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Sábado, Junho 05, 2004




Ponto de vista: Stephen Kanitz
A razão da estagnação

"Muita gente leiga critica o elevado nível dos juros oferecidos pelo Estado, quando a verdade é outra, e vive afirmando que estamos pagando 9% do PIB em juros, quando o que se paga está mais próximo de 0%"

É assustadora a confusão disseminada pelo jornalismo econômico brasileiro. Quase todos os jornais estamparam como manchete de primeira página a recente decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de manter os juros devido à "volatilidade externa".

A verdade é que ninguém sabe se o Copom manteve os juros. Para dar essa notícia teremos de esperar um ano inteiro e aí verificar qual foi a inflação do período e descontá-la da taxa do Copom. Só então saberemos o nível dos juros deste país, para tomar, tardiamente, as decisões financeiras apropriadas.

Aliás, uma das razões dos juros altos é justamente esta: ninguém sabe ao certo qual será o verdadeiro juro que receberá dos títulos públicos nos próximos doze meses, um absurdo monumental.

Desde 1994, o Brasil adotou o chamado nominalismo econômico, em que os juros dependem da inflação futura, abandonando o realismo econômico de até então, quando os juros eram reais e não nominais.

Depois de 1994, todo investidor é obrigado a chutar, prever, adivinhar a inflação futura embutida na taxa do Copom. Ninguém tem mais certeza da inflação, nem dos juros. Como fruto dessa incerteza, os aplicadores acrescentam um prêmio de risco elevadíssimo para se precaver.

Se usarmos a inflação de maio como indicativo para o ano, o IGP-10 apontava uma inflação anualizada de 15%. Comparado com os 16% da taxa do Copom e descontado também o imposto de renda, o juro anual será menor do que zero, um juro real negativo. Por isso, temos hoje fuga de capital e volatilidade no câmbio. Ninguém quer perder dinheiro.

Como nada disso é noticiado pela imprensa, muita gente leiga fica criticando o elevado nível de juros oferecidos pelo Estado, quando a verdade é outra, e vive afirmando que estamos pagando 9% do PIB em juros, quando atualmente o que se paga está mais próximo de 0% do PIB, o extremo oposto.

Antes de 1994, para quem não se esqueceu, os títulos da dívida interna eram precificados por seus juros reais, e não pelos nominais como agora. Infelizmente, o governo FHC, não entendendo a essência do Plano Real, reimplantou o nominalismo econômico, cuja primeira conseqüência foi aumentar o risco e a incerteza quanto aos juros futuros. Na era do realismo econômico, os juros eram menores, justamente porque os juros reais eram transparentes e previamente conhecidos.

Quem está criando essa volatilidade toda não são os investidores estrangeiros, mas essa política econômica nominalista, que permite que o juro real flutue mês a mês, de forma imprevisível, numa volatilidade made in Brazil, que aumenta nosso risco à toa.

Tenho um título brasileiro de 1907 com juros de 4% ao ano, quando o capital era escasso e o Brasil, um fim de mundo. Por que pagamos mais do que o dobro hoje, num mundo com capital abundante?

Os 4% de 1907 eram reais e não nominais, eram denominados em barras de ouro, na época a melhor garantia contra a inflação, e rendiam 4% de juros transparentes e sem incertezas. Foi a eliminação do padrão ouro que introduziu o nominalismo econômico e resultou na recessão de 1929.

Para piorar essa situação, o governo FHC introduziu o nominalismo econômico também na taxação dos juros. Hoje, ninguém sabe ao certo como os juros serão taxados no final da aplicação, depende da inflação futura. O imposto se tornou volátil, pode ser 20% do rendimento dos juros, se não houver inflação, pode ser 50%, 60% e até 80%, se a inflação for elevada. Mais um risco que o investidor acrescenta aos juros.

O nominalismo econômico foi responsável pela crise da dívida externa mundial de 1983, pelo enfraquecimento do sistema bancário internacional, pelos equivocados Acordos da Basiléia, pelo surgimento dos fundos especulativos, pela volatilidade do nosso Bônus 40, pela aceleração da inflação, enfim, pela maioria de nossos problemas.

O abandono dessa escola nominalista reduziria de imediato nosso juro, traria títulos com juros precificados, como todos os demais produtos deste país, com uma taxação clara e conhecida. Temos muitos economistas competentes da escola realista, e eles são muito facilmente identificáveis. Basta perguntar qual o juro determinado pelo Copom que eles respondem: "Honestamente, não sei".

Daqui a um mês, quando noticiarem que o Copom "baixou" o juro, lembrem-se deste artigo. Vocês só saberão a verdade no ano que vem.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)

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Diogo Mainardi
Sem lenço nem documento

"Com menos direitos para os trabalhadores, menos impostos, menos investimentos públicos e menos programas sociais, o Brasil finalmente chegaria ao século XVIII. Uns trinta anos de capitalismo selvagem poderiam bastar para nós"

Que tal abolir o salário mínimo? O Brasil funcionaria melhor sem ele. Que tal abolir também a carteira profissional, as férias remuneradas, o imposto sindical, o décimo terceiro, a Justiça do Trabalho, a aposentadoria pública? Quem criou tudo isso foi a ditadura getulista. O autoritarismo do Estado Novo foi eliminado da política, mas sobrevive até hoje na economia.

O emprego com carteira assinada é o maior entrave para o crescimento do país. Custa caro demais para o empregador e confisca boa parte do salário do trabalhador. O modelo a seguir é outro: o do emprego informal. A informalidade é o que há de mais salutar na economia brasileira. Deve ser incentivada. Deve ser estendida a todos os setores produtivos. A informalidade no mercado de trabalho barateia a mão-de-obra, aumentando a oferta de emprego e melhorando a competitividade das empresas. Empresas mais competitivas seguram a inflação e sustentam a balança de pagamentos. Quer melhor do que isso?

Claro que nenhum trabalhador aceitaria abrir mão de seus direitos sem ganhar algo em troca. O poder público precisaria oferecer-lhe uma contrapartida. A única contrapartida cabível seria aumentar sua renda. Isso só poderia ser feito tirando dos ricos e dando aos pobres. Realmente rico, no Brasil, é o Estado. Então é dele que deveríamos tirar. O Estado teria de cortar os impostos. Quanto mais cortasse, mais dinheiro sobraria no bolso do trabalhador, que poderia escolher livremente em que gastar. Se quisesse férias, pouparia. Se quisesse uma pensão, faria um plano previdenciário particular.

A classe política alega que não dá para cortar os impostos porque isso prejudicaria sua capacidade de investimento. Qual o problema? De uma coisa todos os brasileiros sabem: os políticos investem mal. Destinam muito mais recursos à manutenção de seu próprio poder do que aos investimentos úteis. Com menos impostos a pagar e com menos gastos em mão-de-obra, a iniciativa privada poderia substituir o Estado nas obras de infra-estrutura. Quando uma empresa precisasse de um porto, construiria um porto. Quando precisasse de uma estrada, construiria uma estrada. O interesse das empresas nem sempre coincide com as necessidades da população. Uma coisa é certa, porém: pior do que está agora, não ficaria.

Os políticos reclamam também que a redução dos impostos acarretaria a anulação dos programas sociais. O país não perderia muito. O poder público oferece má educação, má saúde, má habitação, má segurança. O Brasil nunca terá dinheiro para montar uma rede de proteção social. Os políticos insistem em afirmar o contrário apenas porque usam as despesas assistenciais para a barganha eleitoral. Eles se elegem distribuindo cesta básica, restaurante popular, salário-família, carro-pipa, vale-transporte. A democracia brasileira se baseia na compra de votos. Como não temos tradição democrática, vendemos nosso voto por uma ninharia.

Com menos direitos para os trabalhadores, menos impostos, menos investimentos públicos e menos programas sociais, o Brasil finalmente conseguiria chegar ao século XVIII. Uns trinta anos de capitalismo selvagem poderiam bastar. Uns trinta anos de Adam Smith.

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Seleção quente

Acostumados com o inverno europeu, jogadores do Brasil não temem o frio em Santiago no jogo de amanhã, contra o Chile
SANTIAGO DO CHILE - Os jogadores da seleção brasileira não estão preocupados com o frio previsto para amanhã, às 21h30 em Santiago (22h30 no horário de Brasília), durante o jogo contra o Chile. Nem a comissão técnica, que não planejou nada especial para evitar esse problema na partida pela sétima rodada das Eliminatórias da Copa.

Acostumados a jogar no inverno europeu, os jogadores comentaram que a baixa temperatura não serve como desculpa para um eventual mau desempenho do Brasil. Santiago teve ontem a mínima de 8 graus e a máxima de 22. O serviço de meteorologia chileno anunciou a chegada de uma frente fria para hoje e amanhã, com mínima de 2 graus e máxima de 18. No horário do jogo, a temperatura pode apontar até 1 grau negativo.

Quando cheguei na Inglaterra (em 2000), meu primeiro jogo foi com 4 graus negativos. Sofri muito, depois me adaptei. Na partida contra o Chile estão falando em um frio de 1 grau. Não é um absurdo. Dá para suportar, a gente até corre mais, disse Edu, escalado por Parreira para substituir Zé Roberto, suspenso com o segundo cartão amarelo.

Edmílson é um pouco mais precavido. Joga no Lyon, na França, também sob baixas temperaturas. Eu uso uma pomada nos dedos do pé que aquece bem. No frio, o pé fica um pouco duro e a pomada ajuda, contou. O artifício usado por Edmílson não será adotado pela comissão técnica da seleção brasileira. Luís Rosan, fisiologista do time, revelou que não haverá nenhum grande cuidado com os atletas por causa do frio.

Estamos encarando esse problema do frio com muita naturalidade. São jogadores que atuam na Europa. Estão acostumados. Eles disseram que o frio não é problema. Se não é problema para eles, muito menos para nós, explicou Rosan.

Moracy Sant´Anna, preparador físico da Seleção, também não vê o frio como um grande problema, mas alterou seu plano de trabalho para o jogo de amanhã, no estádio Nacional.

Vou esticar um pouco mais o aquecimento dentro do campo. Normalmente, o trabalho é de 15 minutos. Vou usar mais cinco minutos. O problema é o intervalo de 20 minutos entre o aquecimento no campo até o jogo começar. Os jogadores descem para o vestiário, fazem as orações e dez minutos antes da partida, têm de perfilar para entrarem em campo e ainda tem o tempo que ficam parados para a execução dos hinos.

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Ricardo Silvestrin
05/06/2004


Imagens

Vinha pensando sobre o Armindo Trevisan. Pensei que já estava na hora de se fazer uma homenagem à altura da importância da sua obra. Dias depois, recebi o convite para ir à solenidade da Câmara de Vereadores em que se concederia o título de Cidadão de Porto Alegre a ele. Felizmente tinha mais gente pensando como eu. E, melhor ainda, agindo.

Trevisan é de Santa Maria, mas passou grande parte da sua vida em Porto Alegre. Formou muitos alunos no Instituto de Artes da UFRGS nas suas belíssimas aulas de História da Arte. Escreveu e publicou livros importantes sobre como apreciar a arte. Paralelamente a isso, construiu de 1967 para cá uma das mais interessantes trajetórias no cenário da poesia brasileira. São mais de uma dezena de livros, todos com o rigor e o cuidado de quem pegou palavra por palavra nas mãos. Pesou uma a uma. Apalpou, levou ao ouvido como conchas para escutar os segredos que tinham a dizer ou a ocultar. E já estou falando como a sua poesia, por imagens.

Trevisan é um poeta-pintor. Seus textos são muitas vezes carregados de cores, de volumes, de texturas, de ritmos. Não o ritmo da música, mas o ritmo das pinceladas. Se o seu lado professor sabe ler as imagens e transformá-las em palavras, o seu lado poeta sabe fazer o contrário: pintar com palavras. Leia/veja esse: "Canto à Maternidade 6: A pomba em teu lábios pousa. / Ei-la: a voar entre teus dedos / com a agulha e a linha. Aos primeiros / plátanos do outono, seu ouro aumenta, / e desaparece numa fita de cabelo. / Tu a segues / polindo panelas. Quando se sustém / no bordo de um telhado, arrepiada / a paz te agasalha sob as plumas". Talvez não haja pomba nenhuma, mas só a imagem dela associada aos movimentos da mãe. O significado se dissolve entre as imagens, como na pintura. Ver fica maior do que entender.

Agora esse: "Ciclo do Pai 15: Tua morte, Pai, é repouso / de espiga em celeiro, equilíbrio / de pedra sobre o musgo. Enquanto o sol / me aquece, vou, por entre / aves de gargantas polidas, / a medir-te a sombra. Palpo, / num aperto de mãos, o frio abrupto / de teus ossos. E me conformo ao feixe / que te reúne aos planetas, / e à ferrugem de um balde / gotejando luar". Os dois poemas estão em A Mesa do Silêncio, editado pela L&PM em 1982, uma das melhores coisas que li até hoje.

Para quem quer ter uma visão mais ampla da poesia do Trevisan, tem a Nova Antologia Poética, lançada em 2001 pela Editora Sulina. Quanto às homenagens, espero que o título de Cidadão de Porto Alegre tenha sido só o começo.

ricardo.silvestrin@zerohora.com.br

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Cláudia Laitano
05/06/2004


Rewind

Tem filmes que nos conquistam pelo conjunto da obra: uma história bem contada, atores geniais e um cutuco emocional e/ou intelectual qualquer que nos bate do jeito certo na hora certa. São esses os que a gente geralmente lembra quando pensa em grandes filmes - os que marcaram o ano, os que se listaria como favoritos no Orkut.

Mas existe um outro tipo de experiência cinematográfica marcante, talvez um pouco mais sutil, proporcionada por filmes que partem de uma idéia tão original, tão impactante que essa sacada inicial acaba se tornando quase independente do filme. Lembramos dessa idéia mais do que da trama em si - às vezes somos perseguidos por ela. Eu dou dois exemplos, você vê se faz sentido.

O primeiro é Peggy Sue - Seu Passado a Espera (Peggy Sue Got Married, 1986), de Francis Ford Coppola. Peggy Sue é uma dona de casa que tem a chance de voltar aos tempos de colégio e reescrever sua vida, sabendo no que cada decisão errada iria dar e contando com toda a experiência acumulada ao longo dos anos. É evidente a universalidade dessa fantasia.

Todo mundo já fez o exercício de ficção de imaginar como seria ter a chance de fazer tudo de novo sabendo o que sabe agora, disparando respostas rápidas e inteligentes que não ocorreram nos momentos certos, escapando das roubadas, testando opções menos óbvias e mais corajosas. Para mim, depois do filme, esse tipo de fantasia ganhou um nome: são momentos "Peggy Sue".

Outro exemplo, menos conhecido: Depois da Vida (Wandafuru Raifu, 1998), do diretor japonês Kirokazu Kore-eda. (Kiro quem? Eu também nunca ouvi falar, mas o filme é fantástico, eu garanto, se você topa encarar o ritmo desacelerado de um filme japonês, bem entendido.) A idéia é a seguinte: num local entre o Céu e a Terra, pessoas que acabaram de morrer devem vasculhar suas memórias em busca de um momento inesquecível de suas vidas. A passagem escolhida será recriada num filme - a única lembrança que esse pessoal vai levar para o Paraíso.

O barato dessa história é que é impossível sair do cinema sem ficar imaginando que raio de momento a gente escolheria para levar para a eternidade. A dúvida pode durar dias, semanas, a vida inteira. Como os personagens do filme, ficamos divididos entre os grandes eventos (nascimentos, casamentos, viagens) e situações aparentemente banais que condensam uma carga de emoção ou revelação tão forte que mais ou menos definem o sentido que cada um de nós empresta ao termo felicidade - o que não é pouca coisa.

Eu já escolhi o meu, mas pretendo mudar de idéia ainda várias vezes até os 45 do segundo tempo. É impressão minha ou você já começou a pensar no seu também?

claudia.laitano@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
05/06/2004


Estado de barbárie

Já se conhece na vida real a versão mais autêntica do inferno: os presídios brasileiros.

Não se sabe se são 30 ou são 38 os presos assassinados na Casa de Custódia Benfica, no Rio de Janeiro, o que por si só já demonstra a desorganização dos serviços carcerários.

Mas o que se sabe é que os 30 presos mortos (está bem, 30) foram aprisionados, entre mais de uma centena, julgados por uma comissão de outros detentos que estavam encapuzados, e dispostos no chão com as mãos amarradas.

A seguir, prolatadas as sentenças, um por um os presos foram mortos a marretadas, que começavam na cabeça e iam se espalhando por todo o corpo.

A marretadas, como boi para consumo.

Não há na história da crônica policial brasileira um massacre mais cruel.

O pior é que se tratou de mortes anunciadas. O governo de Rosinha Garotinho foi suficientemente avisado por autoridades e agentes do sistema penitenciário de que a reunião na Casa de Custódia de Benfica, no mesmo tempo, de presos pertencentes ao Comando Vermelho e ao Terceiro Comando, facções que nutrem entre si rivalidade e ódio de morte, só poderia proporcionar uma carnificina.

