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Vocês encontrarão aqui muitas figuras construidas em Flash, Fireworks, Swift3D e outros aplicativos. Encontrarão também muitas crônicas do Luiz Fernando Veríssimo, Martha Medeiros, Macaco Simão e de outros cronistas de jornais diários e de revistas semanais. Endereço para email: cassiano.leonel@terra.com.br e para observações e comentários utlize os links disponíveis nos próprios textos. Espero que ele seja útil a você de alguma maneira, pois esta é uma das razões dele existir.

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E N T R E L A Ç O S

Sábado, Junho 26, 2004




Visitem o site da Mel e voces encontrarão além de mensagens lindas, figuras espetaculares como esta aí acima. É só clicar aqui ou no link existente ai na esquerda. Um ótimo domingo a você.

Uma homenagem especial aos homens

"Afinal, homem serve para quê?
Ah, para uma porção de coisas, e todas ótimas.
Para namorar, pôr exemplo, ainda não se descobriu nada melhor.
Pensar neles, sonhar com eles, fantasiar a vida com eles, às vezes, é quase tão bom quanto estar com eles. Homem é para realçar a vida das mulheres. Mas como saber se ele está ou não cumprindo sua função?

Simples! É quando você tem vontade de se enfeitar, trocar de penteado, fazer depilação, comprar um sapato de salto alto, vontade de fazer ginástica, de passar fome, só para agradar; se você faz tudo isso, e com a maior alegria, é porque ele merece. Um homem que sabe apreciar seu anelzinho novo, seu brinquinho; nota quando você está mais loura, se a perna está mais durinha, é muito, muito estimulante.

Ter um homem que desperta a vontade de enfrentar uma cozinha, de voltar do trabalho correndo e, mesmo exausta, vai ao supermercado para comprar a manteiga sem sal que ele tanto gosta (até umas flores...porque não?) é apenas a melhor coisa do mundo.
Se estivesse sozinha, comia pão de forma gelado com margarina salgada, sem nem sentir o gosto. Se, além de alegrar sua vida, ele ainda dirige o carro, procura vaga e paga o flanelinha, é a felicidade total.

Um homem que sabe, em caso de necessidade, pregar um prego, trocar um fusível, matar uma barata, sinceramente, tem coisa melhor? Tem sim, e ainda tem muito mais. Um homem que faz você gostar dele apaixonadamente, que dorme abraçado com você no inverno, que ouve seus problemas sem bocejar, que conversa, que ajuda.

Com quem quer ter filhos, planos de envelhecer junto. Ah, isso é bom. Um homem, no ombro de quem você chora, com quem dá risada, que te faz perder o rumo de casa e que te faz pensar, quando está longe, "não consigo viver sem ele"; se você encontra um que te faz sentir tudo isso, agradeça a Deus; é apenas a melhor coisa do mundo.

Só que nem todas as mulheres pensam assim. Algumas acham que homem só serve para duas coisas: para que elas não entrem sozinhas nas festas e para que paguem as suas contas. Pela vida dessas mulheres nunca passou nenhum homem de verdade, esse é que é o problema. Elas nunca imaginaram a possibilidade de encontrar um mais simplesinho, com um sobrenome menos famoso, com quem pudessem tentar uma relação sincera, feliz,
e nem podem: elas nunca ouviram falar que isto existe, veja você.

Quando elas têm a sorte de encontrar um, que cumpra com as funções com quesempre sonharam, como se passam as coisas?
Quando jantam sozinhos, falam de quê? E quando terminam de jantar, fazem o quê? Ninguém sai da mesa direto para a cama (quartos separados, claro!), como nem todo dia tem festa com amigos (nos jantares elegantes, ficam sempre em mesas separadas), fotógrafos, champanhe, então como fazem?

Como vivem? Boa pergunta... Talvez já tenha acontecido a alguma delas um dia, num jantar enorme, bem chique, de repente perceber um homem muito interessante conversando num grupo, bem longe, mas olhando para ela com aquela firmeza. Fica claro que o que ele quer é sumir (com ela) imediatamente, dane-se a festa, que a melhor, a melhor festa, seria os dois, juntos e sozinhos.

Se isso aconteceu, será que ela percebeu? E se percebeu, será que foi? Provavelmente não. Elas ainda não entenderam que homem só existe para uma coisa: para fazê-las felizes."

Danusa Leão

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Luis Fernando Verissimo
27/06/2004


Histórias de bichos

Um amigo contou que seguiu os rastros de uma falange de cupins através de sua bilbioteca. Os cupins atravessaram coleções inteiras, furando capas duras e brochuras, deixando túneis milimétricos

Do baú. Dizem que os animais domésticos ficam parecidos com os seus donos e vice-versa. Nem sempre a reciprocidade funciona. Por exemplo: depois de anos de convivência com o seu gato Ramsés, hoje a dona Cecília toma leite em pires, mia muito e se lambe toda, mas o Ramsés, por mais que tente, não consegue se interessar pela doutrina kardecista.

Fiquei olhando para o cachorro com simpatia, depois que o dono me disse que ele era de uma raça polar que trazia na sua composição genética a disposição para enfrentar ursos, mas tinha que viver trancado no apartamento. Teríamos muito sobre o que conversar, o cachorro e eu. Comentaríamos o calor do Brasil, e eu lhe confessaria minha suspeita de que também não estava cumprindo meu destino biológico na Terra.

Quando contaram que a Olguinha tinha sido comida pelos seus três cachorros pequineses houve uma revolta geral. Impossível! Só poderia acreditar naquilo quem não conhecesse a raça dos pequineses. Ou (disse alguém, num discreto aparte) quem não conhecesse muito bem a Olguinha.

Uma vez demos um hamster para as crianças, e o hamster fugiu da sua gaiola e desapareceu dentro de uma estante de livros. Nunca mais foi encontrado. Durante muito tempo imaginamos que ele reapareceria e voltaria, gordo e cambaleante, para a sua gaiola. Atrás do que também nos falta: tempo e paz para digerir os livros que consumimos com mais voracidade do que método. Mas o hamster nunca reapareceu. Desconfiamos que morreu de excesso de cultura.

Outra vez um amigo me contou que seguira os rastros de uma falange de cupins através da sua biblioteca. Os cupins tinham atravessado coleções inteiras, capas duras e brochuras, deixando atrás de si um único túnel contínuo e caprichado. Só tinham interrompido sua marcha uma vez: para devorar uma ilustração de página inteira de um dos volumes. Segundo o meu amigo, a ilustração era de uma biblioteca.

Minha infância foi sem bichos mas certa vez um gato começou a freqüentar, por sua conta, nosso quintal. Era todo branco e tinha um olho azul e o outro cinza. Ficou durante anos, nunca entrou na casa e um dia desapareceu, tão misteriosamente quanto aparecera. Talvez tivesse sido alertado pelo nome que lhe demos, Bob. Claramente, não éramos pessoas com as quais queria ter muita intimidade.

Nossa filha do meio, a Mariana, tem dois padrinhos, o Beto e o Sérgio Rosa. E um dia os dois deram de presente para as crianças uma boxer, que recebeu o óbvio nome de Rosinha. A Rosinha cresceu sem muitos cuidados e fora da casa. O que deve tê-la marcado, psicologicamente. Tanto que nas raras vezes em que permitíamos que ela entrasse na casa, ou que ela escapava para dentro, tornava-se frenética.

Entrava correndo, derrubando tudo e fazendo xixi por onde passasse, inclusive nos pés das visitas. Era o contrário de cachorro de apartamento: liberdade, para ela, era sair da rua e entrar na casa, o que também lhe dava a ilusão adicional de ser parte da família. É claro que não ficou muito tempo conosco. Não me lembro qual foi seu destino. E é preciso dizer que no caso de alguns visitantes, ela só fazia nos seus pés o que a boa educação nos impedia de fazer.

A lógica das crianças. Num Museu de História Natural o pai aponta um esqueleto de dinossauro e diz para o filho menor que o bicho está extinto há 100 milhões de anos. E o filho: "Isso dá quanto em idade de gente?".

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Martha Medeiros
27/06/2004


Religião e evolução

Não busco a polêmica, procuro a conversa, mas como falar de religião sem provocar? Vou falar sobre as células-tronco. Não é provocação. É reflexão

Polemizar é um recurso que costuma ser bem-sucedido entre colunistas que sobrevivem de dar opinião sobre tudo. Não é o que busco, prefiro conversas menos alteradas, mas como falar de religião sem provocar uns tantos? Não gostaria que soasse como provocação, e sim como reflexão.

Nos meus acessos de idealismo, me pergunto: por que não é possível ser cristão, freqüentar a igreja, ter fé, amar a Deus e ao mesmo tempo ser sensato, racional e atualizado? O Papa, esta figura tão poderosa e carismática, segue sendo porta-voz da condenação do uso de contraceptivos, mesmo diante de inúmeras nações superpovoadas e carentes. Também não aceita que dois namorados tenham relações sem estar casados: sexo antes do matrimônio é pecado, mesmo sabendo que se os dois não se entenderem na cama o relacionamento pode ir à pique.

E o absurdo maior, segue condenando o uso da camisinha, como se a Aids fosse uma invenção do demônio, como se o vírus fosse um castigo para os que desobedecem os mandamentos. Não entendo e nem tentem me explicar, ninguém vai me convencer de que esta visão obtusa da vida tem lógica.

Até aí, nenhuma novidade. O que tem me estarrecido atualmente é a dificuldade que os cientistas estão tendo para liberar pesquisas com células-tronco para encontrar a cura de doenças sérias como Alzheimer, diabetes, esclerose, Parkinson, paralisia. Muitos articulistas têm escrito sobre isso, mas resolvi unir minha voz à deles pois quanto mais pressionarmos, mais rápido avançaremos nesta questão.

Li duas semanas atrás uma matéria com um casal gaúcho que congelou as células retiradas do cordão umbilical da filha recém-nascida para o caso de alguma eventualidade no futuro. Estão certos. Espero que isso se torne um procedimento comum e barato, mas é preciso ir além, é preciso que se evolua na pesquisa de células-troncos retiradas de embriões que não se desenvolveram, e também na pesquisa sobre clonagem de órgãos.

É um assunto que não domino, admito, mas tudo o que pode ser benéfico para a humanidade tem meu apoio. O que eu não apóio é que os benefícios que a ciência possa trazer tenham que passar antes por uma ética espiritual. Mulheres sofrem abortos espontâneos e abortos provocados - isso não vai mudar jamais, não há religião que consiga esse milagre. Portanto, os embriões continuarão indo para a lata de lixo, quando poderiam estar salvando outras pessoas. Ninguém está propondo que se realizem abortos com este propósito, o que se quer apenas é aprofundar o conhecimento e buscar novas alternativas para se viver mais e melhor.

Pesquisas com células-tronco podem gerar descobertas revolucionárias. A vida é nosso bem mais sagrado, que ela seja protegida e prolongada. Sem culpa, sem castigo, sem penitência, sem nenhum desses vocábulos fartamente usados entre os fiéis. Deus é amor? Então, por amor ao próximo e a todos nós, deixem a ciência apitar mais.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
27/06/2004


De um diário bostoniano

Há coisas comuns entre a aristocrática Boston e a nossa Porto Alegre. Uma delas é a briga de vizinhos por um galo

Boston, onde estive para uma conferência na Boston University, talvez não seja a cidade mais rica dos Estados Unidos, mas é certamente a mais aristocrática. Afinal, é a metrópole da Nova Inglaterra, região onde o país nasceu - e antigüidade sempre é título: os paulistas de quatrocentos anos que o digam.

Os bostonianos, objeto de um belo romance de Henry James, são conhecidos pela sofisticação. É muito famoso o poema em que o doutor Richard Cabot, médico ilustre, fala com humor das duas mais importantes famílias da cidade, a sua própria e a dos Lowells: "So this is good old Boston/ the home of the bean and the cod/ where the Lowells talk only to the Cabots/ and the Cabots talk only to God" ("Esta é a boa velha Boston/ reduto do bacalhau e do feijão/ onde os Lowells falam só com os Cabots/ e os Cabots só falam com Deus").

Agora: diferente do caviar, bacalhau e feijão não são exatamente alimentos nobres. E não precisam sê-lo. Porque a aristocracia nos Estados Unidos não nasceu da nobreza, do sangue azul. Nasceu do esforço e do arrojo de gente alimentada a bacalhau e a feijão. Nasceu do dinheiro. E o dinheiro, afinal, é a mola que move o mundo, o mundo da sofisticação e o mundo da beleza.

Um exemplo do que o dinheiro pode conseguir é o fascinante museu Gardner. Isabella Stewart Gardner e Jack Gardner eram um casal riquíssimo. Quando o seu único filho morreu, começaram a viajar pelo mundo. Isabella, orientada pelo notável crítico Bernard Berenson, dedicava-se a comprar obras de arte.

Reuniu assim uma coleção assombrosa, que inclui Botticelli, Ticiano, Vermeer, Rembrandt; e, para alojá-la, construiu em Boston um palácio que é réplica exata dos palácios venezianos. Ali, viúva, passou a residir. Agora: não sei vocês, mas eu não moraria num museu por dinheiro algum.

Durante o dia tudo bem, mas à noite deve ser um lugar lúgubre, todos aqueles retratos de imponentes figuras do passado. E que certamente não consolavam a pobre Isabella da perda terrível que ela havia sofrido. Não, o dinheiro não compra tudo. Nem mesmo em Boston.

Mas de repente a gente descobre que há coisas comuns entre Boston e Porto Alegre (afora o rio Charles, que lembra um pouco o Guaíba). Semanas atrás escrevi aqui uma coluna acerca de uma briga entre vizinhos por causa de um galo barulhento. Coisa de Terceiro Mundo? Nada disso. Segundo o Boston Globe, uma briga semelhante eclodiu lá.

Tratava-se de uma senhora que criava galinhas e dois galos, um dos quais tinha o hábito de cantar às quatro da manhã o que, convenhamos, mesmo para um galo é muito cedo, e deixava os vizinhos indignados. A dona da casa fincou pé, argumentando que o tráfego na região é ainda mais barulhento. Ou seja: está disposta a comprar uma briga. A propósito seu nome é Amy Loveless, ou seja, Amy Sem-Amor. Os vizinhos terão um páreo duro pela frente.

Falando em Boston Globe, quem disse que os jornais americanos não mencionam o Brasil? Um anúncio, verdade que não muito grande, anuncia a depilação "Brazilian Bikini" (produto Elizabeth Grady) o segredo pelo qual as brasileiras podem usar biquíni. Pelo menos alguma coisa podemos ensinar aos americanos. Mesmo às aristocráticas bostonianas.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
27/06/2004


Sangrenta reação

Os EUA parecem estar tendo mais despesas com a ocupação do Iraque do que tiveram com a guerra.

Não basta só derrotar o governo de uma nação, é preciso estabelecer ali um outro governo, da confiança dos vencedores.

Só que, como dentro de três dias será instalado um governo interino constituído de iraquianos, parte da população intenta os últimos esgares de resistência.

E os atentados se sucedem no Iraque como se o país ainda estivesse em guerra.

Só na sexta-feira morreram cem pessoas e restaram feridas outras 350. Foram ataques terroristas sincronizados, recaindo sobre cinco cidades iraquianas: Bagdá, Mossul, Baquba, Falluja e Ramadi.

Os alvos são principalmente policiais que foram recrutados às pressas para administrar o caos que tomou conta do país depois da invasão, julgados traidores pelos insurgentes, que os chamam de "apóstatas e espiões".

E as delegacias de polícia são atacadas por carros-bomba, morteiros, lança-rojões, suicidas com explosivos, emboscadas e combates com fuzis, espalhando terror sobre as cidades.

Chega a ser espantoso que um país dominado por força estrangeira invasora consiga ainda ocultar tais armamentos entre os que se insurgem, mostrando uma reação que não se verificava no tempo em que Saddam Hussein ainda não tinha sido preso.

Isso mostra que o ex-ditador contava com largo apoio popular para manter seu poder sobre a maioria xiita, valendo-se da minoria sunita de 30% dos iraquianos para impor seu cruel domínio.

Só que agora os partidários de Saddam estão por trás desses sangrentos atentados contra as forças que começarão a governar o Iraque no próximo dia 30.

Claramente os insurgentes se conformam menos em ser governados pelos norte-americanos do que por iraquianos da confiança dos EUA.

Eles se aquecem na vã esperança de que os EUA abandonariam o Iraque depois de derrotá-lo. E que eles poderiam então erigir um governo sem Saddam, mas com os mesmos princípios.

Como percebem que estão definitivamente se despedindo do poder, desfecham atos terroristas que prometem será longa e áspera a transição de poder no Iraque, não tão fácil quanto Bush previra.

O cativeiro e decapitação de seqüestrados estrangeiros é uma prova de que está muito longe a pacificação no Iraque.

E de que os EUA deverão monitorar durante muitas décadas o novo exército iraquiano que será erguido depois que foi extinto o antigo.

E não há dúvidas de que, substituído o regime de Saddam pelo outro que ocupará o seu lugar, as queixas contra os direitos humanos se repetirão pelos novos exilados em todo o mundo.

Vão mudar as moscas, mas o melado será o mesmo.

Será que foi para isso que se decidiu pela guerra? E será que para se trocar simplesmente de governo justifica-se uma guerra ou uma invasão como esta?

Ou o Iraque será anexado pelos EUA?

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Memória
Há 60 anos, o Brasil ia para a guerra



Em julho de 1944, a Força Expedicionária Brasileira partia para a Itália, combater os alemães na II Guerra. Hoje, pracinhas, como José Conrado (acima), relembram a campanha e tentam preservar sua história (foto Júlio Cordeiro/ZH)

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Ponto de vista: Lya Luft

O menino que me olha

"Procuro dentro de mim um sentido para a situação do menininho coberto de sangue, no colo da mãe fanática e delirante, enquanto ele olha o fotógrafo, olha para mim que, do outro lado do mundo, não sei o que lhe dizer, porque busco, e não encontro, a palavra certa"

Contemplo na revista a foto de um menino bem pequeno no colo de sua mãe, que o flagela até tirar sangue (muito sangue) por fanatismo religioso. O menininho olha o fotógrafo e, portanto, é como se me olhasse, eu do outro lado do mundo sem saber o que lhe dizer. Me vem à mente imediatamente a questão de Deus, dos deuses. Questão inesgotável, por encerrar o sentido desta nossa aflita existência. Da qual a gente não sabe quase nada o que pode ser bom.

O que Deus, ou os deuses, tem a ver com isso? Tem a ver porque a gente imagina que eles conheçam o assunto, o que de alguma forma nos tranqüiliza: ah, ao menos eles... O bom de não sabermos todas as coisas é existir alguém que sabe. O bom de existir alguém que sabe é não sabermos quem ele é.

