aos ingleses.

Uma repórter da revista Elle participou, junto com suas amigas, de uma aula de sedução. A lição começa com a Madame V tentando fazer as garotas relaxarem, mas não consegue.

"Infelizmente, com sua pele cor de caramelo e um extraordinário par de seios brasileiros, ela está conseguindo o oposto. Todas têm um sorriso tenso", descreve.

Mas logo o ambiente fica mais descontraído e a jornalista comenta: "A brasileira de 29 anos é, sem dúvida, a mulher mais sexy que já encontrei... E quando ela nos ensina como passar pedaços de laranja de boca em boca, ela chega bem perto... Isso nos hipnotiza. É uma mistura de conversa e coisas práticas".

"No final da noite, com a ajuda de baldes de Veuve Cliquot, ela nos tem como parceiras, tentando seduzir umas às outras por meio da dança. O clímax da noite é com a deprimente visão de nós balançando nossa região pélvica na cabeça das outras".

No outro dia, a jornalista pergunta para suas amigas se a aula deu resultado. Foi "engraçado", "útil" e "fez diferença", dizem. Mas uma delas comenta: "De jeito nenhum vou lavar minha 'punani' (gíria inglesa para vagina) com leite de cabra e mel!".

Imagem
E tudo isso não reforça, de forma negativa, a imagem sexualizada que se tem da mulher brasileira no exterior? Madame V insiste que não.

"Acho que vai ser uma oportunidade maravilhosa de poder explicar as coisas", diz.

"As pessoas que entendem que vão chegar lá para ter uma aula de sacanagem vão encontrar uma mulher brasileira muito linda. As pessoas me perguntam qual é o segredo da mulher brasileira, eu digo que nós somos 'mães brasileiras', temos muito carinho. Nós recebemos muito amor, então sabemos distribuir também".

Vanessa afirma que quem for no seu estande na Selfridges vai entender que a brasileira é "especial" porque ela "acredita em si mesma, aposta no feminino, que compete com o homem, mas sem deixar de rebolar".

"Não vamos ter vibrador, mas, sim, cristais, aromatizadores de ambiente, flores secas, óleos de massagens. Nada de kama sutra, coisas para o sexo", salienta.

"Essa relação com o exotérico brasileiro vai ser muito mais forte do que qualquer outro relacionamento que se possa ter entre o Brasil e a prostituição, por exemplo".

"O que a gente mostra é o que a brasileira tem de melhor: carisma, charme, carinho. E eu acho que é o que apaixona, não é?".

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A frente e a traseira do Astra possuem linhas marcantes, que conferem ao modelo um aspecto robusto

A General Motors do Brasil apresentou na terça-feira em sua pista de testes em Indaiatuba o segundo lançamento do ano. Está chegando na rede de concessionárias Chevrolet a linha 2005 do Astra, recheada de novidades com o padrão de qualidade que se tornou referência no mercado.

Campeão de vendas na categoria desde o seu lançamento, em 1998, o Chevrolet Astra conta agora, na linha 2005, com o excelente motor 2.0 litros 8 válvulas Flexpower, que pode ser abastecido com álcool, gasolina ou a mistura de ambos em qualquer proporção. É a primeira vez que um motor com sistema multicombustível é oferecido para um veículo do segmento compacto. A linha Astra é, sem dúvida, a mais completa do mercado nacional com a versão hatchback de 2 e 4 portas, o modelo sedã, além do esportivo GSi.

O Astra 2005 segue a tendência adotada na recém lançada linha Zafira com novas versões em configurações específicas: Comfort, Elegance e Elite, com acabamentos e estilos diferenciados.

Com a introdução da nova motorização 2.0 Flexpower, a linha Astra passa a contar com três conjuntos mecânicos, sendo: 2.0 Flexpower com 8 válvulas, 2.0 16V adotado na versão esportiva GSi e 1.8 8V a álcool, utilizado no Astra Sedã, para, basicamente, o mercado de frotistas e taxistas, além, é claro para o público em geral.

Motor bicombustível
A linha 2005 do Chevrolet Astra conta agora com três opções de motorização sendo uma totalmente nova: 2.0 litros 8 válvulas Flexpower, equipada com o sistema eletrônico Flex Fuel, desenvolvido pela Bosch em parceria com a Powertrain para a General Motors. Os motores 2.0 16V e 1.8 8V álcool não sofreram alterações.

A nova motorização é baseada na consagrada família II, com 2.0 litros. A potência máxima varia de 127,6 cavalos de potência com o uso exclusivo do álcool a 121 cv com gasolina, ambos a 5.200 rpm. O torque é de 19,6 kgfm com o álcool e de 18,3 kgfm com gasolina. A taxa de compressão passou de 9,8:1 para 11,3:1.

O modelo recebeu também o sistema de acelerador eletrônico (drive by wire), tecnologia que proporciona maior conforto ao dirigir e retomadas mais precisas.

Desempenho e economia
O Chevrolet Astra 2.0 Flexpower 2005 apresenta números empolgantes, tanto de desempenho quanto de economia. Todos os números superam a versão anterior, mesmo utilizando somente gasolina. Quando passamos para álcool esta superação é ampliada ainda mais. Utilizando álcool a velocidade máxima é de 203 km/h, com a aceleração de 0 a 100 km/h em 9,1 segundos. Já quando utilizamos a gasolina a velocidade máxima fica em 198 km/h, com a aceleração de 0 a 100 km/h em 9,8 segundos.

Se o desempenho é ligeiramente inferior com o uso da gasolina, nos números de consumo as posições se invertem. Utilizando apenas gasolina o Astra Flexpower percorre 10,0 km/l na cidade, 15,7 km/l na estrada com uma média de 12,6 km/l. A autonomia chega a 816 km. Quando se abastece com álcool o Astra percorre 7,2 km/l na cidade, 10,8 km/l na estrada, fazendo uma média de 8,8 km/l. A autonomia é de 562 km. Esses números refletem uma melhoria em termos de performance e consumo em relação à linha 2004.

Visual marcante
A frente e a traseira do Astra possuem linhas marcantes, que conferem ao modelo um aspecto robusto. Na parte dianteira do Astra, há faróis com elementos distintos (farol baixo, alto e pisca) que propiciam um visual moderno, além de maior eficiência na iluminação. O capô que cobre o motor forma um conjunto harmônico com o pára-choque dianteiro.

Um item marcante na dianteira é a grade frontal, que também possui uma barra cromada central integrada ao logo da marca, a tradicional gravata Chevrolet. A rigor, as linhas do Astra contribuem para solidificar a tendência do "design" já empregado com sucesso no restante da linha Chevrolet.

A traseira do Astra 2005, a tampa do porta-malas em conjunto com as lanternas, formam um visual "clean" (limpo). Os emblemas utilizados realçam a identificação do veículo.

A linha 2005 do Chevrolet Astra chega às concessionárias nas cores Azul Perseus (perolizada), Bege Nevada (metálica), Cinza Colima (metálica), Prata Escuna (metálica), Branco Mahler (sólida) e Preto Liszt (sólida). Além do Vermelho Lyra (sólida) exclusivo do modelo GSi 2.0 16V.

Espaço interno
A linha 2005 do Chevrolet Astra passa a contar com quatro versões de acabamento com conteúdos e características diferentes:

Comfort: versão de entrada da linha Astra, ela incorpora vários equipamentos considerados fundamentais e muito valorizados pelos clientes que exigem conforto, tais como ar-condicionado, trio elétrico e direção hidráulica.

Elegance: versão intermediária da linha Astra destina-se a clientes que, além do conforto, valorizam muito um visual elegante e diferenciado, ela incorpora itens de aparência, segurança, conforto e conveniência adicionais aos encontrados na versão Comfort.

Elite: versão "topo de linha" da linha Astra, destina-se a clientes que exigem exclusividade e o máximo em conforto, sofisticação e segurança, como "air bags" laterais, freios com sistema ABS com EBD (Eletronic Brake Distribution - sistema eletrônico de distribuição de frenagem), rádio CD player com controles no volante e revestimento de couro nos bancos e painéis de portas.

GSi: versão esportiva da linha Astra, disponível apenas na motorização 2.0 16V, feita para clientes que buscam o máximo em esportividade, tanto no visual quanto no desempenho diferenciados.

Os painéis de instrumentos também são novos. Moldura preta, fundo cinza, grafismo branco e ponteiros laranja para a versão Comfort e moldura preta com fundo branco, grafismo e ponteiros pretos com anéis cromados, trazendo mais requinte e sofisticação para as versões Elegance e Elite.

Segurança
O Astra 2005 tem equipamentos para segurança ativa e passiva. Ativa é aquela que previne os acidentes, com sistemas que auxiliam o motorista, em os principais destaques temos: Os freios são a disco ventilados nas rodas dianteiras, o que proporciona frenagens em curtos espaços e com excelente trajetória. Na versão Elite e GSi há freios a discos também para as rodas traseiras. O sistema antitravamento (ABS) com distribuição eletrônica de frenagem (EBD) com sensores nas quatro rodas está presente nas versões Elite e GSi (exceto Y7U).

Para a segurança passiva há os itens que diminuem os efeitos em caso de um acidente e como principais destaques o Astra oferece para as versões Elegance (exceto R7B), Elite e o esportivo GSi, os "air bags" frontais. As versões Elite e GSi (exceto Y7U) recebem também os "air bags" laterais, alojados nos encostos dos bancos dianteiros.

Preços
Os preços da Chevrolet para o Astra 2005 sofrem variações conforme o modelo escolhido pelo cliente. A versão hatch 2 portas do modelo Comfort custa R$ 40.180,00. Na sedã Eliete com transmissão automática, o preço salta para R$ 59.990,00. O Astras sedã a álcool 1.8 custa R$ 42.590,00 e o GSi 16 V à gasolina sai por R$ 48.800,00.

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Banco aumenta tarifas
Instituições reajustam seus serviços em 11,73% desde setembro. Diferenças chegam a 369,57%
Lúcio Santos

Os 10 principais bancos do País aumentaram suas tarifas em 11,73%, em média, de setembro a março, período em que a inflação pelo INPC foi de 3,97%. A constatação é do Procon-SP, após pesquisa feita entre 2 e 4 de março, que apontou também uma diferença de até 369,7% entre a menor e a maior tarifa cobrada.