Não deu outra. Com uma população carcerária de 900 detentos, 600 deles pertencentes ao Comando Vermelho, com a tentativa de fuga e conseqüente rebelião no presídio, os presos do CV se apoderaram da minoria do Terceiro Comando e foram detonadas as atrozes execuções.

Já para a administração de centenas de presos de uma facção convivendo com os de outra, rivais, dentro de um presídio, a tarefa não é fácil. Imaginem com uma rebelião!

As autoridades deveriam ter previsto que esse contubérnio de presos inimigos dentro de um presídio estimula exatamente a rebelião, pela qual se verifica a vindita sangrenta, como já outros motins indicaram, inclusive o do presídio Urso Branco, em Rondônia, onde recentemente o mesmo e agora já surrado método ceifou as vidas de dezenas de presos.

Assim como em Benfica, em Bangu 3 convivem presos de facções inimigas.

Isso é mais um paiol pronto a desatar a explosão de outro genocídio. O defensor público Eduardo Gomes afirma que, se houver o mesmo em Bangu 3, não serão 38 mortos, mas 380.

O que há por trás de tudo isso é um profundo desprezo do poder público pela sorte dos presidiários.

Esse sentimento administrativo é amparado incrivelmente na opinião pública. Não há qualquer clamor público contra essas matanças.

Se se for consultar a opinião pública, ela dará de ombros e dirá quase que unanimemente o seguinte: "Melhor que morressem todos". Assim reagem os cidadãos comuns brasileiros a esse inferno em que viraram os presídios, daí que a situação só tende a agravar-se.

O que desconhece a opinião pública é que, se entre detentos confinados e submissos à carceragem impera essa desordem sangrenta e genocida, fora dos muros prisionais, nas ruas e nas comunidades, onde moram os titulares da opinião pública, fatalmente se desenrolará um inferno ainda maior e mais constante, atingindo a totalidade dos cidadãos.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Diplomacia
Bush ouve sermão do Papa



Em encontro no Vaticano, João Paulo II cobrou do presidente americano uma solução para o Oriente Médio e condenou as torturas no Iraque (foto Osservatore Romano, Reuters/ZH)


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Sexta-feira, Junho 04, 2004




Brilho poético

Inspiração para os apaixonados, Vênus passa diante do Sol num fenômeno raro que instiga também os astrólogos

Alex Soletto e Cláudia Pinho

Na mitologia, Vênus é a deusa do amor, da beleza e representa a feminilidade. Pode ainda simbolizar a luxúria e a vaidade. Na astronomia, o planeta Vênus é o segundo no Sistema Solar e, depois da Lua e do Sol, é o astro mais exuberante e brilhante do céu.

Se não bastasse, cientistas americanos sugerem que, além do planeta Marte e Europa uma das luas de Júpiter , seria possível a existência de vida na atmosfera venusiana. Ao contrário da inóspita superfície de Vênus, que possui pressão 90 vezes maior que a da Terra e temperaturas que atingem 460ºC, sua atmosfera é mais parecida com a terrestre e suas temperaturas oscilariam entre 30ºC e 80ºC.
Essas condições seriam propícias ao desenvolvimento de bactérias. Toda essa aura que envolve Vênus pode explicar por que poetas, músicos e apaixonados em geral vêem o planeta como uma eterna fonte de inspiração. Conhecido na Grécia antiga como Phosphóros, a estrela matutina, e Hisperos, estrela vespertina, no Brasil ele foi imortalizado como Estrela DAlva, graças à canção carnavalesca de Noel Rosa e João de Barro.

Um evento astronômico raro, que aconteceu pela última vez em 1882, promete atiçar ainda mais os fãs desse planeta. Na terça-feira 8, acontecerá o que os astrônomos chamam de trânsito de Vênus, um fenômeno que ocorre quando o planeta se alinha entre a Terra e o Sol.

O chamado minieclipse ocorre em par, isto é, a primeira aparição depois do intervalo de 122 anos é seguida por uma segunda, oito anos depois. O próximo alinhamento será em 2012, quando o planeta estará do outro lado do Sol, mas o fenômeno será invisível no Brasil.

Nem todo mundo verá o trânsito deste ano, mas os observadores privilegiados conseguirão acompanhar um pequeno ponto escuro no disco solar. Os astrônomos estão de prontidão. Esse acontecimento é extremamente raro, mais do que um eclipse total ou a passagem de um cometa, diz Amâncio Friaça, astrônomo da Universidade de São Paulo (USP).

Desde que o astrônomo alemão Johannes Kepler previu que o fenômeno celeste aconteceria em 1631, os cientistas sabiam que seria possível criar uma unidade padrão para medir distâncias interplanetárias. A primeira observação comprovada ocorreu em 1639 pelos astrônomos ingleses Jeremiah Horrocks e William Crabtree, mas foi no trânsito de 1761 e 1769 que o astrônomo Edmond Halley criou o método usado até hoje para calcular grandes distâncias no espaço.

Dois observadores colocados em pontos diferentes e distantes um do outro registrariam as imagens durante o fenômeno. A diferença no deslocamento de Vênus no disco solar, o chamado paralaxe, indicaria a distância entre a Terra e o Sol. A partir desses dados, várias expedições foram organizadas para calcular o que hoje é conhecida como Unidade Astronômica (UA), uma espécie de régua astronômica.

O Brasil teve uma importante participação em 6 de dezembro de 1882, quando o Imperial Observatório do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional, organizou três expedições. A que foi chefiada pelo astrônomo Luis Cruls, em Punta Arenas, na Patagônia, chegou ao resultado de 149,4 milhões de quilômetros de distância, muito próximo da medida aceita oficialmente de 149,5 milhões. O imperador d. Pedro II, um admirador das ciências, fez questão de enviar os resultados pessoalmente à Academia de Ciências de Paris.

Com a UA definida, hoje a observação do fenômeno é mais histórica, mas não menos importante. Será interessante comprovar a margem de erro da medida, que é bem pequena, para poder melhorar cálculos futuros, assegura Marcomede Rangel, físico do Observatório Nacional. Além disso, o fenômeno pode proporcionar a realização de outros estudos. Podemos pôr em prática técnicas para detectar a existência de planetas em torno das estrelas. Como o ofuscamento solar, que retira artificialmente o brilho do Sol, diz Friaça.

Como tudo que se refere aos astros, não é só na astronomia que o trânsito de Vênus causa rebuliço. Para a astrologia, o evento pode significar mudanças importantes no mundo. Uma delas é a maior participação feminina em questões de destaque. Estudando os outros trânsitos, observei muitos casos de mulheres que entraram para a história devido a fatos ocorridos em ocasiões próximas às datas em que Vênus cruzou o disco do Sol, garante Celisa Barenger, presidente do Sindicato de Astrólogos do Rio de Janeiro.

Segundo a estudiosa, a influência do fenômeno pode começar até um ano antes e perdurar por mais algum tempo. Ela cita os casos da princesa Isabel e da musicista Chiquinha Gonzaga, personalidades importantes que tiveram destaque no período do último trânsito, em 1882.

Este ano estamos vendo uma maior participação das mulheres na Olimpíada de Atenas, por exemplo, afirma. Coincidência ou não, o Comitê Olímpico Brasileiro vai levar 224 atletas, sendo 106 mulheres, já considerado um número recorde. Em Sydney, a delegação feminina contava 94 atletas.

Por estar entre as órbitas da Terra e do Sol, Vênus é considerado um planeta interior. Para muitos estudiosos, isso significa uma forte influência no interior das pessoas. Isso mexe com o amor-próprio, simboliza o lado da sensibilidade. Como o evento acontece na casa de gêmeos, isso favorece também a comunicação, diz o astrólogo paulista Valderson de Souza. Para a astróloga Maggy Harrison, o momento vai trazer benefícios na convivência social.

Haverá mais prazer através dos amigos, capacidade de perdoar os erros alheios, refinamento dos sentimentos e do intelecto e maior capacidade de apreciação da beleza, da poesia e da música, garante. Uma dose a mais de inspiração às vésperas do Dia dos Namorados e num momento em que o mundo clama por paz.

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O que é que a musa tem?
Marcia Cezimbra

O que leva uma mulher a acender a luminosidade da alma de um artista e a fazê-lo criar, como uma fonte sem fim, beleza e arte? Esta é a força estranha das musas, desde as deusas arcaicas da mitologia grega até a musa mercenária que trocava idéias por jóias da Tiffanys vivida por Sharon Stone no filme A musa, de 1999. Pois essa musacidade levou a autora Francine Prose a buscar uma explicação comum a tão poderosas e distintas fontes de inspiração. O que é que a musa tem?
Lou Salomé: sexo somente depois dos 30 e poucos

Em A vida das musas: nove mulheres e os artistas que elas inspiraram (Nova Fronteira), Francine tenta decifrar, por exemplo, o enigma Lou Andreas-Salomé, que virou a cabeça de homens como os poetas Paul Rée e Rainer Maria Rilke, o filósofo Nietzsche e o gênio da psicanálise Sigmund Freud. Lou tinha um prazer genuíno pela reflexão intelectual. Sua idéia revolucionária era formar um triângulo amoroso-filosófico entre ela, Rée e Nietzsche. Lou queria viver com os dois, mas só para pensar. Nada de sexo.

Musa estranha... Claro que isso deu confusão, mas levou Paul Rée a produzir belos poemas e Nietzsche vislumbrou em Lou a possibilidade de ser emocionalmente correspondido. E, para argumentar com ela, para criticá-la, para tentar se comunicar com ela, produziu nada menos que Assim falava Zaratustra. O único que transou com Lou foi Rilke, com quem ela perdeu a virgindade aos trinta e poucos anos. Mais tarde, Freud também deslumbrou-se e costumava chamá-la de domingo, um delicioso elogio. O que tinha esta mulher que se sustentava com idéias e textos? Uma autenticidade que despertava a criatividade dos gênios e lhes dava a segurança de que seriam bem compreendidos. Isso é amor!

Alice Liddell influenciou Lewis Carrol sem saber

Yoko Ono, a musa de John Lennon foi mais incisiva. Ela conquistou John com uma instalação que, ao final de uma inusitada experiência, havia a palavra SIM. Lennon ficou fascinado. Sintomático. Mas a musa teve que se atirar sobre o carro do beatle para que ele a notasse de novo. Mandava torpedos do tipo: respire. Foi a única musa das nove estudadas por Francine que teve um filho com seu artista.

Outras, como a fotógrafa Lee Miller, transcenderam o artista, no caso o pintor Man Ray. Lee, modelo, mostrou que também pensava e a prova está nas suas fotos surrealistas da Segunda Guerra, quando cobriu a invasão da Normandia. Há musas estupefatas, como Alice Liddell, que inspirou Lewis Carrol aos 11 anos sem saber bem por quê. Já Gala Dalí é uma musa devastadora. Levou Salvador à ruína e à desmoralização de assinar telas em branco.

As outras nove são Hester Thrale, musa do escritor Samuel Johnson; Elizabeth Siddal, musa do pintor Dante Gabriel Rossetti; Charis Weston, de Edward Weston; e a bailarina Suzanne Farrell, do coreógrafo George Balanchine. O que elas têm em comum? O amor que elas despertaram é a fonte criadora do pensamento e da arte.

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Harry Potter cresceu e apareceu
Bianca Kleinpaul - Globo Online

Sai o tom comercial, o "estilo Disney" e "bonitinho", dos filmes anteriores, entram uma bela fotografia, criaturas verdadeiramente assustadoras e atores mais maduros. "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban", terceiro filme da série que entra em circuito em todo o mundo a partir desta sexta-feira, é assim: sombrio, cínico e bem diferente dos anteriores dirigidos por Chris Columbus. Também pudera... Seus protagonistas entraram na adolescência e com isso vieram a rebeldia, os medos e as angústias comuns à idade. Além disso a direção mudou ficando a cargo do mexicano Alfonso Cuarón, elogiado e premiado pelo seu primeiro longa "E sua mãe também". Graças a esse latino-americano, o visual da "mitologia Harry Potter" se transformou. E para melhor.

O mundo de Harry e seus amigos inseparáveis, Ron (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), está mais bruto, gelado, onde quase nunca pára de chover ou nevar, refletindo na fotografia cinzenta de Cuarón. Até o jogo de quadribol, um dos poucos momentos divertidos e "iluminados" da turma - apesar da rivalidade em "campo", ficou mais assustador.

A escola Hogwarts está mais parecida com escolas comuns. O tradicional uniforme saiu do estilo engomadinho e ficou com a cara dos adolescentes "normais", que deixam uma gravata torta aqui ou uma metade da blusa para fora ali. As roupas de passeio da turma também mudaram. Saem os "tweeds" e roupas feitas pela avó e entram os jeans e um último botão da camisa aberto. Os penteados estão mais modernos. Com isso, as carinhas mudaram (e muito!) fazendo de Harry e Ron não só os queridinhos das meninas, mas, sim, os novos símbolos sexuais da garotada. Pais, preparem-se!!!
O filme é uma viagem pelo interior dos personagens

Cuarón foi fiel ao espírito do livro de J.K Rowling. O terceiro best-seller da série é uma viagem ao interior na qual embarcam os adolescentes, em que os medos se manifestam dentro deles e não sob forma de monstros palpáveis. Uma boa amostra é uma das aulas com o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Remus Lupin (David Thewlis, de "O grande Lebowski" e "Linha do tempo"). Ele ensina a cada um da turma como enfrentar o verdadeiro bicho-papão que fica escondido dentro do armário. Coisa de criança... Mas os alunos acabam aprendendo que o bicho-papão que enfrentam não é apenas monstro no exterior. Seus demônios vêm de dentro.

Embora na superfície se trate de uma história sobre magia e criaturas fantásticas, os temas explorados em "Harry Potter 3" têm um peso maior. O filme fala sobre como tornar-se adulto, mostra a questão da identidade, as relações com os amigos, a falta de orientação dos pais e as dúvidas a esse respeito. Também estão lá as diferentes classes sociais, a injustiça, o racismo, "coisas que afetam a todos nós no mundo inteiro", como definiu em uma de suas entrevistas o diretor Alfonso Cuarón, que em "E sua mãe também" (com Gael García Bernal) já mostrava outro rito de passagem, no caso, da adolescência para a vida adulta.
Hermione vira exemplo feminino aos 13 anos.

A rebeldia se manifesta em Harry Potter desde o início do filme, quando ele enfrenta seus tios ranzinzas e detestáveis (para quem não acompanha a "mitologia HP", Harry é órfão e foi morar com os tios que o detestam por ele ser estranho, diferentes dos outros, ou seja, um bruxinho). Pela primeira vez, ele usa um de seus feitiços fora da escola quebrando a regra e transforma sua tia "acidentalmente" em um verdadeiro balão de gás que sai flutuando pelo bairro. A raiva que tem por seus pais terem sido assassinados pelo temido "coisa-ruim" Valdemort, claro, se sobressai mais que qualquer raiva de outro adolescente.

Hermione também cresce e deixa de ser uma menininha chata e sabe-tudo. A melhor e mais sábia amiga de Harry não aceita mais desaforo do "inimigo" Draco Malfoy, que a chama de sangue-ruim por ela não ser filha de bruxos. Fugindo do bom exemplo, ela dá um soco no (mau) colega de escola e sai furiosa no meio de uma aula mostrando que as mulheres podem ser mais poderosas e audaz até em fábulas adolescentes.

Como nos filmes anteriores da série, há participações especiais em "O prisioneiro de Azkaban". A principal delas é de Gary Oldman como Sirus Black, o temido prisioneiro do título que consegue fugir de Azkaban para ir ao encontro de Harry Potter. Como sempre, Oldman está poderoso e dinâmico em cena e alia muito bem o perigo de seu personagem à brandura dele. Emma Thompson também participa do filme como a professora de Adivinhação, uma vidente extremamente míope que só consegue ver o futuro e mais nada à sua frente.

Para viver o respeitado diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore, e substituir Richard Harris, ator falecido ano passado que o interpretara nos outros dois filmes, foi chamado Michael Gambon (de "A lenda do cavaleiro sem cabeça", "Assassinato em Gosford Park" e "Anjos na América"). Não chega a ter o brilho no olhar de Harris nem trata o fundamental Dumbledore de maneira tão peculiar, mas os adolescentes podem nem notar a diferença.

Os monstros são mais assustadores neste terceiro filme. Os mais terríveis são os guardas fantasmas (os Dementadores) que se alimentam dos medos ocultos e extraem toda a alegria da alma de sua vítima.

"Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" certamente vai agradar aos fãs que já estão crescidinhos. E pode conquistar outros tantos fanáticos por filmes "pipoca" e histórias fantásticas que sabem reconhecer que um boa direção por trás da cena é capaz de transformar sucessos de bilheteria em produções inesquecíveis.