Ilustração Ale Setti

O melhor de tudo é que, mesmo sem entender, se encostarmos o ouvido na terra, no tronco da árvore, no peito do amado, na cabecinha de uma criança ou no silêncio de uma noite muito escura, a gente vai escutar um rumor. Sem palavras, sem significados. Mas semelhante à arte querendo tocar o sagrado. Porque tanto a arte como o sagrado buscam o essencial, o silêncio, a imobilidade e a ausência de cor.

A perfeição, então, seria o nada?

Talvez. O fascinante de existir é o não saber, o duvidar, o buscar incessantemente. O querer, o amar.

A generosidade não é ruidosa. O acolhimento do amor é tranqüilo. Mas o ódio também pode ser silencioso. Insidioso, ele se movimenta lentamente por baixo do tapete, espreita anos a fio detrás das cortinas e, de repente, explode.

De repente, decapitam-se pessoas. E, na página da revista, uma mãe flagela sua criança. O espírito de vingança rói o pé de velhos crucifixos nas salas de jantar; povos se aniquilam pela loucura de seus governantes; rouba-se dos velhos, dos doentes, dos miseráveis. O centavo que lhes é tirado goteja na conta bancária dos que mereceriam castigo mas rodam pelas ruas em carrões blindados.

Não andamos muito elegantes, nestes tempos estranhos. Não andamos muito éticos, nestes tempos loucos. Não que as coisas tenham sido muito melhores no tempo dos gregos, quando na filosófica Atenas mulher era pouco mais do que um animal sem alma, era normal ter escravos e a guerra era o pão nosso.

Ou na Idade Média, quando eu seria no mínimo candidata à fogueira, não a da inveja mas a concreta mesmo; nossos filhos teriam morrido nas Cruzadas matando alguém no Oriente (nada de novo na face da Terra). De modo que não sou nada saudosista, mas, talvez porque tudo isso se derrama em minha casa pelos jornais, revistas, TV e computador (por onde também entram e-mails de amigos e visito tantos belos lugares do mundo), começo a me cansar.

Então, procuro dentro de mim um sentido para a situação do menininho coberto de sangue, no colo da mãe fanática e delirante, enquanto ele olha o fotógrafo, olha para mim que, do outro lado do mundo, não sei o que lhe dizer, porque busco, e não encontro, a palavra certa.

Talvez estejamos todos enlouquecendo. Talvez seja melhor não saber a explicação.

O bom de não sabermos todas as coisas é existir alguém que sabe. O bom de existir alguém que sabe é não sabermos quem ele é.

Lya Luft é escritora

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Diogo Mainardi
O brasileiro é um vegetal

"O reconhecimento das limitações nacionais é altamente benéfico. Causamos muito mais estragos nos momentos de euforia do que quando admitimos nossa irremediável inaptidão"

Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro em 1925. Passou uma semana na cidade. Coleciono diários de viagem de estrangeiros ilustres ao Brasil. O de Einstein eu não conhecia. Foi editado recentemente por Alfredo Tiomno Tolmasquim, com o título Einstein: o Viajante da Relatividade na América do Sul.

Quanto mais superficial e preconceituoso é o viajante estrangeiro, mais chance ele tem de compreender o Brasil. Einstein foi superficial e preconceituoso na medida certa. Admirou-se com nossa mistura étnica, acrescentando que fomos gerados espontaneamente, "como plantas, subjugados pelo calor". A idéia de que os brasileiros são iguais a plantas é um tanto ofensiva, mas de difícil confutação. O meio científico nacional da época não via a miscigenação como um fator definitivo.

Os especialistas com quem Einstein conversou, durante a viagem, garantiram-lhe que o Brasil se tornaria progressivamente mais branco, já que as características negras desapareceriam com o tempo, devido à inferioridade genética dos mestiços. Einstein, em seu diário, anotou que nossos catedráticos eugenistas eram irrelevantes e tolos: "Acredito que essa tolice tenha a ver com o clima". O clima quente e úmido do Rio de Janeiro, para Einstein, amolecia as pessoas e levava-as a crer em bobagens como a telepatia. "A vida de um europeu é mais rica, sobretudo menos utópica e nebulosa."

Assim que desembarcou no Rio de Janeiro, Einstein foi obrigado a comprar um fraque, para poder participar de um encontro com o presidente Arthur Bernardes. O encontro oficial mereceu uma única linha em seu diário: "À tarde, visita ao presidente, ministro da Educação e prefeito". Em outra ocasião, ele comentou: "Visita a ministros, graças a Deus na maioria ausentes". Além da tolice de nossos catedráticos, portanto, Einstein logo se deu conta da vacuidade de nossos políticos. O público comparecia em massa às suas palestras, em salas rumorosas e pouco ventiladas, mas ninguém entendia suas palavras, por absoluta falta de conhecimento científico: "Para eles, sou um elefante branco; eles, para mim, são uns tolos".

Apesar disso, o Brasil pode se vangloriar de ter tido um pequeno papel na carreira de Einstein. A teoria da relatividade ganhou sua primeira confirmação empírica na cidade cearense de Sobral, onde cientistas ingleses fotografaram algumas estrelas num eclipse solar. Depois de confirmar a teoria da relatividade, Sobral ainda legou à humanidade a dinastia política de Ciro Gomes.

Ao sair do Brasil, Einstein declarou-se "finalmente livre, porém mais morto do que vivo". Ele não foi o único viajante estrangeiro a levar uma má impressão do país. Quase todos os que passaram por aqui nos esculhambaram em seus diários. Com argumentos semelhantes aos de Einstein: a tolice de nossos catedráticos, a nebulosidade de nossos políticos, o aspecto vegetal de nosso povo, o amolecimento de nosso caráter, a miséria de nossas utopias.

O reconhecimento das limitações nacionais é altamente benéfico. Causamos muito mais estragos nos momentos de euforia, quando acreditamos em nós mesmos, do que quando admitimos nossa irremediável inaptidão. Por isso, lembre-se sempre de Einstein: a gente é igual a planta.

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Mas que cachorrada, Laura!

Personagem de Cláudia Abreu é a assassina de Lineu. Fim de Celebridade ainda mandou o vilão Renato Mendes para cadeia.

E, no fim, a Cachorra um dos melhores papéis de Cláudia Abreu na TV virou seqüestradora de criancinhas, assassina e, mesmo moribunda, depois de levar um tiro de Renato Mendes (Fábio Assunção), confessou todos os crimes de Celebridade. A trama terminou ontem acabando com o suspense de 221 capítulos da novela de Gilberto Braga, exibida pela Globo.

A polícia da ficção também foi morosa e demorou quatro meses para descobrir o assassino de Lineu, feito pelo ator Hugo Carvana. E olha que ele era um megaempresário. Gilberto disse que queria surpreender o público, mas a assassina era Laura. O motivo? Lineu roubou dela as provas de que a música Musa do Verão era mesmo de autoria de Ubaldo (Gracindo Jr.). E Queiroz (Otávio Müller) também foi eliminado pela loura porque sabia demais.

Laura começou brega, pobrinha, pervertida e sensual, foi ficando cada vez mais sarcástica, ácida e insuperável, como quando mandou Renato para o colchonete. Enlouquecida por estar perdendo tudo, ameaçou até dar um beliscãozinho na filha de Fernando (Marcos Palmeira) e Maria Clara (Malu Mader), depois de seqüestrá-la. Deu nervoso vê-la com a neném no colo que não parava de chorar e depois quando tentou estrangular a menina.

Cláudia fez dobradinha inesquecível com Márcio Garcia, o Michê Marcos, que não merecia morrer. Talvez o autor não quisesse repetir o final de Vale Tudo (1988), em que Maria de Fátima e cia. se deram bem. A dupla de atores de Celebridade criou os melhores apelidos da novela, inclusive o de chamar Renato de Lourinho Beiçudo. O vilão de Assunção foi preso por ter matado Laura e Marcos.

A heroína insossa de Malu Mader não teve a menor chance de emplacar contra a Cachorra. Renato também foi um dos melhores tipos de Fábio Assunção.

Enquanto soube criar os malvados, o próprio Gilberto Braga disse que não conseguiu desenvolver o jornalista do Bem, Cristiano, feito por Alexandre Borges, do jeito que deveria. Ele teve momentos no início da trama, mas deixou de ser alcoólatra da noite para o dia, bem-sucedido, nunca mais apareceu nas reuniões do A.A. Mas lavou a alma do espectador ao virar presidente da Vasconcelos e mandar Renato passar no R.H.

Para fim de conversa: o fotógrafo Bruno, vivido por Sérgio Menezes, foi disparado o troféu come-quieto. Ele começou Celebridade com uma noiva, foi passado para trás, mas tirou o atraso. Mandou ver até na Laura e terminou deslizando nas curvas de Juliana Paes, a Jaqueline Joy, que foi catapultada para as páginas da Playboy e experimentou fora da TV todo o assédio da imprensa que era o assunto da novela.

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Cláudia Laitano
26/06/2004


Por quem choramos

A reação à morte de personagens públicos - um ídolo, um líder político, uma personalidade conhecida - mobiliza uma carga de emoção que me parece absolutamente fascinante. Sou brasileira, descendente de italianos e mulher - quer dizer, choro por quase qualquer coisa. Mas nunca chorei, de verdade, a morte de um ídolo. Já me senti comovida, triste, órfã até, mas chorar nunca chorei. Qual o problema comigo? O fato é que sempre me perguntei de onde vêm as lágrimas que se derrama por alguém que nunca encontramos pessoalmente. Como uma idéia, uma imagem, quase uma abstração humana - ainda que cheia de grandes realizações concretas - podem nos fazer reagir do mesmo jeito que se reage a uma perda pessoal, de alguém que amamos ou conviveu conosco?

Recordo muito bem a primeira vez em que fiquei paralisada diante de uma cena de prostração desse tipo. Talvez você também se lembre de onde estava no dia 19 de janeiro de 1982, quando chegou a notícia da morte de Elis Regina. Eu lembro. Bicicletas inclinadas sobre a grama, cadeiras de praia fechadas num círculo, minhas amigas e eu fomos atropeladas pela falta de lógica da morte em meio a uma roda de chimarrão, em Tramandaí.

Elis não era velha, não estava doente. Ninguém nos avisou que era assim que funcionava: um dia você está na TV, dando entrevista, fazendo planos para o futuro, no outro não está mais. Sumiu. O que os fãs fazem nessas horas? Passamos o dia meio atordoadas, ouvindo as músicas que não paravam de tocar no rádio, vendo os noticiários na TV, falando do show no Gigantinho que a gente podia ter visto, mas não viu, não ia ver mais.

Mais tarde, naquela mesma noite, surpreendi o pai de uma dessas minhas amigas em silêncio total na frente da televisão, lágrimas grossas no rosto, sofrendo como se alguém muito próximo tivesse partido. E lembro de ter ficado fascinada pela cena. A verdade é que por mais que a gente gostasse de Elis e tivesse discos dela, por mais que aquele estivesse sendo nosso batismo nesse tipo de perda, não era um ídolo da nossa geração que se despedia. Aquele adulto na frente da TV chorava a morte de Elis, sim, mas chorava também a passagem do tempo, a juventude perdida, o fim de um ciclo. Aos 15 anos, a gente ainda não sabia chorar daquele jeito.

Vendo a comoção nos funerais de Brizola, fiquei com uma sensação parecida com aquela de 20 anos atrás. Porque não consigo imaginar o líder político que me levaria a enfrentar uma fila ou a chorar durante um velório. Talvez a política brasileira esteja amadurecendo para uma relação menos personalista com seus líderes, o que seria muito bom. Talvez o ceticismo político que abate boa parte da minha geração tenha me apanhado de vez - mas isso definitivamente não seria uma boa notícia.

claudia.laitano@zerohora.com.br

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Cláudio Moreno
26/06/2004


Macérrimo

A filha, que é muito estudiosa, veio do colégio com uma novidade: o superlativo de magro é macérrimo, e não magérrimo, como a família toda costumava dizer. O pai, inconformado, teve o bom-senso de não contestar o que a professora ensinou, mas me ligou, meio sem jeito, para tirar a limpo a questão: "Eu sempre achei que era magérrimo; agora inventam esse macérrimo! Posso ao menos dizer para minha filha que as duas formas estão corretas? Ou venho falando errado todo esse tempo?". Compreendo esse pai e compreendo essa professora; ambos têm sua razão, mas não podemos misturar uma com a outra, como vamos ver.

Para formar superlativo, nosso idioma utiliza um processo muito singelo: basta acrescentar o sufixo -íssimo ao radical dos adjetivos. Assim brotam, naturalmente, belíssimo, grandíssimo, duríssimo, caríssimo, pesadíssimo, num processo que é tão transparente para os falantes que os dicionários nem precisam registrar essas formas. Alguns adjetivos apresentam, concomitantemente, uma versão mais erudita, baseada no radical latino, introduzida principalmente durante o Renascimento. Em Latim, pobre é pauper (o mesmo radical que vamos encontrar em pauperismo, depauperar, etc.); por isso, ao lado de pobríssimo (pobre + íssimo), temos também paupérrimo.

Doce é dulcis (radical que encontramos em edulcorante, dulcificar ou no nome Dulce); assim, além de docíssimo, nós temos dulcíssimo. Assim surgiram vários pares: frio tem friíssimo e frigidíssimo (do Latim frigidus); negro tem negríssimo e nigérrimo (do Latim niger); amigo tem amiguíssimo e amicíssimo (do Latim amicus). De qualquer forma, estes casos que desviam da fórmula [radical + íssimo] não chegam a duas centenas, num total estimado de mais de cem mil adjetivos.

Convenhamos que não é qualquer falante que se anima a usar celebérrimo (de célebre), libérrimo (de livre) ou aspérrimo (de áspero), dado o caráter inegavelmente erudito da terminação -érrimo. No entanto - e talvez exatamente por isso -, esse sufixo passou a ser encarado como um indicador de prestígio, e certos setores da imprensa (principalmente ligados à moda e ao colunismo social) acostumaram-se a usá-lo liberalmente, criando formas como chiquérrimo, riquérrimo, elegantérrimo; Houaiss menciona, sem sobressaltos, o impronunciável encantadorérrima e o atroz estupendisérrimo; eu mesmo já usei, várias vezes, o popular boazudérrima.

Agora, para meu espanto, tenho visto o sufixo -ésimo, usado nos numerais ordinais, entrar para o rol desses superlativos feitos no quintal: carésima, gostosésima, peruésima e até chiquetésima. Embora eu não tenha nada contra essas formas - afinal, as palavras, como os seres humanos, têm o direito de existir, mesmo que não sejam lá boa coisa -, confesso que só consigo empregá-las em tom irônico ou zombeteiro.

É aqui que entra o magérrimo. Magro tem o superlativo vernáculo magríssimo ou a forma alatinada macérrimo (no Latim, magro é macer, radical que podemos encontrar em emaciar ou macilento). Com a nova "moda" do sufixo -érrimo, no entanto, criou-se também magérrimo, uma combinação híbrida (mistura o radical moderno com o sufixo latino), meio cruza de jacaré com cobra-d'água. Acontece que ela caiu no gosto popular e já está dicionarizada; eu me arriscaria a dizer que é forma preferida pela maioria dos falantes do Brasil.

Portanto, prezado pai, tu não falavas errado; a professora, porém, também tinha toda a razão ao ensinar a forma macérrima, pois é na escola, e não nas ruas, que tua filha vai aprender o registro formal da nossa língua. Usar bem o Português não se resume a escolher entre uma forma correta e uma errada, mas sim escolher, entre duas formas corretas, a mais adequada para a situação. Magríssimo? Podes usar sempre, em qualquer contexto, em qualquer nível de linguagem. Macérrimo? Usa em discursos, em textos literários e profissionais, em situações formais. Magérrimo? Deixa para o salão de beleza, a crônica social, a conversa entre amigos e o churrasco de domingo.

claudio.moreno@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
26/06/2004


Afasta de mim este cálice

Esses dias alguma entidade autorizada andou classificando o conceito de "milionário" no Brasil.

E afirmou ser toda aquela pessoa que possua investimentos financeiros da ordem de US$ 1 milhão. Ou sejam, para arredondar, R$ 3 milhões.

Ainda arredondando, temos então que a Mega Sena que corre hoje às 20h, pagando cerca de R$ 50 milhões ao seu acertador, fará do seu acertador uma pessoa 16 vezes milionária.

É muito dinheiro, é dinheiro demais até para a ambição dos milhões de apostadores que estarão concorrendo ao prêmio.

Cada um dos brasileiros que apostam na Mega Sena constitui no seu imaginário o que faria com o dinheiro.

Passa pela cabeça de todos comprar um campo, um confortável apartamento mobiliado, dois carros, muita viagem pelo Brasil e pelo mundo.

E não são mesquinhas as ambições: todos sonham que poderiam assim ajudar seus parentes e amigos pobres, designar talvez uma considerável quantia para as entidades beneficentes, dinheiro é que não falta para o felizardo que acertar logo mais as seis dezenas tentar ser feliz e fazer a felicidade dos outros.

Noventa e nove por cento das pessoas que desejam ganhar este prêmio não têm a mínima idéia do inferno em que se transformará a sua vida no caso de acertar a bolada.

Começa com uma circunstância que ninguém imagina e é absolutamente certa: o desaparecimento do ganhador.

Seja quem for o acertador, terá de mudar-se da casa em que vive, da rua em que mora, da cidade que habita, e é quase certo que do Estado de que é natural.

É impossível continuar a mesma vida, tanto pelas imensas atribulações que lhe causarão os pedidos de auxílio quanto pelos perigos que correrá a sua segurança pessoal.

Desaparecer do meio em que vive é uma das penas mais cruéis a que se pode submeter uma pessoa.

Ganhar esta Mega Sena significa isso: o exílio, o degredo, esconder-se do mundo, não poder mais freqüentar os lugares que sempre lhe apeteceram, deixar de conviver com as pessoas de quem gosta, tornar-se oculto, tornar-se malvisto pelos que não forem atendidos em seus pleitos de ajuda, sem falar na acusação de que "fulano não é mais o mesmo".

Quem acha que a vida de um ganhador dessa fortuna da Mega Sena não se torna um pesadelo não tem a mínima noção de que uma coisa é constituir uma fortuna dessas durante toda a vida - outra coisa completamente diferente é ver cair do céu de repente R$ 50 milhões.

O choque existencial que sofre quem ganha um prêmio desses tem proporções tão gigantescas que abala completamente a estrutura mental e emocional de uma pessoa, mudando completamente a sua personalidade, transtornando-a, arremessando-a uma dimensão de vida para a qual não estava preparada, algo assim próximo da loucura, ou melhor, do delírio.

Deus me livre ganhar um prêmio desses. Melhor a vida assim que levo, contando todo fim do mês o dinheiro para pagar os DOCs das tarifas, do condomínio, contando o dinheiro para enfrentar as despesas com gasolina e supermercado. Como somos felizes e não percebemos!

Pai, afasta de mim este cálice!

