E N T R E L A Ç O S ENTRELAÇOS E N T R E L A Ç O S ENTRELAÇOS
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O homem das luvas

Se uma cidade é um corpo vivo, como já sugeriram tantos poetas, o coração desta minha Porto Alegre amada é, sem dúvida, a Praça da Alfândega. Temos uma Rua da Praia sem praia e uma Praça da Alfândega sem alfândega, mas naquele retângulo em que as duas se encontram pulsa a vida da província/metrópole. Estive lá na tarde mais luminosa desta semana que está terminando e fiz uma travessia de saudade e encantamento pelos caminhos de pedra, à sombra dos jacarandás e sob a proteção dos heróis de todos os matizes que habitam aquele recanto mágico. Nilson Souza



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Sábado, Julho 26, 2008




Silvio Berlusconi anda muito bem acompanhado, dá uma olhada nesse quarteto de novas ministras da itália! (da esquerda para a direita): Giorgia Meloni (Políticas para a Juventude), Maria Stella Gelmini (Educação), Mara Carfagna (Igualdade de Oportunidades) e Stefania Prestigiacomo (Ambiente).

Para voces perceberem melhor, abaixo estão duas das quatro acima, sendo pela ordem a Stefania e em seguida a Mara:





Já aqui no Brasil, nós temos a nossa ministra candidata a prefeita:



Temos esta que não é candidata



E, por fim, temos esta Ministra candidata a Presidenta.


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27 de julho de 2008
N° 15675 - Martha Medeiros


O uso dos palavrões

Não sei o que a craque em elegância e estilo, a adorável Gloria Kalil, pensa a respeito do uso de palavrões. Já li muita coisa escrita por ela, sei o quanto repudia barracos e valoriza a educação, sei que defende a idéia de que ninguém é chique se não for civilizado, mas não lembro de ter lido algo a respeito desse assunto.

É lógico que o palavrão faz parte da cultura popular de qualquer país, por isso, creio que Glorinha diria que o bom senso é que determina quando ele é tolerável e quando é grosseria.

Eu passei minha infância praticamente sem ouvir palavrões dentro de casa. Do meu irmão, muito pouco. Da minha mãe, quase nunca. E do meu pai, jamais. Ele achava feio até mesmo dizer "que saco".

Até que cresci e os palavrões começaram a ser mais bem aceitos, desde que nunca como forma de ofensa e agressão, apenas como manifestações de enfado, raiva e em momentos de descontração e humor. Mas da boca do meu pai, nunca ouvi, até hoje. E é o que basta para esse tema me despertar certo fascínio.

No Brasil, já foram catalogados mais de 3 mil palavrões. Na França, 9 mil. Na Inglaterra existe até o Dicionário de Insultos em Cinco Línguas, o primeiro guia prático destinado a turistas que são obrigados a lidar com bagagens perdidas, reservas malfeitas, café frio, serviço ruim e contas exorbitantes.

Poucos são os que ainda negam a utilidade do palavrão para radiografar uma determinada sociedade, seus costumes e tendências.

Até alguns anos atrás, era de Jorge Amado o recorde de uso de palavrões por um único autor brasileiro, mas creio que esse feito já deve ter sido ultrapassado, pois é um recurso cada vez mais recorrente na nossa literatura, assim como no teatro e cinema.

Aliás, o cinema brasileiro, na década de 70, atormentou nossos ouvidos com o uso indiscriminado do palavrão. Tudo bem que, no auge da repressão, o palavrão era uma resposta ao silêncio, aliviava tensões, funcionava como catarse, mas abusaram.

Hoje ele é usado com mais pertinência e adequação, o que não significa comedimento: filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite seriam completamente absurdos se não reproduzissem fielmente a linguagem das ruas e dos morros.

Eu não ouvia palavrão em casa, mas lia muito Charles Bukowski, então me salvei. Hoje solto meus palavrõezinhos fraternos em situações rotineiras e grito impropérios em momentos de alta-tensão, o que me torna uma pessoa razoavelmente normal. Ainda assim, ainda há uma menininha dentro de mim que se sente desconfortável com exageros e vulgarizações.

Sei que Dercy Gonçalves deu enorme contribuição à cultura brasileira, que teve uma folha corrida de respeito, que era uma pessoa meiga e até moralista: seu desbocamento nada mais era que uma marca registrada para sobreviver no meio artístico.

Compreensível, mas eu não achava engraçado. O uso do palavrão com o único propósito de escandalizar sempre me pareceu mais patético do que escandaloso de fato.

De qualquer forma, é impossível viver sem ele. Então o jeito é não sermos hipócritas, respeitá-lo dentro dos princípios da liberdade de expressão e, de preferência, manter uma certa razoabilidade no seu emprego.

Quando solto algum palavrão mais pesado na frente das minhas filhas, imediatamente peço desculpas. Na presença de pessoas de mais idade, evito a qualquer custo. E diante da Gloria Kalil, nem a pau.

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27 de julho de 2008
N° 15675 - Paulo Sant'ana


Já saiu a Mega Sena

Neste momento em que o leitor está pondo os olhos nesta coluna pode já ter corrido a extração da Mega Sena que vai pagar R$ 52 milhões ao seu infeliz ganhador.

Devo dizer que sofri um grande abalo emocional nas duas últimas extrações. Os meus companheiros aqui da minha sala em Zero Hora são testemunhas de que na penúltima extração acertei três dezenas, 08, 46 e 60. O prêmio era de cerca de R$ 30 milhões.

Incrivelmente, coloquei outras seis dezenas em seqüência: 27, 28, 29, 30, 31 e 32. No meu plano, era impossível que em seis dezenas seguidas não fosse ser sorteada alguma, ou duas, talvez três.

Pois além das três que acertei, não foi escolhida nenhuma das seis dezenas seqüenciais que assinalei.

O pior estava ainda por vir na última extração, a que pagaria R$ 42 milhões.

Repeti meu jogo de nove dezenas da penúltima extração. Estavam ali no meu boleto novamente as dezenas 08, 46 e 60, as três que tinham sido sorteadas no sábado.

A extração então seria na quarta-feira passada. Tudo indicava que não se repetiriam os meus três acertos. Mas eu os repeti para não ter remorso.

E sabem os leitores o que aconteceu? Pois não se repetiram os três acertos, mas da seqüência de seis dezenas que também repeti na aposta foram sorteadas três dezenas: 27, 29 e 32.

Ou seja, um fato insólito se deu comigo: acertei três dezenas no penúltimo teste e mais três dezenas no último teste, somando as seis dezenas exigidas, mas é claro que não há prêmio nenhum para quem acerta as seis dezenas em dois testes.

Saí demolido desses dois testes. Se o destino tivesse escolhido as seis dezenas que saíram para um só teste, uma vez que repeti a mesma aposta nos dois testes, eu estaria hoje milionário.

Estou falando tudo isso porque continuou acumulada a Mega Sena e tudo se decide entre sábado e domingo, sem mais prorrogação, uma ou duas pessoas acertarão no Brasil o grande e quase incomparável prêmio de R$ 52 milhões. À hora em que o leitor está lendo esta coluna já devem ter sido sorteados os números.

Por que hoje é certo que sai o prêmio? Pelo alvoroço, pela azáfama nervosa que havia nas extensas filas das lotéricas desde quinta-feira, todo mundo comentando sobre o grande prêmio, dobrando ou triplicando as suas apostas, podendo o prêmio chegar até a R$ 60 milhões, em vista da ânsia dos apostadores em vitoriarem-se.

Se me acontecesse a tragédia de vir a ser o ganhador, minha providência seria internar-me imediatamente em um hospital, antes mesmo de receber o prêmio.

Sabe como é, se não sabem vou adiantar-lhes: quando a gente fica rico, fica também hipocondríaco: "Não pode tudo estar dando certo, algo deve estar errado". E o errado só pode ser a saúde.

Por que pensam assim os novos milionários: "Quando eu era chinelão, não tinha importância nenhuma a minha saúde. Mas agora, milionário, não existe nada mais importante que minha saúde. Só faltava esta, agora que sou rico, ter um problema grave de saúde".

Então, eu me internaria num hospital e faria todos os exames médicos possíveis e imagináveis. E depois que as várias baterias de exames fossem realizadas e tudo estivesse relativamente bem comigo, mandaria repetir todos os testes.

Até que a junta médica me desse um atestado, com firma reconhecida, garantindo que eu estava daquele momento em diante apto para ser feliz. Ou infeliz.

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27 de julho de 2008
N° 15675 - Moacyr Scliar


Traiu ou não traiu?