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A caminho da unanimidade

Ronaldo, com os três gols que marcou contra a Argentina, está cada vez mais perto dos recordes estabelecidos pelo Rei Pelé

BELO HORIZONTE - Não é segredo para ninguém que o Mineirão é o principal palco de Ronaldo no Brasil. Difícil era imaginar que o Fenômeno aproveitaria o ambiente familiar para aumentar seu recorde pessoal de gols contra a Argentina. Com os três que marcou na quarta-feira, o artilheiro chegou a cinco em seis confrontos contra nossos hermanos. Atrás apenas do Rei Pelé, que balançou as redes de nossos vizinhos oito vezes, em dez partidas.

Perder para o Rei não é vergonha para ninguém. Ainda mais que Ronaldo igualou a melhor marca do Atleta do Século em apenas uma partida. O Fenômeno fez três, todos de pênalti, é verdade, mesma quantidade de Pelé na Copa Roca de 1963. O jogo acabou 5 a 2 para o Brasil e o Rei fez três dois de pênalti.

O clube dos que marcaram três gols contra a Argentina num mesmo jogo tem outro sócio ilustre: o pentacampeão Rivaldo. Em 1999, num amistoso no Beira-Rio, em Porto Alegre, ele fez três na vitória de 4 a 2.

Maradona ganhou apenas um jogo contra o Brasil

Com os três gols que marcou ontem, Ronaldo chegou à ótima marca de 58 gols em 85 jogos. Média de 0,68 por partida. Os números são da CBF. Pelé tem 96 gols em 115 jogos, enquanto Zico fez 66 em 88 partidas e Romário único rival do Fenômeno ainda em atividade fez 59 gols em 73 partidas.

Do lado argentino, ninguém chega perto do Fenômeno. Muito menos do Rei Pelé. O principal goleador na história da seleção argentina é Batistuta, que ainda joga no Catar, mas está fora dos planos de Marcelo Bielsa. Pois bem: Batistuta tem 54 gols pela seleção, sendo apenas dois contra o Brasil em dez jogos.

O desempenho de Maradona contra os brasileiros é ainda pior. O pequeno gênio argentino que por lá é tratado como o maior jogador de todos os tempos fez só dois gols contra os pentacampeões. E em seis jogos, conseguiu apenas uma vitória.

Líder do ataque argentino na quarta-feira, Crespo foi uma peça nula. Mas em quatro partidas contra o Brasil, o atual centroavante da seleção de Bielsa já deixou o seu gol. E tem duas vitórias no currículo.

Só dois tinham feito três de pênalti no mesmo jogo

Segundo a Fifa, o camisa 9 é o terceiro jogador na história a converter três pênaltis em um mesmo jogo de Eliminatórias. Antes dele, dois europeus alcançaram a marca: o suíço Turkyilmaz, contra as Ilhas Faroe (5 a 1), em 2000, e o sueco Henrik Larsson na goleada sobre a Moldávia (6 a 0), em 2001, ambos durante as Eliminatórias de 2002. Até hoje, ninguém anotou três gols de pênalti em jogos de Copa do Mundo.

Maior artilheiro da história do Vasco e titular da seleção brasileira na Copa de 1978, na Argentina, Roberto Dinamite exaltou o desempenho do Fenômeno. Os três gols falam tudo. Apesar dos problemas de ligação entre meio-de-campo e ataque, as jogadas do Ronaldo foram fundamentais. Não é fácil converter três pênaltis. Aliás, ele fez quatro para valerem três, comentou.

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Corrida por sonho milionário

Com MegaSena acumulada em R$ 45 milhões, apostadores lotam casas lotéricas. Prêmio é o recorde do ano e terceiro maior já pago
Flávia Duarte e Roberta Novis


Humberto, que serviu no Timor Leste, pretende ajudar crianças no Nordeste e aplicar dinheiro em hospitais

É aquela corrente para frente. Com a MegaSena acumulada há nove concursos, apostadores correm às casas lotéricas na esperança de levar prêmio que pode superar R$ 45 milhões. O terceiro maior valor pago na história do jogo ainda não dá para comprar o Octopus, iate de Paul Allen sócio de Bill Gates que visitou o Rio no Carnaval , que custa o triplo. Mas é mais do que suficiente para satisfazer muitos outros desejos.

Até ontem à tarde, o ritmo da arrecadação do concurso 569 era de R$ 944.110,50 por hora, segundo a Caixa Econômica Federal. A média de apostas é alta. Cada jogador está gastando em média R$ 6,70. O jogo mais barato custa R$ 1,50. Mas as chances de quem só arrisca o bilhete único de seis números ficar a ver navios é grande: a possibilidade de acerto é de 1 em mais de 50 milhões.

Números serão sorteados às 20h de amanhã

O sorteio será amanhã, às 20h, em São Joaquim da Barra, São Paulo. A previsão total de arrecadação é de R$ 75 milhões. Uma das campeãs de apostas do Rio, a Sena Loteria, no Aeroporto Internacional Tom Jobim, recebeu 24 mil apostas para o concurso de quarta-feira. Para amanhã, a expectativa é chegar a 30 mil. Há fregueses apostando alto, com bolões de 100 volantes. E também tem gente de outros estados que faz a sua fezinha antes do embarque, conta o gerente José Carlos Siqueira, o Russo.

O estudante Gustavo Malta apela a Nossa Senhora de Fátima: Se ganhar, abro um restaurante. Margarete de Oliveira, gerente da lotérica Lucky Point, em São Cristóvão, disse que já recebeu mais de R$ 15 mil em apostas.

Os seis meses que passou em missão de paz no Timor Leste despertaram a solidariedade do militar Humberto Trigueiro da Silva. Vou ajudar crianças do Nordeste, doar para hospitais públicos e, com o resto, comprar uma casa, promete ele, que sempre joga no 13 uma das dezenas mais sorteadas. O comerciante Val Rosa tem motivos para acreditar. Há cinco meses, apostou numa lotérica de Angra dos Reis e ganhou R$ 24 mil, quando a MegaSena estava acumulada em R$ 9 milhões. Vou ganhar a bolada e viajar o mundo inteiro, sonha.

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David Coimbra
04/06/2004


Meu objetivo de vida

Quem me contou foi uma amiga: uma conhecida dela, na véspera de seu aniversário de 60 anos, pôs-se a comemorar:

- Que beleza, chegar aos 60 anos: agora não preciso mais aprender inglês nem fazer sexo, vou só me entregar às delícias de ser avó.

Há sabedoria incrustada na frase. Não na parte do inglês, língua pela qual também fermento a mais borbulhante antipatia, mas que, reconheço, é útil. Quanto à decisão de renunciar à atividade sexual, não posso fazer qualquer julgamento - sabe-se lá pelo que passou essa senhora, a vida é cheia de percalços...

Agora, nada mais verdadeiro do que o trecho em que ela fala dos prazeres de ser avó. Sei disso não por mim: pela minha própria avó. Ela se comprazia em nos empanzinar com as compotas de doces que ela mesma preparava, ou com seu feijão cremoso, ou com sua massa feita em casa, a melhor massa que já comi. Eu comia, comia, comia, até porque sempre que me via ela exclamava:

- Mas como esse guri está magrinho!

E depois acrescentava, para gáudio meu:

- Vou fritar um bifinho pra ele.

Com os netos, minha vó só pensava em se divertir. O máximo de censura que saía de sua boca era advertir que vinagre demais afina o sangue. Tudo bem, é assim mesmo, todo mundo sabe que é aos pais que cabe o ônus da educação dos filhos.

Esse o meu objetivo de vida: ser irresponsavelmente bondoso, agradar aos outros sem precisar medir as conseqüências, poder ser condescendente até diante da ingratidão. Por isso entendo as oposições a todos os governos, em todos os tempos. Não faz muito, quando o PT era oposição, seus parlamentares elaboravam projetos sociais que tinham a intenção de levar os pobres do Brasil ao Paraíso. Só não especificavam quem ia pagar a conta do transporte até lá ou a da estadia nos resorts do Jardim do Éden. Demagogia? Não. A oposição tão-somente exercitava sua generosidade.

Agora, vivendo as agruras da situação, o PT teve de impor um realista salário mínimo de R$ 260, enquanto os parlamentares que outrora ocupavam o governo bradam que isso é uma miséria, uma afronta à população de baixa renda, blablablá.

Parece uma insuportável incoerência, uma falta de vergonha política. Não é. Justamente aí está toda a beleza e toda a eficácia pedagógica da democracia. É esse revezamento na função de padrasto com a de vovozinha que faz com que todos aprendam e cresçam. E, o melhor: sem precisar abdicar do sexo.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Mauren Motta
04/06/2004


O tecnobrega

Sou daquelas apaixonadas por música. Minha primeira vitrolinha, cinza com as caixas de som acopladas ao prato, ganhei cedo de meu pai. Lá em casa sempre tinha um vinil rolando no aparelho de som. Aos sábados era sagrado: carreteiro com Elis Regina. Fui crescendo ouvindo e colecionando de tudo. Samba, rock, black, tecno.... Por sinal, minha vida não seria a mesma sem uma boa trilha sonora. O jornalismo já me realizou alguns sonhos. Troquei uma bola com o Djavan, conheci os caras da Groove Armada, cantei com o Jorge Benjor no palco do Planeta e até já assisti a um show da Ivete Sangalo em cima do trio.

Então imaginem vocês o Prêmio Multishow, no Rio? Adorei! Sentada na platéia, acompanhei de perto o astral que rola entre os músicos brasileiros. Claro que existe concorrência e coisa e tal, mas o clima era de festa. Todo mundo de quem gosto tava lá: Marisa Monte, Zeca Pagodinho, Caetano, Vanessa da Mata, Marcelo Camelo, D2, Maria Rita.... Era tanta gente que quase quebrei o pescoço. Celebridades televisivas também pintaram no pedaço. Era a nata da música brasileira.

Na semana passada, quando estava em Belém gravando pro Mais Você, conheci uma outra cena musical. Hermano Vianna e equipe do Brasil Total me levaram a um festival de forró. Até aí tudo bem. O lance é que as bandas eram bisonhas. O Tecnobrega, que abriu a noite, embala a moçada com versões em português de músicas conhecidas em acordes caribenhos. O astral é trash total. Despudorados e sem o menor senso do ridículo, eles usam roupas à altura do nome.

Muito brilho, corrente, zebrado e transparências. As vocalistas, todas loiras oxigenadas e gordinhas, fazem a linha Madonna e Britney do Pará. E tem mais, bailarinos acompanham as bandas. Foi incrível! A estrutura era de megaevento, e o povo dançava agarradinho na frente de dois palcos gigantes ao ar livre.

Na seqüência, uma festa de Aparelhagem encerrou a nossa divertida noitada. Essas festas são aquelas em que enormes sound system irradiam música brega made in Belém em decibéis altíssimos. Saí surda e feliz. Viva o ecletismo musical nacional.

Beijolas compassadas.

mauren@rbstv.com.br

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Paulo Sant'ana
04/06/2004


Decisivos erros de arbitragem

Os pardais estaduais do Daer continuam faturando nas estradas gaúchas.

O leitor Leandro de Moura Carvalho, acadêmico da Ulbra de Gravataí, é um entre cinco leitores que me mandaram e-mails revoltados contra os dois ou três pardais que foram colocados na RS-118 recentemente, entre Viamão e Gravataí.

Eles dizem trafegar há anos nesta estrada e nunca foram surpreendidos por qualquer obra que melhore o péssimo estado da RS-118, cheia de buracos.

No entanto, os pardais foram lá instalados traiçoeiramente há dias.

O governador Germano Rigotto elegeu-se prometendo que substituiria os pardais estaduais por controladores eletrônicos.

No poder, seu governo, como se vê, não só manteve os pardais já existentes como instala novos equipamentos arrecadadores.

Portanto, nada de novo no território gaúcho, senão a fúria arrecadatícia rondando as estradas: os leitores desta coluna mostram-se irados e nauseados com estes pedágios consecutivos que se colocaram na BR-116, daqui a Pelotas.

Como diz um leitor, viaja-se até Pelotas com uma mão no volante e outra na carteira. É pedágio sobre pedágio. O leitor gastou R$ 50 de gasolina até Pelotas e R$ 30 de pedágio, isto é um escândalo.

Um insulto. Pardal na estrada estadual, colar de postos de pedágios na estrada federal.

Os motoristas estão sitiados pelos tributos impostos pelos governos de todos os partidos. Todos os partidos.

Numa iniciativa inédita, o Hospital Bruno Born, de Lajeado, passa a oferecer, a partir da próxima semana, hospedagem gratuita para familiares de pacientes de fora do município que sejam submetidos a angioplastias e cirurgias cardíacas e oncológicas pelo Sistema Único de Saúde.

Com isso, é minimizada a ansiedade dos pacientes e familiares que vão de longe para receber o atendimento no hospital de Lajeado, permitindo-lhes maior conforto físico e psicológico e permitindo uma recuperação mais rápida.

Essa medida faz parte do processo de humanização que há dois anos está em curso no Hospital Bruno Born. Pesquisas realizadas junto a pacientes do hospital indicaram que a presença do familiar no dia da realização dos procedimentos cirúrgicos, especialmente cardíacos e de câncer, era um dos itens mais solicitados.

Surgiu então uma parceria com o hotel próximo ao hospital, que acolherá os familiares dos pacientes.

Num tempo em que o atendimento do SUS se torna penoso em muitos aspectos, essa iniciativa do hospital lajeadense é digna dos maiores elogios.

A multidão que assistia na Redação de Zero Hora ao jogo Inter x Glória ontem, pela televisão, integrada em sua maioria por colorados, em quase unanimidade opinava que os erros de arbitragem de Carlos Simon levaram o Internacional à finalíssima.

O Glória foi massacrado pelos erros do árbitro, mas descansem os que vêem fantasmas nesse episódio: foi apenas coincidência que o juiz tenha errado a favor de um lado só.

Isso acontece no futebol. Mas, quando o favorecido é o clube grande, irrompe a celeuma de ontem.

Mais uma vez cai por terra a tese de que erros de arbitragem não ganham jogo. Ganham jogo e ganham até campeonatos, sim.

Azar do Glória.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Gauchão
Inter sofre para passar pelo Glória



Só nos pênaltis o time de Lori Sandri conseguiu classificação à final do Gauchão, domingo contra a Ulbra (foto Fernando Gomes/ZH)


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Quinta-feira, Junho 03, 2004




Quero ser grande
Estréia amanhã o terceiro filme da série Harry Potter. Produção tem tudo para agradar aos fãs do bruxinho, agora adolescente
Rubia Mazzini



À esquerda, Gary Oldman vive o vilão Sirius Black. Emma Thompson (centro) é a exótica professora Sybill Trelawney e David Thewlis faz Remus Lupin, mestre nas técnicas contra a magia negra

Trouxas e feiticeiros de todas as idades, a espera não foi em vão. Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban, o terceiro e aguardadíssimo filme da série baseada nos livros de J. K. Rowling, que estréia amanhã, é uma beleza de obra. Mérito do quase desconhecido cineasta mexicano Alfonso Cuarón, que substituiu Chris Columbus responsável por Harry Potter e A Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta na condução da nova aventura estrelada pelo simpático bruxinho.

Tenho certeza que alguém vai sentir falta de algo muito específico que ficou em sua mente enquanto lia o livro. Mas acho que os fãs vão adorar o filme, declarou Cuarón, recentemente. Diretor do ousado drama juvenil E Sua Mãe Também (com o lindo Gael García Bernal), o mexicano soube valorizar o que há de melhor no universo fantástico criado por J. K. Rowling. Um clima permanentemente sombrio e novos personagens esquisitões marcam O Prisioneiro de Azkaban, filme que começa a mostrar o amadurecimento de Harry Potter (Daniel Radcliffe) e dos inseparáveis Ron (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson).

Agora um adolescente de 13 anos, Harry começa a fita burlando as regras da escola de magia Hogwats furioso, faz uma tia trouxa (pessoa sem poderes mágicos) inflar até se transformar num balão humano , foge de casa e descobre que sua vida está em perigo quando o mago Sirius Black (Gary Oldman) escapa da prisão de Azkaban. Black é suspeito de ter provocado a morte dos pais de Harry e acredita-se que agora queira acabar também com o bruxinho.

Até o desfecho surpreendente para quem não conhece o livro, claro , Harry enfrenta os fantasmagóricos dementadores (guardas de Azkaban que estão à proura de Black), lobisomens e outros perigos. O clima é tão pesado, que até em uma partida de quadribol o esporte preferido dos alunos de Hogwats , jogada debaixo de uma tempestade, o pequeno feiticeiro arrisca a pele. Que venha Harry Potter e o Cálice de Fogo, o próximo longa, previsto para dezembro de 2005.

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El Gordito

Ronaldo acaba com a Argentina em sua volta ao Mineirão: faz, de pênalti, os gols da vitória de 3 a 1 do Brasil, o novo líder. Imagine se ele estivesse fininho...
Marluci Martins

BELO HORIZONTE - Nada como ganhar da Argentina. Principalmente quando o resultado vale ao Brasil a liderança isolada (12 pontos) nas Eliminatórias para a Copa de 2006. Pois este é gostinho que os jogadores da Seleção estão sentindo desde ontem à noite, após a vitória de 3 a 1 sobre os eternos rivais sul-americanos, no Mineirão. Autor dos três gols, todos de pênalti, o gordinho Ronaldo foi o destaque do jogo. Imagine se estive magrinho...