Eu fiz a minha aposta na Mega Sena ontem desejando ardentemente não acertar.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Crime
Rolo compressor contra a pirataria



Brinquedos, relógios, CDs, fitas de vídeo e óculos contrabandeados foram destruídos ontem em Porto Alegre (foto Genaro Joner/ZH)


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Sexta-feira, Junho 25, 2004




Malufismo
Engenheiro das finanças

Complexidade das operações bancárias no Exterior reflete talento de Paulo Maluf

Luiza Villaméa

Tudo explicadinho: estatuto da empresa em paraíso fiscal detalha partilha de recursos em caso da morte de Maluf

Em campanha pela sucessão de Marta Suplicy (PT), Paulo Maluf está usando o mote o bom prefeito. Pelas informações que vêm chegando aos eleitores nas últimas semanas, Maluf está mais para o bom engenheiro. A especialização seria, no entanto, diferente da obtida em 1954, quando ele se formou pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Em vez de engenheiro civil, Maluf está se revelando um aplicado engenheiro de finanças. Desde 1984 ele aparece como beneficiário de polpudas contas no Exterior. Em alguns períodos, a movimentação bancária foi tão intensa que levantou suspeitas. Afinal, dinheiro lícito não fica circulando o tempo todo em nome de off-shores, como são conhecidas as empresas abertas em paraísos fiscais.

O mais recente reflexo da engenharia financeira atribuída ao ex-prefeito de São Paulo (1993-1996) veio à tona na semana passada por causa da White Gold Foundation, uma das off-shores de Maluf (leia fac-símile). A empresa, que recebeu um total de US$ 200 milhões em depósitos apenas em dezembro de 1995, foi aberta cinco anos antes, em Valduz, capital do principado de Liechtenstein, na Europa.

Pelo estatuto da White Gold, em caso de morte de Maluf, 50% dos bens seriam destinados à sua mulher, Sylvia. A outra metade seria dividida entre os quatro filhos do casal Lígia, Otávio, Flávio e Lina. Ao saber que a documentação viera a público, Maluf afirmou, como de costume, que não tem nenhuma conta no Exterior. Isso é outra farsa com objetivo eleitoral, garantiu.

Na semana anterior, ele havia classificado como falsa uma carta, de dezembro de 1996, transferindo todos os recursos da mesma White Gold para a off-shore Durant International. Os promotores Sílvio Marques e Sérgio Sobrane, que investigam Maluf por improbidade administrativa, atestam a autenticidade da documentação, embora ressaltem que não divulgaram o material, legalmente protegido por sigilo bancário.

Na prática, existem várias cópias da documentação bancária de Maluf na Suíça, pois o ex-prefeito está sendo investigado em frentes distintas. Quem não obteve nenhum documento ainda foi a CPI do Banestado, que investiga evasão de divisas. Na quinta-feira 24, o senador Antero Paes de Barros (PSDB/MT), presidente da CPI, peregrinou por São Paulo tentando agilizar o acesso à papelada. Pelas investigações, boa parte das verbas desviadas durante a construção da avenida Águas Espraiadas saiu do Brasil através do Banestado.

Como se não bastasse, há depósitos de empreiteiras contratadas por empresas vencedoras da concorrência, feitos diretamente numa agência paraguaia do BDP, como o Banestado é conhecido naquele país. Do cone sul, o dinheiro seguia para os Estados Unidos e, de lá, para a Europa.

Um dos responsáveis pela recuperação dos recursos desviados, Luiz Tarcísio Teixeira Ferreira, secretário dos Assuntos Jurídicos da Prefeitura de São Paulo, prepara-se para viajar à Suíça e à Inglaterra, para contatar escritórios locais de advocacia. É um processo complicado, lembra o secretário. O caminho do dinheiro, com a ligação entre uma ponta e outra, precisa estar bem claro. Pelo volume da documentação, não será moleza. Só na ponta brasileira, são 230 mil documentos bancários. E, entre o Brasil e a Suíça, tem muito mais do que um oceano.

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Governo
Afinal, um homem de negócios

Dez anos depois de assustar empresários americanos, Lula sai aplaudido de encontro em Nova York

Osmar Freitas Jr. Nova York (EUA)

Em 1994, quando era líder nas pesquisas eleitorais entre candidatos à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva foi a Nova York, no Plaza Hotel, para falar a uma platéia de 1.500 empresários americanos. Naquela ocasião, disse que iria renegociar a dívida externa brasileira e prometeu protecionismo aos produtos brasileiros. Os convidados saíram do encontro horrorizados, imaginando um futuro calote da dívida e fechamento do mercado.

Com um único discurso desastrado, Lula empurrou para os braços do seu rival na corrida presidencial toda aquela massa capitalista. Fernando Henrique Cardoso lançou sua candidatura após esse episódio e foi recebido como o messias pelo empresariado e economistas dos Estados Unidos.

Na semana passada, com público menor cerca de 700 e num hotel muito melhor (o Waldorf Astoria), o presidente Lula falou sobre seu programa econômico e a visão que tem para o Brasil. Garantiu que o País se tornou um ator importante no mundo globalizado, pregou o livre comércio entre as nações pedindo a redução de subsídios agrícolas de governos como o americano e disse que seu governo lançou as bases sólidas para um crescimento sustentável.

Foi aplaudido e conseguiu cumprir a meta do seminário divulgando oportunidades de investimentos no Brasil. A única possível gafe, nesta oportunidade, ocorreu quando o presidente garantiu aos empresários que havia dado instrução a seus ministros para responderem a todas as perguntas dos convidados nas reuniões que seguiram o almoço. Ele disse: Não há pergunta que não tenha resposta. Se não tiver resposta é porque não tem resposta.

A diferença entre o Lula de 1994 e o de 2004 é que o anterior era um ingênuo e o segundo é um homem de negócios. Cercado por seus ministros Antônio Palocci (Fazenda), Guido Mantega (Planejamento) e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), o presidente procurou cativar a platéia, registrando os números favoráveis da economia do País. Além disso, falou a frase mágica, que faltou no discurso de 1994, e que é capaz de abrir a carteira de investidores: Não estamos em meio a uma pequena aventura ou reinventando a roda...

As regras do jogo serão mantidas, não vão mudar de uma hora para outra. O recado foi entendido. O que mais assusta um investidor é a instabilidade nas regras que permeiam os negócios. Não dá para investir onde as regras não são respeitadas. O Brasil parece que compreendeu isso e tem mantido sua postura, disse Haim Bar-Ziv, vice-presidente executivo do IDB Bank.

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Chance de ficar milionário

MegaSena acumula pela quinta vez e vai pagar o maior prêmio do ano: R$ 50 milhões. Apostas podem ser feitas até amanhã, às 19h
Pedro Motta Lima


Movimento em lotéricas aumentou ontem, com o prêmio acumulado

A MegaSena está acumulada há cinco concursos e promete, para o sorteio de amanhã, o maior prêmio do ano: serão R$ 50 milhões. Este é o terceiro maior valor da história da loteria, que começou em 1996. As apostas podem ser feitas até as 19h de amanhã, uma hora antes do sorteio, a ser realizado em João Pessoa, na Paraíba. O último vencedor de um prêmio acumulado foi um apostador da Barra da Tijuca, que ganhou sozinho R$ 46,808 milhões.

A probabilidade de acertar os seis números é de uma em 50.063.860. Mas isso não desanima os cariocas, que já começaram a aumentar o movimento das lotéricas. Toda vez que acumula, eu faço a fezinha. Vou de dois jogos de R$ 1,50 cada um e repito sempre os mesmos números. Se eu ganhar, vou viajar pelo mundo, pois o mais longe que já fui do Rio foi Curitiba. E não trabalho nunca mais, disse o técnico de refrigeração Renato Gonçalves Lima, 36 anos.

O dono da loteria Simões, no Centro, Jaime Simões, disse que vai abrir amanhã pela segunda vez em sete anos. Os altos prêmios que estão sendo dados este ano nos estimularam a funcionar aos sábados. Para se ter uma idéia, quando o prêmio acumula desta forma, nosso movimento aumenta 100%, afirma o comerciante, que garantiu que fará decoração especial na lotérica para chamar a atenção do apostador.

Ganhador pode comprar o passe do craque Felipe

Se alguém ganhar sozinho o prêmio acumulado de R$ 50 milhões e resolver aplicar todo o dinheiro na caderneta de poupança que não é a aplicação mais rentável do mercado , terá renda mensal de R$ 366 mil só com o que vai ganhar com o investimento. Mas, se o sortudo resolver gastar, ele pode montar um time de futebol e contratar dois Felipes o passe do craque do Flamengo está estipulado em R$ 18 milhões e ainda sobram mais de R$ 12 milhões.

Se o ganhador gostar de veículos, ele pode se dar ao luxo de comprar os únicos 50 automóveis Ascari KZ1 que serão produzidos. Este se trata do carro mais caro já produzido na Inglaterra, que custa R$ 715 mil.

Se eu ganho um dinheiro desses, a primeira coisa que faço é sair do Brasil para não correr qualquer risco. Vou morar em Portugal e resolvo a vida dos meus cinco filhos, disse o aposentado Armando Porto, 69 anos. Tenho que distribuir o dinheiro, pois o prêmio é tão grande, que nem terei tempo de vida para gastar tudo, acredita Porto, que joga toda semana.

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Façam suas apostas

Último capítulo de Celebridade e fim do mistério sobre morte de Lineu param o Rio hoje. Policiais dão palpites, e o público faz bolão

O assunto que mobiliza hoje o Rio não vem do Palácio Guanabara nem de Brasília, mas dos estúdios de TV. Servidores, donas-de-casa, estudantes, artistas, noveleiros de carteirinha ou não, todos querem responder à pergunta: Quem matou Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana)? A TV Globo indicou ontem seis suspeitos. O capítulo final de Celebridade está previsto para ir ao ar às 20h50.

A identidade do assassino é mistério até para atores da novela, que fizeram bolão para descobrir o criminoso. As apostas também mobilizaram a cidade. Acostumados a analisar crimes na vida real, policiais, detetives e juízes entram no jogo. Nem será preciso correr para casa para acompanhar o desfecho do mistério: telões foram montados em vários pontos do Rio.

Segundo o diretor Dennis Carvalho, os diferentes finais da história serão gravados hoje. Foram convocados os óbvios Renato (Fábio Assunção), Marcos (Márcio Garcia) e Laura (Claudia Abreu), além de Beatriz (Deborah Evelyn) e Ana Paula (Ana Beatriz Nogueira). A surpresa ficou com a convocação de Corina (Nívea Maria).

Especialistas apontam os seus suspeitos

A deputada federal e ex-juíza Denise Frossard aposta em Hercília (Norma Blum): Ela se afina ao tipo de assassino que matou Lineu. Já foi empregada dele e nutria ódio muito grande. Tenente do Batalhão de Vias Especiais da PM, Alexandre Fumaux aposta no michê. Marcos é ambicioso e queria ficar com a filha do empresário, aposta. Já o inspetor Gláucio Tenório, da Corregedoria da Polícia Civil, indica Beatriz: Ela tinha raiva do pai só pela possibilidade de ser irmã da Maria Clara. E pensou em incriminar a irmã. A tresloucada personagem de Deborah Evelyn também é favorita do bolão dos atores de Celebridade.

A impulsiva Ana Paula (Ana Beatriz Nogueira) é a assassina para os inspetores Guilherme Marques e Vera Corrêa, da Corregedoria. Sabendo que a irmã poderia ser filha do Lineu, ela foi tomar satisfação e tentar conseguir dinheiro com isso, apontam. Também sobram suspeitas para Renato. É o personagem com mais indícios de frieza. Ele é calculista e muito ganancioso, diz o inspetor Carlos Vieira, também da Corregedoria. Agora, é só fazer a sua aposta.

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David Coimbra
25/06/2004


As fontes do palácio

Entrei duas vezes no belo Palácio Guanabara. Ambas por causa de Brizola. Na primeira, em 1991, para fazer uma reportagem sobre os 30 anos da Campanha da Legalidade. Tentei marcar por telefone a entrevista com o então governador do Rio. Não consegui. Puxa, como escrever a respeito da Legalidade sem falar com Brizola? Precisava da entrevista. Mas o jornal em que trabalhava na época só autorizaria a viagem com a entrevista agendada. Decidi arriscar: menti que o encontro fora acertado e fui para o Rio. Ao chegar lá, enlacei o pescoço numa gravata e toquei para o Palácio.

Brizola não aceitou me receber. Por algum motivo, receio da reação militar, talvez, ele não queria sequer mencionar a Legalidade naquele ano. Cristo, aquilo era a minha demissão e o opróbrio eterno! Continuei insistindo, consolado apenas pela beleza dos jardins do palácio com suas fontes e chafarizes, por onde passeava enquanto aguardava em agonia. Tornei-me amigo dos secretários de Brizola, que tentavam me ajudar. Em vão. O homem estava inflexível.

Foi Fernando Brito, esse mesmo jornalista que até o último dia esteve junto de Brizola, quem teve a idéia de me colocar em contato com ele durante uma cerimônia pública. Ocorre que Nelson Mandela visitava o Rio, por aqueles dias. O encontro entre Mandela e Brizola se daria no Copacabana Palace e seria fechado para a imprensa. Brito me disse que daria um jeito.

No fim da tarde, lá estava eu, ansioso, cercado de colegas aflitos para botar abaixo as portas envidraçadas do Copacabana. Postei-me bem na frente da turma. De repente, dois secretários surgiram. Puxaram-me pelo braço: entra, entra. Deixei os colegas na rua, fulos. O Brito me apresentou a ele. Disse que viera de Porto Alegre para falar sobre a Legalidade e ele... se recusou! E já se foi. Trancou-se numa sala com o Mandela. Sentei nas escadarias do Copa, com vontade de chorar. Depois, ainda houve uma coletiva. Eu esperando, sentindo-me nas vascas da morte. Na saída, corri para o Brizola, argumentei que as novas gerações não sabiam nada sobre a Legalidade e talicoisa. Brizola parou. Virou-se:

- Vamos ver mais tarde. À noite.

À meia-noite, ele concedeu a entrevista. Por telefone. Eu, na antecâmara do gabinete; ele, no gabinete. Para completar minha angústia, o Brito cassou o bloquinho com as anotações. Ia passá-las por fax ao Brizola, a fim de que ele autorizasse a publicação e só depois me mandaria, também por fax. Com um milhão de votos, depois de dois dias e duas noites de espera, eu não sairia dali sem a entrevista! Vi que o Brito, após a transcrição, atirou as folhas do bloquinho no lixo. Esperei que ele saísse da sala e resgatei-as. Voltei para o hotel comemorando. Consegui a matéria!

Treze anos depois, retornei ao Palácio Guanabara. Reencontrei Brizola. Reencontrei os lindos jardins com suas fontes. Mas não me pareceram mais tão bonitos.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Mauren Motta
25/06/2004



Fazendo carão

Cansada e badalada. É assim que a gente se sente após uma semana de São Paulo Fashion Week. Novidade é o que não falta no mundinho. Dentro e fora das passarelas a ferveção é sempre garantida. Mas o bafão fashion cansa até os mais preparados. Durante o dia, a maratona de desfiles, mais ou menos uns sete, acaba com qualquer possibilidade de saída noturna. Sim, tem muita festinha rolando na paralela. É tanta opção que fica difícil escolher.

Confesso que já fui mais animada, e que mesmo depois de um dia inteiro de trabalho ainda achava forças para a balada paulista. Desta vez foi diferente, não saí quase nada. Numa das poucas festinhas, fiquei passada e entediada com o que vi. Vocês devem imaginar como é esse planeta da moda: flashes pipocando, luzes na passarela, modelos esquálidas e algumas pessoas de plástico. O problema é que ninguém desce do salto nem mesmo na hora da diversão. Fazer carão, expressão muito usada pelos fashionistas, não tá com nada. Parece que as pessoas fazem qualquer coisa pra aparecer. Darlene é ficha perto de algumas modelos conhecidas.

A festa rola e elas continuam lá, fazendo pose para as lentes. Fico imaginando como é que elas não cansam. Deve ter um momento que dá um tédio tanta falta de conteúdo. Algumas mais desesperadas arriscam até um lesbian chic regado a champa pra atrair as lentes dos fotógrafos. Acho que na ficção fica engraçado. Na vida real é deprimente!

Na manhã seguinte estão lá, lindas e loiras na passarela do desfile das 10h. Claro que nem todo mundo é assim. Tem muita menina ultraprofi. Algumas matam o tempo lendo um bom livro. Acho que é assim que tem que ser. A carreira de modelo é curta, e a sorte como a de Gisele, única. Meninas, não me levem a mal, mas beleza é fundamental e cultura também.

mauren@rbstv.com.br

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Paulo Sant'ana
25/06/2004


Estranho desaparecimento

Ontem foi dia de São João e eu não soube notícia de sequer uma fogueira em Porto Alegre. Pode ser que tenha havido, mas o sinal é de que foram poucas.

Registro isso porque vi na televisão que em Campina Grande, Paraíba, foram acendidas cerca de 3 mil fogueiras.

Esse número, nas décadas de 40 e 50, era muito maior em Porto Alegre. Nos arrabaldes, as fogueiras eram vistas em distâncias inferiores de cem metros uma das outras.

E o foguetório era geral aqui na Capital e no Interior. A festa de São João era comemorada com intensidade entre os gaúchos. E no dia 29 de junho, São Pedro e São Paulo também eram saudados com festas quase idênticas.

Onde foram parar no Rio Grande as festas juninas, com pinhões, pipocas, doces, quentões, amendoim torrado, rapaduras, bombas, busca-pés, trique-traque, gente pulando fogueiras, gente pisando em brasas? Onde foram parar as festas de junho, com todos vestindo trajes característicos, as brincadeiras e os bailes depois de acesas as fogueiras?

E quando se sabe que os deputados federais votaram o salário mínimo anteontem e os parlamentares nordestinos correram para o aeroporto de Brasília apressadamente, com a finalidade de não perderem a festa de São João em suas cidades, que estranho desaparecimento é este dessas festas no Rio Grande do Sul?

Como é que pudemos incorrer assim de modo tão abrupto nessa ruptura cultural dos nossos costumes?

Será que são as dificuldades econômicas que nos levaram a não festejar mais os santos de junho? Não pode ser isso, o Nordeste é mais pobre do que nós e por lá as festas juninas estão cada vez mais incrementadas.

Que estranho mistério este a desafiar os sociólogos e os folcloristas.

Falar em deputados federais correndo de Brasília na quarta-feira para participar de festas juninas em outros Estados, um leitor esses dias mandou-me curiosa observação: "Se o horário oficial brasileiro é o de Brasília, por que nós não temos direito a folga no trabalho às segundas e sextas-feiras?"

A gerência do Auto Posto Campinense Ltda., de Campina das Missões (RS), solicita que seja retificado nesta coluna o preço que é cobrado pelo litro de gasolina naquela cidade.