No Brasil, a batalha final não será travada entre o Bem e o Mal, entre juízes e o STF, ou entre o Inter e o Grêmio. A batalha final será travada entre os que acham que Capitu traiu e aqueles que defendem a idéia de que Capitu não traiu.

É uma discussão que agora tem mais de um século, e que volta à tona por causa do centenário do criador de Capitu, o grande Machado de Assis, autor de um romance que gerações e gerações, e não só no Brasil, vêm lendo: Dom Casmurro. Casmurro, que designa um cara fechado, mal-humorado, é uma palavra hoje pouco usada; mas o livro continua mobilizando emoções.

A história é narrada pelo próprio Dom Casmurro, um advogado chamado Bentinho; já na adolescência ele se apaixona por Capitolina (outro nome que ninguém mais usaria), a Capitu. Casam, e depois de algum tempo, têm um filho, Ezequiel.

Todos os ingredientes para a felicidade estão presentes, mas Bentinho começa a suspeitar que Ezequiel não é filho dele, e sim de Escobar, o melhor amigo do casal. Uma dúvida que na época - não havia teste de DNA - não dava para esclarecer. E o ciúme vai destruir a vida da família: o casal separa-se, Capitu morre, Ezequiel morre, Bentinho fica só e vira Dom Casmurro.

Machado ficou conhecido como o Bruxo do Cosme Velho (este, o bairro em que morava) e neste romance a gente entende a razão do apelido: quando terminamos, ficamos sem saber se Bentinho relatou o que de fato aconteceu ou se deu vazão à sua fantasia paranóica. E este é o grande mérito do livro.

Dom Casmurro não é, claro, a única história de ciúmes; Othelo, de Shakespeare, aborda o mesmo tema, mas, nesta peça, não ficamos em dúvida: sabemos que se trata da fúria de um ciumento.

Pergunta: como Capitu contaria a mesma história? Esta questão serviu de desafio para Domício Proença Filho, escritor, professor de literatura, membro da Academia Brasileira de Letras (e, a propósito, casado com uma gaúcha, a também professora Rejane). Domício, autoridade em Machado, escreveu um romance com a versão de Capitu (Capitu: Memórias Póstumas).

Um monólogo extraído desse romance foi recentemente apresentado no teatro da ABL por esta grande atriz que é Fernanda Montenegro. Brilhante desempenho, que levou o enorme público ao delírio e que também fez pensar sobre um problema que há milênios nos atormenta: o que é, afinal, a verdade?

Como descobri-la? Questão tão difícil quanto crucial. A propósito, há um antigo e famoso filme japonês, Rashomon, que narra um violento acontecimento visto por quatro pessoas - e cada uma conta algo diferente.

Mais um exemplo: a nobelizada escritora sul-africana Nadine Gordimer escreveu uma Carta ao Filho, resposta à famosa Carta ao Pai, em que Franz Kafka se queixa amargamente do seu genitor. De novo: é o outro, e bem diferente, lado da moeda.

Emerge daí uma lição óbvia: cuidado com a ruminação, cuidado com o raivoso monólogo interior.

A verdade é dialética, nasce do diálogo - entre pessoas, entre instituições, entre correntes políticas, entre grupos sociais. Quando a pessoa fala consigo própria nem sempre tem o interlocutor adequado, como mostra a história do homem que, tarde da noite, vinha dirigindo por uma estrada deserta, quando furou um pneu.

Ele não tinha macaco para fazer a troca; mas avistou a luzinha de uma casa e para lá se dirigiu, na esperança de que o dono tivesse um macaco para lhe emprestar.

No caminho foi imaginando o que o homem lhe diria: mas não, eu não lhe conheço, como é que vou lhe emprestar o macaco etc. Sua raiva vai crescendo, ele chega à casa, bate à porta, e quando o homem abre, grita: "Sabe de uma coisa? Enfia teu macaco no rabo"!

Bentinho era muito refinado para usar estas expressões. Mas, na estrada da vida, ele ficou parado igual, sem que ninguém o ajudasse. E isto até hoje nos faz pensar. Entenderam agora por que Machado é um mestre?

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27 de julho de 2008
N° 15675 - Luis Fernando Verissimo


Precaveja-se

Como saber se a sua conversa telefônica está sendo gravada:

- Se antes de começar a falar, você ouve uma voz dizendo: "Silêncio no estúdio"!

- Se antes de começar a falar, ouve uma voz dizendo: "Fale pausadamente, enuncie bem as palavras e tente ser conciso".

- Se antes de começar a falar, ouve a instrução "Evite ironias, como, no fim da ligação, dizer: 'É com você, Bonner'".

Mesmo se não detectar sinais de que seu telefone está grampeado, acostume-se a falar em código, tendo o cuidado de combinar com seus interlocutores o significado real das palavras mais usadas em suas conversas. Por exemplo:

Tia Helga - Conta na Suíça.

Tia Matilda - Ilhas Cayman.

Milho verde - Milhões de dólares.

Pamonhas - Milhões de reais.

Canjica - Milhões de euros.

Como em "Mandei duas canjicas para a tia Helga" ou "Recebi uns milhos verdes da tia Matilda", ou "Estou pensando em transformar os milhos verdes da tia Matilda em pamonhas para a mamãe, que está ótima (tradução: "para aplicar na bolsa, que está em alta"), e canjica para comer com o seu Maurício no fim do ano" ("¿para gastar na temporada em Saint Moritz").

Nunca se refira ao seu iate ou ao seu condomínio em Palm Beach. Diga "o meu caíque" e "a minha chácara". Nunca cite nomes reais, mesmo que eles não tenham nada a ver com o que a Polícia Federal (código: "Os mosquitos") pode estar investigando a seu respeito. Use pseudônimos.

Lula - Ele.

José Dirceu - Zeca Pagodão.

Fernando Henrique - Nando.

Heráclito Fortes - Formosura.

Naji Nahas - Levantino

Eike Batista - Leva-tudo

Papa Bento XVI - Alemão

Etc., etc.

Nunca fale em "propina" (prefira "motivação"), nunca se gabe dos congressistas de todos os partidos que tem no bolso (melhor comentar que apóia o pluralismo democrático) e em hipótese alguma encomende vinhos, enlatados e um novo 'home theater" pelo telefone sem explicar que é para o cachorro.

É claro que também é preciso se precaver contra o risco das coisas mais inocentes parecerem código, e você ser incriminado pelo mal-entendido.

- Mas eu tenho uma tia chamada Helga, delegado. - Claro, claro. E manda canjicas para ela todos os meses.

- Mando mesmo. Para Camaquã.

- Rá! Um óbvio código para Cayman. - Não, não, delegado. É uma cidade no interior do...

- E este trecho da gravação em que se planeja a participação do seu grupo financeiro na venda do Brasil para um consórcio espanhol? - O quê? Isso era eu lembrando à minha mulher que nós estamos devendo pro espanhol da feira! - Tá. Contra outra.

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ADRIANA LISBOA ESPECIAL PARA A FOLHA

"Livro do Chá" vê grandiosidade de "pequenas coisas"

A prática da cerimônia do chá é "a recusa deliberada de postergar nossa existência essencial como ser humano, com plena consciência da dificuldade e ao mesmo tempo da importância dessa tarefa".

As palavras do mestre Hounsai Genshitsu Sen no posfácio de "O Livro do Chá", de Kakuzo Okakura, podem parecer megalomaníacas ao leitor ocidental. Na leitura da pequena obra-prima, porém, fica claro o oposto: a cerimônia do chá, "chanoyu", pauta-se pela humildade, pela simplicidade e pelo respeito em relação aos convivas.

Daí sua grandiosidade. Para Okakura, os "incapazes de sentir em si mesmos a pequenez das coisas grandiosas tendem a ignorar nos outros a grandiosidade das pequenas coisas."

O "Livro do Chá" (1906), escrito em inglês, chega a nós traduzido com elegância por Leiko Gotoda e em cuidadosa edição. Kakuzo Okakura foi um importante difusor da cultura japonesa no Ocidente e colaborador do Museu de Belas Artes de Boston. Mas o que tem de tão especial esse simples gesto de beber chá?

A cerimônia, ensina Okakura, origina-se no taoísmo e no pensamento zen, para o qual o mundano tem a mesma importância do espiritual. Os monges zen se reuniam diante de uma imagem e bebiam chá, dando início a uma prática disciplinada cujos ideais estéticos remontam ao taoísmo -espécie de "arte de estar no mundo".