O Brasil soube aproveitar melhor as oportunidades no primeiro tempo. Se a Argentina tivesse caprichado mais nas finalizações, o resultado teria sido outro. Logo aos 7 minutos, Dida e Juan bateram cabeça num cruzamento para Sorín. A bola sobrou para Crespo, mas Roque Júnior afastou o perigo.

Sem Ronaldinho Gaúcho, machucado, o time Parreira se ressentia de um jogador de criação. Para completar, Luís Fabiano não repetia o bom futebol apresentado no São Paulo. Kaká, Juninho e Ronaldo eram os que mais se movimentavam do meio para frente.

E foi numa jogada individual do Fenômeno que nasceu o primeiro gol. O atacante partiu em velocidade pela esquerda. Já dentro da área, escapou de Quiroga. Mas, na seqüência, acabou derrubado por Heinze, depois de outro drible desconcertante. O árbitro não teve dúvidas e marcou pênalti, que o próprio Ronaldo cobrou, atentendo a pedido da torcida.

Era o reencontro, após dez anos, do jogador com o Mineirão, palco de belos gols seus nos tempos de Cruzeiro. Ronaldo correu para a bola e deslocou o goleiro, que foi para o lado direito. O gol mal pôde ser comemorado. O juiz mandou voltar a cobrança, alegando invasão brasileira. O Fenômeno bate novamente, desta vez no meio, e faz 1 a 0, aos 16 minutos.

Em outra falha da defesa brasileira, Dida ficou olhando três argentinos tentarem, de cabeça, o empate. A bola passou por toda a extensão da área, e, no rebote, novo cruzamento. Desta vez, Crespo, livre, cabeceou pra fora.

Roberto Carlos, que sonhou com o clássico, por pouco não fez um gol de botar todo argentino pra sambar. Aos 33, numa cobrança de falta da intermediária, o lateral soltou uma bomba a 123km/h. A bola tirou tinta do ângulo direito de Caballero. Pouco depois, o mesmo Roberto Carlos cortou cruzamento para Crespo. No rebote, Sorín, sem marcação, isolou.

No segundo tempo, Oscar Ruiz não deu pênalti de Samuel em Ronaldo, com 2 minutos. Aos 7, o atacante recebeu lançamento na área e, de perna esquerda, fuzilou por cima. Mas a noite de Belo Horizonte reservava ao craque um reencontro em grande estilo com o Mineirão. Aos 22, ele arrancou do meio de campo e fez fila. Passou por dois marcadores e só parou no terceiro, com pênalti. A torcida pediu e ele não decepcionou: 2 a 0. Sorín, aos 34 descontou, após a bola bater na trave. Mas, aos 50, Ronaldo sofreu outro pênalti, que ele mesmo bateu para definir o placar.

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Nilson Souza
03/06/2004


À mais bela

Meu amigo foi ver Tróia e me recomendou, com um olhar de cumplicidade masculina:

- A Helena do filme vale uma guerra!

Depois que ele se afastou, fiquei pensando na sugestão. Nenhuma mulher - e nenhum homem também - vale uma guerra, por mais belos ou poderosos que sejam. As guerras destroem os valores essenciais da vida, entre os quais a própria beleza, que já é efêmera por natureza.

Helena, conta a lenda, era a mulher mais linda que a face do sol jamais contemplara. No dizer de um apaixonado historiador de mitologia que li outro dia, "seus olhos encerravam o mistério das noites e suas mãos pareciam feitas para amarrotar rosas". Mas não foi ela quem começou a guerra famosa entre gregos e troianos. De acordo com Homero, foi Éris, com o seu Pomo da Discórdia.

Como bem relatou aqui o nosso mestre Cláudio Moreno, a deusa má, esquecida numa festa de casamento (e no filme), lançou no salão de danças um pomo (maçã) de ouro, com a seguinte inscrição: "À mais bela". Três outras deusas se engalfinharam na disputa de vaidade: Atenas, a deusa da sabedoria; Hera, a deusa do casamento; e Afrodite, a deusa do amor. Zeus determinou que Páris, pastor e filho enjeitado de um rei, fosse o juiz do conflito. As três divindades tentaram suborná-lo, mas a oferta de Afrodite foi mais atraente. Ofereceu-lhe o amor de Helena, a mulher mais linda do mundo, que por coincidência - é sempre assim! - já era casada.

Daí à guerra foi um passo.

A beleza continua sendo uma deusa intrigante, nos dois sentidos da palavra. Se os homens vão ao cinema para ver a deslumbrante Diane Kruger, que interpreta Helena, as mulheres não escondem sua admiração por Brad Pitt de saiote, no papel do guerreiro Aquiles. E essa visão tão igual e tão diferente ao mesmo tempo costuma deflagrar outras guerras intermináveis, que envolvem vaidade, amor, desejo e ciúme.

Numa sentença tão antológica quanto cruel, Vinícius disse que a beleza é fundamental. Menos poeta e mais ponderado, costumo dizer que esta senhora tão desejada tanto pode ser uma bênção quanto uma maldição.

Depende do olhar que as contempladas pela natureza lançam sobre o pomo de ouro.

nilson.souza@zerohora.com.br

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José Pedro Goulart
03/06/2004


Sobre a Sofia e um certo coração de vidro

Se você se chama Sofia, ou tem alguém querido com esse nome, por favor, não fique chateado comigo, mas a Sofia em questão aqui é uma cachorrinha que mora no pátio lá de casa. Sofia é uma mistura de alguma coisa com coisa nenhuma. Quando chegou, bem pequena, parecia uma bolinha de tênis, amarelinha, felpudinha e foi trazida para fazer companhia para a Brigite, uma outra vira-lata que, por sua vez, havia sido recolhida há mais tempo da rua, muito doente, raquítica, a cachorra mais magrinha que eu já vi.

Devo dizer que, apesar dos nomes de artistas de cinema, nos dois casos, isso foi só coincidência. Mas tenho certeza que a Brigitte Bardot, dado seu interesse pelos animais, ia até ficar feliz de ter uma xará porto-alegrense como a Brigite, uma cadelinha que sabe ficar na dela como ninguém, sequer late para não incomodar o dono. Quanto à Sophia Loren, não há dados disponíveis sobre sua preocupação por cães ou outros bichos. De minha parte, entretanto, meu interesse por ela desde guri (e pela BB também) sempre foi, digamos assim, latente.

Mas eu contava da Sofia, cadelinha acostumada a afagos diários, ela, até onde sei, é o único cachorro que ronrona feito gato. Basta dar-lhe uma coçadinha na barriga. Pode ser com o pé mesmo, que ela não é exigente. Ultimamente, porém, ela tem andado triste, muito triste, aliás. É que há alguns meses nasceu minha filha, e a Sofia, confesso, foi deixada um pouco de lado.

A Brigite não se importa muito, ela se acha no lucro: casinha, ração, água, um ossinho do churrasco e passarinho para correr atrás, tudo isso vem como um bônus extra, uma vez que a vida dela esteve por um fio. Mas a Sofia...Nesse último fim de semana ela apresentou um olhar de Rubinho Barichello, cabisbaixa, orelhas no chão, coisa de cortar a alma.

Lembrei de um livro que li quando criança, Coração de Vidro, de José Mauro de Vasconcellos. Nele os bichos sofriam com a indiferença ou a maldade dos donos. Recordo do imenso sofrimento que senti e também de algo que me intrigou: o coração de vidro do título era a respeito dos bichos, e representava como esse coração era frágil, quebrável, ou era a respeito de nós, humanos, de como podemos ficar impermeáveis a certas emoções?

Olhei para o lado, no chão, e minha filha de nove meses se divertia colocando a mão na boca da Sofia, puxando-lhe as orelhas, apertando-lhe o nariz. E a Sofia nem pensava numa pequena vingança, um arranhãozinho, uma mordidinha quem sabe. Apenas olhava para mim. Não era um olhar ressentido, muito menos desafiador, era apenas um olhar de saudade.


jose.pedro@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
03/06/2004


Outra teoria

Uma frase num dos textos produzidos em 1997 pelo tal "Project for a New American Century", que é para os neoconservadores do governo Bush uma espécie de Mein Kampf sem a autobiografia - tudo que eles pensavam e pretendiam fazer no poder está lá -, tem excitado os adeptos de teorias conspiratórias.

A frase diz que as mudanças necessárias na política dos Estados Unidos para se impor no novo século como eles queriam viriam lentamente, a não ser que acontecesse (a citação é direta) "um evento catastrófico e catalisador, como um novo Pearl Harbor" para mobilizar o povo americano. Coincidência ou não, o fato é que os escombros do World Trade Center ainda fumegavam e Rumsfeld, Wolfowitz e o resto da turma já pediam guerra contra o Iraque e todos se mobilizavam para produzir as provas que justificassem uma invasão que já estava decidida - desde 1997.

Boa parte das razões para atacar o Iraque foi fornecida por exilados iraquianos, nenhum com mais motivação para aproveitar a guerra e voltar por cima, e - apesar de ser um escroque conhecido - com mais acesso aos neocons e credibilidade na imprensa americana, do que Ahmed Chalabi.

Na confissão de babaquice que fizeram há dias, os editores do New York Times não quiseram citar nomes, mas podiam ter dito que a maior parte da desinformação sobre armas de destruição em massa e programas nucleares do Saddam que publicaram foi passada por Chalabi e asseclas à sua repórter Judith Miller, que hoje está sendo apontada como cúmplice involuntária, ou no mínimo descuidada, da grande farsa que já matou quase mil soldados americanos.

E milhares de iraquianos, mas quem está contando? O Times está sendo cavalheiro com a dona Judith. As notícias imaginárias daquele repórter que eles despediram com grande estardalhaço, que se saiba, não custaram nenhuma vida. Neste caso, só devem recomendar a seus repórteres que escolham melhor seus informantes.

Agora que Chalabi caiu em desgraça, revela-se, ou espalha-se, que a sua "agenda" não era apenas a de um patife oportunista. Ele e sua rede de desinformação teriam enganado todo o mundo a serviço do Irã, com o qual tem ligações antigas. E surge uma nova e fantástica possibilidade para entusiasmar os teóricos de conspirações: a de que por trás de tudo - das mentiras que levaram à guerra, da guerra que levou o caos ao Iraque e a desmoralização aos Estados Unidos - estava o Irã, golpeando dois inimigos com um só safado.

No tempo em que se manifestava contra mandar mais soldados americanos para lutar no Vietnã, John Kerry dizia que não se podia pedir a alguém para ser o último a morrer por um engano. Não se sabe quantos ainda vão morrer no Iraque por um conto-do-vigário.

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Paulo Sant'ana
03/06/2004


A prisão da vovó

Sobre a prisão da avó que teria o dever de pagar pensão alimentícia devida por seu filho a suas netas, recebo importante e especializada visão do caso: "Caro Paulo Sant'Ana. Em função da grande repercussão do caso da Sra. Eva Nazario Vianna, que teve a prisão civil decretada pela Comarca de Triunfo, devido a dívida de alimentos (ZH de 31/5 e 1º/06), resolvi fazer alguns esclarecimentos, eis que atuo no caso, representando os interesses da referida senhora, na condição de defensor público de Montenegro.

No dia de ontem, pela manhã, impetrei ordem de habeas corpus perante o Tribunal de Justiça do Estado, visando à sustação da ordem de prisão. O pedido liminar foi concedido ao final da tarde. Não se está discutindo a dívida em si, eis que contra a Sra. Eva milita sentença condenatória de alimentos, transitada em julgado (ou seja, não cabe mais recurso). Porém, discute-se aplicabilidade do procedimento extremado e excepcional da prisão civil no caso de dívida da avó perante os netos.

Ocorre que a devedora, Sra. Eva, é pessoa idosa, doente e humilde. Não bastaria aos próprios credores, os netos, o desconto em folha da pensão devida, pois a avó é pensionista? Por que, então, optar pelo procedimento excepcional da prisão civil, se ele não garante o pagamento da pensão, e apenas força o pagamento pela coerção? Ora, a prisão civil é aplicável aos devedores contumazes, que burlam, desdenham e fazem pouco caso da Justiça, que fogem, que se escondem... Não se destina aos avós, geralmente idosos e com poucos recursos. Um grande abraço do leitor assíduo, (ass.) Cristiano Vieira Heerdt, defensor público de Montenegro".

Este episódio, também revelou a difícil situação em que se encontra a Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Na Comarca de Triunfo, onde tramita o processo de execução que originou a prisão civil da referida senhora, não há defensor público atuando, em função da histórica falta de agentes públicos que desempenhem a função. Além de Triunfo, outras comarcas (e a população) sofrem com o mesmo problema. De qualquer sorte, a Sra. Eva procurou a Defensoria Pública de Montenegro, porquanto reside nesse município, o que lhe possibilitou assistência jurídica integral e gratuita, como lhe assegura a Constituição Federal. Entretanto, se residisse em Triunfo, não poderia se socorrer da Defensoria Pública do Estado. Não há defensores públicos suficientes para atender a população gaúcha. Assim, fica mais difícil ou impossível a grande parte da população o acesso à Justiça.

O matemático David Castiel Menda me manda curiosa criação que adaptou à Lei de Murphy:

"1) Existe uma fórmula facílima de sair com uma pequena fortuna de um bingo: basta entrar com uma grande fortuna.

2) Ao perder os seus últimos centavos, não considere como um fracasso completo - sempre poderá servir como exemplo negativo para o futuro.

3) O homem que consegue sorrir ao verificar que acabou de perder suas últimas economias no bingo, é porque viu alguém conhecido para fazer um vale.

4) Os primeiros 90% do tempo que você permanece num cassino tomam 90% do que você possui na carteira. Os últimos 10% do tempo tomam os 100% do limite do seu cartão de crédito.

5) Se você estiver ganhando num cassino ou num bingo, não se preocupe. Isso passa".

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Gauchão
Ulbra humilha o Grêmio



Derrota gremista de 3 a 1 em Canoas, com falha do goleiro Tavarelli, pode determinar ainda hoje a saída da comissão técnica e do técnico Adilson Batista (foto Fernando Gomes/ZH)


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Quarta-feira, Junho 02, 2004




Passo Firme

Por Daniel Tavares
Fotos Eduardo Svezia


A gaúcha Maythe Birman, 32, é hoje conhecida no mundo da moda como a primeira-dama da marca de sapatos e acessórios Arezzo. Antes disso, foi apresentadora da extinta TV Manchete e embaixadora da Dior no Brasil. Casada há oito anos com Anderson Birman e mãe de Allan, 5,

Maythe divide seu tempo entre a empresa, fazendo pesquisas internacionais de tendências, e a família, sua prioridade. Entre suas atividades, estão incluídas a de levar e buscar o filho na escola e na natação, ajudá-lo com as lições de casa e participar de maratonas de corrida com o marido.

Do Sul para Minas e dali para a capital paulistana (uma estratégia comercial da Arezzo), Maythe chegou à cidade em grande estilo e fez amigos em pouco tempo. "Fui escolhida para ser embaixadora da Dior no Brasil na época da minha mudança para São Paulo. Nesse 'trabalho', fui apresentada às pessoas que hoje são as mais próximas a mim", conta.

Agora acostumada às fotos de revistas, colunas sociais e eventos de moda, Maythe está sempre estilosa. Aqui no site ela mostra muito mais do que gosta e usa.

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02/06/2004 08h03

Israelense cria medicamento para despertar o apetite sexual das mulheres

Da EFE
Em Jerusalém


O sexólogo israelense Avner Shemer criou uma poção que ele diz ser capaz de despertar o apetite sexual das mulheres.

Segundo declarações de Shemer publicadas hoje, quarta-feira, pelo jornal "Maariv", a mistura de substâncias naturais, uma espécie de Viagra, começa a surtir efeito meia hora após ser ingerida "com uma taça de vinho e com o estômago vazio".

Shemer, que passou dez anos fazendo pesquisas, começou buscando uma substância que enriquecesse os alimentos. No entanto, chegou à outra que serve, afirmou, para solucionar o problema da falta de desejo sexual em muitas mulheres.

Entre os componentes da fórmula da poção estão folhas de magnólia, raízes de nozes, maçãs chinesas, lichia e orégano.

Por enquanto, são desconhecidos os resultados estatísticos dessa espécie de Viagra entre as "pioneiras" que começaram a consumir a nova poção, cuja venda em farmácias será livre devido à sua composição natural.