Este é o caso da emissão e segunda via do cartão magnético de conta especial. A maior taxa, de R$ 10,80, é cobrada pelo Itaú, e a menor, de R$ 2,30, é do Santander. Para esse serviço, porém, Banco do Brasil e Unibanco nada cobram.

Na hora de abrir uma conta corrente, é sempre bom fazer uma pesquisa nos principais bancos para saber quanto cada um cobra pelas tarifas dos serviços prestados. Muitos são isentos e isso pode baratear bastante a vida financeira do cliente.

O Procon-SP analisou também a evolução das tarifas de 1996 até agora e constatou que só 67% dos bancos cobravam pela renovação do cadastro da pessoa física para contas especiais naquele ano. Hoje, 90% cobram por esse serviço.

A tabela ao lado mostra, entre as instituições financeiras que cobram tarifas, qual é a mais barata e qual é a mais cara, além da diferença entre eles. Veja tambem os bancos que nada cobram por alguns serviços.

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Quarteto desafina

Ainda não foi desta vez. Ramon, Roger, Edmundo e Romário não se entendem e o Fluminense perde para o São Paulo: 1 a 0

Edmundo está mesmo por baixo. Sem ritmo de jogo, não criou nada e foi presa fácil para o zagueiro Rodrigo. Acabou substituído por Marcelo

SÃO PAULO - Três jogos válidos pelo Campeonato Brasileiro, três erros de arbitragem. Assim, ainda não foi desta vez que o Fluminense conseguiu vencer na competição. Ainda não foi desta vez que o Quarteto Fantástico emplacou. Com Ramon, Roger, Edmundo e Romário, o Fluminense foi derrotado pelo São Paulo por 1 a 0, ontem, no Morumbi. Agora, já são cinco jogos sem vencer.

Um toque de Ramon para Romário, e a imediata conclusão de primeira, por cobertura, aos 19 minutos, foi o que o Fluminense fez de melhor, na etapa inicial. A primeira derrota do time carioca no Brasileirão começaria a ser desenhada nos minutos seguintes, quando as finalizações de Grafite rondavam o gol de Fernando Henrique que reassumiu a condição de titular, pois Danrlei decidiu trocar o clube pelo Atlético-MG e, por isso, ficou no banco de reservas.

Grafite já tivera boa chance, aos 30 minutos, mas a bola acabou saindo. Aos 32, foi a vez de Fernando Henrique fazer boa defesa. Aos 34, Grafite finalmente não perdoaria: após cobrança de escanteio, levou vantagem sobre Juca, 10 centímetros mais baixo. Subiu mais e fez, de cabeça, o gol do São Paulo.

Foi só administrar. O Fluminense, sem criatividade, dependia dos bons lançamentos de Ramon.

No segundo tempo, o Fluminense cresceu. Nos primeiros cinco minutos, era um time mais veloz, que explorava as jogadas pelas laterais. Mas, mesmo tendo a posse da bola, não conseguia concluir com perigo.

No lance mais polêmico do jogo, o árbitro Evandro Roman impediu o empate do Fluminense. Após cobrança de falta de Ramon, Marcelo completou para o gol, aos 45 minutos. O árbitro errou e invalidou o lance, alegando impedimento. Por causa de falhas da arbitragem, o Fluminense já perdeu sete pontos no Campeonato.

Marcão vai saber hoje se terá de operar joelho

Nem tudo é tão ruim, que não possa piorar. O time não poderá contar com Marcão, domingo, no clássico contra o Vasco, no Maracanã. O cabeça-de-área, que desfalcou ontem a equipe porque sentia o joelho esquerdo travado, ainda corre o risco de ter de se submeter a uma artroscopia. Se isso acontecer, Marcão poderá ficar aproximadamente três semanas parado.

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Nilson Souza
29/04/2004


Mãos vazias

Na esquina da segunda-feira havia uma fila de mãos. Mãos de todas as cores e tamanhos. Mãos nuas e mãos aneladas. Mãos de pelúcia e mãos calejadas. Mãos com unhas roídas e mãos com unhas pintadas. Mãos abertas e fechadas. Mãos de esperança e mãos desesperançadas.

Todas desocupadas.

Queria ver aquelas mãos na alquimia do pão - farinha, fermento, água, ovos, e o prazer de amassar até a mágica transformação.

Queria ver aquelas mãos no espetáculo da plantação - enxada, sulco, semente, o verde brotar da terra e o milagre da alimentação.

Queria ver aquelas mãos no labirinto da construção - tijolo, cimento, areia, prego, vidraça, telhado e o aconchego da habitação.

Queria ver aquelas mãos no sacerdócio da educação - paciência, carinho, giz, lápis de cor, garatujas e o mistério da alfabetização.

Queria ver aquelas mãos no comando de alguma operação - máquina, motor, movimento, liga, desliga e um produto saído da linha de produção.

Aquelas mãos - que buscam ocupação - são de cortar o coração.

Imagino-as acordando para a busca improvável de cada início de semana. Esfregando os olhos. Lavando o rosto. Penteando o cabelo. Passando o batom. Juntando-se numa oração. Fazendo carinho no filho adormecido. Segurando a mão amada. Equilibrando-se no corredor do ônibus. Batendo em portas fechadas. Preenchendo fichas. Agitando-se nervosamente no lento andar da fila.

Para, invariavelmente, ouvir um não.

Mas mãos humanas são feitas de uma matéria chamada persistência. Foram elas que, ao longo da história da humanidade, abriram caminhos na floresta, construíram cidades no deserto, edificaram pontes sobre abismos, domesticaram animais, escreveram livros, esculpiram obras de arte, produziram música, bateram palmas, abençoaram multidões e promoveram a fraternidade do abraço.

Todas as maravilhas que conhecemos foram feitas por mãos como aquelas que aguardam na fila da segunda-feira uma oportunidade para trabalhar por um mundo mais digno.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Leticia Wierzchowski
29/04/2004


Esses dias claros

Era um começo de tarde na semana passada e eu estava no meu carro guiando pelas ruas da parte alta de Porto Alegre e, de repente, sem nenhum aviso, me senti feliz. Tudo ao meu redor, a cidade e a vida que vibrava dentro e através do meu carro; tudo, o céu, e as ruas e as pessoas me pareceram tão lindos, tão novos, tão prontos para uma festa que desatei a cantar alto. Não sou do tipo que canta alto no chuveiro, muito menos dentro do meu carro em meio a uma rua movimentada (sou daqueles desafinados que têm coração e senso do ridículo). Mas o outono em Porto Alegre, o céu azul do outono no sul cintilando a sua luz mágica, a sua luz bucólica de uma doçura quase única, me fizeram cantar dentro do meu carro no sinal fechado da Rua Casemiro de Abreu.

Nunca no verão, nunca na primavera. É o outono que me emociona. Esse outono que chegou, depois de tanto calor, desabando sobre nós com sua beleza única.

Porto Alegre não é pasmificante como o Rio de Janeiro, com seu mar e seu viço fogoso recortado pelos morros, não é moderna nem rica como São Paulo, onde palpita o coração financeiro do país; Porto Alegre é uma cidade suave, sutil, sinuosamente tímida, feita para ser amada no outono. Então vamos abrir os olhos e ver a nossa cidade no seu melhor momento.

Vamos sair às praças, vamos aproveitar a delícia dos dias de azul límpido. Vamos rezar pela chuva, mas vamos sim curtir a delícia dos dias de azul límpido de Porto Alegre. E se você quer trilha sonora, eu recomendo Celso Fonseca, Natural. É música carioca feita para outono gaúcho. É azul e morna, melodia feita para tocar alto em casa.

Então era um começo de tarde na semana passada e eu estava no meu carro guiando pelas ruas da parte alta de Porto Alegre e, de repente, sem nenhum aviso, me senti feliz... Era o outono e era o Celso Fonseca cantando, "Esse estado, essa febre, esses dias claros, esses anos-luz a frente a nos separar, deixe o tempo dizer pra nós, essa dúvida, esse impasse, frio no verão, esse estranho inverno a mais, que não sabe esfriar ao seu lado... Essa espera tão aflita que não vai passar quando o outono vier pra nós..."

Eu não sei qual amor o Celso Fonseca espera nessa canção em que as estações do ano se confundem num impasse que já conhecemos tão bem; eu, sinceramente, andava aflita esperando o outono chegar em Porto Alegre.

leticia.wierz@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
29/04/2004


Bafo no cangote de Lula

Uma coisa é certa no governo Lula: as aparições quase que diárias do presidente em público proporcionam um aperfeiçoamento democrático nunca antes visto no Brasil.

Ainda segunda-feira, na sede da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, na presença de 3 mil metalúrgicos, Lula ouviu de parte deles reivindicação para diminuir a alíquota do imposto de renda dos trabalhadores e da outra parte apelos para que aumente significativamente o valor do salário mínimo.

E foi vaiado insistentemente pelo público, ainda mais quando declarou que quem paga imposto de renda é um privilegiado.

Nunca houve antes um presidente que assim desafiasse a sua imagem, expondo-a a críticas e vaias perante concentrações populares.

Lula admiravelmente dá a cara para bater, sai do palácio e não impede que em grande parte das solenidades a que comparece haja a presença de público e de manifestantes.

Um presidente da República que já foi metalúrgico sendo vaiado por metalúrgicos é um dos instantes mais belos e animadores da democracia.

Não estou tratando de analisar o mérito do governo Lula nesses seus já 16 meses de mandato.

O que surpreende é que, depois da série nervosa de viagens internacionais que fez, quando sua ausência do país era estranhada pelo agravamento dos problemas internos, Lula passou a comparecer a diversos eventos, não tendo jamais se furtado nessas aparições a se defrontar com o povo.