Foi publicado aqui nesta coluna que o preço cobrado era de R$ 2,60 por litro, fato informado por e-mail de consumidor daquela cidade. A gerência afirma que o preço cobrado por ela aos consumidores de Campina das Missões, atualmente, é de R$ 2,36: "Nossa empresa poderia ter repassado ao preço antigo (R$ 2,26) o reajuste autorizado pela BR Distribuidora, conforme carta anexa datada de 16 de junho, de 6,78%. O preço então seria de R$ 2,41. No entanto estamos trabalhando desde então com o preço de R$ 2,36. Oportuno esclarecer que repassamos para os nossos clientes um aumento menor que o autorizado, ou seja, apenas 4,4247%".

As empresas Auto Posto Godoiense e Auto Posto Campinense são do mesmo proprietário, suponho que não haja outros postos na cidade, pelo que então a informação publicada nesta coluna foi incorreta.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Gente
Brizola reúne sua última multidão
São Borja sepulta o terceiro líder trabalhista

Uma era da história brasileira encerrou-se às 16h12min de ontem, quando o caixão com o corpo do ex-governador Leonel Brizola foi depositado no jazigo da família Goulart, onde foram enterrados Neusa, sua mulher, e o ex-presidente João Goulart, seu cunhado. Choro, empurra-empurra e discursos de fidelidade ao trabalhismo marcaram os momentos finais do sepultamento.



O trânsito de políticos congestionou o pequeno aeroporto de São Borja
Milhares de pessoas acompanharam a pé o féretro pelas ruas, da igreja ao cemitério onde estão sepultados Vargas e Jango (foto Charles Guerra, Agência RBS/ZH)


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Quinta-feira, Junho 24, 2004




Mamãe tá namorando!
Papai tá namorando!


Muitas vezes, nos vemos divididos entre esses diferentes amores: aos filhos e ao namorado (a). Pensemos, então, sobre o que desejamos para nossos filhos a longo prazo. Qualquer pai dirá que deseja que sejam felizes, profissionais independentes, bem sucedidos e que possam encontrar uma boa pessoa com quem compartilhar a vida.

Pelo menos conscientemente, ninguém se imagina vivendo para sempre do lado do filho numa relação de exclusividade e dependência. Mesmo que desejemos secretamente reter os filhos para nós, não podemos duvidar que o preço da realização dessa fantasia é a própria felicidade dos mesmos.

Adultos que abdicaram de sua vida particular pela dos pais tendem a ser frustrados em seus sonhos particulares. Adultos sabem o preço da interferência familiar sobre relacionamentos afetivos, como a famosa figura da sogra, mas também do sogro perfeito e inalcançável, que muitas vezes funcionam como fantasias entre o casal.

Quem nunca presenciou a paixão que os filhos pequenos sentem e as cenas de ciúmes que são capazes de criar, quando percebem que estão ameaçados por um(a) rival? Os filhos têm nos pais o alvo de seu amor infantil e é a partir desse amor que surge a possibilidade de amarem outras pessoas. Esse amor filial é infantil, mas muito poderoso, pois ainda não conhece barreiras e deixa as crianças dominadas por sua intensidade.

E para que possam se tornar adultos maduros, eles devem fazer uma escolha, abrindo mão dos pais como meta amorosa. Isso depende de abdicar da fantasia de serem a namoradinha ou o namoradinho do papai/mamãe. Um amor tão poderoso e que necessariamente precisará ser frustrado para que no futuro um adulto saudável possa amar verdadeiramente outro adulto. Muitos pais ficam penalizados ao rejeitarem tamanha demanda afetiva, sentem-se até mesmo culpados. Às vezes, abrem mão de outros filhos por medo de ciúmes.

A impossibilidade em lidar com a frustração do(s) filho(s) diz respeito a nossas lembranças dolorosíssimas da nossa paixão frustrada pelos nossos pais. Como se pudéssemos poupar nossos filhos do mesmo sofrimento ou, quem sabe, fazer com que eles nos compensem a perda. Esses sentimentos acontecem no subterrâneo dos afetos e pouco acesso temos a eles.

Podemos deduzi-las da forma como lidamos com as nossas escolhas afetivas adultas e se optamos por viver a vida dos nossos filhos ao invés de assumirmos nossa sexualidade adulta já dá para imaginar aonde a coisa ficou enganchada.

Ciúmes
Mas se os filhos já têm ciúmes da relação entre os pais, dos irmãos e dos amigos, o que dirá do novo(a) namorado(a)? Aquele que vem depois da separação dos pais? O namorado(a) pode ser o alvo perfeito de um concentrado de vários afetos decorrentes da separação. Assim, podem descarregar inclusive o ciúme que já tinham do pai/mãe naquela figura de fora, sem sentir tanta culpa.

Podem até mesmo sentir que estão traindo o pai aceitando o rival dele, ou podem fazer uma inesperada amizade com aquele que realizou seu desejo inconfesso: separar os pais, quem sabe sobre um espacinho para o filho. É, os afetos são intensos, contraditórios e difíceis de serem assumidos para nós mesmos. Que dirá para o outro?

Separação
Quando um casal se separa, o que se deve oferecer aos filhos, em primeiro lugar, é o máximo de estabilidade. O ideal é assumir uma rotina consistente e previsível, assim que for possível. A idéia é que possamos conduzir nossa vida afetiva de um jeito responsável, sem que a criança ou o adolescente seja exposto aos nossos altos e baixos afetivos e que não tenha que conhecer um novo tio/tia a cada mês.

Podemos ensinar nossos filhos a assumirem também a sua vida afetiva longe dos pais. Se os pais se sentem culpados perante os filhos, os mesmos se sentirão culpados quando chega a hora de se afastar dos pais. E essa hora começa lá na primeiríssima infância, aos 2 anos, já nos primeiros gritos de liberdade da birra, da ida a escola, deixando os pais para trás.

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Amsterdã

Marcelo Balbio

A capital da Holanda tem tradição em cartografia no DNA. Para o turista, é um alento estar cercado de mapas numa cidade com geografia labiríntica mas onde raramente tem-se a sensação de estar perdido. Errar o caminho é comum. Encontrar um restaurante fora do guia, passar por uma nova lojinha ou visitar uma galeria recém-inaugurada também.

O que não falta em Amsterdã é distração. A cidade é grandiosa pelo que esconde na geografia e estilo de 165 canais, 700 restaurantes, 40 museus, 1.200 pontes e quase 1.500 cafés e bares. São tantas fachadas a observar, pontes a cruzar e ruas a percorrer, que o ideal é seguir uma tradição dos próprios holandeses: navegar, explorar, descobrir. Na cidade mais visitada da Holanda, com 800 mil moradores e cerca de um milhão e meio de turistas por ano, a recompensa está em cada detalhe.

Assim que entra numa das principais atrações de Amsterdã, a Oude Kerk, o visitante não sabe direito se está chegando a uma igreja, a um cemitério ou a um centro de exposições. Quando constata que o lugar é um mistura de tudo isto, fica ainda mais impressionado. A igreja, construída em madeira no século XIII, foi mesmo instalada sobre dezenas de sepulturas e ganhou uma estrutura gótica no século seguinte.

Perdeu pinturas e esculturas em 1578, mas a forma em madeira, o teto dourado, os vitrais e um órgão de carvalho de 1724 estão preservados. Hoje, além do interesse despertado por sua própria história e arquitetura, atrai turistas por abrigar concertos de música e exposições. A última, encerrada no domingo, foi dedicada a fotojornalismo, a World Press Photo 2004. No próximo dia 2, começa uma retrospectiva da artista plástica alemã Rosemarie Trockel.

Livre de um incêndio que em 1452 destruiu muitas construções, especialmente as de madeira, a igreja é um símbolo da era medieval que ainda pode ser admirado em Amsterdã. Dos séculos XV e XVI, restam poucos prédios, mas do século XVII em diante muitos estão lá, em construções estreitas e compridas, com fachadas em tijolo ou arenito, jardins internos, janelas amplas e muitos adornos.

Mesmo que o turista não seja um aficionado pelo tema, a arquitetura não passa despercebida aos olhos de quem visita Amsterdã. A cidade nasceu como vila de pescadores, em torno do ano 1200, e desenvolveu-se após descobrir o comércio. Viveu momentos de grande prosperidade no período medieval e o apogeu aconteceu no século XVII. Foi a época de ouro de Amsterdã, um período marcado pela construção de belas casas em torno da cidade, desenhadas por arquitetos e pintores. No século XVIII, era a capital financeira mundial e destino de muitos imigrantes.

Depois disso, enfrentou intervalos de estagnação, com ingresso tardio na era da industrialização, e recuperou prestígio ao fortalecer a economia nos anos seguintes. Um pouquinho de todas estas etapas históricas pode ser visto ao longo dos bairros de Amsterdã, refletidos em construções residências, igrejas, palácios, monumentos públicos que marcaram época e alimentam o interesse pelo país e sua tradição.

O governo e o departamento de turismo local decidiram tirar proveito desta herança e elegeram 2004 como o ano de homenagem à arquitetura e ao design. Como parte do programa Amsterdam Architecture + design 2004, estão sendo sugeridos passeios a pé e visitas ao interior de pontos que se destacam pelo valor de suas construções, tenham elas linhas clássicas de 300 anos ou formas arrojadas e materiais modernos do século XXI.

Foi montado um site especialmente dedicado ao assunto em <www.amsterdamarchi tecture.nl>, para orientar o turista e ajudá-lo a traçar um roteiro. Na página na internet, são listadas construções de inegável valor arquitetônico, com breve descrição de sua história, fotos e localização.

Estão lá destinos turísticos clássicos como o Museu Van Gogh e o Lloyd Hotel, mas como o objetivo não é olhar apenas para o passado, há exemplos de edifícios moderníssimos que hoje compõem a paisagem da cidade, como o novo prédio do Arcam (Centro de Arquitetura de Amsterdã), o centro de ciências Nemo e as casas erguidas em IJburg, uma nova área residencial em franco crescimento na região leste da cidade. Além de edifícios, o site recomenda visitas a parques, pontes, estátuas e outros monumentos. Afinal, o que não falta em Amsterdã é história.

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Trem da moda

Fashion Rio, que começa amanhã, transforma cidade em plataforma das tendências de verão
Texto Flávia Motta e Fotos Marcelo Regua


Maiô frente-única Lenny

Piuííí! É o trem da moda chegando à nova estação. A partir de amanhã, quando começa o Fashion Rio, a cidade vira plataforma para o lançamento das tendências de primavera e verão. Cariocas, paulistas, mineiros, capixabas, baianos e catarinenses vão mostrar, em 30 desfiles no Museu de Arte Moderna (MAM), o que criaram para a temporada. Nas fotos, alguns dos looks que vão estar nas passarelas.


Bata de renda romântica com calça Cavendish

O clima primaveril fica por conta dos painéis do artista plástico Paulo Von Poser, inspirados em rosas. Mas as flores do Jardim Botânico também emprestam seu frescor: é lá que a Maria Bonita abre o evento, amanhã. Não só os deuses da passarela compõem o cenário por onde passarão 35 grifes. O MAM abrigará, até quarta-feira, 224 expositores do Fashion Business; 38 designers expondo tesouros no Jóia Brasil, e o Rio Moda Hype, que, pela primeira vez, mostra novíssimos criadores.


Estampa floral no vestido com sutiã Colcci


Calça corsário com regata Maria Fernanda Lucena

Grifes
MARIA BONITA * COLCCI * ST. EPHIGÊNIA * PATRICIA VIEIRA * MÁRCIA GANEM * SALINAS * WALTER RODRIGUES * GRAÇA OTTONI * M VS. M * MARA MAC * TESSUTI * BLUE MAN * TNG * COVEN * VICTOR DZENK * CAVENDISH * VIRZI * LENNY * SANDPIPER * PERMANENTE * DROSÓFILA * LEI BÁSICA * MARIA BONITA EXTRA * COMPLEXO B * TOTEM * WENDELL BRAULIO * O ESTÚDIO * LENA SANTANA * MARIA FERNANDA LUCENA * ZIGFREDA * MIQUELINA * CARMELITAS * À COLECIONADORA * FRANKIE AMAURY * RYGY

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FLAMENGO
Viva os laterais

Flamengo só precisa de um empate (0 a 0 ou 1 a 1) no jogo de volta para faturar bi da Copa do Brasil. Roger e Athirson, os heróis da noite
Janir Júnior

SÃO PAULO - O Flamengo deu um importante passo para conquistar o bi da Copa do Brasil e, como prêmio, ganhar uma vaga na Libertadores. Ontem à noite, empatou em 2 a 2 com o Santo André, no Parque Antártica, na primeira partida decisiva. Os laterais Roger e Athirson foram os heróis do jogo. Um empate em 0 a 0 ou 1 a 1, quarta-feira, no Maracanã, dá o título ao Rubro-Negro. Caso se repita o placar de 2 a 2, a disputa vai para os pênaltis. Empate acima de três gols dá o título ao Santo André.

Com Felipe comandando o meio-campo, o Flamengo suportou bem a pressão inicial do Santo André. Jean foi o primeiro a levar perigo ao gol adversário, num chute forte, por cima do travessão. Em seguida, foi a vez de Negreiros chutar rasteiro com a bola passando rente à trave.

Aos 17 minutos, novamente Jean fez estrago na defesa paulista e bateu forte. O goleiro do Santo André soltou a bola, mas Douglas Silva chegou atrasado na jogada.

Pressionando e melhor em campo, o time carioca fez o gol aos 26 minutos, numa cobrança de falta ensaiada pela esquerda. Douglas Silva tocou para Íbson cruzar na medida para o lateral Roger abrir o placar.

Depois do gol, a equipe carioca recuou, passando a aceitar a pressão do Santo André, que teve a melhor oportunidade de empate numa bomba de Osmar, que raspou a trave, com Júlio César batido na jogada.

No intervalo, Da Silva, que levou uma cotovelada de Alex, no rosto, foi substituído por Róbson. Logo aos 6min, a zaga do Fla falhou. Romerito entrou sem marcação e cruzou na cabeça de Osmar, que empatou.

Cinco minutos depois, Felipe e Jean poderiam ter desempatado, mas Júlio César, do Santo André, fez duas ótimas defesas. Mas quem fez o segundo foi o time da casa. Novamente os zagueiros bateram cabeça e Romerito fez 2 a 1, aos 14min.

Desorientado e com Felipe caindo de rendimento, o Flamengo perdeu o comando do meio-campo e, confuso, passou a ser totalmente dominado. O Santo André criou chances de ampliar. Numa delas, Sandro Gaúcho soltou uma bomba que, para sorte do Júlio César, foi para fora. Depois, Reginaldo Araújo perdeu a chance de igualar a partida, chutando para o alto, debaixo da trave. Aos 38 minutos, Athirson, que entrou no lugar de Roger, cobrou falta com perfeição, empatando o jogo.

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Nilson Souza
24/06/2004


Dez coisas

Um jornal resolveu perguntar a algumas personalidades da vida nacional quais as 10 coisas que gostariam de fazer antes de morrer. Perguntinha pra lá de incômoda, reconheçamos, mas que suscitou respostas criativas e também reveladoras daquele medinho secreto que todos temos, por mais que procuremos disfarçar.

Tá bem, toc-toc-toc, mas o assunto é tentador. Em primeiro lugar, me faz lembrar aquela anedota dos três sujeitos questionados sobre o que gostariam de ouvir dos amigos no próprio velório. Um disse que lhe bastava ouvir que tinha sido um homem honesto. O outro preferia ser lembrado como bom pai de família. E o terceiro, gaiato, disse que ficaria muito feliz se ouvisse a seguinte frase:

- Olhem, ele tá se mexendo!

Pois a minha lista das 10 derradeiras vontades começa com movimento: ainda vou correr uma maratona. Isso mesmo, quero percorrer os 42.195 metros no mesmo trote que uso para subir três vezes por semana a lomba do Espírito Santo, que é onde pratico minha atividade física matinal. Também quero aprender a tocar flauta doce. Mal sei assobiar, mas espero que o exercício diário me garanta fôlego suficiente para realizar este segundo desejo.

Escrever um livro para crianças está nos meus planos desde que eu era criança. Antes - ou depois, não importa -, quero encontrar um tempo livre para contribuir na alfabetização de adultos que não tiveram a oportunidade de encontrar na infância o livro que ainda não escrevi. A propósito de escrever, lembrei-me agora que também tenho uma pretensão artística: fazer uma letra de música. Te cuida, Chico Buarque!

Já gastei metade da minha cota de desejos e ainda não relatei o principal. É evidente que não vou atravessar o rio de Caronte sem antes dizer a todas as pessoas que amo o quanto as amo. Como é muita gente e eu sou tímido, vai levar um tempão. (Olha o medinho aí!)

Vou tirar a barba. Venho prometendo isso há mais de 20 anos, mas sempre me falta coragem. Quem sabe, se o fizer agora, a Dama da Noite não leva outro barbudo por engano? Mais: não posso ir a lugar algum sem antes ler todos os livros empilhados na minha mesa de cabeceira, que já formam verdadeiras torres inclinadas a me ameaçar o sono. Falando nisso, um nono desejo, se me permitem revelá-lo, é voltar a dormir o sono da inocência.

Por fim, quero que meus amigos digam enquanto posso ouvi-los:

- Olhem, ele tá feliz!

nilson.souza@zerohora.com.br

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Leticia Wierzchowski
24/06/2004


Tudo ou nunca mais

Assisti a Cazuza - O Tempo não Pára numa noite dessas e experimentei certa vontade de tomar um porre e fazer umas loucuras. Mas acontece que eu saí do escuro do cinema foi chorando mesmo, com saudade do Cazuza e de tudo de genial que ele fez na vida. Cazuza vertia pérolas mesmo chapado, bêbado e louco (ou quem sabe, também por isso). Era doido, doido de dar nó, mas era também um menininho muito lindo que a gente sentia vontade de pegar no colo e perdoar suas loucuras todas. Mas quem disse que os gênios são certinhos?

Não há muito o que falar sobre o filme: é bom. Foi justo com uma das figuras mais geniais da música brasileira dos últimos tempos. E aquele ator, o Daniel de Oliveira, cazuzou pra ninguém botar defeito. A semelhança física entre os dois é impressionante; nas primeiras cenas, ainda surge um Cazuza titubeante, meio assim, flanando, mas depois de cinco minutos de filme, o santo (ou seria a pomba-gira?) baixa no Daniel, e a gente fica ali, grudadinho na poltrona, impressionado.

Não há muito o que falar sobre o Cazuza: ele era genial; compôs alguns dos versos mais bonitos que eu conheço, e sem pretensão, sem salto alto, sem dor. Esse negócio de transar a dor não era com ele, a única dor que ele achava justa era a dor de amor que vinha em algumas das suas melhores músicas, como em Bilhetinho Azul. Cazuza viveu meteoricamente, comeu todo mundo, bebeu, cheirou, fez um monte de gente cantar, exagerou muito e muito, perdeu-se no coração de alguns meninos, pra depois - tão rápido para todos nós - encontrar a sua morte de luz.