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Velho Chico

Compositor faz 60 anos no dia 19 e público terá como presente uma caixa com 12 CDs, dois DVDs, fotos exclusivas e texto caprichado retratando sua obra mais recente
Mauro Ferreira

As letras de suas músicas pinçam Deus e o diabo nos detalhes e subvertem a lógica e o sistema Frei Betto

Millôr Fernandes foi profético quando, ainda nos anos 60, atribuiu a Chico Buarque o rótulo de unanimidade nacional. No próximo dia 19, o cantor e compositor estará no seu apartamento em Paris, provavelmente saboreando um vinho. A data merece mesmo alguns goles de sua bebida predileta. Nesse dia, Chico Buarque de Hollanda completa 60 anos de idade, longe dos holofotes, como é de seu gosto. As comemorações acontecerão no Brasil sem a presença do aniversariante.

Uma caixa de CDs (Francisco, com sua obra a partir de 1987), um livro (Chico Buarque do Brasil, Editora Garamond, 430 páginas, R$ 54,50) e uma exposição de cartas e fotos na Biblioteca Nacional celebram seis décadas de vida do carioca que soltou a voz pela primeira vez na maternidade do Hospital São Sebastião, no Catete.

Chico resistia aqui no Brasil, compondo Apesar de você e nos ajudava a resistir lá fora Augusto Boal

Sua voz tímida seria ouvida em escala nacional em 1966, na efervescência dos festivais da canção, quando Chico, então com 22 anos, defendeu A Banda para uma platéia que se embevecia com a música e com o porte de galã do cantor, ainda hoje cortejado por platéias femininas por seus olhos de ardósia. Nascia ali a unanimidade nacional prevista por Millôr, que ganharia contornos heróicos ao se valer de sua música para denunciar os horrores da ditadura militar.

Auto-exilado na Itália, Chico voltou para o Brasil para lutar contra a opressão e moldar uma obra que concilia com o mesmo rigor estético a música, o teatro e a literatura. Na volta ao Brasil, o garoto que queria ser jogador de futebol driblou a repressão com jogadas de mestre como a criação de um compositor fictício, Julinho da Adelaide, para enganar a censura. Chico resistia, aqui no Brasil, escrevendo Apesar de Você e Vai Passar, e nos ajudava a resistir lá fora, cantando sua amizade, lembra o teatrólogo Augusto Boal, também exilado, em depoimento para Chico Buarque do Brasil.

Chico tem exercido o poder constituinte. O poder de constituir-se portador da marca do seu tempo Gilberto Gil

As letras de suas músicas recendem a poesia, esquadrinham a alma humana, pinçam Deus e o diabo nos detalhes, e subvertem a lógica e o sistema. Compor é o seu auto-exorcismo. Cantar, sacrifício reverencial ao seu público, interpreta Frei Betto, em depoimento para o mesmo livro. Dos sambas iniciais dos anos 60, que evocavam a verve de Noel Rosa e dos bambas do Estácio, ele foi nos anos 70 aos dramas épicos de músicas como Construção e às canções de alma feminina (Olhos nos Olhos, Atrás da Porta).

Nos anos 90, com discos cada vez mais espaçados, Chico intensificou a atividade de escritor, publicando os livros Benjamim (que virou filme este ano pelas lentes de Monique Gardenberg), Estorvo e Budapeste, editado no ano passado. No teatro, escreveu peças marcantes como Roda Viva (1968), Calabar (1973) e Gota d'Água (1975).

Flagrantes desta vida e obra de dimensões universais e conotações sociais estão sendo selecionados pela ex-mulher de Chico, a atriz Marieta Severo, para a exposição que ocupará a Biblioteca Nacional. A caixa de CDs, a exposição e o livro são retratos de um artista que marcou seu tempo e sua geração.

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Rivalidade e história em jogo

Brasil e Argentina brigam desde 1914 e têm 32 vitórias cada um. Quem vencer hoje assume a liderança das Eliminatórias
Marluci Martins

BELO HORIZONTE - Parece final de Copa do Mundo. Longe disso, mas parece. Brasil e Argentina levam hoje para o Mineirão, a partir das 21h45, décadas e décadas de uma velha e surrada rivalidade. O jogo, válido pelas Eliminatórias da Copa, pode dar molho à história do confronto entre as duas seleções: de 1914 para cá, foram 32 vitórias para o Brasil e também 32 para a Argentina. Todos os ingressos foram vendidos e o Mineirão vai estar lotado.

Perder? Jamais. Empatar? Também não. O técnico da Seleção, Carlos Alberto Parreira, pensa somente na vitória. Mas sabe que o mesmo objetivo passa pela cabeça do treinador argentino Marcelo Bielsa.

O empate é muito pequeno para o futebol argentino. Para a seleção brasileira, também. Será um jogo bom, aposta Parreira.

Desde que começou a preparar o time, o técnico da Seleção não esconde seu maior temor: o contra-ataque argentino. Delgado, Crespo e Killy Gonzalez são os nomes que abrem sua lista de preocupações. Para evitar os contra-ataques, temos de jogar com oito homens atrás da linha da bola. Na frente, somente o Luís Fabiano e o Ronaldo, diz Parreira.

Ronaldinho Gaúcho é o segundo nome da lista de preocupações do técnico da Seleção. Com um estiramento na coxa esquerda, o atacante desligou-se ontem da delegação e está vetado também do jogo de domingo, contra o Chile, em Santiago.

Ele é uma personalidade do futebol mundial. Um jogador que decide. Sem Ronaldinho Gaúcho, o Brasil perde muito, mas o esquema tático não muda. O que pode mudar é apenas o estilo na frente, destaca Parreira, torcendo para que o substituto, Luís Fabiano, consiga dessa vez manter sua cabeça quente no lugar.

A ausência de Ronaldinho Gaúcho, porém, não é o trunfo dos argentinos. Bielsa não esconde de ninguém que pretende vencer o jogo em cima da zaga brasileira, que considera frágil. Parreira não concorda:Nos últimos seis jogos, tomamos poucos gols. Isso mostra que houve evolução na defesa.

Clique aqui e veja a tabela e a classificação das Eliminatórias

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Diana Corso
02/06/2004


Geração de pioneiras

Perdas & Ganhos, o penúltimo livro de Lya Luft, não é ficção, tampouco ensaio, sequer autobiografia. Não é de leitura fácil, nem contém apelos baratos às nossas carências, porém produziu uma coqueluche de vendas. Entre prosa e poesia, Lya distribui uma série de conselhos sobre o essencial: tratam da nossa condição de filhos, pais, amantes, do envelhecimento, do luto, dos nossos tempos narcisistas e da coragem necessária para amadurecer.

Mas por que uma dama da literatura escreveria um livro de conselhos e tantos o aclamam? Porque são colocações precisas, vindas de uma mulher cuja vida tem sido coerente com seu discurso. Suas palavras, apoiadas por sua credibilidade pessoal, entraram num espaço vago, que tem sido (mal) ocupado pelos livros de auto-ajuda: a necessidade de cotejar a própria vida com algum tipo de sabedoria seja ancestral, religiosa ou científica.

Lya é de uma "geração de pioneiras", descrita por ela assim: "Não temos padrões anteriores para imitar nem mesmo para infringir, uma vez que o universo de nossas mães está em alguns aspectos tão distante do nosso que não há como comparar". Logo, os padrões vigentes não lhes serviam como parâmetro.

Antes delas já existiam personagens ímpares, mulheres irreverentes em sua vida pessoal ou nos seus campos de conhecimento, exemplos isolados a seguir. Mas foram essas mulheres que hoje atingem a maturidade as que viveram enquanto geração a experiência de transformar a realidade cotidiana. Muitas lotearam campos profissionais, conciliaram a vida doméstica com o trabalho, separaram-se e viveram mais de uma relação amorosa. Outras não fizeram tudo isso, mas sabiam que podiam.

O interesse pela sabedoria contida nesse livro é a prova de que uma nova geração de mulheres se consolidou e tem algo a ensinar. A característica importante destas novas senhoras é que podem se distanciar de algumas afobações e ingenuidades da juventude, mas estão longe de pensar que sua vida acabou. Lya se expõe de forma delicada, o que faz diferença, já que estamos enfarados da pornografia emocional dos ricos e famosos.

Livros de auto-ajuda pressionam e estressam, nunca nos amamos nem nos ajudamos tanto quanto o autor receita. Mas o livro de Lya ajuda como a velha e boa literatura costuma fazer, fazendo pensar, suportando identificações que nos seduzem sem autoritarismo, revelando nossos aspectos obscuros e inconfessáveis. Suas idéias não são diferentes daquelas que seus personagens sempre defenderam, mas se tantos o tem comprado é porque seu tom de sinceridade veio a calhar.

diana.corso@zerohora.com.br

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Martha Medeiros
02/06/2004


Anonimato

Nem todos desejam ser uma celebridade feito a descerebrada Darlene da novela das oito. Tem muita gente que preza sua pacata vidinha longe dos holofotes e nem por isso se considera um anônimo, até porque anônimo, mesmo, não existe ninguém. Pode o sujeito nunca ter saído numa revista ou aparecido na tevê, mas anônimo ele não é: muita gente o conhece no bairro onde mora, na escola onde estuda, no seu local de trabalho.

E em alguma coisa ele é o melhor: o melhor juiz de futebol de várzea, o melhor puxador de samba do boteco da esquina, o don juan mais manjado da internet, o melhor síndico que seu edifício já teve, a melhor mãe de trigêmeos, o melhor fotógrafo de 3 x 4, o motorista que melhor estaciona entre dois carros, a dona da receita de pudim mais cobiçada do morro. Não há quem não esteja no foco, todo mundo é importante pra alguém e tem um atributo qualquer. Passar totalmente despercebido, só não tendo nome nem rosto. Os anônimos por opção.

Lamentavelmente, los hay. Criaturas que escondem seu nome e seu rosto para poder colocar em prática intenções medíocres. São os que não assinam cartas cheias de agressões, os que passam trote ao telefone, os que inventam nomes falsos em provedores gratuitos só para escrever e-mails terroristas. Essa gente que não têm coragem de mostrar a cara, sinceramente, nem precisava mesmo existir.

Antes uma legião de Darlenes do que um único mascarado. Prefiro o desatino dos que fazem de tudo para ser reconhecidos, os que se expõem e pagam mico para estar em evidência, do que aqueles que agem na sombra, que só conseguem ser eles mesmos quando estão bem escondidinhos atrás de seus nicknames. Será que só há estas duas possibilidades na vida: ser célebre ou fantasma?

Uma revista publicou recentemente 10 dicas para quem quer ser alguém. Inacreditável: a) fazer lipo, b) casar com um tipo famoso, c) ter filho de um tipo famoso, d) freqüentar lugares da moda, e) ter muito dinheiro, f) ter hábitos excêntricos, g) escrever algo bombástico, h) ser um fofoqueiro profissional e outros conselhos geniais.

Abro novo e último parágrafo para listar também as minhas 10 regrinhas ainda mais geniais para quem quer ser alguém: a) ser registrado num cartório ao nascer, b) constar da lista de chamada da escola, c) descobrir qual é o seu dom, d) providenciar uma carteira de trabalho, e) saber assinar o próprio nome, f) levar um documento no bolso, g) ter sempre por perto alguém da sua tribo, h) pagar você mesmo suas contas, i) responder quando alguém perguntar quem é você e qual é a sua: sou fulano de tal, RG, CIC, firma reconhecida, nada a declarar, j) mas também nada a esconder.


martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
02/06/2004


As meninas do colégio

Testemunhei a cena do local onde corro todas as semanas. Três meninos de uns 11 ou 12 anos estavam empoleirados na mureta do pátio do colégio contíguo à pista. Mascavam chicletes indolentes, as mochilas esquecidas na grama. A 10 metros, vinham duas garotas da mesma faixa etária, uma moreninha discreta e uma loirinha bem bonitinha, daquelas que vão fazer evaporar os chopes do Lilliput nas noites de 2012. Os três guris cochichavam enquanto as observavam.

Quando as meninas chegaram perto, a conversa estancou. Elas passaram, agarradas aos cadernos, e o do meio jogou um oi hesitante nos braços da loirinha. Ao que ela virou a cabeça, iluminou o rosto com um sorriso onde coruscava a malícia e lhe devolveu um ó comprido, com umas reticências coloridas no final. Os amigos do guri do meio urraram. Ele ficou vermelho.

Sorri, recordando-me dos tempos do Presidente Arthur e do Amstad. Podem ter inventado a internet, a celular e o kiwi, mas, na essência, nada mudou no espírito do homem.

Mais adiante desenrolava-se um jogo de futebol entre a gurizada. É um joguinho tradicional. Todas as manhãs eles se enfrentam. Por isso que conheço o Jeferson. Passo a trote e ouço:

- Como tu é burro, Jeferson!

- Levanta a cabeça, Jeferson!

- Vem pra defesa, Jeferson!

Durante semanas, a curiosidade me espicaçou. Quem seria o Jeferson? Até que o identifiquei: magrinho, alto para a idade, meio fora dos engonços. Pobre Jeferson, todos os dias é espezinhado. Todos os dias ele ouve que é uma besta, que não joga nada, que enterra o time, que devia jogar vôlei com as gurias. Desde que o reconheci, passei a torcer pelo Jeferson. Mas ele nunca se dava bem. Nunca, nunca. Parecia meu amigo Portuga, da época do Amstad.

O Portuga, não se surpreenda, era português. Adorava jogar bola, amava o futebol como nenhum outro da turma, mas jamais marcou um gol, jamais teceu uma jogada de efeito, jamais protagonizou um lançamento em profundidade como os do imortal Roberto Rivellino. Na verdade, o Portuga nunca nem acertou um passe. Será que o Jeferson algum dia se daria bem? Será que algum dia ele seria o herói da partida? Já estava duvidando.

Até que, uma manhã, justamente no instante em que eu passava, a bola sobrou para ele. Era o Jeferson, a bola, uns 20 metros de campo deserto e o goleiro. Melhor ainda: o goleiro era um gordinho que cumpria o destino de todos os gordinhos: o exílio do gol. Quer dizer: o gordinho não tinha nenhuma pretensão no jogo, talvez nem gostasse de futebol e estivesse ali só para se integrar com a turma. Era a chance do Jeferson!

Pois o Jeferson avançou, correndo com algum desequilíbrio, os adversários atrás dele. Temi que pudessem alcançá-lo, mas logo vi que não conseguiriam. O Jeferson levava grande vantagem. Os companheiros de time incentivavam:

- Vai, Jeferson! Vai, Jeferson!

O Jeferson ia, bravamente. O gordinho o esperava debaixo das traves, as pernas ligeiramente flexionadas, os braços abertos, o olhar fixo na bola. Parei para acompanhar o desenlace. Não podia perder a consagração do Jeferson. Os amigos, sentindo o mesmo, incentivavam-no:

- Vai, Jeferson! Vai, Jeferson!

E o Jeferson foi. Entrou na área. O goleiro paradão. Olhando. Debaixo da goleira. O Jeferson cada vez mais perto. Por que o goleiro não saía? Seus companheiros de time também não entendiam. Gritavam lá de longe:

- Sai, gordo! Sai, gordo!

O gordo não saiu. O Jeferson agora estava bem perto. Gemi baixinho:

- Vai, Jeferson!

Como se tivesse me ouvido, o Jeferson engatilhou o chute. Chutou.

Foi horrível.

O chute saiu todo molenga, todo grogue, todo tordo, na direção das mãos fofas do goleiro, que se agachou, exultante, risonho, enquanto os amigos do Jeferson berravam lá de trás:

- Mas tu é um pereba mesmo, Jeferson!

O Jeferson caiu de joelhos, quase caí também. Então, se deu: a bola escorregou dos dedos do gordinho, se imiscuiu por entre suas pernas e... entrou! Um frango daqueles de deixar penas na mão do goleiro. Gol. Do Jeferson! Ele se levantou, saiu vibrando. Os colegas do gordinho o cercaram, desferindo-lhe cascudos, chamando-o de baleia. Fiquei com pena. Parecia até o Portuga, coitado. Realmente, nada, nada mudou.

Concursinho

Antes de sair de férias, reproduzi aqui uma das gravuras de Debret sobre o tosco Rio Grande do Sul que ele viu no século 19. Fez tamanho sucesso a gravura que decidi presentear os leitores com uma delas. Ou, pelo menos, um dos leitores. Em homenagem ao Gauchão, que ingressa na sua semana decisiva, apesar das liminares tantas, vou dar uma das pranchas que adquiri para o leitor que cunhar a melhor frase sobre o Campeonato Gaúcho, os gaúchos ou as gaúchas, tanto faz. Escolha.

A gravura é essa que aí está. Mostra o trabalho dos antigos gaúchos na captura do gado selvagem que vagava pelo Pampa no começo do século retrasado. Esses rebanhos eram provenientes principalmente das estâncias jesuíticas de Vacaria del Mar e Pinhaes. Gaúchos, paulistas, argentinos, bandoleiros, aventureiros, todos lutavam pelo gado. A pena do francês Debret mostra um boi sendo desgarronado. Depois disso, o bicho seria sangrado e lhe tirariam o couro. Teça você sua frase, mande por imeil ou carta ou fax. Publicarei a melhor nos próximos dias e, depois, você vem aqui buscar sua prancha e tomar um café comigo.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
02/05/2004


Frio cria empregos

Esses dias, eu declarei nunca ter visto, em toda a minha vida, um maio tão frio quanto esse que passou.