Isso é salutar e tem um valor inestimável. Porque os antecessores de Lula escondiam-se em Brasília, embarafustavam-se estrategicamente na solidão do Planalto e não havia qualquer possibilidade das diversas categorias sociais, principalmente as menos favorecidas, de se defrontarem com eles, mostrando a sua discordância com os rumos do governo.

Não sei se Lula continuará assim tão elogiavelmente aberto ao contato com o público, como vem se conduzindo, até o fim do seu governo.

Mas não há oportunidade maior de legitimar-se a democracia do que essa exposição freqüente da figura presidencial em eventos associados à presença maciça de populares reivindicantes.

Quando que no governo Fernando Henrique o presidente deu chances a que trabalhadores reclamassem da alíquota do imposto de renda ou da elevação do salário mínimo, como aconteceu há três dias em São Paulo com Lula, que respondeu com cordialidade e bom humor às vaias?

Quando aconteceu isso no governo Fernando Henrique? Nunca.

E se alguma vez aconteceu, logo em seguida Fernando Henrique providenciava para encaramujar-se no palácio ou em solenidades sem presença de público suscetível de protestos, instituindo um abismo entre o príncipe e seus súditos.

Um presidente como Fernando Henrique e outros que o antecederam, que se afastaram do povo evitando a fricção e o apupo, não tinham condições para conhecer as aflições populares, somente estabelecendo relações políticas com as elites.

Nunca antes aconteceu o que ocorreu segunda-feira: Lula prometeu rever as alíquotas do imposto de renda que recaem sobre os trabalhadores por ter sentido no corpo-a-corpo de São Bernardo do Campo com os reivindicantes a justeza da sua pretensão.

Repito, não está em questão no meu enfoque o juízo de mérito sobre o governo de Lula até agora.

Mas é instigantemente alentador que Lula esteja se desentocando dos salões faustosos dos palácios brasilienses e se submeta quase que diariamente a sentir o bafo do povo no cangote presidencial.

Democracia se faz com pressão. Mas não as pressões falsas e enganosas que se fazia nos escaninhos do poder sobre os governantes anteriores.

E sim a pressão verdadeira e legítima que Lula permite que se faça sobre ele: a pressão corporal.

Admirável. A democracia se purifica.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Dava para ganhar
Empate em 1 a 1 com o Coritiba deixa Inter na 10ª posição, e Lori Sandri deve manter mesmo time contra o Paysandu

A vitória escorregou pelos passes errados. O Inter empatou em 1 a 1 ontem à noite com o Coritiba, apresentou alguma evolução e volta para Porto Alegre com a sensação de que poderia ter vencido. Agora, é o 10º.

Tanto que Lori Sandri se apresentou lamurioso para a entrevista coletiva no vestiário do Couto Pereira. Ele acertou o time no segundo tempo ao trocar Fernando Miguel por Chiquinho aos 25 minutos. Cleiton Xavier, inoperante como articulador, recuou e virou volante ao lado de Marabá. Chiquinho assumiu a ligação com o ataque e, elétrico, colocou o time para funcionar.

Antes disso, o Inter até tentou evitar as ligações diretas para ataque. Mas errou passes em quantidade assustadora. Não houve jogadas. Sem elas, o gol só sai por acidente. Por pouco não aconteceu assim no início do primeiro tempo. Aos 15 minutos, Nilmar acertou o poste. Três minutos depois, Aristizábal fez 1 a 0 depois de tabelar com Tuta e chutar da entrada da área.

Aristizábal e Tuta, junto com Luís Mário, foram o "trio de ouro" de Curitiba. Conduziram o time na conquista do estadual. Aristizábal ganhou R$ 900 mil de luvas. Tuta recebeu aumento de 100% para permanecer no Brasileirão. Assediado por Atlético-MG e Goiás, embolsou R$ 100 mil e passou de R$ 35 mil mensais para R$ 70 mil.

Clemer, no intervalo: "Tem é que fazer gols"

Com três atacantes, o Coritiba fica frágil na defesa. Mesmo com alto índice de passes, o Inter deixou de empatar ainda no primeiro tempo. Alex e Sangaletti perderam chance. Edinho ameaçou com chute por cima. Os erros provocaram um comentário seco de Clemer na saída para o intervalo ao ser questionado sobre o que faltava para empatar:

- Tem é que fazer os gols!

Não fosse Clemer, outra vez, o Coritiba teria liquidado o jogo aos seis minutos. Luís Mário entrou sozinho e parou no goleiro. Este foi o único lance de perigo do Coritiba. O Inter ocupou os espaços e, com as mudanças de Lori Sandri, chegou à frente organizado. Oséas perdeu de cabeça aos 25. No minuto seguinte, concluiu por cima cruzamento de Gavilán. Aos 28, Marabá cabeceou um lance de Chiquinho e forçou Fernando a boa defesa.

O gol estava iminente e surgiu numa jogada cobrada por Lori, com a participação dos alas. Alex lançou Nilmar, que acabou derrubado pelo goleiro na área. O mesmo Alex cobrou o pênalti e fez o 1 a 1 aos 39 minutos.

Ficou a sensação de que o empate veio tarde demais.

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Futebol
Grêmio goleia e sobe para o 4º lugar



Christian (E, com Bruno) marcou os dois primeiros gols da vitória de 4 a 0 sobre o Corinthians, no Olímpico (foto Fernando Gomes/ZH)


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Quarta-feira, Abril 28, 2004




Tem troco aí?
Golpista-brincalhão lança nota de R$ 3

MONTES CLAROS (MG) - Que os falsificadores de dinheiro estão mais rápidos e habilidosos todo mundo sabe. Mas, por essa, nem os técnicos do Banco Central esperavam. Um comerciante mineiro foi surpreendido ao receber uma nota de R$ 3 para pagar um maço de cigarros. João Vivaldo Zuba disse que o cliente o chamou de desinformado por desconhecer o mais novo lançamento do BC.

Segundo João Vivaldo, o falsário-brincalhão usou vários argumentos: Ele tentou me convencer que, se eu era mesmo bom comerciante, já deveria ter ouvido falar que a nota tinha saído. Como era óbvio, a estratégia falhou, e o comerciante chamou a polícia. Assustado, o responsável pelo lançamento da nota de R$ 3 fugiu sem levar o dinheiro e o desejado maço de cigarros.

A cédula é uma cópia grosseira da nota de R$ 2. Nela, faltam detalhes básicos, como o nome do BC, a marca dágua e o número de série. A pena para crime de estelionato varia de um a cinco anos de prisão.

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Testes com a nova GeForce 6800 Ultra comprovam alto desempenho do chip. ATI lança concorrente esta semana
Gabriel Torres



O GeForce 6800 Ultra, novo chip gráfico da nVidia chega para ser ainda melhor que o GeForce FX 5950 Ultra, até então o chip topo de linha da empresa. Só para ter uma idéia da importância desse novo chip, a nVidia gastou US$ 400 milhões no projeto e mil engenheiros trabalharam em seu desenvolvimento ao longo de dois anos. Tivemos o privilégio de receber uma amostra desta placa para testes, onde pudemos conferir o desempenho da criança (mais sobre esse lançamento pode ser visto na coluna Mercado da semana passada www.odia.com.br/odia/info/in210410.htm.

Antes de você se empolgar com os resultados dos nossos testes, um lembrete: este chip não é para qualquer bico, ou melhor, micro. Com um preço sugerido para o mercado americano de US$ 499, é pouco provável que essas placas cheguem ao Brasil por menos de R$ 2 mil. A nVidia lançou também um modelo mais simples, o GeForce 6800, que custa US$ 299.

O GeForce 6800 é primeiro chip gráfico a usar esse novo modelo. Com isso, chegam várias novidades, como 65.535 instruções de Vertex Shader (contra 256 do modelo Shader 2.0, que é usado na série GeForce FX), 65.535 instruções de Pixel Shader (contra 96 do modelo Shader 2.0), precisão matemática de 32 bits (contra 24 bits no modelo Shader 2.0) e vários novos recursos não-presentes no modelo anterior, como, por exemplo, o Geometry Instancing que, em vez do programa enviar a geometria dos objetos presentes na tela uma-a-uma, envia todas as geometrias de todos os objetos de uma só vez, aumentando o desempenho.

Vários jogos já estão sendo programados usando este novo modelo, entre eles Lord of the Rings - Battle For Middle-Earth, STALKER: Shadows of Chernobyl, Vampire: Bloodlines, Splinter Cell X, Driver 3, Grafan, Painkiller, FarCry e Unreal 3, entre outros.

A guerra pelo mercado das placas 3D não é nova - começou há nove anos, com os primeiros lançamentos da nVidia, ATI e 3Dfx. Esta última jogou a toalha cinco anos mais tarde, depois de ter dominado o segmento com larga vantagem durante anos, e foi comprada pela arquirival nVidia. E a ATI, que assistiu à batalha entre as duas de longe (na lanterna, para ser exato), reapareceu com força total, virando para a nVidia o que a nVidia foi para a 3Dfx. Exceto pela parte da compra, é claro.

Na linha do tempo dessa guerra, é fácil observar que os ataques estão se intensificando nos últimos tempos. Se no início as novas famílias de produtos apareciam anualmente, ou até a cada dois anos, agora o espaço entre um bombardeio e outro é de poucos meses. E a evolução deixa para trás até os processadores, até então as maiores vítimas da obsolecência programada e das febre de upgrades - ao ponto de algumas placas de vídeo terem seu lançamento atrasado por não haver no mercado computadores rápidos o suficiente para tirar o máximo delas.

Dos modelos indicados abaixo, ainda são encontrados no mercado brasileiro as GeForce 4 Mx400 e 440, com preços entre R$ 165 e R$ 280; as Geforce Fx 5200, entre R$ 250 e R$ 450; Fx 5600, entre R$ 490 e R$ 590 e Fx5700, entre R$ 690 e R$ 890. Na linha ATI, as Radeon 7000 custam entre R$ 160 e R$ 190; as 9200SE, entre R$ 175 e R$ 300; as 9600, entre R$ 400 e R$ 870; e as 9800 PRO, em torno de R$ 1500 - além das versões All-in-wonder, com captura e exportação de áudio e vídeo, sintonia de TV e outros recursos, e um preço bem mais salgado.