Daí por diante, toda uma complexa elaboração que envolve arquitetura, paisagismo, decoração de interiores, utensílios, vestuário e o preparo do próprio chá (que "não tem a arrogância do vinho, a autoconsciência do café, nem a frívola inocência do cacau") veio orientar a cerimônia.

Uma das passagens mais notáveis é a descrição do aposento da "chanoyu": efêmero, feito para abrigar uma necessidade momentânea, e consagrado "ao culto do imperfeito, que intencionalmente deixa algo inacabado para a imaginação completar".

Isso se vê nos arranjos florais, na escolha das pinturas, nunca excessivas, na assimetria dos utensílios de cerâmica.

Para chegar ao aposento, segue-se uma aléia que corta um pequeno jardim, planejada para romper a ligação com o mundo exterior e dissipar os pensamentos corriqueiros.

A atitude é a de que aquele encontro será o único de sua vida, e dela resulta um grande apreço e um profundo respeito. Para entrar no aposento é preciso se agachar e passar por uma porta bem pequena -mesmo os guerreiros, no passado, deviam deixar do lado de fora as suas espadas, o que requer profunda humildade.

Mas o que poderia parecer mero esteticismo revela-se filosofia de vida, numa cultura milenar. O prosaico gesto de se reunir com outras pessoas para tomar chá torna-se um caminho e uma influência viva, regulada pela serenidade mental.

"Aqueles entre nós que não conhecem o segredo de ajustar adequadamente a própria existência neste tumultuado mar de tolos problemas que chamamos de vida estão em constante estado de miséria, enquanto tentam em vão parecer felizes e contentes." Cem anos passados, as palavras de Okakura ainda cortam como a lâmina da espada de um samurai.

ADRIANA LISBOA é escritora, autora de "Rakushisha" (Rocco), entre outros

O LIVRO DO CHÁ
Autor: Kakuzo Okakura Tradução: Leiko Gotoda Editora:Estação Liberdade Quanto: R$ 34 - 136 págs. Avaliação: ótimo

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GUSTAVO FRANCO

O problema dos juros

ENGANA-SE quem acha que a comunidade dos economistas, a começar pelos de formação e persuasão convencional, está satisfeita em ver o Brasil na vergonhosa posição de campeão mundial de juros.

Ao contrário, o grande desafio da profissão, nos dias que passam, é justamente o de criar as condições para que o Brasil pratique taxas de juros normais, de um dígito, em conseqüências das quais o país possa ter taxas de crescimento substancialmente maiores que as de hoje. E tudo começa pelo diagnóstico.

Este desafio é semelhante em muitos aspectos ao que, no passado, era oferecido pela hiperinflação. Talvez seja, inclusive, um prolongamento deste.

Uma dessas semelhanças tem a ver com ilusões sobre a existência do problema e sobre a facilidade da solução. Tal como no caso da hiperinflação, não devemos nos conformar com a idéia que a inflação alta, e os juros altos, não machucam, ou que são parte da "normalidade".

Porém, disso não se segue que existe uma solução fácil para o problema, de natureza administrativa, que demora a ocorrer por conta da escassez de heróis ou do excesso de crueldade.

Era errado pensar que a inflação se resolvia com a simples decisão de interromper a impressão de papel pintado, ou com algum "truque inteligente" para se eliminar a "inércia".

É igualmente tolo imaginar que uma "canetada" do presidente do Banco Central pode trazer a taxa de juros para 6% anuais.

E que, aproveitando o mesmo decreto, se poderia fixar logo o câmbio num nível em que ninguém se queixe de "populismo cambial".
Seria ótimo que fosse tão fácil.

Todos os que passaram pelo BC, sem exceção, adorariam ter esses super-poderes. Como seria bom se políticos e burocratas bem intencionados pudessem revogar as leis da economia para fazer o Bem!

O fato é que existem fatores objetivos que dão limites muito claros ao que o BC pode fazer com juros e câmbio.

Estamos falando aqui principalmente de leis da economia, ou dos chamados "fundamentos", mas também de determinações próprias da democracia, como as que resultam das determinações do presidente da República sobre a meta de inflação que o BC deve perseguir.

Mas, independentemente de variações conjunturais, o Brasil não tem juros altos por que o BC é monetarista ou neoliberal, mas por que o crédito público no Brasil, ou as nossas contas públicas, ainda estão muito desarrumadas para que tenhamos juros de Primeiro Mundo.

É a mesma bactéria que provocou a "híper", agora bem menorzinha, mas ainda danosa o suficiente para manter os juros onde estão.

gh.franco@uol.com.br - GUSTAVO FRANCO escreve aos sábados nesta coluna.

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JOSÉ SIMÃO

Ueba! Marta bota botox no bucho!

Aliás, ela mexe tanto na cara que já tá com um novo apelido: MARTAMORFOSE!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

A Argentina tá tão ruim que não consegue mandar nem frente fria! O Lula vai botar pinga nos is! E a Marta anda piscando tanto que vai lançar o Pisca Rápido!

E o plano de governo do Alckmin tem dois pontos: o ponto de baixo e o ponto de cima! E aí diz que um amigo perguntou: "Você gosta de sexo a três?!". "Claro." "Então corre pra casa pra ver se dá tempo."

E aí um psiquiatra falou pro paciente: "Qual o seu problema? Me conte desde o início". "No início, eu criei o céu e a Terra."
Então, o paciente era o Galvão Bueno. Rarará!

E um leitor me disse que, se tivesse ganho na Mega-Sena, pedia um HABEAS BODAS e sumia do mundo!

Ereções em Sampa! A Perereca e o Careca! A Marta e o Morto! Aliás, a Marta mexe tanto na cara que já tá com um novo apelido: MARTAMORFOSE! Tá ruim, viu! A Marta tá com cara de quindão de padaria!

E o Alckmin tem cara de sopa de hospital! E um outro me disse que a Marta é ministra do EGOturismo! Tá trepidante! O Alckmin só dorme, e a Marta só come!

Olha o que a Marta comeu no Mercadão: lasanha de bacalhau, maracujá, abacaxi, bolo de chocolate com coco, nozinho de mussarela e duas amêndoas caramelizadas.

Só?! O que ela tem contra goiabada com ovo frito!? Ela é cabra, é? Cabra que come tudo que vê pela frente. Vai ter que botar botox no bucho!

E o Alckmin tá na Colômbia. Diz que foi pesquisar sistema de transporte. Só se for de helicóptero pra resgatar refém! Rarará! O único transporte que funciona na Colômbia é helicóptero pra resgatar refém.

Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

Sabe como se chama a novela com mais audiência na Venezuela? "La Trepadora". Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Operação bélica": operação de guerra pra transformar a companheira Marta em bela. Rarará!

O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

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Diogo Mainardi

O efeito da paternidade

Minha vida e a de meus filhos são aborrecidas como um programa educacional da TV canadense. Os acontecimentos mais prosaicos acabam ganhando uma utilidade pedagógica.

Qual é mais alto: o prédio de tijolos brancos ou o prédio de tijolos vermelhos? Consegue ler em voz alta o que este blogueiro pilantra escreveu sobre o papai?

No New York Times, num artigo publicado no último domingo, o jornalista David Carr fez um relato dos tempos em que era um celerado que espancava a mulher, comercializava cocaína e consumia ininterruptamente crack, LSD, peiote, maconha, cogumelo, mescalina, anfetamina, Quaalude, Valium, ópio, haxixe e todos os tipos de bebida alcoólica. A paternidade o transformou.

Depois de perder a guarda das duas filhas, ele resolveu abandonar as drogas, arranjar um emprego, recuperar a custódia das crianças e garantir-lhes uma vida serena.

Eu sempre fui um pai dedicado. Tenho um bom emprego e garanto uma vida serena aos meus filhos. Hoje, depois de uma semana de férias com os dois, estou prestes a empreender o caminho inverso ao de David Carr, mergulhando no crack, LSD, peiote, maconha, cogumelo, mescalina, anfetamina, Quaalude, Valium, ópio, haxixe e todos os tipos de bebida alcoólica.

A paternidade se tornou um empenho permanente. Fico dia e noite com meus filhos. Falo apenas com eles e sobre eles. O museu é o museu dos meninos. O restaurante é o restaurante dos meninos. De maneira geral, os filhos tiveram esse efeito sobre mim: eles me apequenaram e me embruteceram.

Eles ocuparam minha mente como Antônio Conselheiro ocupou Canudos, impondo suas idéias primitivas e suas práticas regressivas. Questões que pareciam definitivamente superadas voltaram a me atazanar. Antes de ter filhos, eu abria um livro e indagava sobre Santo Agostinho.