Como no lindo poema de Lorca que Daniel de Oliveira recita no filme para um dos seus namorados, Cazuza consumiu-se nesta morte luminosa, na morte que começou em alguma hora incerta da sua vida, e terminou num banho de mar no colo do enfermeiro - foi desse banho que veio a pneumonia que acabou de matá-lo. No filme, quando se descobre soropositivo, Cazuza tem um acesso de raiva e de pavor e conta ao amigo Ezequiel Neves que foi "tocado pela Aids".

Cazuza foi tocado por muitas coisas, algumas lindas, outras nem tanto. Aí, um dia, morreu, pequenino como o menininho que ele era lá no fundo... E nós, ah, nós ficamos órfãos. Cazuza queria transformar o tédio numa coisa maior, e não deu pra ninguém. Terminou como no tal poema de Lorca, perdido pelo mar, "o ouvido cheio de flores recém-cortadas, a língua cheia de amor e de agonia".

leticia.wierz@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
24/06/2004


Sem aspas, desta vez

Foi a primeira morte sem aspas do Brizola. Sua "morte" em sentido figurado foi anunciada várias vezes. Quando comecei a publicar matéria assinada em jornal, em 1969, não havia instruções claras sobre o que se podia e não se podia escrever - pelo menos não em Porto Alegre. Alguns assuntos eram obviamente desaconselhados, para usar um termo brando: críticas ao governo militar e a militares brasileiros em geral, qualquer referência aos rumores de tortura e assassinato de presos políticos e opositores do regime, notícias de guerrilhas. Você podia recorrer à alusão velada, a entrelinhas e a indiretas que passavam ou não passavam pela autocensura do jornal, e assim ir testando os limites do permitido.

Às vezes "passar" ou não "passar" dependia apenas de um retoque no texto, outras vezes tudo era desaconselhado e você tinha que escrever outra crônica, de preferência sobre o sexo de anjos apolíticos. Era conveniente ter sempre um texto de reserva, um que não se prestasse a nenhuma interpretação dúbia. Por isso escrevia-se muito sobre futebol, e mesmo assim cuidando para não enfatizar demais as jogadas pela esquerda. Um assunto ideal seria um torneio de futebol entre anjos sem sexo e destros.

Só uma vez recebi uma proibição direta, com nome e sobrenome. Na verdade, dois nomes e sobrenomes. Tinha mencionado o Brizola numa crônica - nem a favor nem contra, era só uma reminiscência - e o editor me chamou para dizer que a crônica não poderia sair e que eu não fizesse mais aquilo. Era proibido tocar no nome de Leonel Brizola no jornal. "Faz de conta que o Brizola morreu", me disse. E, quando eu ia saindo do seu gabinete, acrescentou: "Ah, e o Helder Câmara também".

Acho que deixaram o dom Helder ressuscitar antes do Brizola, que continuou "morto" para a imprensa brasileira até começar a famosa abertura lenta e gradual do general Geisel. E quando voltou ao Brasil depois da anistia, vivíssimo, Brizola foi recebido por uma multidão que resistira aos anos de silêncio forçado e inútil sem esquecê-lo.

Seguiram-se anos de triunfos e de mais algumas mortes entre aspas. Depois daquela eleição presidencial em que ele chegou atrás do Enéas, fiz uma charge para o Jornal do Brasil que era assim: uma multidão em torno da sepultura do Brizola recém-enterrado, e no meio da multidão, sorrindo, o próprio Brizola. Se sua vida e sua carreira ensinavam alguma coisa, era que qualquer notícia da sua morte política seria prematura.

Sua última morte não foi em sentido figurado. Foi sem aspas, desta vez. Mas, sei não. Talvez seja prudente deixar uma cuia com mate quente perto da sepultura, por via das dúvidas.

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Paulo Sant'ana
24/06/2004


O jeito gaúcho de ser

Interessante é que, quando morrem os grandes homens, nós vemos reacendido o nosso amor pela pátria.

Quando morreu Tancredo Neves, sentimos um fervor cívico, passamos a nos orgulhar de sermos brasileiros.

Agora, quando morreu Leonel Brizola, parece que fomos chamados à realidade de sermos gaúchos e amar o nosso torrão.

Uma emoção febril percorreu todos os corações gaúchos quando o esquife de Leonel Brizola penetrou no recinto do Palácio Piratini.

Interessante é que a reação imediata dos presentes foi a de lembrar que somos gaúchos, quando todos passaram a cantar a Querência Amada, de Teixeirinha, puxada magistralmente por alguns dos nossos maiores intérpretes, capitaneados pela gaita do Luiz Carlos Borges.

Foi o instante supremo das exéquias, o Taura repousando no caixão e a multidão que foi recebê-lo entoando um dos seus hinos: "Quem quiser saber quem eu sou/ Olha para o céu azul/ E grita junto comigo/ Viva o Rio Grande do Sul".

Quando olhei para o Bagre Fagundes, no coro puxador, com os olhos banhados de lágrimas, também me deitei a chorar.

É que o Brizola antes de tudo sintetizava um tipo gaúcho: intrépido, falante, resistente, bonachão.

E entre nós, gaúchos, até a minoria que discordava dele se identificava com ele.

Essas lágrimas que os gaúchos derramam há dois dias e vão continuar derramando até que o Taura baixe à sepultura vêm de um impulso que é característico do ser humano: mas afinal quem eu sou, de onde venho, para onde vou?

E, quando um sujeito como o Brizola morre, cada um de nós descobre quem é: nós somos gaúchos.

E nós então nos apercebemos dos nossos deveres de gaúchos: temos que ser bons, temos que ser hospitaleiros, temos que ser solidários e temos que ser bravos e audaciosos.

Porque o dicionário Aurélio diz que "gaucharia" tem o seguinte significado: ação nobre e corajosa, própria dos gaúchos.

Então a morte de Leonel Brizola inspira-nos o seguinte sentimento: morreu um dos nossos e cabe a nós continuar sendo quem nós somos, porque este Taura que está se despedindo de nós foi digno de nós e do torrão em que nascemos.

Quando o Papa visitou Porto Alegre, vindo lá de longe, da Polônia e da Itália, nas poucas horas em que esteve aqui, percebeu logo uma coisa: nós éramos um povo não melhor nem pior que os outros povos, mas éramos um povo diferenciado.

Por isso é que o Papa pronunciou aqui em Porto Alegre várias vezes a frase: "Eu sou gaúcho".

Até ao Papa não escapou que nós somos especiais. Especiais de primeira.

Deus é gaúcho
De espora e mango
Foi maragato
Ou foi chimango
Querência amada
Meu céu de anil
Este Rio Grande é gigante
Mais uma estrela brilhante
Na bandeira do Brasil

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Gente
Brizola volta para casa



Com honras fúnebres, o caixão com o corpo de Leonel Brizola ingressa no Palácio Piratini, de onde o ex-governador gaúcho comandou a Legalidade em 1961 (foto Ronaldo Bernardi/ZH)


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Quarta-feira, Junho 23, 2004




A casa digital já é uma realidade

Tecnologias inovadoras transformam o futuro PC no tudo-em-um
Paulo Couto



Olhando para o futuro, notamos que o PC tende a ser cada vez mais um concentrador de informações digitais, sejam elas fotos, filmes, músicas, jogos e até aplicações tradicionais, como o processador de texto e a planilha eletrônica. Os arquivos gerados a partir da digitalização crescente de som e imagem tornam-se maiores a cada dia, precisando ser movimentados dentro do PC com mais velocidade, ultrapassando os limites tecnológicos atuais para intercomunicação dos componentes internos dos microcomputadores.

Mas como a Intel e a AMD estão se posicionando para enfrentar o desafio da digitalização dos eletrodomésticos e seus conteúdos? A TV, o DVD, o CD, as câmeras fotográficas e de vídeo, os games... todos integrados e trocando informações entre si e com o PC, automaticamente. As tecnologias que estão lançando ajudarão as pessoas a usufruir melhor de músicas, fotos, vídeos, games e aplicações?

Dois lançamentos, duas tecnologias, rumos opostos

As duas lançaram novos produtos esse mês. Porém, ao contrário de outras épocas, agora há duas apostas totalmente diferentes e que vão influenciar muito a decisão de compra dos consumidores.

A Intel assumiu a liderança desse movimento de transição de tecnologias. A tecnologia introduzida pelo novo lançamento da Intel prevê o suporte para esse aumento de tráfego interno e o uso simultâneo dos canais de comunicação aproveitando as características do HyperThreading do Pentium 4. Fora isso, estão sendo introduzidos sistemas de áudio de alta definição e múltiplas saídas, sistemas de vídeo onboard com suporte a DirectX 9 e Pixel Shader 2.0, além de melhorias significativas no acesso à discos Serial ATA e implementações de redes domésticas sem fio (wireless).

Com o uso combinado dessas tecnologias é possível, por exemplo, ouvir duas músicas diferentes em dois ambientes distintos, cada um usando metade das 8 saídas de áudio, e com o auxilio de um DMA (Direct Media Adapter, veremos mais sobre isso em outra oportunidade) e da rede wireless doméstica será possível assistir um filme DivX na sala de estar enquanto alguém está jogando no PC, sem que haja um comprometimento no desempenho de ambas as aplicações. É o que a Intel chama de Digital Home, e para implementar esse novo conceito, uma nova plataforma se faz necessária.

A chave disso tudo é o multiprocessamento, e essa é a razão da Intel ter investido tanto no HyperThreading, recurso que emula dois processadores virtuais, e ter apostado tanto nas instruções otimizadas (SSE3) para realização de tarefas de áudio e vídeo com aceleração no hardware. Mas nem tudo são flores, os processadores da Intel estão sofrendo com o alto consumo de energia e com a grande dissipação térmica, durante todo nosso teste o processador ficou entre 70° a 75° graus de temperatura, e consideramos isso muito alto. Novas soluções térmicas estão a caminho, e vão requerer mudanças nos formatos dos gabinetes, passando a adotar o padrão BTX, sucessor do ATX.

O Athlon64, por sua vez, oferece muita performance bruta, mas ainda não oferece multiprocessamento com a atual tecnologia. Em outras palavras, se você estiver jogando, todo o PC estará concentrado nessa atividade, e se você iniciar um processo de decodificação de DVD, que pode levar até 3 horas dependendo do filme, terá que esperar todo o processo terminar antes de ler seu e-mail, ouvir uma música ou navegar pela Internet. Mas não tenha dúvidas, se o assunto for performance pura dentro do modelo de uso atual, a plataforma da AMD está na liderança, embora o custo tenha subido exageradamente, na nossa opinião.

A AMD já deu declarações que adotará o DDR2 quando esse se justificar em termos de preço e performance, bem como o PCI Express quando esse se tornar mais popular. Como sempre, os custos iniciais estão nas alturas, e surpreendentemente os novos modelos Athlon64 estão caríssimos apesar de não oferecerem nada de novo além do natural incremento de freqüência. Vamos aguardar pelo Sempron e pelo novo Celeron D, os processadores populares de ambas as marcas, antes de fazer uma recomendação.

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Bancário: campanha coletiva

Fenaban aceita pela primeira vez que acordo salarial valerá para bancos públicos e privados
Ana Maria Pessôa

A campanha salarial dos bancários já trouxe avanços. Pela primeira vez, a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) aceitou a participação dos funcionários de bancos estatais e garantiu que o acordo vai valer para todos. Além disso, na primeira rodada de negociações, a federação avisou que o acordo vai sair rapidamente, antes de 1º de setembro, data-base da categoria.

Os bancários reivindicam aumento de 25% dos salários e de todos os benefícios, sendo 6,22% de reposição da inflação e 17,68% de aumento real. O setor que tem o maior lucro da economia já tem obrigação de repor a inflação. Queremos aumento real, diz Vagner Freitas, presidente da Confederação Nacional dos Bancários (CNB). Outro ponto importante da campanha são as cláusulas de segurança, que exigem apoio psicológico e estabilidade no emprego para bancários vítimas de seqüestro ou extorsão.

Para a CNB, já surgiu a primeira divergência na negociação. Os banqueiros se recusam a assinar um pré-acordo que garante aos trabalhadores, durante as negociações, as cláusulas do acordo do ano passado.

Os bancários, que são 400 mil no País, pedem ainda aumento do piso para R$ 1.421, redução da jornada para cinco horas diárias, participação nos lucros e resultados mais justa, ampliação do horário de atendimento ao público e dois turnos de trabalho. A próxima negociação está marcada para o dia 6.

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Segredos da decisão

Abel desconversa e diz que não conta com Felipe, que sente lesão muscular. Mas craque rubro-negro garante que vai jogar
Mauro Leão

O técnico Abel Braga tentou criar mistério em torno da escalação do apoiador Felipe, colocando em dúvida a presença do jogador na partida de hoje, contra o Santo André, às 21h45, no Parque Antártica, no primeiro confronto da final da Copa do Brasil. O treinador, porém, se esqueceu de combinar a trama com o maestro rubro-negro.

Poupado do coletivo de ontem na Gávea, Felipe garantiu que enfrentará o Santo André. Bati um pênalti no treino de segunda-feira e senti uma fisgada na coxa. Optei por ser poupado para guardar energia, tranqüilizou o apoiador.

Se para o jogador sua escalação é certa, para o técnico Abel Braga o craque estava praticamente descartado. Tanto que, no treino coletivo, ele escalou Athirson no meio campo e fez discurso, pregando que o time precisa se acostumar a jogar sem o talento de Felipe. Se ele não puder jogar, vou fazer o que? Dar um tiro na minha cabeça, apelou Abel.

Zinho é o único desfalque confirmado

O treinador lembrou também que, em julho, o ídolo rubro-negro vai disputar a Copa América no Peru, com a seleção brasileira e o Flamengo ficará sem ele. Novamente eu pergunto: o que farei? Mandarei cancelar as partidas do meu time? Nada disso. Tenho é que acreditar e apostar no jogador que for substituí-lo, assegurou Abel Braga.

Com a confirmação de que Felipe jogará, o único desfalque na equipe será o apoiador Zinho. O jogador não conseguiu se recuperar da lesão no tornozelo esquerdo.

Reafirmando o respeito pelo Santo André, Abel admitiu que o empate na primeira partida será um bom resultado. Desde o início da competição, soubemos jogar pelo regulamento, garantindo a classificação no Rio. Temos que marcar gol na casa do inimigo. Isso eu não abro mão, determinou o técnico, recordando que gol em território adversário vale em dobro.

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Martha Medeiros
23/06/2004


Dinheiro e afeto

Fiquei espantada com as recentes reportagens sobre pais que foram a julgamento por não dar afeto e carinho aos filhos e que foram considerados culpados e condenados a pagar indenizações em espécie. Não levaram ao parque, não fizeram cafuné, não contaram história antes de dormir? Duzentos salários mínimos, cash.

Pois agora afeto tem preço. Se o pai - ou a mãe, já que imagino que elas também estejam na mira dos advogados - não estiver suficientemente presente na criação dos filhos, vai pagar caro. O dinheiro servirá para cobrir as despesas de terapia, calculo. Ou será que servirão para comprar games e lanches no McDonald's? O que pode compensar a falta de um pai ou de uma mãe?

Desafeto familiar não é coisa rara. E o pai ou a mãe nem precisa morar longe: mesmo por perto, muitos deles não estreitam laços, não são companheiros, cumprem apenas rituais burocráticos (telefonam no aniversário e mandam um presente no Natal). Surgiram dois casos nos jornais nas últimas semanas. Há milhares.

O pagamento de indenização está sendo considerado um avanço da Justiça. Eu considero uma intervenção excessiva, travestida de ação moralizante. Ainda surpreendida pela novidade, penso que:

a) O ideal é receber atenção de ambas as partes, mas ter o amor de uma mãe pode compensar a ausência do amor do pai e vice-versa. São inúmeras as crianças que vivem só com um deles, por motivos os mais diversos, e tornam-se adultos igualmente estruturados.

b) Dinheiro serve para pagar leite, aluguel, material escolar, remédio. Não paga pelas mágoas, não haveria quantia que chegasse. Portanto, essas indenizações não resolvem nada, não preenchem vazio algum, são apenas um gesto de vingança.

c) Se não for vingança, então é uma tentativa de acabar com a impunidade de homens e mulheres que foram tratar de suas vidas sem olhar para trás. A intenção é fazer com que pais e mães que não se sentem afetivamente ligados aos filhos comecem a comparecer de vez em quando sob pena de sofrer no bolso. Amar sob pressão: pode-se considerar isso um avanço?

Não sei se esta é a melhor maneira de conscientizar certos adultos sobre a importância de se proteger o lado emocional das crianças. Não sei se ameaçá-los com um processo é um recurso justificável para obrigá-los ao hábito da convivência. A única coisa que sei é que estão tentando comprovar a veracidade daquele ditado popular que diz que dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
23/06/2004


A americana de biquíni

Passei vinte e tantos dias em Ulsan, na Copa de 2002. Sei o que é aquilo. O repórter Mauro Leão, enviado de uma rádio carioca, criou uma assinatura especial a fim de mandar seus boletins, enquanto esteve lá:

- De Ulsan, a pior cidade do mundo, falou o repórter Mauro Leão.

Às vezes ele variava:

- De Ulsan, a cidade que é mais deprimente do que enterro de pobre em dia de chuva, falou o repórter Mauro Leão.

Não achei o lugar assim tão ruim, ruim, ruim. Achei apenas ruim. Ulsan é uma cidade portuária, pouco menor do que Porto Alegre, mezzo cinzenta, mezzo triste. Lá as pessoas trabalham, ponto. Não há prédios com arquitetura singular ou belezas naturais que arranquem um ó do turista que desditosamente desembarque em Ulsan. Nas praias, ninguém toma banho de mar ou vai jogar futebol ou beber caipirinha. Um dia, durante a Copa, uma americana resolveu vestir seu biquíni e lagartear na areia. Nossa! Foi uma comoção. As mulheres têm medo de sol, na Coréia, ninguém se pela, por lá. A americana de biquíni virou atração turística.

Aliás, se a mulher ulsaniana (ou ulsanense, sei lá) é bela, isso não consegui descobrir. As mulheres bonitas, caso existam em Ulsan, sumiram quando estávamos por lá. Alguém deve ter falado muito mal de nós.

Por isso, prevejo que o Christian não marcará um único gol, se for de fato jogar na Coréia. Os centroavantes, todos eles, são como as mulheres e os bichinhos - são muito influenciados pela Natureza. Movimentações hormonais, modificações no meio ambiente, tudo isso mexe com o estado de espírito de bichinhos, mulheres e centroavantes. Do Christian, então, mais ainda. O Christian é tal qual aquele centroavante de quem sempre falo, Laerte, o Urso, que era um centroavante perfeito, mas só se jogasse num clube da sua terra, Criciúma. Christian é assim. Christian precisa de carinho. Não sei quanto dinheiro será necessário para que ele funcione na frialdade da Coréia. Não sei se dinheiro tem esse poder.