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SÃO PAULO X FLUMINENSE
Será que vai dar dessa vez?

Flu tenta vencer São Paulo no Morumbi, o que não consegue há 20 anos. E Ricardo escala Roger, Ramon, Romário e Edmundo
Marluci Martins


Ramon, Romário e Edmundo esperam ajudar o Fluminense a quebrar a longa escrita com o São Paulo

O leite subia para 600 cruzeiros. Artistas engrossavam uma passeata em Copacabana, pelas eleições diretas. O Brasil estava às voltas com experiências de fertilização in vitro. Num dia de tantas notícias, somente o futuro explicaria por que a vitória (2 a 0) do Fluminense sobre o São Paulo, naquele 18 de março de 1984, merecia espaço tão nobre nos jornais: de lá para cá, o time carioca não mais venceu o paulista, no Morumbi. Hoje, às 21h45, o Fluminense tem a chance de dar um drible na história.

Vinte anos depois, contra o mesmo adversário, no estádio de tal amarga escrita, o Fluminense busca sua primeira vitória no Campeonato Brasileiro. Dessa vez, com Ramon, Roger, Edmundo e Romário, que somente estiveram juntos em campo por 45 minutos.

Há 20 anos, o Brasil tinha Figueiredo na presidência da República. E o Fluminense tinha Paulo Vitor; Getúlio, Duílio, Ricardo Gomes e Branco; Leomir, Deley e Assis; Wilsinho, Washington e Tato. O técnico era Carbone.

O São Paulo não era um time bom. E nós tínhamos uma grande equipe. Deitamos e rolamos em cima deles, lembra o ex-zagueiro Ricardo Gomes, que viu seu time disparar na liderança do Brasileiro, com aquela vitória sobre o São Paulo, de Valdir Perez, Dario Pereira e Zé Sérgio.

Ricardo Gomes bem que gosta de lembrar daqueles tempos de zagueiro que não voltam mais. Mas prefere não falar na cruel escrita: desde a vitória de 1984, foram 17 jogos entre os dois times, no Morumbi. O Fluminense perdeu 14 e empatou três 12 pelo Brasileiro, quatro pelo Rio-São Paulo e um pela Copa Sul-Americana.

Não acredito em escrita. Existe, sim, um time mais fraco do que o outro. Vamos falar do presente?, desconversa o técnico do Fluminense.

O presente não é tão animador. Apesar de contar com seu famoso quarteto, o time nem assim entrará completo em campo: o cabeça-de-área Marcão sentiu dor no joelho esquerdo que, no passado, foi operado , e foi vetado. Para compensar, o São Paulo não terá Luís Fabiano, que está na Seleção.

Clube troca Jancarlos por lateral do Juventude

O Fluminense acertou a troca, por empréstimo, de Jancarlos pelo lateral-direito Mineiro, do Juventude. O lateral já esteve ontem nas Laranjeiras, e foi submetido a testes.

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Martha Medeiros
28/04/2004


Março e abril

Março tem 31 dias. Abril tem 30. Logo, abril tem apenas 24 horas menos que março. Mas não é esta a sensação que costumamos ter.

Março é o mês mais longo do ano, parece possuir uns 45 dias. Março começa com uma carga de adrenalina extra, a vida volta ao normal depois das férias, e generosamente o mês se arrasta para que a gente coloque em dia a rotina que estava esquecida, e que por isso mesmo havia deixado de ser rotina.

Abril é quando a rotina está devidamente assimilada, e então entramos no mês já aguardando a Páscoa, que chega rápido, mal percebemos a primeira semana transcorrida. E logo em seguida vem o dia 21, quando homenageamos Tiradentes, e os dias parecem que minguam entre esses dois feriados, tudo passa numa tal ligeireza que juraríamos que abril tem, no máximo, uns 18 dias.

Março, lentamente, passou. Fez o que tinha que fazer, deixou a gente bem longe das férias de verão, nos deu prazo para o assentamento no cotidiano, do qual já sentíamos falta. E abril fez o que tinha que fazer também, encerrou o expediente mais cedo, nos mostrou que o tempo não perdoa e que quem menos corre voa. Voou.

A vida da gente é um eterno março e abril.

É março quando estamos no início de um namoro, naquela fase de expectativa, cada manhã uma palpitação nova, cada telefonema uma promessa, cada noite um aprendizado na arte de assentar-se um no mundo do outro. E o primeiro mês dura uma eternidade, é nosso aliado, doa-se junto.

É março quando iniciamos emprego novo, é março quando enfrentamos uma dor inédita, é março quando trocamos de cidade, é sempre março quando há exigência de adaptação. É março em agosto, é março em outubro, é março em qualquer recomeço. O tempo se esparrama para nos reconstruirmos.

É abril quando a mesmice invade, é abril quando não há novidade, é abril quando não há encantamento, e ficamos a olhar pro futuro à espera de uns feriados da gente mesmo, pouco ligando pro tempo presente. É aí que o tempo, revanchista, encolhe-se, passa apressado, vinga-se por não o termos acolhido nos braços, valorizando-o como um mês estreante, como fazemos com março.

Pode ser abril em junho, abril em setembro, é sempre abril quando falta entusiasmo pelos dias que correm. E como correm.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
28/04/2004


O bico

É impossível a um cronista deixar de ser um colunista do seu tempo. Não adianta querer abordar amenidades.

O tempo é de brutalidades.

O repórter Cid Martins levantou ontem pela Rádio Gaúcha que cerca de 30 PMs trabalham como seguranças e arrecadadores das bancas do jogo do bicho em Porto Alegre. O repórter entrevistou PMs que fazem esse bico e falaram no microfone.

Ao mesmo tempo, o presidente da Associação dos Cabos e Soldados da BM declarou que 80% dos PMs fazem bico. E disse mais: há até capitães da BM que fazem bico.

Ou seja, ficaram de tal forma miserabilizados os brigadianos com nove anos e meio sem reajuste nos seus vencimentos que restou a eles, para sobreviver, ir trabalhar na iniciativa privada.

Em realidade, a função pública é que passou a ser bico, a outra atividade rende mais que ela.

Um PM recebe R$ 480 líquidos por mês. Qualquer pessoa que sustente uma família e ganhe menos de R$ 1 mil vive uma vida miserável. Só de aluguel, água, luz e gás já consome o seu salário.

Imaginem um PM que ganha R$ 480 líquidos por mês. Se ele não tiver um bico, vira favelado. Muitas vezes se faveliza mesmo com o bico.

Isso vem à tona somente com os PMs por serem numerosos e ostensivos. Mas é a mesma situação a dos policiais civis e das professoras. Quem não faz bico não sobrevive.

Temos então que há uma dissimulação geral, os funcionários públicos, entre eles os PMs, trabalham seis horas por dia no serviço público e vão trabalhar outras oito horas no bico privado.

Quando para ser policial e professor tinha de haver dedicação integral dos servidores. Policial trabalhar só seis horas por dia era inadmissível há 30 anos. Mas com o salário aviltante que lhes pagam, trabalhar só seis horas por dia virou direito legítimo.

O Estado finge que lhes paga, eles de certo modo fingem que trabalham.

Não vão agora por causa do escândalo de PMs trabalhando em bancas de jogo do bicho tomar a medida de retirar dos PMs os bicos, que na sua grande maioria são atividades extras honestas e idôneas.

Se se retirar deles o direito de exercitar os bicos, vão matar de fome e marginalizar mais ainda, por completo, as suas famílias.

Não me arrependo de ter afirmado três vezes em minhas colunas que foi exterminado até as ruínas o serviço público, desde que os sucessivos governos federais e estaduais deixaram de reajustar os vencimentos dos seus servidores durante nove anos e meio.

Sem reajuste de vencimentos durante quase 10 anos, com reajustes cruéis nas tarifas e em todos os itens do custo de vida, os servidores públicos passaram a ganhar zero. É literalmente zero pagar R$ 480 a um PM e menos às vezes a uma professora. Isso é salário de fome

Se tirarem os bicos dos funcionários públicos, eles ficarão perigosamente suscetíveis de se corromper e a brutal crise virará colapso.

PMs servindo a banqueiros do bicho é só a primeira ponta do iceberg.

Disso têm consciência plena os chefes dos PMs, dos policiais civis e das professoras.

Eles próprios, os chefes, já estão se miserabilizando com os nove anos e meio sem reajuste. Perdem a força moral de reivindicação porque seus subordinados ganham muito menos que eles. E é sobre esses chefes que vai se derrubar diariamente o flagelo dos servidores públicos inadimplentes em seus compromissos, morando em casebres ou malocas, os filhos entoando diariamente o cantochão da miséria e da fome.

O bico é o último e desesperado recurso dessa gente. Acabou literalmente o serviço público. E dane-se a população que necessita vitalmente do serviço público.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Um mês depois, os rastros do Catarina



Parte de Torres, cidade atingida pelo ciclone, ainda tem casas destruídas, à espera de telhas e material de construção (foto José Doval/ZH)


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Terça-feira, Abril 27, 2004




ARTESÃO APRENDIZ

Fátima Irene Pinto


Sê tolerante com aquele artesão,
Ainda inábil ... longe da perfeição,
Rico talvez, só de boa intenção,
Pobre contudo, na própria expressão.

Repara ... há flores humildes nos campos,
Nem todas possuem a suprema beleza.
Algumas? ... jamais ornarão uma mesa,
Mesmo assim, há nelas um quê de encanto.

Na mãe natureza, ou na orquestra divina,
Nem tudo são rosas ou raros violinos,
Há erva rasteira e o som dissonante.

Há permuta sutil, vida palpitante,
Até mesmo o lodo, tem seu destino:
Gerar lírio branco, que é flor mais fina.

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ARTESÃO DE VERSOS

Solange Rech

Assim como o artesão molda a madeira
E fixa sua marca na escultura,
Também eu vivo em busca da arte pura,
Dando ao verso a palavra que requeira.

Vejo os termos expostos como em feira,
Mas apenas um cabe na moldura.
E quando a mente mágica o captura,
O poema exala olor, perfuma e cheira.