Agora abro um livro e indago onde está Seymour, o bonequinho de madeira (Seymour, o bonequinho de madeira, está escondido dentro daquele pote cheio de lápis de cor).

Até recentemente, a paternidade era vista como uma atividade trivial, a ser cumprida com naturalidade. Em certos casos, com desprezo.

Agora é o oposto: o papel dos pais foi inchado, foi superdimensionado. Virei um behaviorista com meus pequenos Albert, permanentemente engendrando mecanismos para estimular seu desenvolvimento emocional e cognitivo.

Minha vida e a de meus filhos são aborrecidas como um programa educacional da TV canadense. Os acontecimentos mais prosaicos acabam ganhando uma utilidade pedagógica.

Qual é mais alto: o prédio de tijolos brancos ou o prédio de tijolos vermelhos? Eram dezoito paradas de metrô até Coney Island: se já fizemos sete, quantas paradas ainda faltam? Consegue ler em voz alta o que este blogueiro pilantra escreveu sobre o papai?

Neste momento, meu filho de 7 anos, por algum motivo, quer reconfigurar meu computador. E meu filho de 3 anos, por algum outro motivo, quer dar uma martelada em meu dedo. Onde está a mescalina? (A mescalina deve estar com Seymour, o bonequinho de madeira.)

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Claudio de Moura Castro

Meu reino por uma tomada

"Por que melhora o comércio e piora o conforto do passageiro? Há um grande desafio a ser encarado: criar regras para que as empresas públicas ou monopolistas sirvam aos seus clientes, e não a si próprias"

Viciados em cigarros são cada vez mais raros. Em compensação, explode o número de viciados em notebooks. A Infraero conduz uma batalha cívica, cortando o suprimento do vício, a eletricidade.

Salas de espera de aeroportos congregam dezenas de dependentes. No Santos Dumont e no Galeão velho, a solução foi drástica: zero tomada. Nos outros aeroportos quase não há. Como viciado, levo um benjamim na pasta, para compartilhar as poucas existentes.

Ilustração Atômica Studio

A Infraero se preocupa também com a forma física dos passageiros. Para que pratiquem seu exercício diário, ela alonga a caminhada pelos corredores.

Em Guarulhos, quem desembarca na extremidade do terminal, já divisando a sua porta, tem de ir na direção oposta e contornar todo o edifício. Em Confins, é preciso ir ao final do corredor, a fim de descer a escada e, embaixo, voltar tudo para alcançar a saída.

O sistema de check-in é burro. Para quem comparece com reserva, o computador precisaria saber apenas se há malas. Um cartão digital (como o de milhas) desencadearia todo o processo. Aliás, com a informatização dos manifestos de vôo, a maquininha que lê o código de barras do viajante só serve para criar emprego.

Alguns aeroportos mandam tirar o notebook da pasta, outros não. Segurança depende de geografia? Faz sentido retornar ao check-in por causa de um saquinho plástico para a pasta de dentes? A Polícia Federal não descobriu que turismo é uma indústria como outra qualquer.

Defeitos de fabricação espantam clientes. Um exemplo: com mais da metade das cabines vazias, os estrangeiros são obrigados a agüentar filas enormes para mostrar seu passaporte.

Funcionários da Infraero que tenham ido à Disney (passagem de cortesia?) viram no aeroporto de Miami um carregador retirando as malas das esteiras e enfileirando-as ao lado. No Brasil, enquanto os estrangeiros pagam seus pecados em horrendas filas, suas malas congestionam as esteiras.

Cronometrei na semana passada: mais de uma hora para brotarem todas as malas no carrossel. É bem mais tempo do que para voar entre Rio e São Paulo. Ainda bem que a manutenção dos aviões não é feita pela Infraero.

Parte considerável dos viajantes já entrou na idade de se preocupar com colesterol e glicemia. Por que, então, tudo o que se vende nos bares dos aeroportos ou é gorduroso ou é doce? Em Washington, as concessões são obrigadas a cobrar o mesmo que em suas lojas na cidade.

Nos aeroportos brasileiros, um picolé custa mais que nos Estados Unidos. Heathrow (em Londres) oferece chuveiro de graça. Em Confins, custa 28 reais. Se não houvesse atrasos, talvez fossem aceitáveis as cadeiras desconfortáveis e com braços, empecilho para deitar.

Os pisos de borracha com relevo fazem as malas ressoar como motocicletas. A nova área de embarque do Santos Dumont, toda de vidro, seria perfeita em Helsinque, pois funcionaria como estufa, dispensando o aquecimento.

Mas no Rio de Janeiro o calor é intolerável, mesmo com ar condicionado. Há um banheiro no Galeão com uma saboneteira quebrada há cinco anos e um toalheiro há dois.

Aeroportos são ambientes privilegiados para exposições de arte, pois há espaço e tempo para apreciá-las. Contudo, o que nos expõem os daqui jamais seria aceito em galerias respeitáveis. Aeroporto é cartão de visita, não é camelódromo.

Nos Estados Unidos, os táxis podem "fazer lotação", e há tarifas próprias para tal. No Brasil, não podem. Além disso, têm de voltar vazios, pois não são autorizados a pegar passageiros. Com isso, dobram o consumo de gasolina, as emissões de carbono e os preços.

Desabafos de um viajante rabugento? É possível, mas antes de tudo evidenciam as dificuldades de fazer uma burocracia pública colocar a satisfação do cliente como seu principal objetivo.

Aliás, o único serviço competente no aeroporto é o free shop. Por que melhora o comércio e piora o conforto do passageiro? Há um grande desafio a ser encarado: criar regras para que as empresas públicas ou monopolistas sirvam aos seus clientes, e não a si próprias.

Claudio de moura castro é economista - Claudio&Moura&Castro@cmcastro.com.br

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26 de julho de 2008
N° 15674 - Nilson Souza


Barbudos

Uso barba desde os tempos de faculdade e por causa dela já passei por pequenos constrangimentos, como no dia em que um dos meus sobrinhos, com três ou quatro anos de idade, olhou fixo para o meu rosto durante algum tempo e perguntou:

- Tio, tu tem queixo?

Essa foi fácil de responder. Bem pior foi o que aconteceu com a tia de uma amiga, avó ainda relativamente jovem, que ouviu esta pergunta fulminante de sua netinha:

- Vó, tu conheceu dinossauro? Surpreendida, ela retrucou: - Cala a boca, menina!

Mas as crianças a gente enrola. Com adulto é mais difícil. Uma vez, no tempo em que usava uma barba pré-histórica, grande e mal aparada, fui jogar futebol de salão e resolvi esperar os companheiros de time sentado na escadaria de uma igreja.

Vestia uma calça de abrigo antiga, uma camiseta de jogo também meio surrada e tênis desamarrados. Passou um sujeito e me ofereceu uma esmola. Quando disse que não queria, ele se indignou: - Orgulhoso, hein?

Culpa da barba. Além de envelhecer, os pêlos escondem a verdadeira fisionomia do seu portador. Agora mesmo, todos vimos espantados a transformação que sofreu o ex-presidente da Sérvia. Acusado de crimes de guerra, ele passou mais de 10 anos escondido atrás da própria barba.

Mudou de rosto, falsificou a identidade e sequer precisou fugir do país. Ficou tão diferente, que era visto por seus próprios patrícios como outra pessoa - um pacato e inofensivo idoso, praticante de medicina alternativa.

O episódio reforçou a minha impressão de que os barbudos sempre escondem alguma coisa mais, além do próprio rosto. Às vezes, coisas assustadoras, como o passado do governante sérvio. Outras vezes coisas inocentes, como uma timidez mal resolvida.

Mas não merecem ser vistos preconceituosamente, como fez um conhecido especialista em economia e política que andou por estas paragens no início de 2002 e sentenciou uma solene previsão sobre a terceira candidatura do petista Lula:

- Ele jamais será eleito. A população brasileira não confia em candidato de barba.

Dou mais uma dica sobre o desastrado previsor, que ainda dá os seu palpites na TV: ele não usa barba. Nós, os barbudos, temos pelo menos uma virtude: estamos sempre aptos a surpreender.

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26 de julho de 2008
N° 15674 - Paulo Sant'ana


Urgentes ciclovias!

"Olha aquela carreta em ziguezague!", ouviu do motorista o estudante Rafael Hartmann dos Santos, de 17 anos, no ônibus que levava os 13 mortos no choque com o caminhão.

O estudante estava na cabina do ônibus, onde tinha ido para reclamar do ar condicionado muito frio.

O motorista do ônibus viu o caminhão ziguezagueando, mas não deu tempo de parar antes de começar a ponte: a tragédia tornou-se, assim, inevitável. Por que o caminhão ziguezagueava?