Esse frio surpreendente fez deslanchar as vendas nos shoppings do sul e do sudeste brasileiros, superando até mesmo, o que é incrível, as verificadas no fim de semana que antecedeu o Dia das Mães.

Esse último maio, de inesperado frio, recompensa o comércio e a indústria, frustrados com as vendas do inverno de 2003.

Os comerciantes foram apanhados de surpresa, não tinham estoques para a demanda de roupas de inverno, tiveram que rapidamente repor as mercadorias associadas ao frio.

Zero Hora publicou ontem o recorde espantoso de vendas de fogão a lenha no Rio Grande do Sul nos últimos tempos, estimulado também pelo frio de maio, com uma fábrica de Venâncio Aires tendo de dobrar o número de funcionários para dar conta dos pedidos dos clientes, que correram para comprar os fogões fabricantes de brasas, aquecedoras dos lares.

Notem então que em apenas dois itens da agitação da economia com o frio bendito de maio - as vendas incrementadas no comércio de roupas e calçados e o crescimento na venda e fabricação de fogões a lenha - foi deflagrado um estímulo a novos empregos.

Ou seja, o frio provoca o desenvolvimento. As pessoas, sob o frio, sentem maiores necessidades de agasalho, alimentam-se mais, são até mesmo cingidas a construir habitações mais sólidas e invulneráveis às intempéries.

Não é à toa que as regiões mais prósperas e desenvolvidas do planeta, Europa e Estados Unidos, são alvos de longos e intensos invernos.

E a África e a América Latina, continentes tropicais, apresentam baixíssimos índices de desenvolvimento e grande proliferação de pobreza ou miséria.

Ou acaso 80% do Produto Interno Bruto brasileiro não estão localizados nas Regiões Sudeste e Sul, exatamente as únicas atingidas pelo frio em nosso país?

Não é estranho que 20% do território brasileiro sejam responsáveis por 80% do PIB, enquanto os outros 80% do país produzam apenas 20% do PIB?

Esta extravagante inversão se deve a que o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste são assolados pelo calor.

E o calor torna o homem indolente, preguiçoso, desanimado. Exatamente porque ele não precisa prover o seu futuro.

Ou seja, ninguém morre de calor. Basta vestir um calção e um chinelo de dedos, com alguma alimentação a vida está feita.

Enquanto as pessoas que moram nas regiões de invernos rigorosos têm medo do que lhes possa acontecer na estação do frio. São obrigadas a trabalhar, a produzir, para proteger-se contra o frio do inverno, sob pena até mesmo de virem a morrer de frio.

Esta não é uma teoria minha, é de muitos sociólogos e historiadores. Uma tese muito polêmica, mas eu adiro a ela incondicionalmente depois que as vendas do comércio e a produção da indústria foram atacadas positivamente pelo sacalão do frio inédito de maio.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Sistema Prisional
Massacre no Rio é o segundo maior do país



Saldo de 30 presos mortos em motim que durou 62 horas só perde para o do Carandiru, em 1992. Na foto, o choro dos familiares (foto Reuters/ZH)


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Terça-feira, Junho 01, 2004




01/06/2004 - 18h13m
'Celebridade': Fita que prova inocência de Maria Clara é roubada e Fernando foge da polícia

Globo Online

Entrando em sua reta final, a novela "Celebridade" promete muitas emoções aos telespectadores na próxima semana. O destaque vai para a tentativa da empresária Maria Clara Diniz (Malu Mader) em conseguir a fita que prova a inocência dela no caso do tráfico de drogas.

Tudo começa quando Clara vai ao apartamento de Renato Mendes (Fábio Assunção) para, enfim, pôr as mãos na fita. Porém, antes de se entregar ao editor da revista "Fama" em troca da prova, ela pede para tomar banho, faz com que Renato deixe a fita na sala e, pelo celular, avisa a Hugo (Henri Castelli) onde está a prova. Hugo, então, dá o sinal para que Vladimir (Marcelo Faria), num ato heróico, pule da varanda da casa de Bruno (Sérgio Menezes) para dentro da casa de Renato, roube a fita e a entregue para Hugo e Maria Clara na recepção do hotel, de onde o casal sairia direto para a polícia.

Mas o plano começa a dar errado. Já com a fita embaixo do braço, Hugo encontra Ana Paula (Ana Beatriz Nogueira) no elevador. A irmã de Maria Clara pede a ajuda para levar umas caixas até o salão de festas onde acontece o lançamento do livro de Yolanda (Natália Thimberg). O anjo-da-guarda de Maria Clara não tem como escapar e a fita vai parar nas mãos de Ana Paula, que a segura para que ele carregue as caixas.

Durante a festa, Hugo consegue pegar a fita de Ana Paula e entregá-la para Maria Clara, que conseguiu sair sem ser vista do apartamento de Renato. Já no salão de festas, a produtora é insultada por Beatriz (Deborah Evelyn) para em seguida receber ameaças de Renato.

Até que um imprevisto deixa a todos perplexos: as luzes se apagam e, antes que a protagonista revele a todos sobre a existência de tal prova, alguém a empurra e sua bolsa some com a fita de vídeo. Esquentando ainda mais o folhetim, Hugo briga com Renato achando que o malvado roubou a fita. Paralelamente ao roubo, Laura consegue que Joel (André Barros) consiga a cópia da fita, que estava com Renato, em troca de uma boa quantia de dinheiro e o cargo de editor numa das revistas das Vasconcellos.

A vilã de "Celebridade" descobre através de Joel o passado negro do seu marido, virando o jogo mais uma vez: ela queima a cópia da fita na frente de Renato, enumera as provas que tem contra ele e obriga o vilão a dormir no colchonete. Depois, Laura manda Renato despedir todos os seguranças e contrata um capanga para vigiar todos os passos do seu marido.

Maria Clara continua atrás da fita e Fernando foge da cadeia

Mas não é só Maria Clara que vai passar por maus bocados. Enquanto a produtora vai passar a semana listando os possíveis suspeitos do roubo da fita original, Fernando (Marcos Palmeira) será indiciado pela morte de Lineu (Hugo Carvana) e vai se esconder num quarto do Sobradinho para não ser pego pela polícia. Mas, antes da fuga, Fernando começa a descobir algumas peças importantes no caso do assassinato do seu ex-sogro: ele descobre que Caetano (Ronney Vilella), o segurança de Beatriz, havia deixado o elevador privativo da Vasconcellos destrancado na noite do assassinato.

O cineasta comenta com Cristiano (Alexandre Borges ) sobre as suas suspeitas do segurança estar ligado a Renato e aos crimes. Por outro lado, a verdade começa a aparecer: Renato nega que tenha comprado a arma para Lineu e, veladamente, ameaça Olga (Cristina Amadeo), pois a secretária disse aos quatro ventos que foi ele quem intermediou a compra da arma.

Mas tudo indica que o editor está mais envolvido do que parece na morte de Lineu, principalmente quando Fernando vê Caetano e Renato conversando num local discreto. E, para piorar a situação do protagonista, Beatriz, ao ver Caetano mexendo em suas coisas, o demite e o segurança some do mapa. Sem falar na revelação que chega ao delegado de que Fernando e Maria Clara tinham uma relação e que ele esteve, sim, com Lineu na noite de sua morte.

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01/06/2004 - 15h48
Poupança da CEF tem captação líquida de R$ 638 mi até maio
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FABIANA FUTEMA
da Folha Online


A caderneta de poupança da Caixa Econômica Federal registrou uma captação líquida positiva de R$ 638 milhões até o dia 28 de maio. Esse montante é resultado dos depósitos, que atingiram R$ 29,2 bilhões, contra R$ 28,5 bilhões em saques.

Com isso, o saldo de depósitos em caderneta de poupança na Caixa alcançou R$ 45,3 bilhões no final de maio. Esse resultado representa um aumento de 4,5% em relação a dezembro de 2003.

Todo o mercado registrou um saldo de depósitos em caderneta de poupança de R$ 145 bilhões, um avanço de 1,4% na comparação com dezembro de 2003.

"A poupança da Caixa cresce mais do que a média do mercado. Alguns bancos chegaram a ter captação negativa", disse o vice-presidente de negócios bancários da Caixa, Fábio Lenza.

Nos primeiros cinco meses do ano, a Caixa abriu 1,516 milhão de novas contas de caderneta de poupança.

Em outubro passado, a Caixa lançou uma campanha para revitalização da caderneta de poupança.

Na época, o banco contava com 23,4 milhões de correntistas na caderneta. A meta era abrir 500 mil novas contas até o final de 2003.

Neste ano, a Caixa dará continuidade ao projeto de revitalização do produto, com o lançamento de um pacote de incentivos para fidelizar o cliente e incentivar a formação da poupança de longo prazo.

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Livrarias com um público cativo

Especialização é a estratégia adotada pelos pequenos estabelecimentos para competir com as gigantes do setor

Pequenas livrarias estão apostando na especialização e serviços diferenciados para atrair público e competir com as gigantes do setor. A estratégia de oferecer produtos temáticos tem sido a saída de livrarias para sobreviver num mercado altamente concorrido onde as chamadas megastores se transformaram em shoppings culturais, com espaços para leitura, cafezinho e até cybercafé.

É o caso da livraria Folha Seca, que acaba de ganhar uma filial na Rua do Ouvidor, no Centro. Na casa, as publicações sobre o Rio de Janeiro ganham destaque nas prateleiras. O público cativo é o mais variado possível, embora o tema gire sempre em torno das paixões cariocas. A livraria é ponto de encontro de pesquisadores, turistas, músicos, colecionadores, torcedores de futebol e curiosos.

Os sócios Rodrigo Ferrari e Daniela Duarte tratam de dar atendimento especial aos clientes. Formada em História com mestrado sobre o Rio de Janeiro, Daniela resolveu conciliar o interesse pela cidade com a montagem de um negócio que servisse de referência na área. O público que vai a uma grande livraria não espera ser atendido. A nossa clientela gosta de conversar, de receber sugestões. São clientes que confiam nas indicações e sempre retornam, diz.

Além dos livros, a livraria trabalha com fotografias do Rio antigo, postais, camisetas ilustradas, sempre com a temática carioca. Não posso impedir alguém de aceitar descontos na concorrência que trabalha com grandes quantidades. Mas quando for títulos específicos ele vai comprar com a gente, diz Daniela. Os clientes contam ainda com um serviço extra. Os donos da livraria encaminham por e-mail bibliografias e acervo de dados para auxiliar pesquisa.

Folha Seca: (21) 2507-7175

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A bola da vez

Contusão de Ronaldinho Gaúcho é a chance que Luís Fabiano esperava para ser titular contra Argentina, ao lado do Fenômeno
Janir Júnior e Marluci Martins

TERESÓPOLIS E BELO HORIZONTE - No rótulo de Luís Fabiano, as marcas registradas de garoto-problema, craque e goleador sempre se confundiram e fizeram do jogador um produto típico do futebol. Mas, com Ronaldinho Gaúcho lesionado e vetado para o duelo contra a Argentina, amanhã, às 21h45, no Mineirão, e diante do Chile, domingo, o atacante do São Paulo ganhou a oportunidade de começar como titular ao lado de Ronaldo. Ele quer aproveitar para lançar uma nova campanha de marketing: vem aí o garoto-solução.

A mistura Brasil e Argentina já é explosiva, mas ganhou um sabor apimentado com a presença de Luís Fabiano. O atacante garante estar vivendo uma fase zen, mas a embalagem e o conteúdo para o duelo de amanhã são conhecidos. Vou entrar de cara fechada, com disposição e bola para frente, brincou o jogador.

Luís Fabiano e Ronaldo atuaram juntos por apenas 21 minutos (11 contra o Peru e 10 contra o Paraguai). Sua característica de atuar mais fixo dentro da área será um pouco modificada, e ele terá de voltar para buscar o jogo. Mas o atacante não quer ficar apenas com a função de garçom. Eu posso colocar o Ronaldo na cara do goleiro, mas ele também pode dar uma contribuída. Sonho em fazer um gol neste jogo, seja de cabeça, orelha ou até de mão, comentou o jogador, pensando em repetir o feito de Maradona na Copa de 86, quando o ídolo argentino fez um gol de mão, contra a Inglaterra.

O jogo será mais uma oportunidade de Luís Fabiano mostrar seu futebol para o vice-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, que estará no Mineirão. As negociações com o clube espanhol estão em andamento e o próprio jogador vem trocando idéias com Ronaldinho Gaúcho, que rasgou elogios ao Barça e também para o povo local.

Parreira conversa com jogador e acredita que ele manterá a cabeça fria

O técnico da Seleção teve uma conversa em particular com Luís Fabiano e aposta que ele não entrará na catimba argentina. O Luís está melhor preparado. Estamos certo de que ele não fará nada que prejudique a ele e à Seleção, acredita o treinador.

O atacante promete controlar seu temperamento explosivo: É muita responsabilidade. Vou manter a cabeça no lugar.

Luís Fabiano prefere não se estender sobre o seu passado nos confrontos contra os hermanos. Ih, deixa quieto. Disputei uma decisão pela Seleção sub-20 e perdi, limitou-se a dizer.

Aos 24 anos, o atacante ganhou uma linha de chuteiras da Penalty com o seu nome. No São Paulo, ele costuma comprar tênis para revendê-los por um preço mais alto para os seus companheiros. Pura traquinagem. Eu dou balão no pessoal, brinca. Amanhã, será o dia de levar vantagem sobre a Argentina.

Clique aqui e veja a tabela e a classificação das Eliminatórias

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Liberato Vieira da Cunha
01/06/2004


De luz e de saudade

Como um presente inesperado, tive acesso agora a uma correspondência iluminada por uma paixão sem limites. Um jovem estudante de Direito em Porto Alegre troca mensagens de amor com uma jovem professora de Francês, em Cachoeira.

Às vezes são simples bilhetes, em outras longas cartas escritas em forma de diário íntimo. Em cada linha e parágrafo há imensas reservas de ternura. Aqui há traços de humor; ali toques de uma doçura antiga e linda.

Os tempos são ásperos. Na Europa, na África, na Ásia, no Pacífico trava-se a mais terrível das guerras que a humanidade conheceu. No Brasil, uma ditadura sufoca a democracia e a liberdade. Rígidos costumes obrigam os namorados - quando próximos - a encontros em dias determinados, sempre sob a vigilante companhia dos infalíveis chás-de-pêra.

Nada disso perturba os dois apaixonados, que inventam um mundo à parte, no qual são um só coração e uma só alma. As esperanças de noivado e casamento estão imersas em incerteza: o rapaz é pobre, precisa concluir o curso, amparar cinco irmãos e a mãe viúva.

Nenhuma dessas sombrias circunstâncias os abate, um pouco porque dividem uma mesma, poderosa fé; um pouco porque parece não haver obstáculo capaz de abalar o belíssimo sentimento que os une.

É com essa fortaleza de espírito que terminam por vencer todas as barreiras e fazer de suas vidas uma vida. Nas eventuais novas separações - o marido volta e meia regressa a Porto Alegre, viaja ao Rio, por imposições de seus ofícios de jornalista, advogado, político -, seu idioma comum é o do desejo adiado, da sensualidade nutrida de ausência, da solidão das noites. E resta espaço para mais um, inaugural universo de afetos: o de dois garotos e duas meninas que são indivisíveis deles próprios.

É o que me encanta na correspondência: o do estado de paixão compartilhada que desconhece a passagem dos anos. É como se fossem ainda o jovem estudante de Direito, a jovem professora de Francês, um só coração e uma só alma.

Se você, a esta altura, supõe que estou falando de meus pais, não erra. Partiram os dois, como sempre juntos, ainda em plena juventude.

Julgava ter lido sua inteira correspondência. Me chegaram agora estas outras cartas, por séculos guardadas em mãos amigas.

Foi como se o Natal caísse, por uma branda subversão do calendário, não em dezembro, mas neste outono, que de súbito se reveste de luz e de saudade.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
01/06/2004


O Rio Grande que não há mais

Quem passou pelas páginas de Drummond terá fixado o José, aquele poema reiterativo - "E agora, José?", pergunta-se a cada estrofe. A certa altura, o personagem deseja ir para Minas, o estado natal de Drummond, e recebe a estranha, a desconcertante notícia: "Minas não há mais". Já pensou se algum gaúcho quiser o Rio Grande do Sul e, subitamente, for informado de que não há mais?

De certa forma, é verdade que não há mais Rio Grande, pelo menos um certo Rio Grande. Ainda na semana passada, o Nei Lisboa, que além de artista da canção escreve bem paca, comentou uma conversa com os não menos Jorge Furtado e Caetano Veloso, em que passaram de uma coisa a outra sem problema, os dilemas da identidade local dando lugar à tranqüila chegada dos produtos globais. Claro, nem o Nei nem ninguém vai dar assim de barato o fim de certo Rio Grande; mas é verdade que as coisas mudam, bem ao contrário daquele funcionário norte-americano que tinha diagnosticado o fim da história.