Tal como os versos, há também pessoas.
Umas são sábias, luminosas, boas
E a energia que geram nos enleva.

Outras há que, não tendo rima ou metro,
Só nos torturam, parecendo o espectro
Do mau gosto e do atraso que há na treva.

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CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 27 DE ABRIL DE 2004


Caixa cria 2 vice-presidências
A direção da Caixa Econômica Federal anunciou ontem que criará duas vice-presidências. Uma delas será a de Crédito, que ficará com o PMDB. O ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, indicou para a função Francisco Egídio, funcionário de carreira da área financeira do Banco do Nordeste.

Para a direção de Microcrédito do Banco do Brasil, a escolha caberá a deputados federais do PMDB. Senadores definirão o responsável pelo Crédito Cooperativo do banco. O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, defendeu a entrada do PMDB no segundo escalão, afirmando que os partidos aliados têm direito a participar de cargos de relevo no governo federal.

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Publicado em 27 de abril de 2004 Versão impressa

Arnaldo Jabor

Nosso coração está cada vez mais frio

Que chato!... perdemos o espetáculo de antropofagia que ia rolar na prisão do Urso Branco. Estávamos loucos para ver o churrasco de presos no teto da cadeia em Rondônia. Tivemos, claro, como prêmio de consolação, os corpos pendurados do alto, corpos elegantemente esquartejados, sem cabeça, na frente de familiares, filhos, crianças. Vamos comer os corrós ! berravam eles na TV enquanto víamos com fascinação sinistra a chegada dos embrulhinhos dos corpos dos 30 garimpeiros massacrados por nossos doces silvícolas que hoje traficam diamantes de bigodinho, calção e relógio.

Será que os cintas-largas também comeram pedaços de garimpeiros num piquenique na floresta? Longe vão os tempos em que os índios comiam os inimigos em guerras dignas, preferindo que os condenados mostrassem coragem na hora do esmagamento do crânio, pois suas picanhas e chãs-de-dentro teriam mais sabor. Não creio que os garimpeiros tenham morrido de cabeça alta, como um I-Juca Pirama.

Devem ter uivado de pavor diante dos tacapes brandidos pelos morubixabas e pajés de Ray-Ban. Pena que não pudemos ver a chacina diante das câmeras, a menos que algum índio tenha gravado em VT, pois deve ter sido mais espetacular que os filmes de gângsteres que arrombam cabeças a golpes de bordunas de beisebol. E será que os índios vão mesmo se aliar ao MST, como anunciaram? Será que o ministro da Justiça vai dizer na TV que só é legitimo que comam apenas fazendeiros improdutivos? Haverá churrasco de ruralistas em fazenda de eucalipto com a bênção dos bispos.

Hoje em dia, as cenas de destruição de corpos têm de ser diante das câmeras. Se não há a visão, não há o fato. Belíssimo exemplo de morte moderna foi no ônibus 174 (que deu naquele filme extraordinário), onde o nosso herói matou e foi morto diante do olho da TV, para nossa emoção horrorizada. Oh... como lamentamos a violência mas, por outro lado, que seria de nossas noites se não houvesse esses crimes que nos comovem tanto?

O grande momento foi sem dúvida o 11 de setembro em NY, quando vimos os aviões entrando como facas num pudim de 300 andares, quando assistimos à inesquecível derrubada das duas torres como dois sorvetes derretendo. Osama fez aquilo para ser filmado, para existir virtualmente, se repetindo para sempre. Osama realizou o sonho de todos os produtores de Hollywood, que fizeram dezenas de filmes mostrando corpos explodindo e NY sendo destruída.

Por que a morte ao vivo é tão fascinante? Bem, primeiro pelo mecanismo do antes ele do que eu, o que nos dá uma mistura de medo com alívio. O espetáculo da morte alivia a tensão, porque nosso ódio é purificado por uma espécie de kátharsis pós-moderna. Explico. A kátharsis antiga da tragédia grega visava a justamente integrar o indivíduo na polis ; já a kátharsis de hoje nos isola da sociedade, nos desintegra, nos aliena. Os assassinados pagam por nossas humilhações, ódios e sapos engolidos.

Há algo de sinistramente revolucionário na violência: a negação da ética, da compaixão, do outro esse chato com que nos obrigam a conviver. Curtimos a beleza dos golpes, dos tiros, de todo o charme das penetrações e sangue espirrando. Vocês viram o Clube da Luta² e tantos outros? Teremos agora o Kill Bill do Tarantino, que, aliás, é uma bosta.

A morte como espetáculo se transmite como um vício. Se há 50 anos Auschwitz nos chocou com os corpos todos empilhados em pirâmides nas valas, hoje a morte vem aos poucos, mas, todo dia, vem em pílulas, de todos os tipos, trazida por homens-bomba, xiitas sangrando, pitbulls, bandidos e canibais. Os horrores das duas guerras mundias foram mais chocantes (e também mais esquecidos) porque os meios de comunicação de massas não eram tão onipresentes.

Vamos nos acostumando aos corpos mutilados e rompidos, aqui, no Iraque, na Palestina, os cadáveres no carrinho de mão da Rocinha, tudo nos vai dando um leve torpor conformado, um desalento que nos desobriga de ter esperança, nos traz o tédio diante do entusiasmo, da criação, da arte, prefigurando a derrocada da filosofia, o fim da política, a morte de Platão finalmente.

Junto com o fim de uma harmonia possível, vem a desesperança e, com ela, reina absoluto o narcisismo solitário. Sem esperança, tudo vira egoísmo. A intensa modernidade da personagem de Claudia Abreu (Laura) na novela Celebridade prova isso. Ou a fascínio que exerce sobre nós o canibal Hannibal de Anthony Hopkins no Silêncio dos inocentes. É como se eles fossem mais livres, pois são livres da moral e da compaixão. Assim, o outro passa a existir somente como objeto a ser comido. Ser desumano é in .

Antropofagia. As elites competem e disputam prestígio a qualquer preço, comendo quem passa perto. O objetivo a conquistar não é mais riquezas, mas a glória de vender a si mesmo. Qualquer mulher que se destaque, digamos, na medicina ou física nuclear, se for gostosa, tem de aparecer nua na Playboy. Antropofagia. Na internet ou revistas nuas, a cascata de corpos parece um holocausto sexual: montes de corpos se oferecem passivos, mortos de desejo, para serem comidos. Antropofagia.

A verdade é que os crimes frios de hoje são um prenúncio dos futuros extermínios que virão.

Todos os cânones jurídicos e morais se baseiam ainda em uma antiga visão do humano e do direito. Ficou arcaica a idéia de compaixão, e seremos tocados cada vez mais pela graça da insensibilidade. Teremos que esfriar mais e mais o coração para viver no Brasil, para suportar a tragédia do cotidiano. A incurável sordidez política nacional nos levará a isso. Por enquanto, ainda falamos Que horror!. Mas, um dia, chegaremos a um coração perfeito, sem amor ou culpa. A sobrevivência moderna precisa do crime.

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Festas que animam empresas

Indústria do casamento fatura R$ 2 bilhões por ano em venda e locação de roupas, gráficas, bufês, decoração e imagem
Silvana Caminiti

Mesmo que não seja uma romântica declarada, toda mulher sonha com uma festa inesquecível de casamento. E esse sonho movimenta uma indústria que gera R$ 2 bilhões em negócios por ano no País. Boa parte do faturamento vem de empresas que trabalham com venda e locação de trajes, gráficas, bufês, decoradores e estúdios de foto e vídeo.

No Rio, a Só À Rigor é uma das mais tradicionais empresas do setor de venda e locação de vestidos de noiva e trajes para noivos e padrinhos. A marca tem 26 anos de experiência e várias lojas distribuídas pelo País, entre elas quatro no Rio e uma em Niterói. Ao todo, a empresa já participou de mais de 50 mil casamentos, vestindo noivos, noivas, padrinhos, madrinhas, pajens e daminhas.

Uma das explicações para o sucesso da Só À Rigor no mercado é que a empresa trabalha com profissionais de alta qualidade e funcionários treinados para orientarem os clientes corretamente quanto a vestir bem, comenta o gerente da loja de Copacabana, Lothayr Júnior.

Ele lembra que, além de trajes para casamentos, a empresa também é referência quando o assunto é roupas para festas de gala, formatura ou debutante. Já vestimos milhares de estudantes para festas de formatura, lembra o gerente, que ressalta que a Só À Rigor também oferece serviço de aluguel de fantasias para festas temáticas.

Para Lothayr Júnior, outro importante diferencial da empresa é que todas as lojas da marca possuem lavanderia, passadeiras e alfaiataria. As equipes cuidam também dos trajes para locação, que estão sempre impecáveis. Tudo sempre é feito com tradição e muita experiência, o que torna a empresa sinônimo de aluguel de roupas, diz.

Só À Rigor: (21) 2275-4999

www.soarigor.com.br

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Ela era filmada o tempo todo no BBB4, mas só com o fim do programa os marmanjos começam a ver um pouco mais de Juliana. Na VIP de maio (foto), ela exibe as curvas turbinadas com 200 ml de silicone nos seios e não economiza em poses sensuais. O ensaio é resultado da fama repentina, mas Juliana não pensa em investir apenas no seu potencial de modelo.

Quero mesmo é me firmar como atriz. Daqui a cinco anos eu espero estar com uma carreira, ter trabalhado em teatro e cinema também, sonha. Apesar de querida pelo público escapou seis vezes do paredão Juliana não fez amigos no reality show.

Ela ficou magoada com a atitude dos colegas, como Dourado, que se limitou a cumprimentá-la fora da casa: E não foi só ele: o Zulu, a Antonella, a Marcela... Eles também não falaram.

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Cláudio Moreno
27/04/2004


O anel de Polícrates

Polícrates, o rei da pequena Samos, acabou se tornando senhor dos mares gregos, respeitado nas ilhas e no continente. Por um golpe de sorte após o outro, chegou a ser um dos poderosos monarcas de seu tempo, o que atraiu a amizade e a aliança de reis de outras grandes nações. Tudo o que ele empreendia dava certo; nada saía errado com ele.