São duas as hipóteses: a de que o motorista do caminhão dormira no volante e a de que sofrera um AVC, um derrame, perdendo a direção do veículo.

Já se presumia que o caminhão tinha originado a tragédia. O motorista já sofrera um aneurisma dois anos atrás, só voltara a trabalhar nos últimos 30 dias.

É tensa a situação entre os caminhoneiros nas estradas. Eles são obrigados a cumprir horários estafantes, são movidos a comprimidos que lhes tiram o sono, as estradas viraram uma roleta-russa para os motoristas dos outros veículos.

Em pontes, principalmente, é melhor para quem não dirige caminhão esperar antes de entrar nelas, só seguir adiante quando não vier ninguém do lado contrário.

Pelo testemunho do estudante, a tragédia aconteceu exatamente como se supunha: o ônibus foi atraído para uma armadilha. Que barbaridade!

Mudando de assunto, dou gargalhadas quando a imprensa divulga que a inflação de 2008 chegará a menos de 7%. De onde tiraram uma farsa destas?

Só para dar um exemplo, a costelinha de porco subiu 22% este ano. A carne de porco seca aumentou em 40%. O feijão teve um aumento neste ano de 40%.

Isso tudo em alimentos básicos para a população.

E sobe a telefonia fixa, sobe o telefone celular, sobem todos os itens de consumo em progressão geométrica e vêem-se todos os dias na televisão índices maquiados de inflação, algo que não entra na cabeça do consumidor, que sabe em quanto estão lhe esfolando com esta inflação descontrolada.

Sobe tudo, só não sobem os salários. E se clama para que uma instituição idônea, totalmente desvinculada do governo, forneça o verdadeiro índice de inflação, que a esta altura já anda com certeza a mais de 20%.

E olhe lá.

Vejo os candidatos a prefeito de Porto Alegre prometerem que vão construir ciclovias na cidade, mas tenho medo de que seja da boca para fora.

Não há nada mais urgente para Porto Alegre do que instalar uma rede de ciclovias em toda a cidade.

Agora mesmo, a tentativa de substituir-se o serviço de telentregas das motos por bicicletas está se tornando parcialmente inviável por não proporcionarem as vias da Capital condições mínimas para o tráfego de bicicletas.

O poder público, nesta hora grave por que atravessa o trânsito, com a crise do petróleo principalmente, tem o dever de proporcionar aos munícipes condições mais baratas de transporte. E de maior segurança.

As ciclovias preenchem esses dois pressupostos. Em toda capital civilizada existem ciclovias. Porto Alegre é uma precariedade total nesse aspecto.

O melhor é arrancar dos candidatos a prefeito um compromisso de honra de que se dedicarão no primeiro dia de mandato a essa grande transformação.

O povo tem o direito de andar de bicicleta. E a prefeitura não tem o direito de omitir-se em dotar a cidade de ciclovias interligadas.

Na Avenida Ipiranga, não haver ciclovia, como em outras importantes avenidas da cidade, é fato originado em imbecilidade de planejamento e estratégia viária.

Quem não for construir ciclovias espalhadas por toda a cidade nos próximos quatro anos, é melhor que retire a sua candidatura a prefeito.

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26 de julho de 2008
N° 15674 - Cláudia Laitano


Hermana duda

Há coisa de dois meses, passou por Porto Alegre, em temporada muito mais curta do que merecia, o espetáculo carioca Sassaricando - E o Rio Inventou a Marchinha, revista musical concebida para resgatar do baú do esquecimento algumas das melodias que embalaram os carnavais dos nossos pais e avós.

Com aquele tipo de produção impecável que aprendemos a associar aos musicais da Broadway, temperado pelo inimitável borogodó nacional, o espetáculo tem técnica, emoção, bom gosto e um repertório que é um biscuit:

cerca de cem marchinhas, selecionadas a partir de uma relação inicial de mais de mil canções compostas entre os anos 20 e 70, abordando temas como política, cotidiano e relações amorosas, em letras que vão do lirismo mais delicado ao franco esculacho.

Por motivos óbvios, a maior parte da platéia que lotou o Theatro São Pedro durante aquelas três noites de maio era formada por gente que já começava a sassaricar quando a bossa nova foi inventada, há 50 anos. A emoção desse público diante de canções como Máscara Negra, Cabeleira do Zezé e Touradas em Madri foi um espetáculo à parte.

Quem prestasse atenção seria capaz de capturar memórias quase em estado sólido na fisionomia da platéia: o baile no clube mais animado da cidade, o namoro no portão, o rádio de válvulas na sala de uma casa que já nem existe mais.

As marchinhas relembradas no palco não eram apenas a crônica dos usos e costumes de uma época, eram parte da trilha musical individual de cada uma daquelas pessoas. Experiências únicas, emoções partilhadas.

Na última semana, o compositor uruguaio Jorge Drexler fez dois shows históricos em Porto Alegre, pela qualidade musical, sem dúvida, mas principalmente pela empatia com o público - experiências únicas, emoções partilhadas.

Como os compositores das marchinhas, Drexler, 43 anos, é um cronista atento de sua época - fala de globalização, terrorismo, internet, mas com delicadeza suficiente para que nada soe exageradamente noticioso.

Algumas de suas letras também falam de amor, e são muito bonitas e atemporais. Mas é provavelmente a vertente Hermana Duda de sua obra que explica a sensação de que o músico uruguaio sintoniza com seu público em uma freqüência que vai além da qualidade lírica da sua poesia.

Nessa canção, Drexler fala da liberdade de escolher, de mudar, de desconfiar de tudo - mas pede uma trégua para a "hermana duda", companheira e tirana, pelo menos por uma noite.

Muitas de suas letras tratam de questões como essa - que, genericamente, e na falta de um nome melhor, podemos batizar de "filosóficas". A música popular debruçar-se sobre temas como solidão, angústia existencial, falta de sentido, transitoriedade não chega a ser uma grande novidade.

Nova talvez seja a popularidade de reflexões como essas, que se não chegam ao nível de profundidade de um tratado filosófico pelo menos revelam algo muito interessante sobre nossa época.

Como Drexler nos lembra em Hermana Duda, já não temos mais para quem rezar pedindo luz, andamos tateando às cegas, mas isso não é necessariamente ruim.

Podemos estar condenados a conviver com a "irmã dúvida" mordendo nossos calcanhares - mas o contrário, pensando bem, é muito pior.

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26 de julho de 2008
N° 15674 - A Cena Médica | Moacyr Scliar


Escrever é terapia

"Que notícias sensacionais podemos obter dos poemas?" pergunta, em versos famosos, o poeta norte-americano Williams Carlos Williams. Mas, depois desta desconsolada indagação, ele continua: "No entanto, pessoas perecem a cada dia / Por falta do que ali se encontra".

Williams Carlos Williams sabia do que estava falando. Além de poeta, ele era médico. Atendia em bairros pobres de sua cidade e escrevia quando lhe sobrava tempo.

Tinha assim um sentido da urgência da vida, da luta insana necessária para enfrentar a doença com dignidade e de esperança. Foi essa dupla experiência que, sem dúvida, reforçou a seus olhos o valor terapêutico da leitura e da escrita.

Uma noção que, entre parênteses, não é nova. Há séculos, há milênios, pessoas buscam, na leitura, algum consolo para suas angústias (a Bíblia é um exemplo). Um consolo sem o qual, como diz o poeta, muita gente talvez não resistisse à doença. O mesmo se pode dizer da escrita.

Colocar no papel aquilo que nos atemoriza, que nos preocupa, que nos faz sofrer, funciona como uma válvula de escape, como um amparo. E nem é preciso que outros nos leiam. A prática do diário íntimo é antiga e mostra que a comunicação entre a pessoa e a página já ajuda muito no processo de autocompreensão.

E será que ajuda a pessoa a melhorar objetivamente de seus sintomas? Essa também é uma esperança antiga. Já no primeiro século d.C., Soranus, famoso médico de Roma, recomendava que seus pacientes lessem poesia e drama. Uma recomendação reforçada por ninguém menos do que Sigmund Freud.

O criador da psicanálise admitia que, antes dele, a literatura já havia descoberto, há muito tempo, o inconsciente, o lugar da mente em que nascem os conflitos psicológicos.

A prática de colocar livros ao alcance de pacientes hospitalizados (coisa que Benjamin Franklin defendia já no século 18) evoluiu para uma forma sistematizada de tratamento, a biblioterapia, e também para a formação de grupos e instituições que usam o ato de escrever como forma de tratamento.