Ardências
Um capítulo ardente das agruras dos brasileiros em Ulsan foi a comida. Os hábitos alimentares deles são muuuito diferentes. Lá, até o Mac Donalds é apimentado. Uma vez provei o prato típico deles, um troço parecido com nabo, de aspecto inofensivo, mas que, em contato com a língua, faz o ocidental ter certeza de estar mastigando uma fatia do inferno. Jesus Cristo, aquilo dói.

Eles comem umas coisas peculiares, das quais não sei mais o nome. Num restaurante próximo ao nosso hotel, conseguimos convencer a dona a preparar uma salada no estilo ocidental. Aquela história: tomate, alface, cebola. Eles acharam tão estranho que chamavam os amigos para nos ver comendo. A verdura, quem diria, fez com que chamássemos a atenção, na Coréia, tanto quanto se fôssemos uma americana de biquíni, que coisa.

Troco
Os coreanos ofereceram US$ 300 mil ao Grêmio por Christian. Um troquinho. Foi nisso que a malfadada Lei Pelé transformou os clubes brasileiros, em varzeanos mendicantes. O curioso dessa lei é que mesmo quem a defende não a defende: limita-se a falar mal do passado. Gostaria que alguém me dissesse para quem foi boa essa lei. Os jogadores estão ganhando cerca de 500% a menos do que ganhavam, os clubes do Interior estão prestes a fechar, os clubes grandes se transformaram em pequenos. Quem ganhou, exceto empresários e clubes estrangeiros?

Parto
Não bastasse a Lei Pelé, os homens da CBF decidiram se superar. Pensaram: como vamos organizar um campeonato mais chato do que um simpósio, do que fazer relatório, do que música daquele soprador de corneta, o Kenny G? Difícil, sei. Mas eles conseguiram. Fizeram um campeonato ideal para o futebol islandês. Precisamos aproveitar: estamos vivendo um momento histórico. O mais enfadonho campeonato da história do futebol brasileiro, disputado pelos piores times. Por Deus, até a fórmula do Gauchão é melhor do que esse parto que se estende por 46 rodadas.

O amor, o amor
Estávamos ali, jogando o joguinho, e nosso time ganhava fácil, fácil. Eu atrás, na frente da área, zagueirão. Aí me distraio, estou olhando meio para o lado e talicoisa, de repente ouço o grito do goleiro Chico:

- David, a bola!

Pô, me assustei. A bola vinha mesmo. Dei um chutão, ela voou para o outro lado, limpei o suor da testa, fiz ufa. O Chico:

- Ei, cara, em que é que tu estava pensando?

Olhei grave para ele:

- No amor, Chico.

O Chico arregalou os olhos. Balançou a cabeça em concordância. Os goleiros bem sabem que os zagueiros também amam.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
23/06/2004


Lamentável incidente

Desagradável sob todos os aspectos o incidente entre os freqüentadores do velório de Leonel Brizola e o presidente Lula no Palácio Guanabara, ontem.

Visivelmente, Lula hesitou muito antes de decidir comparecer ao velório de Brizola.

Com certeza foi advertido de que poderia ser vaiado pelos pedetistas, em face das últimas divergências entre Brizola e seu governo, manifestada nos artigos que Brizola vinha publicando desde o início do governo Lula.

Mas, como esta coluna certa vez afirmou, Lula não teme vaias e achou que era de seu dever se despedir pessoalmente de Brizola nas cerimônias fúnebres.

Só que Lula foi obrigado a permanecer no recinto do velório por pouco mais de dois minutos, não era só vaia o que se preparava para ele naquele paiol: se ficasse por tempo maior, seria agredido fisicamente pela multidão, o que restaria como um episódio lamentável, equivalente a que a segurança do presidente ou do velório dispersasse com violência seus agressores.

Lula deve ontem ter aprendido uma lição: um presidente da República não pode arriscar-se a comparecer a determinados atos públicos em que possa ser ameaçada sua incolumidade física, qualquer atentado contra o presidente se constitui em crise institucional.

A multidão que atacou Lula ontem é irresponsável, pelo menos nenhum dirigente político a instigou ou dela tomou parte.

De outra vez Lula deverá dar ouvidos aos que o aconselharam a não comparecer ao velório. O estilo aberto e encorajado de Lula em oferecer-se às multidões deve ter tido sério e definitivo fim com a decepção que amargou ontem.

Se alguém tem ainda alguma dúvida sobre a justeza ou a justiça do preço que o povo brasileiro paga por um litro de gasolina, irá eliminá-la completamente depois que tiver conhecimento do que pagam os norte-americanos pela mesma quantidade do mesmo produto.

A leitora Rosane Scherer, brasileira, residente em Long Island (EUA), manda dizer a este colunista que o preço da gasolina lá é cobrado em US$ 2,21 por galão. E o galão norte-americano tem 3,78 litros.

Ou seja, tendo a leitora se baseado, lá nos EUA, no preço que é cobrado pelo produto em Campina das Missões (RS), que é de R$ 2,60, segundo esta coluna divulgou na semana passada, conclui que nós, brasileiros, estamos pagando US$ 3,09 por um galão de gasolina.

Diz a leitora: "É só fazer a conta e verificar que nós estamos pagando aqui nos EUA menos, em dólar, do que os brasileiros pela gasolina. E é muito bom frisar que o salário mínimo aqui é de US$ 800, enquanto no Brasil fica em US$ 80".

Eu não sei se os leitores têm noção de que este cálculo aí de cima é revelador do grande drama brasileiro da atualidade: torna-se insuportável para nós que ganhemos 10 vezes menos que os norte-americanos e paguemos 40% a mais que eles, em dólar, por um litro de gasolina.

Essa descarnadura inclemente que o nosso sistema econômico impõe aos orçamentos individuais do povo brasileiro e a nossas empresas resulta obrigatoriamente nesse desolador quadro de desemprego e marginalização social que nos domina.

Pagando 10 vezes menos do que nós pela gasolina, em dólar, não surpreende que os EUA sejam a maior potência da Terra (se ganham 10 vezes mais os americanos do que nós, brasileiros, a gasolina nos custa no mínimo 1.000% mais cara do que lá).

E nós pagando 10 vezes mais pela gasolina, só podemos afundar mesmo nestas atribulações que nos infernizam.

E tocam os governos a taxar cada vez mais com todos os tipos de impostos os nossos combustíveis!

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Oriente Médio
Desespero na Coréia



Familiares de Kim Sun-il, o terceiro refém decapitado por extremistas em 40 dias, choram ao receber a notícia de sua morte no Iraque (foto Cho Jung-ho, AP/ZH)


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Terça-feira, Junho 22, 2004




Sara, a força de Abrahão

Sara , de Marek Halter. Tradução de Herculano Villas Boas. Editora Nova Fronteira, 272 páginas. R$ 32
Amelia Gonzalez

pouco dizer que Sara revela mais uma importante personagem feminina que a História dos homens relegou. Em seu romance, Marek Halter também denuncia, como é de hábito no escritor polonês, o aviltamento aos direitos humanos que caracteriza nossa civilização. Resultado de uma minuciosa investigação, o primeiro livro da série que a Nova Fronteira está lançando sobre as heroínas da Bíblia, conta ainda, através de Sara, a saga do homem escolhido por Deus para comunicar seus desígnios aos mortais.

Abrahão, o grande amor de Sara, por quem ela lutou toda a sua vida, foi quem primeiro falou de um Deus único a um povo politeísta. Mas o forte do romance é mostrar como as mulheres eram tratadas nos tempos em que os povos ainda viviam em tendas.

É assim a vida das mulheres. Os homens nos dão, nos tomam. Matam-se entre si, outros decidem o que viremos a ser. A fala, posta por Marek na boca de Agar, a serva de Sara que se deitou com Abrahão a mando de sua senhora para dar-lhe o herdeiro que ela não podia dar, resume a condição feminina naquela época.

E foi neste severo contexto social que Sara, menina nascida em Ur, filha de um rico mercador, com apenas 12 anos conseguiu fugir de um casamento imposto pelo pai por não aceitar unir-se a um homem que não amava. Vagou pelas tendas da cidade baixa até que o destino pôs Abrahão, um jovem plebeu, em seu caminho.

Por conta disso, começa aí outra saga do romance de Marek Halter: a de uma mulher apaixonada que luta pelo direito de viver ao lado do homem que ama. Recapturada pelos soldados do pai após fugir do casamento forçado, Sara escapa de novo, desta vez para tomar uma decisão que iria mudar totalmente o rumo de sua vida. Obrigou uma bruxa da cidade a fazer-lhe uma poção que a tornasse estéril, ou seja, mulher de ventre seco por tempo suficiente para que o pai desistisse de casá-la.

Mas a poção foi mais eficaz e tirou de Sara, definitivamente, a chance de exercer o único poder que restava às mulheres da época: a maternidade. Fácil concluir que o desejo, sentimento responsável pela identidade dos humanos, era varrido como praga do universo feminino naqueles tempos.

Revelada sua esterilidade, restou a Sara seguir a tradição de seu povo e tornar-se a Santa Serva do Sangue. Sem esperança de tornar a ver Abrahão, vestiu roupas de guerreira, trancafiou-se num templo e ali era adorada pelos homens que estavam prestes a seguir para as suas batalhas. Cabia à Santa Serva preparar o touro para a morte e oferecer o sangue do animal à deusa da guerra. O ritual, como tantos outros também descritos com riqueza de detalhes pelo autor, dava conta de uma mulher forte, decidida, mas que sufocava no peito a dor de um amor não realizado. Sara precisava de um beijo, um único beijo de Abrahão, mais até do que do ar que respirava.

O destino os uniu novamente e Sara virou mulher de Abrahão. Tempos felizes, marcados no entanto pelo ceticismo de Abrahão quanto ao politeísmo do povo de Sara: Onde estão seus deuses? Que prova temos de sua presença?, perguntava ele. A aparente racionalidade de Abrahão, que embalaria uma suposta menos-valia da mulher que escolhera para acompanhar-lhe o resto da vida, no entanto, deu lugar a uma obsessiva crença de que um Deus, o seu Deus, a quem dera o nome de Ihvh (Javé), o escolhera como arauto.

Começou assim a peregrinação dos hebreus, e o leitor de Sara é convidado a partilhar palmo a palmo o caminho percorrido pelo escolhido de Deus e seus seguidores, de Ur ao Egito. A missão era cumprida enquanto Sara se contorcia em dores de consciência por não conseguir revelar ao marido sua esterilidade. Abrahão sonhava. Sara encarava uma dura realidade, esgueirando-se muitas vezes pela madrugada para, em vão, tomar poções mágicas que desfizessem o mal.

Abrahão empenhava-se em ouvir o que Ihvh lhe dizia, e deixava-se paralisar quando não ouvia a voz. Sara, incomodada com aquilo, tentava mostrar ao marido a responsabilidade dele frente a uma multidão de seguidores: Teu Deus se cala e tu és como uma criança a lastimar a indiferença de seu pai. Eu, Sara, abandonei sem retorno a proteção de Inana e de Ea pela tua, e desejo ouvir tua fala.

Foi assim que Abrahão e seu povo chegaram ao Egito. E que, sabendo da fraqueza do faraó por mulheres bonitas, Abrahão decidiu que Sara seria apresentada como sua irmã. A fim de salvar seu povo, ele daria sua esposa a outro homem. Sem julgar, Halter expõe ao leitor outra das inúmeras faces da História da Humanidade. Abrahão e Sara ou Sara e Abrahão? O que seria deste homem se não tivesse uma mulher como ela ao seu lado?

Passado um tempo de separação, Sara e Abrahão fazem as pazes. E Ihvh, finalmente, resolve dar um filho ao casal já senil. Ao menino deram o nome de Isaac. E foi graças à percepção apurada de sua mulher que Abrahão foi impedido de fazer o que pretendia: entregar o filho do casal, concedido após longa espera por Ihvh, ao sacrifício.

Sara enfrentara Ihvh? Sim, pelo menos na fértil imaginação de Halter. O imenso monólogo da mulher sofredora, desesperada diante do facão e da fraqueza do marido, com o Deus único que ela, sem mais forças, resolvera assumir, pode não acrescentar muito à história. Mas vale aos apreciadores da arte de escrever. E vale também como catarse aos apreciadores da guerra dos sexos.

Nessa guerra declarada por Mark Halter e emoldurada por uma caprichosa visão dos costumes da época jogar raspas de cedro ao fogo, por exemplo, não seria como acender um incenso? Sara é a vencedora. Mesmo que, aos olhos masculinos que até hoje fizeram a História, Abrahão seja o grande salvador de um povo.

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Publicado em 22 de junho de 2004 Versão impressa
Arnaldo Jabor


Nunca a burrice fez tanto sucesso

Quando vi a cabeça decepada do pobre americano, com seu bigode morto, tristemente olhando o nada, com a sombra do carrasco e seu alfange por trás, pensei horrorizado:

A burrice, a estupidez mais crassa, está tomando o poder no mundo. A crescente complexidade da vida social, a superpopulação, o fracasso de ideologias, o declínio da esperança, tudo leva os homens a uma infinita fome de burrice, seja pela religião fanatizada ou pelo desejo de um populismo autoritário.

Nos anos 60, parecia que o mundo ia descobrir um reencantamento laico, com a glória da juventude, a alegria da democracia criativa, que a inteligência teria um lugar no poder, que a ciência e a arte iam nos trazer uma nova beleza de viver. Em 68, não foram apenas as revoltas juvenis que morreram; começou a nascer uma vida congestionada, sem espaço para sutilezas de liberdade. Os anos 70 foram inaugurados com a frase de Lennon de que o sonho acabara e com a morte sintomática de Janis Joplin e Hendrix, com o fim dos Beatles e com a chegada dos caretas embalos de sábado à noite.

Parece bobagem, mas eram sintomas. Uma falsa liberdade jorrou do mercado de massas e a volta da burrice foi triunfal. O mercado e o poder começam a programar nosso desejo por simplismos e obviedades. Cresceu na sociedade uma sede da burrice, como mostra a declaração de muitos jovens austríacos que disseram há tempos: Votamos no Haider (o neonazista) porque não agüentamos mais a monotonia da política, o tédio do bem, do correto, do democrático!.

Sente-se no ar também uma grande fome de chefes. Daqui a um tempo pode ser que ninguém queira ser livre. Ninguém quer a liberdade fraternal. O sucesso planetário dos evangélicos, as massas delirando com ídolos de rock mostram que em breve talvez ninguém agüentará a solidão da democracia, todos vão querer exércitos de slogans irracionais e o fundamentalismo da crueldade prática, das soluções finais.

A grande sedução do simplismo (e do mal) é que ele é uno, com contornos concretos, visível. Mata-se um sujeito e ele cai, vira uma coisa nossa, apropriada como objeto total. Nada mais claro que um cadáver, decapitado no Iraque ou na favela do Rio. Por outro lado, a democracia pressupõe tolerância, autocontrole da parte maldita animal, implica em renúncias, implica numa angustiosa contemplação da diferença, em meio a uma paz hoje sinistra, num tédio de catástrofes sem sangue.

A estupidez, não: ela é clara, excitante, eficiente. Há a restauração alegre da parvoíce, da imbecilidade, sempre com a sombra da direita ou da esquerda por trás. Lá fora, Forrest Gump, o herói-babaca, foi o precursor; Bush é seu efeito.

Ele se orgulha de sua burrice. Outro dia, em Yale, ele disse: Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidente dos USA. É a vitória da testa curta, o triunfo das toupeiras. Inteligência é chata; traz angústia, com seus labirintos. Inteligência nos desampara; burrice consola, explica. O bom asno é bem-vindo, enquanto o inteligente é olhado de esguelha.

Na burrice, não há dúvidas. A burrice não tem fraturas. A burrice alivia o erro é sempre do outro. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice até dá mais dinheiro; é mais comercial. A burrice ativa parece até uma forma perversa de liberdade. A burrice é a ignorância ativa, a burrice é a ignorância com fome de sentido. O problema é que a burrice no poder chama-se fascismo.

No Brasil, contaminado pelo ar-do-tempo, a burrice e a fome de simplismo dominam a política, a cultura e a vida social. Vivemos em suspense, pois o pensamento petista é ambivalente e, apesar da base pragmática de Lula no ABC, contém em seu corpo a idéia de confronto, de luta de classes, contém nas cabeças a idéia de tomada de poder, de revolução, como tumores inoperáveis. Apesar de o governo tentar aprofundar a herança de FHC, com a reforma do Estado e o respeito à democracia, qualquer marola faz aparecer o maniqueísmo subjacente.

Lula é mesmo uma contradição encarnada: operário e presidente, excluído e incluído, ex-revolucionário e reformista, o que faz esse governo pensar e trabalhar com conceitos deterministas que caducaram. Por outro lado, ninguém tem certeza de nada, fica tudo numa zona cinzenta de achismos e profecias emocionais. Rola no governo um microbolchevismo e uma mal-ajambrada prática da democracia e das alianças que nos levam a uma paralisia que pode ser chamada de burrice.

Essa ambivalência provoca a falta de coragem para tentar, para imaginar, para errar. A mula empaca entre duas estradas. A burrice ideológica atrapalha a vida nacional, retardando processos, escolhendo caminhos tortos. Está na raiz de nosso populismo caipira de esquerda. Muita gente acha que a burrice é a moradia da verdade, como se houvesse algo de sagrado na ignorância dos pobres, uma sabedoria que pode desmascarar a mentira inteligente do mundo.

Só os pobres de espírito verão Deus, reza nossa tradição. Nesta festa caipira que rola no poder petista, há uma grande fome de regressismo , de voltar para a taba, ou para o casebre com farinha, paçoca e violinha. Muitos acham que do simplismo, da santa ignorância viriam a solidariedade, a paz, que deteriam a marcha do mercado voraz, da violência do poder. É a utopia de cabeça para baixo, o culto populista da marcha a ré.

Outro dia, vi na TV um daqueles bispos de Jesus de terno-e-gravata clamando para uma multidão de fieis: Não tenham pensamentos livres: o Diabo é que os inventa!.

Qualquer programa de uma nova esquerda, de uma terceira via, tem de passar pela aceitação da democracia. Dividido, esquizofrênico, como disse Dirceu seu lado maníaco o PT que hoje está no Executivo nos mostra como a luta de classes atua até na microfísica de uma organização política, como um bando de pequeno-burgueses pode atrapalhar seus próprios objetivos.

Nunca a burrice fez tanto sucesso.

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Um nome para a história

Brizola morre aos 82 anos vítima de infarto. Governador do Rio duas vezes, velho caudilho deixa legado de 60 anos de luta política
Em 1922, saía do povoado de Cruzinha, atual Carazinho, no Rio Grande do Sul, o homem que influenciaria a história brasileira por aproximadamente 60 anos. Mas o mesmo coração que fez o presidente nacional do PDT, Leonel de Moura Brizola, se dedicar 100% à vida pública parou às 21h20, após bater por 82 anos. Infarto agudo do miocárdio calou a verve do caudilho, um dos últimos líderes políticos carismáticos brasileiros, internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, bairro onde morava.