Não conhecia o fracasso, nem o infortúnio. Essa boa sorte ininterrupta, por tanto tempo, acabou alarmando Amásis, o rei do Egito, um de seus aliados, que lhe escreveu uma carta para adverti-lo: "Fico contente em saber que meu amigo goza de tanto sucesso, mas ter sorte demais é perigoso, pois desperta o ciúme dos deuses. Jamais ouvi de alguém assim como tu que não tivesse acabado muito mal. Por isso, eu te peço: escolhe o teu bem mais precioso e joga-o fora, onde nunca mais possas encontrá-lo; o sofrimento e a tristeza que vais sentir vão trazer equilíbrio à tua vida".

Para atender ao amigo, Polícrates decidiu separar-se do seu magnífico anel de sinete, todo de ouro e esmeraldas. Com toda a pompa, rumou para o alto mar, num barco com cinqüenta remadores, e arrojou o anel na água infinita do oceano, passando a sentir-se realmente infeliz com sua perda. Não era passada uma semana, contudo, e um pescador de Samos capturou um peixe tão soberbo que resolveu presenteá-lo ao rei.

Quando os cozinheiros do palácio limpavam o peixe para assá-lo, encontraram o anel em suas entranhas, e foram eufóricos devolvê-lo a Polícrates, que escreveu a Amásis, divertido, contando-lhe o que acontecera e perguntando sua opinião. O egípcio simplesmente enviou-lhe um arauto dizendo que assim se confirmava que é impossível ao homem alterar o que o destino traçou, e que ele, a partir daquele momento, não queria mais aliança com quem estava à beira da desgraça. Algum tempo depois, com efeito, Polícrates foi atraído para uma armadilha por um traidor persa, que o crucificou; até esse dia derradeiro, no entanto, levou uma vida escandalosamente feliz.

Isso foi há muito tempo. Hoje ninguém mais acredita que haja deuses ciumentos, mas os Amásis continuam por aí; mal experimentam o sucesso ou a felicidade, e se tornam temerosos de que sua sorte possa mudar. Alguns, ainda mais murchos, preferem nem ser felizes, para não ter de sofrer depois: não se envolvem numa relação porque ela pode terminar um dia, não têm cachorro ou gato porque eles sempre acabam morrendo. Não sobem, com medo da queda, e não vão, para não ter de voltar; simplesmente ficam ali onde estão, preservando-se, intocados, como sementes inúteis, que nunca germinarão.

claudio.moreno@zerohora.com.br

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Liberato Vieira da Cunha
27/04/2004


Do viver e do amar

Encontro uma amiga que, diversamente de seu modo tranqüilo e bem-humorado de ir tocando o barco, me parece tensa. Não demora a repartir comigo o que a traz inquieta. Seu problema não chega a ser incomum, mas requer certa dose de paciência e jogo de cintura. Lembro a ela que tudo tem conserto, que para tudo há jeito e que ainda vai sorrir, em santa paz, de sua momentânea aflição. Semanas depois, quando a revejo, sequer menciona o já vencido transtorno.

Meus palpites estavam longe de ser originais, mas eram verdadeiros. O tempo é uma dimensão caprichosa. Os tropeços eventuais costumam mostrar-se maiores no presente do indicativo. Basta o transcorrer dos dias e das horas para desnudarem seu exato calibre. E não raro terminam arquivados no suave esquecimento do passado mais-que-perfeito.

Evidente que não falo de uma lei universal. Mas é óbvio que alguma razão cabe a um par de ditados imemoriais: revele sempre boa cara à má fortuna; e é preferível serenar-se acompanhado que lamentar-se sozinho. Resumo da ópera: jamais entregue um bilhete azul à autoconfiança, nem esqueça de que angústia dividida é coragem acrescida.

Esta não é, definitivamente, uma crônica do gênero das que recheiam os manuais de auto-ajuda. Volta e meia penso, no entanto, que fui um homem programado para a infelicidade. A vida me aprontou uma alentada dose de trancos e barrancos. Suponho que a coleção completa de meus penares supere em muito a de meus sócios de jornada.

Descansem: não vou entregá-la. Isso é matéria para um livro de memórias que talvez componha ali por 3003. O que estou tentando dizer é que fui aprendendo truques para driblar as derrapagens. Nada de extraordinário ou que me liberte de tombos ocasionais. Coisa nenhuma que me candidate a guru, a autor de receitas de como fazer amigos e influenciar pessoas, ou ao próximo Nobel de Psicologia de Almanaque.

Descobri, lendo filósofos e poetas, navegando o por vezes áspero cotidiano, que é pecado recusar o que me possa trazer alegria; que é tolice privar-me de afinidades eletivas; que a sensualidade e o prazer alimentam a alma; que é mister devotar-me a um ofício que se amolde à minha natureza; que é saudável o exercício da amizade, da solidariedade, da compaixão. E que se for convidado a escolher uma taça de vinho - alô, Omar Kháyyám - é aconselhável decidir-me pelas maiores.

Pois, mais do que uma peça teatral, a vida é sonho. Ninguém te devolverá os segundos que extraviaste com dispensáveis pesares, infortúnios descartáveis, sofrimentos vãos.

E os deuses não te perdoarão, ao bateres às portas do paraíso, cada minuto em que ignoraste a arte de amar.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
27/04/2004


Choque de civilizações?

Curiosa coincidência: no momento em que entra em cartaz uma nova versão do filme Álamo, que evoca a briga entre americanos e mexicanos (e que terminou com a conquista do Texas pelos Estados Unidos), aparece no Foreign Affairs um artigo intitulado "O desafio hispânico". O autor é Samuel Huntington, criador da famosa teoria do "choque de civilizações", segundo a qual a briga entre o Ocidente secular/cristão e o Oriente muçulmano é inevitável. Ele agora volta as baterias contra os hispânicos nos Estados Unidos. Que não são poucos: os empregados domésticos, os lixeiros, os operários são todos chicanos. Com o crescimento demográfico, em algumas décadas poderão ser a maioria da população, o que assusta principalmente os conservadores.

Huntington diz que os chicanos não se assimilam. Não é assim. Na interface étnica surgiu uma nova cultura, expressa antes de mais nada pelo idioma, o "spanglish", aquela mistura de espanhol e inglês estudada por Ilan Stavans (mexicano, professor em Amherst e autor de um livro sobre o tema recém publicado no Brasil).

Atrás da posição de Huntington está uma hipocrisia característica das grandes potências. Capitais especulativos podem atravessar fronteiras; pessoas não podem. Ou melhor: podem, mas só quando os ricos querem. É uma globalização seletiva. E tola. A grande chance de o nosso mundo melhorar está exatamente naquilo que os americanos chamam de "melting pot", no caldeirão de mistura cultural. Os Estados Unidos, cuja grandeza foi construída por imigrantes, disso sabem muito bem.

Os mexicanos imigrados sustentam, com o dinheiro que enviam, um milhão e meio de famílias em sua terra natal. Os riscos que correm para entrar nos Estados Unidos são enormes. No aeroporto da Cidade do México um cartaz adverte que, no deserto de Sonora (fronteira como os Estados Unidos) a temperatura chega a 50 graus durante o dia e fica abaixo de zero à noite, o que pode matar pessoas. Uma ameaça para as quais os mexicanos não dão a mínima. Continuam entrando nos Estados Unidos. Pacífica e silenciosa invasão que se constitui, no mínimo, em justiça poética.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
27/04/2004


Amor e casamento

Estive pensando que muitos leitores podem evitar de ler as piores notícias do jornal, basta que leiam a manchete, se for algo aterrador - um recém-nascido deixado numa lata de lixo, as crueldades cometidas contra presos pelos próprios presos na rebelião do presídio em Rondônia, enfim, esses fatos escabrosos que marcam não raro a conduta humana -, então se recusem a ler os detalhes, voltando seus olhos para outras paragens da edição do jornal, onde mais amenos sejam os acontecimentos relatados.

Com uma coluna de jornal como esta que assino não se dá assim. Trata-se de um espaço tradicional do jornal, as pessoas adquirem o hábito de lê-lo e fica mais difícil contornarem aquele retângulo vertical. Acabam por vezes traídas pela habitualidade e são forçadas a ler o colunista quando ele aborda temas trágicos, deploráveis, macabros.

Foi por isto que durante dias decidi poupar os meus leitores de comentários sobre as atrocidades do presídio de Rondônia e hoje os imunizo também de lerem aqui talvez o que tivessem evitado de ler lá no setor competente do jornal: a tragédia que se abateu sobre nossa capital gaúcha com a chacina de seis pessoas que foram retiradas pela madrugada de ontem de suas casas e fuziladas por 15 quadrilheiros, no Jardim Protásio Alves, aqui nas nossas barbas.

Não pode ter notícia mais desanimadora e sinistra, mas decidi fazer uma pausa na ocupação de notícias ruins por esta coluna, os leitores talvez tenham direito a esse interregno.

Melhor que a gente, pelo menos por alguns minutos ou dias, trate de assuntos mais brandos, embora não menos tormentosos, como "Amor e Casamento", valores para mim antagônicos, mas foi como a advogada Sáloa Silva conseguiu amenizar o título da palestra que fará hoje à noite em nossa cidade o psiquiatra paulista Flávio Gikovate.

O título da palestra era para ser "Casar ou não casar - viver ou não viver com alguém". Foi simplificado, mas se entusiasma tanto com a palestra e com a capacidade de abordagem do tema pelo doutor Flávio Gikovate que a doutora Sáloa insiste junto a mim e ao Lauro Quadros para que compareçamos à conferência hoje à noite, como se fôssemos assistir a um Real Madrid x Barcelona da psicologia matrimonialista.

Gikovate já escreveu 21 livros sobre este tema. É curioso como as pessoas se interessam profundamente por temas que signifiquem os bretes obrigatórios em que o homem e a mulher se metem na vida, eu atribuo o sucesso nacional extraordinário da nossa Lya Luft com seus dois últimos livros ao detalhe de que ela se fixa nas duas obras no assunto "velhice", um muro quase intransponível da existência, os que conseguem transfixá-lo com bravura e deleite podem gabar-se de serem sábios e felizes.