Não havia, porém, uma avaliação controlada da eficiência dessas medidas. Agora, um trabalho realizado no Tufts-New England Medical Center, em Boston, traz subsídios para o tema.

No estudo, 234 pacientes portadores de câncer foram divididos em três grupos: um grupo deveria preencher um rotineiro questionário sobre seus sintomas, um segundo grupo deveria escrever sobre como se sentia e um terceiro grupo ficou como controle.

Durante oito semanas, os pacientes foram acompanhados e interrogados acerca das dores que sentiam. Como seria de esperar, aqueles que escreviam sentiam menos dor e mal-estar.

É, como dizem os autores do estudo, um achado ainda preliminar, mas que faz sentido e explica porque tantas pessoas escreveram livros, alguns dos quais se tornaram famosos.

William Carlos Williams estava certo: precisamos do texto, nosso e de outros. Faz bem à nossa saúde mental e à nossa saúde física.

Moacyr Scliar

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Dagomir Marquezi

Personagem da semana - Christian Bale Com mil salas multiplex, "Batman"!

Na tela, o ator vive O Cavaleiro das Trevas, o sucesso da temporada. Na vida real, foi detido por agredir a mãe

CAMPEÃO

Bale como Batman – o Cavaleiro das Trevas. O filme bateu a bilheteria do Homem-Aranha na estréia. Desde os anos 1940 somos convidados a entrar na batcaverna. E não saímos mais.

Hoje, novas (e velhas) gerações ficam acachapadas por duas horas e meia na poltrona do cinema assistindo a Batman – Cavaleiro Das Trevas. Em quatro dias de exibição, o filme (que custou US$ 150 milhões para ser produzido) já faturara US$ 244 milhões mundo afora.

Nem é preciso ser o secretário das finanças de Gotham City para imaginar que sua versão em DVD/BluRay será um dos presentes mais cobiçados do Natal.

O “dono” da batcaverna hoje é o britânico Christian Charles Philip Bale, filho de um militar com uma palhaça – o que, de certa forma, explica sua mistura de ousadia artística com tamanha disciplina. Bale pensou em ser dançarino, guitarrista e jogador de rúgbi.

Mas começou sua vida profissional onde muitos esperam terminar. Atuou aos 13 anos sob a direção de Steven Spielberg em Império do Sol. Depois se aventurou por Shakespeare, por musicais e arriscou-se com sucesso no perturbador Psicopata Americano.

Emagreceu até virar um pele e osso em O Operário. Sua escolha como o Batman do renascimento pode ter sido uma das melhores jogadas da série. Aos 34 anos, Bale dá completa credibilidade a tudo o que faz. Seu homem-morcego espanca covardemente o desarmado vilão Coringa numa cela.

Nem bem o filme é lançado, Bale foi acusado de agressão pela própria mãe e pela irmã. Na segunda-feira passada, foi detido em Londres pela polícia. Pouco depois foi libertado e deverá ser chamado para prestar mais esclarecimentos.

O potencial escândalo não arranhou 1 milímetro o prestígio de Bale nem a bilheteria de Cavaleiro das Trevas. Bale tem crédito para queimar por seus serviços como ator.

Tanto que deverá interpretar mais dois heróis míticos na seqüência: John Connors (na seqüência de O Exterminador do Futuro) e Robin Hood (em Nottingham). A gente acredita em tudo o que ele fizer. Cavaleiro das Trevas é mais que um sucesso absoluto. Virou fenômeno.

Com tanto som e tanta fúria em Dolby Digital, fica difícil acreditar que a lenda pessoal do playboy Bruce Wayne vai completar 70 anos no ano que vem.

E mais difícil ainda acreditar que a gente ainda leve a sério um sujeito que persegue malfeitores com uma roupa de mergulhador, capacete de orelhinhas e uma capa esvoaçante. Pois pagamos para ver.

Batman veio ao mundo na revista Detective Comics, edição de maio de 1939, em quadrinhos de Bob Kane. Todo mundo sabe: Bruce Wayne é um garoto rico que testemunha seus pais serem mortos por ladrões, enquanto morcegos sobrevoavam o local. Para suportar a perda, Bruce decide alternar a vida de playboy filantropo com a de justiceiro, meio drácula.

Quatro anos depois de surgir no papel, Batman já era um seriado de cinema. O ator Lewis Wilson foi o primeiro homem-morcego. Na década de 1950, a revista foi criticada por quem não gostava da intimidade entre Batman e seu protegido e parceiro adolescente, Robin. Eles dormiam na mesma cama.

‘‘A cidade de Gotham City é um patrimônio cultural da humanidade’’

Nos anos 1960, Batman virou mania mundial, como série cômica de TV. Adam West vestia o ridículo colante cinza e conseguia levar a sério seu personagem. (Em 1966, um longa-metragem foi produzido no mesmo esquema.)

A série se tornou uma referência pop. A lenda do homem-morcego sobreviveu ao próprio esculacho. Foi ressuscitado nos gibis – especialmente por Frank Miller – com uma releitura mais adulta, sombria e pesada.

O mesmo herói que nos fazia rir na tela de TV passou a beirar a loucura e enfrentar problemas existenciais. Nessa nova perspectiva, voltou ao cinema em 1989, com o improvável Michael Keaton por trás da máscara. Ele não tinha cara nem físico de super-herói. Mas vestiu a batcapa com convicção.

A ousada tacada do diretor Tim Burton foi um sucesso. O Batman do cinema chegou ao indiferente Val Kilmer, em Batman Forever, de 1995. Sucumbiu dois anos depois ao homem-morcego-com-mamilos de George Clooney (em Batman & Robin).

Com mil salas multiplex, Batman! Quando a batcaverna parecia ter sido soterrada para sempre, foi reaberta, em 2005, com Batman Begins, sob direção do enfant terrible de Hollywood Christopher Nolan.

Para as gerações mais novas, Batman tem a cara de Christian Bale. Michael Caine é seu fiel mordomo Alfred. E nada de Robin. Nada de gracinhas e insinuações gay. Você assiste a Cavaleiro das Trevas e nem parece ser um “filme de super-herói”.

Às vezes sugere um drama adulto, outras um filme de terror ou nosso noticiário de cada dia. O Coringa de Heath Ledger continua sendo um palhaço, como já foram Cesar Romero e Jack Nicholson.

Depois do gigantesco sucesso de Cavaleiro das Trevas, uma continuação é questão de mais dois ou três anos.

Batman, na pele de Christian Bale, está completamente renovado, em forma para a década de 2010. Certas coisas continuarão difíceis de engolir – como a total incompetência da população de Gotham City em descobrir a identidade secreta de Batman.

Mas Christian Bale acredita completamente no que está fazendo, como acreditou em cada um dos papéis que interpretou antes. Sua credibilidade virou uma espécie de aval para a lenda de Bruce Wayne.

Hoje, na prática, Gotham City é patrimônio cultural da humanidade. Somos todos um pouco batmans: cumprimos nosso papel social como “brucewaynes” durante o dia e somos donos da verdade na sombria noite de nossa psique.

O Coringa zomba de nossos planos, e suas gargalhadas insanas ecoam num canto escuro de nossa mente.

As acusações da mãe e da irmã contra Bale são apenas mais uma prova de que, neste nosso novo mundo de Batman, ninguém é super-herói.


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Sexta-feira, Julho 25, 2008




Um abraço! Só um abraço e já está bom demais!

Uma segunda mãe. É assim que os netos definem Lígia Santiago Rolim. Com 84 anos, ela tem muito para comemorar neste 26 de julho, o Dia dos Avós. Convivendo quase diariamente com os seus cinco netos, ela conta que conseguiu construir uma relação muito próxima com eles, baseada no amor, no respeito e no carinho.

Para Lígia, a melhor fase é quando os netos são pequenos. "A gente pode brincar e se divertir com eles." Hoje, com "todos crescidos", a relação é outra. Mas continua boa.

Eles lhe dão ajuda nas atividades diárias e a levam até para as consultas médicas. "Hoje são eles que me fazem companhia. Eu nunca fico sozinha; quando um está saindo o outro já está chegando".

O neto Luís Henrique, 26 anos, é que tem o relacionamento mais próximo com a avó. Mora com ela há oito anos, desde que o avô faleceu, e lhe faz companhia na maior parte do tempo, ajudando-a também nas tarefas do dia-a-dia, como ir ao supermercado todas às quartas-feiras.

"Eu a vejo como minha segunda mãe. Além da compreensão e do carinho que me deu, ela também foi responsável pela minha educação", conta Luís.