Aos 25 anos, em 1947, ganhou seu primeiro mandato de deputado. Semana passada, ainda discutia o futuro da política e pensava em se candidatar a prefeito. Antes de ser internado, Brizola sentia-se bem e ainda conversou por uma hora sobre seu assunto preferido. Febre, dores no corpo e desinteria o levaram, de cadeira de rodas, ao hospital com suspeita de pneumonia, segundo seu assessor de imprensa, Fernando Brito. Os sintomas surgiram quando voltou do Uruguai, quinta-feira. Brizola fazia exames quando, segundo o médico Marcos Batista, teve uma parada respiratória, que o levou ao infarto.

Desde quando era um dos jovens assessores de Getúlio Vargas, ao lado de João Goulart, o Jango, até quando se transformou numa liderança política com brilho próprio, o polêmico e nacionalista Brizola não se cansou de lutar. E de inventar moda. Foi o primeiro a dispensar o terno e usar a manga arregaçada. Era o símbolo dos maragatos (o lenço vermelho). Suas palavras ainda repercutiam internacionalmente, quando disse ao jornalista Larry Rother, do New York Times, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva bebia demais.

Divergências de lado, o presidente Lula decretou luto oficial de três dias. O mesmo fez a governadora Rosinha Garotinho (PMDB) e o prefeito Cesar Maia (PFL).

Darcy Ribeiro chamava-o de estadista. Com ele, criou os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps). Na saída do hospital para a Santa Casa, houve grande movimentação de políticos entre eles Rosinha e o cortejo foi recebido aos gritos de Brizola, guerreiro do povo brasileiro. No caminho, chuva de papel picado, ainda em Copacabana. O velório será no Palácio Guanabara e no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Será enterrado em São Borja, no Sul, ao lado da mulher, Neusa, e de Jango, que Brizola ajudou a conduzir à presidência em 1961, na Cadeia da Legalidade.

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Cláudio Moreno
22/06/2004


Nossa modesta bagagem

Todos os que sofrem por amor deveriam conhecer a história de Seleno, um jovem e belo pastor da Acaia que se apaixonou perdidamente por Argira, a ninfa de uma das fontes da região. Ela também o amava, e saía das águas para deitar-se a seu lado, na relva fresca da noite; com o tempo, contudo, a beleza dele começou a fenecer, e a ninfa deixou de visitá-lo. Ao se ver abandonado, o pobre pastor morreu de puro desgosto, mas Afrodite apiedou-se de seu sofrimento e transformou-o num rio que corria para o mar, onde suas águas iam se juntar às da fonte de sua amada.

Seleno continuava, no entanto, de tal maneira amargurado que a deusa, para que ele não sofresse mais, apagou de sua memória tudo aquilo que ele tinha vivido ao lado de Argira. Pausânias, em sua Descrição da Grécia, indica a localização precisa desse rio, em que os desiludidos de amor iam se banhar para esquecer as dores de seu coração.

No canto IV da Odisséia, Homero também fala sobre o esquecimento. Faz anos que a Guerra de Tróia terminou, e Ulisses ainda não voltou para casa; então Telêmaco, seu filho, vai até Esparta em busca de notícias.

Menelau e Helena, agora reconciliados, recebem o jovem com o mesmo respeito e afeição que tinham por seu pai, mas não podem ajudá-lo, porque também faz muito tempo que não vêem Ulisses. As recordações da guerra vão deixando os três muito emocionados, até que a tristeza os domina: chora Telêmaco, pensando no pai, chora a bela Helena e chora também Menelau, pensando nos que tinham morrido nas praias de Tróia. Então, para salvar o jantar, Helena verte no vinho que estavam bebendo um pouco de nepentes, uma misteriosa poção que acalma a dor e a angústia.

Quem a bebe, diz Homero, apaga todos os males com o bálsamo do esquecimento e fica, pelo espaço de um dia, livre de lágrimas e sofrimentos, mesmo que uma pessoa muito amada venha a morrer diante de seus próprios olhos.

Para aqueles que se acostumaram a resolver seus problemas afetivos com uma ida à farmácia, essas duas substâncias - a água do triste Seleno e a infusão que Helena trouxe do Egito - parecem muito atuais.

No entanto, se tu, meu caro desiludido de amor, consultasses o próprio Esculápio, o médico divino, estou certo de que ele te receitaria, no máximo, um pouquinho de nepentes - um alívio passageiro, uma breve anestesia para atenuar o sofrimento e a tristeza da tua perda; depois, meu pobre amigo, toca a enfrentar essa dor e a conviver com ela, até parar de doer. Não apagues tuas memórias - nem as boas, nem as más. Neste mundo, somos fugazes viajantes, e nossas alegrias e tristezas constituem, juntas, a nossa modesta bagagem.

claudio.moreno@zerohora.com.br

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Liberato Vieira da Cunha
22/06/2004


O mistério da beleza

Se um dia conhecesse o maior filósofo do mundo, alguém que houvesse passado a vida buscando decodificar todos os enigmas do homem e do universo, só lhe faria uma pergunta:

- Me explique, por favor, o mistério da beleza.

Tenho fundadas razões para supor que esse sábio me diria:

- Devassei a imensidão dos astros, perscrutei a origem dos tempos, imergi nos mais íntimos segredos do coração e da alma, mas essa é uma pergunta a que não sei responder.

Nas longínquas épocas em que as escolas ensinavam a pensar, fui um aluno medíocre de Química, Matemática ou Física. Nunca tirei entretanto menos de 10 em Estética, tamanha a atração que exercia sobre mim essa fascinante ciência. Experimentei meus 15 minutos de glória quando um daqueles austeros padres jesuítas do Colégio Anchieta leu para a classe inteira um singelíssimo ensaio deste que vos fala acerca da instigante matéria.

Nem por isso me tornei senhor do intrincado tema. O ofício da sobrevivência não tardou a me atropelar feito um trator. Teimo em ser até hoje, contudo, um esforçado amador da sedutora disciplina.

Uma vez, contemplando do alto de uma escarpa a enseada de Villefranche, refleti: a definição da beleza não está em livro nenhum; deve ser lida no tom esmeralda daquelas águas lá embaixo, no suave balanço dos veleiros, no índigo-blue destes céus infinitos.

Outra vez, detendo-me ante o cristal que aprisiona a lindeza eterna da Rainha Nefertiti, no Museu Egípcio de Berlim, mergulhei em tão clara lucidez, que concluí: a beleza nunca será decifrada senão pela inenarrável perfeição destes traços.

Uma terceira, já com a mente deliciada por L'Étoile, ou Danseuse sur la Scène, de Degas, e pelos jogos de luz e sombra de Georges de La Tour, fui subitamente anestesiado de prazer à repentina descoberta da Portadora de Oferendas, no Louvre, obra-prima milenar de anônimo lavor. Comentei então com o mais fundo de minha humanidade: uma enciclopédia de mil volumes não informará com maior precisão o que seja a beleza.

Sou porém um pesquisador paciente. Deparei ontem com uma mulher alta, dona de todo um esplendor de formas, senhora de uma feminilidade, de uma graça, de um refinamento inimitáveis, ornada de feições que teriam intimidado, por sua helênica harmonia, o cinzel de um Praxíteles. As palavras costumam ser toscas e precárias como eu sou. Declaro apenas, a quem interessar possa, que era magnífica.

Mas aí sumiu na multidão do entardecer de Porto Alegre, tão arisca e impenetrável quanto a esquiva inconcretude da beleza.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
22/06/2004


Bombas, bombinhas, bombículas

Controverso é um dos adjetivos que se pode aplicar a Brizola, mas certamente não é o mais importante. O mais importante é carismático. Poucos líderes brasileiros foram tão dotados desse verdadeiro dom, cuja origem é misteriosa, mas que em política funciona de maneira irresistível.

O carisma de Brizola manifestava-se de várias maneiras. Em primeiro lugar na sua extraordinária simpatia e capacidade de comunicação. Brizola era um notável ser humano, capaz de se aproximar de todas as pessoas, jovens ou velhos, pobres ou ricos. Durante muito tempo teve casa em Capão da Canoa, onde nós também veraneávamos. Minha irmã, que era então uma menininha, ia até lá, batia à porta - e era recebida como hóspede de honra. E ela não era, claro, exceção: aquela porta estava sempre aberta.

Meu contato com Brizola foi muito posterior: em 1961, à época da Legalidade. Diante da ameaça de um golpe militar que impediria a posse de João Goulart, Brizola, governador do Estado, assumiu o comando da resistência democrática, cuja sede era o palácio Piratini. Todas os dias, nós, estudantes e trabalhadores, nos reuníamos na Praça da Matriz, como forma de mostrar nossa solidariedade. E todos os dias Brizola aparecia, nem que fosse por alguns minutos, para falar conosco.

O que mais me impressionava era sua tranqüilidade. Claramente, sabia que estava enfrentando uma situação de grande risco, em que desfechos trágicos eram possíveis - coisa que ele procurava evitar. "Armas para o povo, governador!" - era o brado que mais se ouvia, mas ele não deixava se contagiar por esse fervor guerrilheiro. Olhava-nos, simplesmente, sorria, mas nada dizia, nada prometia. Depois, começou a usar o rádio para falar, e aí seu típico e pitoresco linguajar tornou-se conhecido em todo o país.

Lembro-me de uma vez em que ele explicava o imperialismo. Usou para isso a metáfora de um tanque cujos donos penosamente enchiam, e cujo conteúdo era implacavelmente sugado por "bombas, bombinhas e bombículas". Falava várias horas cada noite, mas isto não diminuía sua audiência. Como disse um casal de idosos gaúchos que então o visitou no Palácio: "É uma maravilha, governador. O senhor fala, fala, a gente adormece, depois a gente acorda e o senhor continua falando... Maravilha".

Não, Brizola já não falará horas a fio, já não denunciará as bombas, as bombinhas, as bombículas. Dorme em paz, como o casal de velhos gaúchos. Morreu um homem notável.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
22/06/2004


Morreu um taura

Dezesseis minutos antes de ser noticiado pela TV Globo, a Redação de Zero Hora já conhecia ontem à noite, por volta de 21h35m, a morte de Leonel Brizola.

O jornalista Fred Soares, chefe de Redação do jornal Extra, órgão ligado a O Globo, do Rio de Janeiro, telefonou para nosso colega Cláudio Brito, em São Leopoldo, e disse que um repórter do seu jornal que estava no hospital mandara a notícia pelo telefone.

Brito me telefonou imediatamente. Quando corri para dar a notícia à Redação ("Morreu Brizola"), todos se levantaram de seus lugares e, tomados de intensa emoção, se apressaram em mudar esta edição que os leitores agora estão lendo.

A palavra que ocorria a todas as mentes e assomava a todos os lábios gaúchos logo após a morte de Brizola era "líder".

Na verdade, a morte de Brizola choca o Brasil, mas especialmente o Rio Grande: ele se constituía, até ontem, no maior vulto gaúcho vivo, tal a importância que sua figura adquiriu para o Rio Grande do Sul e para o país nos últimos 60 anos.

O deputado Alceu Collares (PDT-RS) lembrava ontem um detalhe desconhecido de muita gente: Brizola foi engraxate na adolescência. Assim como Lula, tinha origem pobre. Pois formou-se sacrificadamente em engenharia, elegeu-se deputado estadual, prefeito de Porto Alegre, governador do Estado, deputado federal com votação recorde em todo o Brasil e duas vezes governador do Rio de Janeiro.

Sofreu o exílio em 64, mas voltou anos depois para o combate político.

À medida que eu escrevia esta coluna, muitos amigos me telefonaram para comentar a notícia da morte de Brizola, parecendo não acreditar no que tinham ouvido.

Todos, exatamente todos, choravam enquanto conversavam comigo, o que dá a idéia de quanto Brizola era amado pelos gaúchos, independentemente das suas últimas posições.

O que marcava a comoção dos meus amigos e que por certo percorreu desde ontem os corações gaúchos foi a trajetória de Leonel Brizola na vida política gaúcha e brasileira.

Num gesto nobre, o presidente Lula, ultimamente tão vergastado pela crítica contundente de Brizola em artigos publicados nos principais jornais brasileiros, decretou luto oficial em todo o país por três dias.

O gesto de Lula, detonado minutos após a morte de Brizola, mostra a importância que Brizola teve na vida brasileira.

Na hora em que escrevo, não se sabe onde Brizola será enterrado. Mas se torce que a família seja sensível à ligação sentimental do falecido com seu Estado, era inseparável dele o estilo de proceder e de falar com as marcas da atitude e do sotaque gaúchos - e seria confortador que seu corpo descesse à sepultura no mesmo Rio Grande do Sul que hospeda para a posteridade Getúlio Vargas, João Goulart, Alberto Pasqualini e Fernando Ferrari, líderes da mesma cepa trabalhista que Brizola encarnava com tanto entusiasmo.

Se isso vier a acontecer, tenho a certeza de que as cerimônias fúnebres finais serão marcadas por uma homenagem inesquecível de seus conterrâneos ao líder histórico e inesquecível.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Gente
Morre Brizola
Abatido por um enfarte aos 82 anos, o líder trabalhista, ex-governador e um dos mais aguerridos políticos do Brasil deixa a vida para ingressar na História



O gaúcho Leonel de Moura Brizola teve uma parada cardíaca às 21h20min na Clínica São Lucas, no Rio, onde havia sido internado em razão de uma gripe (foto José Doval, Banco de Dados/ZH).


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Segunda-feira, Junho 21, 2004




Paulo Coelho
Pilar caminha pelos Pirineus

Seu amigo lhe conta uma história

Você conhece o exercício do Outro? Ele faz parte de uma história escrita há cem anos, cujo autor...

Esqueça o autor, e me conte a história - pede, enquanto andam pela única praça de Saint-Savin.

Um sujeito está em um bar com o seu grupo, quando entra um velho amigo, que vivia tentando acertar na vida, sem resultado.

"Vou ter que dar uns trocados para ele", pensa.

Acontece que, naquela noite, o tal amigo está rico, e veio expressamente para pagar todas as dívidas que havia contraído no decorrer dos anos.

Além de reembolsar os empréstimos que lhe foram feitos, ele mandar servir uma rodada de bebida para todos. Quando lhe indagam a razão de tanto êxito, responde que até dias atrás estava vivendo o Outro.

O que é o Outro? - perguntam.

O Outro é aquele que me ensinaram a ser, mas que não sou eu. O Outro acredita que a obrigação do homem é passar a vida inteira pensando em como ter segurança para não morrer de fome quando ficar velho. Tanto faz planos, que só descobre que está vivo quando seus dias estão quase terminando.

E você, quem é?

Eu sou o que qualquer um de nós é, se assim desejar: uma pessoa que se deslumbra diante do mistério da vida. Só que o Outro, com medo de decepcionar-se, não me deixava agir.

Mas existe sofrimento - dizem as pessoas no bar.

Ninguém escapa do sofrimento. Por isso, é melhor perder alguns combates na luta por seus sonhos, que ser derrotado sem sequer saber por que você está lutando.

"Quando descobri isto, acordei decidido a ser o que realmente sempre desejei. O Outro ficou ali, no meu quarto, me olhando. No começo, não aceitou sua condição, e vivia insistindo para voltar a possuir minha alma. Mas eu não o deixei mais entrar - embora tenha procurado me assustar algumas vezes, me alertando para os riscos de não pensar no futuro. A partir do momento em que expulsei o Outro da minha vida, a energia Divina operou seus milagres."

Seu amigo lhe fala de um filósofo

Quando estão tomando seu café no único bar de Saint-Savin, seu amigo lhe pergunta se conhece o filósofo Bozorgmehr. Pilar acena negativamente com a cabeça.

É um velho místico iraniano, e costumava dizer: "Eu já estive diante de muitos inimigos, mas nenhum deles foi mais difícil de derrotar, que o inimigo que carrego dentro de mim.

"Já lutei com muitos rivais, mas os piores foram aqueles que se diziam meus amigos.

"Já comi muitas coisas deliciosas, e já me apaixonei muito, mas a melhor coisa que me aconteceu foi ter uma saúde boa.

"Já fui atacado e ferido muitas vezes, mas os ferimentos mais dolorosos vieram da boca de pessoas que considerava nobres.

"Fiquei muito contente porque a vida me permitiu estar ao lado de reis, que me deram presentes generosos; mas fiquei mais contente ainda porque a vida me permitiu afastar-me deles sem deixar mágoas, e então pude usufruir os meus dias da maneira que escolhi."

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Saber se comunicar não é simplesmente falar e ouvir. É uma das principais ferramentas para o trabalho
Lair Ribeiro

A comunicação é uma arte porque constitui uma ferramenta com a qual o ser humano pode manifestar idéias, sensações e sentimentos com vistas a um resultado. É evidente que existem pessoas mais comunicativas do que outras, mas isso não determina um dom especial.

É, sim, decorrência de fatores como introversão e extroversão. Uma pessoa introvertida pode, perfeitamente, comunicar-se bem em um meio onde se sinta à vontade, e uma extrovertida, não necessariamente será capaz de fazê-lo, apesar de sentir-se sempre à vontade. A comunicação não se resume a falar-ouvir-falar.

Vai muito além disso. Profissionalmente, constitui uma das ferramentas mais poderosas de que você dispõe. A comunicação, que visa prioritariamente ao entendimento e à ação comum, também pode ser utilizada para manipular pessoas. Enquanto os relacionamentos interativos são altamente produtivos, os manipulativos são altamente destrutivos.

Quando um dos interlocutores se considera uma pessoa e vê o outro como objeto, ou vice-versa, acontece a manipulação. E quando ambos os interlocutores se vêem e vêem o outro como pessoas acontece a interação. Uma relação interativa se torna manipulativa quando o coração quer uma coisa e a razão quer outra.

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Salva eu!

Ana De Biase, a Salva-Vidas do Caldeirão do Huck, afoga os homens com sua sensualidade
Zean Bravo



Pietra Ferrari foi musa de cerveja depois de surgir no Caldeirão. Assistente de Luciano, Karen Motta foi clicada por ele para a Playboy, que já desnudou Thaís e Fabiana, ex-Hzetes do Huck

Luciano Huck acertou de novo: Ana De Biase, a Salva-Vidas do Caldeirão, virou o desejo louro da vez. Capa da Vip de julho, com fotos feitas pelo próprio apresentador, a capixaba de 24 anos tira onda: Sou toda natural. Não precisei de retoque. Estrela também de um provocante ensaio do site Paparazzo, ela deixou muito marmanjo faminto ao congestionar a Internet no dia de estréia, com 35 mil acessos só na hora do almoço. Em quatro dias ela está há uma semana no ar , foi vista por meio milhão de internautas, número 40% maior do que o alcançado por Letícia Spiller, que a antecedeu no site. Meu público é essa faixa bem adolescente, de 15 anos. Na praia, todo mundo fica se afogando, diverte-se a modelo, que, claro, é a nova cobiça da Playboy.