A atenção acadêmica vem tentando acompanhar o processo. Em recente debate na Faculdade de Economia da PUC, Ronaldo Herrlein Jr. apresentou uma súmula que merece meditação.

Repassando os grandes ciclos da produção econômica gaúcha (primeiro a ocupação do território e a atividade inicial do couro e do gado, depois a fazenda e o charque organizados, depois ainda o que ele chamou de "modelo gaúcho de desenvolvimento", com a economia diversificada, o sucesso da pequena propriedade, a industrialização, uma sociedade de classe média inédita para o Brasil, um Estado burguês consolidado), ele mostrou com precisão que já há vários anos a economia do Estado deixou de ter o papel de atender prioritariamente o mercado brasileiro, tendo passado a exportar para tudo que é canto do planeta.

Assim como deixamos de servir o mercado interno nacional, deixamos de ter projeto para o país. Alguma vez saiu daqui o projeto de modernização burguesa para o país, com Getúlio Vargas; de tempos para cá, salvo a breve (e ao que parece fraudada) hipótese de exportação do modelo petista gaúcho para o conjunto do país, os olhos das elites econômicas, e também das políticas, estão voltados para outros quadrantes.

As elites artísticas, por sua vez, o que têm feito? Não deve ser total acaso que justamente agora, na diluição do antigo Rio Grande "celeiro do Brasil" na economia global, nossos escritores, como nunca antes, estejam sendo reconhecidos como brasileiros, publicando fora daqui com relativa facilidade.


fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
01/06/2004


Corrigindo a injustiça

A doutora Maria Beatriz Targa, médica e educadora, pergunta minha opinião sobre a introdução de cotas nas universidades públicas, uma iniciativa que já tem o apoio do ministro Tarso Genro. Acho, doutora Maria Beatriz, que a iniciativa é mais do que justificada.

Em primeiro lugar porque é preciso fazer alguma coisa para corrigir a imensa desigualdade, que é histórica no Brasil e que, sem algum tipo de intervenção, só tende a se agravar: um levantamento recente feito pela USP mostra que as vagas são sistematicamente ocupadas por alunos provenientes dos bairros ricos da capital paulista. Se os Estados Unidos, que defendem a livre-iniciativa, adotaram a política de ação afirmativa para proteger as minorias, não há por que o Brasil não fazer o mesmo. Se damos incentivos fiscais a empresas, por que não dar incentivos educacionais a pessoas?

A controvérsia maior refere-se, em primeiro lugar, ao critério adotado para ajudar desfavorecidos. Muitos ponderam que o uso de fotos, por exemplo, para identificar negros contém um paradoxal elemento racista. No sul dos Estados Unidos e na África do Sul do apartheid, os negros eram identificados, mas para serem discriminados, perseguidos, agredidos e até mortos.

No Brasil, esta identificação seria, felizmente, difícil. Tivemos, em nossa História, um processo de miscigenação que não existiu nos Estados Unidos ou na África do Sul - e miscigenação é um poderoso antídoto contra a intolerância. A verdade é que a opressão se expressa, antes de mais nada, na pobreza. Opressão leva à pobreza, e pobreza torna difícil a resistência à opressão, a cor sendo como estigma neste ciclo perverso. Combater a pobreza seria, pois, a prioridade na concessão de estímulos educacionais.

A outra discussão diz respeito às cotas propriamente ditas, também objeto de discussão e até de medidas judiciais. Na prestigiosa Unicamp, onde estive na última semana para um simpósio sobre ciência e humanidades, outra estratégia está sendo posta em prática. Em vez de cotas, pontos. Alunos que vêm de escolas públicas (portanto, alunos mais pobres) têm 30 pontos a mais no vestibular; aqueles que se declararem negros, pardos ou índios (notem: declaração espontânea, nada de "comprovação" por fotos ou outros meios) têm mais 10 pontos.

A média de pontos para aprovação tem sido de 535 pontos. Diz a direção da Unicamp que os pontos adicionais podem desempatar candidatos em favor dos que vêm de escolas públicas, mas não privilegia a falta de capacitação. Pontos podem ser uma alternativa ao sistema de cotas. Talvez valha a pena discutir esta alternativa, sem esquecer que, mais do que nunca, justiça social deve ser prioridade. Inclusive, e principalmente, na universidade pública brasileira.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
01/06/2004


Animais são iguais a humanos

Até pouco tempo, os homens pintarem os cabelos era um escândalo. Mas agora já não é mais.

Assistindo aos dois últimos jogos de Guga no Roland Garros, contra Roger Federer e Feliciano Lopez - o primeiro, nº 1 do mundo -, por sinal duas vitórias convincentes do brasileiro, eu notei algo diferente no aspecto do tenista catarinense.

Mas não sabia o que era. Nos closes que a televisão dava em Guga, no entanto, pôde-se ver que ele havia pintado os cabelos. Tinha os cabelos claros e pintou-os inteiramente de um castanho escuro, que nas tomadas de cima da televisão chegam a parecer pretos.

Quando um ídolo jovem como Guga pinta os cabelos, fica o método inteiramente liberado para todos os homens.

Entre as mulheres, trocar a cor dos cabelos é muitas vezes um truque para driblar uma separação ou o ingresso em um novo romance.

E a nova namorada de Guga, que se vê assistindo aos seus jogos, é uma morena espetacular.

Dois leitores me escreveram passando-me um pito: não deveria ter comparado a rinha de cães pitbull com a de galos, segundo eles os galináceos não têm sofrimento físico, a luta entre eles, portanto, têm de ser permitida.

Não sei de onde tiraram isso os leitores. Todo ser vivo, com exceção talvez de alguns insetos, possui sistema nervoso, portanto sofre dor.

E se respiram têm ânsia.

No caso das galinhas, quem já viu uma galinha com o pescoço destroncado, com a finalidade de ser morta e virar alimento?

É uma cena que a gente se lembra da infância, quando as galinhas eram executadas de forma artesanal.

A galinha inicia uma série de rodopios agonizantes, é patético assistir-se aos últimos momentos de uma galinha sacrificada. Causa dor e compaixão.

Agora mesmo, a Áustria acaba de editar a mais severa lei de defesa dos animais.

Entre as medidas que causaram maior impacto, estão a proibição de criarem-se galinhas em gaiolas e os cachorros não devem mais ser puxados por coleiras apertadas.

Se até a proibição de se criarem galinhas em cativeiro exíguo foi preocupação dos legisladores austríacos, então a galinha é um animal capaz de sofrer como os mamíferos.

A lei austríaca passou a proibir também que os animais sejam deixados sob o cuidado de crianças e que se exibam em vitrinas de lojas.

Animais selvagens não poderão mais ser atração de circos e outros espetáculos na Áustria.

Entre os vacuns, as vacas não mais poderão ser amarradas para a ordenha (!) e passa a ser proibido usar choque elétrico para treinar animais ou para cortar seus rabos e orelhas.

A nova lei estipula multas que variam de R$ 8 mil a R$ 57 mil para quem praticar atos de crueldades contra os animais.

A ausência do bem entre os homens (o mal) começa a ser incentivada exatamente com os maus-tratos e a crueldade com os animais.

O país que, como a Áustria, cria leis amplas para punir os homens que maltratam os animais está por alguma inteligente forma aprimorando os direitos humanos.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Tênis
Guga volta a ser Guga



Sob a magia de Roland Garros, catarinense venceu Feliciano Lopez e enfrenta o argentino Nalbandian pelas quartas-de-final (foto Michael Leckel, Reuters/ZH)


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Segunda-feira, Maio 31, 2004




O Fazendeiro e o Cavalo

Um fazendeiro, que lutava com muitas dificuldades, possuía alguns cavalos para ajudar nos trabalhos em sua pequena fazenda. Um fazendeiro, que lutava com muitas dificuldades, possuía alguns cavalos para ajudar nos trabalhos em sua pequena fazenda.

Um dia, seu capataz veio trazer a notícia de que um dos cavalos havia caído num velho poço abandonado.

O poço era muito profundo e seria extremamente difícil tirar o cavalo de lá. O fazendeiro foi rapidamente até o local do acidente, avaliou a situação, certificando-se que o animal não se havia machucado.

Mas, pela dificuldade e alto custo para retirá-lo do fundo do poço, achou que não valia a pena investir na operação de resgate.

Tomou, então, a difícil decisão: determinou ao capataz que sacrificasse o animal jogando terra no poço até enterrá-lo, ali mesmo.

E assim foi feito: os empregados, comandados pelo capataz, começaram a lançar terra para dentro do buraco de forma a cobrir o cavalo.

Mas, à medida que a terra caía em seu dorso, os animal a sacudia e ela ia se acumulando no fundo, possibilitando ao cavalo ir subindo.

Logo os homens perceberam que o cavalo não se deixava enterrar, mas, ao contrário, estava subindo à medida que a terra enchia o poço, até que, finalmente, conseguir sair.

Sabendo do caso, o fazendeiro ficou muito satisfeito e o cavalo viveu ainda muitos anos servindo, fielmente, a seu dono na fazenda.

Se você estiver "lá embaixo", sentindo-se pouco valorizado, quando, certos de seu "desaparecimento", os outros jogarem sobre você a "terra da incompreensão, da falta de oportunidade e de apoio", lembre-se desta história.

Não aceite a terra que jogaram sobre você, sacuda-a e suba sobre ela.

E quanto mais jogarem, mais você vai subindo... subindo... subindo ...
Autor desconhecido

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Inter vai à Justiça contra data das semifinais

O Campeonato Gaúcho de 2004 pode ter um desfecho completamente inesperado depois da marcação dos jogos semifinais. Eleito como o mais complicado da história, o torneio ainda ganhou outro tempero indigesto: o Internacional não aceitou a imposição da data de quarta-feira para a realização dos jogos semifinais.

Os cartolas do time colorado dizem que vão recorrer ao tribunal para tentar garantir aquilo que consideram ser um direito.

A Federação Gaúcha de Futebol tinha dado garantia, segundo os dirigentes do Internacional, que a partida contra o Glória só se realizaria no dia 3.

Os times que disputam a competição assinaram o regulamento concordando que a semifinal seria dia 2. Os cartolas do Inter afirmam que não poderiam saber que a data iria coincidir com o maior clássico do futebol mundial (Brasil x Argentina) e querem a mudança.

Mas o Grêmio se baseia justamente no regulamento para fazer sua partida contra a Ulbra no dia 2, às 20h30.

O presidente gremista, Flávio Obino, manteve a data depois de ameaçar a Federação Gaúcha de Futebol com o Estatuto do Torcedor. Ele até chegou a prometer ações junto ao Ministério Público, previstas na Lei Pelé. Uma atitude antipática, pois a Federação, o Inter, o Glória, a Ulbra e até a empresa de televisão que comprou os direitos de transmissão, a TV Guaíba, queriam o adiamento para a quinta-feira, dia 3.

Já o presidente do Internacional, Fernando Carvalho, afirmou que até mesmo a televisão concordava com a mudança para o dia 3. O pior, segundo ele, é que o Internacional nem participou da reunião: "Vamso tentar mudar e fazer com que nosso direito prevaleça", disse.

É isso quando os times não conseguem ganhar dentro de campo tem que apelar para tribunais e fazer jogos de cenas. Depois das derrotas deste fim de semana, se vê que nem o Grêmio vai chegar a algum lugar com este time, tampouco o Inter. É precso vestir a camiseta, tanto os jogadores como os dirigentes, coisa que ninguém anda fazendo.

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31/05/2004 - 09h06
Guga vence espanhol e vai às quartas-de-final de Roland Garros
da Folha Online

O tenista brasileiro Gustavo Kuerten venceu o espanhol Feliciano Lopez por 3 sets a 0, com parciais de 6/3, 7/5 e 6/4, nesta segunda-feira, e avançou às quartas-de-final do Grand Slam de Roland Garros.

Com um jogo consistente, Guga, que na rodada anterior eliminou o suíço Roger Federer, número um do ranking mundial, dominou o rival espanhol e só perdeu um game de serviço --no décimo game do segundo set.

Foi sua terceira vitória seguida por 3 sets a 0. Após uma estréia difícil --precisou de cinco sets para ganhar de Nicolas Almagro (ESP)--, Guga não cedeu nenhum set contra Gilles Elseneer (BEL), Federer e Lopez.

Na partida de hoje, Kuerten teve 11 break-points a favor e aproveitou quatro. Ele conseguiu ainda sete aces e ganhou 80% dos pontos em seu primeiro serviço, contra 69% obtido com o segundo saque.

O brasileiro não alcançava as quartas-de-final do Grand Slam francês desde 2001, quando foi campeão. Em 2002 e 2003, ele caiu justamente nas oitavas-de-final --nas duas vezes, perdeu para um espanhol.

Em 2002, Guga foi derrotado por Albert Costa por 3 sets a 0, com parciais de 6/4, 7/5 e 6/4. No ano passado, ele caiu diante de Tommy Robredo por 3 sets a 1, com parciais de 6/4, 1/6, 7/6 (7/2) e 6/4.

Nas quartas-de-final, o tenista brasileiro, atual número 30 do ranking de entradas, enfrenta o vencedor do confronto entre o russo Marat Safin, 20º do mundo, e o argentino David Nalbandián, número oito.

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Cara a tapa

Wanessa Camargo lança CD e DVD, assume que já foi mimada e fala até do suposto acidente sexual do pai Zezé
Zean Bravo

Lá pelo meio da conversa, Wanessa Camargo troca o discurso ensaiado da cantora que está lançando o CD e DVD Transparente ao Vivo e surpreende. Estava muito acomodada. Sempre tive pessoas para cuidar de mim, até para pegar água quando tinha sede. Era meio mimada mesmo, assume. A mudança de postura explica uma analisada Wanessa, aos 21 anos , começou depois que a MTV exibiu um reality show sobre seu dia-a-dia, ano passado.

Vi o programa e percebi muita coisa errada. Comecei com 17 anos e não sabia como agir. Não tinha voz ativa, nem vontade de ter. Agora me imponho e não deixo mais ninguém tomar decisões por mim. Descobri que quanto mais sou eu mesma, mais dá certo, acredita.

Com essa decisão, atitudes de ordem prática foram tomadas. Não sabia nem quanto gastava de conta de celular. Isso é grave. Com 21 anos nunca marquei um médico sozinha. Deixava tudo na mão da minha mãe, coitada, assume Wanessa, que nega conflitos com a progenitora, Zilu, por conta da mudança. Quem ama discute e isso acontece comigo. Mas nossa relação sempre foi de respeito, assegura.

A importância dos pais é tão grande que ela afirma: Não fico chateada com o que pensam a meu respeito. A única coisa que me segura são meus pais. Eles são minhas rédeas. A relação com Zilu, e o pai, Zezé Di Camargo, é de pura amizade. Se bem que tem umas coisas que não quero contar para pai e mãe, entrega ela, que contou ao pai não ser mais virgem através de uma entrevista. Foi engraçado. No começo me assustei, mas vi que não preciso ter medo.

Wanessa afirma que hoje sexo e namoro não são tabus. Todo ser humano faz, é hipócrita não querer falar, aponta a cantora, que jura estar solteira. Não conseguia ficar sem namorado e engatava um namoro no outro. Claro que dou beijo na boca, mas não vou ficar contando quem beijo porque as pessoas são preconceituosas.

Por isso mesmo, ela não quer falar do ator Rodrigo Prado, apontado como seu último par. Não tenho obrigação de dizer com quem saio. Mas quando estiver namorando pra valer vou falar, avisa ela, desmentindo nova recaída com o ex, Dado Dolabella. Falo com todos os ex e nunca digo dessa água não beberei.

Ela diz que aprendeu a lidar com a exposição. As pessoas gostam de dar palpite. As senhoras falam Não namora esse não!. Dou risada. Mas não vou me prender por causa da carreira, assegura Wanessa, que diz ter adquirido outra visão da profissão. Mesmo tendo o maior orgulho de ser filha do Zezé nunca gostei de ser vista só como filha dele. Mas não adiantava enlouquecer. Hoje as pessoas sentem que aqui tem cabeça, que penso, não sou só imagem. Faço o que quero, vivo minha vida e boto a cara a bater.

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Vasco brinca e arrasa o Botafogo

Clube de São Januário empurra rival ainda mais fundo no abismo com goleada por 4 a 0. Alvinegro é o penúltimo
Hilton Mattos



Petkovic teve seu nome gritado pelos torcedores na hora da cobrança dos pênaltis. E o sérvio não decepcionou: cobrou com tranqüilidade e foi um dos responsáveis pela goleada vascaína

Luizão passou a semana afirmando que o Vasco não era um time imbatível. Valdir e Petkovic, com dois gols cada, mostraram que o artilheiro errou na avaliação. No clássico dos desesperados, ontem, no Maracanã, o time de São Januário deu um passeio no Botafogo, humilhando o rival alvinegro por 4 a 0. O clássico marcou a despedida de Marcelinho, que pela segunda vez em menos de um ano, deixa o clube no meio da competição. Vai para o Ajaccio, da França.