Há só 400 lugares para a palestra do doutor Gikovate, que será às 20h de hoje no salão principal do Country Club, e o ingresso é gratuito. Com este destaque que estou dando aqui na coluna, vai sair gente pelo ladrão, os primeiros que conseguirem ligar hoje pela manhã para o R.S.V.P. 3321-1129 irão vibrar com este torneio de inteligência, persuasão, sensibilidade e oratória.

Amor e casamento, nós, os celebrantes, os convivas, os náufragos e os sobreviventes dessa dupla estação de suplícios e venturas do homem, como não haveríamos de nos interessar pelo desvendamento dos seus segredos?

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Legislativo
Protesto na Câmara da Capital



Vereadores não conseguiram votar aumento da contribuição previdenciária, em sessão tumultuada por servidores (foto Adriana Franciosi/ZH)


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Segunda-feira, Abril 26, 2004




Uma crônica democrática e participativa

Estou cansado de ter de escolher palavras, frases, parágrafos, assuntos, silêncios e elipses. Estou cansado de ficar cheio de dedos, com dedo nenhum e de, vez por outra, só vez por outra, botar os pés pelas mãos. Hoje é segunda-feira, pombas. E falta meia hora para baixar o texto no jornal.

Pelo amor de Deus, me poupem! Tenham pena do cronista do MSP, movimento dos sem-palavras. Sem palavras, não sem palavra, por favor. Por que é que tenho de resolver e escrever tudo sozinho? Vou terceirizar, quarteirizar. Só quero assinar. Vou propor um GT, um grupo de trabalho formado pelo maior número de pessoas e leitores possível. Vamos lá, democracia, participação, me ajudem!

Sugestões, frases, matérias, elogios, puxões de orelha, podem ir me pautando à vontade. Interajam, controlem a mídia, escrevam por mim. Metam bronca! Estou aceitando crônicas de segunda mão. Fico pensando que tem horas em que a gente fica meio perdido, sem saber o que dizer, onde colocar as mãos e muito menos saber que rumo tomar. Sei lá se vou para a esquerda, para a direita, para o centro.

Sei lá se existem estas coisas, ainda. Ando atrás das utopias perdidas. Viram o Dr. Freud ou o Dr. Marx por aí? Sem esperança e sem saída não dá para levantar da cama na segunda. Sem planos definidos, drogado de tanta informação, imobilizado, indeciso, rodeado de palpiteiros e chutadores de todo tipo, acho que vou acabar entrando de vez para a política ou, quem sabe, passo a escrever manuais de auto-ajuda-te-a-mim-mesmo.

De repente descolo uma bela grana, uma identidade que dure uns seis meses, uns miminhos e, de quebra, passo adiante essas velhas, demodées crises existenciais sartreanas. Deu. Fui. Ademã. Os cães ladram e a caravana esfria. Ou será esquia? Tanto faz. (Jaime Cimenti)

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Mais histórias de amigos e desconhecidos

A holandesa no clube

Em 1982, embora tivesse um bom emprego em uma gravadora e ganhasse muito dinheiro com letras de música, eu estava me sentindo profundamente infeliz. Pior ainda: como a vida era generosa comigo, eu também me sentia culpado. Portanto, resolvi largar tudo e correr o mundo, até encontrar um sentido para a existência.

Nessas andanças, vivi uma época em Amsterdam, na Holanda, que era o símbolo de completa e total liberdade em todos os sentidos. Ali, eu freqüentava o Kosmos uma espécie de clube onde se reuniam as pessoas com quem eu tinha afinidade.

Certa noite, uma holandesa me perguntou como era o Brasil.

Eu comecei a falar de nossos problemas: a dura repressão do regime militar, as desigualdades sociais, a miséria, a violência.

Mas, você vive no melhor lugar da Terra completei. Como é acordar todos os dias no paraíso?

A holandesa ficou um longo tempo quieta. Então respondeu:

Horrível. Aqui está tudo certinho, não sobrou nenhum desafio, nenhuma emoção. Oxalá eu tivesse os seus problemas então voltaria me sentir parte da humanidade.

Com os olhos da alma

O escritor argentino Jorge Luis Borges, já com 80 anos, foi visitar o México. Seu editor me conta que, depois de vários dias de palestras, conferências, e homenagens, Borges pediu uma tarde livre para visitar as pirâmides astecas no Yucatán.

O editor explicou que se tratava de uma viagem muito cansativa, onde era preciso andar de táxi, avião, jipe. Borges não se deixou convencer, e terminaram arranjando tudo para que fosse até Uxmal.

Chegou quase ao entardecer, depois de um dia exaustivo. Sentou-se diante de uma pirâmide do século X, e ficou uma hora sem dizer nada. No final, levantou-se e agradeceu aos seus acompanhantes: Obrigado por esta tarde e esta paisagem inesquecível.

Como sabemos, Borges era cego. Mas isto não impediu que sua alma compreendesse o que estava a seu redor.

Uma ermida nos Pirineus

Logo depois do lançamento de O alquimista, eu precisei passar um tempo fora do Brasil. Mas como o livro tinha acabado de sair, e meu editor na época não se mostrava muito entusiasmado, eu vivia preocupado com o que estava acontecendo em minha terra.

Um belo dia, em uma ermida nos Pirineus, encontrei um texto gravado em uma parede. Tive certeza que aquela mensagem tinha sido feita para mim, copiei-a em meu caderno de viagem e passei a repetir aquelas frases todas as manhãs. Pouco a pouco, a paz de espírito foi retornando, e eu pude finalmente desfrutar a viagem.

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ENFERMAGEM
Portas abertas para salvar vidas

Pesquisa do Conselho Federal de Enfermagem registrou 700 mil profissionais da área no Brasil. Desses, 87% são mulheres, e 78% não têm diploma de Nível Superior
Marcella Franco


A vocação é fundamental, segundo Geiza. Gosto mesmo é de crianças, diz ela, que fez curso técnico no Senac e trabalha há 17 anos no berçário da Casa de Saúde São José

Nem mesmo o caos na saúde pública faz diminuir o número de profissionais de enfermagem no Brasil. Ao todo, espalhados pelo País, mais de 700 mil pessoas conservam o ofício de ajudar pacientes e salvar vidas, de acordo com pesquisa realizada este mês pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). E o mercado está de portas abertas: até o fim do ano, surgirão mais 3 mil vagas só no Estado do Rio, segundo o Conselho Federal.

São oportunidades em hospitais, clínicas, casas de saúde, atendimento domiciliar e faculdades, à disposição para absorver esses profissionais, que representam 55% da força de trabalho na área de saúde. Só no Estado do Rio, a enfermagem dá emprego hoje para 115 mil pessoas, entre auxiliares de enfermagem, técnicos e enfermeiros.

Dessas, apenas a terceira categoria tem Nível Superior de ensino. As outras duas foram criadas, respectivamente, em 1949, por conta da legislação brasileira, e no final da década de 60, pela reformulação do ensino no País. Desde então, entre os profissionais da área, a grande maioria é de auxiliares em enfermagem: eles respondem atualmente por uma fatia de 78% do mercado.

Se você chegar agora ao Hospital Souza Aguiar, certamente será atendido, num primeiro momento, por um auxiliar, exemplifica Roberto Pereira, 49 anos, presidente do Sindicato de Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do Rio de Janeiro. Ele diz que, apesar da lei que regulamenta e divide as funções de cada profissional, na prática, o que acontece é diferente.

Ao menos na saúde pública, os auxiliares e técnicos acabam desempenhando funções que não deveriam ser executadas por eles, revela Roberto. O ideal seria cada um cumprir seu verdadeiro papel. Não que eles não tenham a qualificação necessária, mas deve-se respeitar a lei.

E é em busca desse ideal que Alex Moraes, 34 anos, comanda uma equipe de 500 funcionários da enfermagem da Casa de Saúde São José, no Humaitá. Gerente do setor há um ano e meio, ele conta que decisões internas do conselho da entidade definiram uma divisão bastante clara entre as três categorias.


Moraes fez a graduação na UniRio e diz que o bom profissional precisa inovar para se destacar no mercado. Aconselha, para quem quer seguir a carreira, muito estudo e atualização constante

Sabemos que isso não reflete a realidade da grande maioria, mas é importante para a profissão, acredita. Outra preocupação da São José é equilibrar os contingentes masculino e feminino dentro do quadro de funcionários. Isso porque 87% dos profissionais brasileiros de enfermagem são mulheres.

Mas nada de imaginar que exista qualquer tipo de preconceito nesse sentido. Dentro da enfermagem, homens e mulheres são iguais. Até nos salários, que costumam variar entre R$ 150 e R$ 500 para auxiliares e técnicos em início de carreira, e R$ 180 a R$ 1.300 para enfermeiros que ingressam no mercado de trabalho. Mas pode-se chegar a até R$ 3.500, exercendo cargo de responsabilidade em hospital privado, acrescenta Moraes.

Uma das funcionárias do quadro da Casa de Saúde São José é a enfermeira Geiza Gomes dos Santos, 42 anos. Há 17 anos trabalhando no berçário da instituição, ela acredita ter escolhido a profissão por conta da vocação. Sempre tive aptidão para isso, gostava de cuidar das pessoas, conta.

Formada pelo curso técnico do Senac em 1982, ela já trabalhou em clínicas geriátricas e no Hospital e Maternidade Praça XV, todos no Rio. O que gosto mesmo é de crianças. Quando me chamaram para o emprego aqui, soube que tinha vaga no berçário e pedi para me colocarem lá, disse.

Já Moraes é formado em Enfermagem pela UniRio e está na Casa de Saúde há oito anos. Ele acredita que o grande diferencial de um bom enfermeiro está em inovar, conseguir fazer diferente. E dá a dica para quem se interessa em seguir carreira: O bom é estudar muito, procurar captar informações, atualizar-se e não perder a visão de mercado, sabendo quais são as oportunidades para a sua área.