Com propostas de capa também em publicações femininas Querem que eu faça Nova e Boa Forma, diz , Ana pretende adiar as fotos de nu total. Não consigo me imaginar nua numa revista e não quero queimar cartucho. Mas a Playboy está me rondando todo mês, cada vez com uma bolada mais tentadora, entrega a loura, que estampou a seção Mulheres que Amamos na edição de maio da revista. Quando eles chegarem num valor irrecusável vou fazer sim!, avisa.

Mestre em emplacar suas descobertas, Huck também fotografou sua assistente de palco, Karen Motta, para o Mulheres que Amamos, e viu Tiazinha, Feiticeira, as Hzetes do extinto programa H (da Band), e a caldeirete Dany Bananinha na capa da Playboy. Mesmo assim, é modesto. Fico feliz mesmo, quando as brincadeiras e novos quadros do Caldeirão agradam. Mas você não acha que está para as beldades assim como o veterano produtor Nelson Motta está para as cantoras de MPB, Luciano? Quanta honra. Mas espero estar descobrindo na vida mais coisas além de belas mulheres.



Tiazinha e Feiticeira são as célebres criações do apresentador que viraram recordistas de Playboy. Dany Bananinha é a caldeirete mais famosa, com duas capas da revista

O método de criação, Luciano não entrega. Sei lá, despista. Ele garante que descobre suas musas quase por acaso. As pessoas vão cruzando o nosso caminho. Conheci a Ana há uns dois anos. Lembramos dela ao desenvolver o quadro da Salva-Vidas, que é uma grande brincadeira. Meio Chacrinha, diz.

Ana, que já tinha participado do concurso Essa é pra Casar, no Caldeirão, soube dos testes para a personagem quando já havia duas finalistas na parada. Nunca imaginava passar. Eu, toda baixinha, ao lado de duas louras lindas e siliconadas, conta.

Passou e quer mais. A Salva-Vidas vai me rotular por mexer com a imaginação das pessoas, dos homens principalmente. Mas com o tempo espero que as pessoas enxerguem também meu talento profissional como apresentadora, diz a estudante de jornalismo, que sonha com um programa esportivo para chamar de seu.

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Nei Lisboa
21/06/2004


Sábios sessenta

Chico Buarque faz 60 anos com a beleza de seus olhos a arrancar intactos suspiros, mas também com a grandeza de quem prefere usá-los para bem ver. Nesse mar de celebridices, a reserva que se impõe e a intimidade que preserva são mais do que sábias. Espero que alguém tenha se lembrado (eu não me lembrei), na matéria da ZH de sábado, de citar como versos favoritos o final de Cambaio, CD de mesmo nome, o último de inéditas. "Vejo fulana a festejar na revista / Vejo beltrana a bordejar no pedaço / Divinais garotas / Belas donzelas no salão de beleza / Altas gazelas nos jardins do palácio / Eu sou mais as putas".

Convidado pelo Márcio Pinheiro a responder àquele questionário do caderno Cultura, no qual gente totalmente autorizada sentencia sobre a literatura universal, achei que havia algum engano. Expliquei a ele que minha leitura cabe numa caixa de sapatos de tamanho médio, ficaria honrado se fosse viável. Ele, então, perspicaz replicante, me escreve sugerindo: e se fossem, as perguntas, sobre música? Ok, você venceu, Márcio. Fico com a literatura e respondo até 2008.

Vão estar todos lá, semana que vem, a música de POA em peso. Terça 29 de junho, no Opinião, a cidade reverencia Flávio Chaminé, que se foi bem cedo deixando saudades da pessoa carinhosa e do grande baixista de rock. Fez escola entre três gerações de músicos e aprendizes do seu feitiço, com uma biografia que se confunde com a nossa história musical. Os ingressos, a preço simbólico, estão à venda nos cursos Universitário. Vou assistir de canto, meio ressabiado. Se o Chamina resolve aparecer convidando para uma cerveja, sei lá se não me carrega junto.

E congratulações máximas ao Secretário da Cultura do Estado, Roque Jacoby, que não apenas sustou a transferência do Acervo da Luta Contra a Ditadura como também mobilizou o apoio da Unesco na busca de uma solução definitiva para o assunto. É o que de melhor se poderia desejar, que esse passado nos pertença e ajude a forjar um bom futuro.

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Luis Fernando Verissimo
21/06/2004


"Le pescocê"

Nos meus tempos de Aliança Francesa, lá pelo século 19, era sempre tenso o momento de ler em voz alta ou usar numa frase o nome francês para pescoço. Pescoço em francês era um desafio à seriedade e ao autocontrole da classe. Não nos olhávamos. Ninguém fazia um ruído que pudesse ser confundido com riso abafado, ou o gemido de quem se continha a muito custo. Por que os franceses, com uma língua tão bonita, tinham inventado de dar logo aquele nome ao pescoço? Lembro de um filme da Atlântida em que o Grande Otelo, obrigado, por alguma razão, a falar francês com uma mulher, chegava à mesma situação que nos atormentava. Não havia como evitar: ele precisava dizer pescoço. Disse "le pescocê". Afinal, estava na presença de uma dama.

A coisa mudou muito desde então. O "palavrão", que no caso era uma palavrinha, caiu em uso corrente e hoje é ouvido em sala de aula, filme, rua, casa e convento sem que ninguém sofra muito com isto. O que é ótimo: pra que ter medo de palavras? Velhos tabus desmoronam, armários em que as pessoas escondiam o que eram são escancarados, os bois ganham nomes, os is ganham pontos e tudo está na cara, e às claras, num mundo, afinal, tornado adulto e sem vergonha. Mas persistem certas áreas em que reina o eufemismo, ou a necessidade tática de chamar as coisas por outro nome, e por isso tenho pensado muito no Grande Otelo. O que ainda é chamado de "pescocê" quando deveria ser chamado de outra coisa?

O economismo neoclássico sofreu alguns abalos nos últimos anos, com a deserção ou a autocrítica de alguns dos seus luminares, mas nem toda a evidência acumulada de que o domínio do seu pensamento único só aumentou a desigualdade e a miséria no mundo impede que ele continue a ser chamado de "pescocê". O Brasil do PT desencaminhado é um exemplo doloroso das conseqüências deste estranho acidente semântico, ocorrido não se sabe bem quando: o dia em que as frases "responsabilidade fiscal" e "responsabilidade social" passaram a ser antônimas, e excludentes.

Mas se insiste que aqui não é assim, ou se insiste que o nome certo disso é "pescocê". A intervenção americana no Oriente Médio e a diferença entre seus objetivos anunciados e suas causas verdadeiras são a maior consagração atual da solução Grande Otelo.

A...

Mas faça você a sua própria lista. Apesar de toda a bem-vinda liberalidade, o mundo ainda está cheio de "pescocês" que não ousam dizer seu nome verdadeiro.

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Paulo Sant'ana
21/06/2004


E o motivo do crime?

Este assassinato da jornalista em Novo Hamburgo se constitui num caso da altura dos livros de Agatha Christie e Georges Simenon.

A literatura policial dá importância ao modo como os assassinos ainda não surpreendidos se comportam no enterro das vítimas.

O marido da jornalista chorou muito no seu enterro e no momento em que foi preso lamentou com violência que não poderia comparecer à missa do sétimo dia.

Quando o marido é suspeito de ter matado a mulher, ele não tem saída: tanto é suspeitado por chorar muito no enterro como por não derramar sequer uma lágrima.

A literatura policial eleva sempre como suspeitos o mordomo e o cônjuge sobrevivente.

Neste caso, mais ainda a opinião pública de Novo Hamburgo e de Porto Alegre suspeitava fortemente do marido porque era masculino o cônjuge sobrevivente, como se sabe existe sempre superioridade física do homem sobre a mulher, vítima quase sempre mais freqüente do enfrentamento.

Quando o cônjuge sobrevivente a um assassinato é a mulher, a opinião pública costuma ser mais indulgente quanto à sua suspeição.

Pelo muito que a imprensa já sabe sobre este crime, não existe nenhuma evidência de que o marido foi o autor.

No entanto há muitos indícios de que tenha sido ele quem matou sua esposa. Os indícios talvez não cheguem a ser veementes, mas são concordantes. E a prova se faz muitas vezes no processo criminal tanto pelo volume de indícios quanto pelo encadeamento que se estabelece entre eles.

A testemunha talvez mais valiosa dessa teia de indícios que levou o marido a ser recolhido sábado ao Presídio Central é aquela, se é que existe, que o viu com o corpo e a roupa sujos de fuligem momentos após o assassinato, dando a entender que estava presente no instante do incêndio do seu carro e do corpo de sua mulher, como tem sido publicado.

Se há realmente, como noticia a imprensa, essa testemunha que viu o marido sujo de fuligem logo após o assassinato, se há, como noticia a imprensa, uma massagista que massageou o marido em suas pernas logo após o crime, em face de esforço incomum por ter caminhado demais (supostamente lá do morro onde ocorreu o crime até a cidade), se a familiar da vítima foi surpreendida dentro da casa do casal pelo marido, que se mostrou catatônico e desarticulado pela surpresa, logo após o crime, se o marido não apresenta álibi convincente para argumentar sobre onde se encontrava no momento do crime, sobram razões para a polícia ter solicitado sua prisão temporária, embora talvez ainda faltem razões mais robustas que justifiquem uma prisão preventiva, medida mais drástica e persuasiva de culpabilidade.

Mas, por enquanto, o marido é apenas suspeito, ainda não se provou que ele é culpado.

Um dos suportes basilares para caracterização de assassinato é o motivo, o móvel do crime.

Até agora, neste caso de Novo Hamburgo, materialmente, ainda não apareceu. Nesses crimes, os sussurros de que o casal era duplamente infiel são insuficientes para sobrelevar o motivo. Existem milhões de casais dupla ou unilateralmente infiéis que no entanto jamais cogitam de eliminar seus cônjuges.

Que razão relevante e não banal teria o marido para matar a mulher?

Se não houver confissão, imagino a teatralização no dia do júri:

O advogado de defesa: "Quero que os senhores jurados me apresentem neste imenso processo uma só palavra que indique e justifique o motivo do crime. Não há uma só palavra".

E o promotor: "Sabe Vossa Excelência, sabem os jurados, sabe toda a opinião pública que o motivo é simples: existem incontáveis divórcios amigáveis; casamento, não se conhece nenhum".
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Inverno começa com jeito de verão



Fim de semana foi de muito calor, com a temperatura chegando a 29ºC em Uruguaiana e a mais de 25ºC na Capital, acima, o Estádio Olímpico (foto Valdir Friolin/ZH)


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Domingo, Junho 20, 2004


autor@paulocoelho.com.br

Fragmentos de um diário inexistente XV

Como o todo pode estar em um pedaço

Reunião na casa de um pintor paulista que vive em New York. Conversamos sobre anjos e sobre alquimia. Em determinado momento, tento explicar a outros convidados a idéia alquímica de que cada um de nós contém dentro de si o Universo inteiro e é responsável por ele.

Luto com as palavras, mas não consigo uma boa imagem; o pintor, que estava escutando calado, pede para que todos olhem pela janela do seu estúdio.

O que estão vendo?

Uma rua do Village responde alguém.

O pintor cola um papel no vidro, de modo que a rua não pôde mais ser vista; com um canivete, faz um pequeno quadrado no papel.

E, se alguém olhar por aqui, o que verá?

A mesma rua diz um outro convidado.

O pintor faz vários quadrados no papel.

Assim como cada buraquinho neste papel contém a mesma rua, cada um de nós contém o mesmo Universo diz ele.

E todos os presentes batem palmas pela bela imagem encontrada.

Em um jornal francês

Leio que abade Arthur Mugnier fora responsável pela conversão ao catolicismo de muitos artistas no seu tempo. Mesmo vivendo numa época moralista, Mugnier procurava lembrar a todos que a idéia central de Cristo é a alegria da redenção, e não as torturas da culpa.

Certa vez o abade foi abordado por uma de suas paroquianas, que embora já tivesse 75 anos de idade estava preocupadíssima com os pecados da carne.

De vez em quando me surpreendo olhando meu corpo nu no espelho. Isto é um pecado?

E a resposta do abade veio rápida:

Não, madame. Isto é um equívoco.

Olhando o jardim alheio

Dai ao tolo mil inteligências, e ele não quererá senão a tua, diz o provérbio árabe. Começamos a plantar o jardim da nossa vida e, quando olhamos para o lado, reparamos que o vizinho está ali, espiando. Ele é incapaz de fazer qualquer coisa, mas gosta de dar palpites sobre como semeamos nossas ações, plantamos nossos pensamentos, regamos nossas conquistas.

Se dermos atenção ao que ele está dizendo, terminaremos trabalhando para ele, e o jardim de nossa vida será idéia do vizinho. Terminaremos esquecendo a terra cultivada com tanto suor, fertilizada por tantas bênçãos. Esqueceremos que cada centímetro de terra tem seus mistérios, e que só a mão paciente de um jardineiro é capaz de decifrar. Não iremos mais prestar atenção ao sol, à chuva e às estações, ficaremos apenas concentrados naquela cabeça que nos espia por cima da cerca.

O tolo que adora dar palpites sobre o nosso jardim, jamais cuida de suas plantas.

Cartas ao coração

Em 1993, quando lancei O Alquimista nos Estados Unidos, conheci também uma pessoa maravilhosa, Vania Williamson. Agora descubro que está lançando um livro no Brasil, Cartas ao Coração, do qual reproduzo um trecho:

Meu coração: eu jamais te condenarei, te criticarei, ou terei vergonha de tuas palavras. Confio em ti, meu coração. Estou do teu lado, sempre pedirei bênçãos em minhas orações, sempre pedirei para que encontres a ajuda e o apoio que necessitas. E te peço: confia em mim. Saiba que te amo, e que procuro dar-te toda a liberdade necessária para que continues batendo com alegria em meu peito. Farei tudo que estiver ao meu alcance, para que jamais te sintas incomodado com a minha presença à tua

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Elas estão desconfiadas!


Bolsos, carteira, celular, conta de telefone, agenda e até a fatura do cartão de crédito são pistas em potencial. Qualquer deslize do suspeito pode estar registrado e o que era apenas um objeto de uso pessoal vira prova de um crime. Com muita perspicácia, ela não deixa passar nenhum detalhe e dia após dia tem a esperança que, finalmente, irá dar o flagrante no suposto meliante. Adepta ao lema "atire primeiro, pergunte depois", a mulher, na maioria das vezes, não tem motivo concreto para desconfiança.

Barracos, discussões e roupas rasgadas - literalmente - são rotina no namoro da tradutora Clarissa Coutinho. Helô, como é carinhosamente chamada pelas amigas, confessa que para ela todo homem é culpado até que consiga provar o contrário. Uma vez, gravou o telefone de uma amiga no celular do namorado porque estava sem papel para anotar.

Dias depois, ao fazer a verificação no aparelho de Leandro, - Clarissa tem o costume de verificar as chamadas recebidas e efetuadas, assim como a agenda telefônica do namorado - a ciumenta se deparou com um nome desconhecido. "Quando perguntei quem era a tal de Daniela e ele disse que não sabia, rodei a baiana. Gritei, chorei e disse que ele não prestava. Quando liguei para o número e vi que era da minha amiga fiquei com a cara no chão", lembra Clarissa que, mesmo passando por situações como essa, admite que não consegue mudar o comportamento.

Uma olhada para o lado ou uma saída de cinco minutos sem uma justificativa convincente já é motivo para despertar a fúria da jornalista Helena Magalhães. Paranóica confessa, a menina diz que, apesar do namorado não dar motivo para desconfiança, ela não consegue se controlar, explodindo sempre que percebe que a atenção do consorte não está sendo 100% dedicada à ela.

"Já fiz e pensei coisas ridículas. Uma vez, meu namorado viajou a trabalho e eu tinha certeza que ele estava me enganando, indo para uma viagem romântica com alguma dessas mulheres oferecidas. Só sosseguei quando ele ligou e falou, com detalhes, todas as questões do trabalho", conta Helena, acrescentando que, em seguida, ligou para o número que apareceu no celular para ver se alguma mulher atendia. "Coisa de maluca mesmo", confessa.

Mas se para todo pé doente há um chinelo velho, para toda mulher desconfiada há um homem condescendente. O engenheiro mecânico Ricardo Miranda faz parte do grupo que adora uma mulher ciumenta. Para ele, o amor vem acompanhado de interesse e, por tabela, de insegurança e medo de perder. Daí, a desconfiança.

"Quando a mulher não dá muita bola para o que faço, nem procura saber mais sobre a minha vida, fico preocupado. Acho que ela não gosta o suficiente de mim", explica Ricardo, ele próprio um ciumento de marca maior. Mas ele alerta: "Só aturo o comportamento desconfiado se realmente gostar de pessoa. Caso contrário, caio fora. Não tenho paciência", revela.

Por trás do comportamento desconfiado e inseguro de algumas mulheres, normalmente há um passado marcado por traições, seja do parceiro ou até mesmo do pai ou de algum familiar, explica a psicóloga Tania Machado. Por terem sofrido muito em determinado período da vida, as desconfiadas costumam achar que o destino delas é serem traídas por todos os homens.

"Algumas costumam até procurar namorados que tenham um histórico amoroso movimentado, para já terem uma justificativa caso ocorra uma traição. Pode até demorar, mas com o tempo essas mulheres acabam percebendo que as pessoas - e os relacionamentos - são diferentes e que a confiança é a base de tudo", acredita Tania. Um namorado fiel e apaixonado, é claro, também ajuda.

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Chegamos ao número 100

Que me desculpem meus leitores assíduos, aqueles que gostam de ler neste espaço meus textos que divagam ou refletem sobre algum tema: amor, casamento, filhos, solidão, enfim. Hoje quero compartilhar minha felicidade por um motivo muito especial: nosso caderno MULHER chegou à edição número 100, uma data histórica. Posso comparar essa alegria toda à emoção que sente uma mãe. Exagerada, eu? De jeito nenhum. O MULHER é como se fosse um filho, o mais novo, o que exige mais atenção da equipe toda que o produz.

Além do amor, da paixão que me move para a cada semana planejá-lo para não decepcionar os leitores, me cerco de cuidados para fazê-lo cada vez melhor, vibro com cada comentário que ouço a seu respeito, fico feliz com cada e-mail, carta ou telefonema que chega, elogiando ou sugerindo matérias e aprendo, reflito e conheço cada vez mais o meu leitor a cada crítica sobre esse trabalho.

Mal termino de fechar uma edição, logo começo a pensar na próximas - na capa que Salatiel Moraes vai criar, nas matérias, nas páginas que o diagramador César Ricardo vai montar, enfim. O que vou escrever neste espaço tem muito de inspiração, de tentar entender e captar cada drama ou alegria que nós mulheres vivemos ou sentimos. E essa minha inquietação é que me faz sonhar e convidar o leitor, a cada edição, para uma reflexão sobre quem somos, para que vivemos e sobre o que estamos fazendo das nossas vidas.

Obrigada mesmo a todos que acreditam neste trabalho...

Marta Vicentin


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