Lígia participou ativamente da criação dos netos. Quando uma das filhas decidiu retornar para a faculdade, anos atrás, foi ela quem ficou com a incumbência de cuidar do filho dela, que, na época, tinha apenas quatro anos de idade.

Quando, por algum motivo, os pais dos outros netos eram obrigados a sair, era na casa dela que deixavam suas crianças. Natural. "Quando os pais não podem, os avós têm o dever de ajudar", acredita Lígia.

A afirmação vai ao encontro da opinião de Sandra Larratéa, gerontóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Na educação dos netos, segundo ela, "a responsabilidade dos avós também é grande, principalmente quando se tem um relacionamento mais próximo. Além disso, toda a experiência e segurança que eles passam são fundamentais", afirma.

Sérgio Antônio Carlos, professor do Instituto de Psicologia da Ufrgs, concorda. Ele vê a participação dos avós na família como algo muito importante. E define: "É a importância de alguém que guarda a história da família.

É através dos avós que as crianças têm contato com sua própria origem. São eles que contam para as crianças as histórias "não -oficiais dos pais", que despem o heroísmo fantástico das aventuras que os pais contam que passaram".

Outro aspecto positivo dessa relação é que, na maioria dos casos, carinho e amor dedicados aos netos não geram cobranças. Lígia é um exemplo disso.

Quando perguntada sobre o presente que gostaria de receber no Dia dos Avós, responde: "Um abraço. Só um abraço e já está bom demais!".

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ELIANE CANTANHÊDE

Só para complicar

BRASÍLIA - Um monte de gente se deu mal, justa ou injustamente, com o inquérito do delegado Protógenes. Mas uma coisa é certa: a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) se deu foi bem.

Na apuração que deveria ser sobre Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta, quantos e quantas acabaram caindo no arrastão de grampos em telefones fixos, celulares, e-mails, MSN, até Skype? A esta altura, a Abin e a banda de Protógenes na PF têm um vasto dossiê, quer dizer, banco de dados, sobre tudo e todos.

Pequenino exemplo: até detalhes da estratégia de defesa do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh para o italiano Cesare Battisti, sujeito a deportação.

Fica até engraçada a discussão sobre a inviolabilidade dos escritórios de advocacia. Na prática, eles já são grampeados há bastante tempo.

Qual a diferença de serem ou não investigados formalmente? O interessante é o elo entre chefiado e chefe. O chefiado é Protógenes, da PF. O seu chefe de fato é o da Abin, Paulo Lacerda, ex-PF, talvez o policial mais prestigiado na ativa hoje no país.

Protógenes passa por cima do atual diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa (que abandonou o tiroteio para tirar férias), assim como Lacerda passa por cima do general Jorge Armando Félix, ministro do Gabinete de Segurança Institucional.

Até por isso, há quem diga que Protógenes e Lacerda só fazem o que querem. E a Abin e a PF estão fora de controle.

O ideal é que as energias se concentrem no inquérito e em Daniel Dantas, mas ocorre o oposto: eles passam, e as outras informações ficam.

E ficam, para o bem ou para o mal, nas mãos da Abin e na PF de Lacerda e Protógenes. Muita gente, em especial no governo, está com várias pulgas atrás da orelha.

Não custa lembrar o general Golbery do Couto e Silva, muitos anos e muitos sustos depois de criar o SNI (Serviço Nacional de Informações): "Criei um monstro". A Abin é herdeira direta do "monstro".

elianec@uol.com.br

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NELSON MOTTA

O tango do argentino doido

BUENOS AIRES - O que é ego? É um argentino pequenininho que vive dentro de cada um de nós. Até eles se divertem com a piada: a Argentina tem o maior numero de psicanalistas per capita do mundo, e não lhes faltam clientes: los hermanos siguen muy locos, assim como Buenos Aires continua linda, apesar da invasão turística brasileira.

A elegância européia de sua arquitetura e a sua grandiosidade urbanística não têm paralelo na América Latina. Os portenhos são, sim, muito agradáveis, são mais cultos e educados do que nós, lêem mais, são mais politizados, pero...

A última loucura argentina foi a derrota do governo na crucial votação do imposto de exportações agrícolas, motor produtivo do país, que provocou bloqueios em estradas, desabastecimento nas cidades e panelaços durante três meses, e fez a popularidade da presidenta desabar. E quem derrotou o governo?

O vice-presidente da Republica, Julio Cobos, que também é presidente do Senado, e deu o decisivo voto de minerva -contra o seu governo. Nem no Brasil ocorreria um desvario semelhante. É bem mais louco do que o José Alencar decidindo a votação contra a CPMF.

O casal Kirchner faz a linha Bush/Garotinho: quem não está conosco está contra nós. Devastaram a oposição e governam autoritariamente, acuando o Congresso e a imprensa, numa espécie de peronismo esquerdista sessentista, movido a piquetes e manifestações de rua. Para a derrota no Senado, a metáfora perfeita é o animal fetiche dos pampas: caíram do cavalo.

Tudo por causa de um aumento brutal do imposto sobre exportações agrícolas para bancar a gastança populista do governo. Um clássico latino-americano. Pior foi ouvir os líderes governistas defendendo o aumento como redistribuição de renda. Nem no Brasil.

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JOSÉ SIMÃO

Ueba! Lula pede um HABEAS COPUS!

Vêm aí Ereções 2008! Candidato diz que com ele tudo vai dar SERTO. O serto começou errado

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Ereções 2008! Esse candidato vem de São Francisco de Guaporé, Rondônia: "Ivan, o Construtor. Com ele tudo vai dar SERTO!". Rarará. O serto começou errado. O Construtor Serto. Aí eu pichava em cima: A Casa Caiu!

E diz que o Lula entrou com um novo pedido no Supremo: HABEAS COPUS! E a Dercy tá sendo chamada de "A Velhiça Rebelde". E já botou um anúncio: "centenária recém-chegada ao além procura médium que aceite mensagens psicografadas pornográficas".

Já sei, ela quer um médium que cante "A Perereca da Vizinha"! E corre na internet que a Dercy já passou por duas guerras mundiais, viu oito papas, viu o Titanic afundar, viu o homem chegar à Lua, 35 presidentes da República, mas nunca viu o Corinthians ser campeão da Libertadores.

Rarará. E sabe o que a Dercy falou pros que tavam segurando o caixão? "Cuidado com essa merda, puta que o pariu!" Pronto, acabou a temporada de palavrões! UFA!

E um leitor me disse que a primeira coisa que ele faria se ganhasse na Mega-Sena: sonegar o imposto do prêmio, ser investigado pela Polícia Federal, ser preso, aparecer na TV, ganhar um habeas-miojo do Gilmar Mendes e se consultar com o Cacciolla como aplicar melhor o prêmio. E o Datapadaria informa: "O que você faria se ganhasse na Mega-Sena?":

1) Comia tudo que queria;
2) Comia todas que queria;
3) Fazia vasectomia. Pra não pagar pensão. Porque todo romance é assim: começa no motel e termina em pensão; 4) Comprava a ilha de "Caras", convidava todos os malas da TV e explodia a ilha. Rarará.

É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que nos Estados Unidos tem um analgésico chamado Bengay. Rarará. Os EUA entraram pro antitucanês.

Dizem que americano é o português que deu certo. Mas eu acho que deu errado. Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Oportunista": companheiro que trabalha no Opportunity!

O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E quem não tem colírio pode pingar Fanta Uva com Ajax!

simao@uol.com.br

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Juremir Machado

ENFIM, UMA ATITUDE

Confesso que eu já estava entediado. Mais de uma semana sem um novo escândalo. Ao menos, de grandes proporções. Nenhuma operação Satiagraha para comentar.

A Polícia Federal, durante mais de sete dias, não prendeu banqueiro algum. Muito menos um político. O presidente do STF, nesse longo tempo, não soltou figurão algum. Que saco!

Fiquei acompanhando, por falta de opção, a rodada de Doha, essa em que o ministro Celso Amorim disse uma 'verdade nazista' – uma mentira repetida vira verdade – sobre as manipulações do liberalismo protecionista dos ricos contra os pobres e foi desmentido pela representante dos Estados Unidos fazendo beicinho.

Estava certo o ministro. Afinal, uma verdade não dita vira mentira. Essa rodada de Doha é uma po... porcaria!

A lógica de europeus e norte-americanos é compreensível e justa: nós abrimos os nossos mercados aos produtos deles, que fecham os deles aos nossos ou nos impõem cotas ridículas.