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Derrota e lágrimas para Levir

Técnico entrega o cargo pouco antes do jogo em que o Botafogo, com 10 em campo, perdeu para o Santos (2 a O), na Vila Belmiro



O goleiro Jefferson sobe para afastar um lance de perigo. O alvinegro salvou o Botafogo de levar outra goleada

SANTOS - Derrotar o Santos, ontem, na Vila Belmiro, tinha um significado maior para os jogadores do Botafogo do que simplesmente a reabilitação dos 4 a 1 impostos pelo Goiás, na abertura do Brasileiro. Seria uma despedida honrosa para o técnico Levir Culpi, que anunciara sua demissão antes da partida. Ou, até mesmo, a tentativa de demovê-lo da idéia. Mas o time de Diego, Robinho & Cia. não tomou conhecimento da crise alvinegra e venceu por 2 a 0. Os mais cotados para o lugar de Levir Culpi são Vanderlei Luxemburgo, Tite e Valdir Espinosa.

Não fossem as boas intervenções de Jefferson, o Santos já teria ido para o intervalo em vantagem. Elano, Alcides e Renato chegavam com facilidade ao gol alvinegro. Quando não era má pontaria, o responsável pelo grito entalado dos torcedores santistas recaia sobre o camisa 1 de General Severiano.

Em menos de dez minutos, Elano, em duas ocasiões, e Robinho haviam chegado com perigo. Aos 18, Alcides recebeu livre na pequena área, mas concluiu fraco, nas mãos de Jefferson. O Botafogo só assustou com Luizão, aos 23. O atacante, que estreava como titular, chutou em cima de Júlio Sérgio.

O lance acordou a equipe carioca. Aos 27, Carlos Alberto cobrou falta do bico esquerdo da grande área, Sandro subiu mais que a zaga adversária e, de cabeça, carimbou o travessão. Mas, quando as coisas pareciam clarear para o Alvinegro, Túlio foi expulso no minuto seguinte ¿ após entrada no tornozelo de Diego.

O Santos, com um jogador a mais, foi para cima do Botafogo. Renato, aos 36, livrou-se de três defensores, invadiu a área, mas na hora da finalização, a defesa afastou o perigo. Dois minutos depois, novamente o apoiador da Vila chegou assustando. Desta vez, a bola explodiu em Gustavo e ganhou a linha de fundo.

O Botafogo tentava surpreender nos contra-ataques. Aos 40, Claiton desviou, de cabeça, escanteio cobrado da esquerda e quase marcou contra. Sorte dele que Júlio Sérgio, atento, espalmou. No rebote, Luizão teve a chance de abrir o marcador, mas o goleiro mais uma vez evitou o pior.

No segundo tempo, contudo, Jefferson não conseguiu impedir a derrota. Em contrapartida, Diego fez a diferença. Aos 10, o apoiador aproveitou rebote em chute de Robinho e fez 1 a 0. O segundo gol aconteceu aos 28, num chute de longe, após drible do camisa 10 em Sandro.

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Nei Lisboa
26/04/2004


Eternidades

Guichê na entrada do Céu. O atendente termina de carimbar alguns papéis e faz sinal para que o primeiro da fila se aproxime.

- Até que enfim. Estou plantado aqui há horas e...

- Sei, sei. Tente se acalmar. Estamos em operação padrão por melhores condições de trabalho. Tenha um pouco de paciência. Deixe ver sua ficha. Hum. Morreu esperando durante meses na fila do SUS, o que custa esperar mais uns minutos? Não adianta ter pressa, meu amigo. Pelo menos agora não mais. Pode passar. O próximo, por favor, qual é o seu caso.

- Vim pelo anúncio.

- Que anúncio? Não há anúncio nenhum, meu caro. Dê uma olhada em volta, essas nuvenzinhas brancas lhe dizem alguma coisa? O senhor morreu, tente aceitar o fato, e foi certamente esperando na fila do desemprego. Mas acalme-se, vai encontrar milhares lá dentro na mesma situação. Tente ver a coisa como uma espécie de aposentadoria compulsória não remunerada. Pode passar. O próximo, pois não, senhor.

- Gostaria de falar com o...

- O Pedro não está. Além do mais, o seu caso é mais do que óbvio e não tem solução. Morreu na fila do banco tentando pedir ajuda ao gerente, certo? Pois fique sabendo que não existe cheque especial de vida, queria mais uns aninhos a descoberto pra tentar ressuscitar? Por outro lado, ninguém vai querer subir até aqui só pra cobrar as suas dívidas, fique tranqüilo e vá entrando. Pode vir o próximo.

- Bom dia. Eu não sei dizer o que me aconteceu. Deve haver algum engano. Só lembro que ia assistir a um espetáculo...

- O do crescimento, é claro. O senhor morreu esperando por ele. Esse é um caso dos mais complicados. Tem aparecido muito por aqui ultimamente. Veja bem, o senhor não morreu de doença ou de fome, o senhor foi atingido é nas suas crenças. Nas suas ilusões. Na sua boa-fé. E sem ela, como deve imaginar, não podemos deixá-lo passar desse portão.

Por mais que a sua vida tenha sido repleta de boas intenções. Aliás, por isso mesmo também não podemos encaminhá-lo ao inferno, que delas já está lotado. Portanto, meu amigo, vai ter de passar a eternidade aqui mesmo nessa fila, marchando em direção ao céu sem nunca alcançá-lo. E, se me dá licença... Próximo!

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Paulo Sant'ana
26/04/2004


Um negócio das Arábias
Os proprietários de postos de gasolina na cidade de Rio Grande estão de parabéns: há anos, desde que foi liberado o preço da gasolina com a finalidade de baratear os preços pela concorrência, eles sitiaram o município.

Lá ninguém pode cobrar menos do que R$ 2,27 pelo litro da gasolina comum. Para disfarçar, uns cobram R$ 2,28, outros R$ 2,29. Dissimuladamente, se revezam nesses três preços.

Mas ninguém cobra menos de R$ 2,27.

Vai daí que há anos os postos de gasolina da cidade de Rio Grande ganham mais num litro de gasolina do que os xeques árabes que produzem petróleo. Posto de gasolina em Rio Grande, incrivelmente, ganha mais que o ICMS gaúcho cobrado pela gasolina: porque o governo do Estado tem de repartir os quase R$ 0,60 que ganha de imposto num litro de gasolina com os municípios.

E os postos de gasolina de Rio Grande não repartem com ninguém, têm o lucro bruto de R$ 0,50 por litro.

Faz anos que este é o maior e melhor negócio do Brasil: vender gasolina em Rio Grande, só os bancos devem ganhar mais.

Para se ter uma idéia, num tanque de gasolina com 70 litros, os postos de gasolina de Rio Grande têm lucro de R$ 35.

Sabem lá o que é ganhar R$ 35 com um cliente só que enche o tanque em dois minutos? É um negócio fabuloso. Tanque médio de gasolina, 50 litros, eles lucram R$ 25 limpos. Isso dá mais do que garimpar diamantes em Rondônia.

Se encurralar uma população como a rio-grandina, durante anos, obrigando-a a pagar pela gasolina o preço imposto e extorsivo dentro de um perímetro territorial que engloba um município inteiro não é cartel, então não existe cartel.

Mas faz anos que é assim em Rio Grande e o único canal de protesto de centenas de rio-grandinos é esta coluna. Eles bradam por socorro a esta coluna para que alguém faça alguma coisa, mas ninguém faz nada.

Pobre população inteira e espoliada de Rio Grande. É demais!

R$ 35 de lucro num tanque de gasolina! Que negócio maravilhoso!

Não existe posto de gasolina à venda em Rio Grande. Se existisse, eu pagava o triplo do preço de mercado.

No jogo do Grêmio contra o Fluminense no Maracanã e contra o Flamengo no Olímpico, destaquei em meus espaços as duas extraordinárias atuações do zagueiro Claudiomiro.

Foi o bastante para os anticlaudiomiristas da Redação de ZH, David Coimbra, Luiz Zini Pires e Mauro Toralles, caírem em cima de mim: eles nunca enxergam que Claudiomiro joga bem.

Sábado em Caxias, Claudiomiro foi o culpado do Grêmio não ter-se vitoriado, errou no lance do gol do Juventude.

Hoje é dia dos anticlaudiomiristas desabarem em cima de mim como um enxame de abelhas aqui na Redação.

O Internacional só não ganhou de goleada do Palmeiras ontem por detalhe.

Se o narrador da Rádio Gaúcha tivesse sido o Giulliano Bozzano e o juiz da partida o Pedro Ernesto, o Internacional teria ganho de 4 a 0: o Pedro Ernesto viu três pênaltis a favor do Inter não assinalados pelo juiz.

Só não houve goleada por este detalhe.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Brasileirão
Vitória na sorte e na raça



Na falha de Marcos, Nilmar fez o único gol contra o Palmeiras no jogo em que o Inter teve um a menos no segundo tempo (foto Ricardo Duarte/ZH)


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Domingo, Abril 25, 2004




Como são feitas as listras na pasta de dentes?

Como conseguem fazer a pasta de dentes com linhas coloridas sem que elas se misturem dentro do tubo?
O segredo da textura colorida dos cremes dentais é a forma de rechear os tubos. Além disto um acessório muito especial ajuda na "tarefa gráfica".

Perto da boca do tubo se situa um anel com dois ou quatro orifícios que deixam sair o gel colorido contido em pequenos compartimentos que ocupam praticamente toda a parte da frente do tubo. Enquanto isto, a pasta branca ocupa a parte traseira.

Uma vez criado o tubo com seu bocal diferenciado é hora de colocar seu conteúdo. Isto é feito pela parte de trás e não através do bocal, recheia-se pela parte inferior do tubo, selando a continuação.

Primeiro é introduzido o corante ou gel que vai para o compartimento especial que mencionamos antes. Depois, se introduz a pasta de dentes. Esta vai pressionar o corante quando apertamos o tubo. Assim a massa é impulsionada para o bocal de saída, onde ganha as linhas de cor através dos orifícios, formando a pasta rajada que nos é tão familiar.


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