Se havia sede de vingança de Luizão, por conta de sua tumultuada saída do Vasco, há cinco anos, do banco de reservas, Mauro Galvão é outro que vai custar a digerir a goleada. Técnico do Vasco no último Brasileiro e, recentemente, auxiliar de Geninho, o ex-zagueiro, teoricamente, pensava que conhecia as manhas adversárias. Pensava, porque, na prática, a história foi outra.

Além da goleada, o Botafogo ainda perdeu uma posição na tabela caindo para a penúltima posição. Já os vascaínos ocupam, agora, o 17º lugar. O Glorioso volta a campo dia 12, no Pinheirão, em Curitiba, contra o Paraná. O compromisso cruzmaltino será no dia 13, no Parque Antarctica, diante do Palmeiras.

Com a bola rolando, o Vasco chegou ao primeiro gol com Valdir, aos 22 minutos do primeiro tempo. A jogada nasceu de um lançamento de Róbson Luiz. O atacante partiu em velocidade e, diante da indecisão de Max, tocou por cobertura: 1 a 0.

O Bigode mostrou que continua impiedoso contra os clubes do Rio. Ontem, não foi diferente. Valdir fez dois gols de raça e categoria, mostrando que está recuperando a forma do Estadual

Valdir comemorou como criança. Pouco antes do gol, era vaiado pelos alvinegros que não perdoam sua apagada passagem por General Severiano em 1999. O Botafogo teve a chance do empate, com Sandro, cobrando falta. Fábio, sempre seguro, espalmou. E a partir daí passou a ouvir um corinho cantado toda vez que fazia uma defesa: Fábio... Fica. Gritavam os torcedores, contrários à provável ida do goleiro para o futebol europeu.

Torcida pede em coro e Petkovic cobra o pênalti

Não demorou e o Vasco chegou ao segundo gol. Petkovic fez um belo lançamento para Alex Alves, que só foi parado com o pênalti cometido por Daniel. Valdir, Pet e Alex se apresentaram para a cobrança até que a torcida, também em coro, definiu o batedor. O escolhido foi Pet, que ampliou o placar, aos 32 minutos.

No segundo tempo, Petkovic, outra vez de pênalti, aos 18, fez o terceiro. E, aos 41, Valdir, em nova indecisão de Max, definiu o marcador. Marcelinho jogou 15 minutos e quase se despediu com um golaço. No fim, além da humilhação, os alvinegros ainda foram provocados com um ão, ão, ão... Segunda Divisão.

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Clemer se irrita: "Está faltando pegada ao time"

Quem jogava em casa era o Vitória, mas quem perdeu no contra-ataque foi o Inter. Levou 2 a 1 e saiu do Barradão com o sentimento de que deixou escapar o empate. Ao final, a derrota convulsionou o vestiário. O goleiro Clemer criticou a apatia da equipe e cobrou maior vibração dos companheiros.

- Está faltando pegada ao time. Não sei se é cansaço, mas estamos sempre correndo atrás dos adversários. Precisamos conversar para ver o que está acontecendo. Se seguirmos assim, não vamos a lugar algum - desabafou em Salvador.

O ambiente de indignação prosseguiu no vestiário, e Clemer foi mais contundente:

- Falta dar um pouco a mais de cada um. O cara sai do campo dele e ninguém dá o combate ou derruba. Vamos dar o combate dentro da nossa área! Isso aqui é time grande, é preciso ver isso. Há muita gente por trás desta camiseta. Se não agüenta os 90 minutos, vem ficar atrás e garantir o empate. É inadmissível isso. Temos que viver o jogo, mas parece que o nosso time se desliga.

O goleiro se referia ao segundo gol do Vitória, em que o Inter sofreu em lance de contra-ataque. O Inter estava melhor e mais organizado em campo. Havia passado por apuros no primeiro tempo. Levou o gol de Obina, aos oito, e escapou de mais dois, com Magnum e o mesmo Obina. Ajustou a marcação e assumiu o controle no segundo tempo. Danilo empatou aos 18 minutos. O Inter sentiu a chance da vitória e foi à frente. Levou o 2 a 1 aos 32, depois de um escanteio. Leandro tocou para Edílson, que driblou Bolívar, e devolveu para Leandro fazer o gol.

O técnico Lori Sandri também viu erro de posicionamento no lance. Em vez de dois jogadores no rebote do escanteio, havia apenas um. Por isso, os baianos correram de uma área a outra sem ninguém a acossá-los.

- Faltou maturidade ao time e alguém com mais experiência para alertar e ajustar o posicionamento em campo - cobrou.

As declarações causaram mal-estar entre os jogadores. O zagueiro Vinícius evitou polêmica mas não escondeu o desconforto com relação às críticas feitas por Clemer. Na saída do vestiário, respondeu curto e seco:

- Cada um fala o que quer.

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Luis Fernando Verissimo
31/05/2004


A madrasta das musas

No seu último livro, Lessons of the Masters, George Steiner lembra que nem Sócrates nem Jesus Cristo, que ele chama de as duas figuras "pivotais" da nossa civilização (de pivots, como no basquete ou nos crimes passionais), deixou qualquer coisa escrita. São mestres cujas lições sobreviveram no relato de outros, Platão no caso de Sócrates e os evangelistas no caso de Jesus. Não existe nem evidência de que os dois soubessem escrever.

A única, enigmática referência da Bíblia a um Cristo escritor está em João 8:1-8, quando, indagado pelos fariseus sobre o destino da mulher flagrada em adultério, Jesus finge que não ouve e escreve algo no chão com o dedo - ninguém sabe o que ou em que língua. Existe até uma velha piada, que Steiner cita, sobre um acadêmico moderno comentando o currículo de Jesus: "Ótimo professor, mas não publicou".

O legado literário de Sócrates, via Platão, é em forma de mitos, o de Jesus, em forma de parábolas. Dois meios de organização e transmissão oral de memória que a escrita diminui, transformando narrativa aberta em cânone e lição em dogma. Nos diálogos de Platão, o pensamento vivo de Sócrates já se coagulou em filosofia; nos textos bíblicos, a verdade poética de Cristo se petrificou em verdades sagradas, irrecorríveis.

Mas o maior defeito da escrita seria o de ter sabotado a memória como guia, roubando a sua função civilizatória de "mãe das musas". Durante muito tempo, os gregos desconfiaram da palavra escrita como a linguagem cifrada de um mundo obscuro que só levava à danação, diferente do que se aprende "de cor", ou com a linguagem do coração.

Homero, o inventor da literatura ocidental, era maior porque também nunca escrevera nada e suas estrofes inaugurais tinham sido transmitidas oralmente, de coração em coração. Mas isto pode ser outro mito. "Omeros" em grego, descobri agora, quer dizer refém. Homero, como o primeiro escritor do nosso mundo, seria o primeiro prisioneiro da maldita palavra grafada.

Tudo isto porque passei algum tempo em convívio forçado com o notibuque, sua conveniência, seus mistérios e seus perigos, o que levou a muita ponderação sobre a precariedade da palavra. Pois um pré-eletrônico como eu está sempre na iminência de ver textos inteiros desaparecerem sem deixar vestígio na tela. O computador nos transforma todos em reféns sem fuga possível da palavra e pode acabar, num segundo, com um dia inteiro de trabalho da pobre musa dos cronistas em trânsito.

Ao mesmo tempo, nos transformou na primeira geração na História que tem toda a memória do mundo ao alcance dos seus dedos. O computador resgata a memória como mestre da História ou, ao contrário, nos exime de ter memória própria, e decreta o triunfo definitivo da escrita? Sei lá. É melhor acabar aqui antes que este texto desapareça.

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Paulo Sant'ana
31/05/2004


Vem aí gigantesco tarifaço!

Esta semana contém nitroglicerina pura para os brasileiros, principalmente para os gaúchos.

Começará a ser definida terça-feira a equalização das alíquotas do ICMS em todo o país.

Traduza o leitor assim: vem aí mais aumento de impostos.

A bomba para nós, gaúchos, é a seguinte: a partir de 2005 deveremos, é quase certo, pagar ICMS sobre a água que jorra nas nossas torneiras.

Era só o que faltava: vão cobrar ICMS sobre a água!

Nós, gaúchos, nunca pagamos imposto sobre a água. Nem sobre o leite. Mas tudo indica que pagaremos a partir de 2005.

É o fim da picada.

Agora explico: antes da fatídica reforma tributária que foi votada recentemente no Congresso, os Estados tinham autonomia para fixar suas alíquotas de ICMS.

Agora não vão ter mais. As alíquotas vão ser unificadas em todo o país. Ora, o Rio Grande do Sul tem alíquota zero sobre a água e o leite, isto é, estão isentos. Mas vários Estados cobram ICMS sobre a água. O Rio de Janeiro cobra 18% de ICMS sobre a água, até 30 metros cúbicos. Além de 30 metros, a alíquota sobe para 19%.

Agora que se vai unificar a alíquota do ICMS sobre a água em todo o Brasil, que espera o leitor? É claro, nessa ânsia tributarista que domina os governos e os parlamentares, que seja unificada e equalizada para cima, o Estado que já cobra aquela alíquota não vai renunciar a ela. Então nós, gaúchos, passaremos a pagar ICMS sobre a água em 2005.

Com o leite, a mesma coisa, Minas tributa ICMS sobre o leite porque é uma grande bacia leiteira. O Rio Grande do Sul terá também de tributar o leite, mas é claro que isso vai acontecer.

Sem falar nos outros produtos: a gasolina, por exemplo, é tributada aqui no Rio Grande do Sul em 25%, embora o Estado cobre sobre preço de venda presumido exagerado, o que aumenta mais ainda o ICMS.

Pois bem, no Rio de Janeiro o ICMS fica em 31%. Em telefonia, o RS cobra 25%. Nos outros Estados vai até 30%.

Bebidas com álcool, o ICMS gaúcho é de 25%. Em outros Estados vai até 38%.

Estão entendendo os leitores? Vão desaparecer as peculiaridades locais dos produtos para cada Estado. Como está hoje, cada governo estadual decidia privilegiar determinado produto. Agora não vai ser mais assim, vão unificar em cinco faixas de alíquotas todos os produtos.

Mas a alíquota que será cobrada para determinado produto será a mesma em todos os Estados.

Os governadores estão tensos, à espera da definição. No caso do governador Germano Rigotto, pode ele ter certeza de que o ICMS vai ter um aumento gigantesco no nosso Estado.

Mas eu pergunto: o ministro Antonio Palocci não jurou de pés juntos em mais de 10 entrevistas que reforma tributária não ia significar aumento na carga de impostos? Jurou. E alguém acreditava nesta falsa jura?

Na semana passada se divulgou que a carga tributária avançou significativamente em relação do PIB.

Sem falar na violenta alta, brutal alta da arrecadação da Cofins. Tudo isso por força da reforma tributária.

Só que vem mais este tarifaço fenomenal do ICMS para 2005. Ou seja, não param mais de aumentar impostos. A população vai ter de fazer um levante contra este derrame.

É um escândalo fiscalista. Até na água e no leite vamos pagar impostos. Os governantes e parlamentares querem inviabilizar a vida dos gaúchos e dos brasileiros.

Socorro!

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Futebol
Derrotas da Dupla esquentam Gauchão



Ex-gremista Anderson Lima fez dois gols de pênalti na vitória de 2 a 1 do São Caetano sobre o Grêmio, no Olímpico (foto Fernando Gomes/ZH)


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Domingo, Maio 30, 2004




Affonso Romano de Sant'anna
santanna@novanet.com.br


O anão de Marrakesh

Para Yvone Bezerra de Mello

Elas vão ao banho (dizem aos maridos) fazer limpeza de pele mas algo a mais ali sucede basta ver como depois além do corpo a alma lhes vai leve.

O segredo deste anão está guardado na palma da mão e com seus dedos sabe sublimar as mulheres.

Elas vêm, e ele com silencioso gesto pede que se dispam,se despem.Se ele dissesse, voem voariam, se dissesse dancem, dançariam se dissesse, amem-me o seu mínimo corpo amariam.

Mas pede apenas que larguem suas vestes e se deitem à espera que suas pequenas mãos se agigantem e abram portas, janelas,desvãos, abismos na vertigem da viagem dentro da própria pele.

Quando se despem despedem-se dos maridos e já não mais carecem de amantes é como se Penélope convertida em Ulisses nas mãos do anão a Odisséia sentissem.

Ninguém sabe exatamente o que seus dedos operam.Começa pelos pés e algo vem subindo devagar ao leve toque que não toca, que roçam nas mas que não fere, que solicita e impera e vai em círculos como se o bem e o mal se transcendessem numa espiral de delícias.

Os maridos e parceiros ficam no hall do hotel bebendo uísque, nas quadras jogando tênis e nunca saberão o que ocorreu ao leve toque daquelas pequenas potentes, suaves mãos.

Finda a massagem (nome conveniente à transfigurante viagem) as mulheres reaparecem translúcidas caminhando a um centímetro do chão irrompem inalcançáveis como se tivessem tido uma visão.

Aos maridos não adianta qualquer explicação. Há na pele da alma delas algo de que jamais se esquecem:o irrepetível toque dos dedos e das mãos do anão de Marrakesh.

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Publicado em 30 de maio de 2004
Paulo Coelho


Da importância dos outros

A brasa solitária

Juan ia sempre aos serviços dominicais de sua congregação. Mas começou a achar que o pastor dizia sempre as mesmas coisas e parou de freqüentar a igreja. Dois meses depois, em uma fria noite de inverno, o pastor foi visitá-lo.

Deve ter vindo para tentar convencer-me a voltar pensou Juan consigo mesmo. Imaginou que não podia dizer a verdadeira razão: os sermões repetitivos. Precisava encontrar uma desculpa e, enquanto pensava, colocou duas cadeiras diante da lareira e começou a falar sobre o tempo.

O pastor não disse nada. Juan, depois de tentar inutilmente puxar conversa por algum tempo, também se calou. Os dois ficaram em silêncio, contemplando o fogo por quase meia hora.

Foi então que o pastor levantou-se e, com a ajuda de um galho que ainda não tinha queimado, afastou uma brasa, colocando-a longe do fogo.

A brasa, como não tinha suficiente calor para continuar queimando, começou a apagar. Juan, mais que depressa, atirou-a de volta ao centro da lareira.

Boa noite disse o pastor, levantando-se para sair.

Boa noite e muito obrigado respondeu Juan. A brasa longe do fogo, por mais brilhante que seja, terminará extinguindo-se rapidamente.

O homem longe dos seus semelhantes, por mais inteligente que seja, não conseguirá conservar seu calor e sua chama. Voltarei à igreja no próximo domingo.

A ratoeira

Preocupadíssimo, o rato viu que o dono da fazenda havia comprado uma ratoeira: estava decidido a matá-lo!

Começou a alertar todos os outros animais:

Cuidado com a ratoeira! Cuidado com a ratoeira!

A galinha, ouvindo os gritos, pediu que ficasse calado:

Meu caro rato, sei que isso é um problema para você, mas não me afetará de maneira nenhuma. Portanto, não faça tanto escândalo!

O rato foi conversar com o porco, que sentiu-se incomodado por ter seu sono interrompido.

Há uma ratoeira na casa!

Entendo sua preocupação e estou solidário com você respondeu o porco. Portanto, garanto que você estará presente nas minhas preces esta noite; não posso fazer nada além disso.

Mais solitário que nunca, o rato foi pedir ajuda à vaca.

Meu caro rato, e o que eu tenho a ver com isso? Você já viu alguma vez uma vaca ser morta por uma ratoeira?

Vendo que não conseguia a solidariedade de ninguém, o rato voltou até a casa da fazenda, escondeu-se no seu buraco e passou a noite inteira acordado, com medo de que lhe acontecesse uma tragédia.

Durante a madrugada, ouviu-se um barulho: a ratoeira acabava de pegar alguma coisa!

A mulher do fazendeiro desceu para ver se o rato tinha sido morto. Como estava escuro, não percebeu que a armadilha tinha prendido apenas a cauda de uma serpente venenosa: quando se aproximou, foi mordida.

O fazendeiro, escutando os gritos da mulher, acordou e levou-a imediatamente ao hospital. Ela foi tratada como devia e voltou para casa.

Mas continuava com febre. Sabendo que não existe melhor remédio para os doentes que uma boa canja, o fazendeiro matou a galinha.

A mulher começou a se recuperar e, como os dois eram muito queridos na região, os vizinhos foram visitá-los. Agradecido por tal demonstração de carinho, o fazendeiro matou o porco para poder servir aos seus amigos.

Finalmente, a mulher se recuperou, mas os custos com o tratamento foram muito altos. O fazendeiro enviou sua vaca ao matadouro e usou o dinheiro arrecadado com a venda da carne para pagar todas as despesas.

O rato assistiu àquilo tudo, sempre pensando:

Bem que eu avisei. Não teria sido muito melhor se a galinha, o porco e a vaca tivessem entendido que o problema de um de nós coloca todo mundo em risco?


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