Faz sentido. Eles precisam proteger com subsídios e barreiras o trabalho dos seus produtores. Nós, não. Os nossos estão acostumados a não ter proteção alguma. Os deles, frágeis, não possuem anticorpos e necessitam de forte apoio estatal.

O Estado mínimo dos ricos sempre tira o máximo de proveito nas negociações com os pobres em benefício daqueles que compreenderam há muito que o Estado não deve se intrometer em negócios privados, salvo para garantir-lhes lucros e forçar os renitentes a aceitar a regra do jogo.

Em Doha, a turma de Bush faz o papel que critica em Evo Morales, Hugo Chávez e outros intervencionistas radicais. Deve ser conseqüência do porre do mercado denunciado pelo próprio Bush. Agora ficou claro: o mercado é alcoólatra.

Pois é, nesta semana de tédio, sem qualquer inocente morto pela Polícia carioca (ou se tornou tão banal que não prestei atenção ou nem foi noticiado), sem operações espetaculares da PF e sem habeas corpus ainda mais espetaculares do STF, a frase mais sensacional foi do jogador Gustavo Néri, contratado pelo Inter, feliz 'pelo acerto com o Grêmio'.

Esse aí tem tudo para fazer carreira política depois da aposentadoria. Se duvidar, chega à Presidência da República. Ainda bem que o Banco Central aumentou em 0,75% a taxa Selic. Em contrário, nada de realmente emocionante teria havido no período.

Estava me inquietando a falta de providências, exceto afastar um delegado abelhudo aqui, ameaçar um juiz topetudo ali. A minha questão era: será que ninguém vai tomar providências para melhorar o Brasil?

Ou: será que ninguém vai mostrar atitude, coragem, caráter, moral? Saiu a lista suja dos candidatos. Seria essa a providência esperada, o começo de uma nova época, o princípio do novo? Sim e não. É uma boa medida. Mas, na verdade, ninguém se impressionou muito com ela.

Eu já procurava mais informações sobre Doha, desiludido com essa falta de novidades e de determinação contra tanta cachorrada, pronto para uivar contra o capitalismo selvagem, quando chegou a bomba, a notícia inesperada e capaz de redimir o Brasil caso ainda dê tempo. Um golpe na indiferença e no cinismo.

Um exemplo de comprometimento, de não passar ao lado ou fingir que não viu. Em Minas Gerais, uma cadelinha armou o maior banzé, latiu até ficar rouca, empurrou uma caixa com o focinho e salvou da morte um recém-nascido. Enfim, uma atitude.

juremir@correiodopovo.com.br

Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana para todos nós

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25 de julho de 2008
N° 15673 - Liberato Vieira da Cunha


Um vôo do imaginário

- O senhor poderia me dizer qual é o seu tema preferido?

A pergunta é disparada por uma dessas meninas bonitas que colaboram com jornais de faculdade. Deram-lhe a tarefa de entrevistar alguns escribas, coisa que ela faz com capricho, a começar estabelecendo uma fronteira, que é a palavra senhor.

- Acho que o meu tema preferido é a mulher. A resposta parece surpreendê-la, pois rebate em seguida:

- Que mulher? - Em geral - esclareço. - Em cinco de cada dez das crônicas que componho, há sempre uma mulher. Creio que a mulher é uma grande invenção de Deus.

Ela consulta sua pauta e se mostra sincera:

- Olhe, eu não li todos os seus livros, mas aqui nas minhas anotações diz que o seu assunto predileto é a saudade.

- De quem? - De cidades, viagens, pessoas. Contemplo-a, tão linda e tão distante, e reajo:

- Está vendo? Cada cidade pode ser uma mulher, cada viagem, um romance, cada pessoa, uma deusa.

Ela revê suas notas e sacode a cabeça, lenta e desaprovadoramente: - O senhor não é um escritor nostálgico? Resolvo abrir o jogo:

- Claro que sou. Todas as criaturas são nostálgicas. Mas em vez de ter nostalgia de mim mesmo, escolhi sentir falta dos melhores momentos que vivi.

Ela se desarma: - E são muitos?

- Talvez nem tantos. Um entardecer em Paris. Uma noite em Nova York. Uma manhã de domingo em Berlim.

- O senhor é engraçado. - Por que seria? - Porque em tudo isso há saudade.

- E devo ser condenado? - Não, se todas elas eram belíssimas. - Eram belíssimas, mas se foram.

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25 de julho de 2008
N° 15673 - Paulo Sant'ana


Um crime hediondo

Foi uma das maiores vitórias dos 104 anos de história do Grêmio.

Porque assumiu a liderança absoluta do Brasileirão, porque tem a defesa menos vazada do campeonato, porque ficou a apenas um gol do ataque mais positivo e porque limpou uma escrita de muitos anos de superioridade do Figueirense sobre nós. O adjetivo para qualificar uma vitória tão maiúscula e surpreendente é só um:

INACREDITÁVEL!!!!!!!

Na semana retrasada, uma jovem de 27 anos foi seqüestrada diante de sua residência, no bairro Glória, na Capital, por um homem armado que a fez embarcar no carro dela e fugiu com a moça em seu poder.

Após ouvir o relato do assalto, que se somava às centenas de assaltos relâmpagos, lembro-me que em um dos meus espaços jornalísticos falei que temia de que tivesse sido um ataque sexual.

Parece que acertei.

O bandido, que tinha como antecedente ter assassinado uma sua namorada grávida, depois de um assalto, levou essa outra moça seqüestrada em direção a Passo Fundo. No trajeto, como faltou bateria no celular da moça, que ele precisava usar, assaltou uma loja, onde roubou dinheiro para comprar em outra loja a bateria.

A moça seqüestrada acompanhou-o docilmente no assalto, porque se a deixasse no carro, ela fugiria ou chamaria por socorro.

Passaram-se três noites com o seqüestrador em poder da seqüestrada, uma noite dormiram dentro do carro num posto de gasolina, nas outras duas noites eles dormiram em motéis. No segundo, a polícia prendeu o bandido em companhia da moça.

Havia manchas de sangue na toalha e no lençol do motel onde o casal pernoitou. O bandido fugiu oito dias depois de ser preso e foi recapturado anteontem.

Mas o dano psicológico e físico que ele causou na seqüestrada foi devastador. Há dias que ela está hospitalizada em estado de choque, um farrapo humano destroçado.

O que essa moça sofreu nos remete até para o absurdo de abençoarmos as centenas de assaltos relâmpagos em que as vítimas saem ilesas e intactas.

Esse delinqüente teve em seu poder essa moça durante mais de 72 horas. Foi tal o terror que ele usou para dominá-la, que ela assistiu serenamente, sem gritar, sem pedir socorro, ao assalto que ele fez na loja para arranjar dinheiro para comprar a bateria.

Só para comparar, o que essa moça sofreu nas mais de 72 horas em poder de seu captor causou-lhe um dano físico e psicológico de monta cem vezes superior ao que passou no cativeiro durante longos seis anos a ex-senadora Íngrid Betancourt, que voltou do seqüestro sorrindo e dando entrevistas, enquanto essa moça da Glória não tem força para falar, quanto mais sorrir, no hospital em que está internada.

Esse crime não parece, mas foi hediondo. No início do seqüestro, para fazer a cativa conhecer o seu potencial de perversidade, ele deu coronhadas na cabeça e no corpo dela.

Dali em diante, consciente do perigo de morte que encerrava a sua triste sina, ela submeteu-se inteiramente ao seu seqüestrador.

Foram intermináveis as horas agonísticas por que passou essa moça. Essas 72 horas passam de forma tão demorada, que para um refém parecem uma eternidade, falece-lhe completamente a esperança, nem lhe passa mais pela cabeça que possa ser socorrido pela polícia.

Foi muito intenso o sofrimento e o horror por que passou essa moça. Foi muito grande, imensa, incalculável a maldade do assaltante, tão grande foi o dano irrecuperavelmente desastroso que ele causou ao equipamento sensitivo de sua vítima, que a moça, ao encontrar-se com seus familiares, quando a mãe foi abraçá-la, acabou repelida.

O criminoso destruiu para sempre a vítima. Não há pena no aparelhamento penal que possa compensar um crime tão aterrador, mais grave que o assassinato.

Quando a gente pensa que isso pode acontecer com uma filha nossa, perde-se o bom humor por 20 anos.

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25 de julho de 2008
N° 15673 - David Coimbra


A morte

Todas as catedrais com suas cruzes que se elevam ao céu, todos os dólares de todas as igrejas evangélicas, todo implacável zelo muçulmano, tudo isso só existe porque existe a morte.

Prova é Dragan Dabic. Este, quando não tinha barba nem prendia o cabelo com passador, cham